31.12.13

O pior dos negociadores

In http://4.bp.blogspot.com/_Z6B_KmovIkc/TK3SfS4kWZI/AAAAAAAAAOw/F2kXJi1JWKo/s1600/NEGOCIAÇÃO+2.jpg
Tinha andado pelos negócios. Virou-se, anos mais tarde, para a diplomacia. Mudou de vida, mas manteve a mesma falta de destreza na hora de negociar. Quando pertencera aos negócios, tratou de arrumar uns quantos, para exasperação dos respetivos donos que o tinham mandatado para rendosos proventos. Ao darem conta dos termos dos negócios firmados pelo negociante, depressa deitavam as mãos à cabeça. Não percebiam a falta de diligência, ou o que os mais generosos apenas tinham como incapacidade. Muitas vezes, não precisavam de esperar pelo diferimento do tempo para sentirem a catástrofe material a apoquentar as finanças das empresas. Os donos dos negócios ficavam perplexos. Como podia tamanho parlapatão, que os levara no engodo como se um feitiço fosse, ser depois ludibriado, infantilmente ludibriado, por outros que com ele contracenavam na negociação?
Banido da negociação dos negócios, serviu-se dos estudos, da fanfarronice e dos numerosos conhecimentos na alta roda da decisão para mudar de vida. Atirou-se à diplomacia. Rasurou o curriculum para ocultar os negócios por onde tinha passado e que tinham sido, mercê da sua incúria, negócios arruinados. Deixou ficar algumas pertenças, pois tinha, para efeitos oficiais, de deixar alguma peugada para justificar a prebenda no ministério. Depressa o encarregaram de embaixadas vultuosas. Os pergaminhos iam no mau sentido, a não ser que por pergaminhos se contassem também as janelas que se abriam de par em par com a diligente palavra de um conhecimento fulcral.
Mudou de vida. Continuou a teimar na falta de desembaraço para a negociação. Quando entregava o dossier ao ministro para aposição da competente assinatura, já não podia o ministério voltar atrás. Não tinha remédio: só ele não conseguia discernir as malfeitorias, involuntárias malfeitorias, que desancava na pátria que agora representava no papel de negociador. Houve negócios que voltaram a falir por causa dele, pois não soube negociar bons acordos de comércio.
Demorou até que nem os fulcrais conhecimentos fossem sua caução. Era mau de mais para alguém lhe dar crédito. Foi banido, primeiro do ministério, depois da negociação em geral. Com a fama devastada, já não havia lugar nenhum para continuar a ser negociador. Todos ficaram a ganhar. Perdeu-se o pior negociador de todos. Até que se descobriu que andava pelas universidades a destilar conhecimentos sobre diplomacia.

30.12.13

A club of no more

In http://www.newmanchesterwalks.com/wp-content/uploads/2010/08/Underground-chasing-ghosts-Mark-Stuttard2.jpg
Uma sociedade secreta. Sem fins inconfessáveis. Nada colateral a espionagem. Apenas um clube escondido pelo segredo, as portas subterrâneas derivando da curiosidade normal. Composta por um pequeno grupo que perfilhava os mesmos ideais, a mesma cosmovisão. Sem rituais pueris, aventais ou coisas do género, nem religiosidades que depusessem a sua integridade. Reuniam-se quando calhava. Era só um deles puxar o gatilho da reunião, em linguagem cifrada – não que temessem que os serviços de espionagem estivessem de olho neles, que eram uma sociedade secreta e, todavia, inofensiva. A linguagem cifrada era o sinal de um encantamento, ele talvez pueril, pelo segredo. Não queriam que a sociedade deixasse de ser um segredo bem escondido. Não queriam. Apenas.
Eram só meia dúzia. Diziam que a pertença à sociedade era a melhor cura contra a velhice. Dava a ideia que a idade era um estreito manto a que os seus corpos se conseguiam furtar. Cultivavam o passado, sem vergonha de que o passado pudesse travar o passo às novidades que vinham no trânsito do tempo presente. Até porque sabiam que só fazia sentido entoar saudades do tempo que ainda estava por vir.
Um certo dia, um dos confrades pronunciou-se por o que nunca tinha sido tema: podia a sociedade abrir-se a sangue novo? Um deles questionou se o sangue novo significava novas pertenças. Se deixariam de ser meia dúzia. Era tabu sem nunca o ter sido. Era como se um implícito código de conduta pusesse pesada sepultura no assunto. De tal modo que nunca fora falado. Até àquele dia. Os restantes cinco não fingiram incómodo. Um deles, mais célere na reação, interrogou por que haveriam de mudar se até então a sociedade fora tão perfeita no funcionamento. Correriam, talvez, o risco de desintegração se o novo membro (ou os novos membros, que a proposta ainda não tivera sido retalhada) não entendesse o código de honra e não soubesse ler nas entrelinhas dos olhares, como eles estavam habituados.
Quem atirou o assunto para cima da mesa indagou se eles eram tão conservadores. A confusão veio à boca de cena. Quase todos os outros recusavam a companhia do conservadorismo, fosse de que estirpe fosse. Naquela noite, a reunião acompanhou as horas que faziam companhia à noite. Leais aos princípios da carta de intenções que tinham assinado há trinta anos, decidiram nada decidir naquele fim de noite. Sabiam que só a vontade de todos podia aceitar o assunto na reunião que viesse a seguir. A ser aceite o assunto, o novo membro (ou os novos membros, depois se veria) só podia entrar na sociedade se todos o aceitassem.
Cinco meses depois, ao cabo de um silêncio sepulcral de quase todos, como se fossem contumazes do assunto, marcaram a reunião. O assunto não o chegou a ser. Aquela era uma sociedade fechada. Extinguir-se-ia assim que dos fundadores sobrasse apenas um sobrevivente. Os outros cinco decidiram, com aquiescência de quem propusera a mudança, lavrar em ata que a sociedade repudiava o catecismo conservador (significasse o que isso pudesse significar).

