19.9.19

O guarda-redes de hóquei em patins que tinha uma interminável confiança na bondade dos Homens


Joan as Police Woman, “The Magic”, in https://www.youtube.com/watch?v=ZPqVig-ggMw
“Todos deviam pôr os olhos no guarda-redes de hóquei em patins”, advertia, sem querer passar por tutor da moralidade ou impositor de um imperativo categórico que todos tivessem de cumprir.
(Porventura, o “todos” na frase podia ser considerado excessivo, se as suas intenções fossem treslidas. Se preciso fosse, ele esclarecia que “todos” não convoca uma interpretação literal.)
O guarda-redes de hóquei em patins tinha um depósito sem fundo na espécie humana. Era como se fosse o banco central da humanidade, com conta aberta, e a descoberto, sem limite de fundos, a favor da bondade intrínseca dos Homens. Em cada episódio que soava a soez desvio de uma alma humana, o guarda-redes de hóquei em patins congeminava uma teoria justificava do comportamento desviante. Ele teorizava, partindo deste princípio: se o comportamento era desviante, algo de exterior ao indivíduo estava na origem do desvio. A pessoa, sozinha, nunca era culpada de nada que a retirasse do plácito da bondade.
Houve um caso em que um homem foi acusado de vários assassínios. Em julgamento, não se arrependeu. Confessou tudo e, provocando os costumes, anunciou que se o tempo voltasse atrás faria tudo igual. O guarda-redes de hóquei em patins investigou. Chegou ao seu conhecimento um punhado de circunstâncias (que não quis revelar, para não violar a lei geral de proteção de dados) que era o lastro para o comportamento desviante. No final, revelou que o criminoso foi vítima das circunstâncias que o sitiaram. Fosse o guarda-redes de hóquei em patins o juiz e a absolvição teria sido consumada.
Noutro caso, um casal (homem e sua amante) urdiram uma armadilha para retirar do mundo dos vivos a consorte da segunda. A sociedade insurgiu-se, censurando o estratagema e punindo o homicídio em dobro – pelo homicídio em si e com a agravante de a trama ter sido montada por dentro do adultério; e a sociedade dos bons costumes não tolera o adultério, sobretudo quando é cometido pelos outros (essa deletéria reticência). O guarda-redes de hóquei em patins saiu em defesa do casal ostracizado. Exortou os concidadãos a despojarem-se do preconceito e a sublimarem o amor que levou o par a extravasar dos parâmetros convencionados. Fosse o guarda-redes de hóquei em patins o juiz e a absolvição teria sido consumada.
Depois, o guarda-redes de hóquei em patins arranjou explicações para um político que tinha sido apanhado em contumaz mentira. Quando já o político tinha caído em desgraça, arrastando o seu cadáver (político), o guarda-redes de hóquei em patins, que nunca votou neste político, explicou, uma por uma, as razões da mitomania. As mentiras estavam perdoadas. Fosse o político a votos outra vez, teria o voto do guarda-redes de hóquei em patins.
“Vejo sempre o guarda-redes de hóquei em patins com um sorriso no rosto. Sempre. É o mínimo denominador comum – a pior das hipóteses. Vê sempre o lado cheio do copo semivazio. Não aceita a maldade dos outros. Prefere encontrar os rudimentos da bondade. Não se cansa de defender que a bondade é intrínseca. Já o ouvi dizer: ‘se o Homem tivesse sido criado para a maldade, não tinha sido dotado de razão. Não se distinguia dos outros animais’. E assim segue pelos dias fora, amanhecendo em rima com o sol radioso.” E depois percebeu que o guarda-redes de hóquei em patins tem esta inata condescendência por causa da função: “assim como assim, o guarda-redes de hóquei em patins está habituado a ser a muralha que impede os golos do adversário. E dá o peito às bolas, sem tergiversar.”

18.9.19

Petição de princípio (short stories #160)


New Order, “Ecstasy”, in https://www.youtube.com/watch?v=2jLVV-eOiAw
          Pertenço a uma casta sem paradeiro. Não deixo que as páginas amareleçam nem que sejam assaltadas pelo tempo estrénuo. Se duvido, persisto na consagração da pergunta, como se fosse um banquete para alma. Leio. Observo. Pergunto outra vez. Sem o sono ausente, que é embaraço. Dizem que ao avançar na idade precisamos de menos sono. Sobra o tempo; mas todos protestamos, em coro com a moda dos assoberbados, que faz falta ter mais tempo para o que se não tem tempo. Aproveito o mar para tirar notas. O luar para decifrar músicas. Dou às mãos a maresia que se insinua desde um lugar distante e se faz cais na minha morada. Da noite não espero nada, se não sonhos. Um património imaterial. Os sonhos que vêm de uma fábrica de prodigalidades. Às vezes, não sei que palavras encontrar. Não sei que palavras escolher, depois de satisfeito o dilema precedente. Revolvo o processo desde as fundações: pode ter acontecido que as palavras encontradas sejam órfãs, o que contamina o processo de sua escolha. Não importa. É sempre preferível ao silêncio, menos quando o silêncio é a poesia que se contempla na embocadura da janela. O vento frio tutela o corpo. Não tenho frio, apesar de atestar tratar-se de vento frio. No meio de um nada, um vestígio é uma fortuna. Esse é o sortilégio: demandam-se os pequenos nadas que se transfiguram em fortunas desmedidas. No palácio da escassez, um pequeno rudimento aromatiza a literatura de que somos intérpretes. Os pequenos nadas não se compadecem com as empreitadas soberbas. Amo o amor como o amor me traz por amo. Sou estuário largo, com uma distância de perder de vista. E, todavia, só albergo quem tomo por amor. Ocupa todo o estuário que sou. Com a noite a meio, repousando no ombro lateral, só para sentir a pele macia que me devolve o sono pouco. E desses poros extrair, como ouro maior, a impressão digital que faz de mim bússola.

17.9.19

Confissões de um pária


The White Stripes, “Seven Nation Army”, in https://www.youtube.com/watch?v=0J2QdDbelmY
(Mote: em momento introspetivo e, ao mesmo tempo, de uma, porventura, excessiva autoavaliação, uma pergunta de partida: pode um intelectual escrever sobre o que sentiu ao ser espetador de um jogo de futebol sem diminuir os seus pergaminhos?
Já não ia ver um jogo de futebol há muitos anos. Nos estádios, nunca fico satisfeito com as condições do lugar: se é próximo do relvado, perde-se a noção do espaço; se é num lugar altaneiro, perde-se a emoção de estar perto dos intervenientes. É um espetáculo caro, sopesando a qualidade com o preço que se paga. E depois há a audiência. É o pior de um jogo de futebol. Gente invariavelmente de cabeça quente, incapaz de ser imparcial, incapaz de não destratar o adversário – é num jogo de futebol que por tanto destratar o adversário mais se aproxima do conceito de inimigo, o que é um paradoxo no desporto. O desporto foi concebido nos antípodas da guerra.
Fui ver um jogo de futebol da equipa que sempre foi a minha favorita. Não ganharam e jogaram mal. Do mal o menos. Como fui desaguar num sector do estádio onde estavam acantonados os adeptos da equipa da minha preferência, levei um banho de adeptos da minha equipa. A páginas tantas, senti uma pulsão interior e quase irreprimível – mas também indizível – de apoiar o adversário. E não era por causa da má figura da equipa da minha preferência. Era por causa dos adeptos da equipa, primatas, boçais, entoando incansáveis (na perspetiva deles, apenas) cânticos que, entre outros dislates, juravam que o maior amor que sabem existir é dirigido à equipa que dizem “amar”. Como o jogo não estava a correr bem, os adeptos eram esquizofrénicos. Tão depressa eram capazes de “dar a vida” pela equipa como, após uma jogada mal terminada ou um ato falhado de um jogador, partiam para o insulto fácil. 
No fim da contenda, ficámos retidos pela polícia quase meia hora. Para evitar querelas entre os apoiantes das duas equipas, se acaso dessem de caras uns com os outros à saída do estádio. O que é sintomático da irracionalidade que ferve no sangue desta gente, que não percebe que um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol, como uma vitória, ou um empate, ou uma derrota são apenas isso mesmo, vitória, empate ou derrota. Nessa quase meia hora, os adeptos entraram em conciliábulo. Devo ter conhecido, só à minha volta, uma dezena de catedráticos da especialidade. Se houvesse dúvidas, ter opinião quase sempre não quadra com entendimento. 
À saída do estádio, estava encanitado. O mau humor não provinha do empate da equipa da minha preferência. O mau humor fora requentado pela minha incapacidade de identificação com o clube da minha preferência quando tenho por perto uma turba que partilha comigo esse elemento. Apeteceu desapetecer de ser a equipa da minha preferência – fiquei vacinado, espero que de uma vez por todas, para não empregar o termo “adepto”. E tal aconteceu pela antinomia com os adeptos que foram ao estádio apoiar a equipa que eu também fui apoiar. (Expressão que é excessiva. Sou um espetador fleumático, não entro no coro dos cânticos tribais e nem sequer dou um salto da cadeira quando a equipa da minha preferência marca um golo.) Da próxima vez, prefiro assistir ao jogo ao lado dos adeptos da equipa adversária.
O mal de tudo isto pode ser meu, admito. O que me deixa sossegado.

