8.12.04

Nirvana

Afinal, a comunicação social também sabe dar boas notícias:

Consumismo natalício e a enxurrada de anúncios de telemóveis

Repete-se todos os anos, quando a folha do calendário deixa Novembro para trás. Aproxima-se uma época que eleva o consumismo ao expoente máximo. Já sabemos que o Natal se descaracterizou. Se no passado os porta-vozes da religiosidade fervorosa se erguiam contra o excesso de paganismo das festividades natalícias, agora são os adeptos de um Natal pagão que choram lágrimas de saudade pelos tempos idos. A descaracterização da quadra motivou a transição temporal do simbolismo do Natal: de quadra religiosa para festividade pagã, que agora deu lugar ao imaginário do consumo desenfreado.

Os moralistas insurgem-se contra a deturpação. Os ingénuos apontam o dedo acusador ao maléfico capitalismo, que na ânsia de mais ganhos promove a fobia consumista. São esses ingénuos que condenam os excessos de consumo, que protestam contra a materialização das relações humanas: tudo gira em torno dos presentes que temos que dar a familiares e amigos, mais aqueles presentes que se juntam por conveniência pessoal. Prendas e mais prendas – assim se resume o Natal contemporâneo.

É este o contexto que, a cada ano que passa, traz uma enxurrada de publicidade para os ecrãs da televisão. Se por acaso apanhamos a televisão ligada no horário nobre das crianças (manhãs aos fins-de-semana), o tempo dedicado à publicidade dos mais variados brinquedos é asfixiante. Na passerelle desfilam brinquedos e mais brinquedos: desde as bonecas para as meninas, passando pelos grotescos bonecos que exibem a parafernália de material bélico que vai educando as criancinhas numa cultura de agressividade latente. Se a televisão está ligada em horas mais tardias, a publicidade tem outros destinatários: os adultos, com preferências diferentes. Os perfumes tinham, até há alguns anos, um lugar de destaque. Lembro-me, quando era mais novo e frequentava transportes públicos, que a seguir ao Natal o ambiente dentro dos autocarros era mais perfumado. Sinal de que as águas de colónias tinham um lugar importante nas trocas de presentes. As pessoas, orgulhosas na exibição das prendas natalícias, pavoneavam-se nos autocarros exalando cheiros diversos.

Nos dias que correm a primazia começa a ser ocupada pelos telemóveis. Dando razão ao falecido Sousa Franco, que enquanto ministro das finanças descobriu um novo indicador de desenvolvimento dos países (o número de telemóveis per capita!), somos invadidos por anúncios publicitários das três operadoras de telemóveis. Pude observar, no intervalo de um filme, que a mesma operadora apresentou três ou quatro spots publicitários. Como a tecnologia tem avançado a uma velocidade vertiginosa, o momento é o de atrair os consumidores para os benefícios das mais recentes tecnologias de comunicação – os chamados telemóveis da nova geração (3G).

Não vou engrossar as fileiras dos exércitos da desgraça que se voltam energicamente contra os desperdícios de recursos a que, na sua maneira de ver, estes requintes da tecnologia obrigam. Não é pela senda do fado da desgraça, ou da “perversão de valores”, que olho para esta vaga de consumismo. Pode ser um consumismo estéril, tal a fobia de muitas pessoas: para elas é imperativo andar com um aparelho que seja o último grito da tecnologia. Não dou para esse peditório, porque o condicionamento da vontade individual que esses arautos da desgraça querem impor é inadmissível.

Vejo nesta vaga comunicacional uma libertação do indivíduo. Ao contrário do que dirão os críticos – prontos a demonstrar que os consumidores ficam presos nas garras das operadoras, que apresentam aparelhos irresistíveis, mais uma campanha publicitária agressiva que manieta a sua liberdade de escolha – esta “moda” só tem efeitos positivos. Se descontar o facto de cerca de 20% dos clientes se atrasarem no pagamento das facturas dos telemóveis (mas esse factor é alheio às operadoras; é apenas o produto da ânsia e do descontrolo financeiro dos consumidores), o panorama é brilhante. Temos que estar agradecidos ao avanço da tecnologia, que hoje permite às pessoas estarem contactáveis em qualquer lugar, a qualquer hora. Os encómios vão mais longe: com os avanços da tecnologia é possível enviar fotografias para amigos, testemunhar um momento insólito, partilhar um acontecimento marcante. Com o advento da teleconferência (imagem ao vivo a acompanhar a chamada telefónica), as possibilidades de estreitar a convivência são ainda maiores.

Numa era em que o ser humano é acusado de cultivar uma crescente despersonalização, o império dos telemóveis quebra essa corrente. Aproxima pessoas que estão longe, põe em contacto pessoas que necessitam de lançar o dedo a quem, do outro lado, atende o telemóvel. Diagnóstico: é o capitalismo, de braço dado com a inovação tecnológica, que aproxima as pessoas, que contribui para um espaço mais humanizado. Ou de como, mais uma vez, o capitalismo arrepia caminho para a evolução da humanidade.

7.12.04

Brincar aos espiões

Ouço uma notícia sobre o Sistema de Informações e Segurança (SIS), onde se acoitam os espiões do país. Uma notícia qualquer sobre uma polémica devido à demissão de um alto dirigente e da sua substituição por um coronel amigo do ministro da defesa. Ouço, ainda, notas de apreensão: as mudanças anunciam a politização do SIS. Cenário tanto mais perigoso, agora que se aproxima eleições. No meio da turbulência, o país, comovido e preocupado, assiste à higiene interna do SIS.

Esta notícia, veiculada com sinal de alarme social, só inclui minudências. Em vez das pessoas se preocuparem se é o ministro da defesa que tenta controlar o SIS ou se esse controlo era feito por alguém nomeado por um governo socialista, seria mais importante discutir a existência do SIS. Enquadrá-lo no moderno Estado de direito, agora que cada vez mais se invocam as garantias fundamentais da pessoa como domínio inviolável. Ao mesmo tempo que é o próprio Estado de direito que faz tábua rasa dessas garantias fundamentais, espezinhando-as em nome da defesa do Estado de direito numa era de acentuada insegurança mundial.

No contexto nacional, falar de espiões é anedótico. Como se fossemos uma potência mundial, como se pesassem ameaças que ponham em causa a integridade do território, ou a garantia de valores que cimentam a identidade nacional. Teremos espiões a vaguear pela península ibérica, em busca de informações que antecipem qualquer manobra contra a integridade territorial? O simples equacionar da hipótese é patético. De onde vêm os riscos, afinal? Será a onda de terrorismo fundamentalista islâmico que se dissemina por todo o mundo, semeando a incerteza? Responder sim é pretensioso: apesar dos terroristas se multiplicarem como cogumelos, decerto têm outras prioridades que não este sossegado canto plantado na esquina sul-ocidental da Europa.

É por isso que apetece dizer: o SIS é uma coutada onde se aprende a brincar aos espiões. Com duas agravantes que convém não desprezar. Por um lado, uma fonte de desperdício de recursos. Quais serão as missões de elevada importância para a segurança nacional que levam a gastos exorbitantes? Alguém se questionou se as compensações que essas missões trazem chegam para justificar os gastos?

Por outro lado, a questão delicada da existência de serviços secretos no contexto de um Estado de direito. Podem os seus defensores justificar a salvaguarda do Estado de direito como pretexto para serem cometidos atropelos…ao Estado de direito. É uma argumentação que padece do pecado da “pescadinha de rabo na boca”. É como defender a pena de morte como compensação da vida que foi ceifada pelo assassino. Dá a impressão que o Estado se coloca num patamar superior de eticidade, como se fosse possível ver mais alto do que os comuns mortais sobre os quais tem jurisdição. O problema não está apenas na irracionalidade da solução; mais grave é saber que em nome da defesa do Estado de direito se autorizam atropelos às mais básicas regras do Estado de direito. Ou seja, a negação do próprio Estado de direito.

Sem contar que se entra num domínio de arbitrariedade incompatível com um princípio de segurança jurídica que deve andar de braço dado com o Estado de direito. Se os serviços secretos podem fazer tudo e mais alguma coisa em nome de valores sagrados para o Estado de direito, nunca se sabe onde estão os limites da sua actuação, nem é possível desenhar regras objectivas para a actuação dos espiões. Entramos num universo à parte, num Estado fora do Estado de direito.

Intrigante é saber que muitas pessoas são contra a independência do Banco Central Europeu (BCE), mas esquecem-se da existência de espiões. Alegam que sem o controlo de políticos – as pessoas que têm legitimidade política, por serem eleitas – o BCE é uma instituição secreta, que não responde perante ninguém, que pode decidir sozinha sobre assuntos essenciais para o bem-estar geral (taxas de juro, por exemplo). Se se invoca o secretismo que caracteriza o BCE como razão da sua ilegitimidade democrática, o que dizer dos serviços de espionagem? O que dizer dos seus métodos, ao arrepio das mais elementares regras de um Estado de direito (nomeadamente o respeito pela vida humana e pela privacidade dos indivíduos)?

Sinto-me mais seguro com o secretismo dos bancos centrais (até porque emancipa pessoas competentes da tutela de políticos oportunistas) do que com a nebulosa onde estão suspensos os serviços secretos. Desassossega-me saber que as mais elementares garantias individuais podem estar, neste momento, a ser vasculhadas por espiões sem escrúpulos.

6.12.04

Pena de Santana

Não sei se é espírito de contradição, ou a reincidente comiseração por quem é vergastado impiedosamente pela adversidade. Estou para saber qual o diagnóstico, mas estou possuído por um estranho sintoma: tenho andado com pena de Santana Lopes. Talvez por ser um saco de porrada em que toda a gente bate até à exaustão. Talvez pela pose sofrida com que apareceu no dia em que o presidente da república lhe decidiu tirar o tapete. Talvez pelo assédio infindável dos jornalistas, que insistem nas perguntas que levam o estóico primeiro-ministro a responder sempre com um sorriso nos lábios num esgar de paciência chinesa.

Não sei se este assomo de comiseração pela figura do ainda primeiro-ministro não revela aquela queda que temos para verter lágrimas de pena pelos coitados deste mundo. Se é isto que me traz a compaixão pela figura, é motivo de preocupação: o facto dos portugueses serem um povo piedoso para com a desgraça alheia é coisa atroz. Enquanto uma pessoa está bem da vida, passa ao lado das atenções – ou, quando muito, por estar bem e espicaçar a inveja alheia é alvo da chacota, da perseguição crítica dos que gostariam de trocar de posição. Ao cair na desgraça, a mesma pessoa passa a ser contemplada com a pena colectiva. Alguns chamarão a isto solidariedade. Desconfio que se trata de uma tendência doentia para exibir a compaixão como acto que espessa a dor do inditoso.

