1.4.20

O homem que não gostava de caviar


Grand Sun, “She Wants You”, in https://www.youtube.com/watch?v=vI5OZRCi1BE
Vernissage. Passam os canapés. E o – dizem – escol, o retrato de uma certa elite que despreza as convenções e que, no entanto, não dispensa tratos de polé, convivendo com os que cultivam a frivolidade da socialização dos altos estratos. 
Este homem tem de estar na vernissage. Contrariado. Está em representação de quem tem lugar cativo na celebração. Este homem está como peixe fora do lugar. Corpo estranho. Entretém-se com os canapés e a passar em revista o desfile de eminências pardas, os salvos-condutos de uma certa intelectualidade que, a espaços, se entrelaça com uns abencerragens do soi-disant pináculo social. Detestam-se; reformulando: os que frequentam tertúlias da intelectualidade escrevem páginas e páginas escorrendo o seu marxismo irreprimível, na negação absoluta do estrelato social dos outros com quem convivem naquele lugar; estes, desprovidos das mesmas capacidades de intelecto, aproveitam a oportunidade para o desfile de passarela, com a vantagem de virem na companhia dos intelectuais do lugar. Esperam que a inteligência seja por contágio.
Os canapés. Este homem não consegue descobrir os ingredientes de alguns dos canapés. A páginas tantas, o caviar. Este homem é alérgico a caviar. Não na literal aceção de alergia; não aprova o sabor do caviar, que lhe causou, no par de vezes que ensaiou a degustação, náuseas. É a hora do caviar. Os comensais despertam da conversa de ocasião, dos gestos fingidos, do sorriso forçado em reação à desajeitada graçola de outrem, porque a etiqueta exige a sociabilidade – é para isso, também, que inventaram as vernissages. O caviar desaparece num instante. Este homem ficou a um canto. Se não se engana, foi o único a ficar a um canto, recusando ao caviar. Os herdeiros do marxismo e os polidores da feérica visibilidade social convergiram no caviar. 
Depois do caviar, veio a função que trouxera a heterogénea fusão de gente à vernissage. O bardo que tinha um pé na intelectualidade e outro no púlpito social apresentava um livro. O bardo, em pose socialistamente aristocrata, não cabia dentro do seu ufanar à medida que o letrado convidado se desfazia em genuflexões e ditirambos sobre a obra e o seu autor (não necessariamente por esta ordem). Ainda se notavam uns grânulos de caviar nos interstícios dos dentes do letrado. Este homem que não gosta de caviar era capaz de jurar que, a certa altura, em extática glorificação do bardo, um perdigoto contendo um grânulo de caviar foi cuspido, aterrando no decote abundante de uma senhora da alta sociedade, que nem deu conta. Os despojos do caviar ali jazeram, na véspera dos seus fartos peitos, e só este homem que não gosta de caviar o conseguiu apreciar, à distância.
O homem que não gostava de caviar não aguentou até ao fim da função. O odor a caviar tartamudeava na sala, apoderando-se dela. Ninguém notou a sua ausência prematura. Ainda bem. À saída do lugar, resgatou a sua identidade.

31.3.20

Clorofórmio


Jóhann Jóhannsson, “Flight From the City”, in https://www.youtube.com/watch?v=AlftMNmDH00
Não trazíamos à boca a paisagem estilhaçada. Teimávamos em conservar a ideia idílica, a que pressentia a paisagem inteira antes de ter sido armadilhada pela tremenda voz que troava vinda de um subterrâneo sem paradeiro. E perguntávamos: o mar faz parte da paisagem? O mar não é o fim da paisagem, onde a terra se precipita num abismo, o seu vazio monumental? 
Não sabíamos que o temperamento dos resistentes era inconsequente. Diziam: não adianta, é um esforço em vão, a latitude gasta nos sucessivos novelos em que uma bússola avariada se prometia. Voltávamos à casa da partida: o mar faz parte da paisagem? Devolvíamos a interrogação com outra interrogação: e quando uma paisagem é sobre a indiferença, repetindo-se na mesma imagem por distâncias sem fim, deixa de ser paisagem? Deixa de contar para o mapa-múndi?
 Não concebíamos as paisagens deslaçadas umas das outras. Podiam dizer que as inquietações deviam dominar a análise dos tempos. Podiam advertir para a intemporalidade das palavras que se esmaga na urgência dos tempos. Não queríamos saber. Que nos acusassem de parricídio da emergência, era-nos indiferente. Podiam até sobre nós verter a acusação de estarmos intencionalmente sob uma anestesia que impedia de decifrar os maus enredos do mundo, como se a anestesia nos isolasse do medo. E perguntávamos: o medo é uma vergonha? Deixamos que as paisagens sejam agredidas pelo plúmbeo só porque o medo veio à boca de cena?
Não esgrimíamos argumentos. Era contra a nossa natureza: do que mais gostamos é de esgrimir argumentos, empurrá-los com a força inteira do corpo até chegarem ao seu limite, até poderem ser negados pela sua própria argumentação. Mas isso era dantes. Quando ainda não estávamos anestesiados contra os impropérios do mundo. Desarmados para a argumentação, não transigíamos com as interrogações. Continuavam o seu desfile, imparáveis: somos o resgate das circunstâncias que nos amordaçam? Quanto de nós se hipoteca no tabuleiro onde se conjugam os verbos proibidos, os tabus inverosímeis, as chamas brancas que incomodam os sonhos?
Não contemporizávamos com o menor denominador comum. Nos tempos que são de emergência, era o maior denominador comum. O efeito anestésico que mostrava as paisagens formidáveis onde não havia elfos nem feiticeiros e das orlas se desprendiam as pétalas de ouro que falavam através das nossas palavras. Das palavras que destinávamos às interrogações, antes que elas se extinguissem. Antes que nós nos extinguíssemos. 

30.3.20

Os gatos dormem de mais


The Cure, “The Lovecats”, in https://www.youtube.com/watch?v=mcUza_wWCfA
Deviam pôr um parquímetro ou um instrumento métrico a preceito que estimasse as horas diárias que um gato dorme.
Não consegui perceber o interesse da demanda. Talvez para os cientistas que são peritos em felinos (felinólogos?) este seja um dado a reter nas suas análises da espécie. De outro modo, é uma distração do tempo para outras empreitadas virtuosas.
Insistiu:
Há de haver uma explicação para os gatos passarem tanto tempo a dormir.
Continuei a navegar no silêncio. Talvez percebesse que não queria ser embarcadiço no assunto e a ele não voltasse. Para mim, era um não assunto. Percebi alguma impaciência, pelo modo como trauteava o pé direito no chão, como se fosse um baterista a percutir furiosamente as batutas na pele endurada do instrumento e pelos suspiros denotativos de algum incómodo. Não dei o braço a torcer. Até quis desviar o assunto: 
Às vezes dou comigo a pensar sobre a imensidão que nos escapa, de como seremos sempre meãos diante tanto conhecimento que fica por explorar.
Sem saber, estava a dar o flanco, pois ripostou sem demora com uma pergunta em forma de emboscada: 
Lá está! Se tivéssemos as mesmas horas de sono dos gatos, onde arranjaríamos mais tempo para diminuir essa imensidão que nos separa de mais conhecimento?
Fui à janela, ver como estava o movimento na rua. Se ao menos entendesse que esse era o sinal comunicativo do desinteresse do assunto. Mas não desistiu: 
Se dormem tantas horas – li que dormem dezoito horas por dia – não me parece que os gatos sejam bichos de ter por casa. 
O cerco fechava-se sobre a paciência. Sabia que tenho muitos gatos em casa e que, muito provavelmente, acusaria o toque ao ouvir o remoque que acabara de estatuir. Neste dia, devia ter tomado uma dose reforçada de estoicismo ao pequeno-almoço, pois nem assim retorqui. A sua crescente impaciência era um deleite que me apascentava a paciência. Comecei a ter prazer no prato envenenado que pretendia servir-me: a emboscada estava a atropelar o seu fautor. E eu, discretamente e em silêncio, mantinha um sorriso do tamanho do mundo.
A páginas tantas, disparou com voz iracunda:
Se ao menos os cientistas apurassem os motivos de os gatos dormirem tanto. Aposto que chegariam à conclusão de que dormem na proporção inversa do sono dos seus donos.
Tendo, afinal, a paciência os seus limiares, não deixei sem resposta:
Se andasses ao corrente dos tempos, saberias que não se diz “donos”, diz-se “tutores”. Quanto ao demais, concordo contigo: invejo os gatos por tanto dormirem, pois quanto mais vivem encasulados no sono, menos é o tempo que estão atentos ao asnear que é timbre deste mundo.

