8.2.12

A valsa da dívida


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Era só facilidades. Gastava-se por conta. Deferiam-se pagamentos para a esperança do nunca. Quem viesse atrás apanhava as sobras. E os heróis embelezavam o mandato com a diarreia de obras públicas, prebendas para correligionários, subsídios vários para adoçar clientelas que arregimentam fidelidades (os chamados sindicatos de voto). Faziam de conta da abastança que era refrigério para a populaça. A populaça, ínscia, comprava o biscate.
O mangas de alpaca da repartição assinava as requisições de olhos fechados. O chefe, comissário do partido, ordenava que assim fosse. Alcavalas diversas – uns empregos inventados para enteados bem postos nos conhecimentos com pinta. Os banquetes, só para os eleitos (eleitos que é como quem diz, eleitos a dedo pelos ocupantes temporários das sinecuras, a gente bem oleada pela máquina do aparelho que tomou de assalto as sinecuras todas). A glória era efémera, contudo. As benditas eleições que alçam ao estrelato os vindicantes do poder são malquistas quando os ingratos eleitores os depõem, desnovelando a passadeira aos adversários que depois tratam da varredela geral. O bodo aos outros. Até ver.
Sem custo, o tempo esgotava-se mas o dinheiro encomendado aos credores passava mais depressa. A prosperidade impressionava. Mas a calça era mais curta que a perna. Sempre mais curta. E havia tecido sobrante nos despojos das grandiloquências, com serventia para cobrir a pele nua. Mas eram os banquetes opíparos onde a populaça ensaiava a mania das grandezas (nem que fosse por um dia). Os vultos que projetavam a sua impressão digital no futuro que antecipavam a prestar-lhes homenagem. Era o interminável cortejo de pajens que não se importava das imperativas genuflexões desde que isso garantisse uma prebenda, um subsidiozito, uma comenda honorífica, a troca de favores em públicas empreitadas.
No fim da linha, o mesmo povaréu que se encantava com o fausto ilusório era o pedinte esganiçado quando o torniquete dos impostos apertava a traqueia. E diziam à arraia miúda que a valsa das despesas sem fim era caução dos mais pobres. Mentiam. Esqueciam de avisar que a pesada fatura haveria de aparecer algures no futuro.

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