31.12.04

O adeus a 2004

Último dia do ano, tempo de balanços – é o costume a que somos conduzidos. Olha-se para trás, condensa-se o que de bom o ano trouxe, tenta-se enxugar as tristezas dos maus momentos que foram fustigação pessoal. Vou ensaiar um balanço do ano recorrendo às letras do alfabeto. Para cada letra, um acontecimento marcante, pela positiva ou pela negativa; uma pessoa que deixou a sua marca; uma reflexão sobre algo que revelou a sua importância em termos pessoais.

Apito dourado – Uma das poucas boas notícias de 2004. Uma investida contra as regalias do futebol, que durante anos a fio insistiu em ser um mundo à parte, acostumado a benesses vedadas a outras actividades. O último acto: esperar vinte e cinco anos para que as manigâncias do “Papa do norte” tenham caído nas malhas da justiça. Supremo gozo!

Beleza – Ter ainda energia para descobrir coisas e pessoas que marcam o reencontro entre a vida e o que de belo ela tem. Pequenas coisas, pequenos gestos, coisas corriqueiras que têm tanto significado. Sentir que a beleza é um dom da vida, o leme que conduz a existência para além dos impiedosos descaminhos do quotidiano.

Comunicação social – Para um defensor do mercado, custa reconhecer que os efeitos da concorrência desenfreada têm sido maus. A qualidade anda pelas ruas da amargura. O sensacionalismo é o critério dominante. Derrotou o rigor da informação. Dirão os defensores do actual estado de coisas que a comunicação social apenas responde às preferências da audiência. Sinal de democratização da informação, pois o povo gosta de ver sangue, de deambular pelas perversidades que abundam, de se perder em coisas menores que são transformadas nas coisas mais importantes da vida. Só não tenho a certeza da ordem dos factores: se é a imprensa que apenas segue as preferências macabras e mesquinhas de uma população ignorante, ou se é a imprensa que alimenta este estado de coisas, afinal achincalhando-se a si mesma.

Democracia – Lugar-comum dizer-se que é o pior de todos os regimes se todos os demais forem excluídos. Tapar o sol com a peneira (por exemplo, desvalorizando o significado da abstenção meteórica em sucessivas eleições) não contribui para a qualidade da democracia. A crise do regime é indisfarçável. Evitar debater esta crise é um tabu que mostra a intolerância dos democratas. Como se tudo fosse passível de debate, menos a democracia em si. Posturas deste tipo apenas contribuem para o definhar da democracia. Com o perigoso cenário que se adivinha. As visões radicais podem dar ensinamentos salutares. Hans-Hermann Hoppe, com o livro Democracy – the God that Failedfornece interessantes pistas para reflexão.

Ena Pá 2000 – Vinte anos de carreira, vinte anos a contribuir para a cultura nacional. A arte de um resistente: Manuel João Vieira, altos e baixos (o último disco, “A luta continua”, deixa no ar um cheiro a “melhores dias já passaram”), mas um contributo inestimável. Aproximando-se eleições presidenciais, espero que o candidato Vieira não fique preso aos tabus de outros putativos candidatos (Cavaco & Guterres SA.) e intervenha, decidido, desorganizando com a sua rebeldia a monotonia política instalada.

Felino – O blog do autor, uma experiência diária de escrita, um ensaio de ginástica mental experimentada pela manhã. O gosto pela escrita, um refúgio ditado pelo cansaço da investigação a que a profissão obriga. Já lá vai quase um ano de palavras acumuladas.

Guerra – Ainda e sempre. Guerra, sinónimo da estupidez do ser humano. De como ele se deixa apoderar por causas que considera serem causas de um colectivo. Colectivo que encontra noutro colectivo o inimigo a abater. Causas em nome de colectivos que submergem a voz dos indivíduos. São as vítimas necessárias dessas causas imbecis, do aprisionamento do indivíduo perante o devir forçado do colectivo onde se convencionou o indivíduo pertencer. Enquanto a pessoa continuar a ser membro necessário da sociedade, esperamos que as guerras continuem a dizimar o mundo. É o fado da natureza humana.