16.9.19

Bolsa de valores


Killing Joke, “Eighties”, in https://www.youtube.com/watch?v=x1U1Ue_5kq8
“Bondade, humildade, mansidão e paciência.” 
Apanhado em falso (assim acontece com a única missa a que não posso faltar), as palavras do sacerdote ecoavam em repetição. Dizia o preclaro cura, “estas são as virtudes em recessão, as virtudes que estão caras”. Já tenho idade para não atribuir importância às palavras dos pregadores de templos religiosos, pois o agnosticismo é o magma da identidade. Não consigo. Na missa a que não posso faltar, devo ser a pessoa mais atenta ao discurso do sacerdote (que os restantes assistentes da eucaristia perdoem o atrevimento). O padre insiste que só chegamos a deus se formos intérpretes daquelas virtudes. Caso contrário (não o disse, mas pressentiu-se), seremos almas sob zelosa inspeção divina, e não é de crer que a incomensurável bondade de deus chegue para a redenção de todas as almas tresmalhadas.
(Por esta altura, senti comiseração dos crentes. Como são humanos e têm um impecável cadastro de imperfeições, suponho-os sobressaltados pela elevada probabilidade de não conseguirem chegar a deus. Esta é uma vantagem comparativa dos agnósticos: não querem chegar a quem não admitem existência. Podem ser sossegadamente imperfeitos.) 
O discurso dos valores é uma moda protagonizada por alguns tutores da moralidade: os valores, os bons valores que cimentam uma boa sociedade, estão em crise. Sobretudo entre os mais novos. Não concordo que as gerações mais novas estejam em falta com os bons valores. Se o problema existe (o que, insisto, é suscetível de contestação), ele vem do passado. É legado das gerações mais velhas. Quando alguém pede aos mais velhos para ensinarem valores aos mais novos, mais parece uma pulsão redentora dos ensinadores (ou de quem lhes encomenda a empreitada). 
Por hipótese, considere-se a validade do levantamento que convoca o ensinamento dos valores aos mais novos. Somos nós, os mais velhos, a arcar com a tremenda responsabilidade de os subtrair à orfandade de valores. Caso contrário – e sigo o que julgo ser o raciocínio tácito –, os jovens vão crescer sem valores, construindo um futuro que tende a desconstruir-se na anomia interna em que, já não jovens, vão enformar as suas existências. 
Para ser um ensinador de valores, teria de perfilhar o diagnóstico anterior. Não é o caso. Admitir que os jovens precisam de um banho de valores é pressupor que a educação na escola foi superficial, banal, um desperdício. Mesmo que partilhasse este diagnóstico pré-apocalítico, não faria de corretor desta bolsa de valores. A função pertence ao meio familiar e depois aos próprios que procuram (ou não) valores que os conduzam. Por outro lado, os valores não são objetiváveis. Não posso ter a pretensão de ensinar o que considero serem os meus valores aos outros (se existirem, os valores). É uma intromissão na esfera individual alheia. Não gostaria que, enquanto jovem, fosse sujeito passivo de uma formatação de valores. Se não aceitaria estar no lado passivo desta relação, não concebo a hipótese de me colocar no lado ativo. 
A bolsa de valores é uma teia complexa onde se sopesam muitos elementos: o substrato familiar, o ambiente em que crescem as crianças (também expostas ao meio escolar, umas às outras), a envolvente cultural, o desenvolvimento das suas personalidades, as circunstâncias, os acasos, as contingências. Ensinar valores é dar por adquirido que os (vou chamar-lhes assim) valores adquiridos, um certo cimento do coabitar social, são os valores certos. O que pode não ser o caso, através da lente de quem os observa. 
A bolsa de valores convoca à autoaprendizagem. Um processo que dispensa uma intervenção exterior carregada de paternalismo e de uma formatação dispensáveis.  

13.9.19

A mulher é o futuro do Homem?


Portishead, “Glory Box” (live on Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=SVX2adpyInM
(Antecipação da conferência com o mesmo título na Casa da Música, em 14 de setembro de 2019)
         Como posso fazer uma incursão no assunto sem me acusarem de misoginia? Como posso explorar o tema sem me acusarem de conservadorismo?
(Que se há coisa que não sou é misógino e conservador – e nem aceito que me digam, com um paternalismo indulgente, que sou, mas não dou conta de o ser, que não reconheço legitimidade a julgamentos que sentenciam de fora o que sinto por dentro de mim.)
Como posso elaborar sobre a interrogação sem cair nos excessos marialvas que abjuram o feminismo de taberna, nem incorrer no discurso moderno e bem-pensante da “filosofia de género” contaminada por generalidades e pensamento intelectualmente frívolo?
(Que ele há um terreno imenso entre os dois campos e, todavia, os que apascentam em ambos campos recusam a admitir a sua existência.)
Como posso não ser treslido se argumentar que esta lábia binária é reducionista, que atenta contra os próprios pressupostos de algum pensamento de vanguarda no contexto da “filosofia de género”, ao teorizar sobre formas alternativas de identificação sexual que não se reduzem aos arquétipos da “mulher” e do “homem”?
Como posso interrogar as construções conspirativas que endossam para a geração presente a fatura das atrocidades cometidas pelas gerações antepassadas, para provar que não é razoável imputar responsabilidades aos “homens” de hoje (generalização limitada, concedo) pelas inaceitáveis desigualdades de antanho?
Como posso encomendar aos marialvas, em suas praças de touros acantonados, o silêncio antes de arrotarem dislates que desprezam as mulheres, mas que os apoucam mais a eles?
Como pode alguém tirar um oráculo da algibeira para responder à pergunta que é a casa da partida (deste texto e do debate na Casa da Música)?
Como posso denunciar o maquiavelismo que se insinua na inversão de papeis? Como posso adivinhar que “a mulher” pode ultrapassar “o homem”, sendo essa a condição imprescindível para um futuro habitável? 
Como posso garantir que “a mulher” corporiza os valores benévolos, catalisadores, heurísticos, que são recusados “ao homem” enquanto patriarca da espécie? 
Como posso admitir a mulher é intrinsecamente propensa à bondade mercê da sua condição de mãe (existente ou potencial), se essa argumentação naturalista é a que serve de ponto de partida para recusar as diferenças biológicas entre mulheres e homens como esteio de uma desigualdade caucionada pela natureza?
Como posso ser convencido que “as mulheres” são diametralmente opostas “aos homens”, se este discurso incorre num vício ontológico que nega a validade da retórica que denuncia a desigualdade entre homens e mulheres, estribando-se num pressuposto (a desigualdade) que é o objeto que essa retórica pretende combater?
Como posso antecipar que a transfiguração de papeis, com a “matriarcalização” da sociedade, devolve a pureza sanitária à espécie, sendo condição de partida para o restabelecimento do otimismo antropológico? 
Como posso ser levado a crer que a substituição do “Homem” pela “Mulher”, como sinónimo da humanidade, é o perfume em falta para erradicar os tremendos erros congénitos que são o lastro da história da humanidade?
Como posso perfilhar uma grelha de leitura que diagnostica “a mulher” nos antípodas “do homem”, se somos todos feitos da mesma massa, de sangue e carne e ossos e emoções?
Como posso não ser assaltados por pesadelos que evocam a aranha viúva-negra, que mata o macho como corolário da cópula, quando pela tela mental passam imagens de feministas exacerbadas (sem ser, outra vez, acusado de misoginia)?
Concluo que o melhor critério é deixar todas as interrogações sem resposta (como se fosse um coito interrompido).

