31.10.19

Deste lugar levo o nada (short stories #169)


Fontaines D.C., “Hurricane Laughter” (Darklands Version), in https://www.youtube.com/watch?v=R26xFm5n6aY
          Não será da glória do chegamento que se tira a medida do júbilo. Chegar a um lugar é a menos difícil das demandas. Encontrar o caminho mais propício, aquele que costura os limites com bainhas lassas, já constitui empreitada assinalável. Mas os lugares demandados podem ser propícios a desenganos. Não rendem homenagem às ilusões que os hastearam no púlpito das juras apalavradas. São lugares estéreis, onde não apetece fazer vida. Lugares destes não se prestam a um recolhimento: destes lugares leva-se um tremendo nada. Um nada que tem um tamanho maior do que lugares de que deriva um intenso feixe de sensações, os lugares que fazem crescer e que passam a habitar num recanto, irremovíveis. Parecerá paradoxal como um lugar sem serventia, um lugar estéril, seja contundente nas marcas que deixa. A desmemória dele, ou melhor: o deserto de recordações que o nada genético de um lugar destes é o murmúrio que sobra, imorredoiro, a tomar lugar à memória, à memória que deixou de ser usada para reter a constelação de impressões admiráveis dos lugares que ficam retidos na memória. O nada que há nestes lugares é um passivo, com uma toxicidade assustadora. Não há remédio possível para desviar os lugares que deixam um tremendo nada. À partida, ninguém pode atestar que este é o temperamento de um lugar qualquer. É preciso partir com a venda nos olhos e sob o julgamento do desconhecido. Não passamos de figurantes na escala do que é irrelevante para o apuramento de um lugar. Não é conforto saber que podemos ter nas mãos a báscula da vingança, sendo a nossa vez de devolver o julgamento depois de conhecido o lugar. E dizemos: deste lugar, levamos um nada. Não passa de uma inofensiva usura que na aparência congraça no braço da vingança. Admitir que levamos um nada de um lugar, é atribuir-lhe uma importância que julgamos negar-lhe. Raramente damos conta de que ficamos reféns desta frivolidade. 

30.10.19

Airwaves


Thomas Dolby, “Airwaves”, in https://www.youtube.com/watch?v=D_3qtYjjmfg
I
Um assador de frangos. Não o material – onde se assam os frangos -, mas a pessoa que tem a incumbência. O suor escorre pelo rosto. Parece que a pele está embebida na gordura que transpira do carvão, que por sua vez recebe os restos de gordura dos frangos em pleno processo de serem encomendados ao domicílio. Pergunta a rapariga de boas famílias, que naquela noite não lhe apeteceu preparar o repasto e teve um acesso de recolhimento junto das classes populares: quando tomará banho o assador de frangos?
II
O escritor afamado não tem carta de condução. Faz-se transportar em táxis (ainda não aderiu à Uber; o conservadorismo irreparável não o consente) e em carros de amigos, quando os amigos estão com ele. Um dos amigos disse-lhe, no fim de uma noite bem bebida, que ele nunca podia ser campeão de ralis.
III
Alguém há de haver em Auckland, quando lá amanhece e aqui a noite ainda se prepara, que esteja a passear o cão e a recolher os dejetos com uma luva-saco e a pensar no pequeno-almoço e a contemplar a luz ainda desmaiada que desponta da alvorada recém-nascida. Alguém há de haver em Auckland que não ligou a televisão enquanto tomava o pequeno-almoço, folheando um livro de poesia retirado ao acaso da estante apodrecida.
IV
Um marinheiro acorda a destempo. Foi dia de os embarcadiços virem a terra. Boémia, como convém a quem passa semanas ser pôr a vista (e os pés) em terra. O marinheiro sente-se um corpo estranho. Não sabe que cama é aquela. Não sabe como foi parar àquela cama. Um corpo estranho, talvez. O marinheiro soergue a cabeça, vagarosamente. Antes tivesse ficado no convés a apreciar o desassossego da cidade, ao longe.
V
O ministro foi visto a desoras num estabelecimento noturno com má reputação. Os denunciantes foram os jornalistas que tinham sido avisados para a presença irregular de um jogador de futebol. O ministro nunca teve sorte na vida (nem quando aceitou ser ministro, que não esta não é a pasta que sempre ambicionou).
VI
A árvore centenária tinha tanto para contar. Não chegavam os seus grossos ramos, se fossem transformados em papel, para receber os testemunhos que a memória da árvore centenária armazena até ao tutano.
VII
O músico muito conhecido foi ao restaurante a uma hora em que já ninguém vai almoçar. Entrou de óculos escuros e assim esteve o tempo todo. Ausente, contristado, a comer com um certo laivo de enjoo – não dava para saber se lhe desagradava o serviço do restaurante, ou se estava indisposto. Uma adolescente simplória chegou-se ao músico, timidamente. Perguntou se podia tirar uma fotografia com o músico. O músico anuiu, visivelmente contrariado. O empregado de mesa, convocado à posição de fotógrafo, ficou com inveja. Ficou por saber-se de quem.
VIII
Na estação do metro, as pessoas refugiaram-se da chuva que começou, súbita e torrencial, a cair naquela parte da cidade. O mimo que atuava num corredor da estação, acompanhado por uma dançarina esquálida, benzeu a intempérie e fez o dia.
IX
O padre lia um livro no alfarrabista. Uma versão antiga de um livro qualquer, que as letras miudinhas não permitiam saber o autor e o título. O revolucionário foi tomado de assalto pela curiosidade. Queria saber os gostos literários do cura. Esperou, fingiu-se interessado pela secção de arquitetura, deambulou pelo alfarrabista. Até que, cansado, saiu. A impaciência derrotou-o. Se esperasse mais dez minutos, veria que o padre estava entretido a ler um livro de elevado teor erótico.
X
As empregadas domésticas palreiam, com abundância e elevados decibéis, enquanto tomam o café e esperam pelas sete e trinta horas da manhã, hora de pegarem ao serviço. Comentam tudo o que se passa no noticiário da manhã. Uma delas protesta, ao saber da notícia de um homicida que foi solto da prisão antes do tempo e reincidiu na matança acompanhada de soez violação da vítima: “porco, haviam de te castrar”. Ato contínuo, o deputado da extrema-direita entrou no café para comprar tabaco.

29.10.19

Alpinistas


Beck, “Uneventful Days”, in https://www.youtube.com/watch?v=6AF_CJhpTzQ
Contamos paredes. Pela vida fora. Contamos as paredes em que esbarra o olhar. As paredes que precisam de ser superadas, se não queremos a letargia. 
Umas paredes são mais difíceis. Uns cedem à tentação de dirigir os esforços para a superação das paredes mais fáceis. Outros, mais ousados, teimam com paredes mais difíceis, paredes que à partida parecem insuperáveis. As paredes têm diferentes significados para diferentes pessoas. E as pessoas diferem na congeminação das forças exigíveis para lidar com uma parece. É inútil caucionar regras objetivas sobre as paredes que são obstáculos para pessoas tão diferentes.
Contamos as paredes, numa sucessão que parece não ter fim. As intermináveis paredes não reabilitam a capitulação. Desistir à frente de uma parede pode representar a demissão de si mesmo, a impressão confirmada de que alguém se apequena à primeira contrariedade. Contamos as paredes e sabemos que temos de subi-las. Não podemos ser alpinistas simultâneos de várias paredes. Lançamos o corpo a uma parede de cada vez. Às vezes, exige-se uma intermitência: deixamos uma parede a meio porque a urgência exige atenção a outra parede, cuja subida não pode ser procrastinada. A parede que ficou a meio não é um adiamento sem prazo inscrito num caderno de encargos. Ficou a meio, mas o caminho desmaninhado deixou um rasto que serve de mote quando se regressa àquela parede. Trepá-la já não será tão difícil como se a empreitada começasse de novo.
Vemos as paredes e lançamo-nos a elas. Sabemos que a sede da existência se sacia na exigente tarefa de subir uma parede. E no conforto que invade a alma quando vemos a parede do outro lado, depois de conquistada. Lançamo-nos a elas, tantas vezes sem o amparo de um arnês. Só o corpo e um precipício livre, que não transige com segundas hipóteses. As paredes não toleram amadores. Se o alpinista se despojar de zelo, pode esperar que a parede o derrote. Não conseguirá vê-la do outro lado, nem as paredes que se perfilam no horizonte e que se escondem atrás da parede diante dos olhos. 
Não é a ausência de arnês que serve para desmotivar a empreitada. Contamos paredes. Contámos as paredes que deixaram de ser embaraço. E continuamos a contar as que vêm semeadas com a intemporalidade que só capitula com a finitude. A contagem das paredes é uma prova de vida.

