21.5.19

Fenomenologia das metáforas


Radiohead, “Ceremony”, in https://www.youtube.com/watch?v=cedNya7e8Uc
O que se diz numa metáfora? Palavras intermediadas para por elas dizer outra coisa. Ou de outra coisa cerzir nas palavras em forma de metáfora um caminho diferente para o dizer. O que diz uma metáfora?
As metáforas são um adorno. Podem servir para reforçar uma ideia, usando os termos comparativos para dar ênfase à ideia central. Às vezes, fica mais fácil explicar o que se pretende explicar se não forem usadas as palavras diretas. Ou reforçá-las com indiretas palavras, o conteúdo de uma metáfora, para emprestar vivacidade ao argumentado, fazendo crescer a sua persuasão.
Outras vezes, o recurso à metáfora é uma vaidade estilística. De vaidade se trata, porque se socorre da criatividade para alcançar as palavras que emprestam cor à metáfora. Não está ao alcance de qualquer um. Nestes preparos, a metáfora é como se fosse arrogantemente esbofeteada no rosto do recetor, para que se faça constar, junto da sua pessoa, que o autor de metáfora tão sibilina é um espírito superior e vive ungido por uma inspiração rara. 
As metáforas podem ser um ardil para engrossar um argumento com prosápia. É nos casos em que se somam metáforas atrás de metáforas, e o autor constantemente de atalaia à imaginação para as capturar quando elas assomam ao pensamento. De tantas metáforas serem usadas, o texto fica quase vazio. Mais parece um concurso de metáforas, deixando o essencial contaminado pelo acessório. Já fui testemunha de um palimpsesto de metáforas: metáforas que germinam de metáforas, numa cascada de metáforas que, a páginas tantas, impede a lucidez sobre a metáfora inicial e as que se lhe seguiram – e sobre o fio condutor entre a primeira metáfora e a que lhe sucedeu como epílogo.
Aa metáforas são como quadros pintados pelo meio das palavras. E por meio de palavras. Acentuam a imagem que desfila no horizonte mental do recetor. Encavalitam-se na realidade que se presta à metáfora, como se ela passasse a ser composta por duas camadas: a que interage com as palavras que a descrevem faticamente; e as que pertencem à metáfora, que se acrescentam ao seu lastro inicial. 
As metáforas deviam obedecer a um princípio geral de sobriedade. Para prevenir que um recurso estimável seja banalizado e perca utilidade. A escrita não é um concurso de domadores de metáforas. É o resto.

20.5.19

Não publicado


Republica, “Ready to Go”, in https://www.youtube.com/watch?v=JgffRW1fKDk
Mostra-me a matemática imperscrutável. Os fundos marinhos em aquários azulados. A chuva persistente e como não adianta molhar o chão que já está molhado. Mostra-me o lugar incindível onde o todo se aquartela. As matrizes que ecoam as palavras quiméricas e como somos enfeitiçados pela identidade forjada. O vento itinerante, o que alberga nos seus interstícios. Mostra-me a gramática reinventada por fora das convenções (a segunda palavra da frase é que leva maiúscula; as vírgulas foram extintas, assim como os parágrafos; os pontos de exclamação, precedidos por um verbo; etc.).
Mostra-me os dedos que se articulam com a fala, enquanto a fala organiza um pensamento inédito. Mostra-me as confabulações etéreas que sublimam o verbo adiado. Os vestígios de um eco. O sussurro da maresia. O colo em combustão à espera de mãos e de uma boca. A cartografia onde se desenha o desejo. Uma representação das feridas que procuram uma cicatriz. A matemática imperscrutável, outra vez. A teimosia desfraldada no convés onde despojadas jazem palavras irrelevantes dos outros. O veludo a que se abraçam os corpos nus. O tirocínio das almas – mostra-me isso e o demais que anotes em espera. 
Mostra-me as páginas anoitecidas. Os cantos patibulares onde se agigantam os vultos adormecidos. Mostra-me as rugas dos teus lábios, que a minha boca não se demora em seu saciar. Mostra-me: as velas hasteadas no dorso da manhã, nas imorredoiras luzes que emolduram a eternidade. Mostra-me de que é feita a eternidade. A contrapartida de ti nas veias solipsistas de mim. A aprendizagem de ser. As costas pétreas que são ossatura suficiente. Mostra-me as tipografias que só sabem compor letras aformoseadas. Mostra-me: para intuir que não é a caligrafia que importa. E mostra-me o dédalo de onde largamos âncora na errância propositada.
Mostra-me o sibilino arquear do peito sobre as varandas vítreas. O arranjo das almas, em uníssono, como flores pendidas do telhado impecavelmente apessoado. Mostra-me como prevenir a delapidação. A usura infundamentada. Os segredos mantidos no cofre de que somos tutores únicos. Mostra-me o dobro do que sei. As orquestras de que somos maestros. A nossa cátedra, singular arquivo do mundo que aspira a ser o que somos (e jamais conseguirá). 
E mostra-me como são genética conciliação dos nossos seres as palavras tingidas a ouro que resguardamos e que pertencem à não publicação. Os segredos, imaturos ou não, por onde andamos na incansável safra.