27.12.13

Uma diáspora algures

In http://3.bp.blogspot.com/-_Ugxx-Jy46w/TqmEvb_58QI/AAAAAAAAAhE/zjKKHrvEwgI/s1600/vidro_embaciado.jpg
Pelas veias, usando o sistema circulatório, o sangue traz aos quatro cantos do corpo o seminal estatuto de alma apaziguada por dentro de si. Os poros acondicionam o odor singular banhado na aurora radiosa, depois de deposta a noite. Sentia-se como se os braços chegassem a todas as partidas do mundo. Era como se fosse turista emérito e uma parte bastante do mundo tivesse sido caminhada nesse desiderato. E nem precisara de sair do lugar onde estava. Era seu lugar-tenente, um miradouro escondido na penumbra da paisagem. Ascendera à elevada tribuna de onde os olhos abrigavam a tutela das coisas todas, apartando as más das boas.
(Depois de refeitas as coordenadas, sempre tão subjetivas, que separam o mal do bem – e da medida que tinham para si, sem se importar que essa medida fosse imagem irradiada para os outros, ou imagem perfilhada por eles.)
Da diáspora que aspergia como centelha de generosidade, julgava que era uma reciprocidade perfeita. Dele viriam as coisas na sua bondade, ungidas pelas nómadas mãos. Às suas mãos, em forma de aluvião, viria o beneplácito das muitas terras demandadas. Uma aprendizagem de dois sentidos, em demissão dos lúgubres pesares, das indigências quotidianas no pulsar urbano, da tacanhez abraçada à rudeza de modos. Era o tempo de despedaçar o pessimismo diletante que ou era estreiteza de modos, ou era séquito onde afivelava o esconderijo das aleivosias dos outros.
E de sempre se julgar ilha, uma ilha distante e que queria inacessível, agora limpava o olhar. Que se desembaciava. Não era ilha jamais. Descamisara-se dos insondáveis vapores que prometiam idílicas paisagens, todavia apenas visitadas em nevoeiros sonhos. Agora era uma terra inteira. Julgava-se plataforma continental, com toda a largueza que se diz de um continente, as costas amplas para nelas trazer o mundo inteiro sem se arquear. Apalavrara o irredentismo depois de assentar os alicerces da diáspora que viera por seus dedos.
Não sabia se estava preparado para a função. Ser largo guarda-chuva onde se apartam as emoções de tantos personagens não prometia acessível empreitada. Mas isso não importava.

26.12.13

Encore

In http://st.depositphotos.com/2229436/2380/v/950/depositphotos_23801177-Simple-popular-social-networks-icon-with-plus-sign.jpg
Uma lei da economia: a lei da utilidade marginal decrescente. Em linguagem para leigos: a utilidade que tiramos de uma coisa perde-se à medida que se dá a utilização da coisa. Ou, como diz o povo, o que é de mais cheira mal.
Os concertos de música deviam ficar por aquela altura em que os artistas dizem adeus. Sabemos que não é adeus, é até já. Vão para os camarins só para escutarem o clamor da audiência que os quer de volta para um encore. Ou dois, ou três. De cada vez que finda um encore e os artistas se devolvem ao sossego dos bastidores, a turba entusiasmada continua a patear e a assobiar, no ritual de chamar os artistas de regresso ao palco. Para mais um encore. Parece que a audiência não se cansa da função. Parece que estaria a noite fora, se possível fosse (que os artistas têm os seus limites de resistência física e os contratos não deixam que os concertos se eternizem), em coletivo êxtase a ouvir os artistas, encore atrás de encore. Até que todos atingissem o limite da resistência física, ou quando a música deixasse de fazer sentido – portanto, quando já tivesse perdido utilidade.
Podia ser, na música, como nas peças de teatro ou no cinema. Temos direito ao produto que é a peça ou o filme. O encore é proibido. Dirão que a comparação com o cinema é desfasada, que o cinema é em diferido e os concertos de música são em direto. Mas as peças de teatro também o são. E não há repetições em palco depois de o elenco fazer a habitual vénia em agradecimento aos aplausos demorados da audiência. No teatro sabem respeitar a lei da utilidade marginal decrescente. A medida exata.
Os encores soam a excessivo, e quantos mais forem pedidos maior é a medida da desproporção. O encore é sinónimo de enfartamento. Só um coletivo êxtase, deixando a audiência num estado de anestesia também coletivo, dá amparo à droga dura que é a dependência do encore.

25.12.13

Em excesso de velocidade (e os guarda-chuvas mortiços)

In http://n.i.uol.com.br/ultnot/album/091111_f_013.jpg
Já que a latitude não oferece um natal branco, que nos sobre a possibilidade de um natal tempestuoso. A tempestade meteorológica, bem entendido, com vento em velocidade excessiva, chuva em catadupa, água a cercar-nos pelos lados que há. E as pessoas em sua azáfama matinal, que as últimas compras ficam sempre para o fim, molhadas até aos ossos, os seus rostos piedosamente clamando pelo aconchego da casa.
Até que lá cheguem, mais água sobre os agasalhos, e quando os agasalhos não aguentam tanta água, ela verte-se nos ossos. Até que lá cheguem, vão de carro ou a caminho da paragem do autocarro, metem os destemidos guarda-chuvas à intempérie. É vê-los dobrados, incapazes de sobreviverem ao vento em excesso de velocidade. Virados do avesso, a armadura metálica deixando voar o tecido que devia amparar a chuva, e mais uma bátega de água encharcando o corpo que nunca pediu tanto por casa como numa véspera de Natal tão molhada.
Pela rua, o lixo muda de feição. São guarda-chuvas que perderam serventia, assassinados pela tempestade que se pôs. Um cemitério de guarda-chuvas. Quanta serventia a sua, se era tão vertiginosa a velocidade do vento? Até que fossem depostos já fatal caricatura da função que devia ter sido sua, deram a luta que puderam dar. Bem queriam ser uma campânula onde os seus donos se abrigassem da chuva desbragada soprada pelo vento furacanado. Debateram-se, com a solidariedade interessada de seus donos, que enquanto os ajudavam na luta desigual faziam esgares de desprazer, tanta a quantidade de água com a bênção das nuvens que sobre eles se abatia. A maior parte dos guarda-chuvas terá morrido em combate, tamanho o cemitério deles pelas ruas espalhado.
Daqui a uns dias, os consultórios de médicos e as urgências dos hospitais estarão apinhados com gente engripada. Ainda não houve quem fabricasse guarda-chuvas à prova de furacão. A indústria devia pedir conselhos aos peritos (do clima e da resistência de materiais).

24.12.13

Conto de natal (versão 2013)

In http://gastronomiaporesporte.files.wordpress.com/2013/01/img_8301.jpg
A excitação da véspera de natal levou o sono cedo de mais. Já não era por causa da visita do pai natal, que não tinha idade para acreditar em contos de fadas, e a encenação que os mais velhos repetiam à medida que os natais iam em cadência era isso mesmo, uma encenação. Limitava-se a fazer de conta que ficava inebriado com a figura enchumaçada vestida numa disforme fatiota vermelha, as fartas barbas de algodão caindo em cima do peito, a custo empurrando o saco de serapilheira cheio de prendas, enquanto na varanda troavam os tachos em sonora algazarra.
Podia não parecer, mas tinha crescido. Às vezes parecia que os mais velhos insistiam em não o deixar crescer, tal a teimosia na encenação do vetusto pai natal. No ano anterior tivera de fazer de conta que ainda acreditava no pai natal – e eles, na escola, esboçavam estrofes de músicas rap entoando as coisas mais feias acerca do pai natal. Neste ano, percebeu que alguns dos familiares continuavam mergulhados num imaginário infantil natalício, pois eles é que exultavam com a chegada da anafada figura que preside ao natal. Não é cómodo ser testemunha deste pueril encantamento dos mais velhos.
A excitação da véspera de natal, e que tinha furtado o sono antes do tempo, era por causa da demorada estadia na cozinha, ajudando nos preparativos gastronómicos. No ano anterior estreara-se como ajudante. Ia chegando os ingredientes, um tio ensinou-o a separar gemas de claras, a avó incumbiu-o de pesar os ingredientes na balança antiga que ainda precisava dos pesos de chumbo para acertar o fiel e dar o peso certo. Este ano queria meter as mãos na massa. Literalmente. Lembrava-se como uma das tias meteu as mãos quase até aos cotovelos na massa dos sonhos. Queria ser ele o intérprete dos sonhos. Podia ser que, ao mexer na massa dos sonhos, os sonhos que chegavam ao sono descessem da dimensão onírica e se fizessem coisas tangíveis.
Mas tinha um medo: e se as mãos na massa, ordenhando os ingredientes para a congeminação dos sonhos, fossem tutoras dos sonhos bons e dos maus também? Tinha de perguntar à tia. Assim como assim, em continuando a ser tratado como uma criança tardia, podiam descontar a ingenuidade da pergunta.