Honestidade – O que mais falta faz no debate de ideias. A honestidade intelectual ausenta-se, levando os oponentes a expedientes que são alçapões para o adversário. Que riposta na mesma moeda. Uma discussão de ideias já há muito que deixou de ser uma “boa discussão”. O debate é instrumentalizado na ânsia de derrotar o oponente. É um terreno em que tudo vale para fazer vingar as teses contra as do adversário. Incluindo a vulgarização do oponente. A discussão é desviada para o acessório. A substância fica perdida nas minudências regurgitadas pela desonestidade intelectual. Nivelamento por baixo, é a consequência óbvia.

Igreja – Continua longe dos tempos modernos, presa aos arcaísmos das concepções dogmáticas do passado. Anacrónica, insiste em desempenhar o papel de consciência da humanidade. Para sentenciar comportamentos pessoais, dirimindo entre o que é “moralmente” aceitável e o que deve ser banido. Presa a uma retórica paradoxal: uma igreja dos pobres que é imensamente rica. A melhor ilustração de quem diz: “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”.

Jogo – É o que se adivinha de mais uma campanha eleitoral. Inverdades, promessas vãs, um apelo à memória curta do eleitorado. Políticos que palmilham o terreno, desdobrando-se em sorrisos de orelha a orelha, distribuindo apertos de mão, beijinhos e bandeirinhas a um povo que gosta de ser enganado. A um povo que acha que jogando o jogo de acordo com as regras que eles, políticos, estabelecem, está a ser actor principal na democracia em que pensa viver. Uma farsa, apenas uma farsa. Captado o voto, a democracia reencontra-se com a sua verdadeira essência contemporânea: ignorar os governados.

Leonor – (que protesta enquanto escrevo estas linhas…) Que mais poderia ser?!

Maremoto – (E não “marmoto”, como muitos jornalistas insistem em escrever e dizer…) Que me lembre, esta foi a manifestação da natureza mais devastadora que testemunhei através das lentes alheias. Com efeitos que ainda estão a ser contabilizados, a cada dia que passa. Diz-se que a natureza foi assassina, na destruição que espalhou pelo sul da Ásia. Nas esquinas do destino, ela acabou por ser contemporizadora: quantas mais pessoas não teriam sucumbido se o maremoto tivesse acontecido durante o sono geral?

Niilismo – Continua a ser uma deriva necessária, forma metódica de olhar o mundo em redor. Exteriorização da insatisfação, penoso exercício com frutuosa produção (pelo menos em quantidade…). A teimosia em ver na deriva niilista uma desconstrução do mundo que é, em si, um contributo para que as coisas possam ser diferentes. Não é apenas destruir por destruir, pelo gosto de destruir. É desconstruir para terraplenar o terreno para uma edificação diferente – ainda que de momento não consiga tipificar essa construção…

Oxalá – 2005 seja aquilo que as pessoas queiram que ele seja. Sem os desejos inócuos do género “paz no mundo” (irrealizável) e “saúde para todos” (os hospitais poderiam fechar, o que é impensável).

País, de Portugal – Portugal desgraçado, sorte inditosa. Crise, sempre crise. Crise de onde nunca conseguimos sair. Crise de confiança, descrença nas potencialidades que temos. Desgovernados por uma casta de inúteis, que se agarra à tábua de salvação da política por mais nada saber fazer na vida. P, também de primeiro-ministro, também de Pedro Santana Lopes. Num ápice, do deslumbramento ao abismo: do zénite de uma carreira política, com o menino herdado nos braços face à deserção de José Barroso; ao tapete tirado debaixo dos pés por um presidente da república que deixou de ser compreensivo. Outro exemplo de nivelamento por baixo.

Qualidade – Quando chegará o tempo em que nos convencemos que a qualidade deve ter precedência sobre a quantidade? Para não vivermos afogueados pelo tempo que passa, pelos balanços em que ajuizamos o muito que ficou por fazer, em vez de darmos valor ao que fizemos, à arte do que foi feito. Como o tempo passa célere, somos educados a definir objectivos que se sucedem a uma velocidade vertiginosa. O tempo anda descompassado da vida, com nefastos efeitos para a qualidade da vida que temos.

Rir – Única solução. Não perder tempo com o estado calamitoso do mundo, do país. É perda de tempo e é o mapa óbvio para a infelicidade, para o mal-estar interior. A solução é libertar o riso quando antes a reacção espontânea seria abanar a cabeça em sinal de incredulidade. Deixar vir ao de cima o cinismo, a resposta adequada à indisfarçável falta de qualidade dos que se acham decisores. Cinismo como complemento do cepticismo, ou apenas cinismo como atenuante do cepticismo? Dúvida ainda metódica.

