22.7.19

Referendo (short stories #130)


Lena d’Água, “Hipocampo”, in https://www.youtube.com/watch?v=4i8IPDbJQAw
          O rumor. Avassalador. Estás por dentro dos teus atos e sabes que o rumor não tem linhagem. Mas o rumor espalha-se com a facilidade de um miasma. Quem acredita não quis saber do contraditório. Como o rumor era avassalador, passaram por cima do resto – das memórias, do conhecimento, de um módico de confiança – e selaram o teor do rumor com chancela fidedigna. Estás desorientado. Olham-te com desconfiança, evitam-te na rua e nos cafés, nos restaurantes já não és servido com deferência. À frente do corpo sentes habitar um terrível abismo para onde foste atirado com o selo soez da injustiça. Para piorar, estás emudecido. Podias ripostar. Defender a tua honra. Talvez a mudez tenha a ver com o teu compromisso com a ética da lei. Aprendeste que o acusado não tem de provar a inocência. É este imperativo com os princípios em que foste educado que te silencia. Contra ti mesmo. Devias saber que o sentimento comum fermenta numa teoria da facilidade: as pessoas preferem o que é fácil, que se sobrepõe à maior complexidade justaposta aos princípios. O rumor foi fulminante no apuramento do sentido que as pessoas atribuíram à sua verosimilhança. Não querem saber da verosimilhança do rumor. O rumor fala mais alto. É um ato compulsivo da decadência impante. De repente, regressas a Kafka (“O Processo”). Reivindicas o lugar da vítima do enredo. Por mais que puxes pela cabeça, não consegues entender o rumor e por que alguém o irradiou. No apogeu da desorientação, perguntas se não terias sido invadido pela desmemória e o ato de que vens acusado, e de que não tens memória, tenha acontecido. Interrompes a especulação a tempo. Não podes responder por exercícios especulativos que extravasam os sentidos. Dás como garantido que o ato de que consta o rumor não aconteceu. Agora queres defender a honra. Imaginas um referendo organizado por meios teus. Perguntarias, tão simplesmente, se acreditam na tua culpa ou na tua inocência. Paras a tempo. Os referendos não foram feitos para julgar ninguém. Nem tu precisas de julgamento. Deixas o rumor para os seus fautores e para quem lhe deu rédea longa. Eles é que são devedores de justificações. 

19.7.19

Seis da tarde


Jambinai, “In the Woods”, in https://www.youtube.com/watch?v=ErbdE5niMnE
Seis da tarde. Persigo a noite. Não sei se é mundana, ou se dela extraio um sal intenso que perfuma o peito. As pessoas seguem apressadas. Regressam a casa. Vão mais apressadas do que na inauguração do dia, quando faziam a viagem a caminho do trabalho. No penhor do entardecer, julgo ser a prova de que não deve haver ninguém que seja refém do trabalho, ou que viva para trabalhar – como é de bom tom dizê-lo, nesta sociedade mecanizada onde os fingimentos se disfarçam de fingimentos de si mesmos, numa cornucópia de mentiras que as pessoas contam, aos outros e a si mesmas (para começar).
Seis da tarde. Se fosse outono, depois da mudança da hora, não tinha de perseguir a noite: ela já tinha encontrado o seu ninho no fuso horário. As pálpebras cansadas pedem resguardo. Um casal enamorado refugia-se da chuva, entrando no bar do hotel. Um prestimoso taxista cobre-se de chuva para proteger a senhora idosa que chegou ao hotel. Um cão vadio abriga-se na extensa pala que dá acesso à entrada do hotel. O rapaz, que tem a tarefa de se desmultiplicar em cortesias quando alguém chega ao hotel, afaga o cão, discretamente. Há já muita gente sedenta do horário de verão. Consideram que o crepúsculo repentino esconde nas trevas a quintessência do mundo. Sem darem conta, são otimistas incorrigíveis.
Seis da tarde. Faz uma dúzia de horas que estou acordado. Não sei a que horas serei relíquia do sono. Às vezes, fico acordado até perder o sentido do tempo. Enfureço-me. Sei que voltarei a acordar daí a um punhado de horas, ao cabo de um sono insuficiente. O dia seguinte será um arrastar penoso do corpo, a semi-hibernação do pensamento (na melhor das hipóteses), o palco para sobressaltos fáceis. Aviso as pessoas, como certificação em minha defesa, que é um dia tingido pelo mau humor. É melhor para todos. Não sei, uma dúzia de horas depois da minha aurora para o dia nascente, o que fazer deste entardecer. Não sei do paradeiro da noite.
Seis da tarde. Ou é o relógio que está parado? Não pode ser: a modernidade não se compagina com relógios que funcionam a pilhas – isso era antigamente. São mesmo seis horas. Fico estático a olhar para o mostrador do relógio, onde o pequeno ponteiro dos segundos faz a sua marcha habitual. Fico à espera que sejam seis horas e um minuto. Para saber do sabor de um minuto suplementar que se acrescenta ao entardecer. Para ser testemunha do envelhecimento do entardecer, e não só do meu. Sinto-me prefácio do mundo, ou então uma anónima nota de rodapé perdida do meio do volumoso livro que condensa as vidas todas. 
Seis da tarde e já sinto que a noite me persegue.

18.7.19

“Não comprava um automóvel ao primeiro-ministro”


Jane’s Addiction, “Been Caught Stealing”, in https://www.youtube.com/watch?v=jrwjiO1MCVs
(Um texto que não é sobre este primeiro-ministro, mas podia ser; é sobre primeiros-ministros, em abstrato)
Dez razões para não confiar no estado do automóvel de que o primeiro-ministro fosse vendedor.
I
            O primeiro-ministro é um bem-falante. Concedo: para primeiro-ministro, é melhor que seja bem-falante, que domine o idioma e não tropece em erros de sintaxe e de ortografia. O povo só confia os seus destinos se estiver sossegado com os dons de retórica do timoneiro. No meu caso, por defeito de personalidade, desconfio de gente com prosápia abundante e verbo fácil. Fazem-me lembrar os vendedores de feira, que também se distinguem pela retórica gongórica e pela má qualidade do produto negociado.
II
        O primeiro-ministro é recaidiço na contradição. Proclama uma coisa e o seu contrário, com a sorte de a imprensa amestrada não o confrontar com o contraditório do que diz e depois desmente ao dizer o seu contrário. Quem é prisioneiro de tantas contradições não é credor de confiança. O automóvel deve vir com defeito (porque ele abonaria o seu impecável estado).
III
            O primeiro-ministro é um diplomata incansável. Serve-se das artimanhas dos diplomatas para chamar a si o epílogo de negociações árduas, dando como seus os créditos que sobram no termo das negociações. Consegue ludibriar um numeroso exército, que o considera “negociador exímio”. Eu não negociava a compra de um carro com um “negociador exímio” (pelo menos, com um que assim se fizesse passar). Tenho a impressão de que o negócio seria proveitoso para o “negociador exímio”, apenas.
IV
            O primeiro-ministro irrita-se com quem se lhe opõe. Detesta ser confrontado com outras ideias. Não disfarça o incómodo quando é acossado. Reage com táticas de guerrilha urbana, desqualificando os oponentes com ataques ad hominem. Tinha receio de comprar um automóvel ao primeiro-ministro, pois se o veículo trouxesse defeitos não revelados o vendedor atacar-me-ia impiedosamente.
V
            O primeiro-ministro ufana-se de o ser – e revê-se como político acima da média, inderrotável. Não comprava um automóvel a um vendedor jactante. Tanta vaidade seria o mote para uma nota de desconfiança sobre a mercadoria transacionada, decerto apresentada como inigualável para a quilometragem e uso.
VI
            O primeiro-ministro é adepto do espetáculo fácil, popularucho. O defeito pode ser meu, mas estou nos antípodas desta estética. Desconfio que o automóvel vendido pelo primeiro-ministro vinha carregado de utensílios kitsch
VII
            O primeiro-ministro não esconde a propensão para a trapaça, até com os seus correligionários. Subiu na vida a pulso (o que não é mácula), mas por vezes teve de atropelar alguém pelo caminho. Não comprava o automóvel de alguém com estes pergaminhos. Ninguém garantia que o primeiro-ministro ocultasse um acidente de viação que possivelmente teria deformado o chassis.
VIII
            O primeiro-ministro tem memória curta – até no esquecimento de correligionários seus e de quem foi o seu patrono. Como se pode comprar um automóvel a alguém que fraqueja na memória, se a memória é imprescindível para reportar um registo recomendável da mercadoria?
IX
            O primeiro-ministro tem ar de malabarista. Consegue equilíbrios que, os por si enfeitiçados, consideram impossíveis – o que ajuda a construir a fama de “negociador exímio”. Um malabarista consegue convencer gente variada com interesses divergentes. Não se compromete com nenhum dos lados da barricada, conseguindo passar intacto entre os pingos da chuva. Como comprador do automóvel do primeiro-ministro, não teria como saber se o enredo era factual, ou apenas um ardil para me açambarcar como comprador.
X
            O primeiro-ministro veste mal. Admito, esta é uma incompatibilidade estética, destituída de racionalidade. Mas é argumento ponderoso: não considerava a hipótese de comprar o automóvel do primeiro-ministro, porque os seus padrões estéticos levá-lo-iam a ser vendedor de um automóvel de que eu não seria comprador. Uma impossibilidade matemática, portanto.