28.10.19

Distraidamente, com sua licença


Charlotte Adigéry, “High Lights”, in https://www.youtube.com/watch?v=hCkTyEsCNL4
Não colhem os vitupérios alimentados pela ira em que sua excelência se consome. Não quadram com seus pergaminhos consabidos. Ninguém tolera que o adágio do povo sobre si seja proclamado com desdém e, nessa altura, o povo não sábio dirá “no melhor pano cai a nódoa”. Parte-se do pressuposto que sua excelência é a boa fazenda. E que o enodoamento que o mancha são as exprobrações segregadas pelo chinelo de sua excelência. Confirma-se: não se julgava verosímil, atendendo aos impolutos pergaminhos que são sua aura.
Talvez prefira vossa excelência ser caução de um paroxismo. Aquele que se enovela no salão dos miseráveis que advertem para os de fora apenas considerarem as palavras que proferem, mas não os seus atos. Todavia, da ilharga de sua fleuma sai um arremedo iracundo e vossa excelência confere em juízo a má igualha dos seres que considera seus inferiores. Não se esperava semelhante heresia à sua fleuma.
No que me diz respeito, sinto uma honra inaudita por ser condecorado pelos vitupérios de vossa excelência. Desfaço-me em genuflexões, como paga. Desconheço a raiz quadrada dos opróbrios sobre mim lançados, depois de uma inquirição à consciência ter patenteado resultados negativos. A menos que andasse distraído e a distração fosse o opaco periscópio que me impede de tomar a medida das desmedidas de meus atos ou palavras (ditas ou escritas). Concedo que sou distraidamente algoz de mim mesmo, quando só depois da distração detetada vocifero contra a rasurável distração (e assim contra mim mesmo vocifero). Se por acaso lesei o bem-estar de vossa senhoria, quero que tome conhecimento que não terá sido produto de um ato deliberado. Seria das últimas encomendas que tomariam de assalto o meu caderno de encargos, dar a vossa excelência razões para me lapidar em público. Que me seja dado a lembrar.
Descontada a possibilidade de uma distração malévola enquistada no recobro da memória, impedindo-a de atuar em conformidade, não distingo possíveis motivos para tanto abespinhamento contra a minha humilde pessoa. Porventura terá sua senhoria intuição do estatuto a que me levita mercê de seus agravos excessivos? Se essa foi sua intenção, quero que fique lavrado em ata que dispenso tamanha comenda. As alvíssaras que são de minha coutada, são outras. Delas não darei conta a vossa excelência, porque não o quero sobressaltar com uma empreitada que está fora da sua alçada. Deixo que o “faz-se constar” faça seu caminho – e faz-se constar que são copiosas, e deveras mais relevantes, as empreitadas que tem a seu cargo.
Distraidamente, com sua licença, o abaixo assinado.

25.10.19

As fronteiras são quase sempre estúpidas

Faith No More, “King For a Day” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=QMOqvf4i_Ec

(Dando-se a circunstância de o Colorado estar no meio do território dos Estados Unidos...)
Dizia, sem se cansar de o repetir: “as fronteiras são estúpidas. Sempre.” Depois mostrava a sua constela simultaneamente anárquica e cosmopolita para irradiar a utopia que lhe dava ânimo: haveria de haver de um dia em que as fronteiras seriam todas destruídas. Todas. E as pessoas podiam andar de um lado para o outro sem serem interrompidas em suas demandas pelos intrusivos polícias de fronteira. Era nesta altura que dava o flanco ao anarquismo empedernido e admitia que se havia um mérito na Europa unida, era a abolição das fronteiras. 
Uma convocatória inapelável: as pessoas deviam ser mais fortes do que as fronteiras. Essas pessoas dever-se-iam sobrepor aos irremediáveis burocratas que querem repartir os territórios em feudos hermeticamente delimitados. As fronteiras eram um encargo a adejar sobre a natureza das pessoas, que é a de serem nómadas quando lhes apetece. Como podem as pessoas deslocar-se se esbarram no muro que é uma fronteira? 
Às vezes, uma fronteira não tem de ser um obstáculo físico. Não ter de ser um muro. Não tem de ser uma fronteira em sentido próprio, com a casota onde os guardas controlam as passagens e impedem o contrabando e uma cancela que é demonstrativa do poder arbitrário destes funcionários. As fronteiras podem ser mentais. São as mais poderosas, as mais difíceis de abater. Os embaraços autoconstruídos são fronteiras que estorvam os movimentos. Retardam o crescimento. São as piores fronteiras porque podem partir de dentro do ser. Como movimento espontâneo, uma defesa contra o que possa ser considerado intrusão. Ou como reação a adversidades exteriores ao ser e que ele não pode domar. Cerceiam a autonomia e limitam a vontade de quem sobraça às fronteiras congeminadas a partir do interior.
Dizia, enfaticamente: “as fronteiras são estúpidas. Sempre.” Contrapunha com o exagero da formulação. Talvez fosse melhor temperar o axioma. Para afirmar: “as fronteiras são quase sempre estúpidas.” Interpelado para escudar a diferente formulação do axioma, argumentou que há fronteiras interiores que são imperativas. As que escondem o âmago do ser do espiolhar alheio. As que garantem que os limites de si não são invadidos pela curiosidade dos outros. Aí, os muros (mais até do que fronteiras) correspondem à autonomia do ser, à recusa de seu hipotecar às afoitezas alheias. 
As fronteiras são quase sempre estúpidas. Deixam de o ser quando preservam o ser da estupidez intrusiva dos outros.

24.10.19

Os ovos não se põem na mesma cesta (short stories #168)


Taxiwars, “Fever” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=rYWfA2r3l_8
          Sentado com a cesta dos ovos. Haveria de dar um destino aos ovos. Um bolo. Uma omelete. Outro cozinhado qualquer em que os ovos fossem ator principal, ou ator secundário. Não se lembrava como os ovos tinham ido parar ao seu regaço. Se os comprara no mercado velho. Se foram presente de alguém – e que alguém era essa generosa pessoa. Se os tinha achado. Essas eram demandas inúteis. O que interessava não era a caução do pretérito, a explicação dos acontecimentos como eles aconteceram. Estava sentado num banco no apeadeiro. Esperava pelo comboio. De repente, não se lembrava por que esperava pelo comboio. Não se lembrava aonde o levaria o comboio de que não sabia a hora de chegada. Pouco interessava. Haveria de subir ao comboio e depois ver-se-ia onde desceria. Estava sentado num banco no apeadeiro e olhava em diante. Essa é a demanda que importa. Ver o que se segue. Entre as mãos, bem segura, a cesta com os ovos. Não os contou, mas seriam seguramente para cima de duas dúzias. Intuiu que teria de caminhar com cuidado. Se tropeçasse, perderia os ovos. Evocou uma passagem da sabedoria financeira: não se deve pôr os ovos todos na mesma cesta. É mais seguro dividi-los por várias cestas. Se uma cesta for perdida, minimizam-se os danos, ainda se aproveitam os ovos à guarda das demais cestas. O postulado dos gurus da finança é sábio para quem tem uma multiplicidade de braços para amparar as várias cestas recomendadas para tantos ovos. No caso dele, e porque coincidia com o normal estatuto humano de um par de braços, não conseguia transportar várias cestas de ovos. Teve de os concentrar numa cesta. O risco de dano era elevado. Da próxima vez, terá que trazer outros pares de braços em seu socorro. A força braçal de uns amigos com tempo livre, ou de uns anónimos transeuntes convencidos, a troca de um estipêndio, da empreitada de carregar com os ovos. A menos que os ovos sejam desimportantes e o dano não doa se uns ovos se perderem por excesso de lotação da cesta.

