12.7.17

Os messiânicos


Wand, “Plum”, in https://www.youtube.com/watch?v=FZXI6Pw_CgE    
Passo os olhos pelos livros e há um que me desvia o olhar pela chamada de atenção ao prefácio. Até parece que o prefaciador (o Louçã) é mais importante do que o autor (Thomas More, Utopia). No excerto do prefácio, o grande doutrinador das massas (e da arrivista, jovem e já não tão jovem, burguesia urbana) deixa um lamento: o mundo é uma coisa má e através da leitura deste livro de filosofia é possível termos esperança que o mundo pode ser mudado para melhor.
Justapõem-se os pensamentos, desviando do sudário do Louçã, que daqui para diante deixa de ter relevância para os propósitos do texto. Os messiânicos são gente paradoxal. Protestam o descontentamento contra as iniquidades que selam o mundo no tempo em que vivem. Ao mesmo tempo, projetam o pensamento para o tempo vindouro, oferecendo o rol de condições necessárias para o mundo passar a ser um lugar aprazível. São tementes do presente (e ferozes críticos do passado que faz a ligação com o presente), mas levantam o véu da esperança quando metem o futuro na sua centrifugadora de ideias. Julgam que temos um ónus coletivo: somos responsáveis perante as gerações que virão depois: não podemos esperar por elas para o mundo ser o idílico pedaço de uma coisa melhor (pois, talvez, desconfiem da capacidade das gerações posteriores, ou apenas a sua letárgica indiferença, numa exibição de sobranceria mal disfarçada que lhes cai mal). Devemos arrotear caminho para as transformações necessárias para o mundo das gerações posteriores ser um “mundo melhor” (na expressão arregaçada pelo Louçã). Não se percebe, ao cabo das prédicas entranhadas de elevado teor moral, se os atuais intérpretes da mudança ainda têm tempo para dela tirar partido – mas essa é discussão que fica para núpcias posteriores.
Aqui fica uma ideia sem o beneplácito dos cânones politicamente corretos: não me importo que o mundo amanhã seja melhor. Nem sei se o mundo, hoje, é um lugar terrível para viver. Talvez seja, se a posição de partida for objetiva, centrada no que nos é dado a experimentar no tempo que temos entre os dedos. A ambição da perene insatisfação assim determina. Contudo, o tempo atual não pode ser desligado do passado. Os dois tempos devem ser cotejados. Nessa dimensão, o mundo é a coisa terrível ajuizada pelos messiânicos do futuro sempre melhor. Pois se levantam hinos que enobrecem o devir, na condição desse tempo fazer a vontade às suas ideias, é porque estão mortificados com o tapete do tempo em que têm vida. Os messiânicos vivem aprisionados na esquizofrenia de quem é pessimista no presente e otimista no futuro – mas otimista à condição, satisfeitas sejam a grelha de análise e as soluções a preceito que oferecem aos vindouros (e a quem os segue no presente).
Os que não são messiânicos e assumem a humildade metódica de admitir que não são capazes de reescrever o mundo nem de o apalavrar na mudança (nem, muito menos, de certificarem que a mudança é para melhor), são tutores de um otimismo do presente que contraria o otimismo do futuro, e sem chão ajuramentado, pelos messiânicos. Não é egoísmo. Nem conformismo. É a humildade de quem não é capaz de ilustrar o devir com a chancela da bondade. É a sobriedade de não caucionar a intrusão no devir através da mão sapiente do tempo presente.

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