17.7.19

Pneu sobressalente (short stories #129)


Einstürzende Neubauten, “Stella Maris” (Soulwax Remix), in https://www.youtube.com/watch?v=74bT4wVqyXs
          Diz-se das joias que são coisas raras. É a sua raridade que as distingue, que as torna inacessíveis. Os mercados conferem-lhe valor a preceito. Não se diz que os pneus sobressalentes obedecem à mesma lógica. O adjetivo é mortífero (para as possíveis ambições de grandeza valorativa do pneu sobressalente). Qualquer coisa a que se atribui o papel de substituto tem, à partida, a mácula da desvalorização. E, todavia, está errado o juízo de desvalor. Ao pneu sobressalente não se atribui importância enquanto permanece armazenado no sossego da bagageira. Os outros quatro pneus cumprem a função. Ninguém se lembra do pneu sobressalente. O oblívio mandata o desvalor do pneu sobressalente. Até que um contratempo irrompe e, por anomalia num dos quatro pneus rolantes, é preciso deitar mão do pneu sobressalente. Suponha-se que antes o pneu sobressalente foi preciso e a condição preguiçosa impediu que fosse reposto em seu lugar. Não é difícil pressagiar o raciocínio estulto: ao recorrer ao pneu sobressalente, à personagem não ocorreu reparar o pneu destroçado, ou substituir o pneu sobressalente. Não terá configurado o devido valor do pneu sobressalente, nem quando dele precisou para o veículo continuar locomovível. À segunda, o contratempo foi doloroso. Por ausência do pneu sobressalente, o veículo ficou imobilizado. Só então a personagem terá atribuído valor ao pneu sobressalente. Por causa da sua ausência. Num golpe do acaso, um objeto irrelevante, e só irrelevante porque atua como sucedâneo, torna-se mais valioso do que uma joia preciosa. Se a personagem visse interrompida a viagem e a algo de muito importante não pudesse acorrer, os cálculos mentais não só desfraldariam a inútil bandeira do arrependimento, como adestrariam a conclusão de que um pneu sobressalente não tem preço estimado. Sobretudo quando é preciso usá-lo. É como acontece com todas as coisas a que se atribui valor. A sua impossibilidade faz crescer, e exponencialmente, o seu valor. (Há quem diga, com maior carga negativa, que é quando estão em falta que as coisas ganham o seu valor justo.)

16.7.19

Vinil (ou: sobre a inutilidade do revivalismo)


Sean Riley & the Slowriders, “Intro: Flying Back”, in https://www.youtube.com/watch?v=LC29_fq05yY
A música é fermento recorrente de revivalismos. Às vezes, uma banda que se julgava extinta reúne-se para um punhado de concertos. Outras vezes, a banda de antanho nunca deixou de existir, mas deixou de comparecer em palco com a frequência de outrora e a veia criativa deixou de singrar ao ponto de não ser conhecida música nova há umas décadas. 
Quando uma banda dos outros tempos anuncia o regresso ao palco, agiganta-se uma onda de revivalismo. Os nostálgicos marcam presença, numa fidelidade acrítica. Quando uma banda dos outros tempos é convocada para um festival de música, coexistindo no cartaz com outras bandas contemporâneas, nota-se um interessante fenómeno. No recinto, coabita um público de diferentes gerações. Os mais novos estão atualizados com a música moderna, mas talvez não estejam ao corrente do catálogo da banda dos outros tempos. Os mais velhos dizem presente pelas exigências de fidelidade (e pelo apelo de nostalgia) à banda dos outros tempos. Em regra, estes públicos dividem-se, sem se tratar de um espartilho hermético, com os mais velhos no palco onde atua a banda dos outros tempos e os mais novos ausentes, à espera de um músico que seja destes tempos (ou a assistir a um concerto noutro palco). 
Os mais velhos limpam a poeira acumulada nas memórias e conservam-se conhecedores íntegros do repertório da banda dos outros tempos. Recuperam indumentária a preceito, que, entretanto, deixaram de usar porque os imperativos da responsabilidade, e um certo sentido de madurez, não quadram com a irreverência de outrora. É a ocasião para recuar no tempo, como se fosse possível trazê-lo de volta pela mão da música que ouviam na juventude e que agora retomam (música e a reminiscência da juventude) graças aos favores da banda dos outros tempos. Voltam atrás no tempo, público e banda. Uma música ressoa a uma recordação, outra música convoca uma outra lembrança e, por conjunto, é como se conseguissem mandar o relógio para as trevas onde estão registadas as memórias. Como se revivessem esse tempo, graças à música contemporânea desse tempo.
Na minha cinquentenária condição, não me revejo no acrisolado estertor dos meus contemporâneos (ou por volta disso, alguns uns passos para trás, e outros uns passos para a frente). Recuso-me a admitir que o tempo parou na exata medida da falta de atualização de conhecimentos sobre o que vai sendo publicado no mercado musical. Prefiro, mil vezes, ouvir música que se produz agora e ver concertos de bandas destes tempos. Não recuso um concerto de uma banda dos outros tempos, se tiver boas razões para considerar que o concerto não vai ser um fiasco. 
(Já tive más experiências no registo de bandas dos outros tempos que regressam do mutismo. Não é por essa razão que recuso o revivalismo, pois a deceção não teve outros efeitos se não os próprios de uma deceção; os efeitos secundários podem ser dolorosos para os intensamente nostálgicos, a menos que a sede de revivalismo seja tanta que, por ela turvados, nem dão conta da mediocridade da performance e de como os artistas arrastam em palco a sua decadência.)
Mete-me impressão (má impressão) que haja quem intua o resgate do tempo, mercê das memórias recuperadas no regaço da música que voltam a ouvir e ver em palco. O tempo avança. Não fica enquistado (entre outros aspetos) na música que perdeu foros de atualização. 
Paradoxalmente, noto nesta pulsão nostálgica de cinquentenários (ou aproximados, por defeito ou excesso) uma certa ironia imberbe.