A indignação em relação a este sentimento colectivo traz-me preocupado com as vertigens que me assaltam, com a pena com que olho para Santana. Mas chego à conclusão (ou é a conclusão a que quero chegar…) que o que me motiva não será bem esse sentimento. Será um espírito de contradição fervilhante, a necessidade de ir contra a corrente, de desalinhar do pensamento estabelecido, de fugir aos imperativos categóricos dos que estão convencidos que corporizam o sentir geral – como se houvesse um sentir geral, como se fosse fácil arregimentar o unanimismo em torno de questões que fracturam a sociedade. É por um estímulo de contradição contra este mundanismo que me movo. E que, no caso em apreço, dou comigo a cultivar um estranho sentimento de solidariedade em relação a uma personalidade que não me motiva a mínima simpatia.

Quando ouço um dos cultores da verdade oficial (o inefável Louçã) a pronunciar-se como porta-voz “dos portugueses”, solta-se uma gargalhada sonora. Quando escuto as suas palavras, sempre carregadas de raiva, a sentenciar que “só Santana Lopes não percebe porque foi demitido, porque todos os portugueses já o perceberam”, um estímulo percorre-me pelo interior, pede-me para afirmar a minha solidariedade com o primeiro-ministro (como dizer?) demissionário.

Mas volto a repetir o que já disse em textos passados. Santana Lopes é uma excrescência do panorama político nacional, um produto da sociedade medíocre que somos. Representa o que de mais deplorável a política oferece. A sua passagem pelo governo é um equívoco sem fim, tantas as armadilhas que o governo colocou a si mesmo. Ainda assim não consigo deixar de fazer cara de António José Seguro (aquele que parece que está sempre a chorar, qual carpideira profissional pronta a verter as abundantes lágrimas no velório de um desconhecido) quando vejo o que se está a passar. Santana Lopes desempenha o papel do saco de boxe que todos, com um prazer inaudito, esmurram sem parar. Esbofetear Santana Lopes passou a ser desporto nacional, quase um imperativo para os bem-pensantes.

Porque gosto de desalinhar de consensos espúrios, porque gosto de fugir por caminhos alternativos que me coloquem nos antípodas dos guardiães da verdade absoluta – eis as razões que semearam a comiseração por Santana Lopes. Que não pode ser confundida com apoio à personagem. Longe disso. Por mais voltas que dê, por mais que se tente transformar para cativar a atenção do eleitorado, por mais tenebrosa que seja a campanha das esquerdas, não há-de captar o meu voto. Alguém dizia, há dias, que a credibilidade é como a virgindade: uma vez perdida nunca mais se recupera. Este é o estigma de Santana Lopes, coitado, o alvo da perseguição nacional.

3.12.04

Confusões sublimes: “lava-te porco” num vidro de um automóvel

Andar às voltas para estacionar o carro quando vou trabalhar tem as suas compensações. Quando mais não seja, por ter arranjado tema para hoje. Lá andava, como às vezes sucede, com o olho aguçado à procura de uma nesga para estacionar. Ao fim da rua, o semáforo passou para vermelho. Havia alguns carros parados à espera da mudança do semáforo. Quando parei, do lado esquerdo estava um carro encardido, tanta era a sujidade acumulada. No vidro de trás, a inscrição manuscrita: “lava-te porco”.

Quem nunca deparou com inscrições do género em carros impregnados de sujidade? O insólito estava na mensagem escrita pela pessoa atenta a estas coisas da higiene alheia. Noutras ocasiões este tipo de avisos surgia com outra forma: o pronome pessoal após o verbo “lavar” costuma ser o “me”, não o “te”. Quem se atreve a deixar a aviso no vidro de um automóvel de outrem passa por estar a falar em nome do veículo que não vê água há meses. Em vez do “lava-te porco”, aparece um “lava-me, porco”.

Fiquei curioso em deslindar o equívoco da altruísta pessoa que quis lembrar o dono daquele carro que a lavagem era urgente: será que queria falar em nome do automóvel, e apenas se enganou no pronome pessoal acoplado ao verbo “lavar”? Pode ter acontecido que a alma caridosa tenha querido dizer “lava-me, porco”, como se estivesse a falar em nome do carro dirigindo-se ao seu dono, mas lhe tenha saído um “lava-te porco”. Sem dar conta, atraiçoado pelo pronome pessoal usado, aquela pessoa estaria a falar consigo mesma, vendo retratado no carro a falta de higiene de si mesma?

É fácil cair no alçapão das palavras. Principalmente quando usamos palavras que podem ter múltiplos sentidos, e temos a infelicidade de usar um jogo de palavras que revelam o sentido menos desejado pelo discurso. A semântica prega partidas de que é difícil sair (quando se detecta a gaffe). Recordo-me, numa aula, de tentar explicar determinado aspecto utilizando a técnica do “por outras palavras”. Só que em vez desta expressão saiu-me o “trocando por miúdos”. Na ressaca dos primeiros momentos do escândalo Casa Pia, aquela expressão teve uma ressonância diferente. Só depois das palavras se terem soltado é que dei conta, ao mesmo tempo que os alunos, como aquela expressão passava a figurar no rol de expressões a evitar.

Volto à pichagem no vidro do carro. A pessoa que se deu ao trabalho de avisar o proprietário do automóvel foi atraiçoada pelas palavras. A simples troca do pronome pessoal foi a razão da traição. Não é crível que esta pessoa estivesse ciente de que o carro pode meter as pernas ao caminho por sua livre iniciativa e dirigir-se a uma lavagem. Logo, não faz sentido que a mensagem tenha o carro como destinatário. Portanto, quando a diligente pessoa escreveu “lava-te porco”, estaria longe de perceber que a mensagem, tal como apareceu escrita, só podia ter como destinatário ela mesma. Talvez fosse uma reacção instintiva: ao ver como o carro estava tão sujo, e por saber que ela mesma estava longe do asseio desejável, o subconsciente tê-la-á empurrado a escrever no vidro do carro aquilo de que ela necessitava com urgência. Quanto mais não seja porque ao ter o trabalho de escrever aquela mensagem com o seu dedo, a mão ficou impregnada de sujidade.

O semáforo ficou verde. Percorro nem cem metros e, do outro lado do passeio, destacam-se quatro enormes bostas. Como não é local de pastagem de bovinos, deitei-me a adivinhar que a proveniência só podia ser equídea. Como os cidadãos comuns não trazem cavalos para a cidade, os dejectos só podiam vir das patrulhas a cavalo da PSP. Não vou entrar em pormenores escatológicos. Apenas digo que o panorama não era agradável – e menos o seria para os transeuntes que calcorreassem aquele passeio.

Quando há campanhas que alertam os donos de cães para a necessidade de recolher o que os animais soltam dos intestinos, para evitar que quem anda pela rua tenha surpresas desagradáveis que trazem um odor pestilento aos seus sapatos, o que dizer deste desplante da PSP? Não será um mimo de higiene, decerto. E ilustra uma regra do agrado do Estado: um peso, duas medidas. O que os cidadãos não podem, pode o Estado com toda a latitude. Se um cão depositar os dejectos na via pública, o dono sujeita-se a multa caso esteja a ser observado por um zeloso agente da autoridade. Mas duvido que esse agente da autoridade teria a coragem de multar os seus colegas ao ver os cavalos a soltarem a abundante bosta para o meio do passeio.

2.12.04

O cavalheirismo, essa excrescência sexista

Há momentos em que somos apanhados no meio de uma encruzilhada, sem saber por onde ir. É o que acontece com as deferências que os homens, num rasgo de cavalheirismo, dedicam às senhoras. Deixamo-las passar à frente quando uma porta se entreabre. Damos-lhe primazia em tantas outras coisas, educados no hábito de dar precedência às senhoras. É uma espécie de trato social que ainda se conserva, apesar das distorções que sofre. Não apenas por parte de espécimes do sexo masculino que fazem tábua rasa destes costumes. Também por espécimes do sexo oposto que não se cansam de erguer a sua voz contra a discriminação sexual.

Não vou discutir se a conservação destes hábitos é salutar. O relativismo impede-me de entrar a fundo na discussão. Envolve múltiplos aspectos que iriam prolongar o texto para além do razoável. Apenas interessa reconhecer o direito de cada pessoa respeitar ou não o hábito de estender a passadeira vermelha diante dos pés de uma senhora. Os que forem mais individualistas, aqueles que prestarem tributo à tradição islâmica de relegar as mulheres para um estatuto de subalternidade, esses estão no seu direito de espezinhar o costume que ainda vegeta nas relações sociais.

Pior são aquelas que engrossam as fileiras do feminismo militante. Elas, sempre prontas a brandir a bandeira da “discriminação positiva” para que os seus direitos se possam nivelar pelos direitos do sexo masculino, encontram-se na linha da frente contra exibições de cavalheirismo. Protestam, indignadas, que o cavalheirismo é uma forma de perpetuar o marialvismo dominante, de estender no tempo a desigualdade entre homens e mulheres. As senhoras que defendem com unhas e dentes uma pretensa igualdade de sexos trepam às paredes quando um homem, na sua maneira de ser cortês, abre alas para a passagem de suas excelências. Sentem-se ofendidas e recusam a consideração. E, como já me sucedeu, disparam, com maus modos, a sua indignação.

As fundamentalistas da causa feminista ignoram que a cortesia masculina é uma forma de aceitar a discriminação positiva que elas reclamam. Se os homens dão passagem às mulheres quando uma porta se abre à sua frente; se faz parte do estabelecido pensar-se que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher; se é aceitável que as mulheres são o ponto de equilíbrio que traz as compensações necessárias ao homem – tudo isto revela que as mulheres estão, pelo menos, no mesmo patamar do homem. Para não concluir, sem exageros, que até estarão acima do homem, tal a influência que sobre ele exerce, tal a sublime consideração em relação às mulheres.

Quando as feministas convictas se abespinham porque um homem as deixou passar à sua frente, mostram ingratidão e atropelam o cimento cultural do desgraçado que de seguida vai ouvir das boas por ter ousado ser cavalheiro. É o fruto do fundamentalismo: pensar que se pode ver o mundo apenas de acordo com os parâmetros que conformam a maneira de ser dos intolerantes, desprezando outras formas de ver as mesmas coisas. É um autismo militante que as deixa presas à rigidez dos seus quadros mentais. E que as impede de perceberem que aquilo que tanto criticam (as deferências masculinas) simbolizam a discriminação positiva que defendem aguerridamente.

A falta de bom senso leva a desmazelos destes. Sem se darem conta, procuram ver no cavalheirismo a negação das igualdades de direitos entre homem e mulher. Porque convencionaram que os cavalheiros são os marialvas do passado que sempre menosprezaram os direitos das mulheres. Falta-lhes discernimento para verem que nem todos os cavalheiros são marialvas. Se fizessem um esforço viam que o cavalheirismo é apenas o produto de certas normas de educação; seria bastante para não resvalarem para uma grotesca falta de educação que emerge da cegueira dos ideais que prosseguem.

