30.4.19

Quando o olhar se desprende das baias

FKA Twigs, “Cellophane”, in https://www.youtube.com/watch?v=YkLjqFpBh84
O desafio de que não se esconde o olhar: podia ser timorato, temerário, mas o olhar salta as alfândegas que os lugares-comuns industriam e apetece-lhe saber ao que vem o desafio. Pode ser um logro. Pode ser a etimologia escusada que apenas serve para iludir o olhar numa encenação de si mesmo. Pode o desafio ser um covil perfeito, um lugar apertado onde o corpo se exsuda nos corredores estreitos de um labirinto inacabado, como se o próprio tempo fosse infinito durante a convulsão havida no labirinto. Ou pode ser a paisagem onde o olhar se emancipa de algemas assim contraditadas, sabendo-se lugar-tenente da madurez, o olhar. Nunca o saberá, o olhar, se não corresponder ao desafio do desafio.
Tome-se como exemplo um preconceito qualquer. É um impedimento estrutural (ou não tivesse sido elevado à categoria de preconceito). O olhar não está disposto a equacionar as convenções em que foi adestrado. O tirocínio – qualquer tirocínio – não é por acaso. Mas o olhar pode sentir a pulsão do que lhe é estranho, sem saber os cambiantes do desconhecido e, mesmo assim, arrisca arriscar. Pois sente-se desafiado pelo desafio. E não conseguirá saber os contornos do desafio se não se lançar, desimpedido de preconceitos, ao desafio. 
Se o olhar se consegue desprender das baias, só lhe pode acontecer uma de duas possibilidades. Ou o risco compensa e o desafio foi um campo fértil para a aprendizagem, emprestando ao olhar uma silhueta com contornos mais largos, expandindo os horizontes que o confinam. Ou o malogro da experiência é o resultado de um desafio imponderado, com o olhar sequaz sabendo-se perdedor na safra do desafio que o desafiou. Qualquer das possibilidades exige uma correspondência entre o olhar e o desafio. Que dita o estilhaçar das baias que restringem o olhar.
Se for terçada a hipótese do logro, que não fique uma impressão de desperdício. O olhar fica a ganhar, mesmo sentindo que saldou a empreitada com a inconsequência de um desafio afinal sem substância. Fica a ganhar, o olhar, porque se libertou das baias que o delimitavam a um espaço exíguo. E fica a ganhar porque aprendeu a deduzir, no uso do pensamento estruturado, que o desafio era inútil. É preciso que o olhar se despoje das algemas para saber do sabor da inconsequência. E de como acertar as contas com as dores, pungentes ou não, depois de dar conta de um desafio que acabou por ser o palco de um erro. 
A melhor aprendizagem é a emenda dos passos em falso.

29.4.19

Por decreto, o fim do pessimismo


Nine Inch Nails, “The Perfect Drug”, in https://www.youtube.com/watch?v=dn3j6-yQKWQ
Preâmbulo do decreto-lei
No âmbito das competências do governo, previstas e punidas na Constituição da República Portuguesa, e com a cobertura da legitimidade inflacionada outorgada ao primeiro-ministro, com o beneplácito de sua excelência o senhor presidente da república e caução dos demais órgãos de soberania, ouvido o povo e os demais agentes envolvidos no Conselho de Concertação Social, e pedido parecer à Comissão Europeia, rege o presente decreto-lei sobre o fim do pessimismo. O governo considera crucial que o povo emirja num banho de otimismo, sendo necessário, como pré-requisito, que todos os fundamentos do pessimismo sejam obliterados e condenados ao oblívio. A nação portuguesa não pode continuar a medrar num pessimismo latente que encontra grande parte das suas fundações no derrotismo histórico, na miragem de sebastianismos espúrios e no fatalismo tão bem cantado por sucessivas gestas de fadistas. O governo, ciente da sua presciência e da elevada qualidade da governação que tem legado aos concidadãos, tem uma missão prioritária para os anos vindouros, nomeadamente para a parte sobrante da legislatura, e para as restantes legislaturas enquanto o governo for do atual partido político, que é estilhaçar os esteios que sobejam do pessimismo. No âmbito desta missão, decretar-se-á, com efeitos vinculativos, o fim do pessimismo no prazo estipulado pelo decreto-lei, para, desse modo, franquear as fronteiras ao otimismo que deve passar a fazer parte do código genético da portugalidade.
Artigo 1.º
1.    Fica, por efeito do presente decreto-lei, avisado o pessimismo que o seu prazo de validade se extingue no dia 30 de setembro de 2019 (prazo previsto para o fim da legislatura).
2.    Se, por circunstâncias inesperadas, a legislatura se esgotar antes da data prevista no número anterior, o fim do pessimismo coincidirá com a data das eleições antecipadas (se essa for a decisão de sua excelência, o senhor presidente da república) e se, em resultado das mesmas, o governo continuar a ser presidido pelo atual primeiro-ministro.
3.    Os meirinhos do pessimismo são convidados a alterar o comportamento, esquecendo as fontes que alimentam o pessimismo, ou a emigrar para país onde o pessimismo permanece como fonte desvital.
Artigo 2.º
1.    Os agentes do pessimismo que forem detetados em práticas contrárias ao estipulado pelo presente decreto-lei a partir do dia 1 de outubro de 2019 (ou de data definida pelo número 2, do artigo 1.º deste decreto-lei)  ficarão à mercê da ação fiscalizadora da nova secretaria de Estado do combate ao pessimismo, a instituir em diploma gémeo do presente decreto-lei, e de cominação nos termos previstos nas alíneas a) a c) do número 2, do artigo 4.º deste diploma.
2.    Os cidadãos submetidos à ação fiscalizadora dos peritos nomeados pela secretaria de Estado do combate ao pessimismo têm direito a apresentar contestação, nos cinco dias úteis seguintes ao auto de notificação, junto do gabinete do primeiro-ministro.
3.    A contestação, devidamente fundamentada, suspende o processo de contraordenação instaurado na sequência da notificação da acusação de delapidação do otimismo.
4.    Na contestação mencionada no número anterior, cabe ao cidadão potencialmente infrator apresentar provas indubitáveis do seu não pessimismo.
5.    A decisão do gabinete do primeiro-ministro deve ser comunicada ao apelante no prazo máximo de trinta dias úteis.
6.    A decisão do gabinete do primeiro-ministro pode determinar a continuação do processo de contraordenação ou o seu arquivamento.
7.    A decisão do gabinete do primeiro-ministro é irrecorrível.
Artigo 3.º
1.    Na pendência do processo de contraordenação, um jurista nomeado pela secretaria de Estado do combate ao pessimismo recolhe as declarações do arguido, que não pode ser representado por mandatário legalmente constituído.
2.    O jurista-instrutor do processo de contraordenação pode recolher os meios de prova que julgar necessários, incluindo os que forem obtidos através da perscrutação de contas de correio eletrónico do arguido e da sua participação nas diversas redes sociais, em derrogação, excecional, dos princípios jurídicos estabelecidos pela Lei Geral de Proteção de Dados.
3.    Ao arguido é concedida a faculdade de formalizar um pedido de indulto após o encerramento da prova testemunhal e documental, em requerimento, devidamente fundamentado, submetido ao gabinete do primeiro-ministro.
4.    A aceitação do pedido de indulto e sua tramitação pelo gabinete do primeiro-ministro é competência exclusiva do instrutor-jurista, que deve aplicar um sentido apurado de justiça e regras de bom-senso para corresponder ao pedido formulado pelo arguido.
5.    Sendo aceite o pedido de indulto, o processo de contraordenação fica suspenso.
6.    O pedido de indulto tem de ser apreciado no prazo de trinta dias úteis, sendo a decisão do gabinete do primeiro-ministro irrecorrível.
Artigo 4.º
1.    No termo do processo de contraordenação, o jurista-instrutor pode propor:
a)    a culpa do arguido;
b)    a culpa parcial do arguido, detalhando as circunstâncias atenuantes;
c)    a impossibilidade de determinar categoricamente a culpa do arguido, enfatizando a existência de indícios que apontam nesse sentido;
d)    a ilibação do arguido.
2.    Atendendo às conclusões do processo de contraordenação, o jurista-instrutor deve propor, ao gabinete do primeiro-ministro, as seguintes consequências normativo-punitivas, em correspondência com as alíneas a) a d) do número anterior:
a)    suspensão, não superior a cinco anos, dos direitos cívicos do arguido, acompanhada por um processo de reeducação compulsório na escola superior do otimismo; para casos de insubordinação mais grave, a retirada de direitos cívicos e a expulsão do país poderão ser determinadas pelo gabinete do primeiro-ministro, na sequência de proposta fundamentada do instrutor-jurista;
b)    suspensão, até a um ano, dos direitos cívicos do arguido, acompanhada pela obrigação de submeter um texto escrito, até seis meses após a notificação da decisão do processo de contraordenação, com um mínimo de dez mil palavras, contendo um descritivo devidamente fundamentado de como Portugal é um oásis onde apenas o otimismo tem cabimento;
c)    fiscalização do arguido, durante cinco anos a contar da data da notificação da decisão do processo de contraordenação, sendo todas as suas intervenções públicas, em redes sociais e em conversas privadas, devidamente monitorizadas por técnico nomeado pela secretaria de Estado do combate ao pessimismo, em derrogação, excecional, da Lei Geral de Proteção de Dados, para verificar se são confirmadas as suspeitas de desvio em relação ao otimismo obrigatório;
d)    o arquivamento do processo de contraordenação, ficando o arguido registado numa base de dados de potenciais desviantes do otimismo decretado pelo governo.
Artigo 5.º
1.    O governo institui a escola superior do otimismo, que ficará encarregue de formar técnicos habilitados a identificar rudimentos de pessimismo e a reeducar, no otimismo obrigatório, os cidadãos que infrinjam o disposto no presente decreto-lei.
2.    Todos os alunos em idade escolar passarão a ter uma unidade curricular obrigatória, com carga letiva semanal de três horas, que ensinará a combater o pessimismo (próprio e a denunciar o alheio), a aprender os rudimentos do otimismo e a divulgá-lo.
3.    Os cidadãos adultos serão sorteados, em modalidade a definir por decreto-regulamentar, para frequentar um curso de aperfeiçoamento de combate e denúncia do pessimismo, seguido de um módulo intensivo de aprendizagem do otimismo.
4.    A frequência de ambos os cursos é obrigatória, para todos os cidadãos civicamente ativos, com uma periodicidade de três anos.
Artigo 6.º
Número único. O presente decreto-lei entra em vigor no dia 1 de outubro de 2019.

