18.3.13

Cernelha



http://4.bp.blogspot.com/-fOa2t1mWoa8/T00qzoi_cZI/AAAAAAAAB8M/h0bid6DqNHM/s1600/Pega+de+Cernelha.jpg
Dava voltas e voltas. Virava as páginas que julgava encardidas, as páginas que, todavia, eram um desengano do tamanho maior. O mundo era espreitado pelos óculos turvados pelas cinzas de um vulcão. Os olhos anestesiados pautavam a ilusão do corpo. Tudo parecia uma miragem. Ornamentada a ouro, as águas límpidas correndo em seu leito, as pessoas já não sabendo o norte da boçalidade, e todas as impurezas regressadas ao cárcere sombrio de onde saída jamais devia ter sido franqueada.
Entre a levitação do pensamento que ocupava horas a fio, esbarrava na água fria. O mapa celestial era uma especulação tardia. Ao entardecer, no ocaso escondido entre as nuvens que toldavam o horizonte, metia os dedos na carne e sentia os pesares. Lembrava-se das lágrimas vertidas, da sofreguidão com que a angústia tirara o chão debaixo dos pés. Mas depois o olhar levantava-se do chão ido, fitava os fundilhos do céu e temperava-se de ânimo. À míngua de chão havia outros chãos por pisar, que aquele estava gasto e despedaçara-se em mil estilhaços quando os pés troaram a sua fúria indomável. Os novos chãos eram singulares, um desconhecimento em essência.
O que nunca o outrora desvendara era o tapete floral diante dos pés. Metia-se pelo firmamento fora o tapete encantado, parecia de encontro marcado com o infinito. Um velho com rugas pronunciadas veio ao seu encontro. Segredou-lhe para não se encantar com o bucolismo que tomava freio nos seus olhos. A paisagem era ardilosa – avisara –, os espinhos escondidos entre o tapete ou no meio da folhagem frondosa à espera da primeira estocada para bolçarem o veneno letal.
Tomou-se alertas nos olhos ensonados. Antes uma insónia demorada na demanda pelo tapete florido onde as flores eram de cores mais que o arco-íris. Não lhe fora dada a oportunidade para errar (desta vez). Pedia a si mesmo para ser imarcescível na levitação que encenava um palco formoso, um palco em fina farinha de arroz que se desfazia mal andassem mãos pelo seu dorso. A empreitada era para ser tomada de cernelha. Num gesto robusto, com as mãos secas para se segurarem com firmeza ao dorso da besta enraivecida.
No fim, a cernelha com o dom de amestrar a besta. A sua carne fora amaciada pelo gesto robusto que a ela se atou. Umas mãos feiticeiras trataram do resto.

Sem comentários: