3.7.20

No pátio, atrás da casa (short stories #232)


          Corre a cortina sobre o vento. Não são algemas o que te prende ao basalto do tempo. Se as ruas emergem como cognomes, não contes com o pastiche das alcáçovas como remédio. Há sempre uma fuga possível. No emaranhado das palavras que se contorcem no medo, um periscópio consegue distinguir a porta da fuga. Chegarás a um lugar ermo. Ninguém por perto. O silêncio será o teu mote. Poderás ser convocado a mergulhar na medula em que se fundem os sentidos. Não temas a demanda, por mais que ela se assemelhe a um abismo. Que o labirinto em que entras não seja uma casa dos horrores. Pois não sabes (a não ser por experiência indireta) o que são horrores. A eles foste poupado e a episódica falta de lucidez não te deixa reconhecer a proeza. Se ao menos os veleiros não fugissem do cais; se ao menos o vento soprasse de feição; se ao menos os mastins da fala não tivessem liberdade de expressão – tu serias domínio próprio, um país por dentro de um despaís. E não serias ufano do conseguido, pois não cuidas de teus méritos como te sobressaltam os deméritos. Podes vociferar contra os deuses, em litania constante que se nega a si própria. (Sempre estranhaste como pode a missão de um ateu ser a negação de deus.) Se procurares com cuidado, encontras um pátio sufragado na parte de trás da casa. Procura, meticulosamente. Assim que o encontrares, e mal notes os frondosos jacarandás que o contornam, saberás de cor as sílabas do poema que julgavas embaciado. Nessa altura, podes regressar e encher a casa com o perfume que os teus olhos exuberantemente exsudam de se terem detido nos jacarandás. A casa ficará inteira. Pronta a ser uma casa mirífica. E tu, o generoso mecenas que podia ser ornamentado com um prémio máximo de arquitetura.


Sixto Rodriguez, “I Wonder” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=Xw-BpTZAFRY

2.7.20

Errático (short stories #231)


          O traumático descoser da madurez do dia: as lentes baças não queriam mais dia de tanto o saberem radioso. É daquelas coisas que se sente quando o bom em excesso se banaliza, perde propriedades. E, contudo, havia muito por fazer. Houvesse tanto dia por percorrer. “Não há problema. Temos mais dia amanhã”, disseste. “Eu sei. É esta prisão do tempo que se precipita sobre mim. Já sabes como é.” À medida dos veios que imprimem cor à paisagem, como se fosse um resgate à monotonia que se exacerba no caudal da extinção. Os dias não são iguais. O sangue não se repete nas veias que conhecem os dias diferentes. Podia-se testar a hipótese da polissemia da identidade, espartilhada por várias identidades – como se houvesse lugar a vários pseudónimos. “Terás a marca registada do caminho errático?”, perguntaste com alguma complacência à mistura. “Não sei. Não é consumição que sirva de combustível. Sou assim e aprendi a sê-lo.” O lado contrário da moeda espera pelo modo useiro de ver as coisas. Às vezes, os olhos desaprendem o que poderiam aproveitar se tivessem cuidado, se não se apressassem na aridez da paisagem habitual. É o estigma do indígena: acaba por desconhecer o lugar a que diz pertencer. São avulsos os modos de que se compõe o dia. Não se espere de uma véspera aquilo que se tem como provável no dia que vem a seguir. Um pressentimento não passa disso mesmo. Se os vulcões e os sismos se fizessem anunciar, haveria menos vítimas? Ninguém sabe. Não cuidemos das impossibilidades. Cuidemos do lugar presente sem ter por presente o lugar que será vindouro. Pode-se ser nómada sem deixar de ser sedentário. As cidades despojam-se de vento para a extinção dos impostores. Às vezes (talvez muitas vezes), os impostores são os que reivindicam para si o domínio do verídico.


Iggy Pop, “Candy”, in https://www.youtube.com/watch?v=6bLOjmY--TA

1.7.20

Ao arrepio das boas maneiras (short stories #230)


         Transformavas-te na tua própria improcedência: confirmava-se que não foras feito para a convivência social. Os maneirismos fazem esboçar um esgar de desdém. Não sabes para que existem “usos e convenções” se eles são abundantemente despatrulhados. Admites um paradoxo: consomem-te os ninjas que se julgam acima das leis, mas os zelosos mastins dos “bons usos e costumes” levam-te à exasperação. Andas em sinal contrário da maré. Se um estroina egocêntrico espezinha as regras, fazes o possível para o contrariar (sabendo que contribuis para a reposição da legalidade, algo que faz estremecer a tua ossatura misantropa). Se um pastor da normalidade te importuna, aos costumes dizes nada (mesmo sabendo que te alistas no feudo dos estroinas egocêntricos que espezinham as leis). Já te habituaste a não transigir com o assédio da consciência. Eram frequentes os murmúrios que transtornavam o sono. Ela reprendia-te pela volubilidade e acusava-te de incoerência. Já foi tempo que esse era dos piores libelos que sobre ti podiam pender. Hoje, n ão. Já passaste (e com distinção) o tirocínio do amestramento da consciência. Hoje, não patrocinas a vilegiatura dos apessoados da coerência. A humanidade nunca mais aprende com a sua fragilidade irremediável. A tua posição é em virtude do vento que sopra e de como os sentidos travam os combates interiores. Agora já não estás empenhado à consciência. Era algo que te incomodava. Como era possível alguém ser um palimpsesto de si mesmo? Como era possível ceder ao império da consciência, como se ela fosse a colonizadora implacável da vontade? Resolveste os assuntos pendentes. Determinaste que não serias refém de ato algum que comandasse a vontade. Quando fosse preciso, serias rebelde em causa contra as boas maneiras. E serias um sedentário seguidor das boas maneiras, de outras vezes. Não querias espartilhos. E a rebeldia metódica contra as boas maneiras era um espartilho. Mas sobrava uma derradeira interrogação: a vontade não é um espelho da consciência?


Lloyd Cole and the Commotions, “Rattlesnake”, in https://www.youtube.com/watch?v=gSc46sEZdl4

30.6.20

Pestanas sem embaraço (short stories #229)

Sleaford Mods, “Second”, in https://www.youtube.com/watch?v=IT09DGuXwYQ

          O olhar decanta-se das impurezas que o agridem. Pedaços de vidro esmagados que podem ferir o olhar. Há memórias que podem ter esta serventia. Mas a memória serve-se das pestanas que decantam as memórias, uma seletividade exigida pela temperança da alma. Há, todavia, um sentimento de frivolidade no exercício que separa o que da memória tem o condão de agredir a alma. O notório fingimento não aplaca as apoquentações que se sedimentam no alfobre do tempo. É como se a memória fosse o primeiro agente agressor de si mesmo e dela viesse uma lava colossal que contamina o sossego. Que préstimo têm essas memórias azedas? São tutela nefasta, uma cortina espessa, encardida, que se deita sobre a fazenda que acolhe o dia presente. As pestanas purificam o olhar. São à prova de memórias contrafeitas – contrafeitas porque não resolvem o dia presente e são imagens reavivadas sem propósito reconhecido. Deixam o olhar livre dos embaraços que se remoem no tempo pretérito e embaciam o olhar que se perde no labirinto que censura o diletantismo. E o olhar abre-se total, como escotilhas que deitam os fragmentos do mundo para dentro da alma. Amanhece na protuberância da claridade singular que determina o dia. Nas pestanas se contêm os embaraços que ficam à porta do olhar. Não é fingimento: um mau olhar – aquele que se enreda numa teia que não aproveita à serenidade – não se desconta ao património do acontecido; mas as pestanas agem como um bondoso censor interno que aparta do palco as memórias que intuem um contrabando da alma. Não deixam à mostra a conspiração dos acontecimentos idos contra a fragilidade do hoje. Não há quem lhes confira o reconhecimento que merecem, na sua discreta diurese. Às vezes, é um ator de terceira linhagem que contém a madurez dos princípios.

29.6.20

Desvento


Um catavento tem por serventia aprisionar o vento? A pergunta não era inocente. Saldou-se a resposta com outra pergunta: qual é a tua árvore favorita? Depois da surpresa, e de confessar que não percebia a gramática da pergunta (o que tem a ver com a pergunta antecedente?), fez a vontade: buganvílias. E se a noite for temperada por um luar amortalhado, o que tens a dizer? Às perguntas desconcertantes, sem fio condutor, ia respondendo, não sem esboçar alguma contrariedade: fico extática com o luar irredentista. Não é todos os dias que vemos um luar assim. É como nos eclipses. Factos marcantes. Não se desperdiçam.