26.4.19

Reduto


The Breeders, “Wait in the Car” (Live at Later with Jools), in https://www.youtube.com/watch?v=iuIQmZmf5zg
As veias viscerais latejam nos contrafortes da ousadia. Não tenho mão no coração. Parece que quer sair do peito, ir não sei para onde. Nem a chuva persistente serviria para temperar o fogo que consome as veias. Agora sei o sentido de um labirinto. Sei que são os caminhos entrelaçados uns nos outros, um emaranhado impossível, cheio de atalhos, que abraseia a lucidez. Mas para que se quer a lucidez? Não é da placidez absoluta que o corpo precisa. Ele tem de vir para a rua, soltar-se da alma, e correr numa errância irredutível. O corpo precisa de se libertar das amarras da alma – ouvia de uma voz sem rosto, teimosamente residente no pensamento; exige que a alma o veja de fora, por fora do corpo, para depois o ensinar a compreender-se a si mesmo.
As veias viscerais também ganham vida própria. Vão de latitude em latitude, não se sabe se à espera de recompensa. O dicionário perdeu a conta às vezes que os dedos o folhearam em demanda do significado de “virtude”. O esquecimento acabava por se sobrepor à etimologia. Não sabia se era do corpo ou da alma o refrigério que acautelava os caminhos recomendáveis, aqueles que sobejavam da decifração da palavra “virtude”. À noite, vultos temerários em forma de pesadelo entravam no sono, açambarcavam-no no santuário das coisas reprováveis. Acordava sobressaltado, as veias ferventes em diálogo tempestuoso com o sangue em ebulição. Ouvia um ruído longínquo, vagaroso, a arrastar-se pelas paredes das condutas. A parede do quarto parecia encolhida sob o efeito da penumbra, com medo dos pesadelos de que era forasteira. A noite mal começara e o sono era uma encomenda perdida.
A meio do nada, retomou o corpo emancipado em frenética correria. O chão passava como se ainda fosse mais veloz e nos ouvidos sobrava o percutir de cavalos desembestados. Não eram as vertigens que saberiam locupletar o ensaio que se congeminava. Algures, a alma – uma alma, que deslocada do corpo perde o paradeiro – seguia as elucubrações do corpo portanto desalmado. Um sal túrgido irradiava da luz que antecipava o entardecer. Um sal que acamava na pele suada, congraçando as cicatrizes. No fio do horizonte, havia estrofes que se sucediam numa cadência incerta. Não retinha as estrofes, que a alma estava em paradeiro desconhecido.
Ao corpo desalmado não ocorreu o medo de a alma encontrar paradeiro novo. Era dos preceitos estudados: a alma só pertence ao corpo que a hospeda. Não adianta inventariar vontades quiméricas ou o peso dos poetas para deitar mão a um preceito desconhecido. Por estranho que parecesse, o corpo não sentia falta da alma. Não se podia dizer que o contrário estivesse a ditar termos para a ata dos acontecimentos diários. A alma sentia a febre que tomava conta das veias todavia não iracundas do corpo extasiado. Estava fora dele, mas sentia as duas dores.
Os dois, corpo e alma, encontraram o seu reduto quando coincidiram no ocaso do dia.

25.4.19

E de repente passou a ser (ainda mais) importante celebrar a liberdade?


