23.1.13

Pergaminhos e punhos de renda


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Às duas por três, ninguém lhe tinha dito que as castas tinham acabado. Que a república mordia nos calcanhares, com baba rançosa mas mais atual que a monarquia deposta. Ou, talvez, até tivessem segredado ao ouvido, para não molestar as convicções e ferir o orgulho da linhagem. E ele teimasse em embaciar o horizonte que se depunha diante dos olhos, como se nada tivesse acontecido e tudo fosse como dantes.
Era cultor dos costumes de antanho, quando a ordem estabelecida mareava a seu preceito. À gente que o conhecia, era vulgar ouvir-se-lhe as frases terminadas com sapiente oração: “como se tudo fosse como dantes era”. Às vezes, parecia desligado do tempo que contava, imerso num emaranhado de predicados subtis que compunham a vivência aristocrata que fora seu berço. Só que a aristocracia estava em maré vasa, corroída pelo infortúnio a que os gentios a destinaram. Em momentos avulsos, tomava conta do tempo na sua aragem presente. Era quando abdicava da pose aristocrata e o rosto sorumbático, coberto de olheiras e de rugas rasgadas, se apoderava dele. A bonomia dos revoltosos e, a bem dizer, a sua irrelevância (os aristocratas mais notórios foram deportados ou arrastavam os ossos nos cárceres por tentativa de contrarrevolução), eram a caução para que continuasse a existir como se os tempos ainda fossem os de outrora.
Só que agora já não havia leis régias a assentar mordomias de casta. Ainda que em ocasiões a esquizofrenia o convencesse que conservava os pergaminhos que deram alcavalas, a maralha vitoriosa desdenhava-o. Quando deitava mão a instantes de lucidez, o aristocrata sem punhos de renda entristecia-se. Os ventos não corriam de feição. Os pergaminhos já não eram reconhecidos. Eram motivo de troça para os pés descalços que se habituaram a pajeá-lo quando tivera importância. A indulgência do novo regime era um ardil. Deixaram-no intacto para ser exemplo do que não devia ser o futuro homem que saísse da sociedade em reconstrução.
Durou quinze meses nesta agonia. Definhou até morrer sozinho. Respeitaram a sua derradeira vontade: ir para a sepultura com os punhos de renda e os botões brasonados, como era tradição familiar. O funeral esteve deserto.

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