28.5.13

Inteiro


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O corpo inteiro. A alma inteira. Abraçada ao corpo. Os dois, enfim, em uníssono. Deixaram os medos de o ser. As facas longas são plumas que expurgam os vestígios sem serventia. Inteiras, as alvoradas delapidadas por tanta gente, crescem com o corpo que abandona o torpor da noite. Os olhos detêm-se em palavras magas, debruadas pelo ouro de um poema.
As mãos, as tangíveis mãos, vão à água fria beber sua força. O corpo sem dores. A alma lavada. As facas que deixaram de ser punhais ameaçadores. As flores vicejando nas árvores podiam ser o simulacro de outro tempo, mas são as fores no seu tempo – do seu tempo. Ávidas pela respiração do ar reembolsado pelas manhãs soalheiras, como ávidos são os olhos baços que se defenestram em viagens de solidão. Pois o corpo inteiro e a alma em demanda da inteira condição precisam da sua solidão. Para irem ao fundo de si e encontrarem os sedimentos que trazem ao de cima, fertilizando o chão cansado à espera de ser espertado.
E o corpo inteiro deixa o tempo madraço, cavalga nos contrafortes da montanha audível de onde as aves trazem em seu dorso os fósforos que vão atear o tempo recomposto. O corpo inteiro a caminho da alma que está quase a deixar de ser um manto de estilhaços. Os fragmentos não têm serventia, são meras ruínas. Para ser inteira, a alma repensa-se. Quer purificação – e sabe que a purificação não vem em manuais, desfolha-se em amarelecidas páginas escondidas num recanto escuro do ser. A alma é inteira quando se soergue desde as ruínas que foram sua alcateia e consegue amparar-se sem esteios. Os olhos levantam-se e conseguem ver a luz clara que provém da alvorada. Estão preparados para toda a luz que vier, para as trevas que tiranetes quiserem açambarcar como armadilha à inteiriça condição. Já não importa o resto. Pois o resto perdeu o valor ao saber que o corpo se irmanou na alma, os dois inteiros como as memórias não têm reminiscência. Agora as rosas podem ser das cores que lhes aprouver. Os pássaros podem entoar os seus cânticos que não deixam de ser sibilinos mas doces ao ouvido. O porvir é apenas uma medida esquecida do tempo. E as mãos regressam, as vezes que forem precisas, à água fria na sua insaciável busca por nutriente.
Agora, corpo e alma levitam na sua inteireza, apurando as arestas que deixam de ser dentes afiados a rasurar as curvaturas do corpo e da alma. Inteiro, o corpo é um diamante em bruto que não precisa de lapidação. A alma, deixada à sua inteireza, é uma janela aberta de onde todo o tempo e todo o espaço se abraçam aos olhos.

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