17.5.19

Periclitante


Dead Can Dance, “ACT II: The Invocation”, in https://www.youtube.com/watch?v=wjm5o0ZxLyg
A cegonha aperaltada está de atalaia ao ninho, protegendo as crias. O ninho – e os ninhos das outras cegonhas – está empoleirado numa torre onde os cabos elétricos encontram ancoragem. A cegonha faz um exercício de equilibrismo em cima de um cabo elétrico. Um dia destes, ouvi um velhinho dizer a outro que não entendia a contingência das coisas, dando como exemplo os pássaros que aterram nos cabos elétricos sem receberem uma descarga: “se fosse connosco, morríamos esturricados.” Ou:
Por um sortilégio qualquer, o pedregulho de elevada tonelagem desafia as leis da física. Está no limite do precipício, apenas suportado por uma aresta que o fixa ao chão, por um efeito de prestidigitação. Dir-se-ia: se baixa um vento tempestuoso, o pedregulho não aguenta e acaba aos trambolhões, ladeira abaixo. Faz lembrar o capitalista avarento que, possuído por uma súbita necessidade de compor a imagem, se dedica ao mecenato sabendo que o museu apoiado está para acabar. Ou:
A angústia derruía-a por dentro. Não sabia o que dizer. Tinha conhecimento da ignomínia do companheiro. Não queria falar no assunto – temia que ele reagisse de maneira desabrida, numa improvável inversão de papeis em que só uma mente conturbada e empenhada à liberdade do outro (mas não à sua) podia incorrer. Ao mesmo tempo, estava cansada de muito calar. Sentia-se refém de um dilema. Assim como o mar hesitante que, no epílogo da maré alta, quase leva consigo o cadáver de uma lagosta que jaz na areia humedecida pela chuva miudinha. Ou:
O cientista parece o novelo de lã que, atirado ao cesto de basquetebol, fica cai-que-não-cai até se imobilizar num equilíbrio frágil em cima do aro. O cientista está dividido entre duas teorias. As duas têm prós e contras. Não consegue medir a teoria que se distingue pelo maior saldo líquido de prós. E mesmo que o exercício fosse para a frente, não estava convencido do método: um punhado de prós de uma teoria pode compensar o numeroso exército de prós da outra teoria. É o dilema que coteja qualidade com quantidade. O cientista não consegue decidir. Até que um rapaz, o mais alto de todos, conseguiu repatriar o novelo de lã do aro que encima da tabela de basquetebol. Ou:
O jardineiro encontrou uma carteira perdida. Lá dentro, trezentos e cinquenta euros em notas. O jardineiro está convencido que ninguém o viu a recolher a carteira. Apetece-lhe meter o dinheiro ao bolso e entregar a carteira para o inventário dos perdidos e achados, anonimamente. Os trezentos e cinquenta euros vinham a calhar, logo no mês em que é preciso comprar os livros escolares dos dois filhos. Mas o jardineiro não tem a certeza de que não houvesse vivalma nas imediações. Pode ter havido alguém a espiá-lo no momento em que descobriu a carteira recheada de dinheiro. Entre o despedimento por ação indevida e um rédito extra, sente-se dividido. Fica mais de meia hora a varrer o mesmo lugar, olhando e olhando para a carteira, indeciso. A mesma indecisão do gato que não sabe se há de atravessar a rua por onde estão sempre a passar automóveis e camiões e motas e pessoas.

16.5.19

Ainda vais a tempo (short stories #116)


Siouxsie and the Banshees, “Dear Prudence” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=R77sby-ntgw
          Soluçam os adjetivos que se enxameiam nas alocuções. Sabes que há um excesso de adjetivos quando encontras um adjetivo a afear a frase. Perguntam: se os adjetivos existem, não é para serem usados? Talvez seja uma questão de medida. Saber o que constitui exagero. Não há bússola afinada para esse efeito. Os gongóricos torneiam as orações, embebendo-as em farta adjetivação. Um adjetivo vem sempre em reforço do sentido da frase – argumentam. Não sabes como proceder. Parece-te que um texto despojado de adjetivos fica amputado, herdeiro de um minimalismo em que não te revês. Não queres que o texto, de tão despido de ornamentos, fique refém da hermenêutica do leitor. Não acreditas que a liberdade criativa seja invertida. Podes experimentar. Um texto minimalista. Com orações curtas. E privilégio do conteúdo, no desprendimento da decoração, uma frivolidade. Podes ecoar a mensagem através do tempo. Ainda vais a tempo. Como para tudo: o tempo não é uma ferropeia que adeja sobre as pessoas, como se corresse vorazmente para a foz e não se pudesse travar a sua marcha. O tempo tem este tempero. Mas não possui faculdades para a capitulação das pessoas quando as empreitadas parecem delimitadas por um tempo exíguo. Podes experimentar. O texto minimalista. Tens tempo. Ainda vais a tempo. De dizer (por exemplo) que as paredes que experimentas parecem frias como o sangue lívido. (Um adjetivo. Não tem mal. As grilhetas não são categorias operativas. O minimalismo do texto transige um ou outro adjetivo, meticulosamente espalhado pelo texto fora.) As mãos suadas tergiversam. Tremem. Não sabes o que aconteceu. As paredes parecem frias. Mas delas escorre suor. Não sabes de quem é (o suor). Não importa. Sabes-te confrontado pelas paredes que terçam os limites do labirinto. Ainda não decidiste se queres sair do labirinto. Se calhar, o labirinto é a metáfora do lugar em que vives. Por “lugar” referes o planeta. Passas o tempo a limpar o suor das paredes. O teu sangue está em ebulição. Os paradoxos levitam sobre o rosto. A manhã que desponta cuidará de desmentir o pesadelo? (Se é que se trata de um pesadelo.)

15.5.19

E se meteres mais uma linha no diálogo?