Não distraída com a sucessão de improváveis interrogações, insistiu: um catavento tem por serventia aprisionar o vento? Se não pensarmos na porosidade das areias onde se decantam as palavras ditas, fica apenas a fala venal, um caroço no meio da fruta – e um caroço é um embaraço para os que se servem da fruta, mas também é a sua semente. Ela continuava a não compreender os termos do diálogo. Era como se estivesse metida à força numa conversa de loucos com um tempero de surrealismo. Mas não se demoveu com o exercício loquaz. Ele não ficaria sem resposta, mesmo que tivesse de improvisar um punhado de palavras que soassem a resposta. Disse: os caroços, destino-os ao lixo. 

Mas diz-me de uma vez por todas: um catavento tem por serventia aprisionar o vento? Como réplica, um desfile de interrogações: acreditas nas gólgotas que transcendem o exílio a que foram condenadas? Acreditas no tempero milimétrico para as iguarias? Acreditas que as janelas têm avesso? Acreditas que as honrarias aos figurões são a exaustão da igualdade que eles apregoam? Acreditas...acreditas...no que acreditas? Ela não queria sentar-se no divã do psiquiatra, ou sentir-se refém de um confessionário. Estava a ficar cansada do jogo virado do avesso, em que o demandado se tornava demandante. Não respondeu a nenhuma pergunta, devolvendo outra interrogação: por que foges da pergunta que foi o ponto de partida?

Demorou a resposta, para melancolicamente admitir que não há resposta. Não há respostas. Que trágico mister o dos assoberbados pela certeza, que desenham respostas céleres, mas, todavia, não testadas, às suas perguntas. E adiantou: sabes, não sei para que serve um catavento. Se levarmos a palavra à letra, parece que captura o vento. Mas será que todo o vento cabe nas hastes do catavento? Age como força centrípeta, o vento todo aglomerado nas hastes do catavento? 

Ela arriscou uma hipótese: se calhar, o catavento transfigura o vento em desvento. Não é o que acontece aos que são erradicados da liberdade? Não se tornam inertes, uma pálida caricatura do que foram em liberdade?

De uma coisa tinham certeza: não saíam do estatuto das interrogações.


Dead Can Dance, “Anabasis”, in https://www.youtube.com/watch?v=tLzBENQ3Ii8

26.6.20

O sem emenda (short stories #228)


          Tinha um fado escrito com a poeira das estrelas. Era um fado baço, as sílabas estilhaçadas pelas vírgulas do tempo. Uma espécie de roteiro para o infortúnio. Um roteiro ditado por uma singularidade: ele era o fautor dos próprios desares, e estava consciente das ações e das consequências. Podia um observador erguer a perplexidade pelo desprendimento, ou como não era possível incarnar um mínimo de aprendizagem que evitasse as recaídas. Até ele percebia essa lógica. Na hora H, falhava sempre uma peça – e das importantes. Tantas vezes os preparativos foram exaustivos (assim o considerava) e depois fracassava; a última decisão, aquela que contava, viria a ser o espelho vindouro de um equívoco. Tantas vezes jurou que não haveria mais vezes assim. Mas reincidia. Reincidia sem ser por acaso. Parecia que era de propósito. Como se pelas veias corresse um sangue em ebulição com a marca registada do masoquismo. Em seu socorro sobrava a virtude para derrotar as mal-andanças. O levantar-se e saber que a manhã era o fermento para se levantar do chão que tocara. E prometer que a manhã seguinte seria menos difícil. Até que resgatasse a bonança, só à espera de outro passo em falso, só à espera de experimentar o precipício outra vez. Era o sem emenda. Ninguém o conhecia por esta alcunha. Tinha sido cunhada por ele, em segredo. E nem com a madurez entretanto preenchida circundou a doce apoplexia do medo de não ter medo. O frémito de intuir o fino fio do arame sobre o precipício era o que o movia. Não lhe ensinassem a palavra “normalidade”. Já eram tantos anos e sempre a errar (no sentido de ser propositadamente errante) que não haveria modo de corrigir o defeito. Talvez nem fosse defeito. Só o é para os que repetem o erro e se mortificam sem remédio. Ele era o sem emenda. Mas não queria deixar de o ser. 


Idles, “1049 Gotho” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=WmfIheTjtjw

25.6.20

Nariz adormecido (short stories #227)

Flipper, “If I Can’t Be Drunk”, in https://www.youtube.com/watch?v=YpI71DyCI6Y

          Não podia ser Pinóquio. (A frase ficaria diferente se uma vírgula precedesse o nome da personagem.) Dizia-se que eras mentiroso porque crescia o nariz à medida da mentira que contavas. Mas nunca foi perguntado se o nariz também crescia se a mentira medrasse na omissão. Podia o nariz reagir ao silêncio comprometedor? Pior seria o cenário se pela vida fora conquistasses a palma de gastrónomo. Foi o caso. Para além de detetor de mentiras, o teu nariz teve uma serventia profissional, ao sabor dos odores que perfumavam as iguarias preparadas. Envelheceste, Pinóquio. Como acontece com os varões que envelhecem e perdem aptidões carnais, o teu nariz foi enfraquecendo. Uma perda de qualidades que te fez exultar: era mais difícil apanharem-te na mentira. (E quem gosta de ser apanhado na curva de uma mentira?) O nariz foi hibernando. E tu ponderaste reaprender a mentir. Não é que te interessassem os meandros da mentira; tinhas-te em boa consideração no universo da lisura e não foram frequentes as mentiras, aquelas mentiras que desatavam uma intensa ereção do nariz. O problema é que à mínima mentira eras denunciado pelo nariz que se emancipava da vontade. Era uma vergonha. À custa disso, pôde-se confirmar (assim o segredou um amigo do peito de certas divindades) que eras dos menos propensos à mentira. Consideraste, pois, a hipótese de te vingares de todo o tempo em que a mentira era tão custosa. Uma vingança contra o nariz que algumas vezes te deixou ficar mal. Desististe dos planos. Eras demasiado honesto e já não conseguias adulterar a tua natureza. Preocupou-te mais a linhagem de gastrónomo. Mal conseguias distinguir o aroma das ervas aromáticas. Chegou-te aos ouvidos que os cozinhados começaram a ser menos apreciados. Estavas a ser atraiçoado pelo nariz, outra vez. Ao que soubeste, depois de intensa investigação, ainda não inventaram um comprimido azul para desbloquear narizes adormecidos.

24.6.20

Arredondamento (short stories #226)


          Um retrato sela a distância do tempo. Outro calibre da angústia, se através do retrato se afivela a tremenda diferença para o espelho do presente. É como se o intervalo entre dois tempos diferentes fosse o produto de um arredondamento. Descelebra-se a incontinência do tempo, ou a madurez do corpo que é a sela onde o tempo se cavalga. Mas os arredondamentos são feitos por defeito ou por excesso. O cotejo dos tempos é feitor de um arredondamento por excesso. É como se a passagem do tempo adicionasse sucessivas camadas ao corpo e ele se tornasse volumoso, às vezes disforme, pressentindo a decadência. É uma marca da janela por onde o tempo se insinua. São improcedentes as exortações à repristinação do tempo, que ele só conhece uma palavra. Outro critério será bom conselheiro. Em vez da amargura de quem carrega as baterias da autocomiseração, acusando o tempo de ser implacável (como se o não fosse com qualquer outro mortal), admita-se ao convívio a irrisória natureza do tempo. Ninguém nasce para ser novo para sempre. E se alguns se tornam peritos no envelhecimento precoce, não têm serventia as simulações que fingem uma idade que se não tem. Por mais que se convoquem sortilégios destinados a fazer do tempo um arredondamento por defeito, a tarefa acaba por aguar. O menor dos custos é aquele que aplaca frustrações evitáveis. Os que adiam a velhice sob a capa protetora de ilusórios disfarces estão fadados a uma aterragem forçada, violenta, dolorosa. Antes tivessem sabido conviver com o inelutável. Antes lhes fosse dado a saber que forjar um arredondamento por defeito é um ardil que se joga contra o seu fautor. O olímpico triunfo é aquele que não resiste às ordenanças do tempo. Sem lutar contra ele, nem por inércia o apressar. O amanhã não se compadece com arredondamentos.