27.3.20

“Tenho as dores no sítio certo” (short stories #204)


Glockenwise, “Dores”, in https://www.youtube.com/watch?v=iCycx1YnPiE
          Quarentena, ao que parece, até do pensamento. Ou o pensamento dedicado à pandemia que o exaure. Alguém disse: “o melhor destes tempos insólitos é pessoas em quarentena, a solidão que se avizinha das ruas.” Outro contrapôs: “é uma quarentena relativa. Hoje, o mundo é virtual e a quarentena também. Não há isolamento. A quarentena consome-se num paradoxo: retira as pessoas da rua, mas atira-as para o espaço virtual com uma voracidade singular. É aí que medra o pior dos vírus, uma densidade populacional acima das medidas.” Sente-se a oxidação dos lugares; é uma aparência: oxidadas estão as pessoas por terem sido desensinadas a ser animais caseiros. O asnear por metro quadrado subiu em proporções não imagináveis. A geografia reinventou-se: o ar livre faz jus ao nome, tirou a sua alforria dos humanos que deixaram de o infestar. Os temores das piores distopias parecem confirmar-se. Estão nos modos das pessoas, das que se anteciparam ao princípio geral de pânico por força de decreto e das que gostariam que se antecipasse uma versão mais musculada da exceção como metamorfose do habitual. Sartre veio a ter razão, muito tempo depois: “o inferno são os outros”. Atribua-se a responsabilidade aos visionários que inventaram o mundo virtual que se sobrepõe, numa escala elevada a muitas potências, ao mundo outro. “O inferno são os outros” é o epítome de outro ilogismo: quando os outros estão a tanta distância, tornam-se ainda mais insuportáveis. A fórmula para o ar pútrido que por aí campeia (na inversa medida do ar mais respirável da rua), é a incorrigível sanha de moralidade que uns quantos oferecem, em desmedida generosidade, aos tresmalhados das convenções. Há lugares desertos que deviam povoar o lugar virtual (como há desertos na Terra). Como redutos de sanidade (mental), válvulas de escape à contrafação que se propaga mais depressa do que a pandemia. Termos em que, sob protesto contra as costuras do ancho mundo virtual, reproduzo as palavras da música que não saem da cabeça: “tenho os olhos no sítio certo”. (Assim me é dado a perceber.) 

26.3.20

O que deitamos na garrafa atirada ao mar


Faith No More, “Take This Bottle”, in https://www.youtube.com/watch?v=3g3O5gvSpcA
Dizíamos: esta é a garrafa que vamos deixar de legado. Vamos deitá-la à maré a preceito e esperar que o sortilégio das correntes a leve para um apeadeiro qualquer, onde alguém estará para ser fiel depositário da garrafa.
Temos de ser criteriosos. Evitar o mundano. Esperar pelas convulsões do tempo, que passem e deixem a seara limpa para a nossa sementeira. Não queremos ficar reféns de uma precipitação analgésica. Porque se trata de cuidarmos de um legado vertido numa garrafa que terá o mar como destino. A nossa envergadura não cabe numa garrafa, sabemo-lo sem hesitações. Menos o será como representação de um amor que dispensa palavras como seu retrato, pois o mundo não cabe na algibeira deste amor. Mas insistimos: é nesta garrafa que deixaremos um módico de nós para memória futura. Não é empreitada para cuidar com frivolidade. Levemos o tempo que acharmos necessário para temperar a empreitada. Seremos os fautores da sementeira, mas alguém, noutro lugar sem paradeiro, será o seu hermeneuta.
O que deitamos na garrafa que será atirada à maré? A ilusão frondejante dos nossos olhares irrepreensíveis, a insaciável curiosidade do mundo, a cumplicidade derramada na presença recíproca, o quotidiano que ajuramenta outros quotidianos em forma de candeia, a maresia desprendida dos nossos corpos quando os deixamos em roda livre, a música hasteada no apetite das nossas bocas, uma estrofe meticulosamente desenhada pelo pulso generoso de um poeta. Deitamos ao mar fortuito os dias vertidos na memória, por mais que não sejamos artífices da memória e queiramos confiscar o incalculável valor do tempo presente com a inteireza das mãos. E tudo tem cabimento da garrafa, condensado em arquétipos ciciados no rumor que se agarra aos nossos corpos. Deitamos ao porvir a meação de nós em uníssona fala, o verbo que apenas contamos um ao outro, e eu guardo a madeixa do teu cabelo sobreposto ao meu olhar e, ainda assim, um sextante da lucidez singular que desagua no meu olhar.
Não queremos saber quem será o destinatário da garrafa. Não cuidamos de a enviar por correio registado com aviso de receção. Não queremos saber de identidades. Só cuidamos do espaço vital da nossa identidade, da que fomos fruindo no lugar comum que erguemos como cidadela. Alguém há de recolher a garrafa, num lugar qualquer. Não queremos saber. Nosso mister terá sido a arquitetura do teor da garrafa, a continuação, como herança, do lugar perene que seremos nós.  

25.3.20

Bandeira de xadrez


Cornershop, “St. Marie Under Canon”, in https://www.youtube.com/watch?v=MvdvaaEe7NE
Eram centauros arvorados em notários das vidas terrenas; um pesadelo, por certo, com as arestas queimadas pelas cinzas do caos, enquanto lá fora o caos era desmentido por sucessivos dias soalheiros que se embebiam nos rostos aclarados. 
Mas os centauros adejavam com a sua musculatura possante, as barbas hirsutas, os rostos medonhos, as vozes tonitruantes. Adejavam sobre os mortais e prometiam o delicodoce paraíso que cuidaria de os subtrair à vida terrena, o impiedoso percurso com o chão engastado de espinhos que ferem o corpo inteiro. Os incautos caíam no engodo, deixando-se caiar pelas pinceladas ardilosas dos centauros discretamente maniqueístas. Entretanto, os corpos sentiam-se atirados contra as paredes exíguas, desfazendo-se em parcelas sem identidade. Como ruído de fundo, um murmúrio ciciava, medonho; parecia uma trovoada encravada nos poros, espalhando uma energia paralisante para os corpos ficarem à mercê dos algozes.
Havia quem disfarçasse a perfídia. Fingiam cair no palavreado bem-falante dos centauros. Prometiam aderir às suas promessas quiméricas. Às escondias, conspiravam contra eles. Sabiam que não há virtudes sem preço por paga, e no prelo congeminavam a emboscada que não seria punida no tribunal dos costumes. Alguns dissidentes ousavam fazer de conta que eram porta-vozes dos centauros que conjuravam nos bastidores da fala. Devolviam-lhes o veneno que insinuavam entre os mortais cobertos de ingenuidade. Eram os mais corajosos e, todavia, entre eles encontravam-se os mais desencorajados, os que mais temiam a provação de uma luta física. Não omitiam a pujança dos centauros nem o mito da sua impossível derrota. Mas nem assim puseram os planos de molho. Não acreditavam em mitos.
A diferença fez-se na teimosia da vontade. Os ingénuos, caindo na malha dos centauros, sucumbiam à sua força bruta. Eram as suas vítimas preferidas, as mais fáceis de arregimentar para o património dos esquecidos. Seriam os primeiros a ver a bandeira de xadrez. Não seriam vitoriosos de coisa alguma. A menos que suplicassem pela morte, seriam os primeiros a vê-la – porventura, essa seria a vitória consequente à bandeira de xadrez. Os outros, impenitentes na resistência silenciosa aos centauros, esconjurando-os no boicote bem alinhavado, seriam os últimos a ver a bandeira de xadrez. Eles seriam os vencedores do pleito, a homenagem mais sentida ao valor da vida. Quando a bandeira de xadrez fosse mostrada ao último centauro em forma de adeus.
A vontade sem freio seria indicada como o móbil do triunfo sobre os centauros. Agora, os centauros estavam devolvidos ao espaço intransitivo onde vogam os pesadelos. 