23.12.13

The best is yet to come

In http://26.media.tumblr.com/tumblr_lnzk68oY8n1qedfcno1_r1_500.jpg
Conversa afiada. Parecia que ninguém passava por eles. E, no entanto, era um entardecer de azáfama, com o fim de semana a morder no final da sexta-feira e as pessoas a quererem a dissolução do bulício rotineiro em ócio. Os pés meteram-se pelas avenidas largas que, mesmo sendo largas, estavam apinhadas. Enfeites natalícios não escureciam a conversa afiada. Nem as mãos nos bolsos, que o frio trazia os pedintes a tiritar e os cachecóis abundantes eram prova saliente.
- O porvir trará a recompensa maior. Há de vir um tempo, por fugaz que seja, com a gratificação sublime.
- E o que te embala em tão franco otimismo?
- Não sei dizê-lo com propriedade. É uma intuição. Um pulsar interior que demove toda a obscuridade na fermentação do tempo presente.
- Mas não achas que isso é uma contradição?
- O que queres dizer?
- Que tamanho desassombro com que esperas pela nitidez do tempo futuro, sem achares rudimentos palpáveis para aí transitar, é um desespero.
- Sem bem entendo, insinuas que não há por que perseverar, que os tempos sombrios se adensam com o bater das horas...
- Exato.
- ...e que me abraço a uma deriva suicidária por mergulhar na negação do que aos olhos é mostrado.
- Diria que um acesso de espiritualidade se apoderou de ti. Não é crítica, nota bem. Eu seria incapaz de por aí arremeter. Respeito a tua coragem.
- É genuíno. Logo eu, que não alinho em esoterismos e teorias abstrusas, sinto em mim este pulsar irreprimível. Faz-me acordar à espera que o apogeu não demore.
- E o que esperas que aconteça no apogeu?
- Deixarei o tempo fluir em seu vagar. O que houver de acontecer tomará seu lugar em medida certa.
- Não temes que nesse instante tudo se consuma na efemeridade do momento? Que seja uma recompensa fugidia e depois venha a curva descendente, só aplacada se teimares na contínua evocação desse instante?
- Sei que o melhor está para vir. Não me resigno ao outrora resplandecente. E não será depois, quando houver um outro outrora mais nítido por celebrar, que vou estar refém da moldura que refaz esses momentos.
- Qual é o propósito, então?
- É deixar que a ponte dos promontórios de onde se bebe a essência da existência se estenda de cada vez que uma proeza a enfeita. O melhor está sempre por vir. O “sempre” faz a diferença. Não é capitulação, como se o acesso a uma proeza fosse sepultura da existência, ou sua ambientação ao tempo pretérito.
Não conseguiu digerir o otimismo militante do amigo. Nessa noite, acossado pela conversa afiada, interrogou o pessimismo em que se consumia. A insónia devolvia, a todo o tempo, a afirmação de embriagada espiritualidade: “o melhor está para vir”. O pior é depois do melhor ter chegado. Mal por mal – clamava o estertor pessimista – que o melhor não tenha seu valimento.

20.12.13

E se a poética invadisse a comunicação política?

In http://download.ultradownloads.com.br/wallpaper/67648_Papel-de-Parede-Dia-Glorioso_1600x1200.jpg
(Podiam os jornalistas, se mais letrados, ajudar a embelezar a política, se escrevessem com cuidados poéticos. E podiam os consultores políticos, em adenda aos atores por dentro da política, espaventar o nevoeiro retórico que comina a política e desmotiva os eleitores.)
Foi jornada ilustre. A nação cavalgou na concórdia. Os rostos desavindos perderam a fímbria das desavenças, souberam que os privativos interesses cediam ao bem comum. Já o era dantes, mas dantes não havia concórdia sobre o entendimento do bem comum. Agora todos vieram confederar as mãos. Os cálices foram ao alto, em sonoros brindes, na casa parlamentar e nos gabinetes onde anónimos burocratas se sentiram vingados pelo esforço sempre na sombra.
Os atores políticos, pese embora as grinaldas desfasadas que envergam, selaram o ajuste no tempo presente com o firmamento da memória futura. Sob a respeitável tutela do mais elevado magistrado da nação, que perseverou na obnubilação das divergências para o bem das gentes, com o beneplácito dos credores que, da estranja, mandam réditos para nos endividarmos. O tribunal mais importante selou o compromisso com uma corona de flores garridas, quando outrora ousou matá-los (aos compromissos) com uma coroa de espinhos. Já não era tempo para as desinteligências se consumarem em sangue derramado mercê da esfregação dolorosa nos espinhos deixados em forma de legado. Até os sindicalistas tiveram o seu refrigério, acastelando o repouso num antídoto da agitação em que habitualmente laboram. Os patrões, os que oferecem o rosto no jogo das influências e os que se movem nos bastidores enquanto se adestram pardas eminências, ofereceram aquiescência.
Os do governo estavam exultantes. Os firmes ósculos à ministra da fazenda exibiam a irradiação de contentamento que, horas mais tarde, os despojaria do sono merecido, tanto o rebuliço. Os das oposições nidificavam em seu pátrio orgulho, eram aplaudidos pelos do governo e pelas gentes que quiseram louvá-los pela pátria postura. Brindaram todos na casa parlamentar. Ao menos numa instância, numa instância que fosse, cindiram as diferenças em poeira de onde se agigantou o fermento da concórdia. O mais contente de todos, embriagado no seu rasgado sorriso, era o mais alto magistrado da nação. O sonho havia-se cumprido, agora fado irremediável: a democracia cimentada num só pensamento.
Ainda houve quem sussurrasse, de recônditas torres de marfim, que tamanha democracia era contradição de termos. Nem tiveram tempo para contestar os termos da falaz concórdia. Sobre eles caiu o opróbrio do antipatriotismo. E depressa foram convidados ao exílio – se não ao físico exílio, ao exílio das ideias. A nobilitada democracia, prenhe de concórdia imberbe, não sabia conviver com as diferenças. Medraria, esta pobre democracia, no ocaso dos seus frágeis pergaminhos. Sobrava a espera do tempo. E que a madurez tomasse seu lugar e a democracia do único pensamento, confundindo concórdia com empeço de divergir, fosse condenada ao cadafalso.

19.12.13

E se inventássemos o mar de volta?

