20.3.12

“Deixa-me ser”


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Havia ali um enigma. Uma vontade de torcer os íngremes sopés de onde tudo se avistara. Um olhar era mais lúcido. Um olhar era o molde para formatar outros olhares. Com uma altivez imperturbável, como se as bitolas que interessassem fossem apenas as pessoais bitolas – e as demais, arraçadas de equívocos, tropeçando nas armadilhas que só um olhar ajuizado conseguia apreciar.
E, todavia, a intrusão era um afiado dente de leão metido na carne sangrada. A sobranceria era laudatória dos olhos que se supunham prescientes. Uma objetivação dos sentidos, como se os olhos tivessem todos de ver o mesmo para além da ora translúcida, ora opaca, cortina por diante. Era adquirido: uns olhos esbarravam na viscosidade de uma cortina opaca. Andavam aprisionados à errância. Essa errância, por mais furibundas que fossem as cicatrizes de antanho, era pertença do juízo individual. Os olhos que cobiçavam para si uma quase deificada condição decaíam na corrupção maior – a corrupção que bolça o desdém do outro.
No âmago da intrusão, ou apenas perante as pequenas erupções anotadas entre a distração congénita, sobressaltava-se. Podiam os seus passos estar condenados ao precipício. Ou as palavras serem desastradas. Os pensamentos invadirem as águas fétidas da frivolidade. Os atos, condenáveis na ação ou na inação, sobejando no altar da mais elevada censura. Podiam tudo isso. Que nada dava caução à sórdida intrusão, a bitola da afronta maior, atadura do arbítrio individual.
Dizia-lhe: “deixa-me ser”. Um singelo ato de permissão do ser em si. No resto, as mãos entrelaçavam-se no viço da consideração recíproca. Era altura da altivez rasgar a soberba, perdendo os ares de aristocracia desapossada. Essa altivez era alívio para o apoucamento alheio. “Deixa-me ser” – disse uma, duas, sabia lá quantas vezes, nas últimas quase em jeito de súplica. Até ao cansaço da iteração desfazer em cinzas a paciência que dera lugar à impulsividade.
Só queria ser. O ser. Quem era, sem ser esculpido por mãos alheias.

1 comentário:

V disse...

Não deveria ser necessário pedi-lo