Neil Young, “Rockin’ in the Free World”, in https://www.youtube.com/watch?v=WhjJLZDVRrA

23.6.20

Por linhas direitas (short stories #225)


          Não sei que nome usar no palíndromo que se habilitou no mundo. As pessoas evocam arremedos de justiça divina (“escrever direito por linhas tortas”), como se a empreitada não fosse atingível. Às vezes, parece que temos uma lente desfocada que traz o entendimento baço. Distraímo-nos com as irrelevâncias transformadas em matéria estrutural por gente desinformada. Se houver um módico de rigor e lucidez na medida das coisas, elas aduzem-se na sua simplicidade. Sem sermos apostrofados pela incúria, a nós se deve a inútil complexidade das coisas. Se desmatarmos as camadas em que se fingem as coisas, chegamos à sua medula, o cerne da simplicidade. Aprende-se que mesmo nas curvas mais sinuosas se consegue escrever por linhas direitas. Mais tarde ou mais cedo. E por mais que uma certa descortesia pela espécie possa espreitar pela escotilha, desconfiando do triunfo perene da lhaneza, ao cabo da demanda é o desiderato que se confirma. A complexidade enovela-se nas suas entranhas. Especiosa, esperneia seus múltiplos tentáculos que esperam enxertos de outras variáveis que adicionam mais complexidade, num turbilhão inacessível, o precipício mesmo à espreita. É como se fosse o poço da morte, a vertigem do ininteligível a coberto de aspirações eruditas. Os seus intérpretes acabam a falar em linguagem cifrada, todos fazendo de conta que se entendem mutuamente, quando apenas tornam mais densa e logogrífica a linguagem. Um enredo em que são surdos os que intervêm nas falas. Disfarçados atrás de nomes pomposos, mas inaptos para tirarem as medidas aos mínimos denominadores comuns. Tornam-se peritos em escrever torto por linhas tortas. Uma cacofonia. Até que, em estado catatónico, sem saberem o lado do poente, sucumbem ao apelo do regresso ao quilómetro zero. Não têm de reaprender a ler e a pensar. Mas quase. Essa é a serventia das linhas direitas. 


Is Tropical, “Calling Out”, in https://www.youtube.com/watch?v=nrNKAsoe33g

22.6.20

Até ao crepúsculo que se emancipa


Admitem-se ao estuário os rostos emaciados que pedem tréguas. O rio, como se fosse um altar de águas termais. Purifica os meandros calcificados que se esgotaram nas veias encardidas, habilitando a angústia das almas estilhaçadas. 

Admitem-se os rostos, sem franquia. A toda a hora. Podem ser matinais, carregando ainda o peso intemporal do arrependimento. Não têm de pagar honorários. O estuário é imenso, comporta uma multidão de olhares trespassados pela melancolia, não sabe o que é o lucro mastim. Espera-se que o rio atue com a linhagem medicinal das águas termais e repare as arestas gastas que se desafeiçoam dos rostos, tornando-os macilentos, estremunhados com as cores ácidas com que o mundo vem servido, consumidos por sobressaltos por inventariar. Mal entram nas instalações do estuário, são convencidos ao despojamento do lastro que carregam. Como se tivessem de se esvaziar para se congraçarem na praça onde o processo heurístico acontece. Os impetrantes são avisados para não esperarem milagres. Esses, são de outra lavra (o cimento de um escol e dos patronos da metafísica).

Possivelmente as almas admitidas no estuário não se recordam da estadia. A hibernação seduz ao esquecimento de quem são, ao esquecimento do que são. Ficam em letargia, banhados pelas águas tépidas do rio, à mercê das discretas marés que serpenteiam em rima com o relógio. Não se pode dizer quanto tempo ficam em letargia. Depende de cada pessoa. Da profundidade das suas angústias. Da vontade, naquela altura independente da vontade que se julga dominar, para sepultar os arrependimentos, as aflições, os compungimentos estéreis. Até que o crepúsculo emirja no horizonte tardio e faça desmaiar a luz diurna. O crepúsculo inaugura o espaço sem paradeiro entre o dia e a noite. É terra de ninguém. O lugar para as almas se libertarem do coma induzido e caminharem por sua vontade. Uma vontade desenhada a partir do zero.

Até que o crepúsculo seja o firmamento sem esteios, na véspera da reinvenção que se exige, num processo demiúrgico que refaz as fundações em que as pessoas se suportam. À saída deste labirinto, os rostos dantes torturados que clamavam por tréguas podem ser diferentes ou podem ser iguais. Não interessa. Só interessa reconhecer o mergulho à medula da alma, lá onde se refugiam os seus críticos esteios, e saber que não são os estéreis arrependimentos que ditam a reinvenção das pessoas. 

O estuário, à espera do crepúsculo emancipado, cuida do restante.

Jambinai, “In the Woods” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=G4QMs3LFz8Y

19.6.20

Os anjos que caem (short stories #224)


          Namoravam a verdade. As asas acumulavam os sinais da maresia, sendo vizinhos de marítimas paisagens. Não se viam. Pressentiam-se. Tinham uma palavra de conforto para as almas enrixadas e que não queriam ser erráticas. Não dormiam. Vigilantes, a tempo inteiro, cuidavam de reparar os malsãos arquitetos que não hesitavam em trespassar almas descuidadas. À sua boca, as palavras pareciam ornamentos que cintilavam com o céu como pano de fundo, como se estivessem alimentadas por néones. Dizia-se que havia sempre um anjo de respaldo para todas as almas. Até para as que sobranceiramente juravam delas prescindir. Mas ninguém cuidava dos anjos. Não havia anjos que fossem tutores dos anjos. Essa era a sua fragilidade. Ninguém a intuía. Julgava-se que os anjos cuidavam de si para além de tutelarem as demais almas. Às vezes, os rudimentos que parecem fortalezas disfarçam estilhaços. Sem se ver, ameaçam ser escombros. Os anjos não sabiam domar os sismos que os fundiam em cinzas. Por mais que adejassem no seu estatuto etéreo, os anjos emudeciam quando os esteios em que se fundavam estremeciam no parapeito da fraqueza. Pois os anjos eram acometidos por fraquezas, embora as escondessem – embora as demais almas, convencidas da inerrância dos anjos, não tomassem tenência das suas fragilidades. De vez em quando, um anjo caía. Como um cometa, efemeramente tracejando o céu com um rasto de luz iridescente. Não se sabia onde caíam. Desvaneciam-se em fugazes cinzas que se repartiam por um imenso chão. As demais almas vertiam uma lágrima condoída quando sabiam do perecimento de um anjo. Mas sabiam que o anjo deixara um derradeiro legado ao fazer-se espalhar em forma de férteis cinzas por um imenso chão. Era a sua forma de nos precatarem depois de partirem. Os anjos caíam, mas não nos deixavam sós.

James Blake, “You’re Too Precious”, in https://www.youtube.com/watch?v=6WfY8wixwD8

18.6.20

A árvore do meio (short stories #223)


Tricky, “Fall Please”, in https://www.youtube.com/watch?v=yAEiIF5parQ

          Diabos de igreja trovejam sobre o átrio vazio. À frente, o arvoredo. Umas pessoas tardiamente no lugar refugiam-se do tumulto sob a proteção do arvoredo. Assistem à coreografia iracunda dos diabos de igreja, que esboçam a vingança contra os excelsos modos que o mundo prepara na distração dos vultos enodoados. Juntam-se os prefácios em tirocínio. Inventariam-se os fantasmas e os modos possíveis de os exorcizar. Não se peticiona a mudança apenas pela mudança, se as pessoas tardias o são por não serem ali esperadas a desoras. Mas quem estabelece o horário de atendimento? Podia demandar-se uma procuração para desembaraçar o lugar e o horário de atendimento às almas penhoradas; a função seria em vão. Os diabos de igreja não capitulam. Quando a desordem parece amansar, eles remoçam e disparam as centelhas fulminantes que incendeiam o medo. As pessoas tardias começam a temer efeitos piores. Seriam vítimas dos diabos de igreja tresloucados? Tinham em débito uma série não frugal de culpas. Não transitavam pela cumeada do arrependimento. Sabê-lo-iam os diabos de igreja? Do pouco que avocavam dos cânones metafísicos, às pessoas tardias não era dado a lembrar a veia vingativa da religião nem dos seus testas-de-ferro. À cautela, consideraram a emergência de proteção reforçada. No arvoredo estava, centrípeta, uma árvore distinta, com copa larga e abundante ramagem que tombava sobre o chão em forma côncava. Correram entre as árvores, assustados com o troar enfurecido dos diabos de igreja. Mal chegaram à árvore do meio, o sobressalto dissipou-se. A árvore do meio era pródiga em aplacar as fúrias irreprimíveis, como se fosse uma serena barragem que represa sentimentos malparidos. Esperaram algum tempo, não fossem os diabos de igreja estar de atalaia, só à espera que eles, pessoas tardiamente deslocadas, saíssem da proteção da árvore centrípeta. À saída do arvoredo, olharam para trás. Não havia sinal da passagem do furacão dos sentidos afivelado pelos diabos de igreja. Nem sinal dos diabos de igreja.