Idles, “Danny Nedelko” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=CCDIrAmd4-k
Pano de fundo: partidos radicais de direita e partidos de extrema-direita sobem a pulso no mercado eleitoral de vários países, europeus e não só. Políticos controversos, com afirmações que são autênticos atentados aos valores consagrados pela democracia ocidental, ganham eleições e passam a governar países não irrelevantes no teatro internacional. Há o recrudescimento do extremismo ostensivo, com declarações que branqueiam a História que envergonhou a humanidade (acima de tudo) e os regimes políticos de extrema-direita. A mesma extrema-direita que parece ganhar um segundo fôlego à custa da memória de perna curta, do revisionismo histórico e da desilusão de mais e mais eleitores em relação aos partidos que têm dominado a governação.
E hoje cumprem-se quarenta a cinco anos de liberdade. Perante o pano de fundo sombrio, a cortina que desce sobre o palco onde a cidadania se exerce, a interrogação que se soergue é a seguinte: não faz ainda mais sentido celebrar a liberdade? A resposta é afirmativa. Por paradoxal que pareça: a liberdade devolvida há quarenta a cinco anos, e hoje festejada, é paradigma de um contexto idiossincrático. O regime do Estado Novo era singular. Não teve reprodução noutros países e foi um caso único de ditadura de extrema-direita (para conforto das convenções). A própria revolução de abril é estudada pela ciência política pela sua originalidade. Em cima desta constatação, o pano de fundo que dá o mote à re-celebração da liberdade não passa a prova de vida em Portugal. Até ao momento, os partidos de direita radical e de extrema-direita têm sido irrelevantes na paisagem eleitoral. Portugal tem conseguido ser um oásis no meio do tenebroso ocaso de liberdades que se promete a cada vez que um daqueles partidos ganha deputados, câmaras municipais e até mesmo eleições. 
Como se desfaz este paradoxo e explica o sentido de celebrar, ainda mais, a liberdade hasteada em 25 de abril de 1974? Primeiro, a maré do populismo e do radicalismo oferece os seus primeiros indícios com a aparição de uma personagem que não hesita em se declarar fascista se o fascismo quadrar com as ideias controversas que defende. Esta maré ameaça tornar-se uma maré-viva quando noto alguns rapazes e raparigas, que me habituei e ver nas imediações ou até no âmago do PSD e do CDS, apoiando Trump, Bolsonaro e Orbán, aplaudindo Salvini, não se incomodando quando a Frente Nacional lidera as sondagens para as eleições europeias, subscrevendo hediondas posições políticas de radicais de direita que querem ter punho de ferro quanto ao acolhimento de refugiados. Assustam-me mais estes rapazes e raparigas, que medram no potencial da turba anónima, do que Trump, Bolsonaro, Orbán, Salvini, Le Pen, Ventura & companhia. Pois estes rapazes e raparigas, que abriram o armário onde escondiam as suas ideias porque dantes elas eram vergonhosas, podem ditar a transfiguração de uma maré alta numa maré-viva, dando força a outros Trump, Bolsonaro, Orbán, Salvini, Le Pen, Ventura & companhia que só estão à espera desta fermentação.
Segundo, a radicalização de uma certa direita contribui para a normalização da esquerda radical e de uma certa extrema-esquerda, ambas com pergaminhos parlamentares, mas com duvidosas credenciais democráticas. Esta normalização já era um dado adquirido no regime político português: são forças partidárias com presença no parlamento, beneficiam da condescendência da comunicação social (o produto de um certo “esquecimento histórico”) e parece que se autoeducaram nas regras do jogo democrático. Hoje são os atores mais vocais na denúncia dos perigos inerentes ao crescimento eleitoral da direita radical e da extrema-direita. Apresentam-se como tutores maiores dos valores democráticos que podem capitular perante a emergência daquelas direitas. Suplantam os partidos centrais e moderados na defesa destes valores. Este novo episódio de normalização da esquerda radical e da extrema-esquerda é uma consequência da radicalização à direita. 
Corremos o risco de os partidos moderados se tornarem marginais no sistema político, sobretudo se os partidos de centro-direita e de centro-esquerda incorporarem na sua retórica (por mero jogo oportunista) algumas das ideias que são património genético da direita radical e da extrema-esquerda, respetivamente. E é também por isto que faz ainda mais sentido celebrar, e com toda a efusividade possível, o quadragésimo quinto aniversário da revolução de abril.

24.4.19

Pseudónimo (short stories #112)


Eels, “Souljacker Part I”, in https://www.youtube.com/watch?v=PNEVbhqkKhY
          Como um rebanho, apascentado por um pastor: já não sabia se era o seu nome vertido no cartão de cidadão ou se era o pseudónimo. Não se lembrava por que tinha escolhido um pseudónimo. Não fora por falta de coragem – pelo menos era assim que se via a si mesmo: destemido, provocador, capaz de dizer e escrever tudo o que viesse ao pensamento, sem filtro. O pseudónimo foi crescendo com o tempo. Sentia diminuir o nome próprio à medida que corporizava o pseudónimo. Amadurecia o pseudónimo. E à medida que o amadurecia, o nome selado no cartão de cidadão perdia significado. Às vezes, já não respondia quando as pessoas o chamavam pelo nome batismal. E, todavia, ninguém o conhecia pelo pseudónimo. Era um limbo excruciante. Parecia uma forma de desidentificação própria, entre o esvaziamento do nome jurídico e o não reconhecimento do pseudónimo. Porque persistia em manter o pseudónimo como tal, refugiado no anonimato de onde não o queria ver sem algemas. Contudo, o sangue em ebulição era cada vez mais matéria viva do pseudónimo. O limbo, ao menos, garantia o anonimato; mais do que o anonimato: garantia a invisibilidade. Não fez nada para combater a angústia da desidentificação. Deixou de ser uma angústia. Quanto mais o tempo percorria o seu caminho, mais sentia ser um pseudónimo de si mesmo. Já quase esquecera o nome batismal. Até que houve um dia em que se interrogou se o homem que arcava com o nome batismal era diferente do homem que se embebera no pseudónimo até ao tutano. Andou uns dias afogueado pela tumultuosa digressão interior. Não conseguiu chegar às conclusões. Ou, que talvez é mais acertado dizê-lo, não apreciou as conclusões retiradas. O pseudónimo não diferia do nome jurídico a não ser na diferente composição de caracteres. Não tinha notado que o homem tivesse mudado na transfiguração do nome jurídico para o pseudónimo. Talvez por isso, fingisse que não tinha dado conta das conclusões a que tinha chegado. Era mais fácil do que destituir o pseudónimo e regressar ao nome original.

