12.6.13

Às de trunfo


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Um baralho inteiro espalhado pelo chão do quarto. Inclinada sobre o dorso, enquanto o sangue descia pela cabeça e embargava o entendimento, olhava para as cartas de todos os naipes que desarrumavam o quarto. As cartas tinham sido atiradas ao ar e todas aterraram com o rosto virado do avesso.
Recolheu meia dúzia de cartas. Interrogou-se que sorte, boa ou bastarda, calhara na aleatória escolha. Não queria fazer inferências, nem que outros tantos oráculos se destapassem mercê das cartas levantadas. Não era um exercício de cartomancia. Apenas um passatempo, porque o tempo de então não tinha outra serventia se não ser gasto em horas lúdicas que derrotassem o tédio. Dispôs as seis cartas ainda com o rosto virado ao contrário. Para o jogo ser mais a sério, postulou um naipe como trunfo. Espadas a desempenhar a função.
Começou a revelar as cartas, com a destreza de uma groupier. A primeira foi um rei. Não era de trunfo. Seguiu-se um quatro de trunfo. De um trago bebeu o gin que estagiara breves minutos no pequeno copo. Em cima do lastro de bebida abraçada à noite que já ia na sua lonjura. As cortinas de fumo dos cigarros sucessivamente fumados enraizavam-se nos olhos. Com a ajuda do álcool que passara das medidas, os olhos tingiam-se no raiado dos pequenos vasos sanguíneos em dilatação. Esboçou uma gargalhada, entaramelada com um pensamento em voz alta: “um quatro peão vale mais que o rei. Coitada da monarquia, que passou a ser uma minarquia”, continuando a gargalhada insana (sem saber que minarquia não é o antónimo de monarquia).
Faltavam as outras quatro quartas. Virou três delas de supetão. Um sete de copas, uma rainha do mesmo naipe do rei (casal inseparável, nem que seja para inglês ver – e lembrou-se das histórias pouco edificantes da monarquia espanhola, estilhaçada no restolho dos escândalos). E um simples dois de trunfo. Faltava a última carta. Fez de conta que acreditava naquilo que considerava um embuste – a força mental que arregimenta energia interior tanta que os desideratos, assim haja convencimento do seu atingimento, são aconchegados por ambas as mãos. Tinha de ser o às de trunfo. Tinha de ser o às de trunfo. Não fora. Era uma carta insignificante – um número qualquer, pequeno, e de uma cor oposta à do trunfo.
Irritada, saiu à rua e vagueou sem destino, sem se importunar com a chuva madraça que a encharcou à medida que se encurtava o tempo até à alvorada. Da alvorada que furtara o sono que já não viria. Esse era o seu às de trunfo.

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