17.6.20

Periscópio


Dizias: a lua tem espinhos e não sabemos se eles estalam na boca. 

E eu dizia: não queremos ter o sabor de arbustos na boca. Ficamo-nos pelo luar que se desembaraça das finas nuvens. Um portento de um escultor anónimo. As uvas que adoçam o sangue.

As mãos atadas cuidavam do resto. No emaranhado da escuridão, os olhos benziam o culto pesar da honestidade, uma mnemónica pagã. Essa era a nossa religião. Dizíamos, em uníssono: nesta demanda, somos à prova de corrupção. Não deixamos que os braços se amordacem no agravo que liquefaz a honestidade. No acerto de contas, não queremos ficar devedores. A adstringência da alma joga-se contra os pesadelos de que não somos sombras.

Dizias: confere o manual de instruções. Segue essas linhas baças. Procura uma lupa, se preciso for. Para intuirmos as regras a que não devemos obediência. Se for preciso, tracemos as bissetrizes da loucura. Da nossa loucura.

E eu dizia: são estrofes de um poema arrebatador, as tuas palavras. 

No fausto onde amesendávamos, éramos ao mesmo tempo lídimos gastrónomos, os arquitetos das iguarias que desfilavam em interminável banquete. Não era a chuva que nos intimidava. Não eram as reprovações hirsutas dos guardiães das morais que conseguiam ganhar lugar nos murais que se congraçavam no olhar. O imperativo do sonho que vivíamos de viva voz era mais convincente: que não nos falassem de fronteiras, que seríamos os primeiros contrabandistas. Sem disfarce. Dizíamos que as nossas almas se reproduziam em incontáveis arremedos, mas que só podíamos contar com as originais. Tutelávamos com rigor o perfunctório desviver com a convocatória do seu oposto. Sabíamos como fazer triunfar o lado sublime que tinha paradeiro na poesia.

Dizias: eu sei que posso contar contigo. Armadura pétrea, fortaleza escondida dos mapas, cartografia que eu sei dedilhar de cor. Eis-me aqui, teu livro aberto. Folheia-me.

E eu dizia: nada me apraz mais. Sei-te meu periscópio, a caução do que se observa através da janela que se abre ao mundo. És essa janela, a prova dos nove, matéria singular que em meu sangue se torna recordação do porvir. A calmaria feita ebulição. Não preciso de mais nada.

Imaginávamos paisagens. Lugares que prometemos arregimentar no nosso atlas privativo. Descobríamos os passos ímpares enquanto as mãos permaneciam atadas. Em sua liberdade. Éramos corpos siameses. No sonho que se mantinha de viva voz. 

Jóhann Jóhannsson, “A Model of the Universe”, in https://www.youtube.com/watch?v=5Wcyf8AI4lU

16.6.20

O bolbo da festa

P. J. Harvey, “You Said Something” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=-zB0UzHGo4s

O bolbo infante não sabia ao que vinha. Medrava, ainda. O processo de fotossíntese fazendo o seu caminho. Já emergira do húmus e começava a aprendizagem do mundo. As pessoas eram sempre as mesmas, cumprindo uma rotina matemática. Envergavam luvas e traziam o mesmo rosto impassível. Não falavam. Limitavam-se aos procedimentos estabelecidos num manual. Um estranho aparelho que traziam a tiracolo servia para avivarem a sequência dos procedimentos. O bolbo sentia-se cortesão no horto. Eram de polé os tratos que eram seu merecimento. Devia ser de linhagem sublime – chegou à conclusão, ainda durante o amadurecimento.

Um dia, ouviu um dos tratadores. Afinal estes humanos também falavam. E ele, o bolbo de casta, entendia a linguagem dos humanos. O tratador disse para si mesmo: “estás a ficar um belo bolbo. És um bolbo premium. Terás destacamento. Pelas minhas contas, daqui a duas semanas estás a florir. Partirás para engalanar uma cerimónia importante. É a minha aposta.”

O bolbo não cabia em si de contentamento. E não contia tanto orgulho. Era um exemplar garboso, um exemplo para os da sua espécie. A crer no diagnóstico do tratador, o bolbo seria um espécime raro. As portas do reino que se abrissem que o bolbo seria seu enfeite resplandecente. Os altos dignitários ficariam extasiados com a sua pose fidalgal. Comentariam sobre a pujança do bolbo, a perfeição das folhas que se destacavam da raiz, a cor garrida, depurada. Seria o bolbo do reino.

No dia solene em que o bolbo foi cuidadosamente encaixotado, o dia do adeus ao horto que o cultivou, o bolbo ainda não sabia do seu destino. Umas vozes murmuravam ao longe. Ele não conseguia distinguir as palavras ditas pelos homens e mulheres que trabalhavam no carregamento do camião. O bolbo tinha planos ousados. Mostraria a sua beleza singular nos salões onde a nata do reino e os embaixadores de outros países desfilariam em distintas celebrações. Seria o bolbo da corte. 

O pressentimento não quadrou com a imensa consideração que o bolbo tinha de si mesmo. Foi parar a um salão sem o quilate da dinastia dos escolhidos. Era um salão de festa. A azáfama dos circunstantes não deixava dúvidas. Punham as mesas, ornamentadas com enfeites exuberantes e policromáticos. Cuidavam de todos os detalhes para que nada fosse fracasso. Um indivíduo altivo não parava de emitir ordens em voz audível. Repetia à exaustão: “não pode falhar nada. Não pode falhar nada”. 

O bolbo foi parar às mãos da personagem. Apreciou-o, demoradamente (a personagem ao bolbo). “Este serve”, ainda ouviu, antes de passar de mão em mão até a uma mulher que fazia o arranjo das flores. Umas horas mais tarde soube do seu destino. Era ornato na festa de casamento da filha de um messias da finança que primava pelo kitsch. O bolbo não conseguiu reprimir uma lágrima de melancolia. Ele, que tão ambiciosos planos fizera, acabara como bolbo da festa – e de uma festa carregada de kitsch. 

O bolbo aprendeu que não é bom conselheiro terçar planos tão metodicamente congeminados na epígrafe de uma elevada autoconsideração. Se houver lugar à frustração de tais planos, só fica a angústia como mercê da autocomiseração. 

15.6.20

Princípio geral da trégua


Vão exacerbados os vapores que infetam os dias correntes. O acerbo digladiar de palavras ferve na sua própria ebulição, somando mais um par de graus à medição do termómetro. À escalada de argumentos, a exaltação atinge o ponto de lava. As pessoas já deviam ter aprendido que as posições exacerbadas se alimentam reciprocamente. Não costuma ser bom conselheiro, um cenário assim montado.

Ao rastilho ateado por uns radicais, outros (que julgam não o ser) ripostam com idêntica medida. Pensarão que não podem deixar os primeiros radicais com rédea solta. Desconfio se os radicais por reação o são por reação ou se contêm o gene do exacerbamento, mas apenas em hibernação. O gene liberta-se quando é provocado por um gene gémeo, mas de linhagem oposta. Seria bom que não nos esquecêssemos que não há posições exacerbadas benignas. O passado ensina que as posições assanhadas são o fermento do asnear. Diz-se e fazem-se coisas que não são credoras da razoabilidade. Quem assim é apanhado em falso não tem a noção das desmedidas. O que agrava o estado das coisas.

Diante da lava incandescente que bolça das bocas que dissolvem uma justa medida das palavras, soergue-se o princípio geral da trégua. Um apaziguamento com apólice geral. Não interessa saber quem dá o primeiro passo; o que importa é que o primeiro passo seja dado. Poder-se-ia contradizer os exacerbados com um exacerbamento de “centro” (por assim dizer, sem a literalidade do termo no seu significado político). Mas, pergunta-se, um radicalismo não é sempre um radicalismo, mesmo que se perfile como uma atuação estratégica o propósito de derrotar os radicalismos expoentes?

