27.2.13

Na boca do lobo


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Era uma daquelas noites frenéticas. O corpo ou o pensamento – não sabia o que rodopiava mais depressa. O que sabia era da vertigem que notava ao acelerar um gesto, ou quando um repente desalfandegava palavras que não deviam ter crédito. A noite frenética cobria o sono de pétalas florescentes, tão garridas que os olhos não conseguiam desatar a insónia.
As horas agigantavam-se e a noite parecia eterna. As flores dos canteiros tinham o formato arranjado das floristas que encenam a sua virtuosa exposição. Nem por ser de noite as flores se resguardaram em seus casulos; mostravam as pétalas desnudadas e o aroma que não deixava indiferença entre os que por lá passavam. As lições sobre a fotossíntese não serviam naquela noite, as flores tratando de as negar com o mesmo alarido que se montara nas ruas circundantes.
Ele dizia que a cidade estava em festa, mas não sabia os motivos aparentes. Ia de rua em rua, beberricando de bar em bar, conversando com este e aquele, sempre forasteiros do seu conhecimento. Não se lembrava das conversas, mas das gargalhadas ensaiadas com os compinchas de circunstância, ah!, disso tinha memória. Os lampiões apareciam difusos aos olhos, as luzes que deles emanavam cegavam os olhos estonteados. Numa das incursões do olhar pelo céu ainda mergulhado na penumbra, jurara ver uma estrela cadente. Teorizou sobre o momento, tendo por companhia um desempregado a curar a ressaca com outra embriaguez. Saiu da conversa com créditos de filósofo. O desempregado diagnosticou, seguro de si: “eu sei bem do que falo, já li uns cartapácios de filosofia.
Já ia demorado o cocktail de mistelas. Ao sentir as pernas sem forças, num cambalear que desautorizava a vontade, tomou a resolução de beber o último whiskey. A cabeça enfim sonolenta prometia confirmar a lei da gravidade. Antes que a alvorada agitada fosse testemunha do acordar ao relento, com uma cefaleia consumindo os corredores do cérebro, chamou um táxi. Entrou em casa, deitando-se no sofá sem despir a roupa enxovalhada da noite que acabara de findar. O dia que já o era não seria dia de vivalmas (para ele). A noite desenfreada seria caução de cura demorada.
Acordou já era madrugada do dia depois. Domado pelas olheiras e mortificado pelo descabelamento, perguntou ao espelho se a antevéspera tinha deixado legado. Demorou algum tempo, inerte, à frente do espelho. Só depois encontrou troco para a dilacerante interrogação: “ora, isso não interessa.” 

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