11.12.17

A valsa sem fim

Indignu, “Onde as Nuvens se Cruzam”, in https://www.youtube.com/watch?v=xzJWIyr7KF8    
Os corpos dos velhos, abraçados, movem-se sob a música vagarosa. Demoram-se – os corpos, a música, a dança. Sem intempéries por estorvo, sem que houvesse mundo lá fora; intemporais. Os velhos olham-se nos olhos recíprocos. Metem-se nos olhos um do outro e perguntam quem são.
Dir-se-ia ser imperativo o vagar. Os corpos cansados, as artroses que empalidecem a coreografia e a idade impedem que as coisas sejam compostas como seriam antes de a velhice avançar e ficar sitiada pelo tempo. Não se importam, os velhos. Os rostos estão tão próximos que seria possível contarem as rugas um do outro, uma a uma. Não interessa. Continuam a mover os corpos na coreografia compassada, no penhor dos corpos aceitáveis. Às vezes, fecham os olhos e a música desce lânguida pelo corredor das memórias. De lá resgatam o imenso lugar de que foram artífices, o amor singular. Não lhes interessa se alguém proteste que o amor é sempre singular; os velhos só respondem pelo deles.
Prosseguem a valsa descalços. Não são os pés gastos que impedem a fruição do chão frio, como se fosse preciso arrefecer a febre que ainda têm pela perseverança da vida. Ele sussurra: “ah! se nos vissem, diriam que somos loucos.” Ela anui com um suave movimento da cabeça, para depois a repousar no ombro largo do companheiro. Fica com a palavra “loucura” a adejar sobre o pensamento. Foram tantas as loucuras, o sedimento largo do amor, que não sabia se era por pudor que as não contava, ou se era por serem matéria deles exclusiva, a farta seara de que foram artesãos.
Não interessava. A noite não tinha horas. A música continuava, teimosamente, à espera do cansaço dos velhos dançarinos. Eles não desistiam da valsa. Da vagarosa valsa. Mandaram parar o tempo, não fosse esgotar-se a música, cansada pela resistência dos velhos. Quando deram conta, a madrugada tinha sido reposta. As pernas não acusavam cansaço e os pés não estavam frios como o chão da sala deserta. Os velhos estavam mais vivos do que alguma vez souberam estar.
Não era a última valsa. Era a valsa sem fim. A valsa que tornava o tempo imorredoiro e lhe retirava a caução de medida a destempo.

8.12.17

Sem fio condutor (nó cego)

Ermo, “Ctrl+C Ctrl+V”, in https://www.youtube.com/watch?v=uhXmIjj-rIQ    
Não são as cores que devoram o apetite dos olhos. A silhueta sugestiva, talvez zeladora do desejo, cativa um módico do olhar. Lá dizem: os olhos comem, mas a barriga fica à míngua. Pode ser uma farsa. Pode ser apenas o produto de um sonho – fronteira frágil, a diferença entre o sonho sonhado e a matéria sensível colhida nos areópagos dizíveis. Os talentos naufragam: a putrefata igualdade assim impõe. Manda o sossego das almas que se não incomodem os viriatos da semântica bem-pensante. Não se deseja o incómodo degredo. A menos que o exílio, depressa sentenciado por outros, seja indiferente.
Vira-se a lua do avesso para confirmar a sua cor. Para confirmar se é alvura impressionante a luz de que é feita. Pode-se esperar, em tratando-se de um avesso, o contrário do que se espera: e em vez da alvura impecavelmente caiada, depois da ponta do véu levantada sobrarem trevas que não se recomendam. É o que se diz: a luz-ébano não é luz, e os movimentos culturais que consagraram o negro como cor e matriz estética não são confiáveis. O nó fica por desatar. Talvez seja cego, a preceito das trevas que estavam escondidas no avesso da lua.
Não se diga, nunca se diga, convincentemente, que é impoluto o caminho pretérito. E que ninguém jure o que seja dado a jurar se a medida do tempo por que se mede a jura for o porvir. Há revoluções por muito menos, mercadorias aparentemente inúteis que foram transacionadas por preços exorbitantes, almas despedaçadas nos despojos da noite apanhados do chão húmido, sangue vertido que podia continuar aforrado. É precaução criteriosa calcular as palavras, medi-las com a mais rigorosa fita métrica. Para não se cair no ardil da métrica das palavras usadas em descomeço. O rio macilento esconde nas suas visíveis funduras um nó cego. O nó dantes ignorado, quando era fértil o caudal.
Atiro à parede mais próxima os dados que dedilham o fado desalfandegado. Vê-se tudo no silêncio sepulcral que acompanha a coreografia das nuvens furtivas, um foro sem curador. Não se sabe se é a manhã que se insubordina, ou se é um amanhã que se promete, vazio como são os amanhãs em cascata.
No tirocínio dos astronautas sem céu, convocam-se as falésias onde se aprecia o desenho do mar. Talvez não seja má ideia desatar o nó, por mais que cego seja.

7.12.17

Acordo de cavalheiros

My Bloody Valentine, “Sometimes”, in https://www.youtube.com/watch?v=1c8Selr9Aec    
Termos em que a barbárie não pode ter vindicação, sob pena de acabarmos com a civilização (pelo menos, como a conhecemos). Os homens que se entendam, ou os termos da resolução deste contrato não afastam a possibilidade de caos. Os homens são lúcidos. As divergências não são o veneno fatal do desentendimento. Que se mantenham as divergências; mal do mundo se elas não existissem, pois corríamos o risco da indiferença entre uns e os outros. Não podem as divergências, contudo, medrar na intolerância. Não podem ser o frémito que, avassalador, cavalga às costas do adversário, depressa feito inimigo. Que os homens se mentalizem: quem assim se comporta não tem noção das medidas e age em perfeita desarmonia com a proporcionalidade.
Talvez os homens não sejam de cepa de forma a tolerarem que haja outros diferentes de si. Talvez o acordo de cavalheiros, nestes termos, devesse contemplar o hermetismo dos grupos. Grupos indiferentes mutuamente. O critério para não sermos reféns do cataclismo das divergências insuportáveis. Os homens que não sejam eremitas. Aprendam uns com os outros. Aprendam com o que as diferenças lhes podem ensinar, usando o raciocínio flexível para não fechar as gavetas onde se alojam os outros. Neste acordo de cavalheiros, ninguém tem de mudar. Ninguém tem de prometer ser diferente daquilo que é. A ninguém deve ser dobrado o braço, em forçosa capitulação que coincide com o ostensivo triunfalismo dos vencedores.
No acordo de cavalheiros ninguém perde e, contudo, todos ganham. É através do acordo de cavalheiros que os homens admitem que o mesmo o sangue circula nas suas veias. Que o pensamento obedece a uma mesma matriz estrutural. E que idiossincrasias estultas não esbatem um património comum. No acordo de cavalheiros não se obliteram as diferenças. Elas são sublimadas através do rufar dos tambores que anuncia um princípio geral de tolerância, no irrecusável alfobre das diferenças. Pois neste acordo de cavalheiros ninguém intui ganhar vantagem às costas de outro, dele precisando como hospedeiro de um triunfo que equivale à sua humilhação.
Que se convençam os homens da vivacidade do acordo de cavalheiros. Que sejam cavalheiros – ou qualquer outro étimo, sinónimo ou não (que interessa a semântica?), que traga os homens para o pináculo da sua humanidade.
Sim: acordo de cavalheiros, porque não custa orquestrar utopias.