15.7.19

Fiadeiro


Madness, “Baggy Trousers”, in https://www.youtube.com/watch?v=Dc3AovUZgvo
Evocação: as mulheres tomavam nos antebraços as fiadas de lã e, com a paciência dos artesãos, fiavam o têxtil em novelos. Era um gesto mecânico e veloz. O desembaraço com que as artesãs fiavam os novelos era admirável. O que mais despertava a atenção era a sua paciência. Estavam horas sentadas a repetirem à exaustão o mesmo movimento, fiada atrás de fiada, novelo após novelo. Não exibiam o menor esgar de extenuação.
Diagnóstico: dessa altura guardo a impressão que não servia para tarefas monótonas. Os mais velhos advertiam-me, quando formalizei o juízo analítico, que era cedo para fazer juízos antes do tempo, que as circunstâncias podiam jogar-se a favor de meter as mãos a uma tarefa repetitiva. Aprendi que a precipitação não é boa conselheira na avaliação das capacidades próprias. É meio caminho andado para ficar sitiado por uma sobre-representação de si mesmo. Mal que acomete numerosa gente, dos que não se intimidam com o papel aumentado de si mesmos, que apenas acontece no teatro íntimo em que medram.
Promessa: não voltaria a cair no disparate dos imperativos categóricos, muito menos quando eles estavam aprazados no tempo vindouro. 
Lição: a imagem das fiadeiras, outra vez a povoar a memória. As pernas inchadas, as mulheres todas anafadas, as pernas mostrando varizes, os antebraços marcados pela pressão das fiadas depostas nos antebraços. Impassíveis, as artesãs não suspendiam a função. (Talvez seja apenas a representação que interiorizei depois de meia hora de visita à fábrica. Uma extrapolação, apenas.) Aprendi que a paciência é um trunfo. Derrota os contratempos que cavalgam na vontade da rendição. Era do foro da disciplina mental.
Projeção: nunca tive de fazer as vezes de fiadeiro. 
(Pausa para refletir.)
Retificação: por frequentes vezes, fui fiadeiro. Do meu próprio caminho. Meticulosamente dobrando os cabos que se desenhavam em horizontes. Terçando a paciência metódica para acrescentar todas as peças necessárias para o puzzleficar completo. Desembraçando os nós que ameaçavam travar o passo. A paciência é que o estugava, mal fossem desembaraçados os nós. 
Conversão: no vocabulário, a palavra perseverança não foi inventada em vão.

12.7.19

O risco do risco


Andrew Bird, “Manifest”, in https://www.youtube.com/watch?v=mcPDgWMkEiM
- O que pensas do risco?
- Não o tomo como medicina.
- Nunca foste seduzido pelo risco?
- Uma ou outra vez, em casos limite, ou quando não estava na posse de todas as minhas faculdades. Não deve ter sido importante. Mal me lembro.
- Eu só lamento que seja tão arriscado cair no risco.
- É um jogo. Podes descontar o risco quando sentes a pulsão de nele cair. Depende das prioridades e da hierarquia de valores.
- É um punhal afiado que ameaça ir fundo à carne. O sangue vertido não volta para as veias.
- Nesse caso, convém fazeres os cálculos com precisão. Receias as dores pungentes que podem resultar de um risco mal calculado. Na tua hierarquia, a segurança e a certeza sobrepõem-se ao risco.
- Não tenho a certeza. Há dias em que acordo com uma terrível vontade da irreverência. Uma vontade de desmontar tudo, desde os alicerces. Depois, acalmo. Termino o dia e faço um saldo modesto. O dia termina como começou. O risco foi omitido.
- E sentes arrependimento?
- É uma sensação estranha. Sinto algum desagrado a tomar conta de mim, só pode ser por ter sido timorato e não ter caucionado o risco. Ao mesmo tempo, sinto a incógnita a pesar sobre o palco onde se sopesam as hipóteses.
- Porventura calculas mal o que é o risco. Serás muito exigente contigo mesmo. A insatisfação com o presente pode não representar um malogro do que és, do que andaste para aqui chegar. Tens de interpretar todas as variáveis. 
- Não tenho particular orgulho do que me possa ser atribuído como proeza. Deixo isso para o exterior de mim. Tudo o que deixei para trás é um inerte, só conta como história. Não garante nada no tempo presente.
- Como compulsas isso com o risco?
- A convocatória para a mudança – pequena ou grande, não importa – exige algum risco. Não sabemos dos humores do futuro. Aos que são hostis ao risco, convém não perturbar o estado atual das coisas. O risco é retirado da equação.
- Não necessariamente: podes mudar sem tocar no rosto do risco. O mais difícil é aceitar uma mudança que interiorize a modéstia. O problema é que estamos formatados para a mudança significar sempre ousadia. 
- Admitias essa possibilidade?
- Não fui eu que tergiversei perante o risco do risco. Não fui eu que admiti o descontentamento com o estado atual das coisas. 
- O problema do risco não se coloca?
- Coloca-se a todos. Podemos ser arrastados para o dilema do risco sem ser através de uma mudança de vida. Essa é uma análise monotemática. O risco tem muitos gradientes. Serve-se em palcos diferentes. É sujeita-se ao ângulo da subjetividade: pessoas diferentes têm diferentes grelhas para medir o risco e em que medida ele comporta um risco que transpõe a fronteira do aceitável.
- Estás a desvalorizar o risco.
- O simples ato de viver é um risco. O que faz com que o risco seja mundano. 

11.7.19

E terminas o texto com o título do texto



Björk, “Crystalline” (Omar Souleyman Remix), in https://www.youtube.com/watch?v=ypfOCg4oqbc
A conversa estava difícil. Convencionou-se que tinha de haver conversa, mas estava um cabo dos trabalhos arranjar um assunto. Alguém tinha de dar o mote. Uma mudez intranquila açambarcava as palavras, tingindo os ecos do silêncio.
Mas alguém tinha de dar o mote. Podia ser sobre a canícula que, até que enfim (para os adoradores de temperaturas exóticas), se fazia anunciar. Podia ser sobre um tema qualquer da atualidade – mas ninguém estava ao corrente da atualidade ou, se estava, não garantiu que os temas da atualidade, lidos nos jornais diários, eram credores de comentário. Podia ser sobre uma dúvida existencial – mas estava muito calor para torturar o pensamento com pensamentos exacerbados e ontológicos. Podia ser sobre a moda, ou o desporto, ou um escândalo que sobressalta os meios sociais, ou a corrupção, ou as manobras que se congeminam em antevéspera larga de campanha eleitoral, ou um filme. Nada disto era atrativo. E a conversa continuava postergada, todos ali juntos e reféns de um silêncio aflitivo.
Se o silêncio era um constrangimento, por que motivo um deles não inaugurava a conversa? Não seria por temerem que a conversa podia ser enfadonha, nem por não se conhecerem de lado algum. A páginas tantas, o silêncio era tão punitivo que a conversa, por mais opressiva que fosse, seria o mal menor. A conversa continuava em procrastinação porque nenhum deles sabia do mote. Disfarçavam o embaraço: um, projetando o olhar para o horizonte, como se o olhar estivesse propositadamente perdido na vastidão onde se encerra o horizonte; outro, refugiava-se no telemóvel, um refúgio larvar de quem se enfeuda num ecrã afinal vazio de conteúdo; outro, batia o pé ritmadamente e rodava os dedos polegares que se entrecortavam; outro, sentado, enfiava a cabeça entre os joelhos, sem se saber se fora por uma noite mal dormida ou por não ter posição para fingir o embaraço do silêncio persistente; e outro estava junto da janela a apreciar o movimento da rua apressada.
Na sala de espera, o silêncio foi derrotado. A funcionária de turno irrompeu pela sala, com a imponência do seu farto porte, e acendeu a televisão. Não perguntou se queriam ver televisão. Os outros ficaram a salvo. Já nenhum tinha de dar o mote para a conversa. Podiam deixar o título do texto para o seu final. O texto, que se esgotava no seu título – na exata medida do silêncio imperador.

