27.12.04

Um poema pouco natalício

Andar no metro do Porto tem as suas compensações. Ou para fugir ao trânsito da cidade – quando a azáfama da quadra complica ainda mais o trânsito – ou para ler os poemas afixados em painéis nas carruagens. Já não andava de metro desde Junho. Perto do natal tive que ir à baixa da cidade e não hesitei: o metro seria a melhor solução. Só no regresso é que pude reparar no poema que enfeita algumas das paredes das carruagens. Um poema sobre os perus de natal.

Um poema escrito, decerto, por um jovem da onda undergound. Um poema pouco convencional, a fazer lembrar as rimas e ritmos do rap. Com um destinatário claro: a tenra idade, desde crianças a jovens, quando as convicções começam a borbulhar com toda a intensidade. O poema dirige-se ao receptor na segunda pessoa do singular. Quem o lê observa que está, enquanto leitor, a ser tratado por tu. Sendo a quadra natalícia o mote do poema, e sendo a empresa do metro detida pelo Estado – logo, o melhor leito para fazer repousar as tradições inquebrantáveis – seria de esperar uma ode às delícias que a ave proporciona por estes dias. Seria de esperar uma narrativa cheia de elogios aos sabores de um peru sabiamente recheado.

A surpresa não está apenas na escolha do peru como mote para o poema. A surpresa é ainda maior porque o poema traça um retrato pungente do sofrimento que aos perus está reservado durante os dias do natal. Um retrato sofrido, apelando à boa consciência dos jovens a quem o autor trata por tu. Assim excluindo os mais velhos, aqueles para quem a força das tradições é tão poderosa que os impede de ver, para além das suas papilas gustativas e da farta barriga, o sofrimento causado aos perus sacrificados durante o natal. Os jovens com quem o autor do poema quer nutrir um sentimento de familiaridade são levados a partilhar a dor sentida pelas aves cuja vida é ceifada para deleite egoísta de humanos que, com a abastança alimentar da quadra, estragam mais ainda a sua já débil saúde. A mensagem final: os jovens são convidados a deixar de comer peru.

Senti-me sensibilizado pelo poema. Não sei se o autor será vegetariano, usando a oportunidade que lhe foi dada para combater o consumo da carne que é mais típica da quadra natalícia. Não sei se será apenas uma consciência inquietada pelos requintes de malvadez que antecedem a degola do infeliz peru – a engorda à pressão, o tempero em vivo com a degustação forçada de quantidades generosas de vinho que devem ter um efeito devastador nos frágeis fígados das aves.

A parte final do poema não me era dirigida: peru é carne que não entra na minha boca. Mas fiquei tocado com o poema. Com a ousadia de inscrever este poema em carruagens frequentadas por uma turba ávida de se alambazar com as carnes temperadas do peru que fica a assar longas horas no lume brando do forno caseiro. Com a ruptura de costumes estabelecidos, dando uma perspectiva diferente daquela a que milhares de utentes do metro estão habituados por alturas do natal.

Desconfio que a intenção – se é que foi dar voz a alguém empenhado em denunciar as barbaridades que os perus passam para comprazimento dos comensais natalícios – não terá chegado longe. Ou porque a multidão que frequenta o metro não tem hábitos de leitura, não tendo motivação para cansar a vista num conjunto de palavras ordenadas em meia dúzia de estrofes (até porque os poetas, para esta gente, fazem parte de um grupo de lunáticos a quem não deve ser prestada atenção). Ou porque, para os poucos que ainda se deram ao trabalho de deslindar o poema, a mensagem terá passado ao lado. Não será a voz de protesto de um poeta que terá andado a fazer graffitis nas paredes da cidade que toca no âmago desta gente. Ler o poema terá sido já uma grande vitória dos promotores da iniciativa. Fazer chegar a mensagem ao destinatário é outra conversa.

Terá valido a pena a ousadia de cortar com os hábitos estabelecidos e publicar este poema andante, que dia após dia percorre as linhas do metro, se os “tus” a quem se destinava se arrepiarem com o tratamento bestial que os humanos dedicam aos perus de natal.