Sporting – Ainda estou para perceber: a necessidade de saneamento financeiro, depois de décadas de viver acima das posses (maleita de todo o futebol nacional) vinga como expoente da transição para um modelo de gestão racional; mas as vitórias ficam adiadas. Até quando? Ainda estou para perceber se o esforço de racionalização vai trazer no futuro alguma grandeza, ou se é o reconhecimento de que o meu clube é a da segunda divisão europeia. Entretanto, um presidente desbocado, preso aos compagnons de route socialistas (com o que isso implica de falta de credibilidade), pedrada no charco – é certo – mas usando as armas erradas: insistindo na intervenção do poder político para sacudir a manta nauseabunda do futebol português.

Tabaco – Diria, antitabagismo primário. Mais actos para um combate cego contra os direitos individuais. Proibições em catadupa são anunciadas, outras ficam prometidas. Com a agravante do precedente que se abre: hoje os tabagistas, amanhã quem será perseguido nesta cruzada moralista?

União Europeia – ano marcante: um alargamento sem precedentes (passámos de quinze para vinte e cinco, acolhendo oito países de leste que souberam libertar-se das garras do comunismo); uma Constituição aprovada, cheia de defeitos, é certo, mas uma Constituição que garante a limitação dos poderes contra os direitos dos cidadãos. Só por isso, um contributo inestimável da União Europeia para a liberdade individual. A mesma União que é o garante de que as asneiras domésticas vejam os seus efeitos atenuados. Os abalos telúricos da incompetência política caseira são amortecidos pelas decisões com impacto tomadas pela União Europeia. Para bem dos nossos males.

Vitórias – Pessoais, algumas. 2004 é um ano para recordar para todo o sempre: o nascimento da primeira filha é motivo suficiente para que um ano seja uma recompensa pessoal incomensurável. No mesmo mês em que o doutoramento foi uma meta cumprida. Motivos de satisfação num ano ímpar.

Xico-esperto – Continua a ser o homem de sucesso neste país feito de improvisos e de expedientes. Nos negócios, na escola, na política, em todos os domínios. Vinga quem se mexe, quem usa estratagemas que o colocam a frente dos demais. Não quem tem valor. O Xico-esperto é a imagem nacional da mediocridade latente. Que tem efeitos acumulados: perante a dificuldade em vencer o “xico-espertismo”, as pessoas são levadas a embarcar nas regras do jogo. No rescaldo, um país inoperante. (Ou de como fui, eu mesmo, Xico-esperto para encontrar alguma coisa que dizer com a letra X…)

Zaratustra – “Assim falava Zaratustra”, obra-prima de Nitzsche a que regresso de vez em quando para tentar compreender o fluir do mundo. A mais de dois séculos de distância, ainda o espelho fiel do dos comportamentos humanos que tendem para a auto-flagelação. A compreensão de que nascemos para fugir da felicidade. Como se tivéssemos medo dela, embrenhados numa estúpida irracionalidade que nos atira para uma escala inferior à de outros animais ditos…irracionais.

30.12.04

Quem precisa de heróis?

Outra interrogação anda de braço dado com esta: porque temos necessidade de projectar a nossa existência em heróis? É um comportamento habitual: ver noutro aquilo que gostaríamos de ser, não fossem as nossas limitações um óbice ao estrelato. Daí que se endeusem figuras postiças, deuses com pés de barro que escondem a vacuidade absoluta. O que conta, para quem vive agarrado à necessidade de se projectar em heróis, é fazer de conta que a sua vida mundana e corriqueira devia ser a vida levada por aquela pessoa em quem é depositada uma admiração sem fim.

Para muitos haverá confusão entre admirar alguém pelas suas qualidades intrínsecas e endeusá-lo como se fosse uma entidade divina, imaculada de vícios. Quando olho em redor e vejo pessoas a dizerem que fulano é o seu herói na literatura, ou que beltrano é o guru espiritual que seguem com uma devoção cega, vejo pessoas que precisam de encontrar fora de si um objecto de admiração que, num passo, chega ao estatuto de heroicidade. Isto causa-me alguma perplexidade. Não sei se é por nunca ter tido heróis – nem mesmo na adolescência, quando os verdes anos estendem a passadeira a heróis efémeros – mas fico num beco sem saída quando tento perceber porque as pessoas procuram fora de si os heróis que não conseguem ser. Sei que o paradigma do anti-herói resvala para um perigoso extremo de narcisismo. Talvez este seja um dos (poucos) domínios de vida em que a virtude reside no meio.