A semântica é cristalina: um radicalismo é um radicalismo. Um “radical de centro” será refém do seu radicalismo, vergado pelo peso da ignomínia dos exacerbados que se odeiam e prometem uma maré alta de violência. Não é através de um metódico exacerbamento que se derrotam outros exacerbamentos; ele poderá enfraquecer com as investidas conjugadas dos exacerbados de linhagens diferentes. Um chamamento à razão é preferível. A denúncia da demencial espiral de autofagia pode ser o detonador do apaziguamento das hostes inflamadas. 

É um método falível. Depende de fatores exteriores à vontade dos promotores das tréguas. Enquanto a temperatura continuar em ebulição, as possibilidades de fazer vingar o princípio geral da trégua são reduzidas. Mas são mais elevadas do que permanecer indiferente à coreografia dos loucos. 


Einstürzende Neubauten, “Nagorny Karabach” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=tQY6REitEEw

12.6.20

Obras públicas (short stories #222)


          Certificado de habilitações: possuam-se os risos loucos dos loucos antes que um passaporte seja embaraço. As paredes gastas precisam de renovação. Têm vergonha do vento que as beija todos os dias. Esse vento que repõe o salitre que destina as paredes à decadência. É preciso adjudicar a obra. As juras de perfeição esbarram na maresia que adorna a manhã. É mesmo tempo das obras. Públicas obras: ficam à mostra dos olhares comuns, o estaleiro onde exercem os operários com os corpos tisnados pelos dias soalheiros. Os materiais amontoados no alpendre experimentam o odor dos elementos. Experimentam o mar que não está longe, no pressentimento do tempo futuro. Do estaleiro, um palco assimétrico. Os operários não perdem pitada do que se passa na rua. De quem passa na rua. Os transeuntes não reparam que um estaleiro está montado e que as obras estão em curso. Marx teria razão? (Se não lhe dissessem que os operários das obras ganham à hora mais do que um quadro médio – a teoria da classe média já conheceu melhores dias.) Os cães passeados por seus tutores prestam mais atenção à movimentação do estaleiro. São mais sensíveis aos ruídos fabris, ao entrelaçar metálico das matérias-primas, à vozearia dos operários. A obra é pública porque ao caiar as paredes torna-as nuas ao olhar dos passeantes. Paradoxalmente pública: porque ninguém repara nas públicas obras que se expõem. Nem o contratante, que só vai aparecer no último dia. Quando a obra for entregue e o contratante a passar de fio a pavio para saber se foi entregue com precisão. Depois dos estaleiros desarmados, fica a nudez das paredes que resplandecem outra vez. Como quando eram novas. Sem medo se serem esmurradas pelo vento hostil que arroteia as sementes da maresia. Outra vez à espera de sedimentarem os sinais evidentes de uma decadência vagarosa. Até que seja tempo de obras públicas. Outra vez.


Fontaines D.C., “I Don’t Belong”, in https://www.youtube.com/watch?v=A17xOusHXIQ

11.6.20

Escolaridade obrigatória (short stories #221)


Django Django, “Waveforms”, in https://www.youtube.com/watch?v=T2dOW3ztvfs
          Não se diga que nos atiram areia para os olhos. As vendas não são imposição dos outros, nem eles são os letrados que vencem os pleitos de que há notícia. Não se inibam as culpas pelo desconhecimento em causa própria. Não há arremedos de ignorância servidos nas margens da vontade. Pois é a vontade que se entroniza nos caudais onde mora o conhecimento. Hoje ninguém tem perdão. Ninguém pode fingir que não sabe dos embaraços que lhe dizem respeito. Cada um é o lugar onde se congemina a sede da informação. Não é por defeito – é por excesso, e esse talvez seja o sobressalto que continuamente se coloca. Dirão: entre uma maré tão abundante não é fácil peneirar as fontes confiáveis, as fontes que interessam. Rejeite-se a ideia, antes entendida como um pretexto para a expiação da vontade. Pode ser uma floresta densa, difícil de desmatar. Se ficarmos à porta da floresta podemos endossar a responsabilidade aos demais, mas ocultamos a nossa. No convés da vontade, aspiramos a um estetoscópio que sonda as isóbaras do saber. Devemo-nos o verbo da confiança ao intermediarmos a distância entre o saber e o nosso lugar. Prevenindo a incongruência do véu da ignorância (porque ninguém se coloca nesta posição em relação a tudo) e a arrogância da erudição sem fundamento (porque depressa somos atraiçoados pela frivolidade). Sem sermos acríticos ou possuirmos uma desconfiança metódica. Não queremos ser atores onde medra a ingenuidade, nem perseverar numa posição niilista. As sucessivas camadas do saber sobrepõem-se, enviando sinais contraditórios. Cabe-nos o acrisolamento, por maior que seja a probabilidade do erro. Ao menos, temos garantida a aprendizagem. Não somos néscios ao ponto de esquecer que somos a fonte onde se esquadrinha a sede do conhecimento. Essa é a escolaridade obrigatória, independente de qualquer lei ou do comando caritativo de um governo. 

10.6.20

Quando fazemos de conta que fazemos de conta, estamos a ser sinceros ou a mentir a dobrar?


Teho Teardo & Blixa Bargeld, “The Empty Boat” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=rkPie59J2GM
Ninguém é conhecedor. Uma sucessão de diferentes véus abate-se sobre a armadura que esconde o paradeiro das pessoas. Podemos andar num logro contínuo. A pressentir movimentos que não quadram com as intenções, porque os outros antecipam as nossas antecipações e tudo fica mais complexo do que um jogo de xadrez.
*
Alguém fixa esta fórmula numa mensagem, em jeito de diplomático adeus: “com elevada estima e consideração”. Como o poderá saber o destinatário? Se o sarcasmo atravessar discretamente a mensagem que precede o adeus, o destinatário pode desconfiar que a fórmula com que o adeus é desenhado é a pedra de toque do sarcasmo. A “elevada estima e consideração” é a fingir. Se o destinatário não intuir o sarcasmo e fixar a literalidade daquela fórmula, reterá com um erróneo sentido de superioridade (“tratei-o mal e ele despede-se em resposta confessando a sua elevada estima e consideração”). Nunca se saberá, a menos que este consiga entrar na cabeça do remetente – ou que lhe pergunte sem pejo.
Alguém se oferece para uma empreitada. Contrariado. Disfarça a contrariedade que o percorre quando se oferece como diligente operário da empreitada. Finge que está a fingir. Não queria ser o operador da empreitada, mas finge que desempenha o papel com um intenso convolar de prazer. Se a arte do fingimento for apurada, os outros não chegam a saber que o fingimento subiu a palco. Pouco lhes importará, se tirarem partido da empreitada.
Alguém esboça um sorriso de simpatia quando recebe em audiência outrem que reputa como maçador. Diz-lhe que é um prazer recebê-lo e que nem dormiu de véspera na ânsia de saber o que motivou a audiência. A outra personagem sente-se lisonjeada. Não chega a dar conta do duplo ato de fingimento: o sorriso desembaraçado que esconde a profunda antipatia por ele e as palavras elogiosas que são o elevador para o colocar no púlpito do reconhecimento. Não chegar a saber que os dois momentos são atos diferentes de um logro bem reproduzido. É um ato de generosidade que tem âncora na ilusão fermentada num duplo fingimento. 
*
Um fingimento em cima de um fingimento não anula o primeiro fingimento. Não devolve a veracidade. Os fingimentos que se sucedem numa espiral interminável são como um mergulho num poço sem fundo onde o fingimento tem a sua ascese. Uma mentira sobre uma mentira não é um desagravamento da mentira, nem a recuperação da verdade.

