18.1.13

As virtudes da dívida


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Deviam ser explicadas às criancinhas, logo nas escolas (pois assim como assim, ele há tanto pedagogo visionário que jura outras virtudes – as do ensino da cidadania, por exemplo). As virtudes da dívida deviam ser explicadas. Da dívida toda. Da pública, assumida pelos governantes em nome dos que a pagam através de impostos. E, por arrastamento, da dívida que, a bom exemplo do Estado, contratamos junto dos bancos.
Não temos dinheiro, mas isso não deve ser travão ao consumo e ao investimento em bens duradouros. O dinheiro que conta não é o que trazemos no bolso. É o que os bancos emprestam. Até porque os bancos têm de fazer pela vida. Se não nos empenhássemos até ao pescoço, lá podiam os bancos deitar a mão aos lucros obtidos com as nossas dívidas? E se o Estado anda à míngua, e um escol de dirigentes teima em selar o seu nome para a posteridade em forma de obra pública, metam-se as máquinas às obras e a dívida a lamber números astronómicos. Que há sempre alguém que nos empresta, nem tenhamos de pagar juros mais caros. A maior virtude da dívida não é fazer obra que sem o dinheiro vivo dos novos ricos não havia como empreender. A dívida é virtuosa na exata medida da transferência de recursos dos devedores para os credores. Sendo os primeiros os mais abastados, saia um audível e demorado aplauso a esta nobre redistribuição de rendimentos.
Andam por aí uns lunáticos a protestar contra os juros usurários dos empréstimos. Depende da perspetiva. Quando alguém de duvidosos pergaminhos nos pede dinheiro emprestado, ou declinamos o convite ou nos protegemos contra o risco do não pagamento – isto é, cobramos juros mais altos. Depois funciona o pregão “é pegar ou largar”. Os endividados estão tão viciados na dívida que acabam por pegar (e pagar). Não são juros usurários. São as regras de um jogo que o devedor aceitou jogar e que ele alimenta com o seu vício. Quanto mais jogar, note-se, mais contribui para o enriquecimento de quem emprestou dinheiro.
Gente mais cínica poderia dizer que não importa meter tento (e teto) na dívida. Mais tarde ou mais cedo, os credores vão perdoar a dívida, ou aceitar juros mais baixos, ou esticar o prazo de pagamento. Mas não se espere que quem deixa de pagar o que deve (ou force os credores ao perdão da dívida) possa continuar viciado em dívida. Afinal, a dívida tem mesmo uma virtude (se for esta).

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