1.12.04

E se o 1 de Dezembro de 1640 não tivesse existido?

Imaginar, por artes de magia, que o calendário de 1640 tinha saltado uma folha: que a seguir a 30 de Novembro tinha vindo o 2 de Dezembro. Imaginar que não tinha ocorrido a restauração da independência que nos livrou da dinastia dos Filipes de Espanha. Especular, um exercício de imaginação que tenta perceber o que seria de nós como região de uma Espanha que então teria cumprido um objectivo que fermenta no mais recôndito do seu íntimo – abraçar todo o território da península ibérica.

É um desafio interessante. Mais pelo que de provocatório encerra, olhando para as sensibilidades nacionalistas que ainda fervilham pelo território pátrio, lembrando as desconfianças que vêm de uma história feita de antagonismos com os vizinhos do outro lado. Não é por acaso que continua vivo o adágio “de Espanha, nem bom vento nem bom casamento”.

O orgulho nacionalista ainda mobiliza muitas vontades. É tão poderoso que chega para desprezar juízos que apenas olhem para o bem-estar material das pessoas. Se fossemos parte integrante da Espanha desde 1580 não estaríamos com um nível de desenvolvimento idêntico ao da média espanhola? Não seria sinónimo de mais bem-estar para os cidadãos desta que seria uma região autónoma da Espanha imperial?

As interrogações deixam escapar a vertente materialista, ofuscando os sentimentos de pertença que fazem de Portugal um país independente e garbosamente diferente da Espanha vizinha. Olha apenas para o bem-estar que a integração na Espanha poderia supor – partindo do pressuposto de que os mais de quatrocentos anos de destino comum seriam suficientes para obliterar as discriminações contra a região portuguesa, pelo seu passado de independência. Eis a pergunta que se impõe: estariam os portugueses dispostos a abdicar da independência do local onde se viram nascer em troca de mais bem-estar? Pergunta difícil de responder, até porque é intemporal – atravessa várias gerações, abrindo a hipótese das respostas serem variáveis de geração em geração.

Aposto que a esmagadora maioria dos portugueses daria um não à pergunta formulada. Independentemente de credos, condição social, nível de rendimento ou afinidades partidárias, temos inculcado o juízo da nossa identidade diferenciada. Somos diferentes dos espanhóis, desde logo porque falamos línguas diferentes. (Ignorando que há países multi-étnicos que falam línguas diferentes sem que seja um factor de desagregação do todo.) Qual o significado deste sentimento arreigado, numa era em que vai tendo aceitação a ideia do desenraizamento das pessoas, da crescente materialização das relações sociais, da volatilidade dos laços indentitários?

Na aparência, refulge aqui um paradoxo. Um paradoxo localizado que é, no entanto, explicado pelo peso acumulado da história. Factor decisivo: lembrar como é ensinada a história nos bancos da escola. Os feitos dos descobrimentos ainda são glorificados, a lembrar o povo grandioso que fomos no passado, a destapar a passadeira para as crianças perceberem, quando se fizerem adultos, como somos agora um povo deprimido (quando nos comparamos com esses antepassados). Mais importante, a história de Portugal está carregada de exemplos que moldam o subconsciente desde tenra idade: a Espanha aparece como o inimigo histórico. Contra a corrente, é difícil perceber que os tempos modernos não se compadecem com as ancestrais curvas da história. Porque o passado está feito e não volta a acontecer.

Hoje continuam presentes os sinais de animosidade. Continuamos a olhar com desconfiança para o vizinho do lado. Manifestamos preocupação pela invasão de empresas espanholas, pela compra de empresas portuguesas por capitais espanhóis, pelo mar de alimentos espanhóis nas prateleiras dos supermercados. Não temos a presença de espírito para calcular dois importantes aspectos: em tempos de globalização não faz sentido cada país achar-se isolado do resto do mundo; e esta invasão espanhola não periga a nossa tão querida soberania (com o que de incerto ela significa…), ela permite aumentar o bem-estar dos portugueses que, directa ou indirectamente, dela tiram partido (mais emprego; mais rendimentos; mais consumo, com preços mais favoráveis, etc.).

Impõe-se um pedido de desculpa pela heresia de tocar neste assunto logo no dia em que se festeja a restauração da independência. Apenas queria sublinhar como os sentimentos do passado merecem ser enterrados com o passado que fica distante nos tempos imemoriais. Verdade seja dita que, à excepção de uns poucos saudosistas (monárquicos – a quem, paradoxalmente, até devia interessar fazer parte da Espanha, pois sempre é uma monarquia…) e da iconoclastia oficial que obriga a comemorar o feriado, ele tem pouca importância. A não ser por significar um louvável dia de descanso!

30.11.04

A greve aos TPC

Algumas associações de pais convidaram os filhos à rebeldia. Convidaram-nos a fazer greve aos trabalhos para casa (TPC) marcados pelos professores. Devem ser daquela gesta de novos pedagogos para quem a aprendizagem passa mais pelo lazer, não tanto pelos métodos que cimentam uma cultura de trabalho. Da forma como o mundo anda, já nem sequer é de pasmar a iniciativa. Hoje foram os petizes a fazer greve aos TPC, como amanhã podemos ver o governo em bloco a fazer greve contra a incompreensão manifestada pelo país, contra a perseguição que se diz alvo da comunicação social (da não controlada pela PT…), contra as diabruras sem fim agendadas pelos partidos da oposição.

Quando vi imagens de jovens a serem entrevistados, testemunhei um chorrilho de queixumes: as aulas já ocupam muitas horas por dia, ainda têm que dedicar mais tempo em casa para fazerem os TPC, tudo isso furta tempo precioso para poderem descomprimir, impede-os de fazerem o que realmente gostam – o entretenimento. As lamúrias ecoam sem cessar: têm o tempo muito ocupado para a tenra idade em que ainda navegam. Não querem ser émulos dos adultos que se queixam do tempo que escasseia, de não conseguirem viver a vida nas coisas belas, nos prazeres extra-profissionais que ela oferece.

Amparados pelos novos pedagogos que não se cansam de apregoar revolucionários métodos de ensino, que cada vez têm menos de ensino e mais de outra coisa qualquer, os meninos protestaram contra a carga de trabalhos. Como protestam contra as aulas de noventa minutos, contra os exames, contra os professores quando eles não estão do seu lado, contra o ministério nas decisões que atentam contra os seus interesses – que são sempre no sentido do facilitismo, desprezando o rigor em que o sistema educativo deve estar empenhado.

Causa-me estranheza este combate das novas gerações. Primeiro, tenho sentido que os alunos chegam aos bancos da universidade com preparação medíocre. A culpa vem de trás, do laxismo com que o ensino é olhado no ensino básico e secundário. Uma vez feitos alunos universitários, muitas vezes o choque é brutal. Quando pensam que a universidade é uma mera extensão do ensino secundário (uma espécie de “13º ano”), sentem na pele a impreparação acumulada em anos de escola. Não conseguem lidar com a maior exigência da universidade. Os primeiros resultados de exames trazem a frustração. Muitas vezes trazem também a desmobilização que leva a elevadas taxas de abandono nas universidades.

Nada disto sucedia se, em níveis anteriores, os alunos fossem educados noutra cultura, se fossem enaltecidas as virtudes do trabalho. Não vou desmerecer a validade do entretenimento. Nem me apetece contestar as peregrinas ideias de que o ensino deve ser prazer, e que sempre que o ensino entrar em conflito com o prazer deve ser dada primazia ao entretenimento. Apenas digo que de tanto se apostar nesta “pedagogia” as suas vítimas são os próprios alunos que supostamente pensa beneficiar. É responsável por um hiato tremendo: entre a saída da escola e a entrada na universidade. Verdade seja dita, apenas naquelas universidades onde a cultura do facilitismo ainda não se instalou. Onde ela já assentou arraiais, o hiato é ainda mais grave: estabelece-se entre a saída do ensino e a entrada no meio profissional. Um sistema de ensino assim caracterizado produz pessoas sem preparação nem maturidade para enfrentar os desafios da selva profissional.

Segundo, os progenitores que defendem as facilidades não agem em proveito próprio (se se admitir que eles querem o melhor para os filhos). Os pais sabem que a vida profissional é cada vez mais exigente (a menos que sejam funcionários públicos, onde as mordomias andam de mão dada com o laxismo, e a falta de brio profissional é latente). Sabendo-o, clamam por mais tempo livre para as crianças, apostam num sistema que as furta dos deveres de trabalho e da cultura de rigor. Em síntese, não são amigos dos seus filhos por se demitirem de lutar por um sistema que os prepare melhor para os desafios do futuro.

Talvez seja mais fácil aos pais das novas gerações fazer sempre as vontades aos filhos. É mais cómodo, por não terem que aturar a pedinchice dos filhos. É caso para dizer que o tempo livre dos filhos – as horas a fio a jogar educativos jogos de Playstation – é o tempo livre dos pais. O tempo em que não têm que aturar os filhos; mas também o tempo da irresponsabilidade de educar os filhos numa cultura de facilidades que sabem, por experiência própria, não ser aquela que os seus filhos vão encontrar lá fora.

29.11.04

Câmara de Lisboa vai processar o Estado português!

O Supremo Tribunal Administrativo deu razão à Câmara Municipal de Lisboa (CML) na polémica sobre a obra do túnel do Marquês de Pombal, parada depois de um advogado ter interpelado um tribunal, supostamente em nome do “interesse popular”. Como é normal no funcionamento da justiça, as decisões eternizam-se (talvez pelos juízes sentirem a necessidade de amadurecer uma decisão que seja justa…).

A justiça pode tardar mas não adormece. Olhando aos interesses do município de Lisboa, agora fez-se justiça. O mesmo não se pode dizer dos interesses do zeloso advogado (qualquer coisa Sá Fernandes), que logo a seguir a ter tomado conhecimento da sentença teve o despautério de tecer comentários pouco abonatórios para a competência dos juízes. Há coisas que se podem pensar, mas não convém gritar alto na praça pública. Sob pena de se cair no ridículo, de se auto-enxovalhar perante um mau perder pouco olímpico.

Estamos num tempo em que as pessoas andam à compita a ver quem vence o campeonato do ridículo. As atoardas seguem-se, umas atrás das outras, como se as partes em confronto mostrem inveja do rival e queiram, após uma boutade do outro, dar um tiro no pé que é ainda mais retumbante. Vale a pena contextualizar. Bastava o mau perder do advogado Sá Fernandes, a sua azia ao sentir-se derrotado pelo tribunal; mas, logo de seguida, o doce sabor de uma vitória pode ser tão inebriante que o deslumbramento (ou a gula de achincalhar o derrotado) conduz ao destempero. A CML, ainda estonteada pela bebedeira da vitória, está a reflectir sobre a hipótese de processar o Estado português. As razões: os prejuízos da paragem das obras, enquanto a justiça não decidia sobre o conflito de interesses.