Há um espaço enorme: entre o desprendimento de si mesmo que leva a projectar a frustrada existência num herói; e a recusa em admirar quem quer que seja para além da sua própria existência, num assomo vertiginoso de narcisismo. Há um espaço enorme por preencher, mas é um local vasto onde a posição mais racional tem a sua residência. Nem endeusar heróis, nem cair na tentação de desdenhar todos os outros, de os ver como criaturas inferiores, incapazes de chegar aos calcanhares de quem se vangloria estar tão acima da mediania. Para quem sente a necessidade de se mirar num herói, os que renegam o dogma da heroicidade alheia são catalogados como narcisistas incorrigíveis. Quem atesta deste modo está a recusar ver o amplo terreno que vai de um extremo ao outro.

Há muitas maneiras de construir heróis. Há heróis que permanecem para sempre, numa fidelidade impressionante que se confunde com a perda de auto-estima, com a abdicação de um espírito crítico. Há heróis de hoje que o deixam de ser amanhã, com o fluir dos humores e dos comportamentos próprio de quem se ausenta da estabilidade emocional. Há os heróis que o são sem que sejam assumidos nessa condição. Há os heróis formulados num manto de incoerência: por aqueles que são ásperos críticos da dependência alheia de que a religiosidade é tributária, mas depois endeusam figuras que corporizam os seus códigos de conduta. Em todas as formas possíveis de projectar heróis, há um desprendimento do eu que tenta imaginar a sua ambicionada existência num alter-ego que não conseguiu ser. Endeusar heróis é uma forma de prolongar a dependência do eu em relação a outrem, afinal um estigma que persegue o indivíduo desde os primórdios.

Dir-me-ão que admirar as qualidades de outrem é um acto de humildade. É reconhecer as qualidades acima da média que elevam alguém ao estrelato. E que a recusa da heroicidade arrepia caminho para o ensimesmamento, para uma voragem egoísta que impede de ver as qualidades inatas dos outros. Um acto de vaidade que ofusca as qualidades superiores dos outros. Aceito o diagnóstico. Ele coincide com o extremo do narcisismo. Já não consigo perceber porque motivo a admiração acaba por se confundir com a vassalagem prestada a um herói. Alguns não usam a palavra, talvez por pudor, por perceberem que a palavra em si é excessiva. Outros, mais desassombrados, têm a frontalidade de se reverem em heróis – e utilizam a palavra sem receio.

O que me leva à perplexidade é isto: tratar alguém por herói é afirmar que estamos na presença de alguém acima de qualquer suspeita. Alguém que não carrega consigo o fardo dos defeitos tão próprios da espécie humana. Um herói acima da condição humana, afinal um não-humano. É isto que não consigo compreender: a necessidade de encontrar heróis, que projecta a existência ambicionada numa vida isenta de defeitos. Será a negação do ser humano na sua melhor qualidade: a humildade para reconhecer as suas limitações.

Por isso é que me recuso a ver em qualquer ser humano um herói. A melhor homenagem que posso prestar a qualquer pessoa é recusar-lhe o estatuto de herói. Sob pena de o estar a desviar da sua condição humana.

29.12.04

A terrível natureza

Detenho-me por uns momentos nas macabras imagens que não param de chegar desde as longínquas terras afectadas pelo maremoto de anteontem. Fico aturdido com a sucessão de imagens de destruição, com o amontoado de corpos que jazem depois de tragados pelas águas revoltas, com os relatos sofridos de quem teve a sorte de escapar com vida à tragédia. As televisões vão passando imagens captadas por vídeo-amadores: retratam a onda assassina que irrompeu terra dentro, numa fúria avassaladora que não teve contemplação com vidas humanas e o que estava construído.

Vistos de cima, parece que estes locais foram devastados por uma bomba mortífera que nada deixou de pé: edifícios esventrados, árvores de porte arrancadas pela raiz como se fossem brinquedos amovíveis, automóveis empilhados numa estranha coreografia de estacionamento desordenado; e, o mais doloroso, os corpos que se perfilam lado a lado, ora ensacados e prontos para a sepultura, ora ainda a céu aberto, numa ordenação caótica. Uma macabra elegia à terrífica natureza que espalhou, com duas ondas carrascas, um manto pérfido de morte e destruição.