The Clash, “Clampdown”, in https://www.youtube.com/watch?v=psB0cidB5bg
- Não era nada que o anoitecer não amaciasse. Talvez uma quimera por descobrir, uma árvore frondosa que escondia o seu esplendor no espelho baço da noite.
- Sem as consumições, ou se as descontasses, dir-se-ia ser um retrato igual ao do mar quando é um espelho perfeitamente horizontal, sem o menor descuido de nível. Uma aproximação à perfeição.
- Que se nos pode acometer, neste refúgio onde as almas transparecem?
- Não tenho ideia de nada. Não será mau conselho estar de atalaia. Os contratempos não enviam pré-aviso. 
- Eu julgo que podemos estar precatados aqui, neste castelo sobranceiro que alcança o resto. Julgo que somos à prova de bala quando nos querem furtar o juízo com espadas desferidas traiçoeiramente no dorso. Afastamos as mãos asfixiantes com um sopro de indiferença.
- E se a vontade não for garantia sublime?
- A vontade é a mais alta norma por que se rege o comportamento.
- Que dirias em teu favor?
- Precisava de o fazer?
- Imagina que sim. Um desafio. Um exercício intelectual.
- Que diria?!... Diria que sou desalmadamente eu. O que talvez não seja cartão de visita recomendável. Mas não é de supor que o que se diga em nosso favor seja com o propósito de seduzir os outros. É assim que vejo o desafio: ofereço-me em minha defesa como perímetro onde se delimita a consciência. O resto, não importa. Não quero saber de opróbrios, de maus julgamentos, de rumores que são apenas rumores – e, portanto, infundamentados –, de esperas sem tempo para o serem. Não teria muito para dizer em meu favor, em todo o caso.
- De mim, caso fosse confrontado, diria ser entrega absoluta às causas, honestidade desarmante, até franqueza excruciante (que se joga contra mim). Voluntarismo que me é prejudicial. Consequencialismo omitido. Algum hedonismo, irresoluto. Em vez da implacável espada sobre oponentes que surjam em liça, o desinteresse, a irrelevância a que os voto. E amor sem freios, acima de tudo. 
- E tens inimigos?
- Só atribuis importância a esse excerto da narrativa em minha defesa? Porquê?
- Talvez por não haver inimigos a povoar a minha existência. Não é muito diferente da tua posição, no fim de contas.
- Voltamos à página precedente. Melhor: viramos a página. Avançamos uma resma de páginas, ao acaso. Veremos o que nos sai em sorte: seremos penhores das palavras todas que dizemos? Não ficarão outras tantas, ou se não tantas, pelo menos mais contundentes, por dizer?
- É possível. Não há ninguém que consiga dizer tudo o que intui. Há palavras que ficam resguardadas. Outras que, estando-o durante longa temporada, são resgatadas porque a vontade assim o determinou, ou porque a esse favor se jogaram as circunstâncias. Não há nada de organizado, não há nenhum jogo predeterminado, que seja o critério. Acontece. Ao acaso.
- Não há palavras depositadas num cofre? Palavras de que temos medo? Medo, porque se podem jogar contra nós? Não as gerimos, não somos delas autênticos estrategas, ajuizando o que delas fazer? 
- Nada é assim tão cirúrgico. E, depois, como sabes se as palavras que entesouraste são o aval que por ti se empenha? 
- Ah, a verdade sobrepõe-se no fim do jogo!
- A verdade! E o que é a verdade? Consideras a hipótese de a objetivar? Como sabes? É um instinto? Uma qualquer decisão que se congemina na parcialidade dos corredores por onde se entretece o pensamento? Como sabes, objetivamente, acerca da objetividade da verdade? Já para não te interrogar sobre o lugar onde fixas a meta: como sabes que o jogo chegou ao fim e só depois avalizas as palavras que depuram a verdade?
- Nessa altura, admito que é a subjetividade que prevalece. Considero que a vontade é o melhor critério: será verdade aquilo que internamente considerar digno de o ser. 
- Jogas a tua verdade, as palavras que a cristalizam, contra a verdade dos outros? É um xadrez em se que terçam verdades, até vingar a que disser “xeque-mate”?
- Tu sabes que a pertença ao mundo, a existência, ela mesma, é um espelho da concorrência. Ditado pelas avulsas contingências.
- Por isso prefiro a noite. O sortilégio que se esconde nas densas camadas de escuridão onde se acotovelam os vultos que não têm rosto. Nessa dimensão imaterial, não medram vontades alinhavadas com a sede de as ostentar. Pois é disso que se trata: a verdade, essa sofreguidão, é um exibicionismo onde campeiam as almas ansiosas por afirmação de superioridade. Não é por superioridade; é por afirmação de superioridade. Uma maldição, isso de querer, e ter de provar, ser melhor do que outros.
- Não te interessas pela verdade?
- Só me interesso pelo que conheço. E tenho apenas um vago conhecimento de um punhado de coisas. Nenhuma delas é a verdade. 
- Não admites que este é um mundo selvaticamente competitivo, que a concorrência nos leva a querer provar que somos melhores do que alguém que é a bitola?
- Não. Rejeito-o totalmente. Só tenho de dar provas a mim mesmo. Essas provas não são esbofeteadas no rosto de ninguém. 
- E se meteres mais uma linha no diálogo?
- Prefiro o silêncio. Não há verdade que o desminta.

14.5.19

Satélite


Rhye, “Needed”, in https://www.youtube.com/watch?v=n8woH4GxUMk
Deliberadamente: contava as luas inteiras e não sabia da aritmética restante. Podiam, algures, os duendes disfarçados fingir a sua própria condição. Seriam satélites de alguém, mas não sabiam de quem. E assim permaneciam, no limbo, sem direito a lágrimas, enquanto a noite se demorava no alpendre da euforia.
Da muita gente que atravessava a rua, ninguém sabia quantos eram duendes disfarçados. As almas silenciosas escondiam-se em vultos arredondados, a ausência de arestas propositadamente impedindo a revelação do que não convinha ser revelado. Afinal de contas, há um certo mistério quando se invoca o lado oculto da lua. De satélites deste jaez não se sabe ao certo se são recomendáveis, ou apenas uma distração que obvia o essencial.
Era deliberado, convém recordar: os olhares avulsos, uma palavra retida aqui, outra ali, como se o jogo consistisse no condensar das muitas palavras soltas apanhadas de bocas diferentes. Só para saber se o discurso da (amostra de) humanidade era inteligível. Coerente. 
Devia ser lembrado que não se podiam esperar grandes cometimentos do desafio da coerência. A coabitação de gente tão heterogénea era de saudar, mas, ao mesmo tempo, um imponderável que atrasava o exercício. Roda-se em volta de um centro, mas não se sabe do seu paradeiro; como se podem inventariar os satélites que adejam nas imediações? Como se pode saber se não somos nós os satélites, na possivelmente dolorosa ideia da nossa desimportância?
Não é fácil o constructo da identidade. O diligente apessoar não é garantia. Devíamos saber que a pele guarda um verniz que não é selo da identidade. E depois sobra um lugar-comum, pungentemente acertado como os lugares-comuns (dizem) costumam ser: é nas camadas mais fundas que se escavam sob a superfície que se encontram os rudimentos de tudo. As luas em que gravitamos são um disfarce.
As mãos procuram um salvo-conduto nas páginas avivadas. Nas palavras vigilantes. Procuram uma cor nas palavras. Querem saber se o lugar que lhes pertence é centrípeto ou é o lugar de um satélite. Não é exercício especulativo. A luz baça não é impedimento. O olhar é incisivo, não se intimida com as cortinas de fumo que podiam ser embaraço. Seja satélite ou não, o ser é o mais importante de tudo. Não importa se é ator principal ou figurante. Congemine-se a taxonomia dos papeis em sua aleatória fundamentação. 
Às vezes, os figurantes são atores principais. Sem o saberem.  

13.5.19

Senado


Maribou State, “Feel Good” (at 6 Music Live Room), in https://www.youtube.com/watch?v=ru9HgT1nGTk
- Que luzes são estas, que derruem um escudo armilar à procura de lugar? 
Oxalá soubesse. Foi a primeira frase murmurada. Mas que interesse tem saber que luz é aquela? Que interesse tem saber de onde irradia? Com que propósito foi congeminada para iluminar aquela área em particular? Ou: se o lugar estivesse votado à penumbra, que coisas diferentes podiam acontecer na medida da ausência da luz? A fonte de energia que alimenta aquela luz é limpa ou poluente? 
(E assim sucessivamente.)
Interrogações a eito. Podiam subir no inventário das interrogações, à medida que o pensamento as fermentasse. E se as interrogações forem vazias, um lago evaporado na indiferença do que acautelam? Pode ser que seja importante investigar a função daquelas luzes. Pode ser que todas as outras hipóteses arrematadas pelas interrogações anteriores (ou por outras, não aqui listadas) reúnam a relevância que os seus julgadores determinarem. Ou pode, de forma mais modesta, dar-se por assente que a luminosidade existe, que as luzes obedecem a uma certa característica que as torna distintivas. 
Não se faça uma exegese errada do enunciado: não é sugerido que as interrogações são um bálsamo da inutilidade. Não se aceite que o pensamento, insubmisso ou apenas controverso, cave sucessivas camadas, enovelando-se em hereditárias interrogações, e que toda essa atividade telúrica seja destituída de utilidade. Não é de mais evocar a sensibilidade das interrogações e de como o método inquisitivo é preferível ao desenvencilhar de respostas categóricas a todas as interrogações formuladas.
Pode o pensamento descair para a especulação. Ou, apenas, nele medrar a incorrigível provocação que recusa respostas e, em vez delas, alimenta o caudal abundante onde se soerguem interrogações, umas atrás das outras. E por cada ensaio de resposta, hasteia-se imediatamente uma interrogação que a atropela. Por dentro do pensamento sobram múltiplos eus que são os atores que sobem a palco, esgrimindo as hipóteses que se oferecem a cada interrogação no pressuposto de não acrescentarem um ponto final quando a frase se encerra. Todos esses eus são senadores do eu primacial, de onde emanam os restantes eus. São os senadores que se sentam no chão, em palco, e são tribunícios num concurso de interrogações.
A luz pode ser axial. Ou não. Não se saberá, porque o império das interrogações nega validade às repostas, aos categóricos alindados na pueril estatuária que irmana os beócios e os eruditos. Pois o senado pode apurar que a luz é, afinal, uma treva disfarçada. Nunca o fará com ponto final no remate da frase. 
O ponto de interrogação é o único suserano admitido no senado.