Há coisas que não lembram ao diabo! Os meandros do direito têm mistérios insondáveis, caminhos tortuosos, incompreensíveis para o comum dos cidadãos. Imagino as pessoas apinhadas num comboio, a caminho do trabalho, a tentarem perceber como pode uma autarquia pedir responsabilidades ao Estado, se afinal ambas fazem parte da mesma estrutura chamada…Estado. Como se fossem membros da mesma família que, desavindos, acabam por se encontrar de lados contrários da barra do tribunal. Como se o tribunal fosse chamado a mediar esta espécie de parricídio em que o filho (CML) se queixa dos escolhos que o pai (o Estado, em sentido lato) meteu pelo caminho. Mais absurdo se torna este conflito quando se pensa que ele é corporizado por políticos que estão do mesmo lado da barricada – o presidente da CML, sucessor do actual primeiro-ministro.

Esta ideia assombrosa tem outras inanidades. Se a CML quer que um tribunal declare culpado o Estado pelos atrasos causados na obra do Marquês, estamos a falar da maior autarquia do país a querer pedir responsabilidades a todo o país. Se em Lisboa vive perto de 20% da população do país, não deixa de ser curioso observar como, através da intenção manifestada pela CML, 20% da população quer que o resto do país se responsabilize pelos prejuízos trazidos pela paragem da obra. Com mais um requinte de malvadez: se o Estado for condenado, tendo que pagar uma vultuosa indemnização, ela sai dos bolsos de todos os contribuintes, incluindo dos lisboetas!

As coisas correram de feição à CML. Se se inverter o cenário, há deliciosas interrogações que ficam a pairar no ar: poderia o Estado português colocar a CML em tribunal, porque estava um buraco a céu aberto que carecia de solução? Podê-lo-ia fazer, pela insensatez de ter projectado um túnel que (de acordo com alguns) não cumpre as normas de segurança para obras do tipo? Indo mais longe, poderiam os responsáveis políticos pela decisão que consentiu a obra sentar-se no banco dos réus? Nesta hipótese, com o requinte de que seria o actual primeiro-ministro (por quanto tempo, ainda?) a responder como réu numa acção colocada pelo Estado português, de que seria o seu máximo responsável…

A vida moderna é muito complexa. Mas não é necessário complicá-la ainda mais com decisões inauditas, inquinadas pelo ridículo. A maior dignidade da vitória é festejá-la sem foguetório, de forma discreta. O ruído dos festejos pode trazer consequências colaterais que expõem os vencedores ao absurdo que é espezinhar os perdedores. É o caminho para se perder a razão.

26.11.04

A arte da simplicidade: uma montra original

Há dias escrevi sobre os malefícios do consumismo profetizados pelos novos guardiães da consciência de todos nós. Dizia então que a publicidade é um dos alicerces do consumo desregrado. A publicidade serve-se, cada vez mais, de mensagens sublimes para captar as preferências dos compradores. Uma imagem estudada com detalhe, a mensagem elaborada, frases certeiras disparadas para atingir em cheio o público-alvo. Os publicitários são dos profissionais mais bem pagos nos dias que correm. O que diz muito da utilidade da publicidade para a estratégia das empresas.

Hoje passei por uma padaria conceituada, mas tradicional, e pude observar que os requintes da publicidade já chegaram a este apeadeiro da tradição. Numa das montras, garrafas e mais garrafas de água do Luso, empilhadas em prateleiras divididas em três estratos. Parado no semáforo, à espera do sinal verde, pude apreciar o belo efeito que aquelas garrafas de tamanho diferente emprestavam à montra. Um efeito singelo, é certo, mas a beleza das águas cristalinas que abrilhantavam a montra com simplicidade.

Os especialistas de marketing sabem que uma montra elaborada com cuidado e requinte é um engodo para os consumidores. As marcas digladiam-se para colocar os produtos nos escaparates de lojas de renome, sabendo que é a melhor forma de os publicitar, meio caminho andado para um sucesso de vendas. Até existem cursos profissionais para “manipuladores de montras”, em que (imagino) são ensinados os segredos, as pequenas coisas que separam uma montra apelativa de uma montra que afugenta a clientela. Ao reparar que vivemos afogueados pela complexidade desta “arte”, ver a montra da padaria repleta de garrafas de água do Luso teve um efeito tonificante – como se fosse um contra-golpe, a negação dos hábitos que se vão consolidando.

Quando o requinte cresce a olhos vistos, dando razão aos que pensam que “os olhos também comem”, aquela padaria era a antítese. Pelo menos é nesta ingenuidade que quero estar ancorado, acreditando que não houve dedo dos especialistas em “manipulação de montras”. Quem sabe se este exemplo não pode servir de estudo de caso para os especialistas de marketing, um esboço de simplicidade que se furta às teias arrevesadas da sofisticação e do requinte? Quem sabe se esta montra não será um ponto de viragem, a consagração da simplicidade, o reconhecimento de que o mais difícil de alcançar é a simplicidade?

Que fique bem entendido: nada disto contradiz a apologia do consumo de há dias. Podemos continuar a ser empurrados para a voragem consumista sem que daí venham grandes danos, desde que a liberdade individual continue a ser respeitada e que os apóstolos do “fascismo de costumes” não sejam escutados. Mas quem sabe se este singelo exemplo de uma montra garrafas de água apinhadas numa ordenação surpreendente não desbrava um caminho alternativo: um caminho que apela ao regresso à simplicidade das coisas, que desdenha da artificialidade que se impregna na sofisticação de produtos que exaltam a imagem e obrigam as pessoas a gastar rios de dinheiro apenas para ostentar um símbolo de uma marca de renome.

Quando o semáforo esverdeou, meti a primeira e arranquei. Subitamente, da memória desprendeu-se um episódio que teve contacto com aquela padaria, já lá vão mais de dez anos. Depois de uma noite frenética com os amigos, de bar em bar, com os níveis etílicos para além do permitido a quem se senta ao volante, acabámos a tomar ali o pequeno-almoço, já a luminosidade do dia tinha espaventado o escuro da noite. Comprovei então que era hábito da tribo que ululava na noite convergir naquela padaria para afagar o estômago depois da mistura explosiva de álcool e do fumo que enxameia os bares e discotecas.

Desconheço se, passado este tempo, o ritual ainda se mantém. Caso ainda aconteça a noite acabar naquela padaria, percebo agora a mensagem subliminar da montra: imagino os donos da padaria, cansados do triste espectáculo de criaturas cambaleantes consumidas pela agressividade etílica. Imagino-os com uma condescendência paternalista a olhar para estas criaturas exangues de forças que ali vêm desaguar. Concluindo que do que elas precisam é de água para sarar as feridas abertas por mais uma noite de copos. Por isso as garrafas de água do Luso amontoadas na montra. Que é como quem diz, dirigindo-se a alguém que não consegue traçar uma linha recta tão atarantando está pela bebedeira, “bebe água que isso passa-te”!

25.11.04

“O professor de epidemiologia”

Não sou daqueles que apelidam as gerações mais jovens como geração rasca. O epíteto fica bem a quem o inventou, decerto o produto de gerações que congeminaram as dificuldades por que são obrigados a passar os alunos desde tenra idade, desde que vão para os bancos da escola e são as cobaias vivas de sucessivas reformas curriculares. Estas gerações têm sido os nutrientes convenientes de devaneios pedagógicos que colocaram o sistema educativo à deriva. Não são a geração rasca, definitivamente. São a geração à rasca. As responsabilidades repousam nas consciências das luminárias que os puseram nesta delicada situação. Estas mentes iluminadas, que se acham um passo à frente dos demais, são os únicos rascas.

Como digo, tento escapar ao confronto de gerações que alimenta páginas de romances. Mas não consigo evitar a perplexidade que me é trazida pelo contacto diário com alunos. Males da profissão! O derradeiro episódio ilustra a ansiedade que se apodera quando certas criaturas que vegetam pelos bancos da universidade mostram um alheamento total do ambiente que os rodeia. Há dias ocupei uma sala de aula que não me estava atribuída. Os alunos que se dirigiam àquela sala davam de caras com um professor que não é o seu. Mostravam estranheza e, pasmados pela surpresa, ficavam inertes diante do vidro que faz das salas de aula aquários com vista para o exterior.

Verificando a atrapalhação daquela gente, abri a porta e perguntei qual era o professor que procuravam. A resposta foi: “é o professor de epidemiologia”. Insisti, pedindo o nome do professor, pois a resposta que me tinham dado não me ajudava na tentativa de os ajudar. Do outro lado não vieram novidades: “é o professor de epidemiologia”, repetiram com desdém ante a insistência. Para não perder a calma, convidei-os a irem a qualquer local para se informarem do nome do professor que já há mais de dois meses lhes dá as aulas de epidemiologia.

Para muitos alunos somos (professores deles) uma massa anónima, sem direito a nome. Como se fossemos meros números, neste caso, simples caras associadas a uma disciplina que os martiriza ao longo de um semestre. Não temos nome, dando razão aos que acham que vivemos numa sociedade cada vez mais despersonalizada.

Foi então que veio à memória caso semelhante passado há uns meses na sala dos professores. Duas alunas perguntaram se não tinha visto o professor de bioestatísica. Não podem adivinhar que estas disciplinas são, para mim, uma chinesice. Também nessa ocasião quis que me satisfizessem a curiosidade: gostava de saber o nome do dito professor. O nome, não a disciplina em que lhes dava aulas. Também então não souberam saciar a minha curiosidade. Também então foram recambiadas para lugar onde lhes pudessem abonar essa informação.

Não é a primeira vez que protesto indignação contra a tendência de despersonalizar as relações humanas. O que me causa espécie é a mania de olhar para as pessoas pelo que elas exteriorizam, pela sua capacidade profissional, pelo cargo que ocupam – tudo antes do nome que carregam desde a nascença. A estranheza é maior por reparar que a tendência está mais arreigada nas gerações mais novas.

Lembro-me, quando era estudante, que era importante saber o nome dos professores. Não para os tratar pelo nome, que naquela altura o distanciamento que se erguia entre aluno e professor era abismal. O tratamento era reverencial, exigindo genuflexões quando nos dirigíamos às eminências pardas. Sabíamos o nome dos professores porque era necessário para obter informações – sobre aulas a que iam faltar, sobre notas de exames, sobre horários de atendimento, etc. Esse temor reverencial não faz parte da conduta entre professores e alunos na universidade onde trabalho. Tentamos descer à terra (e, por vezes, há os que descambam para a excessiva familiaridade no relacionamento…). Talvez por isso eles desligaram-se da necessidade de saber os nossos nomes. Ou isso ou um mal congénito, o destas gerações mais novas que desprezam os nomes e afundam as pessoas num obscuro anonimato.

