9.3.15

Os frades espigadotes

Iggy Pop, “Lust for Life”, in https://www.youtube.com/watch?v=jQvUBf5l7Vw
Ah! a carne, a maldita carne que descai para as suas fraquezas. Carnais. Até entre o clero. Pois os membros do clero são feitos da mesma massa biológica dos homens. Não lhes vale nada a disciplina mental, ou outras manhas onanistas que disfarçam os calores que os percutem quando uma lúbrica mulher se cruza no caminho.
Uns preconizam a admissão dos padres às delícias da carne. Deixá-los serem homens e permita-se-lhes o que aos restantes homens é admitido. Não é aceitável comandar os instintos básicos das pessoas. Os efeitos podiam ser catalisados para outras pessoas – as mulheres e os homens (sem preconceitos nem desigualdades) que viessem a cair no regaço de padres enfim admitidos à volúpia. Um serviço prestado à comunidade. E talvez não houvesse algum clero a escorregar para o mais proibido pelos costumes sociais, as delícias com menores popularizadas em poemas pós-adolescentes do então ainda não professor Boaventura, ou curas que mantêm em segredo um harém como amantes clandestinas. Era uma medida de sanidade mental com efeitos espalhados por toda a sociedade. As raparigas em desabrochamento e as senhoras mal servidas em casa sempre teriam um amparo no sacerdote confessor, que não apenas um ombro reconfortante e um ouvido atento.
Outros mantêm-se atávicos na exigência de castidade. O clero deve obedecer ao voto de castidade. Não são convincentes na explicação. O melhor que conseguem é ensaboar-se na “tradição” e nos “dogmas”, como quem alinhava um “não, porque não”. É uma castração ditada por decreto canónico. Contra a ebulição das hormonas que, comandadas por leis biológicas (que desmentem as leis canónicas), se excitam com um belo par de pernas ou com um decote provocador ou com a filtragem de imagens mentais do que poderia ser um pedaço de tempo entregue à pura lascívia. Por que ninguém propõe aos conservadores de sacristia a castração química para quem se despojar de si mesmo no altar de deus? Ao menos, eram congruentes.
Os frades espigadotes não fecham os olhos à bela estética do sexo que satisfaz os seus gostos. Nem se lhes pode vasculhar a intimidade para indagar os pensamentos pecaminosos (por serem carnais), ou o entretenimento, nas horas vagas, em volta de revistas eróticas ou de filmes clandestinos que encontrem no baú da internet. A natureza humana não se nega. Nem que os ministros de deus, seus porta-vozes putativos, certifiquem que deus mandou adulterar a natureza humana.
Talvez seja significativo. Deus, e os seus putativos porta-vozes, não percebem da natureza humana.

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