12.9.19

Outubro não pode esperar (short stories #159)


Nils Frahm, “Human Range”, in https://www.youtube.com/watch?v=akYE_PAZ5Bg
          Alvorada. Assim como assim, o sono já fora banido há algum tempo. Preciso de um soro que avive o sangue. Preciso de precisar de alguma coisa. O calendário em cima da mesinha-da-cabeceira funciona como uma guilhotina. Lembro-me de coisas várias, avulsas na sua ordenação, sem ligação entre elas. Abro a janela. Já sinto um aroma a outubro. Não sei descrever o aroma a outubro; sei apenas que este é o aroma a outubro. Falta muito para outubro? Olho para o calendário, que me dá a resposta. Ainda falta. Determino que outubro não pode esperar. Não podem esperar as árvores que esperam as folhas caducas. Não podem esperar os rostos melancólicos dos que entram em outubro como a antecâmara da tortura que pressagia o inverno. Não sou como eles. Recebo outubro preparado para o abraçar demoradamente. Agradeço. Outubro consagra o fim do tempo quente. Decreta o fim do suor ansiolítico. Talvez migrem os pássaros que, como as pessoas (calculadas em sua maioria), desprezam o outono sombrio, as primeiras chuvas que se instalam, o ázimo da luz baça, o mar tempestuoso que anuncia intempéries sem amparo. É alvorada e eu ainda aqui, como se estivesse despojado na cama a pensar no que devo pensar, sem saber que o pensamento pode transfigurar a indolência. Não deve ser preguiça (sussurro, em autocondescendência). Não tarda a tarde e não me parece que tenha feito do dia uma utilidade. Sinto-me cercado por um insólito pesar: tenho a impressão que alguém conspirou contra o calendário e as suas folhas diárias ficaram imóveis. E outubro nunca mais chega. Diria que as folhas do calendário andaram para trás e fez-se agosto, outra vez. Pode ser o sono a entaramelar-se na lucidez e já não sei da linha exígua entre lucidez e sonho. Pode ser que haja uma data inscrita numa pedra, a data centrípeta de onde tudo desabrocha. E a data se agigante ao ouvir dizer que outubro não se demora. Contra as profecias dos almirantes do desassossego, os galanteadores doestio, que vociferam contra outubro, acusando-o de ser extemporâneo. Estão errados. Outubro não pode esperar. Faça-se outubro em setembro.

11.9.19

As palavras que não são ditas


Nick Cave and the Bad Seeds, “Magneto”, in https://www.youtube.com/watch?v=I4aF-MDumFg
Escolhem-se as palavras tangentes àquelas que consideramos impronunciáveis. Não é tabu; dir-se-ia ser a compostura, essa diplomacia disfarçada, a fazer o seu caminho, travando a consciência antes que ela perca as medidas. Há as palavras que não dizemos. O pudor, ou a interiorização das suas más consequências, ou apenas uma irritação semântica, um nada que, todavia, se faz um tudo, tanto que a palavra é travada na falésia da boca. 
Ou podem ser palavras que não importa dizer. Importunam. Ferem – ferem quem as profere, ferem quem as ouve. São archotes lançados contra a lama onde decaem os inocentes que por elas são arrastados até a esse lugar. Por assim serem, são palavras que congeminam a indecência de quem as tutela, o que pode ser capaz para conter a sua irradiação. 
Ou podem ser inoportunas, porque a dança em que se combinam tempo e circunstância não é legado para a sua revelação. As imagens são fortes e podem causar dores pungentes, inscrevendo essas palavras no dicionário das palavras que são proscritas, propositadamente proscritas, sem que haja qualquer laivo de censura. Diz-se: às vezes, mantém-se o silêncio como cura antecipada para os males que o seu contrário podia semear.
Ou podem não ser ditas as palavras porque não apetece dizê-las. Há um sortilégio sem teoria na escolha das palavras. Um dia, uma certa palavra não se coíbe de aparecer, resplandecendo no vocabulário. Noutro dia, por mudança de estética (ou apenas de humor – ou outro critério), a mesma palavra submete-se ao exílio forçado, pois quem a tutela não quer que conste da gramática do momento. O exílio nunca é perene. A qualquer momento, as preferências jogam-se noutro sentido e não é de estranhar que a palavra banida seja resgatada do degredo a que foi condenada. 
Existem palavras que sejam património imorredoiro do vocabulário em exílio? Há pessoas cavalheiras, de fina educação, que não usam o calão. Não se coíbem de o usar quando perdem a cabeça, ou em privado, o que não abona a identificação do calão como vocabulário exilado. Há palavras que não são usadas por pertencerem ao exterior do vocabulário conhecido – delas não se pode dizer que são palavras que não se dizem, pois não são ditas por delas haver desconhecimento. E depois há as palavras que não são ditas no diálogo estreito entre duas pessoas, porque essas são palavras que esbofeteiam o outro, ou imprimem a transgressão (quando as pessoas são autoimunes à transgressão), ou fermentam a provocação (e os seus efeitos são nocivos).
Há sempre palavras que não são ditas. Mas não há, na constelação que são os falantes de um idioma, uma única palavra que deixe de ser dita. A menos que esteja por inventar.

10.9.19

Discos perdidos


dEUS, “Slow”, in https://www.youtube.com/watch?v=h9OILKwaFNA
- A memória é uma representação.
Consideravas um desprestígio, a caução ilícita do tempo que davas por perdido. Falavas do passado. Mas falavas dele como se o abjurasses, não por dele teres vergonha, mas porque mergulhar nas memórias era equivalente ao ultraje do tempo animado. 
- E mais digo: aqueles que não se desligam das memórias deviam ser condenados ao seu próprio cárcere. Quero dizer: deviam ser condenados à privação do tempo presente. E tal devia ser visto como uma pena severa, por mais que estipulassem o seu contrário. 
Intuías absurdas, as memórias. Era das poucas coisas em que não admitias tolerância. Ele há tanta gente credora de tempo – as pessoas que morrem antes do tempo; as pessoas que se angustiam por terem a noção de que o tempo à sua mercê é uma medida por defeito; as pessoas que acabam por ser maiores do que o tempo que lhes é outorgado – que não se podem legitimar as lágrimas vetustas de quem regressa constantemente ao tempo pretérito. Se são reféns das memórias, que se limitem a vivê-las em privado. Não querias arrastar considerações sobre a iniquidade, porque percebias que as medidas do tempo não são lineares para duas pessoas e para as suas diferenças. 
- Por isso insisto que a memória é uma representação. Quero dizer: a contrafação do único tempo que não se desgasta na poeira ancestral, e que se perde em cada instante em que a memória responde uma convocatória e ultrapassa a respiração dos poros. É uma representação, a memória. O esbulho da transcendência do presente, que sucumbe perante o apelo do tempo puído. Uma autofagia. Os projetos que se devolvem ao tempo já gasto são o suicídio do presente. Uma indigna representação dos seus autores, fulgurados pela falácia do tempo irremediável.
Ficavas incomodado com a mnemónica do passado que se repercutia no tempo usurpado das mãos dos reféns da memória. Era como se projetassem no presente uma constelação de imagens retidas nos arquivos e pudessem pôr as mãos nessas imagens; era como se o tempo fosse repetível, com a conjugação de todas as suas incontáveis circunstâncias. O que sobrava era um imenso vazio: as memórias são exauríveis. Não conseguias discernir o apelo dos reféns da memória, se o tempo assim resgatado tende a esgotar-se à medida que eram repetidas as memórias. E perguntaram-te:
- Não guardas memórias? Não voltas a elas, nem quando te distrais nessa militância metódica do tempo presente?
Não demoraste a preparar a resposta:
- Eu sou a minha própria circunstância. O amplexo de que me dou conta no atapetado lugar de onde me construo, a cada estrofe do tempo. Não recuso o tempo que ficou para trás e tenho uma memória que não indefiro. Mas não lhe concedo a liberdade excessiva que tem noutras pessoas, pois temo que a memória como representação hipoteque o tempo que tenho entre mãos. Que é o tempo que elas podem tocar.