24.3.20

Troca-se o frio venal pelo vento suão


Protomartyr, “Processed by the Boys”, in https://www.youtube.com/watch?v=yBQy_S_k-qg
De um lugar que perdeu o nome, os rostos todos convocados a reinventá-lo. Estes momentos heurísticos devem vir ao mapa quando o desnorte corta fundo na carne sangrada. As mãos não se apartam. As vozes não são a antinomia que se conjetura no pérfido espelho onde se hasteia o dogma da má espécie. Há de haver o contrário à lei (a lei de Gresham): desta vez, será a boa espécie a expulsar a que parece irremediável má espécie. 
No pontão onde o mar cerca a terra, não há rumorejo. O vento estacionou o seu impasse e o mar parece um lago gelado, vidrado por tanto sol que o cresta. Lá atrás, onde a península se desprende da maresia, diz-se que as pessoas entristeceram e, reféns da melancolia, desistiram. Oxalá seja um rumor. Infundado, o rumor. A noite pressentida ecoa nos ossos firmes. Ao menos temos os ossos, a construção dinástica que serve para todas as demais coisas se arpoarem, sedentas de um cais não furtivo. Um proselitismo inacabado, a favor da perpetuação da espécie.
O frio dilacera a pele. Intumesce a carne, que parece feita de uma rigidez estrutural. Agora o vento não se intimida e deixa atrás de si a bandeira do desprazer. As pessoas não dizem nada. Não se dizem nada. Parecem anestesiadas pelo frio venal ao cabo de um silêncio estruturalmente minimalista. Parecem adormecidas, domadas por demónios que se agigantam no parapeito do vento. Parecem nómadas sem lugar. Mas elas sabem que não podem capitular. Sabem que não se podem dar ao logro do efeito anestesiante: seria fatal, desprotegidas como estão, à mercê do primeiro contratempo. Agitam-se. Vestem a pele outra no lugar da que foi em hibernação à mercê do frio venal. Preparam-se para a véspera do dia majestoso. O dia em que a equação onde se alojam as outras equações sobe à boca como a sobremesa dos remédios que se orquestram.
As pessoas suplicam pelo vento suão. Sabem que o vento suão, assim que chegar, se sobrepõe ao frio venal; fará descer a sua espada guerreira, a espada pacificamente guerreira, que só se desembainha quando um algoz amordaça as vontades. As regras já não são as mesmas. As circunstâncias, também não são as mesmas. Sempre ouviram dizer que as regras não são um fim, são um meio para se darem ao corpo modificado pelo novo palco que veio a palco. O vento suão transuda os rostos. Ao menos, as palavras não ficam contingentes à reparação avulsa das adversidades. As palavras entram em prolixo arrebatamento, caldeadas pelo vento suão. São as gotas de suor que se desprendem da pele reincarnada.
Os rostos que arrastavam o chão debaixo dos pés já não povoam este lugar. Aprenderam. Não ficaram amortalhados pela letargia, quando a letargia seria o campesinato ideal para tempos de tantos contratempos. Afinal, o frio não era venal. Ou só o foi enquanto foi, durável na sua finitude, sem saber que vento suão transpunha a distância que o separava deste lugar. 
A impaciência é o lugar do morto. E a vontade, indomável, fautora do vento suão.

23.3.20

Poço dos viúvos (short stories #203)


Porridge Radio, “Lilac”, in https://www.youtube.com/watch?v=U3BrQzmBF1w
          Tagarela, a tarde que se arrasta com a lentidão dos corpos velhos. Um idioma esquecido, talvez, transborda das paredes encardidas do poço. Os homens, todos viúvos, encostam-se ao amurado circular que delimita o poço. Não espreitam para o fundo: não teria serventia, só conseguiriam aprovar as trevas que se fundem com o fundo do poço. Esquecem-se do que foram antes de serem viúvos. Parecem aturdidos pela luz descendente, as mãos timidamente embaciando o olhar contra os raios já irrisórios. Um deles diz: “se soubesse que a falésia do tempo tinha estes preparos ter-me-ia conservado no púlpito da esperança, como se fosse um plebeu nupcial em vésperas de ser esposado. Não tinha saído da fortaleza onde meus olhos eram vívidos”. Ninguém quis saber. Estavam todos ensimesmados, os braços caídos sobre a raiz da madurez, como se houvessem capitulado à angústia sem remédio. Seguiam os seus monólogos de pensamento. Outro homem rompeu o silêncio: “Não sei de outras artes, que julgo tudo ter esquecido. Conservo nas mãos, contudo, uma certa aragem que evoca os lugares que eram tribunas da fortuna da alma. Ao menos, conservo essas memórias.” O entardecer não ficou à espera. E os viúvos continuavam junto ao poço, à espera que uma quimera os quisesse por consortes. Não se olhavam entre si; dir-se-ia que não saberiam desenhar os rostos dos outros, caso tivessem nascido para as artes. Já sob o desmaiar da derradeira luz diurna, outro viúvo não pediu licença para um estado de alma passado à voz: “Já fiz as minhas arrumações. Não espero por nada. E sinto que o tempo me agride a cada dia que me obriga a ser sua testemunha. Não, deus está longe de existir. De outro modo, não estava nesta consumição, a alma errando nos interstícios da finitude.” Foram embora, sem se despedirem. Era a sua particular convenção: não diziam adeus com medo que fosse tomado à letra. Adiavam-se, reféns das suas contradições. 

20.3.20

De quantas luas é feita a temperança? (short stories #202)


Pixx, “Disgrace”, in https://www.youtube.com/watch?v=WXva-zkLur0
          O garrote liberta-se, deixando à mostra as veias quase em erupção. Os dias plúmbeos parecem o contraste dos rostos. Mas não são as medidas avulsas que incendeiam as vozes. Não são as sucessivas demãos sobre as paredes onde os corpos se deitam que os deixam intempestivos. Até os sobressaltos incomuns têm uma medida temporária. A loucura tomou conta das rédeas e as desregras foram hasteadas como negação dos códigos de conduta. Porém, os corpos resistem. Exibem os seus periscópios acasmurrados que irrompem entre a densa camada de nevoeiro que insiste em obnubilar o olhar. Não deixamos de ser o que somos quando esbarramos num abismo. Não é essa a nossa linhagem. Viramos o jogo do avesso. Admitimos que o tabuleiro onde o jogo se congemina é uma conspiração que não se acautela. Acomodamos o dia nascente às condições que não sabíamos serem as que se nos impunham. E não deixamos de sonhar. Pois é a dissidência do sonho, aquela aguarela que ao início parece um esboço feito a carvão, que mareja como candeia tenuemente acesa; o acesso condicionado à contrafação das desregras que se exibem, triunfantes, como se fossem o julgamento final da espécie. Não é disso que se trata. Melhor: só será assim se capitularmos, se formos presas fáceis às mãos insaciáveis de uma tempestade sem sofisma. Se não soubermos recusar que é uma fatalidade, temos um destino apalavrado: deixamos de ser. Temos de descobrir um segredo: quantas luas são precisas para açambarcarmos um módico de temperança? Quantas luas são precisas para deixarmos os fantasmas inóspitos encomendados ao seu exorcismo? Quem sabe se é no fio do horizonte, naquele lugar distante onde o mar se funde com o céu de cor desmaiada, que se encontra essa centelha. Pois o mar continua a ser o fio condutor da temperança, no âmago da sua interminável alcáçova. 