10.7.19

Match-point (short stories #128)


Propellerheads ft. Miss Shirley Bassey, “History Repeating”, in https://www.youtube.com/watch?v=yzLT6_TQmq8
          O que podiam contar os moinhos dispostos na paisagem? Não seria preciso chegar aos embaraços que travam a voz gutural do vento. Os moinhos recebem em suas pás o muito vento antecedente que vem carregado de vidas. As vidas de todas as pessoas que se expõem ao vento. E o vento, agente que testemunha as vidas tão díspares, transfigura-se em repositório de todas as vulnerabilidades, das angústias, das alegrias emolduradas, das promessas, dos fracassos, das incompreensões, dos feitos para os quais não há orgulho como medida capaz. O vento que os moinhos recebem é um pouco de tudo isso, uma constelação raiada com as cores todas do arco-íris como se da variegada textura das pessoas se tratasse. Os moinhos comungam-na com o vento. As pás vogam furiosamente quando um vento destemperado vem dominado por estados de alma iracundos, merecidamente iracundos, talvez produto de injustiças injustificadas. (Como são todas as justiças, já o sabiam os moinhos.) Outras vezes, os moinhos parecem o chão aveludado de um mar precoce, o pressentimento de um sossego que merecia ser semente perene. Na maior parte das vezes, não é clara a definição dos ventos. Não havia uma manga de vento que apurasse o quadrante de onde se acende o vento; se houvesse, na maior parte das vezes seria uma manga de vento evasiva, sem se perceber o vento dominante. É nessas alturas que o empate persistente é apalavrado. Inseguros, os moinhos decaem numa hesitação que os consome. (E, afinal, que não se consome no altar das hesitações?) Ficam reféns dos empates em que se agiganta a variedade que é o néctar sublime da humanidade. Os moinhos acabavam por não se importar de estarem sitiados por ventos erráticos. Consideravam a dissemelhança um bálsamo ímpar. Quando era preciso desempatar, os moinhos tomavam o match-pointnas mãos. Decidiam. Sem apelo. Os vultos conservadores sempre justificaram a “ordem natural das coisas”. (O que isso seja, na sua vaga definição.) Se soubessem dos moinhos e de como decidem os match-points, ninguém os calava.

9.7.19

Os lamentos que tinham estrada atapetada


The Chemical Brothers, “Believe”, in https://www.youtube.com/watch?v=7f2wg1pqQDs
Fugia das sombras. Tinha medo que atrás das sombras viesse um vulto que se apoderasse dele, tomando em suas mãos a vontade dele retirada. Não queria que o vulto se transfigurasse na sua pessoa, passando a ser uma marioneta do seu próprio fingimento, incapaz de dosear a sua vontade. Os sobressaltos subiam a cena e temia que depois nem os lamentos tivessem fala própria.
Era evasivo. Não se comprometia com ideias. Dele não se sabia a adesão a uma causa, nem daquelas que, por serem tão politicamente corretas, recolhem apoio massivo. Ninguém sabia em que partido votava. Não se pronunciava sobre uma peça de teatro, ou um filme, ou um disco, ou um livro. Até os amigos sabiam que não podiam contar com ele. Parecia ter alergia à tomada de posições que o comprometessem. 
Um dia, anuiu na explicação para a inata precaução, o silêncio que era o critério para não ser apanhado em falso. Dizia que não queria, mais tarde, como consequência de uma tomada de posição, ser apanhado no lado errado da maré. E, ato contínuo, que sentisse a necessidade de expirar o arrependimento em forma de lamento. Não acreditava no poder heurístico do lamento. Prantos assim não resolviam nada, a não ser mostrar a tremenda fragilidade em que mergulhava quem levava o lamento a cena. O que o incomodava não era a fragilidade exposta aos olhos de toda a gente. A fragilidade não é motivo de vergonha. Se existe, tem de ser representada. O que o importunava era o lamento que pode convocar a comiseração dos demais, como se a piedade fizesse voltar o tempo atrás e apagasse do palco, onde desfilam os sucessivos atos, o ato que depois motivara o lamento. Não concebia a hipótese de coçar os olhos chorosos com um lamento, por causa da humilhação a que se expunha.
Alguém contrapôs que um lamento pode não traduzir a convocatória pela comiseração dos outros. Pode ser apenas um ato interior, uma contrição que se esgota, no seu efeito útil, na esfera de quem a exerce. Ele estava equivocado em considerar que um lamento era a expiação que fazia subir o ato errado ao planalto do esquecimento. O lamento – disseram-lhe, pedagogicamente – pode ser só um exercício interior, que ninguém precisa de testemunhar. Com estes predicados, o lamento deixava de lado os óbices que ele trouxera como explicação.
Aparentemente convencido que o lamento não era uma doença que desnudava quem o proferia, continuou evasivo, não se comprometendo com ideias, não aderindo a causas, não confessando em que partido votava, não se pronunciando sobre uma peça de teatro, ou um filme, ou um disco, ou um livro, não se comprometendo nem com amigos quando estes dele precisavam. Continuava a ter alergia à tomada de posições. Não seria por ter medo de se expor a um lamento. Nunca se soube por que insistia em ser um membro esterilizado da sociedade. Talvez não tivesse posição sobre assunto nenhum. Ou não soubesse tê-la. 
(O que é preferível a tomar partido sem saber porquê.)

8.7.19

Teoria do apocalipse permanente (ou: teoria permanente do apocalipse)


Nils Frahm, “My Friend the Forest”, in https://www.youtube.com/watch?v=d99p-SPn5Tc
(Mote: Mão Morta e Inês Jacques, “No Fim Era o Frio”, Teatro Aveirense, 29.06.19)
Será mais confortável imaginar cenários distópicos, o pressentimento do apocalipse com prazo de validade no horizonte, do que insistir na ladainha que é a vida, que para uma multidão não passa de vidinha?
O descontentamento com a humanidade no seu estado contemporâneo, e a ideia de que os vícios são fundos e incorrigíveis, fornece o substrato para o presságio do apocalipse. Há toda uma arte que parte da premissa do falhanço da atualidade (na sua transfiguração de modernidade) e que, assente na descrença do potencial de mudança necessário para corrigir este estado de coisas, alinhava os rudimentos de um mundo hediondo, um mundo que se encaminha para a extinção. Não são confortáveis as distopias assim narradas. Elas alimentam-se da intensa propensão para a autofagia. Ao mesmo tempo, funcionam como um choque térmico. Servem para apoquentar as consciências – as que ainda não estão apoquentadas e as que, já estando, se sobressaltam mais uma vez no pressentimento do que poderá vir a ser o último dia do mundo e o processo trágico que nos conduzirá a essa fatalidade.
A distopia tem conotação com o frio. Do frio que penetra até à medula, ao ponto de anestesiar as pessoas refugiadas num último reduto à espera do dia derradeiro. O frio insensibiliza-as para as coisas terríveis que destroem o mundo metro a metro, inexoravelmente. Configurando as dores excruciantes que seriam sentidas caso não houvesse o frio como anestesiante, até o amor se joga num jogo de contrários com o pressentimento do fim do mundo. Do amor ausente, desconfigurado, do amor extraído ao catálogo de emoções e do vocabulário. Como pode uma distopia condensar o cenário funesto com a prodigalidade do amor? Só se for para dar ênfase ao palco onde ambos se jogam, contraditórios: os ventos, que sussurram o apocalipse que não demora, não deixam espaço para o amor. A extinção do amor é um ingrediente do pressentimento do apocalipse.
Interiorizo o enredo medonho, agravado por uma narrativa que se serve de recursos estilísticos que exageram a distopia – os detalhes macabros, a orgia de violência, assim consagrada como sinal do fim dos tempos, a morte vista do exterior do sujeito num aparatoso cenário que se embebe nas golfadas de sangue que jorram do corpo mutilado por uma criatura extraterrestre e que termina com a decapitação do sujeito, e a sua confissão, ainda incrédulo, de ter a impressão de ter morrido. 
Tinha quase a certeza de que ia ter pesadelos densos durante a noite.
Afinal, os pesadelos desviaram a rota. A teoria permanente do apocalipse pode ser uma manifestação de esperança que um cético lavra para memória futura. Será mnemónica não acidental ao cuidado de mandantes e de poderosos, os que podem evitar que se acentuem as terríveis imperfeições que nos conduzem para um abismo sem retrocesso. É, nesta medida, um paradoxal pulsar de esperança. Se a distopia encenada servir como aviso que caia fundo nas consciências de mandantes e de poderosos e, ato contínuo, eles se lembrem que ainda vão a tempo de salvar o mundo. O nosso mundo, que é também o mundo deles.