10.5.19

Medo de si


Sigur Rós, “Svefn-n-englar”, in https://www.youtube.com/watch?v=8L64BcCRDAE
- São estes precipícios intangíveis que arranco dentro de mim que me metem medo. Vejo sombras e nas sombras encontro a cor que não consigo desenhar no arco-íris. Vejo os vultos que noutros são fermento do medo e em mim causam admiração. Vejo a noite como fac-simile do dia, não lhes encontro as diferenças, por mais que os lugares-comuns ilustrem a antinomia, por mais que as pessoas digam que a ausência de luz marca a noite em contraste com o dia. Julgo os sobressaltos como adrenalina que preciso para emprestar sentido aos sentidos. Não sei do paradeiro do arrependimento. Dos arrependimentos. Quase sempre dou comigo em roda livre, ao sabor dos ventos dominantes, preparado para investir no sentido contrário ao dos ventos dominantes – por mais que seja empreitada dolorosa e improfícua, pelo menos quando estou na casa da partida. Não consigo ver-me em discurso direto: se há medo que tenho, é de ser uma mera paráfrase dos outros. Não me escondo em metáforas assisadas. Prefiro as palavras contundentes, por dramáticas que sejam, e depois vestir-me em minhas cicatrizes para encontrar o paradeiro da redenção. Logo a seguir, interrogo-me sobre a serventia da redenção. Vejo tudo como se tivesse sido atirado vinagre para os olhos. E, todavia, reivindico a meu favor uma clarividência insuspeita. Talvez sejam estes paradoxos o maior oceano que a geografia dos sentidos industria. Às vezes, incomoda-me; outras vezes (a maior parte delas), sento-me na poltrona e, em pose majestática, extasio-me com o efeito, como acontece com os máximos deleites. A improbabilidade do meu nome assoma à superfície enquanto bebo o vinho gourmetde um cálice esbotenado. A língua áspera: é a minha. E, contudo, aprendo com o que desaprendi no estertor que é a alavanca diametral do pavor domesticado. Se soubesse do teor dos segredos, perdiam interesse. Antecipo o ontem que deixei de ter lembrança. Resgato desse passado embaciado um sinédrio onde campeia o silêncio e a ausência. Um promontório imponente oferece-se ao olhar siderado. Não são as gentes comezinhas, em seu rame-rame diário, que assustam. Sou eu, penhor de mim mesmo, cautela dos arrependimentos adiados, vulto meão no meio da graciosidade inútil, argonauta sem paradeiro estabelecido, insubmisso – sou eu, a chave-mestra do meu próprio medo.

9.5.19

Circunvalação (short stories #115)


Nine Inch Nails, “Dead Souls”, in https://www.youtube.com/watch?v=WeAiRM1CVUY
          O grito acidulado das máquinas que fraturam o aço, ao passar pela metalurgia. O incessante passar de automóveis e autocarros e motorizadas e camiões de transporte, apenas interrompido pelo semáforo que caiu para vermelho. A velhinha que disfarça a solidão com uma conversa consigo mesma na paragem do autocarro, à espera que alguém lhe dê troco. O avião surpreendentemente baixo na aproximação ao aeroporto, largando um ruído tonitruante. A estrada remendada por onde terão passado sabe-se lá quantos milhões de veículos, sabe-se lá conduzidos e transportando quantos milhões de pessoas, com sabe-se lá quantos milhares de milhões de estórias, umas interessantes e a maioria desinteressantes. O taxista que dorme recostado no banco do passageiro, enquanto o rádio debita uma vozearia vaga típica dos programas matinais das estações de rádio. O gato poltrão à janela, desinteressado do bulício lá fora, apenas desejoso de uma nesga de sol, que a prometida primavera está em demora e os dias têm estado teimosamente plúmbeos. Ao longe, uma nuvem mais carregada, pressagiando um aguaceiro. As imagens de cores garridas que preenchem o ecrã de um imenso cartaz publicitário, não estejam as pessoas distraídas e não se apercebam da bondade da mensagem. Uma parede pichada com dísticos saídos do alfabeto privativo de quem a vandalizou. O vagabundo andrajoso que erra pela berma da estrada agarrado a um pacote de vinho de um litro, balbuciando palavras impercetíveis no dorso da sua aparente loucura. O inspetor dos autocarros, em pose solene, a multar um adolescente estroina apanhado em contravenção. O corretor da bolsa em dia de folga, furtivamente dentro do centro comercial “à civil”, para não ser reconhecido (que só o reconhecem quando enverga a fatiota obrigatória dos corretores de bolsa). Uma ambulância apressada, exibindo a pressa com a sirene em gritos estridentes, irrompendo entre o trânsito. O comboio no mecânico percutir dos carris, os rodados soltando faíscas quando entram em atrito com os carris. E o grito acidulado das máquinas que fraturam o aço, ao passar pela metalurgia. Circunvalação: em adiantado estado de acabamento.