Somos umas peças incógnitas que decoram os cadernos dos alunos, aquelas criaturas exóticas que falam de umas coisas desinteressantes e que lhes trazem o supremo aborrecimento da avaliação para a qual têm que queimar inutilmente as pestanas. Seremos, pois, professores maquinais, desapossados do direito ao nome. Sinto nisto o alcance da vingança dos alunos pelo desassossego que lhes causamos?

24.11.04

Apologia do consumo

Estranha esta necessidade de fugir aos cânones do “politicamente correcto”. Esquivar-me da banalidade da boa consciência social que tenta impor os comportamentos aceitáveis. Ao mínimo deslize, os olhares de desconfiança tombam sobre quem se desalinha dos padrões convencionais. São os proscritos da sociedade bem pensante, as ovelhas ranhosas de um rebanho ordenado e bem comportado.

Entre os ditames que nos são impostos, a ideia de que vivemos numa sociedade que se deslumbra pela tentação diabólica do consumismo. A culpa, claro, é do capitalismo, e da sua muleta de oportunidade, a publicidade. Recentemente a censura social tem recaído sobre um novo culpado, o sistema bancário. São os bancos, com as aliciantes “ofertas” de crédito, que empurram as pessoas para mais e desnecessário consumo. Com a desvantagem adicional de as colocar com uma corda à garganta no que diz respeito ao endividamento.

Este é o diagnóstico que convém aos anjos que pairam sobre nós, comuns mortais. Eles não se cansam de chamar a atenção para os malefícios do consumo exagerado. Uns, vindos da economia, têm um comportamento mais neutral. Alertam que o consumo exagerado de hoje desvia recursos à poupança. Logo, é o investimento de amanhã que fica prejudicado, tal como a possibilidade de sermos um país mais desenvolvido. Dirão que enfermamos de um erro de perspectiva temporal: não conseguimos alcançar para além do curto prazo, deixamo-nos inebriar pelos gostos que se consomem num instante. Deixámos de ter tempo (ou apenas visão) para olhar para o nosso futuro, porque o diabo tentador do consumo está sempre ao dobrar da esquina, preparado para nos desviar da poupança.

Outros, mais folclóricos, as aves agoirentas que não perdem uma oportunidade para vituperar o sistema capitalista, põem-se em bicos de pés para assestar as baterias contra os desmandos do consumo exagerado. Pintam um quadro negro. Insinuam que somos levados no engodo de uma tenebrosa coligação: empresas de bens e serviços, empresas de publicidade que vendem estes bens e serviços, e sistema bancário que dá o crédito que alimenta o consumo. Coligação que nos empurra para consumir produtos e serviços que são meros adereços de uma fobia consumista desvairada.

Esta diabólica coligação traz a exaustão dos recursos dos particulares. Sobretudo quando é necessário aliciar os consumidores com o chamariz do crédito, esse mal-afortunado instrumento que empenha as pessoas até ao tutano para apenas satisfazerem tipos de consumo que, na maior parte das vezes, são supérfluos. A rematar o diagnóstico da doença, um arremedo de moralidade bolorenta: as pessoas deviam aceitar a contenção em vez da prodigalidade. Uma versão hodierna dos votos religiosos que traziam aos clérigos as mais diversas abstinências. Esta seria uma abstinência consumista, na benevolência de um ascetismo militante.

O discurso é apelativo. É fácil apontar as armas contra o capitalismo, contra as empresas que só conseguem produzir mais se aliciarem os consumidores, a publicidade que instrumentaliza, os bancos que seduzem as pessoas a recorrerem a mais crédito. Mais difícil é perceber que as pessoas têm livre arbítrio. Devia imperar o bom senso de reconhecer a responsabilidade individual. Com todas as consequências que daí advêm, em especial as consequências para quem se endivida até ao pescoço para saciar os excessos consumistas para que resvalou em tempos.

Inquieta-me esta moralidade intrusiva que desdenha da responsabilidade individual. Parece que somos uma horda de irresponsáveis que carece de uma tutela paternal, aqui assumida pelos sacerdotes desta nova ética anti-consumista. No fundo, desconfia-se da responsabilidade individual. O que implica uma invasão na esfera de cada pessoa. Enquanto persistir esta tendência para colocar uma mão visível e generosa sobre a cabeça de cada pessoa, dando a entender que no limite alguém há-de acorrer em seu auxílio (estas corporações que não hesitam em acusar as empresas, a publicidade e os bancos como os culpados pelos excessos de consumismo e pelo endividamento insuportável), a responsabilização individual está bem longe de cada um de nós.

Estes anjos que velam pelo nosso bem-estar esquecem-se de um aspecto decisivo: mesmo que digam que andamos iludidos pelos benefícios de um consumismo espúrio, esses são benefícios que cada pessoa sente na sua esfera. É o bem-estar de cada pessoa que é posto em causa quando os mentores da boa consciência social se insurgem contra o consumo exagerado. Tanto basta para serem denunciados.

23.11.04

O referendo à Constituição europeia: um dilema

O referendo anuncia-se só lá para Abril de 2005. Entretanto, na semana passada foi dado a conhecer o teor da pergunta. A escolha, cozinhada entre os deputados do PSD (ou PPD-PSD?) e do PS, revela o pior do bloco central que tem dominado a paisagem política nos trinta anos de regime democrático que levamos: as meias-tintas, a indecisão, a manipulação em nome do “consenso democrático”.

Não é uma pergunta, mas o “três-em-um”: na mesma questão os cidadãos deparam com três perguntas. Por ordem, questiona-se a opinião em relação à Carta dos Direitos Fundamentais, às decisões por maioria no seio do Conselho de Ministros, e à arquitectura institucional da União Europeia. Como se já não bastasse a falácia de subdividir a pergunta em três questões (com as consequências negativas que vou abordar de seguida), a “pergunta” está mal elaborada.

Por um lado, porque a primeira interrogação conduz os cidadãos a uma resposta afirmativa. Quando se pergunta, “está de acordo com a Carta dos Direitos Fundamentais”, parece óbvio que o cidadão médio, mesmo desconhecendo o conteúdo da Carta, sabe o que representa o respeito pelos direitos fundamentais. Sendo um valor caro à defesa dos direitos individuais, pode haver aqui a indução do voto. Em segundo lugar, as incorrecções prosseguem o seu caminho por a “pergunta” partir do específico para o geral – entre a primeira e a terceira questão vai aumentando o grau de abstracção. Ora o bom senso aconselhava que o método fosse o oposto (isto a manter-se a teimosia de incluir três perguntas no mesmo referendo).

Por fim, a corrupção do referendo está na subdivisão em três perguntas. Como devo actuar se concordar com duas, discordando de uma terceira? Voto a favor, mesmo que a pergunta com a qual discordo seja a relacionada com a arquitectura institucional da União (a mais geral de todas)? O que fazer se discordar de duas perguntas e apenas aceitar a Carta dos Direitos Fundamentais (mas este apenas é muito poderoso, tal a importância da Carta)? Rejeito a Constituição e impeço a força vinculativa da Carta, com o que isso significa de desprotecção dos meus direitos fundamentais?

A inabilidade dos políticos que confeccionaram a pergunta é notória. Com uma agravante: perpassa a imagem de que a classe política abrigada no bloco central se quer apenas desonerar dos problemas de consciência que a atormentariam caso o país não referendasse a Constituição da União Europeia. Assemelha-se a um acto de contrição, em que a pessoa que expia um pecado o faz a contra-gosto, apenas para se eximir dos fantasmas que ficam a pesar na sua consciência. Para fazer um referendo tão despropositado como este, creio que a opção preferível era não referendar a Constituição. Por vezes, entre fazer mal e nada fazer, a última é a solução menos danosa.

Até porque o acto em si – o referendo, nesta modalidade absurda ou noutra mais razoável – está à partida inquinado. Alguém acredita que os cidadãos vão votar em consciência? É preciso explicar o contexto desta interrogação. Alguém acredita que as pessoas vão queimar as pestanas a ler um texto (a Constituição) obtuso, labiríntico, maçador? As pessoas vão votar sem estarem informadas. Apenas fazem fé nas opiniões iluminadas dos fazedores de opinião (políticos ou comunicação social), com o risco adicional de que essas opiniões estejam enviesadas pelos erros comuns quando essas pessoas se põem a falar sobre a União Europeia.

O referendo à Constituição da União Europeia é uma falsidade de cima a baixo. Apenas um formalismo que pretende convencer as pessoas que a democracia se está a exercitar na sua modalidade mais nobre. Um erro total, um erro grotesco – o de convencer as pessoas que estão a exercer a sua liberdade, quando, no desconhecimento das matérias sobre as quais são interrogadas, opinam em consonância com as opiniões de quem se proclama informado sobre o tema. Uma liberdade condicionada, um sucedâneo de consulta popular.

Tenho lido algumas opiniões que verberam o cozinhado que permitiu a elaboração da pergunta impensável. Insurgem-se visceralmente contra este acordo por ilustrar uma subversão do espírito do referendo. Algumas dessas pessoas declaram-se favoráveis à Constituição da União Europeia, mas estão indisponíveis para a caucionar com o referendo absurdo que se está a preparar. Compreendo a sua revolta. Tenho, no entanto, dúvidas sobre o método escolhido. Desconfio que é um método desproporcional. Se são favoráveis à Constituição, rejeitá-la apenas pela inabilidade dos políticos nacionais é um exercício autista. É ignorar que a Constituição resultou do contributo de muitas pessoas dos vinte e cinco países que compõem a União. E que será injusto (e desproporcionado) ceifar a Constituição por uma inabilidade formal da classe política de reduzida qualidade que habita entre portas.

Não morro de amores pela Constituição da União Europeia. Acho-a excessiva na dimensão, um abcesso constitucional – as Constituições deviam ser aligeiradas, sem grandes devaneios de regulamentação, apenas contemplando os princípios gerais. Mas sou partidário dos avanços na integração europeia, desde que eles não corporizem uma centralização de poderes nas instituições da União Europeia. Acredito que a constitucionalização é um passo relevante para o aprofundamento da União Europeia. Porque não podemos perder de vista o significado histórico das Constituições: um contrato entre governantes e governados, através do qual os primeiros limitam o seu poder em relação aos segundos. Este é um resultado importante, em especial para impedir tendências de centralização que podem desvirtuar o espírito aberto da integração europeia.

Neste contexto, aceito a Constituição tal como foi concebida. Aceito-a como um produto eivado de defeitos, mas que não tem o defeito maior de me colocar contra ela como um todo. Chamemos-lhe um “mal menor”, um custo necessário para que o futuro da União não abra caminho a sucessivos atropelos às liberdades individuais por eurocratas anónimos sem respeito pelas especificidades locais. Com tudo isto em mente, coloco-me perante um dilema: o referendo é lamentável nas opções oferecidas.