23.10.19

Resgate (2)


DIIV, “Blankenship”, in https://www.youtube.com/watch?v=YWk1v5YSGUY
Do promontório onde falam apenas as gaivotas, desprende-se um lenço que deve ter sido usado por uma mulher. O lenço serpenteia, avulso, encurralado pelo vento errante. Não se vê vivalma. De onde terá sobejado aquele lenço? 
Depois de um voo tumultuoso, o lenço lançou-se estrepitosamente contra as rochas da arriba. Ficou à mercê da maré tempestuosa. Alguns farrapos da espuma do mar que se esmaga nos rochedos já terão untado o lenço. Continuo a não ver vivalma. Hei de resgatar o lenço? Não é avisado fazê-lo. A descida alcantilada e pedregosa pode ser fatal. O lenço não merece o risco da empreitada. Se ao menos as gaivotas fossem prestáveis, pedia o favor a uma delas para mergulhar até ao lenço e trazê-lo de volta. Mas as gaivotas não falam a linguagem humana. O mais certo é uma gaivota arrancar o lenço às garras da maré tempestuosa e o lenço perecer nas garras da gaivota, o pássaro confundindo o lenço de senhora com alimento.
As gaivotas ignoram o lenço, que voluteia quando o vento se levanta, já mais molhado porque a maré subiu e as ondas implacáveis chegam mais perto. O lenço esvoaça, mas não consegue libertar-se das rochas que o agrilhoam. Uma gaivota mais destemida voa em círculos, faz menção de inspecionar o achado. As gaivotas devem ver mal ao longe. O lenço é feito de uma constelação de cores bruxuleantes, destaca-se do plúmbeo do resto da paisagem. A gaivota faz uma tentativa. Consegue resgatar o lenço. Mal percebe que não se trata de mantimento, despeja o lenço ao acaso. E o lenço volta a fazer outro voo conturbado, o vento está cada vez mais iracundo.
Perdi de vista o lenço. Prometo, a mim mesmo, que não vou demorar o pensamento sobre o possível fado do lenço. Um lenço é apenas um lenço. Mas o pensamento não consegue reprimir outra especulação: que significado teria o lenço para a mulher que o perdeu? Seria um objeto com valor afetivo? Se o tivesse conseguido resgatar da arriba impossível de descer, teria resgatado a felicidade da mulher que perdeu o lenço?
Impassível ao resto (e ao fado do lenço e demais especulações), prossigo para o almoço. 

22.10.19

Segunda, ou terceira, pessoa


Poolside, “Feel Alright”, in https://www.youtube.com/watch?v=bd1GDyHiICU
      Um incrível desdobramento: em vez de falarem na primeira pessoa, tomam de assalto a segunda, ou até a terceira, pessoa. Como se houvesse neles uma perplexa intenção de se evadirem da sua personalidade.
O fautor não assume o discurso direto. Fala de si na terceira pessoa. Como se estivesse a ver-se de fora de si mesmo e assim estivesse em condições de empregar a terceira pessoa para falar da sua conjeturada pessoa. Deve ser mais confortável. Não assumir dores que são próprias, evadindo-se da sua pessoa e passando a ajuizar-se através de um cómodo patamar que não lhe diz respeito, mas acaba por lhe dizer respeito, fazendo de conta que não. Pode-se tratar de uma figura de estilo; ou de uma representação que transcende os limites da pessoa de que se fala, sendo preciso deitar mão de uma personagem exterior para tudo nele conter; ou, ainda, uma distorcida maneira de usar um espelho, virado para o exterior de si, onde se projeta a imagem exterior que foi arregimentada por convenção dos desembaraços. Neste interminável jogo de espelhos, corre o risco de perder o fio à meada nos submúltiplos das terceiras pessoas que tiver convocado para a constelação de espelhos.
Ou então, emprega a segunda pessoa como sinal de autorreferenciação. É quando fala de si aos outros, usando-os como pessoa ao espelho da sua própria pessoa. Admita-se que se trate de astúcia retórica para reforçar a mensagem junto dos destinatários e a sua persuasão. Eles são trazidos para junto da sua pessoa, o uso da segunda pessoa não como impessoal medida dos seus atos e pensamentos, mas como convite para os outros se embeberem por dentro dos atos ou pensamentos de que foi tutor. Como se os outros tivessem de ser ele próprio. 
Não é agradável estar na posição de interlocutor quando ele nos usa para sermos ele próprio. São destinados ao malogro os esforços para romper com este mecanismo de comunicação. A certa altura, de tanto usar a segunda pessoa, é como se, por passe mágico equivalente a um hipnotismo, fôssemos a personagem que nos põe no seu lugar. Ser sermos ele, é como se assumíssemos as dores que ele enjeita.
Tenho uma posição de princípio como os que se acobertam na segunda ou na terceira pessoa: desconfio (e nem sou propenso à desconfiança). Desconfio, porque não concebo que haja quem julgue que não cabe dentro de si próprio. Desconfio, porque é um ato covarde que enjeita responsabilidade. E não quero ser arrastado para fora de mim, pois já me chega o que tenho de mim mesmo. Acho intrusivo ser expropriado da minha personalidade por quem a usurpa por convenção dos seus desembaraços. 
Depreco poupança, em sublime ato de generosidade, aos que se transcendem para uma putativa terceira pessoa, à falta de saberem conter toda a sua ufana gesta dentro da primeira pessoa. Que é a que lhes compete. 

21.10.19

O litro é a medida da indiferença?


Duel, “Propaganda”, in https://www.youtube.com/watch?v=cqAvuL1-aGA
      As pessoas dizem, com a melhor nódoa de desdém que conseguem encontrar, enquanto encolhem os ombros: “é igual ao litro”. Dizem-no com o propósito de identificar uma paridade entre o litro e a indiferença. 
Falta saber se alguma comissão de harmonização internacional determinou que a indiferença se mede pelo estalão de um litro, como acontece com as comissões que harmonizam medidas para o mundo inteiro. Falta saber de que líquido se fala quando se evoca o litro como medida da indiferença. Não é de somenos importância. Um litro de vinho não vale o mesmo que um litro de água. E, entre os vinhos, a diversidade impera, tal como a qualidade e os preços de uma garrafa de bom vinho. Até nas águas as há de diferente calibre. Nem vale a pena mencionar a imprestabilidade da comparação entre diferentes líquidos. Beber um litro de vinho de uma assentada não é inóxio como beber um litro de água, como atestará o fígado se a experiência se repetir com assiduidade não recomendável pela Organização Mundial de Saúde. E beber um litro de água mineral não produz os mesmos efeitos de um litro de água bacteriologicamente impura. A comissão internacional de harmonização que terá estabelecido o litro – um litro – como medida da indiferença ter-se-á esquecido de adicionar o líquido em causa e de o identificar.
Talvez não o pudesse fazer. O mesmo líquido oferece-se a reações diferentes de pessoas diferentes. Nem será preciso cotejar diferentes culturas. No mesmo ambiente cultural, há quem seja apreciador de vinho e há quem não dispense a água, não a trocando por uma garrafa de bom vinho. Para pessoas tão diferentes, a medida da indiferença tem de reproduzir a sua antítese por uma determinada medida líquida. Admite-se que os apreciadores de vinho que usam a água apenas para a higiene pessoal e para a lida da casa não se importem de adicionar a palavra “água” quando evocam “um litro” como critério da indiferença. E o contrário para os que elegem a água como bebida principal: para eles, o vinho é indiferente e a medida da indiferença quadra com um litro de vinho.
Causa perplexidade a nomeação do litro. Ninguém saberá dizer por que motivo a indiferença se atinge quando se alcança o litro, e não antes. Ou podia o critério ser mais exigente e trazer à colação uma medida que fosse superior a um litro. Se calhar, não houve nenhuma comissão internacional de harmonização metida pelo meio, e tudo isto se resume a uma expressão idiomática, idiossincrática.
A expressão idiomática parece ser um equívoco. É verdade que um litro é sempre igual a um litro, da mesma forma que um litro e vinte e quatro centilitros é sempre igual a um litro e vinte e quatro centilitros, desde que o conteúdo comparado seja o mesmo. A indiferença, essa, é que varia: entre as pessoas e a sua sensibilidade aos assuntos candidatos à palma da indiferença; às circunstâncias que dão lastro às reações no momento; à valoração dos líquidos imprescindíveis para emprestar coerência à ideia de ser igual ao litro como medida da indiferença. 
Como o valor atribuído (aos líquidos capturados num litro; e às vicissitudes que se candidatam à palma da indiferença) é subjetivo, também o coroar de uma indiferença o é. Até porque, em alguns casos, a indiferença a que se vota alguém ou algo exibe um efeito paradoxal: remeter alguém ou algo para os domínios da irrelevância é a prova do seu contrário.