8.5.19

Sem saber as medidas do carrossel


Moderat, “Bad Kingdom” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=1BUJX9vESQY
Dizias: “follow-up. É preciso fazer um follow-up”. E eu, sitiado por um pesadelo qualquer que não sabia inventariar, convencido do meu torpor, fiz de conta que não ouvi. Já chegam as vezes em que sou peão dos idiomas e tenho a impressão de que se jogam verbos e substantivos em línguas diferentes na mesma oração. 
Parecia uma montanha russa. Não exageremos: um carrossel, que a vertigem não era tanta assim. Olhava para o teto. Fixava um ponto, um parafuso saliente ou a embocadura de um alicerce. Depois fechava os olhos. Era preciso sentir a velocidade do carrossel, sentindo-a de olhos fechados. Parecia mais veloz, o carrossel. Por isso, quando abria os olhos, logo a seguir voltava a fechá-los. O vento que esbarrava no rosto rimava com os suaves declives que o carrossel ensaiava, volta após volta. Absorto, nem tomava atenção na musiqueta que acompanhava a viagem – a sobreposição de musiquetas que eram donas do lugar, vindas de outras atrações. E as frases “follow-up. É preciso fazer um follow-up” eram a paisagem que desfilava diante dos olhos ainda fechados.
A viagem do carrossel parecia interminável. E logo eu, que nunca admirei carrosséis. Não podia sair em andamento. Não era a velocidade que o impedia: o rapaz que recolhia as fichas que davam acesso ao carrossel entrava e saía com destreza, e tenho a certeza de que a minha destreza não ficava atrás – insisto: a velocidade do carrossel não intimidava. Não saí do carrossel. De repente, fui assaltado pela ideia de que o rapaz que recolhia as fichas que davam acesso ao carrossel e a senhora gorda que estava na receção do mesmo a trocar fichas por dinheiro podiam ficar desiludidos com a minha saída prematura. Não sei onde fui arranjar a ideia. Se não estivesse anestesiado por um sonho paradoxal (por não estar a dormir), a lucidez ter-me-ia sussurrado que a senhora e o rapaz não queriam saber da minha saída prematura nem iam perguntar, como acontece quando não se termina a refeição no restaurante, se não tinha gostado do carrossel.
Aquelas palavras continuavam a persistir no horizonte do pensamento: “follow-up. É preciso fazer um follow-up”. Não tinha a menor ideia do que dizias precisar de continuação. Esperava que fosse algo que valesse a pena dar continuidade. Muitas vezes, um ato extingue-se na sua consumação. Não fica à espera de repetição. A menos que o juízo seja favorável à repetição. É que, mesmo quando se repete, já é um ato diferente.
Saí do carrossel, no tempo devido. Tinha outra ficha na mão. Desaproveitei-a. Não repeti a viagem. Assim como assim, nunca percebi o encanto dos carrosséis.

7.5.19

Mural


The Cure, “Pictures of You”, in https://www.youtube.com/watch?v=UmFFTkjs-O0
Uma prenda de aniversário: um mural, com trinta metros de comprimento e vinte metros de largura, que aproveitava a parede de uma fábrica abandonada. Não chegou a saber quem remeteu o presente. Vinha com uma nota misteriosamente anónima, com uma frase em letra de forma, para não ser revelada a identidade do donatário (ou do testa-de-ferro dos donatários, caso fosse o caso): 
“Agora tens um mural inteiro para dizer, ou pintar, o que te vai na alma.”
Não sabia o que pensar. Nunca passou pela ideia receber semelhante prenda. Fora tamanha a surpresa que ainda não discernira se ia tirar partido da prenda. Podia ser que aproveitasse o mural para ir escrevendo uns pensamentos esparsos, daqueles pensamentos que se soerguem do nada e, quase sempre, pouco mais que nada querem dizer. Podia ser que ensaiasse uns desenhos, ele que pouco mais tinha do que jeito para gatafunhar. Não sabia.
Deixou o mural intacto por um mês inteiro. Todavia, não houve um só dia que não tivesse ficado diante do mural, a apreciá-lo nas suas formas e na convexidade da decadência que era própria do lugar – um complexo de fábricas abandonadas, os edifícios perdendo a sua utilidade à medida que as ruínas se transformavam em cimento putrefato, num amontoado onde se misturava, indiferenciadamente, vestígios das paredes e dos telhados com lixo que se amontoa sempre nos lugares abandonados. Ficava de olhos fechados, tateando as porosidades da parede, imaginando-a decantada antes de começar a receber as suas intervenções. Durante um mês inteiro, não quis inaugurar o mural. Não podia defraudar os donatários com a primeira leviandade que viesse à cabeça.
Um certo dia, tempo depois de ter passado um mês sobre o aniversário, contratou um amigo que trabalhava na construção civil. Pediu para raspar as porosidades que afeavam a parede e para a pintar de preto. Esse seria o pano de fundo para o mural. Sabia que não era um pano de fundo definitivo. Gostava de encarar as coisas à volta da vida como não perenes. Um dia destes, voltaria a telefonar ao amigo da construção civil e pedir-lhe-ia para dar outra demão na parede, de outra cor qualquer, a decidir em cima do joelho. 
No dia da intervenção inicial no mural, decidira inscrever, em letra aformoseada (caso conseguisse, pois tinha algumas dúvidas sobre a estética da sua caligrafia), um breve poema. Só não sabia se era um poema de poeta consagrado, um poema fétiche, ou um poema da sua modesta lavra. Demorou mais cinco dias, a contar da primeira demão a negro sobre o mural, para tomar uma decisão. O mural teria de ser inaugurado com as suas próprias palavras, sem que isso fosse uma manifestação de exibicionismo, ou representasse falta de consideração pelos poetas que considerava. As estrofes, mais dedicadas e, elas sim, sem dúvida, penhoras de poesia, viriam a seguir. E dedicou-se a uma justificação para consumo interno – como se estivesse a pedir desculpa aos poetas cardinais por não serem suas as palavras inauguratórias do mural: aquele era o seu mural; as palavras peregrinas tinham de ser suas; elas seriam o pano de fundo, dentro do pano de fundo pintado a negro, para as posteriores palavras dos outros que fossem a fotografia de um estado de espírito momentâneo, ou a homenagem que o dia exigisse a um poeta.
Faltava decidir se as palavras suas seriam resgatadas ao espólio existente ou se o mural exigia palavras neófitas. Entusiasmado, decidiu-se pela segunda possibilidade. A um canto – o canto superior direito do mural – afixou estas palavras: 
“Não dou à noite/se não o coração aberto/o febril êxtase da transgressão/a redenção sem culpa.//Não me dou à noite/notário de mim mesmo/nas margens da loucura que apetece/e num botão de rosa/sou a constelação aberta à luz solar.”

