22.3.13

O miradouro dos inglesinhos


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Só de saber que tinha de voltar ao centro de emprego, uma insónia teimosa aterrou já a noite ia para além da infância. As imagens de miséria, a tristeza em que se consumiam as pessoas que aguardavam por vez na sala de espera, o palavreado incendiado da senhora descontente – tudo era uma constante que não desembaraçava o pensamento.
Saiu à rua. Foi sentir a humidade noturna, agora que o nevoeiro descia para beijar o chão com orvalho. Não levava rumo. Foi por onde as pernas mandavam. Era a primeira vez que se condoía com a aflição de que ainda não dera conta. Mas era um sentimento singular: não reclamava comiseração para si, afinal tão desempregado como os que estavam no centro de emprego. De repente, viu-se cercado por uma auto penitência pois andara anestesiado pela leviandade. Por enquanto, sobrevivia sem contrariedades. Nunca pensara até quando podia durar o sossego, talvez o ilusório sossego. Um destes dias podia ser ele a atravessar as mesmas carências – e, nessa altura, não podia ser diletante como o fora até ter entrado pela primeira vez no centro de emprego.
A páginas tantas, notou no caminho para o miradouro dos inglesinhos. Empreendeu a subida entre as finas gotículas do nevoeiro. No promontório onde esperava ter a cidade a seus pés, onde esperava que o emaranhado de luzes soçobrando no silêncio da madrugada fosse conselheiro, só conseguia distinguir o manto de nevoeiro que se deitara sobre a cidade, abaixo dos seus pés. A tristeza não entrou por ele dentro. Aquele quadro no cimo do miradouro selava a incógnita que não cessava de o atormentar desde a visita inaugural ao centro de emprego. As luzes impedidas pela névoa que engrossara eram o sinal que precisava. Não resolvemos as pessoais inquietações com os sobressaltos que acometem os outros.
E depois de se interrogar se esta lição não o atirava para os braços da apatia, para depressa intuir que não (ou que o não era o mais confortável troco), voltou a casa tomado pelo sono que derrotara a insónia. Doravante haveria de cuidar de si e dos dias por diante que podiam ser uma constelação de sacrifícios. Tinha um desafio entre as mãos: combinar esse cuidado com a vida verdadeira que a desocupação o tinha ensinado. 

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