9.9.19

Quando a ciência passa a militância em tempos de urgência


Fontaines D. C., “Boys in the Better Land”, in https://www.youtube.com/watch?v=TNXrKBt76zI
Quando estudei, aprendi que a ciência deve ser imparcial. Procurei respeitar esse esteio no ensino de que sou ator. Como professor, ou como investigador, não devo manifestar preferências nem ideologizar os alunos. Isto tem acuidade neste tempo em que alguns, cada vez mais numerosos, não se escondem de umpensamento único que desagua numaTINA (there is no alternative). O pior é a cadeia de reações que uma modalidade de pensamento único e correspondente TINA provocam: o pensamento reativo não se limita a desmontar o pensamento único e a TINA que combate, desejando, em sua substituição, outro pensamento único e uma outra TINA a condizer.  
Há dias, num congresso, ouvi algumas comunicações que confirmam esta tendência. Tendo como pano de fundo o avanço de uma direita retrógrada e incivilizada (Trump, Orbán, Salvini, Bolsonaro, Boris Johnson) e da alt-rightque parece ser seu lastro, vi politólogos a fazer denúncias. Não me incomoda que se acuse esta fação atávica que atropela o que temos por valores civilizacionais; incomoda-me que sejam cientistas sociais, no âmbito da sua profissão, a fazê-lo. É que, ato contínuo, passam a ser atores interessados no jogo político, o que não quadra com o papel imparcial, desligado de juízos normativos que são o alicerce de preferências, escolhas e posicionamentos na paisagem política. 
Este arrebatamento denunciador convoca, por outro lado, uma insinuação: as entrelinhas murmuram que a direita tradicional (chamemos assim) se esvaziou, sendo o centro-esquerda sozinho (na versão moderada) ou acompanhado da esquerda radical (na versão mais incisiva) a única solução para travar a direita que se radicalizou. Argumentam que a direita tradicional se esvaziou ou por ter sido suplantada pelos novos atores que são intérpretes da radicalização da nova direita, ou porque a própria direita tradicional, movida pelo oportunismo político, se aproximou da retórica da direita radicalizada e dela tomou de empréstimo algumas das suas propostas. 
Esta generalização sinaliza é denotativa de uma agenda e de uma intencionalidade. Tomar a árvore pela floresta é o pecado original destes cientistas sociais. A alt-righte os seus gurus constituem um perigo à democracia plural. Também admito que alguns políticos da direita civilizada caíram no logro da aproximação à retórica radical. Todavia, a generalização que determina o esvaziamento da direita civilizada é exagerada e não inocente. Partindo de cientistas sociais que dever-se-iam manter imparciais, é algo que só surpreende quem não acompanha a militância e o normativismo ostensivo de certos gurus das ciências sociais. 
Não é de estranhar que o ambiente de um congresso esteja contaminado, pois é numeroso o exército de seguidores desses gurus das ciências sociais. Este é o seu pecado original. Tanto denunciam os desvios e a propensão autoritária da alt-right, como (talvez sintomaticamente) omitem os desvios e a propensão totalitarista dos radicais que medram à esquerda. Daí uma agenda e uma intencionalidade que inviabilizam a imparcialidade científica. 
Parece que a deriva radical da direita é um fato à medida destes alfaiates.

6.9.19

Medo de funerais (short stories #158)


Radiohead, “Nude”, in https://www.youtube.com/watch?v=BbWBRnDK_AE
          Não vou a funerais. Digo-me, a título de justificação interna, que o deixei de fazer depois do funeral do meu pai. Pode ser apenas um pretexto. Interroguei-me sobre o assunto enquanto lia “Em tudo havia beleza [Ordesa]”, de Manuel Vilas. O autor admite um transtorno que é, ao mesmo tempo, uma exegese por ter reordenado o pai na sua existência só depois da sua partida. Passa por vários outros familiares – a mãe, os avós, alguns tios – todos eles mortos; e repete, com melancolia tardia (o que pode encerrar alguma ironia negra), que não foi ao funeral de nenhum deles. Mortifica-se: não foi, e não vai, ao funeral de ninguém. Di-lo com arrependimento, daquele arrependimento que parece genuíno quando os acontecimentos são revisitados mas não podem ser alterados na ordem do tempo. Parece um arrependimento prestes a extinguir-se se o porvir reservar mais alguém destinado a um funeral. Eu fui ao funeral do meu pai. Vivi de perto a sua agonia, o estertor de uma doença implacável e indecentemente cruel (se é que uma doença pode ser decentemente cruel...). Nunca mais fui a funerais. Escondo-me dos funerais a coberto desta ferida sem cicatriz. Incomoda-me o clima pesaroso e pesado dos funerais. Sei que esgrimo um profundo egoísmo, porque as pessoas vão a funerais para fazerem a última homenagem a um corpo sem remédio– é uma norma de conduta que (dizem) faz parte da (dizem) imperativa socialização. Depois de ler Manuel Vilas, comecei a interrogar-me se seria essa a razão de fugir de funerais. Tenho a impressão de que um funeral é a antecâmara do nosso próprio funeral. Poderá ser esta imagem avivada à medida que nos afastamos do nascimento e avançamos pela idade fora. Eu tenho medo da morte. Não consegui encontrar os mecanismos interiores que me apaziguam com a ideia de deixar de fazer parte dos vivos. (Ia a escrever “ainda” na frase anterior, mas preferi omitir. Não sei se estarei à altura de mudar a maneira de encarar a morte. Não devo abrir a possibilidade – que justifica o “ainda” naquela frase – porque é uma hipótese exigente). Como tenho medo da morte, um funeral é a imagem antecipada do meu próprio funeral. O que me sobressalta. Talvez só encontre sossego na ideia de funeral se conseguir convencer os que me são queridos a não irem ao meu funeral.

5.9.19

Os exilados da praça velha (short stories #157)


Pixies, “On Graveyard Hill”, in https://www.youtube.com/watch?v=E2o-65chdoc
          Distinguem-se dos demais: não se incomodam com coisas comezinhas; nem se inquietam com as grandes questões da vida, as dúvidas existenciais que deixaram de ser património tangível. Não se sobressaltam com o mundano – o mundano é frívolo, irrelevante; as notáveis considerações ontológicas, não merecem que se perca tempo com elas. Encontram-se na praça velha, sem calendário fixo. Vão conforme o instinto os manda ir. De cada vez que um dos exilados assenta na praça velha, sabe que vai encontrar alguns pares. É como se comunicassem telepaticamente. Saúdam-se com um discreto acenar de mão. Sentam-se nos bancos envelhecidos do jardim sobranceiro à praça (não é por acaso que a praça se chama “praça velha”). Ficam em silêncio, quase todo o tempo. Ocasionalmente, um dos exilados balbucia umas palavras vagarosas: “as pessoas estão cheias de pressa.” O que o ladeia, anui com um leve acenar da cabeça. E continuam a apreciar o movimento da praça, das pessoas que passam de um lado para o outro e das outras que contrariam esse movimento. Outro exilado rompe o silêncio: “aquela senhora de meia idade, para onde irá? A uma consulta no centro de saúde? Trabalhar? Encontrar-se com o amante a desoras, para não levantar suspeitas?” O exilado que circunstancialmente se encontra na praça velha responde com mutismo e impassibilidade. Considera que as interrogações do parceiro são frívolas, logo, não cabem na visão discreta que pertence aos exilados. O outro percebeu. Manteve-se em silêncio. Se tentasse corrigir o lapso, seria pior. Não ficou sem interiorizar o acontecido: quem estabelece as baias do que é mundano e deixa de o ser? Ele sabe que há um código de conduta entre os exilados. Implícito, o código de conduta. Como se fosse telepático. E se o outro exilado se manteve impassível depois da derradeira consideração, é porque ela não quadrava com o código de conduta. O exilado que escorregou para aquelas interrogações não saiu convencido da praça velha. Um código de conduta não pode resultar de uma omissão unilateral de um dos participantes.

4.9.19

Quantas dioptrias precisas? (short stories #156)


Trentemøller, “Try a Little”, in https://www.youtube.com/watch?v=C6FHDwhjofg
          Não preciso de dizer uma palavra. Ou melhor: não precisara de dizer uma palavra, sequer, se não fosse a teimosia que embacia a lucidez. Pode ser erro meu. Se me pedes opinião, ajuízo que a tua opinião perde em cabimento, órfã de legitimidade, implausível no raciocínio. Se me pedes a opinião sobre a tua opinião, é certo; de outro modo, refugio-me no silêncio de quem não foi interpelado. (Já chega quando falamos de mais, o que acontece com frequência acima do razoável – é dos tempos modernos e do triunfo da democraticidade: todos temos opinião e ela deve ser proclamada com visibilidade, até com alguma ostensibilidade.) Não sendo o caso de me ser requisitado o silêncio, tenho a dizer que o teu argumento padece de um vício de raciocínio. Admito que seja meu o erro: laboro em pressupostos que são diferentes dos teus, e isso pode fazer toda a diferença. Se eu fosse a passar a pente fino o assunto que te traz à colação, o meu ponto de partida não era o teu. Não é de admirar que não subscreva o teu argumento. Partimos de diferentes casas da partida e seguimos por caminhos que não se encontram. Não há acrimónia no meu juízo. Não quero que fiques a pensar do mesmo modo que eu, por submeter o teu problema aos meus cânones. Tenho essa vantagem: quando fui convocado a ajuizar o teu argumento, não sabia qual era o meu ponto de partida; eu sabia do teu, e sabia-o nos antípodas do meu. Se estivesse no teu lugar, e se sujeitasse o meu argumento aos olhos outros, quem me dera que os demandados estivessem nos antípodas da minha casa de partida. Quem deseja um coletivo exercício de deferências multiplicadas, em que todos se elogiam a todos e todos reproduzem as mesmas ideias em circuito fechado? Termos em que, se permites, pergunto, sem desdém, sem arrogância intelectual (que posso ser eu a validar um erro de análise), se queres saber quantas dioptrias precisas para ajuizar o problema?