18.10.19

Liberdade condicional (short stories #167)


Primal Scream, “Loaded” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=XI_XAFqvkpw
                   (Carta ao cidadão)
            Não deixes que te convençam que a liberdade é banal. Corres o risco que uma espada se abata sobre ti e os teus semelhantes. Vigia a liberdade de perto. De ti, espera-se insubordinação quando vierem sitiar a liberdade de que és usufrutuário. Não interessam os argumentos servidos, nem a sua eloquência, ou a sua elegância. Convence-te: não se trata de argumentos, mas de pretextos para levarem um naco da liberdade e te fazerem serventuário dos mandantes. Descerás, então, ao inferno da liberdade condicional. Não terás a noção desse inferno: os mandantes, inescrupulosos, mas ao mesmo tempo sagazes, saberão escolher a retórica a preceito para mostrarem que nunca foste usufrutuário de tanta liberdade como agora. E que lhes deves toda esta liberdade. Não caias no logro, não te deixes seduzir pelo ardil da retórica. Se não ficares refém da inércia, mercê de um comodismo que se instala à vista desarmada do progresso que te vendem em parangonas deslumbrantes, serás mais do que usufrutuário da liberdade. Serás sua fiança. Serás a fiança da tua própria liberdade. Não te demitas da vigilância que é o seguro de vida da liberdade. Desmente os pressentimentos apocalípticos que servem de garantia à liberdade condicional. Denuncia as distopias anunciadas que são a caução da liberdade condicional. Protesta contra a soez confusão entre meios e fins. Não te esqueças da História. Atualiza as suas lições aos olhos dos ventos hodiernos. Não toleres os braços tentaculares que silenciosamente te asfixiam. Se não, só darás conta da asfixia quando os silenciosos braços tentaculares tiverem tomado conta da tua vontade através da anestesia de que és vítima. Sê exigente contigo para poderes ser exigente com os demais, a começar pelos mandantes: não te dês por satisfeito com a liberdade condicional. A liberdade não rima com adjetivos de nenhum jaez. É liberdade. Ponto final.

17.10.19

Daqui a nada (short stories #166)


Kim Gordon, “Hungry Baby”, in https://www.youtube.com/watch?v=paKCImP-IOk
          “Dizer ‘daqui a nada’ define um paradoxo. Tem um lado potencial: as possibilidades que se abrem na incerteza do futuro que está a um instante de se cumprir (ou não). São as juras alinhavadas no espectro admirável que o tempo desconhecido contempla. Uma janela aberta aos rostos sem o prejuízo da melancolia. Dizemos ‘daqui a nada’ sem povoarmos as palavras com o odor pútrido de um adiamento. É daqui a nada que um algo está para ter lugar. E esperamos que o nada se consuma para o tempo ganhar o seu lugar e, por fim, sermos penhores ou atores da sua quimera. Daqui a nada pode ser a repetição de um prazer. Ou pode ser a inscrição desse prazer nas atas do futuro. É projetar o tempo presente para uma outra dimensão que se adelgaça na fina espessura de um nada. Está quase ao alcance das mãos, apenas à espera que o efémero nada se consuma. Dizer ‘daqui a nada’ é a celebração do efémero, o néctar que habita nos cálices que não nos cansamos de erguer em feérica celebração da vida. Mas dizer ‘daqui a nada’ também contém a negação do seu enunciado: literalmente, dizer ‘daqui a nada’ é uma expressão que se esgota no vazio que promete. Daqui a nada não é coisa nenhuma. É um nada. E num nada não se obtém o vencimento do que quer que seja. Em dias de monotonia, ‘daqui a nada’ soa à jura do não acontecido, como se já fosse possível antecipar, como adivinhação, o que se oferece ao horizonte no dealbar do ‘nada’ que o separa do ‘depois’. E eu fico sem saber se ‘daqui a nada’ é uma possibilidade potencial ou a decadência da capitulação. Sempre que me lembro e vou a tempo, prefiro não dizer ‘daqui a nada’. A indecisão é uma espada que adeja sobre a lucidez.”

16.10.19

Aniversário


Tame Impala, “Feels Like We Only Go Backwards,” (live at Glastonbury), in https://www.youtube.com/watch?v=pjg-uUQ3xHw
         Dores de crescimento: agora, até tens Filosofia na escola! Se calhar, começas a apaixonar-te. Muito provavelmente, há coisas na vida que não consegues entender – mas é para isso, e para muito mais, que existe a Filosofia. Agora, alinhavas uma estética. Na indumentária, na música, na cosmética, na televisão de que és espetadora, no discurso. E a estética é estudada pela Filosofia...
Pensas com a cabeça que começa a fervilhar em pensamento. Eu sei dessas dores de crescimento. Sei que às vezes não apetece falar com ninguém. Sei que o mundo, em dias ímpares e cada vez mais infrequentes, parece uma confusa bola que se funde na vertigem de defeitos da espécie que o domina. Parece um mundo detestável, até cairmos em nós e percebermos as dádivas que temos entre mãos. Mas não vamos outra vez agarrados ao corrimão da Filosofia... 
“O aniversário é o dia menos importante do calendário”, dizia um escritor de que agora não me recordo o nome. Talvez o escritor estivesse consumido pela tristeza e, se olhasse para trás, não trouxesse do passado nada que valesse a pena recordar. Arrisco dizer que não é o teu caso. Por isso, aproveita o dia de aniversário, que é apenas uma fração ínfima do calendário de uma vida (agora, matemática: 1/365). E as vidas, sabê-lo-ás mais tarde, são sempre uma brevidade. 
É costume as pessoas sentirem-se especiais no dia de aniversário. Sabem que há outra gente que as recorda e festeja. No aniversário, és um lugar no centro do mundo. Não faz mal, em dia de aniversário. É para isso que os aniversários servem. Porque há pessoas que em ti têm um amor filial, um amor como só há o amor de quem ama uma filha, e um amor familiar, e é nesses dias que amores destes são avivados. Ficas com as mãos cheias, a oferenda maior que um aniversário traz. Para além dos amigos que se fazem na tua idade, com a inocência ainda própria de quem tem muito para saber das aventuras e contratempos do mundo. 
No aniversário, há aquelas frases feitas que soam ao mesmo, a todo o tempo que sejam entoadas, sobretudo quando mais apetece ecoá-las (e os aniversários integram estas ocasiões). São feitas, as frases, mas não é por o serem que deixam de ser genuínas. De um pai para uma filha que dobra década e meia, exalto a manifestação de um laço indissolúvel, filial, uma matriz que não se desliga do peito que te viu nascer e vê viver. Que sejas assim pelo tempo farto que o tempo nos quiser.