9.6.20

Oitavo (short stories #220)


Ólafur Arnalds, “Unfold”, in https://www.youtube.com/watch?v=VC6IoruvRSs
          Oitavo, como se fosse o primeiro. O dia inaugural. Porque não sabíamos que o dia inaugural seria a exibição de um festim de que somos lídimos regentes. Até marcarmos no calendário o oitavo atravessamos tempestades nos intervalos de um palco de que somos feitos, no amor que não se aprende se não a vivê-lo. Soubemos ser artesãos de uma cumplicidade sem limites. Soubemos desenhar as paisagens que em nós se imortalizaram. Todos esses lugares podem dizer que guardam um pedaço de nós. Não nos importamos que o digam. Como não cultivamos a arrogância, admitimos que no que somos adejam os fragmentos dispersos que desses lugares trouxemos como legado. Não houve um único lugar que se tenha arrependido de nos conhecer. Ouvimo-los, em seus murmúrios discretos, confirmando o mandato. Como não somos de nos acomodar a recordações, abraçamo-nos ao tempo presente como a maior comenda que nos ornamenta. É o dia de hoje que importa. Sempre o dia de hoje, como projeção antecipada do porvir que houver por experimentar. O oitavo de que falamos não é fração; é número inteiro que se pressente na argamassa que nos cinge na inteireza do que somos uníssonos. Inteiro, como é um amor. As bocas saciam-se no suor de que viemos; nas palavras únicas; nos beijos irrepetíveis. Oitavo, que se multiplica na aritmética da combustão que arbitra o xisto que há em nós. O xisto que não precisa de palavras, no silêncio mirífico que aprende com os corpos. Oitavo, à espera de nono, décimo e assim sucessivamente, até já não sabermos o que é a matéria fundente por finitude das almas. Não somos ousados para pressagiar a perenidade de um amor. Sabemos que a morte nos extingue. É o incentivo a sermos pulsão maior durante a fragilidade da vida, transfigurando-a num festim singular onde aprendemos todos os dias que o amor é um mapa com todas as possibilidades por explorar. O amor perene enquanto nós, seus tutores, formos existência.

8.6.20

Reconhecimento (short stories #219)


Jarvis Cocker, “House Music All Night Long” (extended version), in https://www.youtube.com/watch?v=qXe16-WuY6U
          Tateio o rosto à procura de um mapa. A escuridão colonizou o corpo. Os dedos concebem as linhas telúricas do rosto. Através dos poros, o corpo ouve o recorte do rosto. Ouve-o, siderado com a botânica que compõe a paisagem bucólica, com os versos quiméricos que são candeias rompendo a emaciação da noite. O rosto, como um vulto de si mesmo. Meticuloso esquadrinhar que concebe as irregularidades da pele. Como se fossem a metáfora viva de uma vida. O magma heurístico, desembrulhando as angústias no cais sombrio que devolve o paradeiro da manhã. Um pequeno lugar é bastante para a moradia do rosto. Podem os olhos arregalados manter-se na teimosia da claridade, que a escuridão que colonizou o corpo se terça como embaraço. Podia legar a luz, devolver um palco lunar ao quarto, derrotando a sua solidão. Desisto. Não é por medo do rosto refratado no espelho imediatamente demandado. É por critério. Teimosia: os dedos permanecem lisérgicos na cartografia do rosto. Um reconhecimento. Jogo com a etimologia: um conhecimento em sede de renovação. Às vezes, acordamos e não sabemos quem somos. Confundimo-nos com um arremedo de pessoa que não sabemos se julgamos ser. A nebulosa densifica-se. É como se um frio terrível percorresse as veias e o sangue se dissolvesse na desidentificação. Perdido no meio de um nada, sem coordenadas para encontrar um caminho plausível. Um re:conhecimento. As mãos desafiadas a serem escafandros percorrem as funduras abissais onde levita o magma fervente. O rosto está à espera que as mãos tragam um rudimento do magma à superfície. À espera de um reconhecimento. Os dedos são os artesãos do rosto em sua reconfiguração. Uma plástica intervenção que acentua os seus traços. Não está em liça um rosto redesenhado, como se fosse imperativa a reinvenção da identidade. A lua aclara o recorte do fiorde de onde a reinvenção tem partida. Mesmo na escuridão do quarto, o rosto caiado patenteia-se, intensamente nítido.

5.6.20

Penhor


Nils Frahm, “Familiar” live Le Poisson Rouge, New York, in https://www.youtube.com/watch?v=yumi4f59ITI
O espaço vital. As paredes que o delimitam. O território por dentro. A soberania: retrato fidedigno das almas dos seus habitantes. Não é pouco o gozo exclusivo de um poder que se admite na verossimilhança de uma fronteira. Os outros são mesmo outros. Lá fora, exibem um quinhão da soberania – afinal, este lugar é uma democracia. 
No reduto de que somos suseranos, restringe-se a democracia aos seus habitantes. Tirando isso, aplaude-se a autocracia. Não pode ser de outro modo. Ai das casas se fossem serventuárias da soberania de todos. Não bastavam os voyeurs militantes, os que se traduzem em olhares intrusivos, exigindo que as janelas sejam cobertas por cortinas. Assim o determinam o decoro e um imperativo de privacidade. Os olhares forasteiros extinguem-se da intimidade. É a soberania do espaço vital que o demarca. Os que não hesitam em espiolhar as funduras de uma casa distraidamente exposta ao exterior não conseguem o mínimo denominador comum, que é uma troca de lugares. Gostariam de se sentir invadidos por outros que agem como eles?
Levanta-se o penhor sobre as arcadas onde se agiliza a serenidade do espaço interior. Todas as casas são castelos. A soberania atomiza-se. Estilhaça-se em inúmeros casarios que se amontoam nas cidades e se espalham na paisagem esparsa do campo. Talvez seja mais intensa nas casas isoladas, sem vizinhança por perto. Dir-se-ia ser menor o risco de intrusões servidas em soezes olhares alheios que se vertem sobre o interior das casas. Ninguém o pode garantir. Ninguém pode atestar que na casa isolada a menor probabilidade de ser invadida por olhares voyeurs a isola desses olhares.
O adeus a uma casa é como uma certidão que atesta os pedaços da alma que ficam embebidos no seu chão, nas suas paredes, nas janelas como espelhos dos olhos de quem a habitou. A alma não fica diminuída com o que dela fica vertido na casa de saída. Transvasa-se para outra casa, um processo semelhante. Mas não é simétrico, o processo. A casa que abre os braços aos neófitos habitantes foi lavada, como se o alvear das paredes extinguisse os vestígios das almas precedentes. 
Vazia, a nova casa precisa das almas dos seus novos habitantes. Precisa de se ungir com as suas almas. Eles são o seu penhor. 

4.6.20

Despertador


Mogwai, “Emergency Trap”, in https://www.youtube.com/watch?v=drfqa53Dbao
Não tinha sono. E, contudo, os sonhos tornavam-se a pele que respirava. Era como se fosse permeável a tudo o que tivesse a linhagem de um sonho. Não sabia se o era. Continuava acordado. Pela tela do pensamento passeavam-se frases sem sentido, palavras que não combinavam umas com as outras. 
Estava acorrentado a um labirinto – e por mais que procurasse, não havia maneira de encontrar uma porta que fosse a alfândega do labirinto. Os postigos ainda guardavam umas vagas gotas da chuva que caíra. No seu frágil equilíbrio, as gotas circenses tremeluziam sob o olhar do sol que derrotara as nuvens plúmbeas. A tiragem dos sentidos subia ao miradouro. Em demanda de uma imagem maior, para que toda a paisagem ficasse sob o jugo de uma mão serenamente juíza. 
Era um lugar estranho. Já eram quase onze horas da noite e ainda era dia. A luz desmaiada do ocaso haveria de teimar até para além da meia-noite. O crepúsculo demorava-se e o sono continuava adiado. Não dera conta da conspiração do verão em latitudes tão nortenhas. Era como se o relógio tivesse sido adulterado pela exposição a esta latitude sob o efeito malsão do verão. O verão ainda não chegara, em rigor: era o estertor da primavera, quando ela diz adeus e cauciona o verão. Não chega a ser noite. Como é possível o sono ter lugar neste lugar?
Deste paradeiro desconhecido, demandei as ruas sem gente. Detive-me junto ao porto onde os navios esperam pela faina madrugadora, à espera das sucessivas viagens entre os dois lados do estreito para trazerem as pessoas para a cidade. Um par de boémios desfez o silêncio. Pediram-me cigarros. Desinteressado, dei-lhes o resto do maço. Agradeceram. A embriaguez não denunciara a educação. Retribui o agradecimento com um leve aceno de mão. (Não saberia retribuir no idioma que não falo). Quando o crepúsculo se começava a instalar, foi substituído pela renovação da luz clara que era presságio da alvorada, vinda do lado contrário do céu. A noite não chegou a ser. O sono rimava com essa ausência.
Forasteiro como nunca sentira ser, entreguei o corpo à cama. Corri as cortinas densas que escondem o quarto da luminosidade persistente. O sono continuava teimosamente distante. Assim como assim, já não era hora de dormir. Mas os sonhos irradiavam, efusivos, como se fossem a expetoração de um geiser. Se ao menos a erupção fosse catalisada em estrofes de poemas, a insónia não teria sido em vão. 
Mas o despertador interrompeu a vigília. O sonho tinha acontecido por dentro do sono. Fingindo-se de esclarecimento. 