Não me custa estar ao lado daqueles que censuram com veemência o cozinhado do bloco central, que assim quer empurrar de mansinho o rebanho fiel (nós, os eleitores) para uma resposta que eles acreditam ser a única possível – o sim. Por este caminho, estaria a votar “não” como manifestação de protesto contra a inabilidade, a perfídia de quem congeminou a pergunta do referendo. Ao fazê-lo, dou conta que vou contra as minhas convicções. Eis a matriz do dilema. Neste momento (e ainda faltam uns meses que podem facilitar o amadurecimento da decisão), só vejo uma solução para o dilema interior: não é votar não, mas não votar no referendo, como manifestação de protesto contra a manipulação da classe política.

22.11.04

Alcoviteiros dos divórcios

Quando um casal entra num processo de ruptura, mais do que falar devem saber escutar-se um ao outro”. Psicólogo (não fixei o nome) de um gabinete de consultores que faz acompanhamento a pessoas que entram num processo de separação.

A reportagem dera o mote: à medida que passam os anos aumentam os divórcios. Sendo situações de vida que trazem traumas, que afundam as pessoas em problemas psicológicos, nada melhor do que um gabinete de consultores que presta os seus serviços a quem esteja desnorteado, no meio de um doloroso processo de separação. O gabinete é composto por psicólogos e advogados. O acompanhamento garante-se nas duas vertentes mais requisitadas: dos danos causados na alma, a necessitarem de terapia de psicólogos; e das consequências materiais, onde pontificam os diligentes advogados.

Sinais da modernidade. Sinais de que a dependência do outro se intensifica com o advento de novos tempos. Onde antes estava uma dependência assente nos dogmas da religião, estão agora novas formas de dependência humana. As religiões atravessam crises, incapazes de chamar a si tantos fiéis como no passado. As pessoas parecem dirigir as suas dependências para outros níveis, dessacralizando essas dependências interiores. Entramos numa era em que actos corriqueiros da vida – pelo menos eram-no outrora – exigem uma co-participação. Já não basta uma iniciativa da pessoa de quem dependem esses actos (e a quem eles aproveitam). É necessário encontrar no outro um ancoradouro de partilha de responsabilidades.

Esta transmissão de dependências pessoais ilustra o mundo de hesitações que nos ata à indecisão. Perante conflitos de consciência, é cada vez mais difícil tomar decisões. Com a complexidade da vida moderna (ou não será isto apenas um pretexto para tornar difícil o que é fácil?), as decisões mais corriqueiras passam a ser dramas que prendem as pessoas ao império da indecisão. Somos incapazes de decidir, sozinhos, coisas banais. Temos que chamar os outros para se co-responsabilizarem dos nossos actos. É um movimento contínuo em que todos estendemos a mão às decisões dos outros. É a colectivização das hesitações que arrepia o caminho à colectivização das decisões pessoais.

A novidade dos gabinetes de acompanhamento em processos de separação é mais um paradigma da modernidade. Como viver o quotidiano é tão difícil, mais o é ainda a decisão que leva à ruptura de uma vida a dois. Há que procurar ajuda para fazer ver luz, como se as decisões de uma vida a dois se estendessem para a esfera de outrem, dos auto-intitulados especialistas. Como se fosse possível em poucas horas de acompanhamento colocar em cima da mesa anos de vida a dois. E, no entanto, os especialistas motivam os casais desavindos a socorrerem-se da sua prestimosa e milagrosa ajuda.

Sintomas da sociedade artificial, os gabinetes de aconselhamento pós-matrimonial (a designação é da minha lavra…) são um simples arremedo de negócio, uma forma de ganhar dinheiro com as indecisões tão fartas na vida moderna. Não acredito que possam ser grande ajuda, por mais que se esforcem em materializar os elevados conhecimentos saídos da psicologia (mau grado a elevada subjectividade que é um obstáculo a soluções padronizadas). Menos compreensível ainda é saber que anos de vida a dois podem ser desnudados perante desconhecidos, com o pretexto de se encontrar uma tábua de salvação para os descaminhos entretanto palmilhados. Seja para resolver uma vida a dois, seja para a salvar, custa-me a crer que as decisões que só competem ao universo do casal possam ser partilhadas com outros, por mais especialistas da matéria que se auto-proclamem.

Quanto às competências dos ditos especialistas, basta regressar ao mote deste texto: “Quando um casal entra num processo de ruptura, mais do que falar devem saber escutar-se um ao outro”. Esta é daquelas sentenças que dão o reconforto de se entrar no gabinete com uma mão cheia de nada e de lá sair com as duas cheias da mesma coisa. A menos que a minha compreensão para metáforas esteja hoje diminuída, alguém me consegue explicar como podem duas pessoas prescindir de falar uma com a outra para darem primazia a escutar o parceiro?

19.11.04

Olha para o que eu digo, não para o que eu faço: Terrakota e o multiculturalismo

O segundo dia do congresso que está a decorrer na universidade (colóquio internacional sobre África e Ásia “patrimónios partilhados”) encerrou com uma interessante iniciativa. Num exercício pouco convencional (e por isso louvável), a organização convidou alguns elementos de um projecto musical, os Terrakota. O projecto inspira-se na pureza dos sons tradicionais africanos para emprestar aos seus trabalhos uma originalidade que se afasta dos padrões da música pop dominante.

Os três músicos foram convidados a apresentar o projecto – a génese, as fontes onde beberam inspiração, os trabalhos já publicados, pormenores sobre os instrumentos tradicionais que obrigam a tempo de aturada aprendizagem. O discurso foi aqui e ali pontuado por preconceitos de gema: que o mundo obedece a uma formatação que não augura um futuro risonho, que os nossos ouvidos estão enxameados pela música plástica que domina a antena, que perdemos o fio à meada às origens genuínas dos sons, à sua matriz antropológica. A música que fazem é um refúgio da plasticidade que domina o mundo de hoje.

Percebi insatisfação em relação aos meios musicais convencionais. Das palavras dos músicos, sentia-se a necessidade de afirmação de uma estética alternativa que encontra as suas raízes na África profunda, nos meios rurais onde campeiam as sociedades tribais. Uma espécie de fuga às relações sociais artificiais que se constroem nos meios citadinos, mais ainda em países impregnados da ocidentalidade dominante que nos empurra para o mito do pensamento único, dos comportamentos padronizados. Uma estética de ruptura, dir-se-ia. Um apelo aos sons vindos da terra, moldados por instrumentos que são os altares sagrados do artesanato, a negação da sofisticação e da tecnologia.

As palavras que discorreram não tinham sido preparadas – nem se esperava que o fossem, ou a genuinidade da iniciativa esbarrava no paradoxo dos elementos plásticos que não combinam com a natureza do projecto. É compreensível que os pensamentos alinhavados tenham sido notas esparsas, sem linha de continuidade. Apesar de algumas confusões (a explicação mal conseguida da origem do nome do projecto), a mensagem passou com fluidez. Percebeu-se a raiz alternativa do projecto, na esteira do multiculturalismo tão em moda. O projecto tece pontes entre continentes tão diferentes e no fundo tão ligados por uma história comum. É uma porta de entrada das sonoridades tradicionais africanas no mercado europeu, uma janela entreaberta que nos convida a olhar para o outro lado, para o outro (o africano) que tem tanta riqueza para nos legar.

Depois das palavras, a música. Com os músicos viajaram alguns instrumentos tradicionais africanos. Não foi possível registar na memória os seus nomes, porque usam palavras de dialectos locais. Após uma interessante descrição da forma como eram construídos, e por quem eram tradicionalmente utilizados, os três músicos ensaiaram dois momentos de improvisação para mostrar a sonoridade dos instrumentos. Como se fosse uma jam session, tivemos direito a duas peças em que os sons crus e melódicos dos instrumentos ecoaram pelo auditório.

A encerrar a sessão, apresentaram uma amostra da música incluída nos dois álbuns já publicados. Primeiro num registo sonoro, depois num videoclip, dois temas que fizeram desabar a aura de encantamento que ainda pudesse existir para aqueles que prestam tributo ao multiculturalismo na sua acepção genuína. Depois de os termos ouvido dissertar sobre a busca incessante das raízes tradicionais africanas, de termos escutado como verberam a plasticidade da música pop que por aí vagueia, dois temas musicais que mostram as inspirações africanas mascaradas por uma roupagem pop. A decepção veio com o final da performance, juntamente com o aviso de que estava à venda, à saída do auditório, o seu espólio musical (o que não combina com a imagem de desprendimento anti-comercial que os músicos quiseram passar).

A desilusão veio do contraste entre o ensaio improvisado e as peças trabalhadas, com produção cuidada, que não ficam a dever aos métodos sofisticados (que eles disseram desprezar) utilizados na música ocidental. Sem surpresa: revelaram que o último trabalho foi gravado e produzido em Dakar, Senegal, nos estúdios de Youssou N’Dour – essa figura que se quer passar por expoente da world music, mas que não ultrapassa a mediania da sonoridade ocidental mesclada com alguns sons tradicionais africanos. Ao ouvir aquelas duas músicas do projecto (desconheço o resto), lembrei-me como um músico como David Byrne é mais genuíno com os seus trabalhos de miscigenação de diversas influências sonoras.

Ao sair do auditório, senti que tinha sido enganado. Depois do discurso, das digressões pelos lugares comuns de uma multiculturalidade que rejeita os “malefícios” da sociedade padronizada em que vivemos; depois do belo momento de improvisação musical com os instrumentos tradicionais; estava à espera que o som trabalhado em disco desse continuidade às mesmas tendências. Afinal, o discurso não era a representação da sonoridade construída, também ela tão plástica como a plasticidade criticada pelos músicos.

18.11.04

Estás magro!

Esta vida é cheia de contradições. Os gordos são apontados a dedo porque abusam da gordura, agora que ela já deixou de ser formosura. Os magros não escapam à preocupação social. Quem está magro deve estar doente. Pelo menos é a sensação que tenho quando sou abordado e, perante um olhar que mistura comiseração e preocupação, se solta um “estás tão magro”! Quando o diagnóstico é feito por pessoas mais idosas ele vem atrelado a um ar compungido. Como se do outro lado estivesse alguém que, aos seus olhos, padece de uma grave doença.

Esta é mais uma expressão de como gostamos tanto das meias tintas. Nem muito gordo, nem muito magro. A prova de que “no meio está a virtude”, para glosar um ditado que o povo usa com frequência. Nestes tempos modernos em que a figura exterior conta tanto, desprezam-se os seres balofos que ostentam a sua gordura. Os mais gordos são alvo de chacota. No outro extremo estão os magros, os finguelinhas quando a descrição é feita em ar do gozo. As peles em cima dos ossos, os músculos exangues, as olheiras e a cor macilenta, a cara encovada, um ar anoréctico que hoje é doença mais inquietante do que a obesidade.