15.10.19

Pluviómetro


Heaven 17, “Let Me Go”, in https://www.youtube.com/watch?v=pJrU9RIurFE
É no aconchego da chuva que se embebem os corpos interiores. São como um pluviómetro: não deixam ao acaso nenhuma gota precipitada. Dir-se-ia que são corpos fora do comum. As pessoas (exceto os agricultores e um punhado de gente com mau feitio) não gostam da chuva. Não era o seu caso. Talvez fossem penhores do mau feitio.
As pedras cinzentas da estatuária não retêm a chuva. Pode-se observar as gotas a escorrerem pelos recantos das estátuas à medida que a chuva se demora. As estátuas não são corpos viventes. Não se embebem na chuva mirífica. Os corpos que se deixam ungir pela chuva apreciam as estátuas por onde escorrem as suas gotas acabadas de precipitar. Não abjuram as estátuas espalhadas pelo jardim. Sabem que não podem contar com estes cúmplices para a oferenda da chuva. Os corpos são como são. Os inertes, como é próprio da estatuária, não foram feitos com poros para deixarem a chuva entranhada. 
Os dois olham para os agasalhos. As gotas teimosas descem pelo tecido, lambendo a sua superfície, e deixam um rasto no chão que ambos deixam para trás. Chuva em cima de chuva. O tecido é impermeável – não se pode atestar que tenha sido uma observação transcendente. Percebem que têm algo em comum com a estatuária do jardim. O que abona em favor das estátuas. Os adoradores dos corpos encharcados não podem vituperar as estátuas. Por mais que sejam adoradores da chuva, não são desassisados para andarem nus no acolhimento da chuva quase esquecida. E não é pelo embaraço inestético da nudez; a chuva tão embebida nos corpos nus seria fautora de moléstias.
Continuam a demanda, sem trajeto escolhido. Vão errando pelas ruas enquanto sentem a chuva a deixar os cabelos molhados, cada vez mais molhados. Quando chove mais, notam as gotas a escorrerem céleres pelo rosto, até entrarem, algumas delas, por uma reentrância junto ao pescoço. Não se demovem. A cor quimérica do entardecer caldeado pela luminosidade esbatida da chuva persistente merece um olhar atento, demorado. Por mais que os corpos se embebam na chuva interminável. Parece-lhes uma bênção. Sem deuses por perto. A cor quimérica merecia ser emoldurada num retrato ou num quadro. Nenhum deles está à altura da exigência. Limitam-se a ser pluviómetros em andamento.
Chegam a casa. Em linguagem corrente: estão ensopados. Não é um contratempo. Sabem que o aconchego está à sua espera. A chuva foi só um pretexto para ativarem o aconchego.

14.10.19

Desacerto


Blur, “Bettlebum”, in https://www.youtube.com/watch?v=WAXnqjUfal4
Desacerto, com a consciência da finitude e ouso a reconstrução. Meto as mãos na terra, no mais fundo a que chegam, e revolvo-a. Trago as mãos imundas à superfície, as unhas encardidas de tanto remexerem a terra, e sinto-as puras como nunca estiveram. Aceito o seu estado. Serão sempre mais limpas do que as mãos dos que se deixam seduzir pela farpela corrupta.
Um desacerto: tomo consciência do jeito sem jeito e não concebo retificação. Não lamento o passo desacertado nem encomendo a culpa algures. A desvirtude está em mim. Assumo-a. Conglomero os vestígios do desacerto global, só para sua inventariação. Não intuo a necessidade de escrever um manual de instruções para conviver com a proverbial inépcia para as coisas comezinhas, por exemplo, a comunhão social, o protocolo, a covardia, a avareza, ou a desonestidade.
Um desacerto, que não é pago para ser corrigido. Não é comodismo. É instintivo; e sempre ouvi dizer (e vi escrito em livros recomendáveis) que o instinto não se contraria. Desacerto das linhas diretas por que se costuram os grupos à minha volta. Desacerto da identidade forçosa, como se a liberdade não passasse de uma figura de estilo. Desacerto das negociações escondidas que avalizam confrades em posição de relevo. Desacerto das posições de relevo. Faço questão de não desacertar do princípio geral do anonimato que é o fato à (minha) medida. Desacerto dos aprumados próceres de ideias que se põem ao seu serviço e, se preciso for, caem no ridículo só para as defender. Desacerto das personagens que se julgam sabedoras de todas as ciências. Desacerto da ignorância disfarçada de soberba. Desacerto da desonestidade intelectual como arma contra oponentes (e, mais ainda, se medrar como cimento dos arregimentados). Desacerto de um punhado de palavras que tenho por proscritas, sem soar a preconceito, apenas como sinal de tensão estética irrecusável.
Cumpro os desacertos com uma lógica metódica. Não transijo. Creio poder afirmar que me orgulho de ter um punhado de preconceitos; os desacertos movem-se através das linhas tracejadas de onde sobressaem os desacertos. E não tenho medo de, mais tarde, desacertar de um desacerto cronologicamente anterior. Os desacertos não são matéria estática. 
Antes não me deite a fazer um paciente inventário sobre os desacertos havidos e os que continua a haver. Não seria uma página brilhante da minha biografia.

11.10.19

Desinvestimento (nudez) (short stories #165)


Kristin Hersh, “Your Ghost”, in https://www.youtube.com/watch?v=ZfW4-nP2G1Q
          Um corredor ao fundo, as paredes alveoladas, frias na sua imaterialidade: depois do corredor, ao fundo, que paisagem sobressairá? Até lá – e o caminho não é longo – o tempo ainda sobra para arrumar umas ideias. As que vierem no regaço da rede retirada à mare que albergar o pensamento. Porventura, alguns pensamentos repetidos – ou o assunto insistido, tentando encontrar outro ângulo para o caucionar. É mais difícil arregimentar a originalidade. Poderá o pensamento estar acantonado numa avenida estreita, com um corredor de fundo que impede o seu transbordar? Pode ser do adestramento do olhar. Hábitos feitos, consumados, de que é difícil prescindir. Arrasta o passo, que o corredor ao fundo está a crescer no firmamento e ainda tem umas pendências a tiracolo. As abóbadas empenhadas no estertor das almas exangues ilustram as cores baças da fartura. Pronunciam-se os apóstolos do descapitalismo: impõe-se um plano geral de desinvestimento; impõe-se convencer as pessoas a renunciarem aos prazeres que julgam obter à mercê da viciação material. É preciso de um despojamento planetário, a nudez em forma de regresso às origens. Como se todos a tudo renunciássemos e as posses fossem fundidas num indistinto lixo cósmico, enviado por shuttle para o espaço sideral. De acordo com os apóstolos, esta é uma nudez igualitária. Sem preconceitos estéticos. Sem pressentimentos escatológicos. É como se, ao fundo do corredor, estivessem todos os habitantes do mundo perfilados, sem vergonha da sua nudez. Interioriza o oráculo: como pode uma nudez assim repor a zero o conta-quilómetros do desejo? Como podem as pessoas posar no retrato gigantesco da espécie, numa fila que não é interminável porque a espécie não é infinita, e não serem tomadas de assalto pela luxúria? Não ficou convencido com o plano geral de desinvestimento e com a nudez consequente. Não afastou a hipótese de não conseguir entender a linguagem possivelmente metafórica do plano geral de desinvestimento. Nunca fora a sua especialidade, a lucidez das metáforas. Pelo sim, pelo não, preferia continuar capitalista e capitalizar os frutos deslumbrantes do desejo.

10.10.19

De vez em quando (short stories #164)


The Smiths, “What Difference Does It Make?”, in https://www.youtube.com/watch?v=XbOx8TyvUmI
          Uma pergunta: em quantas noites houve clarões acesos por dentro do peito, quantas deixaram embebida na pele a fala despejada em estrofes concisas, sem lugares-comuns ou fingimentos? Às vezes, a memória parece vítima de um extintor. E extingue-se. Pode não ser malsão. Se a memória contiver as parangonas recusáveis e de lá forem resgatados momentos que são uma espada sem modos, sangrando o corpo em doses maciças de dor. Uma resposta: de vez em quando, no fortuito açambarcar das janelas expeditas que fogem do tempo tentacular. Expiam-se arrependimentos, eles, por sua vez, expiatórios de equívocos possuídos pelo pretérito imóvel. Não se cuida de assegurar que há redenção. Muito de certeza, não será a redenção a ditar o exercício. Não é através de exercícios atirados para o exterior que se alcança a redenção. As virtudes são um acaso que se joga numa roleta russa, à espera de saber, pelo sortilégio das balas que não disparam, a que virtudes calha em sorte serem tratadas como tal. Como reféns dos acasos, não passamos de peões avulsos, capitalizando o suor que foi sendo usado em empreitadas diversas. O que se distingue é a ausência de fio condutor. Não é preciso fio condutor: as maneiras de domar as investidas perfilham o critério da medição das probabilidades, com toda a subjetividade que contém. E diz-se: de vez em quando – de vez em quando. Porque o sempre e o nunca são impossibilidades. E o sempre, ou o nunca, confirmam a sua impossibilidade de cada vez que se diz “de vez em quando”, rompendo com o padrão que um sempre, ou um nunca, pretendiam firmar. À roda com as perplexidades incessantes, não convém exagerar no ajuizamento, nem constituir pelotões de fuzilamento que sejam algozes dos indecisos e dos que ficam em débito à coerência. Pois de vez em quando, até os expoentes da perfeição decaem em seus pecadilhos. 