23.4.19

Os filósofos nunca riem – e outros mitos que tais


Tom Waits, “Hold On”, in https://www.youtube.com/watch?v=WPnOEiehONQ
Dizem: os filósofos coabitam com as sombras, têm medo dos dias solares e enfeudam-se em torres de cristal opacas, por sua vez estruturadas em labirintos sucessivos de onde não é possível sair sem ser apoquentado ou pela loucura ou pela ininteligibilidade de tudo. Dizem: os filósofos nunca riem: aparecem em público sorumbáticos, compenetrados na cornucópia de pensamentos que parece ter o dom de lhes subtrair qualquer vestígio de sorriso. Os filósofos nunca riem e por assim ser (também) se marginalizam do entendimento comum. 
Dizer que os filósofos não riem serve de pretexto para terem poucos amigos. Porque têm cara de poucos amigos. Não passa de um pretexto. Há filmes e peças de teatro em que atores há que não esboçam qualquer sorriso, passeando na tela ou no palco uma antipatia manifesta. E, ainda assim, há quem os considere charmosos na exata medida do carisma que transportam. Mas aí só vale uma imagem distante que paradoxalmente parece atrair algumas pessoas, como se apenas se equacionasse os efeitos imediatos de uma imagem tingida pelo mistério. Os filósofos não são diferentes (a não ser no hermetismo do que dizem e escrevem, sobretudo para os poltrões do pensamento). Mas poucos se sentem atraídos pela faísca misteriosa que também existe nos filósofos, talvez por, ao contrário dos atores que sobem a palco ou passam na tela, vaguearem nos carris da fealdade.
Enuncie-se a hipótese de os filósofos taciturnos ser apenas uma hipótese de trabalho, impossível de atestar por não haver registo de quem conviva vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, com filósofos. Quem pode assegurar que os filósofos, invariavelmente retratados com rostos fechados e até ameaçadores, não esboçam um sorriso para a empregada do restaurante que os serve, para a senhora da lavandaria que lhes devolve a roupa agora lavada, para o taxista que os leva à universidade, para a criança que os interpela no banco do jardim enquanto estavam afogados na leitura de um livro irresistível? Quem pode assegurar que os rostos dos filósofos estão destreinados do sorriso e que essa é a caução da filosofia de que são autores?
Mutatis mutandis(como dizem os juristas): alguém pode garantir que uma estrela da televisão, daquelas que ostenta um sorriso largo e perene enquanto o rosto está sob a coação da câmara que o filma, exibe o mesmo sorriso fora da televisão? É um sorriso perene – ou apenas é perene (e assim relativizado) quando as exigências do fingimento que são preceito necessário do mediatismo convocam o seu empolgante sorriso?
Os filósofos estão nos antípodas dos famosos da televisão. Não banalizam o sorriso nem ornamentam a simpatia com os predicados do fingimento. E porque nunca desaprendem de aprender a pensar, sendo eles, num certo sentido, penhores do pensamento, que com mais humildade admitem o tanto ainda que o pensamento tem para lhes ensinar. É admissível que, enquanto o façam, ocupados nos interstícios do pensamento, não conduzam as sinapses aos mecanismos físicos que ativam o sorriso. 

22.4.19

A baleia pródiga (ensaio de conto infantil)


Beck, “Saw Lightning” in https://www.youtube.com/watch?v=NXrlWw3yhW4
Não se cansava, a baleia pródiga. Os marinheiros de vários mares já a conheciam e a lenda passava de boca em boca, de porto em porto, quando os marinheiros desembarcavam e conviviam nos bares por perto. Não se cansava, a baleia, pois era vista em mares diferentes com pouco tempo de diferença. Ainda se pensava que eram baleias parecidas, ou, talvez, baleias gémeas sulcando mares diferentes. Cientistas intrigados com os rumores puseram a ciência ao serviço da curiosidade geral: era a mesma baleia que andava por todos os mares. Já não havia dúvidas. O mito estava decretado.
Havia alturas em que a baleia acompanhava de perto a navegação de um navio. Parecia que o escolhia a dedo. Era sempre o navio que ia entrar em águas tempestuosas. Parecia um salvo-conduto: o navio entrava pela tempestade e, por maior que fosse a tempestade, passava como se nada tivesse acontecido. Sem danos, sem marinheiros enjoados, sem mobiliário atirado ao chão, sem motores sobreaquecidos por ser necessário investir contra os ventos iracundos, sem ser preciso deitar borda fora alqueires de mar acomodado no convés. Entre os marinheiros fortaleceu-se o mito: a baleia sabia que navios abençoar. Era como se intercedesse junto dos deuses que congeminam as tempestades e uma aberta de relativa bonança fosse desenhada à medida que o navio abençoado fosse atravessando as águas tumultuosas. 
Às vezes, os marinheiros conseguiam convencer o comandante a parar o navio por uns minutos. Queriam olhar a baleia nos olhos. A baleia fundeava a poucos metros do navio e ficava, sem medo, olhos nos olhos. Às tantas, comunicava com a tripulação através de um esguicho sonoro. O comandante dava ordem para o navio zarpar. Os marinheiros já sabiam que vinha tempestade. Não precisavam do acompanhamento da baleia para o saberem, porque os instrumentos sofisticados avisam o navio quando o tempo vai piorar. Com a lenda a correr de boca em boca, a visita da baleia era garantia de relativa bonança no meio de uma tempestade.
Um dia, a baleia foi parar ao oceano pacífico. Fugiu das águas quentes, das zonas meridionais. Rumou a norte. Desta vez, era uma embarcação que seguia a baleia. Obedecendo à sua bondosa natureza, a baleia não se importunou com a presença da embarcação. Não sabendo nada sobre os instintos malévolos dos humanos, não soube decifrar a pose agressiva da embarcação. Não sabia o que era um baleeiro. O que se seguiu não foi bonito de narrar. Naquele lugar ermo, sem terra por vista em centenas e centenas de milhas náuticas, o mar perdeu o azul profundo e ficou tingido de vermelho. De um vermelho vivo. Houvera carnificina. A baleia pródiga aprendera, às custas da sua ingenuidade, o que era a maldade humana. Parte do vermelho que tingia o mar viera do seu sangue. A parte maior era dos pescadores que encontraram sepultura entre os destroços do baleeiro e as profundezas do mar.
Naquele dia, a baleia desaprendeu os bons modos.

19.4.19

Coisas findas (short stories #111)


Nils Frahm, “Sunson”, in https://www.youtube.com/watch?v=KsRTv3wrpQ0
          Ó perplexidade consentida, quando se dá conta que as coisas findas perdem validade. Não é ao contrário, como sentenciam os patriarcas da doutrina dominante: dir-se-ia, as coisas findas começam a sua validade no dia em que são dadas como terminadas. Ele não entendia o preceituado. Desinteressava-se das coisas quando as dava como findas. Tinha consciência do efémero, de como o efémero é um poderoso véu que deixa a nu o contrabando que se faz passar por matéria original. E nem que se tratasse daquelas empreitadas demoradas, nas quais nós, como seu empreiteiro mais interessado, deitamos o melhor dos nossos esforços, nem assim conseguia prevenir o sabor a vazio depois de finda a empreitada. Alguém sugeriu que mais importante do que dar por finda a obra é o processo que leva a esse estado terminal. De resto, esta expressão – estado terminal – não era por acaso. Fazia lembrar o estado senescente dos que, tomados por uma doença, caminhavam para a decadência sem remédio. Por mais que a coisa finda pareça soberba, ela perde a sua utilidade mesmo que seja convencionada a sua utilidade depois de dada como finda. Nessa altura, fica como legado do seu fautor; interessa apenas à memória e, nos casos em que um patológico narcisismo lobrigue, para o tremendo eu do empreiteiro. A coisa em si perde a utilidade que resultava num processo interno exclusivo do autor: durante a conceção da coisa finda, ao longo do processo possivelmente entrecortado por sobressaltos e hesitações, o autor da coisa a caminho de ficar finda era o seu único intérprete. Ninguém, por fora do processo, podia para ele contribuir. (A não ser que se considere – e é possível fazê-lo – que as pessoas que produzem uma influência no autor traduzem, através dessa influência, que tanto pode ser positiva como negativa, um contributo para o processo.) Depois de finda, a coisa perece na sua finitude. Deixa de ser património do seu autor. A entrega da coisa à comunidade esvazia-a de conteúdo, na perspetiva de quem a criou. Deixa de ser dele. Mesmo que venha ornamentada com placas a preceito, em solene inauguração com a devida bênção bispal (como soe ser em Estado eminentemente laico...), figurando o nome do autor como o autor da coisa. Mas ninguém precisava de saber.