In http://www.antoniovidigal.com/drupal/cd/sites/all/fotografias/MagiotoConcheiraVeryLow-2.jpg
Diríamos que o mar se ausentou. Era como se estivéssemos nós ausentes do mar, ou ele de nós, num qualquer lugar que a ele guardasse longínqua equidistância. Sonhávamos com a maresia. Sonhávamos com a cumplicidade com o mar, intermediada pelo olhar que nele se detinha e, com essa detenção, o colonizava como se fosse todo nosso.
Sonhávamos. Mas não temos mais serventia dos sonhos. Eles vieram ao nosso regaço, tangíveis, aderentes ao táctil sentir. Foram congeminados pelas nossas industriosas mãos. As mãos arquitetas que trataram de voar por cima das montanhas, das mais altas montanhas, desafiando o que julgávamos insuperável; das mãos que cuidaram de arrematar intempéries, sem que elas nos pudessem demover; das mãos suadas, marcadas pelo encarvoar do tempo, que tiraram as bússolas do chão e só descansaram quando os olhos voltaram a repousar no mar chão. Das lágrimas vertidas não constava memória. E sabíamos que enquanto foram vertidas, depostos na fragilidade que julgámos ser em marés de sobressalto, dessas lágrimas ecoavam maresias que devolviam o perfume do mar. Por mais distantes dele estivéssemos. Sabíamos que não havia fronteiras que impedissem o resgate do mar.
Sabíamos que a vontade era indómita. Deixámos as palavras fluir no pulsar da vontade que trazia as gotas de suor na enrubescida pele. Sabíamos que os contratempos azedavam os esboços que repousavam em cima do estirador, mas nem assim nos despojámos da indumentária que quadrava com a singeleza do que éramos. Os esboços, continuaram em edificação. Não capitulámos. O mar podia estar ao longe, mas era audível como se as ondas se viessem desfazer na embocadura dos nossos pés. Atirámos as roupas velhas para a moldura inerte do tempo embaciado. Deixámo-las em forma de vestígio, a ebulição para o nós que em nós medrava. Nus, estávamos preparados para a casa da partida. Os pés em uníssono arrotearam as veredas por onde escolhemos passar.
Nunca perdemos o norte ao lugar que era esconderijo do mar. Agora, o mar é nosso. Nossa invenção, mar hospedeiro que é safra prometida. Todo nosso.

18.12.13

O anátema da troika (enfim revelado)

In http://www.jblog.com.br/media/128/20111108-Medalhão%20de%20Lagosta.jpg
Algum dia os segredos dos poderosos haveriam de ser trazidos a público. Aquilo que as sumidades proclamavam, mas que nem todos confiavam porque mais soava a teoria da conspiração, foi revelado como verdade insofismável. A troika que nos amordaça, a troika que nos subtraiu soberania e condenou ao empobrecimento, foi apanhada em falso. Três altos funcionários (do FMI, da Comissão Europeia e do BCE) estavam em fim de noite no restaurante do hotel de cinco estrelas em que pernoitam quando vêm de visita a Lisboa. E nem o protocolo de Estado e as razões de segurança que reservaram a sala privativa do restaurante do hotel impediram que um microfone alcoviteiro e um sistema de gravação tivessem apanhado uma conversa comprometedora.
Funcionário do BCE – Estamos a levar a água ao nosso moinho. A economia deste país está a levantar o prumo.
Funcionário do FMI (sempre mais cauteloso na abordagem, não tão ortodoxo como os outros dois) – Parece que sim. Mas não nos livramos de sermos algozes deste povo sacrificado.
Funcionário da Comissão – Ora essa! Já devias saber que o programa que aqui viemos instalar trata de empobrecer a classe média, de condenar à indigência os mais pobres, de assaltar as pensões dos reformados, de ensopar as pessoas com impostos e mais impostos e, ato contínuo, de emagrecer o Estado e destruir o Estado social. Onde está a novidade?
Funcionário do FMI – Pois, já sei que é a cartilha por onde nos regemos. Mas temo que algum dia descubram que queremos propositadamente empobrecer esta gente. Se se vem a saber...nem quero pensar nas consequências.
Funcionário do BCE – Podiam ser trágicas para nós, que somos soldados enviados para a frente de batalha. Não é por acaso que andam por aí uns entendidos de história a advertir que a revolta popular, da violenta, pode estar à nossa espera. Dizem que esse é o oráculo da história.
Funcionário do FMI – A maralha dá ouvidos a esses lunáticos?
Funcionário do BCE – Aposto que não. Os lunáticos raramente têm palco, a não ser o que é frequentado por outros lunáticos.
Funcionário da Comissão – Às vezes, quando estamos em Lisboa e há manifestações dos sindicatos, deito-me com o prazer de saber que a classe média e os pobres estão fadados a uma monástica forma de viver. Um dia destes, para adulterar as aparências, tu (dirigindo o olhar para o funcionário do BCE) podias dar instruções aos bancos para abrirem outra vez a torneira do crédito barato. Para apaziguar as aflições e devolver um módico de satisfação ao povo.
Funcionário do BCE – Está nos nossos planos. Espera mais um ano, para confirmar que a economia voltou a levantar voo. A maralha ficará depressa anestesiada. Os sindicalistas e os sábios que extrapolam lições do passado ficarão a falar sozinhos enquanto o povo se voltará a banquetear no viciante crédito.
Funcionário do FMI – Temos de congeminar uma estratégia de comunicação. Não pode ficar ao acaso, o empobrecimento. Diremos que não foi empobrecimento (nem que precisemos de mentir nas intenções com que partimos). Diremos que foi preciso o barco ir quase ao fundo para voltar a navegar com a proa orgulhosa.
Funcionário da Comissão – O povo tratará de nos aplaudir. Sem perceber que queríamos mesmo prostrá-lo na pobreza, pois havia muitos arrivistas a rivalizarem com o consumo de casta que nos deve ser reservado, a nós e aos nossos tutores da alta finança.
Foi quando os líderes da santíssima trindade bancária amesendaram com os funcionários da troika. Um deles disse, enquanto se atirava, esfaimado, às tostas de caviar e à lagosta:
- Brindo a isso. A isso e ao empobrecimento que deixámos ao povaréu inculto. Sem esquecer um sentido bem haja aos comentadores e ingénuos académicos que nos continuam a prestar gratuitos serviços. Ah, como é bom sair à rua e, de dentro da blindada limusine, apreciar o olhar triste das gentes, como elas são tementes dos empregos que lhes podemos retirar, como aceitam o salário que nos apetecer pagar. Ainda bem que soubemos convencer os partidos a fazerem um acordo convosco.