5.7.19

Fundação da Esperança


Idles, Colossus (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=35NtjSFsMnI
Não sabia se era pueril invocar uma centelha que se despenha vertiginosamente sobre o porvir. Foi com esse ânimo que fundou a Fundação da Esperança. Uma pulsão incontida no peito que apetecia lavrar em ata, deixando para as gerações presentes um testemunho de regozijo pelo futuro que espreita no ocaso do dia presente.
Epicurista, talvez. Sabia que a tela onde desfila o presente, com âncora já dardejada para o futuro (que começa logo amanhã – convém não esquecer), era o esteio para o ceticismo militante de muitos. Com este pano de fundo, havia lugar a uma Fundação da Esperança? A pergunta não deixou de ecoar repetidas vezes antes de decidir avançar com a Fundação. A interrogação era, afinal, o substrato primeiro da Fundação da Esperança. Ele também dava o flanco e amiúde situava-se na trincheira dos céticos. O mundo é como é. Às vezes, estar na trincheira dos céticos não é uma capitulação. Nem contraditório com o espírito da Fundação da Esperança. Se estivesse sempre derrotado perante as circunstâncias do mau mundo, é que seria capitular. Se não tivesse encontrado forças para ser o fundador da Fundação da Esperança, é que seria desacreditar nos amanhãs que vêm a seguir. De outro modo, os amanhãs já estão feitos na macilenta cor do presente.
Ou então, seria apenas ingénuo. Ajoelhado perante todas as ignomínias de que o mundo é pródigo, com a estreiteza dos corredores mentais por onde segue a desmemória e a ocultação da História, a infâmia disfarçada de messianismo, a boçalidade reinante, a desconfiança como refúgio contra tudo isto que vem no dorso do mundo, a mitomania compulsiva que desacerta a bússola – deposto perante este rosto taciturno do mundo, faria sentido a Fundação da Esperança? Considerou que o retrato do presente era o móbil para a Fundação da Esperança. Não podemos fugir do tempo presente. Mas podemos contagiar o tempo vindouro com uma sementeira de esperança, para ultrapassar os contratempos que medram em todos os hoje que ateiam a fogueira onde apetece muita coisa incensar. Era o antónimo de ingenuidade. Um golpe de asa sobre as arcadas onde o tempo futuro está à espera.
A Fundação da Esperança não seria um lugar para todos. Não haveria lugar para os céticos que não encontram em si um módico de esperança.  Nem para os otimistas incorrigíveis, os perenemente bem-dispostos, com aquela alegria tão contagiante que soa a disfarce, ou a esconderijo de si mesmos. A esperança que os amanhãs funcionem no verso da diferença, e que esse seja um verso escrupuloso com a vertigem da mudança que mereça a diferença, não tolera uma embriaguez de esperança. Os perenemente embriagados de esperança perdem a medida das coisas. São os apóstolos de uma distopia. 

4.7.19

Jogos de azar (estes são)


Egyptian Blue, “Collateral”, in https://www.youtube.com/watch?v=wvav-OeEhJU
Onze horas e cinquenta e nove minutos. Tomado pelo sortilégio dos números, e sempre pronto a encontrar um significado oculto numa combinação de algarismos, concluiu, sem hesitação: “não é hora ideal para jogar”. E antes que as dores do azar requeressem uma morfina qualquer (normalmente, o ensimesmar que protelava o arrependimento), pôs-se a fazer cálculos complexos, no âmbito da sua privativa cabalística, para determinar a hora certa.
“Pelas minhas contas, às treze horas e sete minutos é a altura certa.” Saiu de casa, não fosse dar-se o caso de um trânsito inesperado barrar o caminho e não pudesse estar a horas no casino. Correu tudo bem. Até à porta da entrada do casino. Saiu cabisbaixo e com a conta bancária aliviada de umas centenas de euros. Estava cabisbaixo não pelo dinheiro perdido. Essa é a genética dos jogos de azar. Estava cabisbaixo, porque tinha quase a certeza de que os cálculos estavam certos (talvez um paradoxal oximoro, portanto). Naquele emaranhado que era a combinação de equações e significações enigmáticas para os algarismos, e com o seu domínio da matemática, como podia o jogo correr mal? Afinal, as equações e as significações não eram à prova de bala. “Nem podiam ser” – sussurrar-lhe-ia, num canto recôndito do seu eu, um alter ego, não fosse acontecer ele ser tão possessivo de si mesmo que não deixava espaço para as dores de consciência. Isso, e a teimosia numa matemática quase astrológica, ou onírica, explicava como esbanjara tanto dinheiro desde que se deitou aos jogos de azar. “Nem podiam ser”, insistia a suposta voz interior a fazer as vezes de incómoda consciência, “se não, ou os jogos de azar já tinham desaparecido, ou mais gente tinha feito fortuna à custa dos casinos.”
Interiorizou a expressão “jogos de azar”. Pela primeira vez. Como é que nunca olhou com atenção para a conjugação de palavras que compõe esta expressão? “Jogos de azar”. E disse-o, numa voz interior que se repetia à exaustão, até a expressão e as palavras integrantes começaram a perder sentido. “Como se pode chamar jogos de azar a jogos que dão fortunas a quem é afortunado? São jogos de sorte, essa é que é essa!”, numa exclamação que soava à necessidade de legitimar a pulsão pelo jogo. 
A caminho de casa, já só fazia contas de cabeça aos cálculos alimentados pelas equações de que fora arquiteto, assim como à grelha de análise que inventara para fazer corresponder significações aos algarismos. “Tem de haver um buraco negro no sistema”, insistiu na legitimação interior. E, em vez de perceber o significado da expressão “jogos de azar”, continuou a porfiar na sua quimera particular, julgando aperfeiçoar, de cada vez que saía vencido do casino, a miríade de equações que não era o segredo para a fortuna. 
Os jogos de azar eram mesmo de azar. E à prova de qualquer ensaio cabalístico.

3.7.19

Tenho uma janela nas mãos (short stories #127)


Xinobi, “Piano Lessons”, in https://www.youtube.com/watch?v=BCJ09PRg4-0
          Não digo que não sei das quimeras. Amanhece; tu e eu amanhecemos e damos a conhecer a manhã inteira. E eu sei que sou outro dia, como a luz ainda pálida da manhã, a luz promissora. Contenho nas mãos um mundo. Toco as mãos, como se em meu tato soubesse ler todas as paisagens retidas na cortina da memória. Elas passam, céleres. Atropelam-se em breves fragmentos que são parte de um também breve filme que desfila no palco da memória. E, todavia, não queremos ser reféns das memórias. Não queremos ficar contentes com o mundo que se entretece nos poros das nossas mãos, nem nos queremos saciar nas porções de paisagens que compõem a tela que se perfila no horizonte. Preferimos olhar para as mãos como a janela insaciável. A janela que porfia no alpendre onde há mais mundo, muito mais mundo, por cursar. São essas as quimeras que prosperam dentro do peito incontido. Um fósforo à espera de ser ateado. E a mão que o empunha, não embaciada pelo desejo irrefreável, congemina o fio condutor que arruma a chama na extremidade inflamável do fósforo. Tudo faz então sentido. É como se uma janela se desembrulhasse das mãos fechadas em concha e através dessa janela os olhos se banqueteassem nas paisagens avulsas, nas cidades que são o tempero da nossa madurez, dos caldos de cultura em que nos banhamos. Tenho uma janela nas mãos e não a quero escondida. E um repto insaciável que se sobrepõe aos contratempos, um móbil que é um poema andante, os lugares por nos onde apetece viandar, os lugares que se afidalgam à nossa passagem. Da janela entreaberta, já emancipada das mãos, ouvimos uma voz que murmura as estrofes que damos de memória ao álbum que reúne as fotografias que o tempo não desgasta. Talvez sejamos nómadas, o que não é ambição sem quartel. Da janela que se desembaraça das mãos, o mundo povoado por nós. E nós, seus lídimos embaixadores, trazendo mais fragmentos do mundo que são devolvidos às mãos, para enfim nos deitarmos com o peito cheio de tudo o que somos na maré-cheia do que a nós trouxemos. 