9.10.19

Contra a auréola da melancolia


Tindersticks, “The Amputees”, in https://www.youtube.com/watch?v=mnQYweo4O2U
(Aos abandonados pela memória)
Não colhas as exsudadas pétalas das ruínas em que se entretecem os prantos. O silêncio da paisagem devastada não deixou testemunhas. E mesmo que deixasse: a piedade que se joga pelos seus comissários só aproveita a quem através dela se expia. Quanto ao resto, as ruínas que soçobram sobre o teu dorso doído pesam o equivalente a muitas toneladas, não é de esperar que sejam uma cura para maleita alguma. Desfaz-te dessas ruínas que talham a memória com o bolor de um ermo tugúrio. 
Não deixes os tentáculos da melancolia fazerem do teu perímetro uma cerca sem acesso. Os proveitos são desconhecidos. E não são as preces que caucionam a redenção dos sobressaltos que julgas contínuos. Eles não são uma continuidade. São intervalos que se oferecem contra a prestidigitação dos sentidos, uma anomalia que não teria aval se não fosse a possibilidade de atirar o olhar para o exterior de vários axiomas. 
Não te empenhes na nudez dos espíritos assombrados. Os julgamentos sumários não devem existir e, muito menos, devem partir da tua própria impiedade. Os mosaicos compõem-se quando o olhar distanciado, adestrado num sinédrio frio e justo, se justapõe num todo que nada deve à coerência. Mas não te empenhes à coerência; a coerência é uma espada excruciante que diminui a existência, deixa-a para a altura em que já não resiste à sua própria inércia. Não contemples as vestes sacrificiais na pedra preciosa que te entroniza. Da mesma forma que dispensas tronos, hás de recusar sacrifícios em nome dos outros. 
(E das pedras preciosas não há notícia dos mercados.)
Não capitules ao sincretismo dos palcos. Sobe a uma montanha, onde tenhas em ti os trezentos e sessenta graus de um olhar sem restrições. Dispara todas as interrogações que te asfixiam. Não esperes respostas, que não são os ventos que prestigiam essa quimera. Não esperes respostas. Saber-te-ás completa se puseres em ordem as interrogações que te amputam o raciocínio. Não te tornes, contudo, penhor das interrogações sucessivas, para prevenires que elas te subjuguem. 
Não queiras mais melancolia. Não queiras melancolia alguma. A não ser aquela que, sem saberes de onde provém (talvez de um punhado de pesadelos malsucedidos), te assalta numa manhã avulsa.

8.10.19

Fazer listas nunca foi a minha especialidade


Shame, “The Lick” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=a1LR3SeHU9Y
1.
Havia umas pastilhas que os velhinhos eram convidados a tomar. Julgo que eram feitas à base de um concentrado de alho, que era o melhor remédio para a memória e para retardar o envelhecimento. De vez em quando, os velhinhos morriam. Nunca soube se era por esquecimento na toma das pastilhas, ou se as pastilhas eram um logro.
2.
Dizia-se que ter animais de companhia, de preferência cães ou gatos (numa, hoje, intolerável discriminação de outros espécimes), reforçava as resistências do organismo. Havia quem fosse alérgico a cães e a gatos. E, todavia, conseguia ter uma vida longa, só não ganhando as barbas farfalhudas e grisalhas do boneco que aparecia nas embalagens das natas Longa Vida, porque nas mulheres não cresce barba e nos homens só a uma minoria é que dado ter semelhante adereço no rosto. Uma cã experiência.
3.
A voz popular encomendava as oferendas pagãs a um terminal com origem religiosa. Era o povo a querer confundir crendice com fé, com o beneplácito oportunista de sacerdotes e da hierarquia eclesiástica: convém chamar muita gente para provar a popularidade da fé e de quem a apascenta. E, no entanto, as pagas assim ajuramentadas só contribuíam para o pecúlio da igreja. As promessas ficavam com os promitentes, perdendo-se o seu rasto pelo caminho.
4.
Os revolucionários são de cepa diversa. Devido aos trambolhões que o mundo tem dado, hoje dá-se a circunstância de os papeis se terem invertido. Uma parcela considerável dos revolucionários domesticou a rebeldia. As coisas correm a preceito. Em parte, porque os revolucionários perderam o sangue na guelra; noutra parte, porque as políticas em uso se aproximaram da cartografia dos revolucionários, todavia temperados, e eles deixaram de ambicionar a revolução. Preferem conservar as coisas no estado em que estão. Tornaram-se conservadores. E os outrora conservadores, acossados num canto exíguo, estão em processo de radicalização em curso (o seu PREC idiossincrático), prometendo derivas que têm o fétido odor a um passado que se julgava sepultado.
5.
Dizem que o sexo forte tem a iniciativa privada. (É privada porque, acredita-se, estes domínios devem estar sob reserva da intimidade, sem janelas abertas aos demagogos que espiolham os outros.) E o que é o sexo forte? A biologia deixou de ser a fonte creditícia. Foi ultrapassada. O dantes sexo fraco desponta, à medida da passagem do tempo, como o sexo forte. Os papeis inverteram-se. “Sinal dos tempos...”, suspira, nostálgico, um velho sempre votante em partidos de cariz revolucionário. 
6.
Nada disto pode constituir surpresa. Os papeis não são herméticos. Nem quando se apura o momento na sua vestimenta estática e, muito menos, quando os diferentes tempos são cotejados. Os papeis mudam. Não há lugar a conservadores. Estão destinados a perder as batalhas em que investem. Não são capazes de impedir o tempo no seu andamento indelével, e o tempo traz marés diferentes. Assim como assim, já havia, e de há longo tempo, iguarias que misturam peixe e carne, doce e salgado. É como as vitórias que trazem um leve, mas nítido, sabor acidulado.
7.
Nunca foi o meu forte fazer listas.