17.12.13

O natal é lúbrico

In http://painatal.info/wp-content/uploads/2011/05/guardanapo-para-decoupage-com-coelhinho-vestido-para-o-Natal.jpg
Não é preparo meu ser desmancha-prazeres e desfazer o natal por que as criancinhas tanto suspiram. Mas há símbolos do natal que escondem perigosas mensagens de lascívia, para as quais, como é sabido, os meninos e as meninas de tenra idade não estão preparados. É outro trunfo dos incansáveis críticos do capitalismo, pois o natal – também é do conhecimento comum – foi colonizado pelos imperativos do consumismo estéril que agrada aos grandes capitalistas que vendem o útil e o inútil, convencendo as gentes que o espírito natalício depende da generosa capacidade de vender, pois só assim é possível dar.
Mas o natal tem insidiosas mensagens codificadas. O coelhinho de natal é um ultraje à moral e aos bons costumes. Não se sabe se o coelhinho aparece sem género, ou se o género masculino esconde a generalização (contra a qual feministas e bem pensantes tanto combatem) que irmana, gramaticalmente falando, masculino e feminino. Em havendo algumas coelhinhas ali misturadas, podem algumas ser avatares das coelhinhas que aparecem fotografadas numa famosa revista de mulheres nuas tão do agrado de camionistas, trolhas, solitários incorrigíveis e misóginos. Através do natal, os meninos são formatados, desde tenra idade, para a impudicícia dos corpos desnudados e da coisificação da mulher. O natal é o prolongamento do hedonismo que desagrada às igrejas que o celebram.
A figura do pai natal remói o imaginário dos adultos que convocam a criatividade quando as hormonas entram em ebulição. O vermelho da fatiota quadra com a lingerie vermelha que, dizem os entendidos, é sinal de luxúria abundante. Já houve publicidade que retratava o velho S. Nicolau rodeado de juvenis e esbeltas raparigas, todas em trajes menores que combinavam com as cores do traje oficial do pai natal. Vendo o ar ufano do velho Nicolau, sem ser capaz de esconder um trejeito maroto, não é preciso ir às catacumbas da hermenêutica para se lucidar que o velho parou na farmácia e abasteceu-se dos comprimidos que fazem o milagre do apetite sexual em idades que outrora já estavam em sopas de cavalo cansado.
Nunca se sabe se o natal não vem a ser interditado um dia destes. Ou, em não havendo tanta radicalidade, podem ser reinventados os símbolos do natal. Assim como assim, foi proibido em vários países um calendário expondo hospedeiras de uma companhia de aviação em sugestivas poses enquanto se mostram quase como ao mundo foram legadas por quem as pariu. Não vão os petizes começar a ter apetites precoces e os graúdos pensamentos pecaminosos que se encaixam noutra sinalética da quadra: as renas, que distribuem felicidade pelos meninos e meninas à espera do natal generoso, e respetiva armadura que faz de radar durante o voo dos bichos.

O natal que se cuide, que um dia destes fica à mercê dos cultores da existência assética.

16.12.13

Acertar contas com o tempo

In http://4.bp.blogspot.com/-OzG0uE6Ib6w/UhIUBlQiH6I/AAAAAAAAAIo/YjFPWTt34iA/s1600/persiana31.jpg
As cartas espalhadas em cima da mesa. Ao lado do copo de vinho, onde já assentava o depósito próprio do vinho envelhecido. A sombra à volta, entrecortada pela luz do candeeiro que pousava sobre as cartas. As mãos, as mãos suadas e tremeluzentes, desciam sobre as cartas. Os dedos pareciam acariciá-las. Ou apenas medravam, tementes que as cartas devolvessem um fado não querido. Lá fora um cão uivava insistentemente, e não estava lua cheia para tirar conclusões precipitadas no embaciamento dos simbolismos estéreis.
Ao lado do copo de vinho, um relógio antigo deixava a ecoar no espaço o troar dos ponteiros. Meteu as mãos suadas ao cabelo, despenteando-o. Era como se aquele gesto convocasse um impulso, um qualquer frémito vindo de dentro, capaz de desatar a inércia em que a sinfonia de vozes que se sobrepunham umas às outras deixava o pensamento. Espreitou entre duas filas de persianas. A noite ia tardia. O relógio confirmava-o; mas quem saberia se o relógio estava pela hora acertada? Mas ia adiantada a noite, atestada pela ausência que preenchia a rua virada para a janela de casa. O sono não estava para breve. Era uma daquelas noites em que as facas da insónia acertavam vinganças com a jugular assustada. O sangue, era como se corresse a uma velocidade vertiginosa nas veias, crestando-as com o sabor da inquietação. A dor dos combates inúteis era excruciante. E, talvez, uma perseguição despojada de entendimento.
Já tinha jurado que era tempo de acertar contas com o tempo. Adiara as contas. Umas vezes por falta de coragem. Outras, porque a distração do tempo, um demónio inimitável, desviava o olhar para onde não estava a matriz de tudo. Extenuado das noites em branco, das armadilhas que semeara no seu próprio caminho (queria acreditar, involuntárias), dos olhos marejados, da pele em refrigério pela decantação dos aleatórios ventos, sem critério, convencera-se que era altura de tirar as medidas ao contrário. Era tempo de acertar as contas com o tempo, de vez. Não podia arriscar a falta de coragem de outrora, quando se julgava curador de feras amestradas e, todavia, as trazia atadas a uma coleira que só as deixava ver ao longe. No acerto de contas com o tempo, desceria do pedestal e passaria a ver todas as coisas ao perto, derrotando o medo – o seu sepulcral desfaso.
O tempo que estivesse por vir seria o que viesse. Transitaria do medo do tempo exíguo para a planície de farta vegetação onde não havia sobressaltos com o tempo por experimentar. Acertar as contas com o tempo não tinha nada de pretérito.

13.12.13

Do rude outono (da vida) (II)

In http://3.bp.blogspot.com/--zhAm077dGs/URkXETJ5CTI/AAAAAAAAAhU/KxZDqs1LdL4/s1600/maos-calejadas-agricultor-campones-lavoura.jpg
O que Hilário não sonhava, no seu desprendimento rotineiro, era a observação de uma donzela que – pudera alguma vez sonhar – não seria de sua cepa. Catarina, um par de anos mais nova, era sobrinha dos feitores da quinta. Aparecia algumas vezes, que se dizia à boca pequena que andava desavinda de amores pela grande cidade e descontente com a profissão que levava. Aparecia por temporadas e depois desaparecia na mesma nuvem efémera que a tinha trazido.
Catarina já tinha reparado no camponês silencioso que não procurava a companhia dos outros camponeses, fosse na pausa para a bucha antes que a tarde começasse, fosse ao partir para a quietude da casa. Metiam-lhe impressão as mãos grossas e marcadas, como se aquelas rugas suplantassem as rugas que a idade, precoce nos camponeses, desvenda no rosto. E metiam-lhe impressão as mãos imundas, o que não era desmerecimento, mercê do árduo labor dos camponeses. Interrogava-se se os camponeses como Hilário tinham os mesmos cuidados de higiene em que fora adestrada. Via-os partir ao cabo da longa jornada, banhados em suor e tomados pela poeira ou pela lama (consoante o tempo que se tivesse posto) e na temporã manhã seguinte não notava diferença.
Por causa da solidão em que se acantonava, julgava que Hilário era um tímido. Tirou informações e soube que não se lhe conhecia família, nem nestas paragens, nem da terra de onde vinha. Nas sua elucubrações, Catarina interrogava-se se aquele homem rude sabia o que era o afeto. Ele não olhava para as mulheres da quinta, mas podia ser preconceito social que os da sua laia lhe incutiram – não podem os camponeses ter a ousadia de desviar o olhar para as mulheres de outra casta. Corriam histórias, de ouvido em ouvido, de que no passado tamanha heresia terminara em tragédia, com um peão audaz morto em circunstâncias estranhas, a polícia depressa diligente em terminar o caso por falta de provas.
Catarina procurou saber o que contavam essas histórias. Os tios desviavam a conversa. Os avós faziam um esgar contrariado e perguntavam, em tom de quem a procurava demover da curiosidade, qual a razão do interrogatório. Ela percebeu que esta curiosidade era a fivela de um súbito e estranho interesse por Hilário. Arrepiou-se quando confirmou o diagnóstico. Era lá possível desatar o interesse, nem que fosse pelos mais inconfessáveis e íntimos motivos, por um homem tão desinteressante?
Hilário continuava absorto no seu pequeno mundo interior. Era incapaz de notar as investidas silenciosas de Catarina, que andava por perto, observadora. Outro camponês, mais velho e experiente, observador exímio das condutas humanas, segredou-lhe que a sobrinha endemoninhada dos feitores andava ao largo e que sobre ele deitava olhares cativantes. Desprevenido, Hilário pediu para não haver sobre si tamanho escárnio, que ele era de paz e não perturbava ninguém. Que o velho se deixasse de toleimas, que talvez a lucidez se começasse a ausentar. E nem assim Hilário resolveu levantar a cabeça de cada vez que passava uma senhora pertencente à casta dos patrões. O seu mundo era outro. Desapossado de afetos e carente de sossego. Sem sonhos, sequer.