2.7.19

Escolha múltipla


Fat White Family, “Tastes Good With the Money”, in https://www.youtube.com/watch?v=VLTWNfyMS5Y
A rua tem fim estreito. Afunila, nessa altura. Dir-se-ia que não quer desistir de ser rua, apesar de os eruditos lhe dizerem que todas as ruas têm um fim, ou porque são meros afluentes de avenidas, ou porque entroncam noutras e com elas constituem encruzilhadas que os transeuntes têm de decifrar. A rua teimosa e ufana de sua condição não acreditava nestas sensatas palavras. Talvez quisesse ser avenida, ela mesma. Afinal, trazia consigo o nome de um emérito patriota que, em seu tempo, foi herói consabido. A rua tinha melhor patrono do que muitas avenidas, que não foram batizadas com nomes de gente tão importante na história coletiva, ou apenas carregam no dorso nomes que ressoam a valores hoje um pouco gastos. 
(Pelo menos se estiver certo o discurso do presidente russo, há dias, que garantiu ser o liberalismo um anacronismo.)
No fim estreito, a rua não desaguava numa avenida. E ela sentia-se confortável por não ser mero afluente de uma avenida porventura batizada com o nome de uma personalidade menos personalidade do que o nome do patriota que trazia a tiracolo, ou com o nome de um valor gasto com o tempo (liberdade, porventura). Era um braço de uma constelação de ruas, paralelas umas às outras. Não havia ali estatuto que diferenciasse as ruas que faziam parte desta rede. E os nomes das ruas em redor não se distinguiam pelos feitos que eram atribuídos às pessoas que eram suas tutoras, em comparação com a rua em apreço. Era uma rua que atribuía muita importância aos pergaminhos. Tinha a mania das grandezas.
Esta rua, como as outras que constituíam a miríade em rede, era transversalmente cortada por uma avenida. Por isso, a avenida chamava-se transversal, o que não era de grande garbo para a identidade da avenida que teve a incumbência de seccionar todas aquelas ruas em duas partes. A rua em si não se incomodava com esta barcelonização: não era por estar seccionada em duas partes por uma avenida que desenhava a cidade que lhe retirava identidade. O que a desassossegava era saber-se penhora de uma encruzilhada quando o seu término tinha lugar. O diagnóstico era um equívoco, contudo. No seu final, a rua dava origem a duas outras, como se estas fossem as filhas dadas em herança. Mas a rua, alarmada com os estipêndios das medalhas norankingdas ruas da cidade, passava ao lado desta que seria a questão relevante. Passava ao lado da sua têmpera, contudo escondida.
A rua tinha insónias só de saber como podiam os forasteiros, e os habitantes da cidade pouco treinados naquela zona, saber por onde iriam ao chegar ao término da rua. Este é o problema das encruzilhadas. As pessoas têm de escolher um dos caminhos. Saibam ou não por onde vão. E essa angústia, apesar de atingir terceiros, era um desassossego para a rua, na impossibilidade de se prolongar, talvez através de um viaduto, para além das duas ruas que dela dimanavam.

1.7.19

Improcedente


Iggy Pop and the Stooges, “I Wanna Be Your Dog” (live in Sydney), in https://www.youtube.com/watch?v=m9xIm7Owyso
De que serve olhar para o cemitério?
A bruma que aplaca o entardecer tece um aviso sobre os imponderáveis, apenas da possibilidade de existirem, pois, sendo imponderáveis, não cabem dentro das previsões. São as linhas tortas por onde se escrevem as palavras porventura indizíveis, ou apenas as insinceras proclamações que sobem a um palco com a soberba própria da vaidade infundamentada. Há uma legião inteira de sonhadores, inconfessados sonhadores, que se imaginam maiores do que a sua estatura. Tossicam entre as palavras arrevesadas, o tossicar como se fossem vírgulas que distanciam as palavras para serem devidamente escutadas. Quem os ouve não sabe se contam a verdade. Talvez não seja relevante. Se vingar a ideia de que somos meros atores em palcos que se desmultiplicam na azáfama do fingimento, a fundamentação do que é verdade e do seu oposto desce à divisão da desimportância.
Pode acontecer que estejamos todos a falar uns com os outros e ninguém dê atenção às palavras assim ditas. Falamos na surdez da nossa desatenção. Possivelmente, só contam as palavras de quem as diz, num discurso elíptico em que as palavras são ditas pela necessidade de quem as diz as poder ouvir. Funcionamos como ilhas angustiadas porque todos sabemos do sentido único das palavras, das palavras mudas aos ouvidos dos outros. As maravilhas da tecnologia ditaram a possibilidade de todos nos fazermos ouvir, ou ler; é quando, iludidos pela falaz democratização da palavra, damos conta que a abundância é o punhal que compromete essa democratização. Estamos cada vez mais sozinhos no imenso palco, maior do que a dimensão do mundo, que se nos é oferecido. Quando fugimos à verdade, mentimos a nós mesmos. Improcedemo-nos.
É esta ambiguidade: as promessas de grandiosidade, a repetibilidade dos “cinco minutos de fama”, esvaziam-se no forno onde se incinera a nossa improcedência, na adulteração do que dizemos e de como é imensa a distância entre o dito e o contido na fala. Crescemos a olhos vistos, mas apenas dentro do espelho interno por onde medimos o nosso tamanho. Todavia, não é dramático, este estado de coisas. Nada mudou. Apenas se tiram as medidas ao logro que foi a promessa de que cada um podia ser o protagonista que, no fiel da balança devidamente atestada, nunca poderia ser. 
Assim sendo, não se pode determinar que somos – ou fomos – improcedentes. Foram vãs as promessas da nossa relevância e nunca chegámos a sondar os contrafortes da procedência.