18.4.19

“Pai: não vais acreditar, agora sou poeta!” (short stories #110)


Mler Ife Dada, “À Sombra Desta Pirâmide”, in https://www.youtube.com/watch?v=iFn9UWBcqD0
          “Não me enganei – nem te estou a enganar: é mesmo verdade: agora sou poeta. Quem diria?! Lembrar-te-ás que era um problema quando, na minha adolescência, me procuravas convencer da importância da leitura. Lembrar-te-ás que houve um teste de português em que tive uma nota baixa e passaste em revista todos os erros de sintaxe que eram a razão para não ter sabido responder de forma capaz e convincente. Lembrar-te-ás que dizias, vezes sem conta, que a literatura fornecia o lastro cultural que não se pode recusar, que trazia mundo às pessoas. Lembrar-te-ás que eras guardião de uma biblioteca abundante e não havia maneira de me iniciar na literatura – quanto mais na poesia. Talvez estranhes: a poesia não era a tua literatura de eleição. Dir-me-ás que não te recordas de um único livro de poesia nas estantes que compunham a tua abundante biblioteca. Mas o tempo é zelador de mudanças e algumas delas encerram segredos insondáveis. Ficarias admirado ao saber que me converti ao prazer da escrita? Em parte, já sabias. Mas a escrita de que foste leitor era mais técnica, repousando sobre a atualidade, uma escrita que seria própria de um cronista do tempo que corre sob os dedos que escrevem. Por defeito de feitio (quero acreditar, mais do que na hipótese alternativa da atualidade enfadonha que, quando o não é, encerra os contornos de uma tragédia que se confunde com farsa), afastei-me desse estilo. Encantei-me pelo ensaio, pela narrativa de histórias, pelo teatro. E pela poesia. Imagina que tive o topete de começar por ensaiar uns versos. Habituei-me. Hoje a poesia (a que leio e a que arrisco dizer que é, pelo menos, um rascunho) faz parte da autoterapia para obliterar o tempo corrente que a minha atenção não deixa de convocar. Não digo que a ignoro, a atualidade; mas não lhe confiro honras de escrita, o que quer significar que a deixei para quintas ou sextas núpcias na ordem das prioridades. E assim desaguei na poesia. Ao início, como refúgio. Hoje, como casa centrípeta. Quem diria, pai, que o teu filho entraria no reduzido (e não reconhecido, por sorte) escol dos poetas!”

17.4.19

Cabo do Mundo (short stories #109)


Cocteau Twins, “Pearly Dewdrops’ Drops”, in https://www.youtube.com/watch?v=s-5Xgw6d3h0
          Já tinha ouvido falar do fim do mundo – e não era de apocalipses que se tratava, que não desvia a atenção para imprecações tais. O fim do mundo. Teria de ser em algum lugar, imaginava, sem dar crédito aos mapas que identificam a contiguidade do mundo, o que desmentia a ideia do fim do mundo. Não cuidava de defender a teoria do mundo plano – que ficasse bem entendido. Não era incompatível reconhecer o planisfério e um lugar que fosse o fim do mundo. Não procurou desalmadamente os vestígios de uma cartografia que desse as pistas para o fim do mundo. Um dia, ao acaso, encontrou o Cabo do Mundo. Saiu do carro e meteu-se à aventura nas escarpas pedregosas. Teve todo o cuidado, pois os limos e os musgos e os moluscos atapetavam as rochas à medida que o cabo se adelgaçava no território do mar. Era um pedaço de terra que investiu sobre o mar, ganhando-lhe uma unha proeminente. Também se podia dizer – perorou à medida que avançava para o miradouro natural na extremidade do cabo – que fosse ao contrário: o mar avançou terra dentro, mas aquele pedaço resistiu à colonização do mar. Não interessava a ordem dos fatores. Às vezes, as teorias são estéreis matérias que apenas servem para distrair do essencial. Demorou quase meia hora até sentir que no horizonte do olhar apenas sobejava o mar imenso. Nas suas costas estava cunhada a terra de que ele era o derradeiro curador. Sentiu-se testa-de-ferro da humanidade, que sabe ter na terra o seu elemento natural. O mar, por mais que tivesse sido navegado, não era o elemento natural do homem. Não é misericordioso, o mar. Sentado como penhor da terra, como se fosse o seu peito a muralha de uma barragem que trava o avanço do mar, não intuiu a admiração de poetas pelo mar – como podia o mar iracundo ser o pressentimento de um poema? Combatia o impulso interior de contemplar o mar e deixar a terra, nas suas costas, entregue ao olvido. Por mais que não quisesse, estava rendido. O olhar percorreu demoradamente o horizonte, onde só o mar tinha lugar. Era mesmo o fim do mundo, aquele sítio. A terra sumira-se nas profundezas do mar.  

16.4.19

O Belanciano descobriu que o capitalismo falhou


dEUS, “Ghost (From Keep You Close)”, in https://www.youtube.com/watch?v=DU0Q0U08gAc
Vítor Belanciano descobriu que um dos mais ricos do mundo descobriu que o capitalismo falhou. Em modo “eu descobri a pólvora” – como se muitos outros, antes dele e de Ray Dalio, o magnata que cita em abono da sua prosa, não tivessem feito correr rios de tinta sobre o anunciado funeral do capitalismo. Muitos outros: desde os que elegeram o capitalismo como o centro da sua ideologia, cerzida como antítese do capitalismo; passando por aqueles que enriqueceram à boleia do capitalismo e, a certa altura, ou por um mal encenado oportunismo, ou por um rebate de consciência tardia, ou apenas por manha própria de uma bem orquestrada campanha de relações públicas em proveito próprio, vieram oferecer o seu testemunho de como o capitalismo está podre e sem remédio. 
O tema não é original. Não é a falta de originalidade que me incomoda no argumentário de Belanciano. É um certo enviesamento que fica patente ao ler as palavras de Belanciano. Não é novidade que o capitalismo é responsável por assimetrias de riqueza entre os poucos muito ricos e uma multidão de remediados e de pobres. O que faltou a Belanciano foi uma investigação sobre as desigualdades de rendimento numa amostra de países, utilizando uma série intertemporal. Belanciano concluiria, se não caísse na tentação da conclusão fácil que atrai audiência, que ao longo do tempo esta diferença tem vindo a diminuir. 
É factual que há fortunas colossais, que os arautos da igualdade consideram obscenas. Há magnatas que procuram extrair abusivamente a riqueza que puderem sem se importarem com os demais. Mas convém evitar as generalizações, por razões de ordem metodológica e de honestidade intelectual. Não me custa alinhar com Belanciano na denúncia dos excessos do capitalismo, daquilo que há vários anos cunhei como exemplos de “capitalismo suicidário”. Há capitalistas maus e capitalistas virtuosos, como há sindicalistas maus e sindicalistas virtuosos – e cronistas bons e cronistas virtuosos.
Mas há um argumento de Belanciano que chama a atenção. A propósito de vários magnatas reconhecerem a necessidade de pagarem mais impostos como instrumento de combate às desigualdades, Belanciano sentencia: “Claro que só fala em reforma [do capitalismo], não em abandono. [Ray Dalio] Parece acreditar que medidas filantrópicas ou um tipo de capitalismo consciente podem ser soluções. Mas a filantropia, por mais boas intenções, perpetua o modelo que se critica, sendo também uma forma de exercício de autoridade. Da mesma forma, esquece que se a elite à qual pertence tem muito dinheiro é também porque tem muito poder, numa altura em que a política se subordina à finança, não existindo mecanismos de regulação globais. O cenário só mudará com mudanças políticas e não com humanitarismo.
A prosa seria digna de uma lição de sapiência do Prof. Boaventura – e o próprio Belanciano ficaria bem na galeria dos lentes do Centro de Estudos Sociais. Regresso àquelas palavras de Belanciano: se os muito ricos pagam poucos impostos, são acusados de usura e de insensibilidade social, perpetuando um modelo de desigualdades. Se um magnata, em golpe de consciência (ou não – mas não vem ao caso determinar a intencionalidade), declara que está disposto a aumentar o seu contributo para o fisco, denuncie-se a manobra que é um truque para manter o estatuto de dominação. Ou se paga poucos impostos e está mal; ou também está mal a “filantropia” (cito) de quem admite pagar mais impostos. Ou, ainda por outras palavras: quando a filantropia parte dos ricos é porque não é filantropia genuína; mas se os ricos se recusam a ser filantropos, são apostrofados com os piores epítetos. O que quer Belanciano, afinal? Que os magnatas sejam expropriados de uma parte de leão da sua riqueza? Que só seja legítimo impor-lhes a espada do fisco severo se a iniciativa provier do meio político, devendo, de preferência, pesar sobre os seus dorsos contra as suas vontades? Ou se um muito rico disser que está disposto a pagar mais impostos, pergunte-se-lhe até onde está disponível a ir e faça-se cair sobre ele a espada do fisco em dobro?
            O capitalismo falhou. Está decadente – e o que decai acaba por morrer, um dia. No dia seguinte, dir-se-á: viva o capitalismo! Pois o próprio Belanciano, em rutura com a citação anterior, acaba por anuir que “(...) as soluções não têm de ser exteriores, mas ensaiadas a partir do próprio capitalismo.” Não muito depois, contudo, Belanciano volta a ser apanhado noutra curva sinuosa, ao lamentar que estas reflexões que partem de dentro do capitalismo e de seus eminentes representantes é como se “(...) até a lenta desintegração do capitalismo já estivesse a ser apropriada pelo próprio capitalismo.”