12.12.13

Do rude outono (da vida)

In http://photos1.blogger.com/blogger/8112/2753/1600/botas.jpg
Hilário findou a jornada no campo. Descansa no alpendre da casa maior da quinta enquanto espera ser pago pela semana que findou. O entardecer deixa sob o seu olhar um sol mortiço, tímido neste outono que já pressagiava a invernia, a transigir perante a noite. Passa as mãos encardidas pelo cabelo ralo, o cabelo espesso mercê da poeira que o arrotear do campo foi sedimentando no cabelo. Não era o grisalho revelador da meia-idade, mas um acobreado que condizia com a paisagem (as folhas caducas e para lá de amarelecidas; e a rugosa cor do entardecer, mais acobreada por causa da altura do ano, em que o sol ia baixo todo o dia).
Forrou uma das algibeiras com o maço de notas que, rudemente, o capataz entregou. Ia a tempo de um desvio pela tasca, que os bolsos forrados de dinheiro caucionam vícios. Pediu ao motorista que o deixasse no cruzamento de onde o passo estugado depressa chegaria à tasca. Entrou no antro. Jogava-se à sueca a um canto. Outra mesa era de intensa discussão sobre o fenómeno da bola, entaramelada com boçais dizeres sobre mulheres. O tasqueiro não tinha mãos a medir entre pedidos de vinho em copos de três e petiscos que abriam o apetite para o jantar que as consortes preparavam no remanso do lar.
Hilário pediu um copo de três – do melhor palhete que a casa guardava em pipa especial. Assim como assim, eram tantas as plúmbeas nuvens a pairar no horizonte, com incessantes histórias da crise que fermenta despedimentos, que não sabia se na próxima semana podia esperar pela jorna enquanto admirava o céu tomado pelo entardecer radioso no alpendre da casa maior da quinta. Pediu outro copo de três, do vinho da mesma igualha – que não importava que pagasse três quartos mais pela qualidade vertida no pequeno copo. Para acompanhar, um sanduíche de presunto, do presunto da melhor estirpe. O tasqueiro não queria saber dos parcos haveres de Hilário. Desde que o serviço fosse pago no ato, o cliente que pedisse o que lhe aprouvesse.
Hilário demorou-se na tasca. Ao contrário dos outros que por ali amesendavam, não tinha consorte à espera em casa. Aliás, o pardieiro onde dormia mal se podia chamar casa. Era um pousio sempre temporário, para repousar os ossos quebrantados depois de uma dura jornada de trabalho. Noites havia que se entregava à cama sem despir a roupa conspurcada que trouxera do campo. O banho ficaria para segundas núpcias, talvez na véspera de sábado, que sábado era dia de bailarico na aldeia vizinha – e de cuidar das unhas, que não podiam ter a lúgubre apresentação dos dias normais. Hilário adormecera mais depressa; era o efeito do vinho. Sonhou com sereias que não faziam de conta da sua feiura. Sereias que não comentava a ausente higiene, nem a rudeza de modos – coisa que ele não entendia, habituado à rudeza de modos de quem labora no campo. Sonhou que era senhor do seu pedaço de terra, que amanhava sem ordens de nenhum feitor. Sonhou que o outono da vida, a rude roda outonal à qual tinha sido atirado pela meia-idade, tivera retrocesso. Achava-se mais juvenil, jovial e magro, admirado pelas donzelas que (ao contrário dos costumes) o cortejavam.
Acordou com o cheiro pestilento vindo de uma das botifarras, daquela que pisara o estrume perdido por uma rês. Ou seria do odor da estrebaria contígua, que o desnorte não autorizava lúcido entendimento.

11.12.13

O mar pequeno das possibilidades imensas

In http://www.youtube.com/watch?v=HRRnosHzdCw
O cais sombrio não era espartilho para o olhar vindouro. Não embaciava o olhar que queria ser maior que as léguas do mundo. Por diante, o mar. O mar pequeno, antes de sair da embocadura da baía e perder as suas baias, entregando-se ao mar aberto, descomprometido.
Era dentro daquele mar emparedado que o olhar se apoderava das possibilidades imensas. Os olhos transitavam pelas pedras encardidas do cais, pelas pedras cerzidas pelo musgo perene. Nas suas costas, a escuridão emprestava ao lúgubre cais uma resplandecência singular. Não era por causa do tempo malparado que o rosto suplicava um outro devir. Sabia que as súplicas são como os arrependimentos, só que trajando diferentes dimensões do tempo. Agravam as dores que vêm pastoreadas na indigência do tempo que se desgasta na exata medida da inutilidade – da inutilidade que açambarca as súplicas para o devir e os arrependimentos do outrora.
As consequências tomavam tudo nas mãos. Era sussurrado ao ouvido da lucidez: que uma centelha depositasse nas mãos a flor que, uma vez afagada, se transformasse em mapa com as coordenadas apetecidas. Mas a resolução não era empreitada de somenos. O mar pequeno era todavia a irradiação das possibilidades que pareciam infinitas. Impunha-se uma decantação das possibilidades, a começar pelas que deixassem vestígios de folhas caducas, amarelecidas e defuntas.
Havia, ao longe, um cedro majestoso que se insinuava, pelo porte, porto de abrigo. Depressa outras três possibilidades abraçaram-se ao olhar como trunfos indeléveis que se prometiam imunes às fragilidades. Um vulto escuro, tão vulto que no meio da penumbra teimosa não se distinguia nas formas, tocava piano, incessantemente. Mal o olhar se desviava para diferentes quadrantes e logo se arrebatava com uma pastagem bucólica onde as reses se alimentavam em regime de slow food. Ou, no meio de uma citadina rua movimentada, o artista de mímica que conseguia o sortilégio de fazer de um gato vivo estátua de cera. Eram tantas as possibilidades, as promitentes possibilidades, que precisava de uma batuta para ser maestro e conseguir orquestrar as prioridades entre o imenso mar de possibilidades açambarcado pelo mar pequeno.
Daria ao tempo o tempo que o tempo reivindicava. Contrariado, por temor que o tempo remanescente fosse uma escravidão mercê da sua exiguidade.