3.6.20

Marca de água


Desert Sessions, “If You Run”, in https://www.youtube.com/watch?v=UFbZtxR14iE
Ajuramente-se o pálio extraído das Tágides esquecidas. As costuras da alma avivam os predicados que esmaeciam. Nem tudo pode ser um poço fundo onde os logros nidificam. Nem tudo são estrofes emagrecidas por vultos que conspiram contra as desmedidas que afivelam a moderação. Há de haver uma escultura cinzelada pelos dedos impuros e, todavia, demiúrgicos. A escultura congeminada pela coragem das palavras que se furtam ao algoz da mudez.
A palco, os vários intervenientes. Uns são-no de corpo inteiro. Outros são acidentais, apanhados na confluência de um tempo e da sua circunstância. Farão o papel de figurantes, mas também podem saltar para a boca de cena em sua transfiguração como agitadores. A argúcia de apurar a sua marca de água fará a diferença. E quantas vezes os anónimos se transformam em figuras gradas? Dir-se-á: excluindo o contingente familiar, sempre.
Na figuração desfilam os rostos que são como retratos que se acastelam em páginas sem número. As páginas são folheadas ao acaso, os dedos cintilando as fotografias que se sucedem. Entre a multidão de rostos apalavrados no folhear das páginas, é difícil distinguir a marca de água. Confia-se num critério largo, avulso. É preciso escolher os atores e os figurantes que vão subir a palco. O olhar compenetrado torna-se perito. Indaga a marca de água que percorre cada fotografia que foi crismada numa primeira amostra. Apenas interessa essa marca de água, uma certa intuição que adeja sobre a platitude dos corpos. Não há entrevistas: a sondagem das almas adulteraria o processo. Deseja-se um critério de outra igualha: partir de fora para chegar às vascas do interior.
Em palco, um diadema de sucessivas marcas de água. Como se os rostos se transportassem apenas a si, desligados do resto do corpo. Os rostos sublinhados, com o arnês das luzes vivazes conferindo-lhes destaque, e o resto dos corpos afivelados por uma sotaina indiferenciada. A mudez dos rostos com a ênfase da sua expressividade. Até que uma marca de água se sobreponha a outra marca de água, libertando-se das amarras da mudez. 
No pleito, em pleno palco, a voz será o triunfo dos rostos com amuralhada marca de água. 

2.6.20

Sua excelência ia sendo atropelado na ciclovia e se calhar não foi por acaso


In https://www.youtube.com/watch?v=0ojtjiiTr3w&feature=emb_logo
Sua excelência caminhava sozinho junto à ciclovia, envergando a farda oficial (fato e gravata) e a máscara que os tempos exigem. A imagem é da autoria de um ciclista, daqueles que grava as imagens dos seus passeios ciclísticos. A páginas tantas, o ciclista teve os seus segundos de fama, advertindo sua excelência, porque sua excelência, distraído a olhar para o telemóvel, invadiu a área dos ciclistas e arriscou ser atropelado por um velocípede tão distraído quanto ele. Não é todos os dias que um súbdito puxa as orelhas do suserano.
Mas iria sua excelência distraído, como as imagens gravadas desde o guiador da bicicleta deixam entender? Tão elevada sinecura é compatível com a ausência de um guarda-costas nas imediações, como se extrai das imagens? Outra interrogação, partindo do princípio geral da desconfiança em relação a personagens que compõem milimetricamente a imagem: não terá passado de uma grandessíssima encenação? 
Convém que sua excelência continue a perfumar o mandato com a aura de proximidade ao cidadão comum. E já que as exigências de afastamento físico, um produto das circunstâncias, não dão caução à “política dos afetos”, sua excelência, em preparativos para a preparação para o anúncio da recandidatura, não terá encenado a distração com a conivência do ciclista cinéfilo, só para mostrar à populaça como também se distrai na via pública a olhar para o telemóvel? Para que todos percebamos que sua excelência é, como nós, humano – talvez, demasiado humano.
O pano que cai na nódoa é a personificação do escol. É tão proibido o uso de telemóvel ao condutor de um automóvel como ao transeunte que ocupa a via pública (e fica em risco de ser atropelado por uma bicicleta porque invadiu a ciclovia). Mas sua excelência é um paradigma para o cidadão zeloso e diligente no cumprimento das regras. Se não passasse de um fait divers transformado em episódio que mereceu retransmissão pelos órgãos de comunicação social, sua excelência apareceria em público a penitenciar-se pela distração tangente a uma ilegalidade e porque podia ter deixado os seguidores patrícios à beira da apoplexia ao quase ter sido atropelado.
Só faltou saber a identidade do ciclista videoamador. Faltou saber se não era um falso anónimo da entourage de sua excelência, cirurgicamente metido em cima de uma bicicleta à hora em que sua excelência, tão distraidamente, meteu o pé em ciclovia alheia. Estas coisas não são ao acaso. É aqui que se montam as grandessíssimas encenações.

1.6.20

Caligrafia


Electronic, “Get the Message”, in https://www.youtube.com/watch?v=_7sVSSb2mU4
Um código de conduta: as letras e os números repousavam no papel, obedeciam a um desenho codificado. A linhagem de quem os escrevia. Perguntavas: 
Porque desenhas o oito dessa forma? 
(Duas circunferências, a de cima mais pequena assentando nos ombros da outra, maior.) 
Não sabia dar resposta. Mas levou-me a pensar. Não seria o caso do oito (assim julgava), mas havia letras que foram reconfiguradas com a passagem do tempo. Os erres que desenho agora são diferentes dos erres da adolescência. O mesmo com os esses. Um perito das profundezas da alma daria resposta à altura. Diria que a caligrafia é permeável às mutações por que passamos. O perito estará até qualificado para fornecer explicações com elevada densidade sobre o porquê de a caligrafia sofrer metamorfoses. Talvez porque ninguém é à prova de metamorfoses durante o tempo que leva de vida. O assunto não é da lavra da complexidade.
Voltei atrás, depois de algum silêncio e de nula reposta à demanda: 
Não sei existir uma razão para desenhar os oitos desta forma, ou os erres, ou os esses. É um movimento espontâneo. Talvez me recorde que foi por estéticas considerações que deixei de fazer um oito que era o sinal do infinito na vertical, ou um erre com um desenho diferente dos erres atuais, ou um esse em letra de reprografia em vez de um esse correspondente à caligrafia da escola primária. Deixei de prestar atenção à cartografia da caligrafia. Ainda que haja peritos que consideram a codificação da caligrafia e atribuem sinais correspondentes ao desenho das letras e dos números, não quero considerar a hipótese. A caligrafia é um movimento aleatório.
Aleatório e – intuí logo a seguir, já na companhia do silêncio – não ordenado. A certa altura, pode apetecer reconfigurar certas letras do alfabeto, redesenhando a caligrafia. Apenas porque apetece, a estética como única medida. Sem relação causal com possíveis modificações do comportamento, ou maneiras diferentes de nos posicionarmos como entes ativos do mundo de que somos atores. Se aceitasse o desafio da epistemologia da caligrafia, podia acrescentar mais dúvidas que serviriam para negar a discussão: a caligrafia da mesma pessoa não é influenciada por estados de alma? Um erre sob influência do sarcasmo não é diferente de um erre de quem o escreve irritado? Um esse num texto apaixonado não tem um desenho diferente de um esse num requerimento à administração pública? Disseste, em fim de conversa: 
Nada disso interessa. Hoje já pouco manuscrevemos.

29.5.20

Não serás estrela cadente (short stories #218)


Blur, “Charmless Man”, in https://www.youtube.com/watch?v=p1a_4CN4onA
          Não é preciso muito. Um esforço modesto transfigura-se numa obra singular. Diga-se: não há montanhas insuperáveis; não há mares que não consigam ser sulcados por um navio adestrado. Se revelarmos o negativo, obtemos uma fotografia nítida nas mãos. Um esboço: não interessam os púlpitos onde amestrados figurantes da perfeição jogam numa rivalidade larvar. Orquestram os planos meticulosos, sem saberem que o inesperado pode dissolvê-los num toque destruidor. Não é preciso muito para uma vida se refazer de cima a baixo (na hipótese de ela não esmaecer no seu estertor). São improfícuos os batismos de alma que exibem impudores de grandeza. Se ao menos os candidatos a heróis soubessem que não passam da irrelevância intrínseca à lógica dos números (o que somos, se não uma casa infinitesimal na vasta estatística da espécie?), não se arrogariam tanto prestígio. Não seriam mais tarde acometidos pela dor pungente da decadência. É mais fácil ser uma estrela cadente, dirão, do que repousar a resplandecência perene no firmamento. A menos que o firmamento seja um castelo onde a alma coabita no seu fingimento. Não rimam os prolixos esteios da interior grandeza com os aromas do mundo. Ficam aquém das cores desmaiadas que compõem a paleta dominante. Por mais que tentem ser o arco-íris que empresta vivacidade ao demais, não governam a contingência. São atores menores num palco sobrepovoado. Quem assim se movimenta no imenso palco das intenções acaba a bolçar a ilusão em que se consome. A desafetação podia ser o sucedâneo e abraçar-se aos cometimentos modestos. Chega a mera ignição de um fósforo. O resto do fogo vem das veias abraseadas que forem submetidas ao altar da vontade.  O melhor critério é não aspirar a ser estrela, nem de si poder dizer que é um quinhão no mapa do céu. Esse modo garante que nunca se chega a ser estrela cadente.