15.4.19

O palco é o estúdio onde passa o noticiário


Ivy, “I Miss Myself”, in https://www.youtube.com/watch?v=ro3wYU3ewIc
No centro do palco, uma mesa estilizada acolhe o pivot que lê o noticiário. A mesa está cercada pelas cadeiras onde o público se senta. Uma vidraça separa o público do ator que encarna o jornalista. Uma panóplia de ecrãs nas costas da audiência confere realismo à peça. Por esses ecrãs desfila uma vertigem de imagens que não são atuais: as imagens constituem um repositório da história do século XX e dos alvores do século XXI. As imagens passam sem som. O público não as vê. As únicas que estão à frente dos seus olhos situam-se longe, na outra extremidade do palco, o que impossibilita a cuidada depuração. E o público é convidado a dirigir a atenção para o ator que faz as vezes de jornalista. As imagens que passam nos ecrãs são apenas cenografia. Talvez dispensáveis, como muitos dos acontecimentos que estão na sua origem.
O ator lê notícias avulsas. Entre duas notícias, a reportagem exigível para traduzir o noticiado em imagens. Essas imagens estão fora da peça. O público concentra-se no desempenho do ator-jornalista, que descontrai de cada vez que é simulada a entrada de imagem exterior na emissão. Os seus trejeitos, o copo de água que o dessedenta, o lenço trazido pela assistente de produção que ajuda a limpar uma ligeira escorrência de suor, uma tossiqueira que ainda bem que não aconteceu em direto, comunicações com a régie, apenas se ouvindo metade do diálogo (as entradas que têm a viva voz do ator-jornalista). 
O ator-jornalista, enjaulado no seu micro cenário, não se apercebe da multidão que o cerca. A vidraça tem sentido único. Só os espectadores conseguem ver o pivot. Este não desconfia do escrutínio em direto. Está à vontade. Não se inibe de descomprimir com abundante uso de vernáculo – as restantes pessoas em cena estão num patamar inferior na hierarquia e, assim como assim, os pivots que leem notícias em estações de televisão são as superestrelas do jornalismo, têm privilégios que mais ninguém tem. O público testemunha os comentários do jornalista enquanto as imagens que não existem vão para o ar no noticiário que apenas é visto naquele palco. O desdém pelo político A, a indiferença em relação ao poderoso ministro das finanças, os comentários de teor sexista quando uma atriz de Hollywood aparece a denunciar um ator pelo assédio sexual, o respeito sepulcral quando o primeiro-ministro aparece em cena (nas quatro vezes que aparece em cena, pois foi dia de um desmentido, um anúncio solene de promessa eleitoral – ou, dir-se-ia, um anúncio de solene promessa eleitoral – e duas inaugurações), a comiseração pelo político B, a admiração por um desportista emergente, a observação boçal sobre os dotes corporais de uma cantora mestiça. 
O público que enjaula o ator-jornalista não tem como pôr-lhe freio. Apetecer-lhe-ia dirigir interrogações, corrigir observações impertinentes (não reprimindo um certo gosto soez pela censura, que pouco se aprende com a História recente), calá-lo entre as notícias, sem perceber se a logorreia entre duas notícias é apenas um expediente para aligeirar do estado nervoso que se abate sobre o jornalista, ou se é caso de insolência. Não é possível discernir as fronteiras do fingimento. Não é possível a intervenção quando dão conta da parcialidade do pivot. A mesma notícia lida pelo mesmo pivot, no segundo ensaio fazendo de conta tratar-se de outra pessoa com outras preferências, soa diferente. Um rosto sorumbático contra um rosto que não reprime um esgar que contém desdém. A voz colocada sem modulações contra a voz que se arrasta no limbo do cinismo. A mera leitura da notícia contra o mesmo acrescentado de um irresistível comentário pessoal (irresistível, na perspetiva do pivot). O galopar de notícias cirurgicamente escaladas para embelezar a imagem do governo em funções, sem direito a agravo ou a contraditório – até que um espectador, não se contendo, dispara bem alto: “hoje a oposição não trabalhou?”, vendo-se mais tarde a saber que aquele espectador figura na ficha técnica da peça (é um ator-espectador).
À saída do teatro, pede-se aos espectadores um endereço de correio eletrónico (e a autorização exigível pela lei de proteção de dados pessoais), informando-os que vão receber um questionário sobre o desempenho do pivot. Para convencer os espectadores a contribuírem com a sua análise, os encenadores prometem que as respostas serão levadas em consideração. Informam que a peça é dinâmica: o texto é reescrito no final de cada semana, depois de apurados os inquéritos devolvidos pelos espectadores anteriores. Uma peça dinâmica. Que é refeita sob a batuta do sentir dos espectadores.
O pivot é muito menos importante do que o seu narcisismo manda dizer.