10.12.13

O comentador, qual sumidade imensa, decretou que os académicos não servem para a política

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Às vezes, umas palavras disparatadas geram um furacão ulterior de mais disparates. O remoinho de vento começou com as desastradas palavras de um secretário de Estado, ainda por cima dos assuntos europeus, que, na Grécia, foi acusado de ser mais “alemão” do que os próprios alemães. Daí para a frente, o vento alísio montou no cavalo alado e, cravando-lhe esporas nas costelas, transformou-o num tufão sem rédeas. É disparate atrás de disparate, alguns com a autoria de gente intelectualmente acima de qualquer suspeita, mas que, perante o dislate do imberbe secretário de Estado, pede-lhe meças na imbecilidade.
Da muita tinta que escorreu dos habituais comentadores na imprensa, dois episódios. Primeiro foi Viriato Soromenho-Marques, por quem tenho um imenso respeito intelectual (mesmo que discordemos quase sempre quando intervém na imprensa). Querendo apoucar o rapazote que se pôs a jeito de tanta chibatada, Soromenho-Marques tratou de desvalorizar os estudos do secretário de Estado: “tem uns estudos” (ou algo de parecido, se a memória não atraiçoa). O desastrado governante tirou um doutoramento nos Estados Unidos. Não consta que a universidade que certificou o conhecimento seja uma universidade bastarda, ou uma universidade lunaticamente imaginária (como era o caso de um famoso guru das esquerdas bem pensantes, que entretanto foi desmascarado como acontece aos vendedores de banha da cobra). A menos que a revolução bolonhesa do ensino superior tenha retirado credenciais aos doutoramentos, e a menos que por cá já haja tantos doutorados que se lhes perdeu a conta, não se entende (a não ser por alguma irritação que é fermento da desorientação) o apoucamento da personagem política “apenas porque” tem um doutoramento.
Há dias, num programa televisivo onde a língua viperina é afiada até ao limite, um dos oradores menoscabou o infausto secretário de Estado, arrumando-o a um canto porque só se lhe conhece passado nas universidades, “nunca passou por empresas”. Se bem entendi: faltam credenciais para a política a quem nunca saiu do conforto do ensino numa universidade. Já aprendizes de calaceiro, pulhas profissionais, mestres na arte da intriga, lídimos caciques, ou gente com imensos estudos como carpinteiros, marçanos, jardineiros, ou “empresários da vida”, servem para a função. Só faltou decretar a inutilidade das universidades.
Devo confessar que, como académico que nunca fez outra coisa na vida se não ensinar na universidade, exultei ao saber da sentença do comentador. Assim como assim, não tenho ambições políticas e desprezo a política (a da governação e mais ainda a da infecta vida partidária). Estou desqualificado para a função.
Obrigado, Pedro Marques Lopes, por me ter assim sossegado!

9.12.13

A impugnação das almas

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Numa noite de boémia, em que o nevoeiro da embriaguez já pousara nas pálpebras, esbarrou num padre que afagava mágoas no balcão do bar. Só soubera que aquele homem ainda jovem, impecavelmente apessoado, era padre depois de uma conversa que já ia demorada. O homem fraquejou e teve de confessar, não fosse o seu bom deus destravar a implacável ira sobre um seu embaixador, que era sacerdote.
Tinha a impressão que o padre, ali no formato de homem, estava ainda sóbrio, enquanto ele já tinha transposto o portão da ebriedade. E, todavia, era o padre, deposto na sua humilde condição de homem, que tomou as rédeas da conversa. Para sua surpresa – tanta que, a páginas tantas, parou de beber –, o padre inverteu a posição que costumava ser sua e desceu ao rés-do-chão de onde os mortais imploram por perdão depois de arrotearem o lodaçal dos pecados. O padre precisava de falar. Começou por admitir que de tantas confissões escutar (“só hoje foram dezassete”), já nem se lembrava dos seus pessoais pecadilhos. Talvez se refugiasse na frugalidade do confessionário para não se intimidar com os próprios pecados.
Destemido, como só os vapores do álcool caucionam, desafiou o padre: “não acha que foi para o sacerdócio para ocultar fraquezas?” O padre estugou a bebida, disparou um olhar iracundo, mas depressa regressou à humilde condição de quem se desnudava ao penetrar o olhar remoto no fundo do copo de onde o uísque se esvaziava. Concedeu: “é isso mesmo. Como posso julgar os outros que aparecem em confissão se transito pelos terríveis caminhos do pecado?” Começou a chorar. Com a abundância de uma criança a quem foi furtado o brinquedo preferido, ou de alguém que via partir um ente querido. À volta dos dois homens era, como se o tempo estivesse parado. Pela indiferença dos demais. Ficou incomodado quando notou o choro convulsivo do padre. Julgava que as pessoas à volta iam reparar e se achegariam em solidária curiosidade. Foi o contrário. A boémia não dava espaço à comiseração.
Fez-se um silêncio sepulcral – até a música que antes berrava parecia ter entrado em hibernação. Era um silêncio demorado, apesar daqueles instantes não serem a moldura de uma demora qualquer. Ele não sabia que palavras compor para apaziguar o padre. Atrapalhado, e com a habitual falta de jeito para usar palavras quando o momento as exigia, passou o braço pelos ombros do padre. O sacerdote, despojado da sotaina quando desnudou a sua perplexidade interior, enxugou as lágrimas, levantou os olhos e assegurou, convicto “era a minha alma, antes de todas as demais, que merecia impugnação”. E ele, mau grado o ateísmo incorruptível, fez a interrogação final: “e se conversar com o seu deus, não consegue aplacar as transgressões que o importunam?
O padre saiu do balcão. Intempestivamente. Ainda foi a tempo de o ouvir a vociferar entre dentes: “e quem é deus?