O número de vítimas não pára de crescer. Duzentos, mil, cinco mil, vinte mil, cinquenta mil mortos. Hoje de manhã, a informação de que pode ir além de cem mil mortos. A horrível contabilidade aumenta numa dimensão dantesca. Cresce numa proporção geométrica, como se a cada dia que passa a escalada eleve a bitola para além do imaginável.

Vistas as imagens, imaginados os momentos de aflição indescritível, diria que a natureza se zangou com a humanidade e quis mostrar toda a sua fantástica força. Comprimida num colete-de-forças, soltou-se e, num arremedo de raiva, soprou com uma violência inaudita a sua força explosiva. O tremor de terra semeou as mortíferas ondas de choque que percorreram o Índico e só pararam quando encontraram um leito de morte para repousar. A violência dos elementos teve a sua acalmia quando encontrou terreno para ceifar vidas e destruir a obra laboriosamente construída pelos humanos. Só então esta onda assassina se apaziguou da sua raiva interior, escolhendo os milhares e milhares de vítimas como réus necessários da sua cólera.

Aprendemos que a vida é feita de contrastes. Que vamos de um extremo ao outro num instante, com um simples estalar dos dedos. Esta tragédia é o espelho deste ensinamento. Locais que eram conhecidos por estarem próximos do éden terrestre estão agora mergulhados no caos, devastados, transformados num cemitério a céu aberto. O outrora paradigma do paraíso é hoje a imagem acabada do que pode ser o holocausto plantado em poucos minutos. A natureza mostrou toda a sua força incontida. O desrespeito por tempo acumulado de obra feita, de tanto suor derramado, que num ápice é varrida do mapa por uma onda alterosa, violência personificada numa força natural. Num instante, a natureza transformou o suor humano acumulado em anos de labor no sangue derramado que tolheu vidas numa dança macabra e aleatória.

O descanso de inocentes que repousavam nas praias idílicas; as artes de uma população sacrificada por provações; as famílias destruídas, como se todo um passado deixasse de fazer sentido – tudo a onda assassina varreu, impiedosa, na sua vingança indiscriminada contra quem teve a inditosa sorte de estar no local errado no momento errado. Natureza cega, insensível, bolsa de forças incontroláveis, saciada com o sacrifício de vidas humanas. Uma natureza terrífica, expoente máximo do bom e do mau: a mesma natureza que foi pródiga em doar estes locais com uma aura paradisíaca quis, arrependida, tirar esse dom com as ondas gigantescas e mortíferas que semearam um mar de destruição, um odor tétrico de morte.

28.12.04

O mapa do desamor Posted by Hello

De repente, sem aviso, o olhar cruza-se com uma inscrição numa parede antes desnudada. Alguém, desnorteado pela adversidade do desamor, lançou o grito de alerta. O sonho do amor deixou de ser possível. Temporário ou definitivo, o sonho deu lugar ao deserto interior. Desmembrada pela decepção, torturada pela dor, aquela pessoa protestou o incómodo que a corrói por dentro. Seria homem, seria mulher? A única resposta está em alguém que se deixou invadir pela desistência de lutar.

Já nem sequer sonhar. Tamanha é a dor cortante que nem sequer há lugar ao sonho. Imagino a pessoa, atormentada pelos caminhos ínvios do amor, acorrentada à não sorte de não conseguir amar. A dor que a paralisa, não a deixa atingir o patamar do sonho. Diria que vegeta, flutua na matéria incandescente dos sonhos que se esfumam com o tempo que não traz o amor.

Adivinho esta pessoa, amordaçada pelos murmúrios que deixou de proferir. Incapaz de pronunciar as palavras que dantes acreditava serem a chave para o bem-estar ausente. Afogueada pelas curvas sinuosas de um destino desavindo, descrente na profilaxia do sonho. Sonho feito estádio anterior ao amor, como se um sonho fosse o prenúncio do amor tão ansiado. Os sonhos que se desfazem, tal como se esta pessoa tentasse agarrar o vento entre os dedos. Dos sonhos desfeitos ao estigma do amor. Melhor, do desamor, do amor não emoldurado, do amor perdido na encruzilhada do tempo.