6.5.19

O relógio parado no fuso de Asunción, Paraguai (retrato de um anti-herói, um homem banal, o verdadeiro herói)


LCD Soundsystem, “Dance Yrself Clean” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=L_SJUJHPi5w
Tremiam as mãos. O coração, acelerado e exíguo dentro do peito. O peito, pequeno para o albergar. O suor a banhar o corpo todo (e não era por estar calor). Os sobressaltos todos alinhados no mapa diante do pensamento. Talvez fosse melhor remeter-se a uma gruta e levar uma vida monástica. Talvez fosse melhor...não sabia o que seria melhor. 
Os pés pareciam pequenos para suportar tanto peso do corpo. Um formigueiro era visita frequente. Era como se estivessem a espetar pequenas espadas em pontos sensíveis do corpo, um castigo qualquer. Sabia: se houvesse um tribunal para castigos como punição de contratempos da consciência, não se livrava do banco dos réus e de uma cominação talvez parecida com o formigueiro que o atormentava. Se lhe dissessem que somos todos de igualha semelhante e que ninguém escapava ao libelo acusatório dos beatos do formigueiro, não lhe interessava. As suas dores eram suas, não eram as dores dos outros. Não tinha por hábito copiar os outros, nem muito menos justificar-se através dos atos, mundanos, dos outros. 
O relógio estava parado. Nem deu conta – o que era de estranhar, tão viciado no mostrador do relógio, não fosse perder a meada ao tempo. Estava parado. E, investigou, pelo fuso horário de Asunción, Paraguai. Às vezes dava jeito que o relógio estivesse parado. Se esse fosse o pretexto para suspender o tempo e, através da suspensão do tempo, as tidas por irrecusáveis tentações não conseguissem respirar. Afinal de contas, nada disso interessava. O relógio estava parado pelo fuso de Asunción, Paraguai, mas o tempo não deixou de fazer a sua roda habitual. 
Prometeu que se esqueceria de mudar a pilha do relógio. Ficaria pelo fuso de Asunción, Paraguai, até se sobrepor a angústia de não saber que horas eram. Mas nem isso estava certo. Àquela hora, os ponteiros do relógio já não quadravam com o fuso de Asunción, Paraguai. Afinal, era um anti-herói. Reformulando: a antítese de um herói. Um homem banal. Incomodou-se e logo a seguir desincomodou-se. Um homem. Banal. Lá diz o lugar-comum: de carne e osso, com sangue transferível, os ossos duros, o pensamento letárgico, um interesse relativamente fugaz pelas coisas à sua volta, porventura o epítome do mundano – e o demais, que os lugares-comuns mandam dizer. Não seria diferente de um numeroso exército desfardado que desfila à sua volta. 
Em seu proveito, uma narrativa inventada na altura (rompendo com a inércia habitual do pensamento): a antítese de um herói, o homem banal, talvez seja a representação moderna do herói. Se é que precisamos de heróis, ou sequer de modernidade. A fragilidade dos homens banais converte-os em super-homens. Sem que eles saibam. Sem que eles queiram. Mesmo que não consigam ordenar que o fuso de horário de Asunción, Paraguai, esteja sempre em sintomia com o relógio. Porque este é o tempo de paradoxos.

3.5.19

A coutada dos cangalheiros


Viagra Boys, “Slow Learner”, in https://www.youtube.com/watch?v=eQUmeJspwuc
Levo esta vida inteira (até ao dia em que escrevo) sem perceber uma tendência inexorável da espécie a que pertenço: uma pessoa morre e o resto da humanidade faz uma pausa na geografia do tempo que a manda ser guerrilheira, desconfiada, boçal, maldizente, descrente dos seus pares. Morre uma pessoa e o resto da humanidade tece-se em prantos, congemina os mais comoventes elogios. Impõe-se um epitáfio e, em tempos de epitáfio, o resto da humanidade esquece-se dos maus pergaminhos e retoma a senda do que devia ser a sua feição bondosa, o elogio da humanidade. 
Esboço uma teoria em forma de explicação: contrariando as solenes proclamações dos otimistas que ensinam a preparação para a morte, convencendo-nos que a morte não é medonha, temos medo da morte. E como temos medo da morte, homenageamos sentidamente os mortos, antecipando a nossa própria homenagem na altura em que formos nós a deixar de pertencer ao mundo dos vivos. A conduta encerra uma contradição: desfazemo-nos em elogios diante do féretro quando, em vida dele, não o fizemos. Que se saiba, o féretro já não é capaz de usar os sentidos, justamente por estar na condição em que está (féretro). Os elogios fartos são inúteis, na perspetiva da pessoa a quem são destinados. É lamentável que os elogios tenham de esperar pela morte do elogiado.
O que leva de novo à minha teoria: os epitáfios e toda a comoção que envolve a despedida da vida de alguém só têm utilidade para os remetentes, os autores dos elogios fúnebres. Será a maneira de se sentirem bem no meio da tristeza, ou do choque, que sentem por alguém que amavam, ou prezavam, ou apenas conheciam por algum modo, já não estar entre eles.
As homenagens póstumas são isso mesmo, póstumas e, como tal, extemporâneas. Chegam fora do tempo. Se fosse possível tecer uma narrativa fantasiosa, apetecia especular que o decesso, se pudesse dar uso aos sentidos que perdeu, teria legitimidade para interrogar: “por que não disseram tão belas coisas de mim enquanto fui vivo?” Parece que na morte não há sacripantas. Todas as almas são boas desde que já não estejam entre os vivos. Esta talvez seja das maiores hipocrisias da humanidade, nos seus trejeitos correntes. Da humanidade que, enquanto assim se comporta, se preenche como uma autêntica coutada de cangalheiros.

2.5.19

Contrabandista (short stories #114)


Sleaford Mods, “No One’s Bothered” (live at Later with Jools), in https://www.youtube.com/watch?v=Kg6jniUE2Dg
          Fazer fintas às fronteiras. Iludi-las. Passar por cima dos limites que são selos artificiais de territórios artificialmente separados. As pessoas havidas do lado passado da fronteira são tão pessoas como as que ficaram no lado ultrapassado. Podem falar idiomas diferentes. Podem ter costumes diferentes. Até podem ser industriados, nos bancos da escola e pela parafernália propagandística do sistema, que são diferentes dos vizinhos que habitam para além das fronteiras. Podem ser convencidos que as fronteiras são o último reduto da identidade. Como se a identidade que partilham se esgotasse no marco derradeiro onde está fixada a fronteira; como se o sangue e a carne e os ossos fossem matéria diferente. Oxalá também ensinassem nos bancos da escola (e na constelação da propaganda do sistema) como doem as feridas das guerras. Como se houvesse um dispositivo que fizesse sentir as dores excruciantes de uma mina pisada, de um corpo estilhaçado por uma rajada de balas, a angústia de um ente querido cuja vida foi despojada num campo de batalha. O mesmo dispositivo seria capaz de fecundar a sensação de devastação que é a soez herança de uma guerra. Para que se percebesse que as fronteiras levadas a peito e a bandeira arregaçada nas mangas da alma adulterada pelos imperativos da pertença são a irrigação da loucura. Para coroar esta lição, uma palavra encimando o cartaz vestido de negro, com o luto a fazer-se na rima de tal palavra: autofagia. A lição insubmissa ensinaria a desvalorizar bandeiras, hinos, sinais de pertença arregimentados numa terra delimitada por fronteiras, mandantes hipócritas que mandam a carne para canhão para os campos de batalha. Ensinando que são sempre artificiais as fronteiras, produto de convenções em que apenas têm valimento uma vontade (sempre subjetiva) que se impõe num momento. E que nenhum momento é intemporal. A lição final seria sobre contrabando. De como devemos ser rebeldes quando nos ostentam fronteiras. De como as devemos pisar com ambos os pés, até que nada delas sobeje para memória futura. De como devemos ser contrabandistas até as fronteiras serem uma lamentável memória arqueológica. Para que se perceba que as utopias não são proibidas. E que os sonhos são o húmus das vidas.