12.4.19

Curso breve que ensina a agarrar oportunidades


Rosalía, “De Aquí no Sales (Cap. 4: Disputa)”, in https://www.youtube.com/watch?v=vy4lZs8fVRQ
Para não medrar no arrependimento – esse monumento à estultícia – não podem as pessoas desaproveitar oportunidades que caiam em seu amparo. O que exige, em primeiro lugar, que se saiba o que é uma oportunidade. A oportunidade não traz cartaz a tiracolo anunciando-se como tal. Cabe às pessoas serem os próprios detetives de oportunidades. Cabe-lhes a lucidez de saberem distinguir uma oportunidade de um engodo, que se reduz a um dececionante nada.
Inventariada a oportunidade, é preciso saber como a agarrar. As oportunidades, não tendo rosto, podem ser um caso de difícil atração. Não são como as moscas que invadem o espaço aéreo e transportam incómodo, visível como esbracejamos para as afugentar. Ao contrário, as oportunidades são aqueles insetos metafóricos que gostaríamos que aterrassem em nosso corpo e que nele se embebessem. Pois não é suficiente a oportunidade escolher-nos como seu hospedeiro; temos que dar um contributo, não podemos ser um agente passivo da interação: é neste momento que se equaciona o agarrar da oportunidade.
Nesta arte, como em todas as artes, é exigível a destreza do ator que pretende agarrar uma oportunidade. Em alguns casos, a destreza pode nem ser precisa, se o dom for tão intenso que um gesto simples como o aterrar da oportunidade logo a consubstancia num tangível. Para a maioria das pessoas, porém, a passividade é garantia de não aproveitamento da oportunidade. Que tão depressa pousa no ombro como se faz ao voo outra vez, num indiferente bater de asas ao sentir que nada foi feito para ser agarrada (a oportunidade). 
(Pode dar-se o caso de a passividade ser intencional. A pessoa dá conta da oportunidade, mas, por razões que não importa apurar – porque apenas a ela dizem respeito –, deixa a oportunidade zarpar noutra direção. Não querer agarrar a oportunidade não é sinónimo de a desperdiçar.)
A quem esteja interessado em agarrar uma oportunidade, o conselho do curso breve: deve começar por apurar a lucidez, o critério para filtrar o que são oportunidades e meros ardis que apenas fazem perder tempo e inflacionam as ilusões; deve estimar se a oportunidade é conveniente no momento considerado (podem as circunstâncias jogar em sentido adverso); preenchidas estas condições, deve habilitar os sentidos para agarrar a oportunidade com todo o cuidado. Não deverá ser um gesto brusco, sob pena de magoar a oportunidade e de a inutilizar. Aconselha-se a mesma gentileza de gestos, a mesma sensibilidade, que um caçador de borboletas usa na sua função.
Desaconselha-se vivamente, na hipótese de a argúcia não ter sido capaz e a oportunidade não tenha sido agarrada, a utilização de uma armadilha para apanhar a oportunidade durante o voo de fuga. As oportunidades ficam inutilizadas quando são agarradas contra a sua vontade.

11.4.19

O homem que não gostava de partituras (short stories #108)


The Art of Noise, “Close to the Edit”, in https://www.youtube.com/watch?v=-sFK0-lcjGU
          Estranhava os estranhos, como quem se sente sem chão numa terra desconhecida. Fosse onde fosse. A começar pela terra a que se convencionaria chamar “casa”, ou “terra-mãe”, ou o referente de “naturalidade”. O rosto não escondia o esforço que o consumia por dentro, no ensaio por se manter à tona dentro das convenções que exigem um mínimo de semelhança com os semelhantes. O mal era dele – e também não o escondia. Desde pequeno. Não lhe dessem partituras que fossem roteiros obrigatórios. Não lhe dessem mapas com instruções precisas, passo a passo, dele fazendo uma simples marioneta orquestrada por outrem. Não lhe dessem manuais de instruções. Ou comandos, escritos ou verbais. Nunca quis nada disso. Por pressentir que comprometia a liberdade. Não condescendia com os que ousassem apresentar-lhe uma partitura, um mapa, um manual de instruções, comandos escritos ou verbais. Não fingia aceitação. A recusa era terminante. Em maus modos, para cavar a confrontação, se preciso fosse. Não transigia com estes atos, deliberados ou não, que fossem por ele vistos como uma hipoteca da alma. Nem com as suas próprias coisas tolerava a desarte da organização metódica. Não sabia o que era ser metódico. Pelas experiências dos outros que tomara conhecimento, os planos são uma mortificação porque agrilhoam as pessoas a um plano. Com as suas baias delimitadas, das quais não podem sair. As baias, elas próprias, produto das algemas que os próprios se autoimpõem. Não queria tamanha corrupção da alma. Tanto fazia que as partituras, fosse qual fosse a forma que assumissem, fossem autoimpostas ou produto da vontade exterior. Preferia a arte da improvisação, que tinha como contraste do método (por isso tido como desarte, autêntica tragédia da espécie pelas amarras que interioriza). Para tudo arranjava modos de improvisar. Admitia que nem sempre o resultado era o esperado. A improvisação debate-se com uma miríade de incertezas que se desmultiplicam em variáveis aleatórias. Tudo se jogava, portanto, contra a improvisação. Mas sossegava-se: por maioria de razão, a miríade de incertezas desmultiplicada em variáveis aleatórias não era acautelada por nenhum plano, por mais bem congeminado que fosse. 

10.4.19

Amaciar o tempo


Nils Frahm, “A Walking Embrace”, in https://www.youtube.com/watch?v=DA5AocN0ons
É melhor amaciar o tempo. Deixar a voracidade perder fulgor, aquela que arranca o suor das veias. O melhor remédio: uma distração, por exemplo. Desviar o pensamento. Desviá-lo da inquietação do momento. E voltar a amaciar o tempo, reduzir as suas arestas para que ele deixe de ser cicatriz. 
As convulsões interiores pedem um refluxo. Um poema em jeito de grinalda que dissolva a amargura. Terá de ser um poema capaz, categoricamente capaz. A convocar toda a sátira por dentro. Pois a sátira tem o condão de diluir o sangue fervente, de o aplacar dentro das veias incandescentes. O sótão da memória é o manancial necessário. Pode-se convocar O’Neill, Césariny, Adília, Pimenta. Ou o recentemente conhecido Jorge Sousa Braga. Como auxiliar de memória e rastilho da redenção, pode-se recuperar qualquer outra forma de humor, Monty Python, por exemplo. 
Ao mesmo tempo, e como serviçal da função em curso, podem entrar, em contramaré, pedaços risíveis da memória coletiva (ou apenas da memória individual). Frases e episódios de figuras públicas, que por serem tão grotescas se tornam risíveis. A política costuma ser um viveiro. Ou também se podem convocar as angústias do momento, as que enxameiam as notícias dos jornais ao ponto de quase os transfigurarem em divãs de psiquiatria ou em fartas páginas de um obituário coletivo. Não serão tais perplexidades se não instrumento para contornar a inquietação que se soergue em pleno palco. Às vezes, são necessários expedientes para ultrapassar as fragilidades. Formas de enganar essas fragilidades, fazendo-lhes uma finta digna de um artista circense. E intuir as muito piores desgraças que grassam à volta.
Entretanto, o tempo vai amaciando. A sua ebulição perdeu o epicentro. Os segundos já não são o excruciante lugar onde os contrafortes interiores foram atingidos por um tumulto. No parapeito da lucidez, inventa-se o modo de tatuar as cicatrizes pelo desejo de um porvir desapoquentado. E o tempo vai amaciando, os segundos já não cavalgando uns em cima dos outros numa correria caótica, quase apoplética. 
Os legados servem para depurar as contrariedades. Pois não há melhor memória do futuro do que um chão fértil, as flores garridas que se sobrepõem ao sorriso, as palavras docemente entoadas, o estribilho preferido como mnemónica do saber, de um saber que não aviva a cal propositadamente vertida sobre as feridas – antes, aprendeu a mitigar os efeitos da cal. Porque agora é empreitada fácil, a cicatrização das feridas. 