25.12.04

Brighton, Outubro 2004
British weather

(cliquar nas fotografias para as ver ampliadas) Posted by Hello
Pela alvorada sinto os vidros do quarto a estremecer. Rangem com a fúria do vento que vem batido com violência, soprando a brisa marítima para terra. A BBC informa que se esperam rajadas de quase 90 km/hora. Um cartão de visita das intempéries que hão-de instalar o Outono. O mar encapelado é o espelho da fúria do vento. Pelo mar dentro, o Pier é testemunha da inclemência dos elementos. Ele, mais do que ninguém, fica exposto às rajadas que espetam as vagas do mar nos seus pilares com estampido. Surpresa seria encontrar uma Inglaterra ensolarada.
Biblioteca Posted by Hello
Durante três meses (Outubro a Dezembro de 2000) foi esta a minha casa. Tinha uma colega que em brincadeira dizia que só faltava lá dormir para a biblioteca ser a minha casa. Refúgio da solidão, mas também necessidade de trabalhar a fundo, para aproveitar os três meses de investigação que me esperavam. Esta era a visão com que me encontrava sete dias por semana, logo pelas nove horas da manhã. Dia após dia, sem descanso, numa rotina que se instalou com a necessidade do engenho. Para meu bem-estar, a banca dos estudantes socialistas era raro aparecer. Fica aqui como uma nota de tolerância política (podia ter tirado a fotografia de outro ângulo…). Plus ça change, plus ça c’est la même chose. Por estranho que pareça, até acaba por ser um sinal de vitalidade.
Todos os dias Posted by Hello
A via-sacra percorrida todos os dias, o caminho para a biblioteca. Mais com chuva do que com sol, com as noites que caíam de súbito pouco depois das três horas da tarde em pleno Dezembro, a certa altura contava os passos que iam da estação ferroviária até à porta da biblioteca. Todos os centímetros palmilhados, como se fosse um mapa que conhecia como a palma das minhas mãos. Nos escassos dias em que o sol teimava romper o tecto de nuvens, o verde da relva refulgia e dava uma nota de alegria. Não sei se era saudade do sol mediterrânico, se a relva aqui tem outra tonalidade – mas nesses raros dias soalheiros o verde da relva parecia-me diferente, mais vivo e tonificante.
Entrada da universidade Posted by Hello
A universidade está localizada numa paisagem atractiva. Acredito que terá sido preocupação dos arquitectos dar uma envolvente natural que fosse harmoniosa com os edifícios construídos. Claro que a paisagem não se inventa. O trunfo está em saber enquadrar o dedo humano que dá a forma aos edifícios com a envolvente natural, sem a desfigurar. Os relvados aprazíveis, as árvores de porte que conservam vegetação farfalhuda mesmo no pino do Outono, quando o Inverno começa a bater à porta, são os sinais deste feliz casamento entre a natureza e a intervenção humana. À saída da estação do metro, depois de ultrapassado o túnel debaixo da auto-estrada, uma rampa empinada dá acesso a este local – a entrada da universidade. O local onde aos fins-de-semana, sem a azáfama de milhares de estudantes que irrompiam vindos do comboio, via os esquilos em brincadeiras ternurentas, num sobe e desce vertiginoso.
Pontos cardeaisPosted by Hello
Mesmo no centro de Brighton, um dos ex-libris da cidade. A torre encimada por uma cúpula de ouro marca o reconhecimento da cidade a sucessivas levas de monarcas que têm reinado as ilhas (o habitual tributo que enfeuda cidadãos a governantes). Este é um ponto cardeal da cidade, onde desaguam as ruas e avenidas vindas de todos os quadrantes. Aqui convergem – ou daqui divergem, cada uma no seu sentido, em busca do sentido que lhes dá a função para que foram criadas. Na sua face virada a sul, a torre parece indicar aos viajantes que chegam de Londres que o mar é sempre em frente, a descer.
Raios de sol que renovam almas salpicadas pelo gotejar do marPosted by Hello
Há muitos aspectos curiosos no britânico típico. Um é a forma espontânea como se entregam aos primeiros raios de sol, após um escurecido tempo em que a chuva, as nuvens negras e o vento se encarregaram de trazer a vocação sombria das ilhas. Depois do aviso de tempestade que azedou a manhã, pelo início da tarde tímidos raios de sol queriam fugir da tutela forçada das nuvens cor de chumbo que haviam tingido o céu. O vento ainda soprava forte – menos do que de manhã. As ondas do mar eram o reflexo da alteração vinda do Atlântico profundo. O Pier vigiava, atento, os passeantes que se repousavam nos calhaus da praia, refrescando-se com a brisa marítima que entrava à força pelas narinas. Vigiava-os, para que não fossem tragados pelas ondas alteradas do mar.
Pier em ruinas, Inverno que se adivinhaPosted by Hello
Do mesmo local, olhando para o lado contrário (poente). O Pier antigo, fechado há largos anos na sequência de um incêndio. E que há dois anos acabou por sucumbir, sem forças para resistir à violência do mar na sua terrífica aliança com os ventos que aqui chegam vindos do sul. As pessoas espalham-se pelo passeio marítimo. Adivinham que estes raios de sol que vieram interromper a borrasca são dos últimos antes que a escuridão das estações adversas se instale de vez. Passeiam-se lentamente, calcorreando o cimento com passos lânguidos, como se esperassem demorar o mau tempo que por aí vem. O casal bem apressoado parece olhar com nostalgia para o cartaz estival que festeja o Verão e a praia. O semi-corpo desnudado que olha com deleite para o mar prazenteiro contrasta com a atenção do casal. O Pier derrotado anuncia-se no mesmo destino reservado ao cartaz e ao que ele simbolizou – o Verão, a luz diurna que se demorava por longas horas, os corpos sem o peso das roupas que são chamadas a agasalhar os desagradáveis e húmidos ventos que chegam a Brighton vindos dos lados do mar. Vêm dar lugar a um outro quadro, de refúgio, de recatamento nas lareiras que escondem as marcas do Inverno.