Há aqui uma ternura que se ausentou. Um paradoxo: alguém que se tenta reconciliar com a ternura de que tanto precisa, mas que dela se afasta para não ser torturado pelos descaminhos do amor. Ou pelos caminhos do desamor, que no caso vem dar ao mesmo. Alguém afogado na mágoa de se saber só, irremediavelmente preso a uma vida de solidão por incapacidade de ser amado, por sentir que o amor lhe está vedado. Fora de si verá uma barreira tão alta que não consegue transpor. A vontade de dar o seu amor esbarra no desnorte de não encontrar quem o queira receber.

A amargura do desencontro traz a urgência de gritar, com a dor bem aberta de um coração em ferida, que nem sequer o sonho quer acolher. Para não se deixar invadir pela doce, mas ilusória, esperança de que o sonho seja tocável pela pele sedosa dos seus dedos. Os sucessivos desencontros com o passado não deixam lugar a dúvidas. Cansada de sofrer, incapaz de tolerar a incompreensão alheia, desmotivada para continuar a oferecer o melhor de si, desistiu. Demitiu-se do amor, demitiu-se do sonho que dedilha o amor.

Do alto da sua varanda altiva, o acto de ensimesmar. Asceta de si mesma, refugia-se na fortaleza erguida para escapar dos suplícios do sonho. Será uma escada íngreme para cerrar as portas ao amor que o caustica. Será o caminho necessário para se fazer forte, entender que o amor não foi o mote para uma vida adocicada. Antes a causa para tanta decepção, tanto afogueamento doloroso. Compreenderá então que o amor é um acto de desprendimento de si mesma.

O sonho que repudia é o segundo acto deste afastamento. É rejeitar uma vida mergulhada na ilusão de que algum dia tem encontro marcado com o amor que lhe trouxe tanto desengano. Esperar que algum dia a névoa se desfaça para contemplar o tão esperado momento de ser velada pelo amor que andou arredio. Esta pessoa, céptica do amor, nada quer com o mapa dos sonhos. Sabedora de que o roteiro lhe tem trazido descompensações, regurgita todo o fel, deixa-se vencer pela anomia que lhe traz o recentramento na sua pessoa.

A angústia que invadiu esta pessoa desgostosa é arrepiante. Uma lição de vida para quem se esforça por encontrar grandes problemas em pequenos detalhes. Uma lição para quem se quer esquecer que o amor não se compadece com as desventuras da rotina. É a natureza humana que nos faz esquecer daqueles que se desenganaram do amor, por terem sentido a experiência das feridas profundas lavradas pelo desamor. Esta inscrição é uma lição de vida. Para valorizar o amor que, por vezes, parece andar escondido como o sol tapado por uma neblina persistente e incómoda.

27.12.04

Um poema pouco natalício

Andar no metro do Porto tem as suas compensações. Ou para fugir ao trânsito da cidade – quando a azáfama da quadra complica ainda mais o trânsito – ou para ler os poemas afixados em painéis nas carruagens. Já não andava de metro desde Junho. Perto do natal tive que ir à baixa da cidade e não hesitei: o metro seria a melhor solução. Só no regresso é que pude reparar no poema que enfeita algumas das paredes das carruagens. Um poema sobre os perus de natal.

Um poema escrito, decerto, por um jovem da onda undergound. Um poema pouco convencional, a fazer lembrar as rimas e ritmos do rap. Com um destinatário claro: a tenra idade, desde crianças a jovens, quando as convicções começam a borbulhar com toda a intensidade. O poema dirige-se ao receptor na segunda pessoa do singular. Quem o lê observa que está, enquanto leitor, a ser tratado por tu. Sendo a quadra natalícia o mote do poema, e sendo a empresa do metro detida pelo Estado – logo, o melhor leito para fazer repousar as tradições inquebrantáveis – seria de esperar uma ode às delícias que a ave proporciona por estes dias. Seria de esperar uma narrativa cheia de elogios aos sabores de um peru sabiamente recheado.