9.4.19

Jogar no escuro (short stories #107)


Cavalheiro com Xana, “Ninguém Me Avisou”, in https://www.youtube.com/watch?v=9c-3F-k4pZw
          Ninguém me contou que há tanta maldade a mestiçar-se com o que à nossa volta se move. Ninguém me disse que podemos ser apenas foliões sem tergiversar no teatro das seriedades. Ninguém me pôs de aviso contra as idolatrias mesquinhas, a devassa da ingratidão, as marés tempestuosas, as palavras desmentidas, as palavras que valem o contrário de quando são ditas. Ninguém me contou que há fingimentos em cascata e que já não é possível discernir quando o fingimento se substituiu à porosidade da pele gasta. Ninguém me disse para saber cair como os gatos. Ninguém me avisou das contas intrujadas dos astutos que só esperam pela primeira oportunidade de se passarem por impostores disfarçados de sedutores. Ninguém me contou que as religiões não sabem terminar com as comezinhas coisas que compõem a imperfeição do mundo. Ninguém me disse que as rodas em que nos movemos não são à prova de sobressalto. Ninguém me pôs de aviso para a noite medonha e de como os pesadelos se aproveitam da penumbra para adejarem vultos que esbracejam ameaças tumultuosas. Ninguém me contou que as estações medram nos apeadeiros próprios que foram por outros escolhidos no calendário. Ninguém me disse que a fome de poder dá de comer a tanta gente. Ninguém me avisou contra os tonitruantes mercadores nem da sua mercadoria contrafeita. Ninguém me contou que o campo de flores em que arrastamos os pés é uma ilusão. Ninguém me disse que éramos capazes de mentir aos desfiladeiros. Ninguém me pôs de aviso que não é possível andar em cima da água. Ninguém me contou que o hedonismo não é reprovável coisa, como ensinam os manuais dos costumes considerados. Ninguém me disse para ser honesto. (Talvez estivessem experimentados nos estertores que se abatem sobre quem considera a honestidade.) Ninguém me avisou para trazer armadura a preceito contra as pessoas outras. E, contudo, ajuízo o tirocínio – forçado, a expensas da minha algibeira de emoções – como o preço necessário de ser alguém que pertence a este mundo. Não precisei que alguém mo dissesse. Há matérias que só podemos tê-las satélites de nós se deixarmos a autoaprendizagem a combinar com o tempo incaracterístico.

8.4.19

Trás-os-Montes


Hot Chip, “Hungry Child”, in https://www.youtube.com/watch?v=rOnMZALLQPk
Não será pela crueza da paisagem que te renegam, Trás-os-Montes. Não será pela dureza das gentes que te abjuram. Pois os modelos não são a paráfrase da perfeição, e se alguém protestar a favor do vencimento da perfeição atirem-lhe com as injúrias todas que conhecem para desfazer a mentira. 
É Trás-os-Montes desassombrado, sem maquilhagem, assim, como veio ao mundo, o epítome do estado natural prévio à mão do homem, que se mostra sem se querer mostrar. Envergonhado, pois não esqueceu um exílio a que esteve condenado quando as estradas eram suplício: os modos agrestes não serão cartão de visita para o forasteiro. Mas quem capitula à primeira impressão? Só os impacientes, os que diletantemente se entontecem com os holofotes da aparência, e depois não se incomodam por vogarem num mar vazio onde as palavras se tornaram exangues. Trás-os-Montes traz-lhes dissabores, por não descobrirem o tempo paciente que é a caução para redescobrir pequenos oásis, ou apenas a paisagem que obedece ao princípio geral da crueza ilimitada. Os elementos oferecem-se como são, sem encenações. 
Trás-os-Montes não é para qualquer pessoa. Hoje, as pessoas encantam-se com as cintilações espúrias que se soerguem na espuma imaterial. São fugitivas das coisas duras, as pessoas, mesmo que a sua dureza seja o fiel da autenticidade. O melhor que está em Trás-os-Montes é a autenticidade. Os planaltos pedregosos que terminam em abruptos precipícios que escondem tumultuosos caudais de rios. As montanhas que, vistas dos vales, se encadeiam numa fina silhueta, e que ao longe iludem a árdua empreitada que é subi-las. Os promontórios onde se respira um ar inteiro, onde paradoxalmente parece que o ar não é rarefeito e o sangue rejuvenesce pelo pulsar das veias ávidas. A tela acobreada quando os castanheiros se vestem com a folhagem outonal. E há os patamares quiméricos do Douro, uma paisagem que, apesar de ter sido desenhada pela mão do homem infatigavelmente criativo, não deixa de constituir o fermento do Trás-os-Montes que não pede meças ao belo. Há a invernia medonha, a que se segue o estio infernal. As pessoas, tão depressa rudes como depois docemente acolhedoras, generosas. 
E Trás-os-Montes, uma coisa e o seu contrário, o sortilégio escondido num canto do mapa.

5.4.19

O homem que dizia adeus aos comboios (short stories #106)


Sofa Surfers, “Sofa Rockers” (Richard Dorfmeister Remix), in https://www.youtube.com/watch?v=HAGZ3m_9N_8
          Dentro dos velozes comboios era difícil apreciar o homem que estava a todo o tempo (pelo menos, de cada vez que passava um comboio) a acenar para quem o via dentro do comboio. Os comboios vão sempre apressados e a paisagem escorre como um borrão indistinto. Os passageiros habituais, por serem habituais, não prestam atenção ao que se passa fora do comboio. Ora leem, ora conversam com os passageiros outros que também são assíduos, ora dormem. Era um ou outro passageiro não assíduo que, com olho de lince, anotava a presença de um homem pálido, inerte, em constante adeus. Ficavam perplexos, alguns dos efémeros passageiros: temiam que aquele adeus fosse um presságio e que alguma coisa de mal acontecesse – ao comboio, ou que a desfortuna apenas acossasse o passageiro que desse conta do homem em constante acenar em forma de adeus. Outros, menos dados às coisas angustiantes da vida, sorriam. Sorriam porque sentiam conforto ao verem um homem tomar parte do seu tempo para emprestar um pouco de simpatia ao comboio. E como o homem era sempre visto por todos os comboios apressados, dizia-se que sabia de cor os horários dos mesmos. Um dia, por causa de uma avaria na catenária, os comboios circulavam mais devagar naquele segmento da linha ferroviária. Os passageiros frequentes continuavam entretidos nos seus rotineiros afazeres (a leitura, a conversa, o sono em débito), como se com os afazeres rotineiros conseguissem triunfar sobre a rotina da viagem. Um ou outro passageiro efémero não ficaram indiferentes à esfíngica personagem que acenava mecanicamente na direção do comboio. Não parecia uma figura de carne e osso. Se fosse numa rua movimentada da cidade, onde os transeuntes que mais se acotovelam são turistas, compreendia-se: os homens-estátua procuram um magro pecúlio junto das pessoas mais sensíveis (os turistas, quando estão em turismo). Não era o caso. Aquele lugar era ermo, com campos e campos à volta, sem casas nas imediações. Os passageiros efémeros com dotes de observador tiraram a pinta do homem que acenava para dentro dos comboios: era um espantalho; um espantalho tão perfeito que, à velocidade voraz dos comboios, se podia jurar ser gente de carne e osso.