2.1.13

Contam as flores


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Enquanto houver amanhãs e os amanhãs reclamarem de nós uma sede torrencial, os anos só pesam quando nos deixarmos arquear pela tirania dos humores sequestrados. Mas somos teimosos: tiramos a poeira dos antanhos e espevitamos o lustro dos dias claros filtrados pelas nossas mãos. Pautamos a melodia da alegria.
Aqui ao lado, alma gémea. Curadora dos sentimentos enobrecedores, feitora dos dias soalheiros mesmo que à frente dos olhos poisarem nuvens pesadas que anunciam tempestades. Mas somos o sol que perfuma o horizonte escondido detrás das nuvens medonhas. Bebemos na sua grandeza os rudimentos da diferença que em nós habita. Desossados, toda a nudez que deixa à mostra o que só uns olhos adestrados conseguem medir.
Vasculhamos em nós uma pureza que se decanta nas palavras que deixamos a adoçar na boca. Olhamos por dentro dos olhos. Os calafrios cauterizam a pele, sem deixarmos de perceber que os porvires se desenlaçam das promessas que se tornam feitos. Feitos que nunca foram travados outrora. E se as mãos se entrelaçam rompendo o sono, se as palavras se acomodam à dimensão do que somos e as pétalas esvoaçam sobre as nossas cabeças, é porque sabemos ser mentores do tempo ainda ausente. Deixará de ser à medida que fomos convertendo o tempo ausente numa medida certa de que somos alquimistas.
Aqui ao lado, enquanto se arvoram palavras modestas em tirocínio de afeições, fermentam os imensos campos de flores em que medramos. E nós, as mãos com as sementes que espalham as viçosas flores pelo espaço que domamos, contemplamos as artes que nos dispõem mestres florais. Bebemos as pétalas húmidas, inebriados com a coreografia de odores campestres. Os imensos campos de flores que são só nossos.
É nesses campos de flores que nos deitamos para resgatar as folhas perdidas do calendário que converterá o tempo ausente em sonhos que o deixam de ser.

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