13.11.13

Os costumes são mesquinhos?

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Uma professora primária foi apanhada num “vídeo pornográfico” na sala de aula, fora do horário de expediente. Os paizinhos exigem “justiça”, sinónimo necessário da demissão da professora. Era o que mais faltava: a professora ter o despautério de se filmar em poses menos próprias dentro da sala onde ensina os petizes. Talvez ainda não soubéssemos, mas uma sala de aula é um lugar sagrado, uma capela ungida pela água benta do ministério da educação. Pelo caminho, pouca gente teve lucidez de tentar saber se a senhora, para além dos dotes de lascívia, é competente a ensinar os ofícios escolares aos meninos.
Não que fosse preciso aprender com o óbvio, o episódio refresca conhecimentos: a tacanhez continua a sua marcha triunfal. E aprendemos que a inveja é irremediável. Suponho que alguns progenitores ter-se-ão regalado com o que viram, talvez ensaiando lucubrações intelectuais que incluem onanismos mantendo a professora na tela mental. A professora foi desastrada? Tomou riscos excessivos, sabendo-se do conservadorismo bafiento que domina a gente pequenina. Foi imprudente ao tornar (ou a não prever que alguém o podia fazer) o vídeo acessível. Devia saber que a gente pequenina não perdoa a luxúria propagandeada. Não perdoa que haja quem tenha fantasias e as torne públicas. Dirão alguns, interrogando se isto não é atentado ao pudor, que a professora se pôs a jeito da implacável censura moral. Essa é a perspetiva errada. Só faltava haver censura prévia aos devaneios pessoais. Uns lidam mal com fantasias, tornando-as inconfessáveis. Outros expõem-nas de maneira despudorada, arriscando o pescoço no cepo da censura social, o mastodôntico limbo onde ninguém deve cair para não passar pelos padecimentos da ostracização. Os primeiros, atormentados pelas fantasias mal resolvidas, são os supremos juízes dos segundos.
A pergunta que os paizinhos ultrajados ainda não fizeram (nem menos quiseram responder) foi a seguinte: uma professora com vícios privados, mas tornados públicos, fica desqualificada para o ensino de criancinhas? Ainda não revelaram, os paizinhos ofendidos, que coisas terríveis viram no filme protagonizado pela professora lúbrica. A menos que houvesse criancinhas envolvidas (a modalidade fica por conta dos devaneios poéticos pós-adolescentes do, na altura, ainda não professor Boaventura), continuo sem entender o alarido. Daí à repetição da pergunta: fica desqualificada para ensinar os petizes uma professora com vícios privados?
Por este andar, ainda iremos esbarrar em comissões de costumes que esquadrinham a vida pessoal dos professores à cata de gostos impróprios que possam contaminar a formação das criancinhas. Das duas, uma: ou nos metemos todos na camisa de sete varas do higienismo de costumes, persignando pela existência sensaborona, ou ainda vamos admitir que alguns engenheiros sociais, armados em polícias dos costumes, se metam nos lençóis a ver o que andamos a fazer.
(Pois podem estar a precisar de aprender.)

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