28.6.19

Carta a um país em que não fui eu


Heróis do Mar, “Saudade”, in https://www.youtube.com/watch?v=xQPv1btZRF0
Sabes, país onde nasci, apesar de em tua terra ter nascido e vivido, não me sinto teu filho. Que mal terá existido entre nós? Concedo: seria mais confortável encerrar as culpas em ti, pela desidentificação que em mim medra quando para ti olho. Mas, concedo também, em grande parte, posso ser eu o equívoco nesta bilateralidade mal resolvida.
Olho para o cartão de cidadão e para o passaporte e lá aparece o teu escudo armilar, país. O teu nome, país, que se incumbe de me conferir uma nacionalidade, com a automaticidade de um selo que vem tatuado pelo território de nascimento. Não julgo, país, que esse critério formal seja suficiente para justificar uma pertença. Não gosto do diapasão da pertença. A palavra, usada neste contexto, esvazia a autonomia da pessoa. Contudo, país (acredita que gostaria de empregar a expressão “querido país”, mas estaria a contrariar o espírito desta missiva e de mim mesmo seria mitómano), sinto em mim a prova viva de que os critérios, formais e legais, que são o húmus da nacionalidade, da identidade e da pertença, em mim não chegam para enraizar os alicerces que os justifiquem. Lamento informar-te, país que me viste nascer, não me sinto teu em nenhum milímetro do meu corpo, em nenhum átomo do meu pensamento.
Tu não és apenas um interminável apanhado de coisas soezes ou de rudimentos em que radica a minha não identificação contigo. Sossega, caso possa suceder que com esta carta te importunes (coisa de que duvido, tamanha a minha insignificância no universo das pessoas que trazem a tua nacionalidade ao peito). Caso estejas em vias de ser tomado pela angústia, tenho para te dizer que em ti reconheço atributos aos quais não tenho pejo em tecer loas. Não será à tua história, e menos ainda à vocação oficial para ela ser ensinada como transcendência, para os petizes acreditarem que fomos predestinados, mas agora estamos reduzidos à insignificância. Não serão expressões de cultura popular distinguidas como sinais vivos da portugalidade, que nelas não consigo encaixar os meus padrões estéticos. Não será a prosápia nacionalista de cada vez que um desportista alcança uma proeza em competições internacionais. Não será a propaganda hodierna que te transformou em banalizado destino turístico à boleia do clima e da vantagem competitiva que é a segurança em que consegues estar. Não serão as qualidades dos teus nacionais, que não consigo distinguir tamanha generalização entre a plêiade de pessoas tão diferentes. Não será o fado, nem o orgulho pátrio quando um dos teus é distinguido por uma sinecura internacional – como se o seu feito fosse o retrato de uma gesta toda ela pátria, em patente diminuição das qualidades (ou dos conhecimentos certos) que legitimam a sinecura desse concidadão.
Tu encerras virtudes, país. A diversidade de paisagens, que não se intimida com a exiguidade do território. Alguma gastronomia. Alguma literatura. O mar. Os rios. O terreno agreste em certas zonas e, não obstante, como houve gente que porfiou para domar essas terras e dispô-las para o uso humano. A tolerância. A convivência com o outro – em ambos os casos, o melhor legado que recebeste dos antepassados que partiram à descoberta. A moderação das pessoas. O sossego que soubeste entranhar nas pessoas, passaporte para a paz reinante. 
Contudo, estas virtudes não chegam para arruinar os estorvos que me afastam de ti, país. No sopesar de tudo o que conta, continuo a ver o prato da balança que alberga as coisas negativas a pesar mais. Continuo a sentir que a minha portugalidade é acidental, produto de um acaso, o meu nascimento numa cidade que pertence ao teu território – um fator independente da minha vontade. Por isso, não vejas nesta carta um sinal de desesperança, ou a manifestação de uma desistência, ou até o prefácio de um ceticismo incorrigível. As convenções e as leis obrigam a usar a tua nacionalidade. E isso chega, para nós os dois. Pois nem em ti me revejo, continuando a sentir-me, muitas vezes, forasteiro em teus domínios. E, admito, tu não te revês neste pária (podes-me apostrofar dessa maneira), naquilo que sou e que não quadra com a imagem que de ti fazem.

27.6.19

Quiosque (short stories #126)


Dead Combo, “Esse Olhar Que Era Só Teu” (ao vivo na RTP), in https://www.youtube.com/watch?v=ZpCOcIttnJo
          Os quiosques deixaram de vender jornais e revistas. Vendem cafés e bebidas e registam os jogos de sorte (ou azar – ou, em homenagem ao rigor, ausência de sorte) da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa. Têm extensões, os quiosques: esplanadas sabiamente à sombra de árvores, para os clientes se resguardarem do calor maçador de que Lisboa é testemunha no Verão. São um cais onde as pernas descansam depois de intermináveis caminhadas que palmilham as calçadas, as avenidas, os becos, os museus, os miradouros, num sobe e desce que torna a caminhada extenuante. São postos de observação para a vida que leva a cidade: os idosos, os seus principais clientes, fazendo o tempo demorar-se; os turistas que mergulham nos mapas e nos guias, para saberem onde estão e para onde vão a seguir, depois de deixarem em cima da mesa canecas de meio litro de cerveja que beberam num ápice; as pessoas que, não querendo consumir bebidas, evitam a esplanada e sentam-se nos bancos de jardim que a ladeiam; os operários que descarregam materiais de construção para o apartamento do terceiro direito que está a sofrer uma profunda reabilitação para engrossar o contingente de turismo local muito procurado pelos turistas; as pessoas que saem da livraria, especulando-se sobre o possível retrato de quem ainda se dá ao trabalho de indagar sobre as novidades editoriais; a senhora que faz a limpeza das casas de banho públicas (situadas na cave vizinha à esplanada, depois de descida uma escadaria pitoresca em forma de caracol) a comer um gelado; um casal de namorados que, noutro banco, se entrelaça de pernas e mãos e deve estar imerso em juras de amor; a faixa evocativa da manifestação do primeiro de maio que ficou perdida entre duas árvores, para lembrar que o primeiro de maio dura, pelo menos, cinquenta e dois dias; o que leva à evocação da liberdade, que começou a ser construída no largo sobranceiro à esplanada, uns metros mais abaixo, e de como não a teríamos se os manifestantes que esqueceram de retirar a faixa evocativa do primeiro de maio tivessem tomado as rédeas do poder. Ou então, a esplanada do quiosque serve apenas para uma imperial bem servida matar a sede, na exata medida dos pensamentos sem tutor que se evadem da observação do meio exterior, para não serem sitiados pelo pensamento comprometido. Os quiosques de Lisboa não merecem tamanha responsabilidade.

26.6.19

O último conhaque da tarde na tertúlia dos reformados


Morphine, “Thursday”, in https://www.youtube.com/watch?v=gyYQYmgTrrI
A luz dispersava-se sobre a sala, enquanto na televisão uma entertainerfalava como se estivesse na feira. Os homens estavam calados, na inversa proporção da vozearia que, desde a televisão, inundava a sala. Estavam calados, mas sem darem atenção ao furibundo, estrepitoso “espetáculo” que tomava conta da televisão e, por arrastamento, da sala. (Um deles obrigou que a palavra fosse grafada, por distanciamento higiénico do que não queria que estivesse a passar na televisão.) Olhavam para os copos de conhaque, como se nas suas profundezas se tivesse alojado um enigma que emprestava ânimo ao entardecer. Continuavam calados e, cada um deles, imerso numa miríade de palavras que desfilava velozmente sobre o pensamento. Com imagens retiradas da memória a entrecortarem o pensamento transbordado. 
Um deles pediu mais um conhaque. O seu copo estava vazio. Com o copo vazio, era como se o fértil campo de palavras se extinguisse e o pensamento ficava deserto. Era preciso mais conhaque. Outro companheiro, e a seguir outro, imitaram-no. Romperam o silêncio para pedirem ao balcão o último conhaque da tarde, antes de se despedirem uns dos outros com um “até amanhã” – seguido de pausa lancinante –“, se Deus quiser.” Enfatizavam a segunda parte da alocução. Com medo, a boca subitamente secando-se quando todos diziam, angustiados, “se Deus quiser”. Sabiam porquê. Todos tinham ido a funerais de mais nos últimos tempos. Os da sua idade, e até alguns mais novos, tinham partido. Era melhor pedir mais outro conhaque. 
Um deles atirou, inopinadamente: “homessa, a juventude tem a mania de intercalar ‘tipo’ entre duas palavras”. Os outros não tiraram os olhos das funduras dos copos, uns meios vazios, outros ainda cheios, um deles já quase vazio. O silêncio demorou-se, tornando-o excruciante para quem deu à ignição ao novo tema de conversa. Eles falavam de tudo um pouco. Eram entendidos de tudo um pouco. Mas ninguém parecia saber da nova semântica que, de acordo com o reformado que lançara o assunto, lesa o idioma. Só algum tempo depois, já o assunto parecia ter abortado à nascença, outro reformado acrescentou-se à conversa: “não te importunes. Em cada geração há modismos na língua. Mudam através dos tempos. Não podemos dizer que os modismos de hoje são um abastardamento do idioma.”
Os copos estavam quase vazios. Uma jovem entrou no bar. Estava aflita, uma graça mal anunciada das necessidades fisiológicas. Perguntou: “onde é, tipo, a casa-de-banho, tipo?” Os reformados que ali faziam tertúlia todos os dias (exceto domingos e feriados) olharam uns para os outros. Um deles, o que tentara explorar a nova semântica da juventude, respondeu com um gesto, o braço indicando o caminho da casa-de-banho. Depois de a jovem entrar sem mais demoras, ele atirou: “estão a ver o que eu dizia?” E outro, indiferente e mais interessado nas efabulações caucionadas pelo último copo de conhaque, cortou a direito: “vamos pedir o último copo de conhaque da tarde, que isso é que importa.”

