25.6.13

Diário de um boçal sensível


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A manhã é um jugo. O despertador grita ao ouvido e há um tremor de raiva que sobe desde as entranhas. É preferível sair da cama mal a mão cai sobre o despertador para o silenciar. Já fui despedido uma vez por ter sido negligente com o despertador e a alvorada fez-se já o sol tinha entrado alto pela manhã. Despacho o pequeno-almoço com brevidade. Não quer a rapidez dizer que a primeira refeição é frugal, que o corpo não se contenta com pouco alimento. As migalhas ficam onde calha e a louça suja do pequeno-almoço empilha-se até já não haver mais louça para enganar a fome depositada pelo sono.
Do dia de trabalho não se oferece dizer nada que interesse. As horas passam a eito e, todavia, muitas vezes tenho a impressão que o tempo se arrasta no seu vagar, como se houvesse uma conspiração contra a estrutural falta de vontade para o trabalho. Não perguntem se o problema é do trabalho que tenho agora (segurança na portaria de um banco), que nos outros trabalhos que já foram meus a falta de disposição era a mesma. Não me parece que fui talhado para o trabalho. À falta de berço de ouro, e à míngua de fortuna familiar, estou resignado ao sacrifício do trabalho.
Houve tempos em que estava convencido que o fado para o conforto era casar com uma mulher de meia-idade que estivesse cercada por abastança. Frequentei os meios certos, cuidei da imagem (num investimento de que ainda hoje pago prestações), engoli preconceitos. Não chegou. Uma prometida foi ainda mais embuste do que eu. A fortuna de que falava era uma miragem. Por comiseração, continuei a visitá-la na prisão onde cumpre pena. Desfalque e chantagem sobre um velho milionário a quem sequestrou segredos fizeram a sua punição. Está azeda como nunca a conheci. Talvez sejam os amuos dos maus tempos do cárcere. De cada vez que saio da visita à prisão venho com o dorso arqueado pelas ofensas. E prometo que não volto lá outra vez. Assim como assim, um homem tem direito à sua autoestima. Custa ouvir os impropérios que ferem a autoestima. Sobretudo quando alguém nos chama boçal (mas só depois de ter chegado a casa e desempoeirado o dicionário escondido numa estante, para saber o que significa boçal).
Admito que sou boçal. Ninguém se faz como gostaria de ser. Aliás, nunca tinha reparado na minha boçalidade. Talvez fizesse falta às pessoas carregarem um espelho que refrate aquilo que são e que sem o espelho não conseguem ver. Posso ser boçal. Mas ainda me orgulho de guardar um módico de sensibilidade por quem anda em maré baixa. E lá vou, duas vezes por semana, outras semanas três, na visita de fim de tarde até à prisão para sair alquebrado com o despeito da senhora que queria enganar e acabou por me enganar.
Um colega do trabalho diz que de tanta ingenuidade tenho o céu garantido.

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