19.3.20

Da série “disparates a rodos” #1: O que diz a estética de Marcelo


In: negócios online, capa de 18.03.20
Petição de princípio: a estética é permeável à subjetividade. Não sou ninguém para contestar o axioma. Seria a falência da estética se alguém ousasse determinar a sua objetividade, contra os relâmpagos de relativismo que são a maior riqueza da estética. Dos meus padrões estéticos sou eu guardião. Único guardião. O resto, é direito à opinião. Criticável por ser isso mesmo, opinião.
Superado o introito, deito-me ao que interessa: uma imagem que é todo um programa. O mobiliário Luís XV, abundante no rococó que o enriquece sob o ponto de vista do artesão, mas o desvaloriza na grelha de análise da escola minimalista do mobiliário. O mobiliário Luís XV faz tandem com Marcelo. Aliás, Marcelo parece um corpo que se funde no mobiliário: a forma como repousa os pés rima com a curvatura kitsch da mesa onde (consta, por estes dias de pandemónio) sua excelência preparou a suspensão das liberdades fundamentais. Os pés da mesa desviam-se do chão, fletem numa convexidade que é, aos olhos de um exegeta da estética (este autor), motivo de desprazer. É como se a mesa tivesse medo do chão, o chão enquanto metáfora do mundo lá fora, e apenas pousasse a parte imprescindível dos pés para não ser matéria exposta ao abismo. E Marcelo, em pandã, replicando o mesmo estilo, sem o desconto da metáfora.
Talvez não seja por acaso. É o presidente de um país que, ao tê-lo eleito, ele próprio rima com quem o elegeu. E rima com o mobiliário que aparece, não inocentemente, como pano de fundo, ao qual também se empresta a sumptuosidade da parede de pedra com o detalhe dos motivos nela inscritos – uma reminiscência da grandeza de outrora, logo agora que, perante o pandemónio, e depois de um exílio que foi eufemismo de quarentena, sua excelência convoca o que considera o espírito superior e inigualável de uma portugalidade que só existe em Portugal. 
(Tomara! A portugalidade só existe no seu domínio natural.)
Marcelo é o pistache pátrio. Ainda usa fatos de trespasse e sapatos de fivela – e ninguém tem nada com isso, nem se espera que mude o dress code depois de instado, que vestir é o reflexo de um direito de personalidade. Sua excelência é o testa-de-ferro de um lugar onde o atavismo ainda é divisa celebrada. Onde a ousadia do diferente é deixada para os aberrantes, para os provocadores, ou para os párias. 
Eu gostava de ver se Marcelo tinha coragem de decretar o estado de emergência sentado numa mesa minimalista de um designer sueco, tendo como pano de fundo uma parede de estuque a disfarçar a esclerose de outras paredes que andam à mostra.

18.3.20

“Memórias de há atrasado” (redundância compulsória) #1: Espírito Santo & Comercial de Lisboa, ou a falência do divino


MGMT, “In the Afternoon”, in https://www.youtube.com/watch?v=ABtQrFn7zQs
Proposta de exegese das circunstâncias materiais que penhoravam uma parte das vidas: o Espírito Santo & Comercial de Lisboa era uma sucursal do omnipresente na terra, mais concretamente em Lisboa, outrora capital de um império agora reduzido a escombros. Salgado, também conhecido como o “dono disto tudo”, era Salgado na terra como embaixador da divindade que permanecia, observadora e atenta, e caução suprema, no céu. 
Corriam as coisas de feição, com o Espírito Santo & Comercial de Lisboa a dominar o segmento do mercado, e notáveis exemplos de negócio que serviam de paradigma. Eis que um dia despertamos para o contundente e inesperado golpe: o Espírito Santo & Comercial de Lisboa foi à falência, não adiantando as declarações de véspera do máximo magistrado da nação, o “maior economista português vivo”, de que estava tudo a correr nos eixos e os depositantes podiam estar sossegados.
Primeiro, ficou por provar a omnisciência da entidade divina que dava caução ao banco que era sua embaixada financeira no cosmos lusitano. Apesar de deus, o Espírito Santo & Comercial de Lisboa foi à falência. Provada ficou a ineficácia, porventura até a incapacidade, da proteção divina. Se nem os seus próprios representantes na Terra a entidade divina conseguiu eximir do colapso, o que se dirá do comum dos mortais se estiver à espera de uma mão conciliatória do além?
Segundo, até o Salgado, dignitário do divino em território pátrio, não se salvou. O todo-poderoso, imagem do divino na circunscrição territorial, entrou numa espiral de decadência que é sintomática de que deus não pode tudo – ou de que Salgado perdeu da franquia de deus na circunscrição territorial, possivelmente no rescaldo um qualquer episódio que ficará no segredo (dos deuses, como é de esperar), suficiente para a entidade divina ter retirado a confiança ao Salgado. Como é habitual nestes casos, um todo-poderoso que se desmorona afunda-se ainda mais porque todo um outrora séquito o abandona à sua sorte. Outra prova do mau fundo de uma horda de oportunistas, ou a prova de que nem neles deus terá conseguido imbuir uns valores decentes (que, julga-se, devem ser os valores divinos).
No acerto de contas, o Espírito Santo & Comercial de Lisboa, a embaixada do divino, foi extinto, o que ditou nova ida ao batismo. A evocação divina perdeu-se no rasto da memória, ganhando, em contrapartida, uma designação que apela ao neófito: na nova ida ao batistério, o banco passou a ser novo. Aterrou na terra, perdida a franquia divina. Dessacralizou-se. E o Salgado continua à espera da justiça dos homens, depois de ter sido sancionado ao abandono pela justiça divina.

17.3.20

As décadas do medo


Black Rebel Motorcycle Club, “Red Eyes and Tears” (live on Later on Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=YIGVcwycp0E
“Resta-nos sobrepor ao medo que nos desapropria de nós o medo desse medo, o de sermos menos do que nós.” José Gil, Publico, 16.03.20, p. 5.
O espelho fardado não sai da retina. Mas afinal não é um espelho só. É uma sequência de espelhos, por onde se subtraem múltiplos labirintos de onde as pessoas não conseguem escapar. São reféns de uma camada de labirinto e sabem que não podem comunicar entre labirintos. Não conseguem ver se não o espelho a que pertence o seu labirinto. Têm medo. Todas as pessoas têm medo, num tempo e num modo que é diferente entre as pessoas. Às vezes, ergue-se um muro pútrido que cimenta um medo transversal – o medo a que ninguém parece conseguir furtar-se. E o medo dá alvíssaras a um medo que o supera, e assim sucessivamente.
Não são rudimentares os pensares que se estruturam nos muros do medo. Podia-se dizer que a pele – a pele coletiva da espécie, sem exceções – é amurada pelo silêncio do medo. Diz-se, pressentindo a agonia: antes se traduzisse o tear do medo em palavras dele representativas. Antes houvesse a aliteração não mundana dos medos, com a consciência entronizada no tamanho de que os medos se medem. O silêncio sepulcral que se abate perpetua os medos que são transversais. Cobrem os olhares com uma cortina baça, densa, inexpugnável. Arroteia-se o medo irreparável.
Uma reinvenção semântica ajuda a reparar a instalação do medo. Isole-se o medo e que as pessoas interiorizem que o medo maior é ter medo desse medo. Ele acabará esvaziado no umbral onde fermentam os rudimentos de um olhar diferente, desprendido de peias, não açambarcado pelos esgares contaminados pelo ar de desgraça perene, quase apocalítica, que leva vencimento. Ter medo desse medo para que não sejamos meãos à mercê dos algozes que não titubeiam em arpoar um cataclismo à aurora de cada dia.
Não podemos ficar reféns de uma visceral inquietação que nos condena às décadas do medo. Porque o tempo não acaba de véspera nem se ordena, em sua finitude, com tão pouco prazo de antecedência. O medo do medo há de superar as décadas do medo.