24.12.04

Um conto de natal

(Ou um natal como “deve ser”)

Lá fora, a neve cai. Os flocos pousam levemente, preenchem as camadas sucessivas de neve que se acumulam no beiral da janela. As copas das árvores vão perdendo a cor verde, revestindo-se da alvura da neve que pesa sobre as suas folhas. A noite vai caindo.

Dentro da casa, a azáfama natalícia invadiu o espaço. Todos, à sua maneira, dão um contributo para a noite que se avizinha. Na cozinha, os preparativos gastronómicos soltam uma mistura de odores que invade a casa. São os cheiros que se associam à quadra: as rabanadas, os sonhos, o odor da canela fervida com o limão nos preparativos para os formigos. Outros encarregam-se da mesa. Decorada a preceito, porque esta é uma noite única no ano. Há que esmerar nos pormenores, usando ornamentos alusivos ao natal. Os guardanapos trazem um tom garrido à mesa: são em tom avermelhado, com motivos natalícios (pais natais que se fazem transportar por renas). Inspecciona-se a árvore de natal, para ver se não há nenhuma bola partida pelas garras do gato atrevido, se todas as luzes estão funcionais.

Na sala, a lareira é vigiada. O frio anunciado pela neve não pode tomar conta da casa. Os pedaços de madeira, cortados ainda de manhã, ainda a neve não tinha chegado, são resguardados junto à lareira. Estão prontos a serem consumidos pelo fogo, iluminando com as suas labaredas o natal da família. A tenaz que mexe e remexe os nacos de madeira é manipulada pelo avô. Ninguém como ele sabe fazer uma boa lareira. As chamas vão crepitando, as cinzas incandescentes fazem-se notar no chão da fogueira. O odor a fumo vai-se misturando com os cheiros que vêm da cozinha. Conferem uma atmosfera única, consumam o quadro que se confunde com o natal que se sucede ano atrás de ano.

As pessoas vão chegando. Carregadas de sacos, que amontoam as prendas que hão-de ser trocadas quando a noite já for alta. Guardam-se os sacos num lugar esconso, resguardados da curiosidade das crianças. Na cozinha, os últimos preparativos para o jantar. Na sala, os homens põem a conversa em dia. Os temas controversos ficam, por um dia, à porta da rua. Todos convertem os espíritos para a concórdia natalícia. As crianças assenhoreiam-se da algazarra. Estão excitadas, a contar as horas que faltam para a visita do pai natal. A contagem decrescente dos dias chegara à mágica folha do calendário: “24”. Nunca como noutros dias é tão reconfortante rasgar a folha do calendário do dia que se esvaiu antes do sono.

Já estão todos em casa. Da cozinha vêm instruções para as pessoas se sentarem à mesa. O apetite voraz dos comensais mais velhos contrasta com o desejo das crianças que o tempo da refeição não se eternize – não vá o pai natal fazer um desvio e retardar a sua visita. A impaciência começa a gotejar à medida que os mais velhos prolongam o banquetear das iguarias da época, que desfilam umas atrás das outras sem cessar. Só quando as barrigas começam a ficar fartas, os ouvidos dos mais velhos despertam para as preces dos mais novos.