1.5.19

Embrionário (short stories #113)


The Jesus and Mary Chain, “Happy When It Rains”, in https://www.youtube.com/watch?v=G5x1F9ohRa4
         Tudo parecia embrionário. Não passava de embrionário. Não chegava tempo para repor o que fosse. Tão depressa era embrionário como parecia fora de prazo. Uma curta vida útil. E prometia: quando se lançasse a uma empreitada, vez haveria de encontrar um meio para não passar de embrionária. E fracassava, sistematicamente. A promessa depressa esquecida: acabava por tudo perecer sob a espada severa do estado embrionário. Olhava para trás. Tudo o que via era um deserto. O selo da sua existência. Literalmente nada. Porque se tudo não passava do estado embrionário, nada conseguia medrar, nada ficava para memória futura. Estranhamente, não era causa para se considerar órfão de identidade. Aprendeu a conviver com a ideia de que a sua identidade era o acabamento perfeito da efemeridade. Quando procurou averiguar o boletim clínico do parto, ia com a desconfiança de que nascera prematuro. Os prematuros são sempre embrionários – tardiamente embrionários. Não se confirmou. Tinham passado as semanas registadas nos compêndios para um recém-nascido não ser prematuro. Continuou a demanda. Tinha de saber se havia algum episódio que explicasse o malogro do embrionário estado que o devolvia a um pré-estado, algo semelhante a um coma. Foi aos registos das escolas, amesendou com amigos de infância e de adolescência, até com amigos mais recentes, feitos no trabalho. Continuou sem respostas. Não haveria de ser grande o mal, a julgar pelos ensinamentos da filosofia (“o que importa é saber formular perguntas, não encontrar respostas”). Não era agora, à beira da quarta década de vida, que ia a tempo de uma crise existencial. Isso era para adolescentes desorientados e para gente que não soube interiorizar a madurez (ou para outros que tivessem sido atingidos pelo infortúnio). Olhava para trás e só via a poeira hasteada na imensidão do deserto. E não era porque alguém passava; era apenas o vento que despenteava as areias do deserto. No fim de contas, era assim que se sentia: um cavalo indomável que não conseguia sair do estábulo. E até o deserto que pressentia, dele fazendo ilha sem paradeiro, não era troteado pelo cavalo. Foi então que descobriu, num vestígio de lucidez, que não era ilha no meio do deserto. Era oásis.

30.4.19

Quando o olhar se desprende das baias

FKA Twigs, “Cellophane”, in https://www.youtube.com/watch?v=YkLjqFpBh84
O desafio de que não se esconde o olhar: podia ser timorato, temerário, mas o olhar salta as alfândegas que os lugares-comuns industriam e apetece-lhe saber ao que vem o desafio. Pode ser um logro. Pode ser a etimologia escusada que apenas serve para iludir o olhar numa encenação de si mesmo. Pode o desafio ser um covil perfeito, um lugar apertado onde o corpo se exsuda nos corredores estreitos de um labirinto inacabado, como se o próprio tempo fosse infinito durante a convulsão havida no labirinto. Ou pode ser a paisagem onde o olhar se emancipa de algemas assim contraditadas, sabendo-se lugar-tenente da madurez, o olhar. Nunca o saberá, o olhar, se não corresponder ao desafio do desafio.
Tome-se como exemplo um preconceito qualquer. É um impedimento estrutural (ou não tivesse sido elevado à categoria de preconceito). O olhar não está disposto a equacionar as convenções em que foi adestrado. O tirocínio – qualquer tirocínio – não é por acaso. Mas o olhar pode sentir a pulsão do que lhe é estranho, sem saber os cambiantes do desconhecido e, mesmo assim, arrisca arriscar. Pois sente-se desafiado pelo desafio. E não conseguirá saber os contornos do desafio se não se lançar, desimpedido de preconceitos, ao desafio. 
Se o olhar se consegue desprender das baias, só lhe pode acontecer uma de duas possibilidades. Ou o risco compensa e o desafio foi um campo fértil para a aprendizagem, emprestando ao olhar uma silhueta com contornos mais largos, expandindo os horizontes que o confinam. Ou o malogro da experiência é o resultado de um desafio imponderado, com o olhar sequaz sabendo-se perdedor na safra do desafio que o desafiou. Qualquer das possibilidades exige uma correspondência entre o olhar e o desafio. Que dita o estilhaçar das baias que restringem o olhar.
Se for terçada a hipótese do logro, que não fique uma impressão de desperdício. O olhar fica a ganhar, mesmo sentindo que saldou a empreitada com a inconsequência de um desafio afinal sem substância. Fica a ganhar, o olhar, porque se libertou das baias que o delimitavam a um espaço exíguo. E fica a ganhar porque aprendeu a deduzir, no uso do pensamento estruturado, que o desafio era inútil. É preciso que o olhar se despoje das algemas para saber do sabor da inconsequência. E de como acertar as contas com as dores, pungentes ou não, depois de dar conta de um desafio que acabou por ser o palco de um erro. 
A melhor aprendizagem é a emenda dos passos em falso.