3.9.19

Cabeça sem coroa (short stories #155)


The Divine Comedy, “To the Rescue”, in https://www.youtube.com/watch?v=FyH6bnt56mU
          Já não havia império. Terras inférteis ocupavam o pensamento. Tudo o que sobrava era um cais remoto, o paradeiro às vezes indeterminado, por onde caminhava em exilio dos sobressaltos. Dantes – sussurrava num frémito – tinha coroa e não a soube usar. Talvez não estivesse preparado para os vulgares esteios do mundo e inverosímil fosse a representação que dele fazia. Acreditava numa ilusão e medrou por dentro dela. Era como se o pensamento tivesse via verde e se desprendesse do corpo, e este é que estava em sintonia com o que se passava lá fora. A coroa que usurpou sem protesto não fora generosa. Fora uma armadilha. Tudo o que fundou por dentro de si era um refúgio contra o sentido improvável da existência. Não queria ser cúmplice dessa contrariada malha onde as pessoas existiam. Custou-lhe entender os elevados custos de investir contra a maré dominante. Ainda assim, não tergiversou. Considerava que uma elevada estima de si mesmo e a ideia de que era reta a sua coluna vertebral era o que mais importava. Por maiores que fossem os danos inerentes à pertença – e aqui não estava em causa o sentido político da palavra, apenas o antropológico. As densas teias que se compunham eram o emaranhado que o aprisionava. Não conseguiu derrotar esse emaranhado. Mas insistia na sua demanda, como se fosse uma peregrinação. Apostava que a paga era a serenidade interior como juro da equação. Não tinha a certeza; era apenas uma leve desconfiança que se agitava no equinócio rude do mundo. Preferia medrar na ilusão da coroa repousando em sua cabeça, imperador do seu império exclusivo, de que era suserano e único súbdito ao mesmo tempo. Estava apostado em lidar com o ónus que se abatia sobre o pensamento, numa constelação de interrogações incessantes. Aos outros, a cabeça sem coroa, súbditos acríticos de uma vetusta ramificação de coisas destituídas de sentido. Ao menos, não tinha vergonha da coroa que só mostrava a si mesmo, no sereno ciciar do sono.

2.9.19

As datas que não falam (short stories #154)


Fontaines D. C., “Big” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=-hWTyG6jP4g
          O chão quente sob os pés: parecia um presságio, como se um vulcão estivesse prestes a despontar, inundando tudo com a sua lava lisérgica. Ou podia ser apenas uma impressão, o gotejar das ilusões a marejar entre as ruas tomadas pela fantasia. Fazia tempo que não se lembrava do que estava por inventariar na verticalidade da fala. Tornara-se monástico no adestramento das palavras. Incisivo. Escorreito. Já não usava adjetivos. Passara a considerá-los um ornamento inútil, uma defesa dos falsamente eruditos que usam um fartote de adjetivos para mascarar a bancarrota de ideias. Preferia as palavras curtas e repletas de significado. A simplicidade. Era como se pudesse dizer – até que enfim – que a bonança tinha tomado cais em si. Foi o pretexto para erradicar a monotemática das datas. Não sabia como o recusar, mas dantes era refém das datas que surgiam como símbolos. Quase como se fosse uma prova cabalística, a mnemónica para o porvir numa canhestra coligação com os vestígios de antanho. As datas perdiam espessura. Alisaram-se no novo mapa-mundo que era o lugar que arroteava na companhia de um heurístico desprendimento. Certas palavras tinham sido banidas do vocabulário (do seu vocabulário privado, não do idioma). Palavras outrora imperatrizes, num diálogo improfícuo com a coreografia das datas que se atropelavam em fragmentos dispersos no palco do pensamento. Sobrava a grandeza da sua pessoa. Sem as algemas determinadas pela vontade exterior, com a sua intermediação autofágica. Agora, ele era o fautor do seu próprio calendário. Se lhe apetecesse, um mês não tinha trinta dias, nem um dia cabia na fronteira de vinte e quatro horas. Era feito de uma leveza não sindicável. Penhor dos seus pensamentos. Já não havia correrias desenfreadas por temor da pressa em que o tempo se consumia. O tempo saiu da equação. Já conseguia ver-se de fora de si mesmo e apreciar o espetáculo que lhe era dado a assistir. O que era um feito.

30.8.19

Idem (short stories #153)


PJ Harvey, “Good Fortune”, in https://www.youtube.com/watch?v=gDBZZ3uvimE
          O encarcerado, restringido ao exílio da alma, falava contra as paredes laceradas pela humidade. Não se arrepende de nada. Não se mortifica. A maldita educação, e a convivência com o que se convencionou cunhar “más companhias”, embeberam-no num orgulho irremediável. Não há dia que não diga, de viva voz (para surtir o efeito do não esquecimento), “antes quebrar do que torcer”. Sente uma voz a interrogá-lo; parece que a voz está escondida para além das grossas paredes que o encarceram: “se tivesses a oportunidade, repetias o crime que te condenou ao degredo neste presídio?” Não hesita; não cede à teórica tentação do arrependimento motivada por todos os contratempos tatuados a tinta-da-china na memória: “sim!”, em forte exclamação. Se fosse libertado agora, voltava a cometer um crime. Os mesmos, ou outro qualquer. É à custa da tendência para a reiteração, este demencial monólogo em que diz para si mesmo, até à exaustão, “idem, idem, idem, e idem, e mais idem”, que se lembra de ter sido diagnosticado como “sociopata incurável”. Volta à voz interlocutora, completando a resposta à interrogação: “um sociopata incurável não se arrepende do que já fez. Não reconhece o desvio de comportamento. Por isso, se insistires na pergunta, ó voz desconhecida, e em abono da minha impecável coluna vertebral, te direi sem rebuço: sim, voltava a fazer tudo outra vez. Igual ou diferente – mas seria sempre contra as normas, rompendo o estabelecido. Eu sou o homem que diz, até à exaustão, idem, idem, idem, e idem, e mais idem. Idem, as vezes que preciso for”. Dissipada a voz, sobrava o silêncio da sua respiração. Parecia ofegante. Alterado pela interpelação. Não quis admitir, que o maldito orgulho pesava mais, mas talvez fosse o caso de contrariar o diagnóstico e não fosse o sociopata que repetia, com a crueza das mãos que roubaram vezes sem conta e que assassinaram um par de vezes, “idem”.

29.8.19

A pertença não é a aritmética da identidade (short stories #152)


Os Golpes (com Rui Pregal da Cunha), “Vá Lá Senhora”, in https://www.youtube.com/watch?v=8BrTp2ZpMMI
          Num daqueles momentos emblemáticos de férias, animação noturna em modo karaoke. Os bravos que mostram as suas (quase sempre) ineptas vozes são uma amostra da constelação de nacionalidades que descansam no hotel. Dois lusitanos empunham o microfone e esgalham uma música também ela tipicamente lusitana. Inebriados com o desempenho, um deles termina em viva voz com um sentido apelo à pertença: “boa noite, Portugal!”, seguindo-se uma exclamação sintomática (do estado de excitação e de uma certa portugalidade sobretudo intramuros): “carago!” Alguns patrícios presentes no evento soltaram sonoro aplauso, não sendo indiferentes à convocatória. Contrariando a maré dominante, fiquei indiferente. Não é o género de convocatória que desate a minha comoção. Não percebo a ostentação da nacionalidade quando se está no estrangeiro. É corrente entre muitos concidadãos quando estão no estrangeiro, sentindo uma necessidade irrefreável de mostrarem “o que são” (por referência à nacionalidade que trazem a tiracolo). No dia seguinte, esquadrinhei meticulosamente as varandas e janelas dos quartos do hotel, não fosse estar a bandeira lusitana hasteada num deles (ou em mais). Não era o caso. Talvez por não ser ano das estultas competições desportivas que põem os países uns “contra” os outros. Não deixei de pensar naquele ingénuo apelo pátrio. Parece que sentem uma súbita falta do ar pátrio quando pisam solo estrangeiro. Paradoxalmente, serão, muitos destes personagens, os primeiros a abjurar os seus concidadãos quando estão em casa. O que se devia cuidar é do conceito aplicável quando nos vemos como indivíduos inseridos numa comunidade política. As vistas curtas destes personagens grotescamente nacionalistas impedem que vejam para além da comunidade política mais óbvia (a nação), ignorando outras que se situam num plano inferior ou superior – e ignorando que, acima de tudo, somos todos feitos de ossos, carne e sangue. São os que respondem: “sou de Portugal”, quando seria mais sensato responderem “venho de Portugal”. Faria toda a diferença entre o pertença e identidade. E evitaria momentos embaraçosos de que nem se dão conta.