Acossado pela curiosidade alheia, sentindo as abordagens preocupadas de quem desconfia de que o peso escasso significa maleita pela certa, lá me desdobro em explicações. Digo que não, que não estou mais magro. Que mantenho o mesmo peso há mais de dois anos. Que a linha que mantenho não é sinal de nenhuma das hipóteses sombrias que as pessoas esboçam nas entrelinhas da exclamação: nem fome, nem alimentação errada, nem anorexia, nem qualquer outra doença que impede as carnes de se tonificarem em vistosas protuberâncias. Aos mais insistentes, tenho que lançar mão do último argumento, em jeito de interrogação: se a magreza fosse sinónimo de doença, como conseguia manter o exercício físico com a assiduidade que levo há anos?

Não sei se será da palidez natural que deixa na pele uma cor nada atraente quando os raios de sol não lhe conferem um tom acastanhado. Não sei se é das olheiras pespegadas pelas poucas horas de sono (coisa que sempre tive em toda a vida). Não será por falta de vitalidade física: as pessoas que tantas vezes repetem que estou magro não testemunham alguém que arrasta o seu corpo extenuado pelas ruas. Se não é por nenhum destes sintomas, fica o mistério que não explica o diagnóstico que, com pesar, traçam com a precisão de um médico.

Ao ver as fotografias que me retratam após ter acabado os estudos na universidade, nesses anos de clausura (ou de comodismo, para ser mais rigoroso) em que o exercício físico era um nada que semeava o sedentarismo, revejo uma figura com mais sete quilos. A cara cheia, um ligeiro refego no pescoço, uma barriga bem proeminente que as roupas não conseguiam disfarçar. Também recordo como as análises sanguíneas davam valores que exorbitavam os limiares de segurança. Não ser fumador era uma escassa tábua de salvação para o sedentarismo, as diabruras gastronómicas (a pior de todas: deliciar-me com 250 gramas de chantilly enquanto via um filme na televisão), a ausência de exercício físico que tolhia as articulações e trazia os músculos enferrujados.

Treze anos passados, emagreci. Comecei a cuidar da saúde – já que ouvimos tantos apelos de cardiologistas para que façamos exercício para manter uma vida saudável. Continuo a ter desmandos gastronómicos, pois não me tentam as chamadas dietas saudáveis. Emagreci, mas sinto mais energia do que há treze anos. Pesam os cabelos brancos que vão, aqui e ali, dando uma nova tonalidade. Foi-se a inestética pança que assustava quando me via de perfil ao espelho. Na louca correria por encontrar o yin e yang das meias tintas (o tal meio que é a virtude), preferem-se vestígios de gordura a vaguear pelos corpos. Antes isso do que um corpo que quase deixou de ostentar sinais adiposos.

Serão reminiscências dos tempos do renascimento, em que as figuras retratadas por artistas como Rubens eram mulheres avantajadas, corpulentas massas de gordura. Apenas os resquícios dessa tendência para reconhecer na gordura alguma formosura, porque os excessos adiposos de outrora já não são tolerados. Uma barriguinha aqui, uma coxa robusta ali, uma cara cheia acolá, a isso há muita gente que não consegue dizer que não. Corpos enxutos, covis de doença!

17.11.04

A barbárie do ocidente

O cenário é de devastação. Horas após combates que deixaram um rasto de morte, o silêncio sobrepôs-se ao troar das armas. É a hora do rescaldo. Tempo para ver a orgia de destruição, contar os cadáveres que jazem perfurados pelas balas, numa contabilidade macabra que enaltece a superioridade sobre o inimigo. As tropas pisam o terreno com cuidado, para não serem surpreendidas por emboscadas de guerrilheiros que se escondem acobertados pelo silêncio.

Uma destas brigadas é acompanhada por um repórter de imagem da CBS. Entram numa mesquita onde estavam acantonados os rebeldes. Cadáveres e mais cadáveres, despojos humanos sacrificados em nome de ideais que outros, refastelados no conforto de gabinetes, inspiram. A câmara abeira-se de dois homens que estão inertes, encostados a uma parede crivada de balas e salpicada de sangue. Ao fundo da imagem ouve-se um militar dos Estados Unidos: “o cabrão não está morto. Está a fingir!” e dispara, à queima-roupa, a sangue frio, sobre um rebelde ferido e desarmado.

Náusea, é a reacção que me percorreu pelo interior. Por ver que a imagem oficial da civilização árabe que nos vendem – o desapego pela vida, pela própria vida e mais ainda pela vida dos outros – está bem impregnada na doutrinação do exército de um país convencido de estar num patamar de superioridade civilizacional. Dirão os mais incrédulos que não podemos misturar a árvore com a floresta, que se trata de um caso isolado, que em todos os ajuntamentos humanos há comportamentos desviantes. Dirão que aquele soldado, imerso na frieza de um acto desumano, será a excepção à regra do tratamento digno que as tropas da coligação internacional reservam ao “inimigo”.

Há razões para concordar. Mas há também a dúvida metódica que lança a interrogação: aquele episódio foi testemunhado por uma câmara, e as imagens difundidas para todo o mundo; quantas vezes casos semelhantes se terão passado na penumbra da opinião pública? Será tão linear aceitar que este caso é um desvio lamentável, uma excepção ao comportamento normal dos militares dos Estados Unidos e dos países aliados? Quem o pode afirmar com convicção, se não há provas do contrário?

O deslize foi um golpe de misericórdia na imagem que o exército dos Estados Unidos quer transmitir ao mundo. E para o próprio país, que tanto se orgulha da força militar que dispõe, afinal o esteio da sua superioridade na ordem internacional. Neste episódio, só por distracção de quem comandava a operação se pode acreditar que a captura de imagens fosse possível. Eis porque se trata de um deslize. Eis também porque fica um enorme ponto de interrogação a pairar: seria mesmo um comportamento excepcional, porque intolerável, ou corresponde à conduta normal daqueles militares?

O exército dos Estado Unidos não se livra da vergonha que vem chamuscar a reputação que acreditam ser inquestionável. Depois de Guntánamo, depois das cenas humilhantes da prisão de Abu Ghraib, agora a dúvida lançada pela oportuna câmara da CBS. São tiros a mais no próprio pé. Como se não bastasse, foi dada a possibilidade ao comandante do pelotão para dizer de sua justiça. Em vez de uma condenação enérgica, destoou. Falou mais alto a solidariedade corporativa. Num discurso carregado de tiques bélicos, o guerreiro de serviço tentou justificar o acto cometido pelo seu comandado. Ao ouvir este militar, tive o assomo espontâneo de o chamar “animal”. Retrocedi, porque não quis ser ofensivo para os animais.

Ainda temos que aguentar a retórica oficial de que a civilização ocidental é superior, que se distingue da civilização árabe. Porque estes vivem ainda mergulhados num estado de selvajaria que nós, ocidentais, já deixamos para trás com as brumas da memória. Só que a estupidez humana é transversal às dicotomias civilizacionais. Selvajaria há em todo o mundo, com diferenças de requinte e de grau. Injustificável é a insistência em fixar a diferença entre “eles” e “nós” fundada na apetência para a selvajaria.Se é verdade que todos os actos de selvajaria são criticáveis, mais o são aqueles que têm origem nos arautos da superioridade civilizacional. Esta superioridade supõe que a selvajaria foi varrida para debaixo do tapete. Mas, às vezes, o vento que sopra forte destapa o tapete, deixa à mostra a selvajaria latente que estava em hibernação. Nesse momento não há diferenças entre a selvajaria de ambos os lados.

16.11.04

Golpada no direito à privacidade: a morte do sigilo bancário decretada por Bagão Félix

Sessão de informação às bases, promovida em conjunto pelos partidos que nos governam. Às bases, mas com anúncio no jornal (publicidade paga), convidando os não militantes a estarem presentes. O ministro das finanças ia à Maia, quinta-feira à noite, para proferir uma prelecção sobre o orçamento de Estado para 2005. A imprensa foi convidada a estar presente. Esta, pressurosa, não podia deixar de corresponder ao convite.

A grande novidade (para quem, como eu, não se deu ao trabalho de ler o texto volumoso do orçamento para 2005) saiu da boca de Bagão Félix: o sigilo bancário vai acabar de vez. Não se trata de quebrar esta regra de ouro do negócio bancário apenas quando há investigações policiais – por exemplo, em crimes de colarinho branco ou de tráfico de droga. Está em causa o levantamento do sigilo bancário quando um contribuinte for alvo da perseguição do fisco por suspeita de não pagamento de impostos.

O Estado parece querer juntar-se aos gestores de conta dos bancos onde o nosso dinheiro está depositado. Exibindo a sua vocação paternalista – que, com a pose deste ministro das finanças, atinge um dos seus expoente máximos – o Estado surge, magnânimo, apaziguando os cidadãos. As suas garantias de que os dinheiros depositados à guarda dos bancos são bem aplicados aparecem reforçadas pela brigada de diligentes fiscais tributários que vem dar uma mãozinha aos gestores de conta. Pela minha parte, dispenso a fartura.

Dispenso-a porque esta inovação ilustra mais um passo para o Estado intrusivo que engorda com a passagem do tempo. Em vários domínios antes o Estado confiava na iniciativa dos particulares, nota-se uma infusão de legislação que corta pela raiz este espírito de auto-regulação. Teremos, de agora em diante, a incógnita a pesar sobre a cabeça: estarão as nossas contas bancárias a ser objecto de devassa pelo bando de fiscais tributários?

Bem sei que “quem não deve não teme”. O adágio popular não faz sentido nesta matéria. Eu não temo porque, infelizmente, não consigo fugir aos impostos. Nem tão pouco temo porque as movimentações bancárias que faço não revelam sinais de suspeita. Tenho razões para estar descansado. Mas não é isso que importa. Mais importante do que saber se temos motivos para temer a invasão do Estado às nossas contas, é o acto em si. O contrato bancário tem os seus alicerces fundados numa relação de confiança entre o banco e o cliente. As medidas que autorizem o rompimento do sigilo bancário são um rombo vigoroso nos alicerces do negócio bancário: não só para os bancos, que têm que abrir as portas às brigadas de fiscais que queiram passar a pente fino certas contas bancárias; mas sobretudo aos clientes, que gostam de ver na privacidade um bem inexpugnável.

É disto que se trata: de respeitar a privacidade que o dinheiro deixa à mostra. Os mais ingénuos insistem em ver no Estado uma entidade abstracta, sem rosto humano, como se os funcionários que o servem não fossem pessoas com motivações próprias. Estes funcionários não têm que saber onde gastamos o nosso dinheiro. Não importa aqui que “quem não deve não teme”. Tanto vale para as pessoas que fazem aplicações financeiras duvidosas, como para aquelas que fazem pagamentos com cartões de crédito para sustentar vícios licenciosos, como para as compras banais que todos fazemos. Independentemente do destino que damos ao dinheiro, o Estado não deve ter o direito de aceder a essa informação. Sob pena de estarmos todos sob suspeita, de a qualquer momento um funcionário zeloso e voyeur devassar a nossa intimidade.