25.6.19

O último profeta


Pulp, “Common People” (live at Reading 2011), in https://www.youtube.com/watch?v=-XlCFJA3yL4
O nevoeiro corria uma cortina sobre o horizonte, o que não impedia o horizonte; o horizonte apenas emagrecera por ação do nevoeiro. Um ancião dispensava esta metáfora para se alcançar a cegueira mental do último dos profetas. Um ancião ainda mais idoso que, cego desde há décadas, continuou durante anos seguidos a ser credor da confiança dos demais. 
Era interpelado sobre as vicissitudes do mundo, os pressentimentos de tragédias, os momentos acertados para semear as colheitas, as probabilidades de derrotar uma enfermidade, a prevenção de intempéries catastróficas e outros cataclismos (físicos e da alma). Até as entidades religiosas se socorriam dele, em segredo (para não calhar em azar a desautorização eclesiástica, que podia diminuir o êxito confessional junto da comunidade). Até nas guerras o profeta era consultado. Sobre a viabilidade da vitória como pressuposto da guerra, ou sobre os efeitos estimados a partir do momento em que os líderes, com assentimento das autoridades religiosas, decidissem avançar para o pleito. Não se pode garantir que o profeta nunca tenha errado. Terão sido poucas as ocasiões; só os mais idosos tinham uma vaga recordação de um par de vezes em que os presságios do profeta não quadraram com o acontecido. Atribuíam os erros à falta de experiência, quando o profeta discerniu que tinha um dom inacessível ao comum dos mortais. Assim como assim, até os profetas passavam por um tirocínio, confirmando que não eram entidades sobre-humanas.
Ninguém sabia a idade do profeta. Teria mais de cem anos. Conseguiu manter um invejável vigor físico e mental, a prova do seu estatuto superior. Mas tudo tem o seu gasto e nem o profeta era imortal. Começou a proferir frases sem sentido, disparates que soavam ininteligíveis. Ficou acamado. Ainda acamado, já com as faculdades físicas tolhidas, continuava ativo no fervilhar das profecias. Que continuavam a acertar. Com o mirrar do corpo veio o entorpecimento da mente. O profeta deixou de conseguir falar. Ainda foi a tempo de escrever, em má caligrafia devido às mãos trémulas, um par de profecias antes de perder o juízo. A comunidade entrou em pânico. O que seria dela, agora que perdera a vantagem de conseguir adivinhar o porvir por ausência do profeta? 
Houve um herege que, desconfiando das capacidades do último profeta, lançou uma interrogação provocatória: e se o profeta fosse um falsário, e todos os demais, crentes nas suas profecias, falsários também, e as profecias não fossem profecias, mas apenas o regular dos acontecimentos para serem a expressão fidedigna das profecias alinhavadas? 
A comunidade levou algumas gerações até aprender a viver sem profeta. Perderam-se colheitas, algumas embarcações de pesca naufragaram e levaram homens para o fundo do mar, uma ou outra tempestade inesperada agravou o caos momentâneo. Mas deixou de haver tantas doenças com diagnóstico tardio e não houve uma única guerra perdida (porque nenhuma foi a guerra em que a comunidade entrou). 
Nessa altura, com a demora de algumas gerações, a comunidade passou a regular-se por uma metafísica diferente, acreditando nas suas próprias capacidades. Não precisavam de profetas. Só ficou por saber se o novo estalão metafísico era função das circunstâncias (nunca mais nasceu um profeta), ou ser era autêntico. 

24.6.19

KISS (keep it simple, stupid)?

Davendra Bahnart, “Kantori Ongaku”, in https://www.youtube.com/watch?v=WB5Gypm4fHo
Epistemologia da escrita: a simplicidade é o mais difícil estalão de alcançar? A simplicidade corresponde à autenticidade da escrita, despida de ornamentos frívolos e fórmulas que conjeturam a complexidade como meio de exaltar o espírito elevado dos criadores?
Há quem assegure que a simplicidade é o desiderato primeiro da escrita. Os eruditos – sobretudo os que ostentam a sua garbosa condição erudita – não o admitem. A simplicidade, argumentam, é a parte fraca dos fracos, dos que desconhecem a cultura clássica e ignoram que a estética de um texto não traz a simplicidade como passaporte de mérito. Argumentam que se a simplicidade é o idioma corrente, corre-se o risco de confundir simplicidade com desconhecimento de regras mínimas sobre gramática e sintaxe, entortando o texto com as entorses de que fala popular é paradigmática.
Do lado contrário da trincheira, os que admitem que a simplicidade da escrita é a sua sublime condição. E que a simplicidade, sem se confundir com o abastardamento do idioma, é uma empreitada difícil na exata medida da escolha criteriosa de vocábulos simples, em orações curtas e de fácil entendimento. Quanto mais hermético se tornar o texto, mais difícil é a hermenêutica. Mais se expõe a diferentes entendimentos em função das diferentes grelhas de análise de quem os lê. 
Há neste raciocínio um equívoco: não se entende como a pluralidade de significações pode ferir a qualidade de um texto. E isso é independente da simplicidade ou da complexidade de um texto: ele pode conter palavras simples que, todavia, escondem múltiplas variáveis, mais ou menos ocultas, que desdobram os possíveis entendimentos do texto. Sobrepondo-se a este juízo, está a questionabilidade do axioma que advoga a superioridade dos textos simples. A metáfora da gastronomia vem à colação. Dizem: a melhor gastronomia é a que se despe de ornamentos e de criativas reconstruções; a melhor gastronomia é a tradicional, segundo os preceitos passados de geração em geração. Invocar-se-á a indiscutibilidade de um cozido à portuguesa, ou do bacalhau de consoada: nada se superioriza a pratos tão simples e, ao mesmo tempo, tão representativos da cultura popular. São imbatíveis, por mais elaborada e requintada que seja a gastronomia que se reinventa com o esmerar de sucessivas gerações de chefes de cozinha. Com a escrita acontece o mesmo.
Nada é assim tão objetivável. Há momentos em que nos apetece degustar um prato pertencente à cozinha tradicional e apreciar os métodos simples que são seu apanágio. Há outras alturas que não se recusa a reinvenção da gastronomia, com interpretações de autor a pratos tradicionais, ou com iguarias que são a emulsão da criatividade. O resto fica para o julgamento do produto final. Sem preconceitos operativos, antes de apurar o julgamento. Pois um texto passado pelo filtro da simplicidade pode ser melhor do que um texto candidato ao entendimento de eruditos, como o contrário. Os vereditos contundentes que arrumam tudo em categorias, como se fosse possível tanto hermetismo classificativo, são o ardil que industriam perigosas generalizações.
Pode haver momentos em que o texto exige simplicidade. E outros que quadra com a complexidade. Sem nenhuma garantia, em ambos os casos, de distinção ou de denegação de mérito. O estilo não se pode confundir com a substância do texto.