16.3.20

Breviário sobre a estupidez humana (ou como o cidadão estulto faz o caminho para o estado de exceção que se joga contra as suas liberdades)


Working Men’s Club, “Bad Blood” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=tIajFijrABs
Às vezes, tenho a impressão que as pessoas não dão valor às liberdades. Talvez por as liberdades serem um dado adquirido. Porventura por só as gerações mais velhas terem memória do tanto que foi preciso combater para as conquistar. Ou apenas (e este é um enorme apenas) por uma anestesia geral que contamina as pessoas. Há circunstâncias críticas na vida em que se jogam valores contraditórios. Situados perante a encruzilhada, temos de decidir. Ou aceitar a decisão dos poderes instituídos, quando a nossa autonomia cede perante a estultícia.
Em Itália, poucos deram crédito aos avisos das autoridades de que uma pandemia estava a um passo de distância. Poucos acreditaram que seria determinante mudar comportamentos para evitar a propagação da pandemia. Quando as consequências já eram catastróficas, as autoridades tiveram de exibir o músculo. Para os que criticam a demora do pulso forte das autoridades, o estado de exceção veio tarde. Agora, as pessoas, sitiadas em suas casas e obrigadas a alterar modos de vida, protestam contra o músculo forte do estado de exceção. Não percebem que nelas reside a motivação para o estado de exceção que as confinou às suas casas. Este é um breve retrato da Itália que está refém de um vírus. Espera-se que não seja o retrato de outros países; espera-se que tenham aprendido com a má lição italiana.
Por causa do estado de exceção, reapareceu Giorgio Agamben, o filósofo que é um dos mais importantes teorizadores do estado de exceção. Agamben explica que, muitas vezes, os governos se aproveitam do estado de exceção para suspenderem as garantias do sistema político. Insiste que há oportunismo político de governos, em países que se dizem democráticos, ao transfigurarem o estado de exceção num pretexto (e não num legítimo argumento) para cercear liberdades. É a lógica de meios e de fins, desta vez aceitando-se, em nome do estado de exceção, que os meios que de outro modo seriam ilegítimos (por serem contrários aos valores em que se filia a democracia) são uma necessidade para superar o estado de emergência em que a comunidade se encontra. Para Agamben, o risco do estado de exceção é fazer da normalidade constitucional uma exceção e transformar o estado de exceção na normalidade. Os poderes instituídos socorrem-se do vasto catálogo de circunstâncias que a modernidade é pródiga em oferecer como pretexto (ou legitimação, depende das perspetivas) para o estado de exceção.
Agamben, num texto recente, transpõe a teorização do estado de exceção para a situação atual em Itália. Acusa os poderes de abusarem do estado de exceção e de, em seu nome, terem inventado uma epidemia. É a partir daqui que vou por caminhos diferentes de Agamben. A menos que seja provado que o governo teria sido relapso nas medidas de contenção, não enviando sinais suficientes para os cidadãos alterarem comportamentos, dando azo à propagação da pandemia que ulteriormente motivou o endurecimento da quarentena, a posição do filósofo parece excessiva, assemelhando-se a teoria da conspiração.
O mal é que a estultícia das pessoas, ou o alheamento das notícias (que também é um eco de ignorância), percorre um caminho perverso e acaba por se jogar contra elas mesmas. Por cá, o primeiro dia estival foi aproveitado para uma multidão enxamear as praias da linha de Cascais. As pessoas não se podem queixar de falta de informação, nem dos exemplos (os bons, mas sobretudo os maus) que chegam de outros lugares. Quando a estultícia é puxada aos limites, até alguém que tem muitas reservas em aceitar o estado de exceção acaba por reconhecer que o estado de exceção pode ser inevitável. Pois as pessoas desaproveitam o conteúdo pedagógico das suas liberdades e, exagerando delas, legitimam o estado de exceção. 
Por mais que custe reconhecer a alguém que tem muitas reservas em aceitar o estado de exceção, a imoderação e a ignorância de multidões poder ser a convocatória do estado de exceção.
(Ou, pela lógica de Agamben, poder-se-ia questionar se o Estado não é responsável por um estado geral de iliteracia informativa que acaba por fundamentar a estultícia dominante. Apesar de a escolaridade obrigatória ter aumentado, o que está em causa é a qualidade do ensino. Os números – a extensão do ensino obrigatório – não chegam; é preciso aumentar a qualidade do ensino. Esta é a falência dos poderes instituídos, responsáveis, por omissão, pela fraca cidadania que está na origem de um princípio geral de estultícia. Que depois, em situações limite, cauciona o estado de exceção através do qual os poderes mostram o músculo.)

13.3.20

O salto maior (short stories #201)


Ólafur Arnalds, “re:member”, in https://www.youtube.com/watch?v=oAhO5eegMfY
          A ponte ao longe parece um vulto, apenas. Uma imagem esbatida sobre as costas do nevoeiro, como se escondesse do olhar externo que a quer violentar. Mas o maior segredo é o que se abriga sob a ponte. A quimera que ela trouxe em garantia, prevenindo o salto possivelmente suicida sobre um rio indomável. Esse é o segredo que não se revela quando a ponte é contemplada à distância: um rio que esventra o desfiladeiro cujas margens ganham coesão através da ponte; e o salto impossível que seria cenário na sua ausência. A ponte é fiança do salto maior. Mas, mesmo ao longe, intui-se o desassossego que a ponte encobre. Um murmúrio gutural é o ruído de fundo, pressentindo o rio iracundo que penetra nas rochas alcantiladas que escoram as traves da ponte. Não se estuga, o passo; o corpo, preso a um paradoxo: quer apressar-se na direção da ponte, num frémito extasiante que responde à convocatória dos elementos agitados que são um pedaço furiosamente bucólico da paisagem; mas, ao mesmo tempo, sente-se estranhamente paralisado pelo eco constante, profundo, que pressente na voz tonitruante do rio. O salto maior é vencer a anorexia dos sentidos, sitiados pela paradoxal oposição de sentimentos. Triunfa a curiosidade da geografia. O apelo dos elementos que falam em favor da intratabilidade da natureza. De como ela é indomável. Um pouco à semelhança dos espíritos que se libertam das algemas que os tornam reféns de imperativos e dogmas e regras e estilos obrigatórios de convivência, o dito cimento da sociedade. Os redemoinhos desenham a linhagem do espírito insubmisso. Os olhos não podem desistir de ordenar o passo na direção da ponte. O salto maior é a harmonia com o rio desenfastiado que leva tudo à frente no caminho, menos a ponte solidamente ancorada que é porto seguro se um passo vital, aquele que separa as duas margens, for resolução.  

