18.7.14

Impressões de um colaboracionista da pior cepa

In http://www.blogodisea.com/wp-content/uploads/2012/01/mujeres-francia-colaboracionistas-nazis-gestapo.jpg
Hoje, ao acordar, descobri que sou colaboracionista. Foi o Prof. Doutor Francisco Anacleto Louçã que me fez luz. Deu uma entrevista ao i para lavar a roupa suja por causa da arenga no partido de que continua a ser eminência parda e figura tutelar. Aos dissidentes, que partiram para o regaço dos socialistas, acusou de serem colaboracionistas. Porque foram para os braços dos socialistas que também chamaram os perpetradores da pobreza eterna que vieram do estrangeiro.
De uma assentada, os métodos trotskistas (tão enraizados que não se descolam do pensamento e da ação) trataram de fazer um julgamento de personalidade de quem discorda do Anacleto, que se arvorou em juiz supremo de um tribunal de que é o único juiz. Fosse por ele, e só por ele, nem se imagina o fado dos que fossem dissidentes do seu pessoal catecismo. E, de uma assentada também, cuidou de amesquinhar todos os que não se revêm no seu pessoal catecismo e não aceitam (porque estão a léguas da sua cognição catedrática e totalitária) que a troika nos fez terrivelmente mal. Toda essa gente (que representava, nas últimas eleições legislativas, 88% do eleitorado) é “colaboracionista”.
O Anacleto não é ingénuo e sabe como cuidar das palavras. Ignorância não é defeito que se lhe reconheça. Um colaboracionista é linhagem pouco recomendável, pois remete para um contexto histórico. Colaboracionista foi o governo francês instalado em Vichy durante a invasão dos alemães. Colaborou com os invasores, traindo a França que acabava de ser invadida. O Anacleto chama a 88% do eleitorado colaboracionista (ainda a medida eleitoral com validade, por mais que lhe custe a concordar). Eu, que não votei em nenhum daqueles partidos, mas agradeci a assistência económica e financeira e a vigilância apertada para evitar mais asnear governativo, sou – por esta bitola anacleta – colaboracionista.
Não me importo. Desconto o ultraje escorado no contexto histórico insinuado nas palavras do Anacleto. Porque entre as opções – ser colaboracionista ou anacleto, na forma estranhamente binária que vem à cabeça do Anacleto – não tenho dúvidas na escolha. Podem os “invasores” da União Europeia e do FMI ter semeado empobrecimento no imediato. Podem ter forçado medidas impopulares, sacrifícios como não há memória na história da democracia. A cartilha diferente, assinada por Anacleto e seguidores, é um buraco negro nas suas consequências. Mal por mal, antes colaboracionista. Que é um mal menor do que alinhar com as demências do Anacleto.

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