28.8.19

Velocidade de cruzeiro (short stories #151)


The Strokes, “Last Nite”, in https://www.youtube.com/watch?v=TOypSnKFHrE
          Quando é a velocidade o barómetro da usura? Ninguém sabe. Ou melhor: sabe-o, a posteriori. Não se iludam as almas sedentas de certezas. As respostas só amanhecem no restolho dos acontecimentos. Nessa altura, saberão se o passo determinado foi a contento. Se foi veloz ou vagaroso. Se colheu os proventos no tempo considerado certo, ou se foi extemporâneo, por atraso. Talvez a fortuna esteja em não conferir importância ao passo dado, à sua velocidade. O tempo não tem medidas quando os conceitos se jogam no diapasão oferecido contra o tempo. Não há medida universal. Diferentes pessoas vivem a diferentes tempos. Em diferentes escalas do tempo. As circunstâncias moldam-se, umas vezes a favor, outras vezes contra, na aleatória desmedida que passa a medida consagrada. Os olhos repousam na bruma matinal e interrogam os deuses que caucionam o tempo. Não é de estranhar que não recebam resposta. (Os que a obtêm ficam reféns de uma irredentista ilusão: a resposta é uma miragem da audição.) O melhor critério é a tentativa e erro. Sem a hipocrisia das ambições desmedidas. São um atentado contra os humores que se sentam no regaço de quem os tutela. Estão condenados ao malogro. Quem desiste das pretensões insensatas de medir o tempo certo da existência conquista o remédio da velocidade de cruzeiro. É a medida que não tem medida. Conceito que credita a velocidade. O que supõe que não se interrogue se a velocidade imprimida é por excesso ou por defeito. Quem não coloca a interrogação encontra a virtude da velocidade de cruzeiro. Imune à irritabilidade dos apressados, os que acabam sempre por se considerarem atrasados ao que chegam. Despojada de freios dos constantemente atrasados, penhores do temor de haver alguém que consiga a proeza de chegar depois. As curvas sinuosas aplanam-se no dorso sereno da velocidade de cruzeiro. É quando o sortilégio do tempo se incendeia na fogueira que nos devolve a liberdade de sermos sem o estigma do tempo. 

27.8.19

Uma direção (short stories #150)


Grizzly Bear, “Three Rings” (live on KCRW), in https://www.youtube.com/watch?v=mLrCGH7zAjA
          A aba do chapéu escondia o que queria ocultado do olhar. A aba descaía sobre o olhar, mesmo a jeito de turvar o horizonte. Não fazia nada para que fosse ao contrário. Desconfiava que uma visão desembaraçada não era a caução que precisava. Já fora assim. O olhar desimpedido era um paradoxal estribilho que impunha uma censura angustiante: quanto mais clara era a luz, mais se adensavam as sombras e as nuvens no parapeito dos dias. E os dias eram transfigurados em noites que pareciam perenes. Muitas eram as vezes em que parava no miradouro e perguntava ao horizonte que direção devia tomar. Havia um certo sentido de desorientação, algo que o sobressaltava. Nunca encontrou respostas. Talvez não fosse o propósito, se as coisas forem vistas de outro ângulo. Em sossego das perplexidades, admitia que não houvesse vivalma a poder garantir ter uma direção linear, sem tergiversações pelo caminho, encruzilhadas sem resposta. Não era diferente dos outros. A semelhança não o apaziguava. Não é através dos males alheios que afivela os seus próprios. Só sente as suas apoquentações. Essas é que devem ser consideradas no turbilhão das sensações que se entrecruzam nas veias ardentes. Uma direção; se ao menos houvesse uma direção por onde seguir. Não era o caso. Sabia ser soldado raso nos interstícios do destino (fosse lá o que fosse o destino). Era mais uma peça avulsa nos lugares avulsos onde até o tempo era jogado ao acaso. Se calhar, a ausência de direção geograficamente determinada é a direção que pertence a todos. Não é tempo que se mereça perder com a demanda. Vamos ao acaso, que o acaso combina com o sortilégio, um sortilégio qualquer, de desenhar as bissetrizes. Esqueceu-se de desafios, de contendas, de alternativas, dos pesares pelos logros, dos mapas estendidos em cima do estirador à espera de cuidada verificação. Tudo se resumia ao alvorecer e a deixar-se vogar no caudal em que fosse embarcadiço.

26.8.19

Arranha-céus (short stories #149)


Dead Can Dance, “The Ubiquitous Mr. Lovegrove”, in https://www.youtube.com/watch?v=qbaKEt5BtHo
          Não é farta a abundância: das doenças maiores é cobiçar o que se não tem. Dizia, de cada vez que esbarrava numa história de vida em que alguém quis ser maior do que a própria medida. Depois, jogam-se os adágios a preceito (outra excrescência, como os lugares-comuns que se soerguem de cada vez que alguém assobia um par de palavras a propósito): “quanto mais se trepa, maior é a queda.” Por isso não entendia os arranha-céus. Não os há muito cá pela Europa. Dera de caras com eles em cidades americanas e em algumas megapolis asiáticas. As ruas ficam sem céu, enfurnadas entre a miríade de arranha-céus. Melhor se diria, em vez de se lhes chamar arranha-céus, que estes altos edifícios são açambarcadores dos céus. Crescem em direção aos céus, como se estivessem a arranhá-los – ou não fosse esse o seu nome de batismo. Depois de instalados, os arranha-céus locupletam os céus. Do chão, nessas ruas acabrunhadas onde os arranha-céus têm morada, as pessoas mal conseguem deitar os olhos no céu. Nunca deixou de pensar como a panóplia de arranha-céus é a moeda da desmesura dos homens. Não gostam de viver raso ao solo. Edificam em altura e em altura expressam uma medida da grandeza humana. É como uma nova forma de colonização, na vertical, a colonização do céu pelo emaranhado de aço e vidraças. Medram numa espécie de espaço sideral que adeja sobre as cidades. Estão de atalaia e, empossados nesse papel, arvoram-se de uma sumptuosidade não reconhecida nos edifícios que não conseguiram ser arranha-céus. No avesso certo das cidades, amontoam-se estes emaranhados onde as pessoas são triviais peões. Os arranha-céus podiam viver sem gente; do alto da sua imponência, ganham vida própria, são a prova viva do fausto da cidade. E a cidade, as suas pessoas, enriquecem-se de identidade na admiração constante aos arranha-céus. Assim como assim, não é todos os dias que o Homem desafia os elementos e conquista um pedaço do céu. Metaforicamente falando. 

23.8.19

Amotinado (cortina de ferro) (short stories #148)


Metronomy, “Walking in the Dark”, in https://www.youtube.com/watch?v=AKUv4vwthGc
          À má fé: a estocada assestada contra as boas convenções – mas quando a fé é má, que ninguém espere cavalheirismos. Já tinha idade para ter aprendido. Continuava, contudo, ingenuamente esperançado na boa têmpera dos seus semelhantes. Desta vez, não se condoía dos golpes baixos. Já aprendera. Talvez fosse a ocasião para mudar. Em vez de esperar pacientemente pelo golpe baixo, devia antecipar-se. Como fazê-lo, se a má fé é bolçada sem pré-aviso? É como nos cataclismos naturais: ninguém está preparado para lidar com eles. A voz da experiência galanteava-se nos interstícios da alma, murmurando a necessidade de se refugiar, de ser amotinado. A cada contratempo (como acontece com os sismos), jurava que tinha de edificar uma cortina de ferro que o isolasse das ardilosas contrariedades exteriores. Era do domínio público. Mas o divórcio entre a teoria e a prática é perene. Os figurinos não se congeminam nos estiradores onde as teorias fruem da especulação. É preciso uma reação quando os episódios conspiram contra a serenidade da alma. Contrariando o manual dos engenheiros sociais, são irrisórias as tentativas de antecipar os contratempos. Eles têm sempre um desenho insólito e não avisam com antecedência. Atacam, à má fé. Por isso, amotinar-se é cautelar. Descer uma cortina de ferro para que nada seja visto de fora para dentro. A reserva total é o predicamento que protege de intrusões e que pode fixar um cais a que mais ninguém tem acesso. Se estiver sob fogo cerrado, a cortina de ferro é o hermético pedestal que protege do exterior. Os sobressaltos experimentados lá atrás afinal tinham alguma serventia. Amotinado, passa a ser o intermediário que se antepõe perante o exterior, uma densa camada que o reserva para uma privacidade cúmplice de si mesma. Não tinha era resposta para outra interrogação que secretamente figurava no pano de fundo da memória: como se proteger das feridas que abrira em si mesmo? 