12.3.20

O eleitor mais cortejado


Happy Mondays, “Kinky Afro”, in https://www.youtube.com/watch?v=O8maBsuhHr4
          Tinha o dom de adivinhar o vencedor das eleições. Senhor de uma veia competitiva singular, fazia campanha por quem acabava por triunfar nas eleições: adorava festejar a vitória em comandita com os que apoiara. Sempre foi assim desde as primeiras eleições, ainda mal tinha saído dos bueiros da adolescência. 
Havia quem o acusasse de incoerência. De vacilar entre os maiores concorrentes, ora um agora, ora o outro depois, e de novo o primeiro a seguir – e assim sucessivamente. Não se importava. Não sabia nada de ideologias. Fazia fé na advertência de uns comentadores de elevada autoridade intelectual (pelo menos, assim se exibiam em público): as ideologias deixaram de contar no momento da escolha de uma das propostas a eleição. Se gente com tanta craveira intelectual o garantia, quem era ele para os desmentir? Por isso, não se importava com os que acusavam de flutuar entre os maiores concorrentes nas urnas, como se adivinhasse o concorrente que ia levar de vencida a eleição e a ele se colasse para, no auge da sua incorrigível vontade de vencer tudo em que entrava, se considerar também um vencedor.
Sabedores de tudo isto, os concorrentes a eleições começaram a interiorizar um ritual obrigatório: tinham de convencer o homem predestinado a ser seu apoiante. Como se de uma superstição se tratasse e os concorrentes a eleições se empenhassem em cativar o apoio deste homem como caução da vitória eleitoral. Mas, afinal, tudo se passava ao contrário. O homem-talismã é que era apoiado pelo concorrente eleitoral que arrematasse o concurso. Começou a ser sondado com a promessa de generosas vantagens patrimoniais contra a concessão do seu apoio e da aparição em campanha.
O homem passou a ser o fuso das eleições. De véspera, com mais de um ano de antecedência das eleições, os concorrentes começavam o leilão pelo apoio do homem-fétiche. Sem darem conta, feridos por esta cegueira supersticiosa, os concorrentes a eleições entregavam-se nas mãos do homem que apostava sempre no concorrente vencedor. Era uma luta feroz, com sucessivas subidas de parada no leilão. E o homem, cada vez mais ufano, cada vez mais convencido dos seus dotes adivinhatórios, assistia na primeira fila, deleitado, e com os bolsos cada vez mais cheios.
Anos mais tarde, já quase às portas da morte (ele não conseguiu vencer a doença), um jornalista propôs recolher as suas memórias em livro. Impôs uma condição: o livro seria póstumo. Ficou-se a saber que o homem-talismã foi mentiroso pela vida fora. Nunca votou nos concorrentes a quem dera apoio. Limitara-se ao deleite de se saber a razão de tanta guerrilha entre os concorrentes. De se saber o eleitor mais cortejado. O fiel da balança eleitoral. Podia-se dizer, com toda a propriedade, ele decidira eleições.
Afinal – descobriu-se já tardiamente – as eleições dispensavam os atos supersticiosos.

11.3.20

Missas à distância e outras distopias


Grinderman, “No Pussy Blues” (live at Later on Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=Nxqlb1--uKc
Uma viagem ao futuro, quando o futuro é uma antecipação macerada por catástrofes e impedimentos do atual modo de vida, um pano dantesco que se abate sobre os olhares incrédulos. Como se fosse um filme apocalíptico que, vindo de um futuro desconhecido, faz uma incursão no tempo presente. À mercê de uma pandemia que parece instalar-se. 
Ato primeiro
         Já não há missas presenciais. Aos fiéis, foi dito para ficarem no reduto habitacional. Os que querem continuar a cumprir o dever litúrgico, que se liguem à internet. Sigam as instruções eclesiásticas: há ligações em direto a rituais transmitidos por via digital. À força da adaptação, alguns desafios que a consumam: a comunhão será virtual, com os fiéis a serem instruídos para pegarem num pedaço de pão quando chegar o momento em que o sacerdote os insta à comunhão. Pelo menos, enquanto houver pão. Os sacerdotes, esses, já não têm de fingir que não dão conta dos fiéis distraídos, que, assaltados por sabe-se lá que pensamentos interiores, não acompanham o ritual.
Ato segundo
         Cenário de pré-apocalipse: a pandemia perdeu as rédeas e as autoridades, elas próprias, estão em pânico; já não sabem como silenciar a doença. Já não chega a quarenta das famílias. Em cada casa, cada membro da família deve ficar isolado em seu compartimento. Só podem comunicar por telefone, ou por outros meios não presenciais. O sexo foi banido até comunicação em contrário. A menos que seja virtual, com a desvantagem de destruir várias fantasias individuais.
Ato terceiro (combinação dos dois atos anteriores)
         Os sacerdotes que, às escondias, rompiam o voto de celibato, estão a rebentar pelas costuras.
Ato quarto
         A cultura foi adiada. Já não há teatro, cinema, exposições, concertos, vernissages, hagiográficas apresentações de livros. Nem feiras de gastronomia, ou atividades desportivas. O Speakers’ Corner, no Hyde Park, foi cancelado (para gáudio de muitos filósofos). As efemérides, entre feriados nacionais e dias internacionais disto-e-daquilo, passaram a ser motivo de celebração coletiva sem que as pessoas saiam às ruas. 
Ato quinto
         As ruas estão desertas. Há semanas. Estranhamente desertas. É o que se consegue discernir ao espreitar através da janela. Não passa vivalma. Nem as patrulhas do exército que, nos primeiros dias da quarenta forçada, mantinham a ordem. Até os ladrões e os oportunistas deixaram de sair à rua. A pandemia conseguiu o que sucessivas levas de utópicos não alcançaram: uma igualdade sem precedentes. E até os defensores dos animais suspiram de alívio: nas ruas, os animais não humanos são as únicas almas vivas. A pandemia aniquilou o antropocentrismo.
Ato sexto
         Ninguém sabe o que virá a seguir. Por quanto tempo haverá quarentena. Nem os cientistas mais afamados, desorientados pelo malogro das suas previsões e pelo desmentido do conhecimento científico. Ninguém sabe quanto tempo mais as pessoas ficarão presas em suas casas. Ninguém sabe se a pandemia pode ser derrotada. E, não sendo derrotada, se o modo de vida tem de ser reescrito. Desfazendo os alicerces da socialização. Reinventando a humanidade. 
Ato sétimo
         Termos em que, proporiam alguns, a uma distopia não corresponderia o cenário desenhado. Antes, uma utopia seria.