29.4.19

Por decreto, o fim do pessimismo


Nine Inch Nails, “The Perfect Drug”, in https://www.youtube.com/watch?v=dn3j6-yQKWQ
Preâmbulo do decreto-lei
No âmbito das competências do governo, previstas e punidas na Constituição da República Portuguesa, e com a cobertura da legitimidade inflacionada outorgada ao primeiro-ministro, com o beneplácito de sua excelência o senhor presidente da república e caução dos demais órgãos de soberania, ouvido o povo e os demais agentes envolvidos no Conselho de Concertação Social, e pedido parecer à Comissão Europeia, rege o presente decreto-lei sobre o fim do pessimismo. O governo considera crucial que o povo emirja num banho de otimismo, sendo necessário, como pré-requisito, que todos os fundamentos do pessimismo sejam obliterados e condenados ao oblívio. A nação portuguesa não pode continuar a medrar num pessimismo latente que encontra grande parte das suas fundações no derrotismo histórico, na miragem de sebastianismos espúrios e no fatalismo tão bem cantado por sucessivas gestas de fadistas. O governo, ciente da sua presciência e da elevada qualidade da governação que tem legado aos concidadãos, tem uma missão prioritária para os anos vindouros, nomeadamente para a parte sobrante da legislatura, e para as restantes legislaturas enquanto o governo for do atual partido político, que é estilhaçar os esteios que sobejam do pessimismo. No âmbito desta missão, decretar-se-á, com efeitos vinculativos, o fim do pessimismo no prazo estipulado pelo decreto-lei, para, desse modo, franquear as fronteiras ao otimismo que deve passar a fazer parte do código genético da portugalidade.
Artigo 1.º
1.    Fica, por efeito do presente decreto-lei, avisado o pessimismo que o seu prazo de validade se extingue no dia 30 de setembro de 2019 (prazo previsto para o fim da legislatura).
2.    Se, por circunstâncias inesperadas, a legislatura se esgotar antes da data prevista no número anterior, o fim do pessimismo coincidirá com a data das eleições antecipadas (se essa for a decisão de sua excelência, o senhor presidente da república) e se, em resultado das mesmas, o governo continuar a ser presidido pelo atual primeiro-ministro.
3.    Os meirinhos do pessimismo são convidados a alterar o comportamento, esquecendo as fontes que alimentam o pessimismo, ou a emigrar para país onde o pessimismo permanece como fonte desvital.
Artigo 2.º
1.    Os agentes do pessimismo que forem detetados em práticas contrárias ao estipulado pelo presente decreto-lei a partir do dia 1 de outubro de 2019 (ou de data definida pelo número 2, do artigo 1.º deste decreto-lei)  ficarão à mercê da ação fiscalizadora da nova secretaria de Estado do combate ao pessimismo, a instituir em diploma gémeo do presente decreto-lei, e de cominação nos termos previstos nas alíneas a) a c) do número 2, do artigo 4.º deste diploma.
2.    Os cidadãos submetidos à ação fiscalizadora dos peritos nomeados pela secretaria de Estado do combate ao pessimismo têm direito a apresentar contestação, nos cinco dias úteis seguintes ao auto de notificação, junto do gabinete do primeiro-ministro.
3.    A contestação, devidamente fundamentada, suspende o processo de contraordenação instaurado na sequência da notificação da acusação de delapidação do otimismo.
4.    Na contestação mencionada no número anterior, cabe ao cidadão potencialmente infrator apresentar provas indubitáveis do seu não pessimismo.
5.    A decisão do gabinete do primeiro-ministro deve ser comunicada ao apelante no prazo máximo de trinta dias úteis.
6.    A decisão do gabinete do primeiro-ministro pode determinar a continuação do processo de contraordenação ou o seu arquivamento.
7.    A decisão do gabinete do primeiro-ministro é irrecorrível.
Artigo 3.º
1.    Na pendência do processo de contraordenação, um jurista nomeado pela secretaria de Estado do combate ao pessimismo recolhe as declarações do arguido, que não pode ser representado por mandatário legalmente constituído.
2.    O jurista-instrutor do processo de contraordenação pode recolher os meios de prova que julgar necessários, incluindo os que forem obtidos através da perscrutação de contas de correio eletrónico do arguido e da sua participação nas diversas redes sociais, em derrogação, excecional, dos princípios jurídicos estabelecidos pela Lei Geral de Proteção de Dados.
3.    Ao arguido é concedida a faculdade de formalizar um pedido de indulto após o encerramento da prova testemunhal e documental, em requerimento, devidamente fundamentado, submetido ao gabinete do primeiro-ministro.
4.    A aceitação do pedido de indulto e sua tramitação pelo gabinete do primeiro-ministro é competência exclusiva do instrutor-jurista, que deve aplicar um sentido apurado de justiça e regras de bom-senso para corresponder ao pedido formulado pelo arguido.
5.    Sendo aceite o pedido de indulto, o processo de contraordenação fica suspenso.
6.    O pedido de indulto tem de ser apreciado no prazo de trinta dias úteis, sendo a decisão do gabinete do primeiro-ministro irrecorrível.
Artigo 4.º
1.    No termo do processo de contraordenação, o jurista-instrutor pode propor:
a)    a culpa do arguido;
b)    a culpa parcial do arguido, detalhando as circunstâncias atenuantes;
c)    a impossibilidade de determinar categoricamente a culpa do arguido, enfatizando a existência de indícios que apontam nesse sentido;
d)    a ilibação do arguido.
2.    Atendendo às conclusões do processo de contraordenação, o jurista-instrutor deve propor, ao gabinete do primeiro-ministro, as seguintes consequências normativo-punitivas, em correspondência com as alíneas a) a d) do número anterior:
a)    suspensão, não superior a cinco anos, dos direitos cívicos do arguido, acompanhada por um processo de reeducação compulsório na escola superior do otimismo; para casos de insubordinação mais grave, a retirada de direitos cívicos e a expulsão do país poderão ser determinadas pelo gabinete do primeiro-ministro, na sequência de proposta fundamentada do instrutor-jurista;
b)    suspensão, até a um ano, dos direitos cívicos do arguido, acompanhada pela obrigação de submeter um texto escrito, até seis meses após a notificação da decisão do processo de contraordenação, com um mínimo de dez mil palavras, contendo um descritivo devidamente fundamentado de como Portugal é um oásis onde apenas o otimismo tem cabimento;
c)    fiscalização do arguido, durante cinco anos a contar da data da notificação da decisão do processo de contraordenação, sendo todas as suas intervenções públicas, em redes sociais e em conversas privadas, devidamente monitorizadas por técnico nomeado pela secretaria de Estado do combate ao pessimismo, em derrogação, excecional, da Lei Geral de Proteção de Dados, para verificar se são confirmadas as suspeitas de desvio em relação ao otimismo obrigatório;
d)    o arquivamento do processo de contraordenação, ficando o arguido registado numa base de dados de potenciais desviantes do otimismo decretado pelo governo.
Artigo 5.º
1.    O governo institui a escola superior do otimismo, que ficará encarregue de formar técnicos habilitados a identificar rudimentos de pessimismo e a reeducar, no otimismo obrigatório, os cidadãos que infrinjam o disposto no presente decreto-lei.
2.    Todos os alunos em idade escolar passarão a ter uma unidade curricular obrigatória, com carga letiva semanal de três horas, que ensinará a combater o pessimismo (próprio e a denunciar o alheio), a aprender os rudimentos do otimismo e a divulgá-lo.
3.    Os cidadãos adultos serão sorteados, em modalidade a definir por decreto-regulamentar, para frequentar um curso de aperfeiçoamento de combate e denúncia do pessimismo, seguido de um módulo intensivo de aprendizagem do otimismo.
4.    A frequência de ambos os cursos é obrigatória, para todos os cidadãos civicamente ativos, com uma periodicidade de três anos.
Artigo 6.º
Número único. O presente decreto-lei entra em vigor no dia 1 de outubro de 2019.