A surpresa não está apenas na escolha do peru como mote para o poema. A surpresa é ainda maior porque o poema traça um retrato pungente do sofrimento que aos perus está reservado durante os dias do natal. Um retrato sofrido, apelando à boa consciência dos jovens a quem o autor trata por tu. Assim excluindo os mais velhos, aqueles para quem a força das tradições é tão poderosa que os impede de ver, para além das suas papilas gustativas e da farta barriga, o sofrimento causado aos perus sacrificados durante o natal. Os jovens com quem o autor do poema quer nutrir um sentimento de familiaridade são levados a partilhar a dor sentida pelas aves cuja vida é ceifada para deleite egoísta de humanos que, com a abastança alimentar da quadra, estragam mais ainda a sua já débil saúde. A mensagem final: os jovens são convidados a deixar de comer peru.

Senti-me sensibilizado pelo poema. Não sei se o autor será vegetariano, usando a oportunidade que lhe foi dada para combater o consumo da carne que é mais típica da quadra natalícia. Não sei se será apenas uma consciência inquietada pelos requintes de malvadez que antecedem a degola do infeliz peru – a engorda à pressão, o tempero em vivo com a degustação forçada de quantidades generosas de vinho que devem ter um efeito devastador nos frágeis fígados das aves.

A parte final do poema não me era dirigida: peru é carne que não entra na minha boca. Mas fiquei tocado com o poema. Com a ousadia de inscrever este poema em carruagens frequentadas por uma turba ávida de se alambazar com as carnes temperadas do peru que fica a assar longas horas no lume brando do forno caseiro. Com a ruptura de costumes estabelecidos, dando uma perspectiva diferente daquela a que milhares de utentes do metro estão habituados por alturas do natal.

Desconfio que a intenção – se é que foi dar voz a alguém empenhado em denunciar as barbaridades que os perus passam para comprazimento dos comensais natalícios – não terá chegado longe. Ou porque a multidão que frequenta o metro não tem hábitos de leitura, não tendo motivação para cansar a vista num conjunto de palavras ordenadas em meia dúzia de estrofes (até porque os poetas, para esta gente, fazem parte de um grupo de lunáticos a quem não deve ser prestada atenção). Ou porque, para os poucos que ainda se deram ao trabalho de deslindar o poema, a mensagem terá passado ao lado. Não será a voz de protesto de um poeta que terá andado a fazer graffitis nas paredes da cidade que toca no âmago desta gente. Ler o poema terá sido já uma grande vitória dos promotores da iniciativa. Fazer chegar a mensagem ao destinatário é outra conversa.

Terá valido a pena a ousadia de cortar com os hábitos estabelecidos e publicar este poema andante, que dia após dia percorre as linhas do metro, se os “tus” a quem se destinava se arrepiarem com o tratamento bestial que os humanos dedicam aos perus de natal.