22.8.19

Radiografia do frigorífico (short stories #147)


The Flaming Lips, “Do You Realize?”, in https://www.youtube.com/watch?v=lPXWt2ESxVY
          Uma revista pergunta a “notáveis” o que têm guardado no frigorífico. Os notáveis, com a sua irremediável sede de notabilidade, abrem as portas do frigorífico e desnudam-nos aos súbditos. Ficamos a saber dos apetites dos famosos. Das coisas mundanas, pois é de alimento e de bebida que se trata e até os notáveis comem e bebem (confirmando os prognósticos). De caminho, nós, os súbditos, instruímo-nos com os frigoríficos bem guarnecidos e as opções gourmetou menos gourmetdos influenciadores. Só não se sabe quem encena a sessão fotográfica que radiografa o frigorífico e os hábitos e preferências gastronómicas dos notáveis. Ou seja: ninguém sabe se os frigoríficos foram municiados de propósito para a sessão fotográfica, porque fica sempre a preceito colocar determinados alimentos e bebidas nas estantes; ou aqueles que são mais genuínos e não fizeram uma operação de maquilhagem para os súbditos se deliciarem. Tenho uma suspeita. (Que, como todas as suspeitas, são infundamentadas até prova em contrário.) Suspeito que as radiografias dos frigoríficos dos notáveis são precedidas de cirúrgica montagem, pois cada notável não perde a oportunidade para se destacar numa prova encenada (logo, uma farsa) de que se distinguem dos demais. Além disso, a sede de exposição pública não quadra com a vulgaridade. Um notável não pode desnudar o seu frigorífico se passar a imagem que é uma pessoa banal como as pessoas banais de que se julgam idolatrados. Não se pode deitar a perder uma imagem por causa de um frigorífico mal radiografado. Nem que seja preciso gastar uma pequena fortuna com produtos que quase ninguém conhece (talvez até os próprios notáveis), pois é assim que se marcam as influências. Um dia destes, perguntam pela cor e marca da lingeriee os notáveis não hesitarão em deixar-se fotografar, talvez em pose lasciva, para gáudio do olharvoyeur, como o deles.

21.8.19

Cisma (short stories #146)


The Clash, “Lost in the Supermarket”, in https://www.youtube.com/watch?v=qsrEAWcAvRg
          Dizia: tenho uma cisma com um emérito académico coimbrão. Tenho outra cisma com um “músico” – assim se dá a conhecer – que não é de longe de Coimbra. Não tenho cisma com Coimbra. Tirando os rapazes de tunas que se perpetuam nos estudos, sem se saber se é por serem mandriões ou se por estultícia. Já estudei em Coimbra. Não posso ter cisma com Coimbra. Mas fico a cismar como se fazem as obras do aproveitamento hídrico do Mondego e, mesmo assim, as terras baixas ficam inundadas quando chove copiosamente. Fico a cismar por que se chama Coimbra B à principal estação ferroviária. E cismo, muito, com as ideias vesgas do emérito académico. Gostava de cismar, nem que fosse em sonho, com um cisma nessa escola que o tem como patrono, mas intuo que mais depressa cai um nevão em Coimbra. Não cismo com as belezas que retratam Coimbra, os seus caminhos estreitos e alcantilados, a orografia escarpada, a cidade velha e amiúde degradada. Mas cismo com o fado de estirpe coimbrã, vetustamente elitista, na adulteração do fado original, nascido nas tavernas de Lisboa e interpretado por castiços e castiças que mal sabiam ler e escrever. Cismo com a nomenclatura gongórica, espécie de fala em circuito fechado, dos seguidores do emérito académico. Cismo como abdicam do pensamento próprio e singram na exata proporção das genuflexões ao decano. Dizia: não cismo com o Jardim da Sereia, nem com o edifício da Faculdade de Direito (onde estudei), ou com a doçaria tradicional. (Não cismo com nenhuma doçaria tradicional.) Cismaria se o emérito académico, depois do seu passamento, fosse proposto para o Panteão. Julgo que nessa altura seria a minha vez de decretar um cisma. Contra a portugalidade. Era quase como se o mencionado “músico”, quase vizinho de Coimbra, entrasse para a arqueologia da música popular. Cismaria contra a música popular. Ainda bem que não tenho de cismar e de cismar.

20.8.19

O que queres ser quando fores pequeno? (short stories #145)


Fat White Family, “Fringe Runner” (live at The Lexington), in https://www.youtube.com/watch?v=RTWap6oStfY
          Na azenha sobranceira ao rio claro, uma voz cerziu a interrogação: “o que querem ser quando forem pequenos?” Olharam uns para os outros. A voz era gutural, misteriosa, como a voz que se revelava sem rosto. Não estavam a contar. Não é costume formular a questão nestes termos, terão pensado. E eles já não iam para novos, menos sentido fazia a pergunta. Um tomou as rédeas do exercício contrafactual e disse: “eu quero ser guitarrista.” Os outros ficaram ainda mais perplexos. Se havia certeza que podiam ter, é que nenhum ia ser pequeno no futuro que começava daí a uns instantes. Como podia alguém ousar uma resposta a pergunta desprovida de sentido? Outro, não ficando atrás, disse: “eu quero ser sinaleiro, daqueles que agora já não há.” Outro acrescentou: “eu, desempregado, com direito a subvenção vitalícia.” (Este era um homem da direita rude, que desdenhava da segurança social.) Outro não se ficou: “quando for pequeno, quero ser dono de um restaurante.” Já só faltava a outra metade para a curiosidade da voz anónima ficar saciada. Os outros quatro estavam relutantes. Os que já tinham respondido olhavam para os renitentes, à espera da confidência. Um deles, incomodado com tantos olhares intrusivos, anuiu: “quero ser...quero ser...um déspota.” Foi seguido de outro comparsa, que admitiu querer ser “marinheiro, mas só no inverno, quando os navios ficam resguardados no porto.” E mais uma reação: “quando for pequeno, eu quero ser grande, para não ter a ambição de não ser aquilo que não posso ser.” Só faltava um dos comparsas. Demorou algum tempo, até que decidiu tomar a palavra: “eu quero ser apóstolo.” “Apóstolo?!”, exclamaram três ou quatro, em uníssono. “Sim”, respondeu sem pestanejar o aspirante a apóstolo, “tenho tantas ideias que quero espalhar.” Ao fim de umas horas de intenso colóquio, todos perceberam a pergunta. É que vamos para pequenos. Não é assim que os velhos são tratados?

19.8.19

Amanhã há boas notícias (short stories #144)


Nick Cave & The Bad Seeds, “Straight To You”, in https://www.youtube.com/watch?v=CYbOHXMtelU
          A primeira boa notícia, é que amanhã não demora. Se hoje foi caso de abundantes más notícias, a boa notícia é amanhã não poder ser pior. Tudo se conjuga para um ar rejuvenescido que vem com o fresco da manhã, o que acalenta a hipótese (em elevada probabilidade) de amanhã haver boas notícias. E por que queremos boas notícias? Alguns vociferam contra a degenerescência do mundo. O sinal são as notícias que se põem com má cara, a condizer com o rosto sorumbático do mundo. Como podemos ficar imunes? As más notícias não são apenas más para os seus intérpretes; são para todos os que tiverem sensibilidade e se sintam, por simpatia, afetados pela dor excruciante que uma má notícia provoca em suas presas. Mas amanhã vem depois e traz boas notícias. É uma confiança firme. A certo ponto, as circunstâncias que se jogam a favor de más notícias ficam exauridas. Ou amanhã somos nós que estamos cansados de más notícias, só vamos abrir as janelas às boas notícias. Seremos mais rigorosos no filtro que decanta as más notícias das boas notícias. Se sobrevierem más notícias, metemo-las entre parêntesis. Não as ignoramos; retiramos a importância que elas queriam possuir. Na separação heurística, ficamos com as boas notícias. Um nascimento. O amor. Um casamento. Uma promoção profissional. Uma invenção com lucro imaterial para a humanidade. Uma guerra que cede o flanco ao desejo da paz. Um governo que cai (o que é sempre uma boa notícia, de acordo com o manual do anarquista). Um amigo que celebra uma proeza. Um trafulha apanhado e sujeito ao juízo da justiça. Um livro de poesia. Uma peça de teatro. A música (com as exceções que se constituem irremediáveis más notícias). A sinceridade de quem errou e profere público arrependimento. Amanhã é amanhã e só teremos olhos para as boas notícias. Estas e outras que passem pelo crivo da imaginação. Nem que seja a fazer de conta.