Não fico sossegado em saber que os meus movimentos bancários são escrutinados por um burocrata qualquer. Que ele saiba que faço compras no supermercado Y, que compro roupa nas lojas Z e W, que compro livros através da Internet às editoras K e L. Inquieta-me saber que caminhamos para um modelo de sociedade que não hesita em fixar as bases de um sistema de vigilância apertado, em que acabamos todos por estar na mira das suspeitas. Uma sociedade em que estaremos todos a desconfiar de todos. Ora, como aprendi que quem desconfia não é de confiar, a medida de Bagão Félix é sintomática da confiança que ela (e o seu autor) merecem.

Para quem acusa este governo de “excessos de neo-liberalismo”, a decisão de acabar com o sigilo bancário é a sua antítese. Não vi as carpideiras de serviço, os que sempre se afogueiam quando suspeitam de derivas “neo-liberais”, a aplaudir a fobia persecutória de Bagão Félix. Três possíveis explicações para a ausência: ou andam distraídos, ou não lhes convém o aplauso, ou não sabem do que falam quando enxameiam os discursos com o “maléfico” neo-liberalismo.

15.11.04

Outra vez a intolerância da democracia

Um tribunal belga decidiu ilegalizar o Vlaams Blok, um partido de extrema-direita. Motivos: os discursos anti-imigração do partido, contrário à presença de estrangeiros no território belga. Como se não fossem suficientes as dúvidas acerca da legitimidade política desta sentença, ela é ineficaz: os mentores do partido ilegalizado podem manter todas as suas estruturas, apenas sendo obrigados a alterar o nome. Um obstáculo menor que não impede a continuidade do partido.

Um aspecto que importa reter é a falta de oportunidade da sentença. Não se trata de um grupelho de fanáticos que exibem toda a sua cólera radical (e mesmo que fosse, não vejo como pode a democracia ungir-se de legitimidade para o ilegalizar). O Vlaams Blok representa quase 25% do eleitorado belga. Potencialmente, um em cada quatro eleitores ter-se-á sentido ofendido pela decisão iluminada de um grupo de juízes. Se não fosse possível reconstituir o partido, esta sentença teria um efeito devastador. Tornaria aqueles 25% dos eleitores politicamente órfãos. Dir-se-ia que estes juízes, aureolados com uma consciência moral acima dos mortais, empurravam aquela franja do eleitorado para partidos “politicamente correctos”. Um frete da justiça à democracia, como se fosse esta a função de quem julga – e como se a separação entre justiça e poder político não fosse um alicerce do “moderno Estado de direito”.

Quando a democracia tenta afugentar partidos anti-democráticos com o beneplácito da magistratura, fico com as suspeitas ao alto. Não é verdade que uma das grandes virtudes da democracia contemporânea é o apelo aos valores da tolerância, à inclusão dos que são diferentes? Como conciliar esta retórica com uma prática que não hesita em espezinhar o direito à existência daqueles que são contra a democracia?

Pode-se argumentar que os democratas são impelidos por um instinto de auto-defesa. Sabem que os partidos extremistas (apenas os da extrema-direita, porque os da extrema-esquerda são benquistos) querem liquidar o regime democrático. A única hipótese de evitar o fim da democracia é tirar o tapete aos movimentos confessadamente anti-democráticos. Compreendo a lógica do argumento, mas não descubro grande diferença na latitude de intolerância quando comparado com os partidos de extrema-direita. Esta solução utiliza as mesmas regras de intolerância dos adversários.

Também sou capaz de conceber mais um argumento a favor da liquidação dos anti-democratas: as suas ideias são perigosas, atentam contra valores estabelecidos, contra os esteios das liberdades individuais. Esta é uma razão poderosa. As ideias dos partidos de extrema-direita são um cutelo que paira, ameaçador, sobre os valores devolvidos após as atrocidades da segunda guerra mundial (e, no caso doméstico, após a longe noite do Estado Novo). Aceito que muitas consciências se mostrem incomodadas com a recrudescência destes partidos extremistas, que parecem ignorar as lições tenebrosas do passado recente – ou que apenas interpretam a história à sua maneira, duvidosa, mas à sua maneira. Também me assustam essas ideias, mais os métodos que resvalam para a violência. Nada disso é suficiente para que a democracia tenha legitimidade para asfixiar esses movimentos. A menos que a democracia não confie no eleitorado, que o veja como um conjunto de pessoas onde ainda pontificam franjas intelectualmente desqualificadas ao ponto de apoiarem as causas da extrema-direita.

A abertura de espírito que dos livros aprendi ser a maior virtude da democracia surge ofuscada. Os que se situam fora da normalidade democrática não podem existir, não se podem submeter a votos (por cá os partidos fascistas são proibidos pela Constituição). Teme-se que o eleitorado seja atraído pelas ideias do passado. Melhor confissão de que os eleitores só são inteligentes às vezes não podia ser dada à estampa. Não há maior desrespeito pela vontade popular. Se mais e mais gente se sente atraída pela extrema-direita, será legítimo cercear as preferências dessas pessoas através da ilegalização do partido em que votaram?

A democracia, nas suas tentações totalitaristas! Uma democracia que apenas aceita partidos que respeitem os cânones da normalidade democrática é uma democracia amputada. É uma democracia inspirada na mesma intolerância dos que quer combater. Não é assim que deles se consegue distinguir. Apenas se confunde nos métodos.

Quando se pensava que a Europa da intolerância tinha fechado um ciclo com o que se passou na Áustria (quando os neo-nazis chegaram à coligação governamental, e quando os patéticos Guterres da Europa perderam o sono com a cenário dantesco da reimplantação do tenebroso nacional-socialismo por contágio vindo daquele país), novas excrescências vêm à superfície. Como se não bastasse a duvidosa legitimidade política da solução, alguém duvida que ela é destituída de inteligência? Ou será difícil adivinhar que esta sentença vai cerrar as fileiras dos partidários do Vlaams Blok, radicalizar o espaço político e, porventura, chamar novos apoiantes a este partido?

A justiça, na ânsia do frete à democracia, no limiar do precipício de disparar um tiro no próprio pé…

12.11.04

Roteiros gastronómicos

Quando puxava pela cabeça para encontrar tema para hoje, ocorreu-me escrever sobre o último CD dos Sigur Rós (Von, na verdade o primeiro álbum, republicado agora que a fama internacional chegou a este grupo de islandeses). De repente fui assaltado por uma nostalgia dos tempos em que um grupo de amigos percorria, religiosamente, os caminhos de um roteiro gastronómico feito ao sabor do acaso.

Eram tempos em que o tempo passava com outra velocidade. Tempos em que tínhamos tempo para cada um de nós, sem estarmos absorvidos pelas exigências da profissão que nos fez adultos. Não que fossemos irresponsáveis naquela altura. A idade da adolescência já tinha sido dobrada – estávamos todos nos “vinte-e-alguns”, formados, em início de vida profissional. As famílias ainda não tinham sido constituídas. As namoradas escasseavam, o que conferia outra margem de manobra que as exigências do coração impedem.

Eram tempos em que nada era programado. Apenas nos encontrávamos e, olhando uns para os outros, interrogávamos o que havíamos de fazer. Nesses tempos, em que ainda não ficávamos assustados quando líamos os valores das análises sanguíneas, tínhamos hábitos desregrados. Com frequência metíamo-nos nos carros e percorríamos quilómetros atrás de quilómetros ao encontro de restaurantes afamados, longe da nossa cidade. Afamados por constarem de roteiros gastronómicos publicados, ou por fazerem parte do cardápio de referências que passavam de boca em boca, chegando até um de nós.

Os quilómetros que galgávamos eram o património do convívio que se solidificava durante as viagens. O tempo que nos separava dos restaurantes era dedicado a conversas que nos faziam crescer, que intensificavam as cumplicidades, essencial nutriente da amizade. Esta cumplicidade assentava à mesa dos restaurantes. Sentar à mesa era sinónimo de outros prazeres: os visuais (sim, os olhos também comem), mas sobretudo os gustativos. Era com um prazer inaudito que degustávamos as iguarias que desfilavam diante de nós, um pouco por todo o lado.

De repente, e só como amostra, vêm à memória estes santuários gastronómicos: o Solar Bragançano, em Bragança, com a sopa de castanhas outonal, a posta à mirandesa suculenta, o serviço aprimorado do dono do restaurante, a música clássica como pano de fundo. As lulas com leite de coco e caril (o manjar chamava-se, apelativamente, Maracanã) num restaurante, que agora não recordo o nome, em Cascais. As costelinhas grelhadas no Álvaro, em Valença do Minho, regadas com as malgas de vinho verde que, ao início, tresanda a xarope mal amanhado mas que ia fluindo com ligeireza com a ingestão das ditas costelinhas. A vitela assada do Zé da Menina, em Fafe, num intervalo dos muitos ralis a que assistíamos na zona (onde uma vez esvaziámos um reserva de Borba de 1984 pelo preço da chuva – parece que os donos ignoravam a relíquia que estava perdida, algures, numa arrecadação). As idas ao Camelo, em Seia, em passagem para o habitual sku invernal na serra da Estrela, com o bacalhau com broa que na altura era opíparo (mas não agora, impregnado de gordura), o humor contagiante do senhor Jorge Camelo, e a deslumbrante sobremesa que nos era oferecida – um requeijão acabado de chegar do Sabugueiro, que se desfazia na boca ainda quente, misturado com um excelente doce de abóbora e amêndoa ralada.

Esta é apenas uma amostra que, ao correr da pena (melhor: ao bater das teclas…), salta da memória. Outros seriam os locais que preenchiam o imaginário de tempos idos em que a disponibilidade para estas andanças era diferente. É apenas um cheirinho dos odores, dos sabores, dos tintos aveludados, da boa disposição, das amizades que foram sendo nutridas entre os comensais. Um assomo de nostalgia, portanto.

A intenção do texto de hoje era escrever sobre Von, dos Sigur Rós. Acabei a deambular pelos caminhos ímpios da gastronomia, dos locais mais emblemáticos onde melhor se come no país. Depois de ouvir aquele CD dos Sigur Rós, a reacção espontânea é acabar a falar de comida, é ser levado pelo arrebatamento das excitações culinárias que alimentam a alma. Porque o último exercício musical dos Sigur Rós é tão desértico, tão vazio de sonoridades (pelo menos das que estava habituado), que por mais que ouça o álbum chego ao final com a sensação de que comprei gato por lebre. É como ir a um restaurante para saciar os irreprimíveis apelos gustativos e de lá sair com a frustração de que é urgente entrar no primeiro restaurante à mão para cumprir a tarefa. Daí a digressão gastronómica de hoje.