25.12.04

Brighton, Outubro 2004
British weather

(cliquar nas fotografias para as ver ampliadas) Posted by Hello
Pela alvorada sinto os vidros do quarto a estremecer. Rangem com a fúria do vento que vem batido com violência, soprando a brisa marítima para terra. A BBC informa que se esperam rajadas de quase 90 km/hora. Um cartão de visita das intempéries que hão-de instalar o Outono. O mar encapelado é o espelho da fúria do vento. Pelo mar dentro, o Pier é testemunha da inclemência dos elementos. Ele, mais do que ninguém, fica exposto às rajadas que espetam as vagas do mar nos seus pilares com estampido. Surpresa seria encontrar uma Inglaterra ensolarada.
Biblioteca Posted by Hello
Durante três meses (Outubro a Dezembro de 2000) foi esta a minha casa. Tinha uma colega que em brincadeira dizia que só faltava lá dormir para a biblioteca ser a minha casa. Refúgio da solidão, mas também necessidade de trabalhar a fundo, para aproveitar os três meses de investigação que me esperavam. Esta era a visão com que me encontrava sete dias por semana, logo pelas nove horas da manhã. Dia após dia, sem descanso, numa rotina que se instalou com a necessidade do engenho. Para meu bem-estar, a banca dos estudantes socialistas era raro aparecer. Fica aqui como uma nota de tolerância política (podia ter tirado a fotografia de outro ângulo…). Plus ça change, plus ça c’est la même chose. Por estranho que pareça, até acaba por ser um sinal de vitalidade.
Todos os dias Posted by Hello
A via-sacra percorrida todos os dias, o caminho para a biblioteca. Mais com chuva do que com sol, com as noites que caíam de súbito pouco depois das três horas da tarde em pleno Dezembro, a certa altura contava os passos que iam da estação ferroviária até à porta da biblioteca. Todos os centímetros palmilhados, como se fosse um mapa que conhecia como a palma das minhas mãos. Nos escassos dias em que o sol teimava romper o tecto de nuvens, o verde da relva refulgia e dava uma nota de alegria. Não sei se era saudade do sol mediterrânico, se a relva aqui tem outra tonalidade – mas nesses raros dias soalheiros o verde da relva parecia-me diferente, mais vivo e tonificante.
Entrada da universidade Posted by Hello
A universidade está localizada numa paisagem atractiva. Acredito que terá sido preocupação dos arquitectos dar uma envolvente natural que fosse harmoniosa com os edifícios construídos. Claro que a paisagem não se inventa. O trunfo está em saber enquadrar o dedo humano que dá a forma aos edifícios com a envolvente natural, sem a desfigurar. Os relvados aprazíveis, as árvores de porte que conservam vegetação farfalhuda mesmo no pino do Outono, quando o Inverno começa a bater à porta, são os sinais deste feliz casamento entre a natureza e a intervenção humana. À saída da estação do metro, depois de ultrapassado o túnel debaixo da auto-estrada, uma rampa empinada dá acesso a este local – a entrada da universidade. O local onde aos fins-de-semana, sem a azáfama de milhares de estudantes que irrompiam vindos do comboio, via os esquilos em brincadeiras ternurentas, num sobe e desce vertiginoso.
Pontos cardeaisPosted by Hello
Mesmo no centro de Brighton, um dos ex-libris da cidade. A torre encimada por uma cúpula de ouro marca o reconhecimento da cidade a sucessivas levas de monarcas que têm reinado as ilhas (o habitual tributo que enfeuda cidadãos a governantes). Este é um ponto cardeal da cidade, onde desaguam as ruas e avenidas vindas de todos os quadrantes. Aqui convergem – ou daqui divergem, cada uma no seu sentido, em busca do sentido que lhes dá a função para que foram criadas. Na sua face virada a sul, a torre parece indicar aos viajantes que chegam de Londres que o mar é sempre em frente, a descer.
Raios de sol que renovam almas salpicadas pelo gotejar do marPosted by Hello
Há muitos aspectos curiosos no britânico típico. Um é a forma espontânea como se entregam aos primeiros raios de sol, após um escurecido tempo em que a chuva, as nuvens negras e o vento se encarregaram de trazer a vocação sombria das ilhas. Depois do aviso de tempestade que azedou a manhã, pelo início da tarde tímidos raios de sol queriam fugir da tutela forçada das nuvens cor de chumbo que haviam tingido o céu. O vento ainda soprava forte – menos do que de manhã. As ondas do mar eram o reflexo da alteração vinda do Atlântico profundo. O Pier vigiava, atento, os passeantes que se repousavam nos calhaus da praia, refrescando-se com a brisa marítima que entrava à força pelas narinas. Vigiava-os, para que não fossem tragados pelas ondas alteradas do mar.
Pier em ruinas, Inverno que se adivinhaPosted by Hello
Do mesmo local, olhando para o lado contrário (poente). O Pier antigo, fechado há largos anos na sequência de um incêndio. E que há dois anos acabou por sucumbir, sem forças para resistir à violência do mar na sua terrífica aliança com os ventos que aqui chegam vindos do sul. As pessoas espalham-se pelo passeio marítimo. Adivinham que estes raios de sol que vieram interromper a borrasca são dos últimos antes que a escuridão das estações adversas se instale de vez. Passeiam-se lentamente, calcorreando o cimento com passos lânguidos, como se esperassem demorar o mau tempo que por aí vem. O casal bem apressoado parece olhar com nostalgia para o cartaz estival que festeja o Verão e a praia. O semi-corpo desnudado que olha com deleite para o mar prazenteiro contrasta com a atenção do casal. O Pier derrotado anuncia-se no mesmo destino reservado ao cartaz e ao que ele simbolizou – o Verão, a luz diurna que se demorava por longas horas, os corpos sem o peso das roupas que são chamadas a agasalhar os desagradáveis e húmidos ventos que chegam a Brighton vindos dos lados do mar. Vêm dar lugar a um outro quadro, de refúgio, de recatamento nas lareiras que escondem as marcas do Inverno.