16.8.19

Punk em part time (short stories #143)


Ty Segall, “Self Esteem” (live on KCWR), in https://www.youtube.com/watch?v=x3CsHzm4TKs
          Das nove às cinco: fato e gravata, sapato italiano dispendioso, linguagem de financeiro, a preceito de quem transaciona ações e derivados nas bolsas internacionais, um código de conduta dos hipocritamente cavalheiros que pontuam no mundo da finança. Punhos de renda ao almoço, com o chefe e três possíveis investidores de um país emergente, ele fazendo uso do impecável inglês com indisfarçável sotaque de Cambridge (mercê dos estudos pagos a peso de ouro pela família endinheirada). À medida que a tarde avança e se aproxima a hora de marcar o ponto, vai sentindo uma vagarosa transfiguração. Só por dentro. No exterior, mantém a pose fleumática e o rigor da conversação, como é exigível no mundo da finança. Cinco horas: à saída do sumptuoso edifício, a gravata já não aperta a jugular. Cinco e dez: chega ao carro e a fralda esquerda da camisa já se sobrepõe às calças. Liga o automóvel; liga o aparelho onde tem armazenada a biblioteca musical: The Stooges, escolha aleatória. O gel que abrilhanta a silhueta de financeiro já desapareceu e o cabelo ostenta-se, desgrenhado, caótico. O automóvel moderno está hermeticamente fechado e devidamente insonorizado, mas as pessoas apercebem-se da música estridente. Agora, The Clash. Seis menos cinco: chega a casa. Os vizinhos sabem da sua metamorfose. Já vem com os sapatos na mão e meneia vigorosamente a cabeça em rima com a música que entra pelos ouvidos, debitada por uns auscultadores modernos. Sete e meia: prepara o jantar na companhia dos Jesus and the Mary Chain, com uma incursão por She Wants Revenge, Shame e Idles. Fez-se noite. Os colegas preparam o dia seguinte, lendo relatórios de fio a pavio. Dez e vinte: sai de casa. Embrenha-se na noite, nos lugares subterrâneos. Veste roupa escura e gasta. Onze e quarenta: assiste a um concerto de uma banda emergente. São de Aveiro. No moche, choca de cabeça com um indivíduo não identificado. Não há problema. No dia seguinte, depois das três horas de sono, pedirá a alguém para disfarçar o hematoma com maquilhagem. Nove menos três: entra ao serviço. Murmura umas estrofes de “Self Esteem”, de Ty Segall, enquanto dá umas ordens de compra no mercado de Tóquio. Está em condições de assegurar que não é bipolar.

15.8.19

Subalterno (short stories #142)


Eric Mingus, “Shake Up the World”, in https://www.youtube.com/watch?v=fjJP5jYEQJE
          Não sabia o que fazer à desarrumação da alma. Era como se por dentro das veias fervesse a promiscuidade de ideias, sobrepondo-se umas às outras, incapaz a lucidez de desenhar as fronteiras entre elas. Sentia-se subalterno. Não sabia em relação a quê, ou a quem; a subalternidade implica uma relação com um algo que nos é exterior. Talvez fosse o produto da desordem. Considerava este estado de desarrumação um contratempo. Ninguém gosta de sentir o frémito que fala em nome da avassaladora desordem interior. Por enquanto, o sono não tinha sido ferido. Mas nem essas horas, em que o pensamento aparentemente se desligava da corrente, eram medicinais. Com a manhã, não emergia o ar refrescante que costuma ser apanágio da alvorada. Lamentava que não pudesse usar esta metáfora, a crer nos mesmos quadros sombrios que se arqueavam diante de si, bolçando uma intensa cefaleia que o acompanhava pelo dia fora. Se precisava de convocar ideias, chegava a uma encruzilhada. As pontas soltas de fragmentos de ideias cavalgavam em sentidos opostos, parecia atacado por uma trovoada intelectual. Sentia-se órfão de ideias, porque não conseguia encontrar o fio de prumo. Já levava meses neste estado catatónico. Não conseguia escrever duas frases seguidas sem imediatamente se interrogar sobre o seu sentido, para logo concluir que eram ininteligíveis. As folhas arremessadas para o lixo eram o resultado do tumultuoso sobressalto. E o pior, é que a sensação de subalternidade continuava a acossá-lo. Não se queria sentir subalterno, de nada ou de ninguém. A independência era o que mais prezava. A imensa teia de ideias que se sobrepunha num estado caótico deixava-o sem lugar definido. Essa era a subalternidade que o povoava. Até que numa noite de insónia percebeu que estava refém de um equívoco: o eflúvio de ideias, muitas delas de sentido contrário, não era um garrote. Era um dom. O estigma da subalternidade cessou, sem adiamento. 

14.8.19

Este é o maior quilómetro quadrado (short stories #141)


Hot Chip, “Spell”, in https://www.youtube.com/watch?v=3cnzptceI4g
          Não foi o lugar tirado a régua e esquadro e a sua simetria parece um compêndio anárquico. Dizem que é um lugar estulto, afeado pela parcimónia com que mal recebe a luz. Dizem, as convenções, que os lugares têm de ser ungidos por uma luz feérica para obedecerem aos cânones da estética. Até dizem que podem ser lugares proscritos os que não quadram com a regra. Mas este lugar não foi tirado a régua (e esquadro): diriam estar contaminado pelo desdouro. Será incorrigível deformidade? Os juízes estariam na disposição de condescender e outorgar uma segunda oportunidade. No âmago da sua generosidade, desenhariam um caderno de encargos, as condições apalavradas para a exigível mudança para o lugar corresponder aos quesitos. Mas nós não queremos que o lugar suba a pináculo nenhum. Não queremos revelar os segredos deste quilómetro quadrado. Pois temos o lugar sob vigilância, para não se abrirem os periscópios em suas sondagens e do lugar tirarem as medidas, vulgarizando-o. “Este é o maior quilómetro quadrado que conhecemos”, dizemo-lo um ao outro, em murmúrio. Mas só nos o conhecemos. Não queremos a intuitiva partição, não somos tão altruístas. Podiam contrapor: mas um quilómetro quadrado tem a mesma medida em todos os lugares. Não queremos saber das bitolas mal fundamentadas, nem de esteiras por onde se movem os lugares-comuns. Sabemos do que falamos e no suave adestrar do idioma conjugamos verbos e substantivos com a volúpia que não se extingue. Insistimos: este é o maior quilómetro quadrado que conhecemos. Dir-se-ia, se for autorizado um lugar-comum a título excecional: como as palmas das nossas mãos, na cartografia quimérica onde repousam todas as rugas de que se compõem as mãos. Um quilómetro quadrado, porque foi essa a medida que definimos, no altar da nossa arbitrariedade. Sem remissão, escavámos o chão por onde tem cabimento o quilómetro quadrado. Ele é todo feito do nosso suor. Podia haver maior quilómetro quadrado?

13.8.19

Pressão atmosférica (short stories #140)


Rodrigo Amarante, “The Ribbon” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=PeqpKfK0la4
          Que não é o céu que nos cai sobre a cabeça: é este céu de chumbo, o ar pesadamente tropical, um fim de tarde paradoxal. Não estamos habituados. Ou temos sol e canícula, ou as nuvens tomam conta do dia e o ar sente-se ameno. A menos que as circunstâncias do tempo se joguem contra o tempo: a meteorologia conspira contra o tempo ditado pelo calendário e no tabuleiro joga-se a coincidência de pares que costumam ser alternativas. Não temos medo. O céu não vai desabar, por mais que o sintamos a apertar a jugular e a ficar próximo do chão por onde estamos. Pode ser que o céu de chumbo seja generoso e deixe em legado uma chuva rejuvenescedora. A chuva irá trazer um alívio da asfixiante quentura que é um embaraço para um ato tão rotineiro como respirar. Não estamos habituados. Não é a medida do tempo que o lugar nos habituou: esta meteorologia veio emprestada de outras paragens. Não temos medo. Como em tudo na vida, o quadro que consideramos normal admite feições de exceção. No mercado dos instantes, devíamos ter aprendido com a regra da escassez que os economistas ensinam. Quando temos entre mãos algo que é raro, devemos aproveitá-lo até sentir que o exaurimos. Sem termos medo de que nos acusem de delapidação dos recursos do ambiente, que este não é um caso desses. Sabemos que o céu de chumbo não cai sobre as nossas cabeças. Saímos à rua. Respiramos com todos os centímetros dos pulmões para aprendermos o ar torridamente húmido a que não estamos habituados. Se fôssemos enólogos do ambiente e sobredotados no quilate do ar que respiramos, diríamos do ar desta rara colheita: ocre com notas de canela e uns laivos laterais de noz moscada, vindo a pimenta rosa ao de cima no apuramento final dos odores deste ar estranhamente tropical.