7.10.19

Clima temperado


Iggy Pop, “Loves Missing”, in https://www.youtube.com/watch?v=7bgndW7enwE
1.
Era esperado. Tudo era esperado. Era como se tivessem banido do vocabulário a palavra “surpresa”. Em vez disso, as pessoas andavam curvadas. Parecia que indagavam algo que estivesse pelo chão, um sufixo para acrescentar um nó às palavras.
2. 
O tenente saiu da esplanada. Estava “à civil”. Podia-se comportar como um civil, sem o rigor espartano das regras castrenses. Decidiu: aquele dia estava mesmo a preceito da irreverência, das desregras. Foi à mala do carro e tirou uma cabeleira e uma barba, fartas. Não podia iludir as regras com o rosto descoberto. Passaram horas e o tenente continuava abúlico. Não conseguiu combater uma voz interior, superior, que suplicava pela manutenção da ordem. Em todo aquele tempo, não ouviu a voz da insubmissão. Acabou em casa frustrado e contente, ao mesmo tempo.
3.
Um dizia: “eu sei de coisas...”. O outro não ficava atrás: “também eu, também eu...” E o primeiro insistia: “não me provoque vossa excelência, que eu sou capaz de uma loucura.” “Diga lá, que loucura é essa?”, reagiu o outro. “Sei coisas sobre si...coisas...coisas...que o deixariam envergonhado.” (A parte final da frase soltou-se, desenvolta; mas não deu conta que fraquejava ao entoar o verbo no condicional: “deixariam”.) “Esteja à vontade. Não sei o que de mim sabe. Eu sei o que sei de vossa excelência. E não é decoroso.” Com medo da derrota, os dois embainharam a espada. Preferiram um empate. Ninguém tinha nada a ganhar.
4.
A jogadora de ténis não sabia explicar por que perdeu o autocarro que a fez perder o torneio por falta de comparência. Adormeceu, ou o despertador não despertou a horas – já nem queria saber. Os telefones não funcionavam. As ruas estavam estranhamente desertas. Não havia táxis. Não havia pessoas. Admitia uma conspiração. A sua arquirrival arranjou uma conspiração. É mais fácil ganhar sem suor.
5. 
O farol zunia insistentemente. Furiosamente. O som grave, tão grave que arranhava o estômago das gaivotas, queria penetrar o denso nevoeiro. Os navios à ilharga agradeciam o serviço público, por cortesia. Só por cortesia. Com as modernas tecnologias, os navios vão de olhos fechados até ao cais.
6.
Teria sido uma meia dúzia. Os estroinas, em bando, derrubaram uma velhinha. Pecúlio do assalto, devidamente anotado por um polícia contrariado, à espera que a reforma não demore: um cordão de ouro, a carteira, contendo metade da reforma levantada de manhã nos correios, e umas publicações que o decoro impede de arrolar para os autos.
7.
Não havia matriz do destino. Que palavra inditosa! Quem inventou o destino? Alguém perguntou: “tens noção do teu destino?” Respondeu, sem disfarçar o cinismo: “tenho. Como tenho do futuro. Tenho um oráculo infalível!”
8.
O clima era temperado. Os habitantes não se cansavam de o apregoar. Chamariz no inverno para os que detestam o rigor da invernia. Atrativo no verão para os que fogem de climas tropicais. O clima era temperado. Mas a água do mar era sempre fria, todo o ano.

4.10.19

Teoria geral da classe média (short stories #163)


Conan Osiris, “1Rio”, in https://www.youtube.com/watch?v=ZiwK5dfFPbg
          Exultação: agora és da classe média. Subiste a pulso. Não interessa se a ascensão foi meritória ou com a ajuda da trapaça. Subiste. Saíste do pardieiro em que viveste a infância e a adolescência – e talvez assim se entenda porque omites os teus pais. Agora passeias a ostentação de um breviário de consumo. Olhas por cima do ombro para os que foram da tua igualha. Não é de estranhar, nunca soubeste o significado de solidariedade (a não ser quando exigias que fosses seu destinatário). Tens um apartamento remediado. Decorado com exuberância. Os réditos estão na inversa proporção da estética. Dantes medravas na exiguidade, agora os proventos permitem a exuberância sem teres afinado a agulha com os padrões estéticos. Já vais a restaurantes. Continuas a não saber de etiqueta, esse judicioso estalão da burguesia irritante a que, todavia, cobiças pertencer. Continuas com modos boçais à mesa. Tratas os empregados de mesa com arrogância, como se julgasses pertencer a uma aristocracia apenas imaginada na tua cabeça. Desenhas uma fronteira nítida no horizonte: de um lado, os que são servidos à mesa; do outro lado, os serviçais. Quem vai a restaurantes – os teus réditos permitem-no – é servido pelos serviçais. Estes têm de ser tratados a preceito. É proibido juntar a expressão “por favor” quando encomendas a refeição. Continuas a não saber o que é arte. Nas vagas ocasiões em que a arte sonda o teu perímetro, destinas-lhe um tratamento desdenhoso (“a arte é um capricho dos endinheirados”). Fazes férias fora de casa. No Algarve, como acontece com a classe média e com um punhado de membros da burguesia mais endinheirada. Ainda não tinhas decidido se queres subir mais um degrau, antes de leres a lição de um sociólogo conceituado: pertencer à classe média é estar na terra de ninguém (um dos resíduos da crise recente). Agora que já tinhas escalado ao patamar da classe média, tens de pensar numa estratégia para subir um degrau. Parece maldita, esta tua sina de fugir da miséria, com a miséria mental sempre a acossar.

3.10.19

Hermenêutica (short stories #162)


Spoon, “The Underdog” (live at Main Square Festival), in https://www.youtube.com/watch?v=2NUPwS701yI
          Um par dançante, duas palavras que são primas próximas: a clave de sol que as enlaça perfuma a noite como se ela não fosse o domínio das trevas e dos fantasmas não houvesse notícia. Aproveito o pesar que se arqueia sobre as sobrancelhas pesadas das pessoas. Não avanço com as palavras soturnas. Prefiro largar âncora num mar remoto, longe do mapa, onde os navios habituais não se aventuram. Prefiro palavras estranhas, sem querer saber se elas são manifestação ufana de erudição (porque sei que não são): obnóxio, parafernália, osmose, alquebrar; e uma, a preceito e não erudita: corrimão. Ensaio uma coreografia com as possibilidades da hermenêutica. Aproveito o leve bater de asas dos pássaros que esvoaçam no céu que pesa sobre os meus ombros. Meto os dados às possibilidades: é meu corrimão a parafernália de apetrechos em que se fundeiam os obnóxios, deixando-os alquebrar na sua própria osmose, a liquefação em que se decompõem. Não cuido do incómodo que os obnóxios poderiam causar. Olho para o lado. Para a hermenêutica paralela, uma das possibilidades, em que recebem nova unção as palavras que não se hipotecam. Faço uma separação higiénica. Despromovo a palavra que arrasta uma feição sombria (obnóxio). Retenho as demais. Recomponho a frase: no corrimão do dia, as pessoas recusam a osmose, são a prova da sua particularidade, não alquebram perante a parafernália de seduções que procuram convencê-las que são semelhantes. O regimento não se prende a convenções, e as palavras servem para as desafiar. E se noto o pesar que se arqueia sobre as sobrancelhas pesadas das pessoas, sei que as palavras epitáfio não têm serventia. Arrumo-as a um canto e decreto a sua infecundidade. Antes as palavras que se desembrulham do seu próprio sortilégio, dissolvidas nos poemas que nunca são tardios. Pois é a poesia que desata os nós da linguagem que sintetiza as convulsões dos sentidos. E as pessoas sobrevivem aos sobressaltos, superando-se aos nomes que carregam os encargos.

2.10.19

Cancela velha


This Mortal Coil, “Strength of Strings”, in https://www.youtube.com/watch?v=usYEImDgztM
Havia uma cancela que nunca atravessou. Torneava a cancela, metendo por um caminho pedregoso, alcantilado, onde por vezes o fado estava por conta de uns infames gatunos. Esteve tantas vezes defronte da cancela, a ganhar coragem para a atravessar, ou apenas a estimar, em cálculos demorados, se os custos da empreitada não transcendiam os ganhos. Recuava sempre. E metia pelo caminho pedregoso, alcantilado, onde, apesar do estigma (é o que faz dar atenção ao “diz-se que”), nunca fora assaltado.
A cancela estava sempre fechada. Nunca viu passar o comboio, uma única vez, para amostra. Havia os carris, as tábuas de madeira que eram a balaustrada exigível para as composições não descarrilarem, os seixos de granito, desiguais, fazendo a cama da linha férrea. Havia até aquele odor característico a fumo (convencionara chamar o “fumeiro ferroviário”). Mas de comboios, nem sinal. Nunca perguntou às pessoas que vivem nas imediações se os comboios ainda circulam. Nunca viu ninguém nas imediações.
Se os comboios já não habitavam a linha, por que ainda não tinham retirado os carris e as tábuas e a cama granítica? Seria sinal da circulação de comboios. Podia até ter acontecido que, em todo aquele tempo (e já eram uns anos), nunca tivesse coincidido com um comboio circulante. Assim como assim, nunca se detivera à frente da cancela mais do que cinco minutos. Era um ramal secundário, possivelmente. Com escassa circulação. Recordava-se de notícias sobre o emagrecimento dos caminhos de ferro. Já não era um transporte em moda. Nestes tempos de cálculos económicos sobrepondo-se ao demais, os comboios eram uma fonte de prejuízo. Além disso, não estudou a rede ferroviária nos bancos da escola; não podia atestar se a linha pertencia à rede principal ou se era um ramal despromovido. Só sabia que encarava sempre a cancela descida, o que costuma acontecer quando os comboios estão próximos ou acabaram de passar, e nunca pressentira um comboio em aproximação, ou notara o seu cavalgar, matraqueando as juntas dos carris, numa sonoridade que se esbatia à medida que o comboio se distanciava da cancela.
Ao fim deste tempo todo (e já eram uns anos) ainda sem ter travado conhecimento com um comboio, reparou que a cancela envelheceu. Está enferrujada, baça, com pedaços de tinta descascada, deixando à mostra uma camada de ferrugem. A trave abaulada prova a decadência da cancela. Decidiu: a cancela decadente deixou de ser um embaraço, já não entranha um medo lúgubre que é o aparecimento de um comboio sem pré-aviso, avançando velozmente.
Escolheu este dia para avançar a cancela. Se ela apenas faz figura de corpo presente, tinha de saber o que está do outro lado. A curiosidade do desconhecido levou de vencida a temerária precaução. Atravessou a linha. Do outro lado, a cancela estava mais degradada. A ferrugem conquistara terreno à tinta, quase só se vendo uma mancha de ferrugem. Já sabia o que existia do outro lado da cancela. Distraído por pensamentos distantes, só deu conta da passagem do comboio quando o corpo foi empurrado pela corrente de ar. Ainda foi a tempo de ver, por uma nesga do olhar, uma composição de uma meia dúzia de carruagens a rasgar os carris. Só não sabia se era um comboio ou uma alucinação do pensamento.