6.12.13

Maus hábitos

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A vida excessiva. E a propensão para a rebeldia. Eram as traves mestras. Porventura outros se inquietariam ao saberem que eram tresmalhados aos olhos outros. Outros ficariam desapossados do sono só de saberem que eram repudiados pelos maus hábitos de que eram embaixadores. Ele regozijava-se com o opróbrio que os outros atiravam para cima do seu dorso. E quanto mais reprováveis eram os hábitos, mais arranjava maneira de os empobrecer (se os cânones do julgamento fossem os dos meirinhos da provecta normalidade).
Na exata medida do envelhecimento, vinha o decantar dos maus hábitos. Houve quem jurasse que a idade seria apoquentação tanta que os maus hábitos haveriam de ser aprisionados no alfobre das memórias. Diziam: “há de amadurecer, nessa altura as loucuras de outrora serão por fim entendidas como coisas estouvadas que foram.” Como a par da rebeldia nidificava um espírito de contradição singular, quanto mais o importunavam, e quanto mais a importunação soasse a exigência de outro comportamento, mais polia o comportamento condenável.
Houve quem lhe chamasse pária. Cultor do ensimesmar, toureando com destreza as apoplexias interiores, julgava-se profeta que contradizia a letargia contagiante. E, por isso, ufanava-se dos maus hábitos por onde transitava. Dormia a desoras – e quando as desoras se tornavam banais, trocava os fusos ao sono, nem que nisso coincidisse com os banais mortais em que se não revia. Não cuidava do que comia, não cuidava da forma, nem da aparência física. Os excessos convocavam as drogas, sem critério nem calendário, e o álcool em suas múltiplas categorias. Lia os livros proscritos. Ouvia a música desdenhada. Apurava a promiscuidade. Calçava botas rotas e só ficava contente quando as botas se rompiam, tratando de apurar a função com punhais que se punham a feição. Desafiava, militantemente, a autoridade estabelecida, da mesma forma que ia às manifestações de desordeiros só para os insultar (o que lhe valeu a custosa injúria de ser acusado de ser agente infiltrado da polícia). À noite, pichava paredes com versos herméticos de poetas que acabara de ler na biblioteca. À noite, ainda, empunhava megafone e proclamava estrofes desassisadas que ensaiava quando acordava convencido que era um profeta.
E nem os cabelos brancos, os padecimentos (que o corpo entardecia no envelhecimento), as senhoras bem postas que atravessavam a rua quando o viam no mesmo passeio, os parentes próximos que fingiam não serem da mesma família, ou a descendência que deixara que o ignorava como progenitor (por precato), o demoveram dos maus hábitos. Jurou, numa jura que só tinha efeito para si mesmo, que os maus hábitos seriam sua sepultura. Preferível fado ao marasmo do tempo todo igual e da gente que cultivava a artificial diferença irmanada pela concordância no geral.

5.12.13

O rio é uma centelha

In http://dnr.wi.gov/topic/Lands/WildRivers/images/BullFalls3_700x288.jpg
Para lá dos altos prados, num lugar remoto onde as rochas graníticas se afundam numa cova fecunda. Nesse lugar, onde um fino fio de água sobe das entranhas, um frágil regato escorre devagar pela pouca inclinação do terreno. Há rios que perecem na sua nascitura forma, quando as entranhas padecem de estival aridez na ausência demorada da chuva que seria seu manancial. Mas este é um rio bravo, até quando num quase impercetível fio de água desafia os elementos e o frio glaciar do inverno, nunca se depondo em sólida forma do gelo que adorna os montes à volta.
Um pouco à frente, aproveitando o declive do chão que se afunila em voraz precipício, o rio acelera a marcha. Até lá recebe outros, esparsos, mantos de água que o engrossam. Quando se despenha no desfiladeiro já ganhou a feitoria de um rio visível. Dissolve-se em espuma enquanto esvoaça antes de se estatelar com fragor nas rochas alisadas pela interminável erosão das águas em sua queda. Empreende o rio uma viagem alucinante, emparedado pelas margens. As águas insubordinam-se em seu leito sitiado, rumorejando uma fúria infantil e, todavia, medonha. Dizem os habitantes locais que nunca alguém se aventurou nas alvoraçadas águas do estreito leito. O rio é atirado às feras, faz antecipado tirocínio das contrariedades. Depressa o rio se converte em fera e as pessoas contemplam as águas amotinadas com admiração e temor.
Mas o rio cansa-se dos solavancos que o destemperam. O terreno ajuda quando se aquieta das alturas e oferece um leito suave, já sem o espartilho das margens ameadas por altas muralhas. Acalma-se, o rio. Já está maduro para receber outras águas, os nutrientes arrematados pelos afluentes que a ele vêm. Não adultera a sua identidade, que o curso maior de água é ele que o transporta. À medida que na sua embocadura desaguam os afluentes, o rio começa-se a transfigurar. Já não é o manancial puro com alimentação telúrica, o rio indomável que conheceu a paisagem das altas montanhas. Águas outras temperam-no, ensinam a olhar com olhos diferentes para as paisagens que desfilam no horizonte.
Ao envelhecer, o rio agiganta-se. Alarga-se em sítios onde as margens contrárias se distanciam por léguas. O movimento das águas quase não se nota por entre a quietude do leito madraço. Uns poetas consagraram versos arrebatados à luz que o rio empresta à cidade que é seu derradeiro apeadeiro. Pressagiando o decesso, quando o rio por fim se entrega nos braços da vastidão do mar. Um paradoxal óbito, proclamavam esses versos: na sua senescência, era um fulgor de vitalidade, um largo leito reivindicando o respeito de quem nele deitasse o olhar.
Os poetas estavam equivocados. Quebrados versos na sua finitude, que o rio não tinha cais final quando as águas suas se misturavam com as do mar. A entrada no vasto mar era um lampejo do rio, que vem adocicar o salgado mar. O seu leito acamava, em lenta diluição, no mar. A altivez do mar era também um quinhão da altivez do rio que nele de deitou. Provando que não era a foz o lugar do seu decesso.

4.12.13

A boçalidade é masculina

In http://misteriosdacriacao.files.wordpress.com/2009/12/neandertal.jpg
A frequência de balneários é uma pedagogia. Quem não conseguir fazer de conta que não escuta as conversas, não foge ao empanturrar de lições da masculina boçalidade. Ele são ainda os jovens que cavalgam nas hormonas e destilam sapiência na arte da sedução (quando a sedução rima com soez humilhação das parceiras, habituais ou ocasionais). E ele são os mais velhos, os que não andam longe da andropausa e os que já lá habitam, de pergaminhos certificados no meio social, mas exímios na linguagem de caserna.
Talvez o defeito meu seja não entender por que um membro da masculina confraria tem de exibir galões de boçalidade. Ou, se calhar, os balneários estão contaminados com um vírus que desembainha o desbocamento dos machos que, através de linguagem desbragada e de ideias primatas, alardeiam a certidão marialva. Que os mais jovens, ainda na borbulhagem das hormonas salivares e sitiados por uma indigência mental risível, o façam, é um naco de imaturidade a bolçar no seu próprio refluxo. Que a diarreia boçal seja vociferada por senhores aparentemente bem postos (retirado do contexto das conversas de que fui involuntária testemunha), é porque estes senhores, empresários impecáveis, também transitam na ignorância contumaz, ou, em o não sendo, sentem uma irreprimível pulsão pélvica e o discurso desce ao nível do lugar onde eram segregadas as hormonas viris.
E esta gente ufana-se de fazer de cada mulher um objeto apenas. Vangloria-se de proezas talvez idas – e talvez por isso se vanglorie, para resgatar ao passado memórias que são uma evocação trazida para o impotente presente. É a mesma gente que me faz acreditar na necessidade de sindicatos (assegura-o quem desvaloriza a existência de sindicatos), tamanha a sobranceria que cola aos patrões a pior das conotações. Se a linguagem de caserna é imperativo de socialização, como credencial que só depois de emitida admite o candidato à conversa da tribo, prefiro a solidão de género.
Os outros, os que querem admissão à tribo lorpa, por contágio, dão a sua achega para o rosário de boçalidades. Que, de tantas serem, deixa no ar um odor a latrina.