10.3.20

O miradouro das enjoadinhas


Wilco, “Theologians”, in https://www.youtube.com/watch?v=el75UyYO554
A conversa não estava despachada; ainda havia muito por falar. Impunha-se uma interrupção, porém: as curvas da estrada terminavam num alto, onde o sossego de umas retas rompeu com a teimosa, sinuosa estrada. Estavam no sopé da montanha e ninguém garantia que, ao começar a descida até a um vale próximo, as curvas da estrada não voltassem a ser imperativas. Perguntavam-se: não havia engenheiros de estradas que soubessem cortar as curvas a eito? Perguntavam-se, fazendo de conta que não sabiam que o tempo é a caução da tecnologia que caminha célere, e que a tecnologia avançada ensina a romper os montes para prevenir estradas sinuosas. Faziam de conta que não sabiam que a engenharia era tosca quando a estrada foi desenhada.
O miradouro reclamava a atenção dos viajantes, nem que fosse para descansar de tantas curvas. Saíram do carro. Era um miradouro que ainda mostrava os vestígios da engenharia de estradas das décadas de antanho. A azulejaria reproduzia o grafismo dos anos cinquenta. A paisagem soberba, aos pés de quem a espreitasse através do miradouro, desviava as atenções. Ao início, ninguém queria saber da toponímia e da restante informação que se perpetuava nos azulejos que ornamentavam o miradouro. Só depois, após mais ou menos demorado êxtase pela paisagem esquadrinhada, se apreciava a sinalética do miradouro. Tinham parado no miradouro das enjoadinhas.
O nome era insólito, como acontece com abundante toponímia e os nomes dos lugares quando se viaja pelas entranhas do país. Jogaram com o nome do miradouro: o desafio era perceberem a etimologia do miradouro. Concordaram que não valia recorrer a uma mal-amanhada enciclopédia através dos olhos batoteiros se eles fossem perscrutar nos telemóveis. Fariam um exercício de adivinhação, sem que fosse adivinhação por simples adivinhação. A lógica seria a regra do jogo. Nem que descaíssem para a especulação.
Não chegaram a acordo. Ele sugeria que naquela terra as mulheres seriam desinteressantes, ao ponto de delas se dizer serem enjoadinhas, em tom depreciativo. Ela insurgiu-se contra este arremedo de masculinidade tóxica. A explicação teria de estar algures. Ele anuiu: a sua proposta estava contaminada pela masculinidade tóxica. Retratou-se. Sem conseguir arranjar teoria alternativa. Ela supôs que o subsolo daquelas terras estivesse contaminado por um minério com propriedades de toxicidade. Só as mulheres seriam afetadas – e não, não havia reconhecimento da superioridade masculina, era apenas a biologia a atirar-se contra as mulheres.
Não longe do miradouro das enjoadinhas havia um restaurante onde pararam para almoçar. No fim da refeição, ela perguntou ao dono do restaurante se sabia por que o miradouro tinha aquele nome. O dono do restaurante olhou-os como se fosse o mestre da escola a apreciar altivamente os alunos e perguntou se de onde vieram para ali chegar não era só curvas e contracurvas. 
Antes de ciciarem a resposta, o homem rematou: “eram muitas as mulheres que pediam para parar no sopé da montanha, enjoadas e com a precisão de bolçar.” “E os homens?”, perguntou ela. “Os homens sabiam dançar com as curvas e as contracurvas. Não veja isto, menina, com uma exibição de masculinidade tóxica. Era o que era.”

9.3.20

Atrás da máscara


Sigur Rós, “Glósóli”, in https://www.youtube.com/watch?v=Bz8iEJeh26E
I
Atrás da máscara. Não é fértil o chão se não houver um palco. Um palco onde o fingimento seja consagrado. Ninguém usa os rostos. Ninguém os põe à mostra. Essa seria a suma fragilidade da condição humana, uma vulnerabilidade insuportável. Preferem fingir. Precisam de máscaras como estuário do fingimento. Andam atrás das máscaras como se num filão estivessem a escavar em demanda do ouro. Esta é a malparida quimera: uma filigrana estilhaçada à mercê das máscaras que dão cobertura ao fingimento.
II
         Atrás da máscara: as pessoas estão atrás das máscaras, ao cabo de uma diligente empreitada que cuidou de encontrar os mercados onde podiam obter aprovisionamento. Sobem a palco. Escondidas atrás das máscaras, que falam pelo fingimento em que se decompõem. Ninguém sabe do paradeiro da mentira: a ténue linha de fronteira impede a delimitação entre dois antónimos (verdade e mentira). Os dois conceitos parecem esgotados. As palavras que os sinalizam parecem subtraídas ao vocabulário, ou, pelo menos, destituídas de sentido. Tudo se passa atrás das máscaras que contracenam. 
III
         Dantes, havia almas generosas que recusavam ostentar máscaras e davam-lhes caça. Iam atrás das máscaras para as denunciar, para as arrancarem dos rostos atrás delas escondidos. Agora já não há estes zeladores. Cansados da função, renderam-se. Não conseguiram suportar o excruciante estado dos rostos denunciados após extração às máscaras. De tanto tempo nelas refugiados, os rostos revelavam-se desfigurados. Já quase ninguém ia atrás das máscaras. Com medo dos rostos desfigurados. Com medo que fosse uma doença contagiável e eles próprios fossem assaltados pela imperatividade de uma máscara.
IV
         A noite contínua era a maior máscara que descia sobre o rosto coletivo. Uma metáfora contraída, a metáfora exangue pelo poder destrutivo das máscaras – pelos rostos desfigurados. Dizia-se, com saudade dos tempos humanos: oxalá as máscaras servissem apenas de proteção. Não era o caso. O teatro contínuo era um desfile de farsantes. Ao menos, havia lugares onde era possível fugir das máscaras (como se fosse uma máscara anti máscaras). 
V
O teatro da poesia era o lugar furtivo, ermo, sem acessibilidade revelada, onde não havia máscaras.

6.3.20

Constelação (short stories #200)


Iggy Pop, “We Are the People”, in https://www.youtube.com/watch?v=Yd7Pughcb_4
          Dizia: como gostava de ser divertido. Dizia, com alguma mágoa à mistura. Uma mágoa, todavia, improcedente. Ao ir ao fundo da questão, veria que a angústia levianamente formulada ecoava a impressão de que são os outros que servem de estalão para a nossa medida. Era um julgamento errado. Só por obediência ao teorema da socialização forçada é que alguém se julga através do julgamento dos outros. Só num tempo em não é aceitável a dissidência do teorema do pensamento coletivo é que medram as angústias por alguém ser malquisto pelos outros. Mas estes são os tempos em que nos movemos – interiorizava. São os tempos em que se ensaia uma certa frivolidade, erguendo-se ao olimpo dos valores alguns que seriam despromovidos se outro fosse o farol usado, menos frívolo. Voltava à casa da partida, quando se angustiou por sentir que não era divertido, nem conseguia sê-lo: interessava ser divertido para agradar aos outros se, ao sê-lo, se adulterasse? Começou a dissolver os rudimentos da angústia que irromperam com a formulação do desejo inicial. As pessoas são a sua natureza. Já são suficientes as instâncias de capitulação, quando são interpeladas, em nome da necessária socialização, a refrear palavras ou a temperar comportamentos, ou a um certo fingimento. Porventura sentira que as pessoas que são divertidas ganham uma popularidade que ele nunca conhecera. E por que queria conhecê-la agora, depois destes anos todos? Era agora, depois destes anos todos, que ia adulterar o seu eu? Não agradava a circunstância de ter de se forjar num fingimento mercê das exigências vindas do exterior. Já bastam os casos em que a moderação do eu tem de vir à tona, sob pena de arrostar com o impropério da misantropia ou até da sociopatia. Voltou à casa da partida, outra vez. Este era o eu que era ele. Afinal, não queria saber ser divertido. Queria só ser como era. Uma constelação que já era.

5.3.20

Dou ao lugar a medula que há em mim (perímetro da identidade)


Idles, “Samaritans” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=uXh8ae5RaA4
Desconsiderem-se as teorias que postulam a exsudação dos lugares na têmpera das pessoas. É esta a proposição dissidente: somos matéria embebida nos lugares que foram nosso património. Nós é que fazemos os lugares, primeiro. Só depois se pode aceitar que os lugares produzam alguma influência sobre nós.
Os lugares são as derramações das pessoas que os fizeram e das que os continuam a fazer. A sua geografia, dir-se-á, é inata, precede a influência das pessoas. O que se afirma é distinto: os lugares que aparecem transfigurados pela mão humana refletem essa mão. Não se fala apenas do património edificado e dos arranjos urbanísticos. Mencione-se a cultura que é marca identitária de um lugar, os seus hábitos e idiossincrasias, a gastronomia, outros arquétipos que distinguem um lugar de outros (a transfiguração do idioma, a música, a poesia, as festas locais, etc.). 
Não são as pessoas que trazem na medula um pedaço dos lugares com os quais firmam uma identidade. Os lugares é que aproveitam a levedura das pessoas que são o seu património indissipável. Os que esgrimem uma pertença incondicional dirão que, do âmago da sua generosidade, se entregam na totalidade ao lugar onde estão. Entregam-se, até à medula. Pressentem a reciprocidade: em consequência, reveem-se no lugar que os viu nascer ou que adotaram como lugar que recrutou a identidade sentimental. Sentem-se como uma extensão do lugar. Deveriam sentir o lugar como um prolongamento de si mesmos. 
Raros devem ser os casos em que se conduza um raciocínio coroado com esta ilação. A retórica dominante afirma os sítios como variável independente e os seus utentes como variável dependente. Os lugares é que produzem uma influência nas pessoas. Outra vez a discordância: nenhum lugar nasceu de geração espontânea. Os lugares habitados têm uma identidade que resulta da configuração outorgada pelos habitantes. Não há lugares sem previamente pessoas os terem colonizado, subtraindo-os à condição de lugar ermo e inabitado.
Esta é a relação causal, por dissidência do lugar-comum. Os que homenageiam as cidades a que dizem pertencer, não intuem como são eles próprios modestos contribuintes para a feição de um lugar. Preferem o outro sentido da causalidade, o que exibe a influência de um lugar sobre si mesmos. Esquecem que são eles, e foram os seus antepassados, a dar feição ao lugar.
(E depois há os que habitam um lugar e não se identificam com ele.)