28.5.20

Bola de neve


Joy Division, “Dead Souls”, in https://www.youtube.com/watch?v=kTdFsXc7zFg
Não servia, a escada. Por mais que a voz arranhasse os portões do tempo, nada acontecia. A indiferença batia no umbral da voz. Do verbo não sobrava a pele. Podia ser que a memória ajudasse. Um mergulho no pretérito seria a reivindicação da pureza que sabia ser demanda impossível. Mas nunca houve condenação de alguém por tentar o impossível. 
Às vezes, olhava à distância para a paisagem e sentia que se estivesse no sítio observado não faria parte dele. As bainhas que me delimitam são porosas. Vão e vêm no equilíbrio instável de um malabarista. Não digo que seja eu próprio malabar nas empreitadas que meto a peito. Exsudo a lava acumulada durante anos de calmaria, que por vezes mais parece o tempo ungido por um fingimento irrecusável. Fazer de conta que não se é importunado pelas coisas que estorvam pode não ser um estado de alma aconselhável. Não é por contornarmos as coisas espúrias que elas deixam de existir. 
Às minhas mãos vem o cimento da pertença. Contudo, continuo a não ter uma noção clara da pertença. Sei que jogo com a argamassa, estilizo-a em estatuária ser ter noção das figuras de que sou artesão. A maioria tem uma fala que parece inteligível. Talvez a minha fala não seja. E, por maior que seja o esforço meu, não consigo pertencer à pertença afivelada pela maioria – nem a minha semântica se aloja no inventário acessível. Parece que nasci para a dissidência. Procuro saber porquê. Ando às voltas há anos inteiros e ainda não consegui saber do paradeiro da resposta. Já me convenci que não há resposta por encontrar. Já me convenci que a ausência de linhagem não é um contratempo. É a minha pertença. Por exclusão de partes, a pertença a lado nenhum.
Pode ser que um dia me depare com uma bola de neve em plena descensão. E, com a bola de neve no meu caminho, consiga erguer as duas mãos e reverter o seu curso. Pois ninguém é penhor na minha vez. Não espero por alfaias alheias para industriar o plano imperfeito. É tudo o que desejo: um plano e, de preferência, imperfeito. Pois a perfeição é uma praga sem remédio.

27.5.20

Bandeira vermelha (short stories #217)


Patrick Watson, “Fireweed”, in https://www.youtube.com/watch?v=GGRV60jAfL0
          No parapeito da maré-viva, hasteada a bandeira vermelha. O melhor arnês era recusar o mar. O seu tumulto pressagiava a tragédia para os intrépidos que fossem mar adentro. Talvez não voltassem a ter os pés em terra. Esse era o anúncio cautelar da bandeira vermelha. Um escritor (cujo nome a memória não cauciona) dizia, em sua pose senatorial própria da vetusta idade, que a bandeira vermelha estival era uma metáfora da vida. (Ele não tinha a ousadia de reproduzir a bandeira vermelha como a metáfora da vida. Era uma das metáforas.) Às vezes, não se sabe do mapa das vielas onde podemos ser arrancados do sangue primacial. E metemos o corpo ao caminho, sem pressentirmos o labirinto que não tem porta de saída. Outras vezes, é a loucura que nos empurra para um lugar onde, chegados, percebemos que tem como hino a bandeira vermelha. Tarde de mais. A prelúcida metáfora desdobra-se no paradoxo da bandeira vermelha. São poucos os palcos mais arrebatadores do que o mar tumultuoso servido por uma maré-viva. A bandeira vermelha é o chamamento para os que se inebriam com a convulsão da maré desarmadilhada. Mas o chamamento costura-se numa margem de segurança, como se a bandeira vermelha tutelasse o irrecusável cinto de segurança. O mar iracundo não é generoso. Não oferece segundas oportunidades. Não é o melhor teatro para os temerários. Se a maré-viva estiver de mau humor, ou o jogo dos acasos soletrar o nome da morte, os audaciosos pagam com a vida. Os cânones ensinam que há proibições que não se congeminam apenas no secreto prazer de proibir-por-proibir dos mandantes. A maior coragem é a de guardar a vida num cofre com labiríntico código de segurança. A maré-viva não está com mesuras ou mordomias. Se o mar embravecido é um poema vivo à exaltação dos elementos, a bandeira vermelha é a mnemónica da segurança imperativa.

26.5.20

A porta sem forro


The Fall, “Touch Sensitive”, in https://www.youtube.com/watch?v=i90EMCj98es
- Invade-me a melancolia que bolça dos arriscados mapas retirados ao luar.
- É uma invasão contra a vontade?
- São todas. Conheces uma invasão feita no aprumo da maré?
- Eu posso entretecer as condições para que algo de mim se apodere. Se for exterior e me contaminar por dentro, será com o usufruto da vontade.
- Nesse caso não te será autorizado usar o termo “invasão”. A vontade que concorre para que algo do exterior se insinue por dentro de ti não admite uma invasão.
- Não podemos tentar um ponto de equilíbrio?
- Como dizes?
- O que nos é exterior pode passar a ser nossa pertença. A vontade é a caução necessária.
- Não usaste “invasão”.
- É do foro semântico. Não amesquinhemos o palco onde nos movemos. Sobrepujemos a substância ao rigor formal. Dizias no início que a melancolia te invadia. Que descaminhos justificam o açambarcamento da vontade?
- Vejo as múltiplas janelas em meu redor. Vejo-as fechadas. E depois entreabrem-se, avulsas, uma a uma. Não todas. Algumas ficam fechadas. Em algumas janelas assomam vultos, mas não lhes distingo o rosto. É estranho. Se estivesse longe das janelas, o vulto justificava a inoperância de um rosto. Não é o caso. As casas só têm janelas. Durante a noite, interroguei-me se os moradores entravam em casa através das janelas.
-  Notaste se os prédios tinham guardas-noturnos?
- Alguns. Os que aparentavam ser habitados por gente abastada.
- Ouvi dizer que os guardas-noturnos são muito diligentes na atalaia das casas. Previnem extemporâneos extravios das almas às janelas. Os eruditos advertem que as almas podem ser dissolvidas pelo ar exterior. 
- Por exposição aos ventos da melancolia?
- Correm esse risco, sim. Os diligentes curadores da sanidade pública cuidam de evitar o contágio dos ventos. Ainda está por determinar quando os ventos proveem de latitudes que contaminam as almas com o vinco larvar da melancolia. 
- Mas, em todo o caso, não tenho ido à janela e sei que fui usurpado pela melancolia.
- Não será erro de diagnóstico? Não estarás erradamente convencido da melancolia?
- Como poderei saber?
- Há lugares nas cidades que são a prova dos nove. Lugares sem mapa, a localização corre de boca em boca, em segredos cuidadosamente ciciados. Chamam-lhe lugares com as portas sem forro. As pessoas passam pela porta e ficam com a alma desenroupada. Quando a franqueares, saberás se a tua ossatura foi invadida pela melancolia.
- Temo sabê-lo.
- Como?
- E se se confirmar que é melancolia o meu diagnóstico?
- Terás ido ao encontro do tira-teimas.
- Não sei se corro o risco. 
- Preferes lobrigar na dúvida? Sentir a tempo inteiro o pulso madraço da hesitação a adejar sobre o sono?
- Prefiro. Antes ficar sem saber se foi a melancolia que me invadiu do que ter a certeza do diagnóstico. O convencimento da melancolia é um cárcere de que receio não conseguir extração. Antes ficar amordaçado pela dúvida. É menos do que um convencimento.