1.10.19

O povo tem as costas largas


The Cure, “Plainsong”, in https://www.youtube.com/watch?v=qonP1osp7sc

(Mote: “Que importa se é de uma epidemia que se morre ou de uma revolução?”, Robespierre, em “A Morte de Danton”, de Georg Büchner, encenação de Nuno Cardoso, Teatro Nacional de São João)
A revolução é o seu próprio fim? Os “esclarecidos” da revolução francesa acreditaram que sim. Perpetuaram um estado de sítio, com a supressão do direito em nome da revolução (a não ser o direito de emergência, revolucionário, de que eles próprios eram fonte legífera, intérpretes e juízes). Era a revolução inacabada, ou a revolução em permanente risco, não fosse a aristocracia reaparecer e suprimir a soberania do povo. O que se sabe da revolução francesa é o epítome da tirania substituída pela tirania. Os revolucionários não esgotam a teia argumentativa para sancionar o permanente estado de emergência que justifica o frenesim da guilhotina. Qualquer laivo de contradição com os ideais revolucionários está condenado à guilhotina, depois de um célere processo fantoche em que as garantias processuais correm ao sabor da vontade dos déspotas. E até alguns que fizeram nome na revolução acabam por ser apanhados na rede. As purgas justificam-se assim que os correligionários são proscritos, acusados de se desviarem da pureza da revolução (ou de contrariarem o coletivo que – assim era a narrativa da revolução – tomava as decisões).
Tudo se justifica em nome da revolução e com a franquia do povo. A revolução foi feita para depor a aristocracia que condenava o povo à fome, a ter buracos na roupa e a mandar prostituir as suas mulheres e as suas filhas. Quando acabaram as cabeças dos aristocratas e dos estrangeirados e dos girondinos, começaram a ser decapitadas as cabeças de figuras que constaram da galeria de honra da revolução. A dissidência não era tolerada, em nome do povo. O povo era instrumentalizado por déspotas com o dom da retórica, numa argumentação retorcida que, de tão elaborada, estava a léguas do entendimento do povo. Mas a guilhotina estava num frenesim em nome do povo e por causa do povo. As conquistas da revolução foram seladas em nome do povo. Qualquer suspeita de um desvio caucionava o exercício da guilhotina. Quase sempre, para gáudio do povo. E este gáudio era apalavrado pelos déspotas, que se julgavam legitimados por atuarem em nome de um povo sem educação, de um povo ainda cansado da malvadez dos aristocratas que pajeavam os reis. O povo teve, talvez pela primeira vez na História da humanidade, as costas largas. Não seria a última.
“A Morte de Danton” é um hino à barbárie. Ao desvalor da vida humana. Ao primarismo argumentativo, quando estava ao serviço de uma retórica de legitimação da lógica excecional da revolução que, todavia, se eternizava. A manutenção do poder dos novos déspotas dependia da invocação do estado de exceção da revolução. A revolução já tinha sido feita, mas continuava em marcha, todos os dias, para que o povo (o grande beneficiário da revolução, na palavra dos seus fautores) não se esquecesse dos perigos que persistiam e podiam hipotecar as garantias de que eram credores. A revolução fora feita, mas estava longe de estar acabada.
“A More de Danton” é atual. Faz lembrar que a revolução não é um fim em si mesma. É um meio. A sua atualidade vai ao encontro de um pré-estado de exceção que, ao que parece, ainda não o deixou de ser, apesar de se ter decretado o fim da crise que lhe deu origem. O pré-estado de exceção prolongou-se depois do fim da crise. O risco sistemático de futuras crises não foi emendado, porque o sistema económico permanece inalterado nos seus grandes alinhavos. O fermento da revolução está latente. Como um vulcão reprimido, quase a expelir a lava incontrolável numa explosão tonitruante. Mas é bom que as pessoas, e particularmente os futuros revolucionários em potência, não se esqueçam da lição das revoluções de antanho. Convinha que fossem apresentados à “Morte de Danton” e ao registo dramaticamente esclarecido de Büchner. Para que, nos tempos consecutivos à revolução prometida, os revolucionários não esqueçam que a revolução não é o fim que se apalavra num absoluto em que tudo o demais perde validade – incluindo a vida humana. Os futuros, promitentes revolucionários não devem esquecer que o desvalor da vida humana chegará à sua porta, mais tarde ou mais cedo. Como aconteceu com Robespierre e seu séquito.
No dia em que vi “A Morte de Danton” como um abalo telúrico que obriga a repensar a natureza humana, o valor da vida e a lógica de meios e fins, Vítor Belanciano deu à estampa, no Público, mais uma prosa antropológico-sociológica com fragilidades várias no domínio da ciência política e da História. Na prosa, um Belanciano-a-ser-Boaventura insurge-se contra o capitalismo e o neoliberalismo (ou o ultraliberalismo, como foi alternando ao longo da prosa) e contra os conservadores que o querem preservar, os mesmos conservadores que conspiram contra os movimentos alternativos que tencionam domar (versão não radical) ou pôr um fim ao capitalismo (versão radical). 
À boa maneira do guru Boaventura, Belanciano generaliza; generaliza em excesso (“Estados poucos democráticos, e redes de interesses financeiros com receio do seu espaço ultraliberal ser posto em causa, reagiram. A internet passou a ser vigiada, com censura, informação controlada e notícias falsas para provocar o caos com a bênção de Trump e, nos últimos tempos, acção bélica de elites e militantes direitistas, na forma de bolhas de ódio e toxicidade”). Interrogação indeclinável: toda a direita se revê nestas excrescências políticas, ou assim convém a uma retórica que distorce quando lhe convém? 
Alguém devia ensinar a Belanciano que a China de Xi Jinping não é um arquétipo de “ultraliberalismo”, sendo suficiente lembrar que “Partido Comunista” é o nome do partido de que Jinping líder – e, que se saiba, não há nenhuma afinidade entre um partido comunista e o liberalismo, qualquer que seja a sua declinação (“neo” ou “ultra”). Do mesmo modo que arregimentar Trump, Bolsonaro ou Órban naquilo que, para vantagem da narrativa de Belanciano, apostrofa de “ultraliberalismo” é uma contradição de termos. A deriva protecionista e os arrebatamentos nacionalistas, um encasular que nega as virtudes cosmopolitas, são a negação do liberalismo. Se ao menos Belanciano não treslesse o liberalismo, não incorria nestes deslizes.
Mas é Belanciano que o assegura, logo a abrir a prosa: “Deixemo-nos de preliminares. Decorre uma guerra. Para uns o mundo está doente e necessita de intervenção médica. Para outros está tudo bem e com um comprimido a coisa vai ao lugar.” Uma guerra. Terminará numa revolução? Belanciano devia ter assistido à peça “A Morte de Danton”.