4.3.20

Os fabricadores de verdades


David Byrne, “Once in a Lifetime” (live in SNL), in https://www.youtube.com/watch?v=bkhQKV5o1-g
Não se cansava de contar estórias sobre gente importante da política e da finança, até do eufemisticamente autointitulado “meio social”. Os que o ouviam sabiam que ele se movia em meios influentes. As estórias teriam sido segredadas por gente ainda mais influente, com que se cruzava no dia-a-dia. Os que o ouviam não tinham como saber se eram contadas todas as estórias, ou só as menos edificantes (porque as estórias se confinavam a apodrecimentos da alma), ou qual era o critério de seleção das estórias, caso não tivesse tempo para esgotar o manancial.
Os que o ouviam também não sabiam se ele era um fidedigno reprodutor das estórias, se decaía na mentira parcelar ou na intencional adulteração de fragmentos de informação, ou se reinventava as estórias – e se as reinventava, se era por convicção, para espalhar a confusão entre quem o ouvia, ou se a reinvenção era um território mal definido, sem fronteira, entre a mentira e a adulteração não intencional. Os que o ouviam tinham de considerar a hipótese do lapso comunicacional: a quem nunca aconteceu não conseguir reproduzir uma conversa em todos os seus elementos, por eles serem tantos que a memória cai na sua própria traição, ou por distração que, por se ter entremeado na estória, impediu a captura integral da estória?
Os que o ouviam, ouviam as estórias que ele contava. Notava-se uma certa soberba no contador das estórias. Era a sua forma de ostentar o acesso a informação privilegiada, pelo menos para os que o ouviam, que não tinham acesso as essas fontes. Às vezes, enxertava na conversa, quase a despropósito (mas só quase), uma frase que se repetia: “informação é poder”. Não era uma frase inocente. Os que o ouviam não queriam cometer o ato piedoso do chamamento à terra, termos em que, se o fizessem, teriam de completar aquela insistente proclamação com a seguinte frase contundente: “Falta saber o que se faz com a informação.”
Um dia, contou, em jeito de complexa teoria da conspiração, que o poderoso presidente do conselho de administração de uma das empresas mais influentes era testa-de-ferro do “lobby gay”. Nomeou outras pessoas que chegaram a importantes posições na finança e na política por serem agenciados por este lobby. Não disse nada sobre outros consabidos lobbies, dando a entender que o “lobby gay” não merecia amesendar na mesma mesa onde se esgrimem forças por um pedaço de influência. Aquilo soube a homofobia mal disfarçada. 
Um dos que o ouvia, cansado de tanta soberba e sem saber responder a todas as hipóteses antes enunciadas, pegou no telefone e discou o número da empresa liderada por aquela personalidade que, apesar de ser casado e pai de família, seria um testa-de-ferro do “lobby gay”. Passou algumas barreiras, mas não conseguiu convencer a secretária do poderoso homem a pô-lo à fala. Não capitulou. Conseguiu saber o correio eletrónico do senhor, com a ajuda de um amigo perito em vazar informação secreta. Enviou-lhe a seguinte mensagem:
“Caro Dr. (identidade ocultada por imperativos legais): 
Chegou ao meu conhecimento que V. Exa. ocupa o cargo que ocupa por intercedência de um grupo de pressão que pretende colocar homossexuais em lugares centrípetos da política e da finança. Não havendo, da minha parte, qualquer obstáculo a que uma empresa tão relevante para a economia nacional seja liderada por um homossexual, pretendia que me esclarecesse se esse é o caso. Só para poder acrescentar mais um grupo de pressão ao cardápio dos que se digladiam no exercício de influências nos meios da finança e da política. 
Atenciosamente, à sua consideração, o abaixo assinado, 
(Identidade ocultada por imperativos legais).”
A resposta nunca chegou. Contudo, não pôde inferir que quem cala consente. Disso informou o amigo que se ufanava das suas ligações ao jogo secular da informação usada como meio de (ostentar) poder. Aconselhou-o a ser crítico quando lhe contam estas estórias. A ter a iniciativa para apurar a veracidade das estórias, dentro do que seja possível. Para não ser um idiota útil que se presta ao papel de quem se limita a reproduzir estórias possivelmente fabricadas por gente inescrupulosa. Para não ser um entre os demais, nesta terra que parece feita de porteiras com botões de punho.

3.3.20

Ilustração


Pat Kay and the Gajos, “You Said”, in https://www.youtube.com/watch?v=ivFhiu7A5Dk
Se forem de modas, tragam o saleiro e despachem o conteúdo para cima das modas. Precipitem o antagonismo das modas, que se consegue através do seu esvaziamento. Dirão: há sempre uma moda em espera, uma sucessão de modas. O tempo não está para ausência de modas. É um penhor constante. 
Talvez estejam do avesso, as fundações. Talvez haja um senão a tornar incompatível a lucidez de uma moda sempre presente. É um simples lugar-comum. Em sentido contrário, alguém interroga (à laia de pergunta de retórica) o que é uma moda. Ensaia-se uma definição: os comportamentos que dão caução às preferências de uma minoria. Por ser moda, consegue ter uma convincente persuasão que se estende a mais pessoas. 
Uma moda não precisa de tanto respaldo. Ou por outras palavras: não é o apoio de uma maioria que garante a linhagem de um modismo. Enquanto houver dissidentes, uma moda é apenas uma tendência que fica em legado para um séquito. Os dissidentes podem inaugurar uma contra moda. Ser contra a tendência dominante pode alimentar o siso da divergência. Os dissidentes podem tirar partido do estado pré-comatoso da tendência dominante. A lucidez, na medida inversamente proporcional do alistamento numa moda, contempla a moda do momento à distância. Prepara-se para o afastamento sem remédio, o que seria um contratempo para as alcateias removidas de espírito crítico. 
Estar nos antípodas de uma moda é um contratempo sem solução. Se atrair apoiantes, são o rudimento de uma contracultura, um movimento que fascina os que não se reveem na moda do instante. Podem ser precursores de uma moda diferente. Ao início, não se assume como moda. Quanto maior for o seu séquito, mais a contracultura vê dissolvida a sua vocação de rebeldia, transfigurando-se na moda que vai emergir.
As modas deviam ser banidas. Todas, até as que se desembaraçam do estribilho da oposição e, por ganharem reconhecimento, se transformam na moda dominante no instante. Oxalá houvesse vontade para exilar a palavra “moda”. Seria atribuído um lugar vago no dicionário, em sua vez. As pessoas, multadas de cada vez que ativassem a palavra na fala. Só haveria ilustrações. Pedaços de alma expostos ao escrutínio da praça pública. Ilustrações nos antípodas das modas, a elas reservado um papel de curiosidade antropológica, a celebração da recusa de uma memória servil.