27.2.19

Quantos são os fracos?


Glockenwise, “Moderno”, in https://www.youtube.com/watch?v=sKb2RXrdo-s
Quantos são os fracos? Quantos são os que não se amedrontam no miradouro do medo, quantos são os que não têm medo de dizer que têm medo? Quantos são os que recusam a ardilosa coragem dos que dela se ufanam e atiram-se de cabeça aos tormentos povoados nas várias dimensões do tempo? E quantos são os fanfarrões que entoam a valentia ímpar e depois, quando dela precisam de convocatória, a encontram deserta, eles próprios entregues à solidão do medo? 
Não é só semântica. A valsa entre os temerosos e os destemidos é um palco artificial. Pois nem os primeiros são temerosos por capitulação, nem os segundos se encerram no alvéolo da bravura e enxertam uma dose alucinante de loucura. Não há lugares assim extremados. E mesmo que os houvesse, ver-se-ia, após cuidada decantação, que os temerosos são os mais corajosos e os destemidos se refugiam numa retórica distorcida que, após diligente depuração, se revela um logro.
Os pusilânimes não são uma máscara de si mesmos, hibernando na inação por receio dos efeitos adversos da ação. É errado tomá-los por vendilhões cercados pela sua venalidade, como se não fosse o tributo da coragem pertença do seu código genético. Serão precauciosos nos passos que dão, medindo criteriosamente as possibilidades e tentando apurar os resultados estimados de cada possibilidade. Serão lúcidos, não arriscam passos no escuro, ou um salto no vazio, pois não lhes é dado a perceber o que contém a escuridão ou se o tamanho do precipício não aconselha o salto no vazio. Compreendem o significado de irreversibilidade. E como não quadram com a estultícia do arrependimento, não são atores descomprometidos de loucas correrias pelo absurdo da incerteza. 
Os destemidos corporizam a vozearia inconsequente, o discurso gongórico, cheio de ornamentos que distraem da essência, vazio de conteúdo. Prometem façanhas mil. A facúndia das palavras, em que servem a verbalizada coragem, é a promessa de audácia. Fazem-se passar por levemente dementes, a demência como instrumento da bravura que só está ao alcance de quem não tem medo de nada. Como não é possível haver quem não tenha medo de nada, antecipa-se o logro. Talvez sejam os que mais vivem assoberbados pelos medos. E como, no íntimo, são assaltados pelos medos e se envergonhariam de os reconhecer em público (como se admitir um medo fosse prova de fragilidade), refugiam-se no fingimento que é o oposto do que são.
O vocabulário está trocado. Os corajosos são os temerosos e os que se fingem de corajosos são autênticos cobardes, todavia disfarçados do que não são. Os primeiros, que aparecem em palco personificando a fraqueza, são os que exibem robustez. Os segundos são uma impostura, a bandeira hasteada da fragilidade, todavia disfarçada de uma afoiteza que se estilhaça ao primeiro contratempo.

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