Eles não se cansam de perguntar se o pai natal está longe. Um dos mais velhos, com a mania das tecnologias, simula uma conversa com o pai natal através do telemóvel. Sentencia: “dez minutos, o pai natal manda dizer que está aqui em dez minutos”. É a senha para um dos mais velhos se ir vestir de pai natal, carregando, com a ajuda de uns acólitos de ocasião, os fartos sacos de prendas. O barbudo de vermelho vestido descarrega os sacos e deseja bom natal a todos, despedindo-se até ao ano que vem. Lamenta não poder ficar, mas a noite é trabalhosa e outras casas merecem a sua visita.

É o momento mítico da noite. Os mais novos esbugalham os olhos de cada vez que o seu nome é anunciado. Desembrulham as prendas com avidez. Reagem com excitação a algumas das prendas, com indiferença às mais simbólicas. Deixam de lado as que menos lhes interessam e concentram-se nas mais vistosas. Os mais velhos deliciam-se com a exultação delas crianças. Ao fim de meia hora, a excitação começa a ser invadida pelo cansaço. Foi muita a espera, e muitas as emoções que levaram os mais novos à exaustão. Começam a espalhar-se pela sala, vencidos pelo sono. É chegado o momento de arrumar as coisas na cozinha. Ficam empilhadas para o dia seguinte, porque a canseira também derrotou os mais velhos.

As despedidas. Cada um vai para o seu quarto, outros agasalham-se porque têm de regressar às suas casas calcorreando as estradas geladas pela neve que entretanto fez uma trégua. Mais um natal, mais votos de que no ano seguinte todos estejam reunidos à volta da mesa para celebrar a festa da família. O habitual. A modorra que se vai instalando, ano após ano, mas que é sempre festejada e leva os mais cépticos a arranjar forças, lá no fundo, para ver no natal um motivo de alegria.

23.12.04

O natal contado às criancinhas (a versão capitalista)

A perene tarefa de ser pai: educar os filhos no espírito da quadra natalícia. Um dilema que surge. Entre as convicções pessoais, dominadas por uma inexplicável tristeza que me invade na quadra, e os outros 50% da sociedade familiar que se querem manter arreigados ao espírito tradicional do natal. No fio do arame, entre a desmistificação do natal como nos é vendido, e a necessidade de sermos elos, pequenos elos, perpetuadores da tradição natalícia. Imagino as consequências das opções. Levar por diante a vontade pessoal, sabendo que os filhos estarão num mundo estranho quando forem postos em contacto com outras crianças, elas tributárias do “natal-como-deve-ser”. Ou sucumbir à maré, deixar que os filhos se enredem no mundo faz de conta que tem a sua expressão máxima no natal, no conforto de não os votar ao ostracismo social.

Depois, num esforço interior, tentar contar às crianças o que é o natal (modalidade pagã, apenas). Levá-las a acreditar no famigerado pai natal, essa pretensa invenção da Coca-Cola. O velho barbudo, que mantém residência algures na distante Lapónia (não esquecer de apontar a dedo a localização no mapa), explicar porque traja de vermelho e enverga farfalhuda barba branca sem que ambos os sinais um resquício do fantasmagórico marxismo…

Ensinar-lhes que o pai natal viaja de trenó, movido a energia de rena milagrosa – umas renas que só existem perto do pólo norte, que se distinguem na fauna animal por serem os únicos quadrúpedes que conseguem voar sem terem asas. É preciso explicar-lhes o significado do dom da ubiquidade. Uma derivação metafísica impõe-se: fazer-lhes ver que as pessoas só podem estar num sítio de cada vez, que a nossa matéria não se pode pulverizar em múltiplas partículas para estarmos em muitos sítios ao mesmo tempo; o pai natal é diferente. Que, à semelhança de alguém que se chama deus, consegue estar presente em todo o lado ao mesmo tempo, milagre cósmico que faz chegar as prendas ansiadas a todos os lares em função da abundância material. Ou, numa versão adaptada ao mundo moderno, notar que ubíquo só o tal deus, que o pai natal é uma entidade plural, uma espécie franchisada com representantes em todos os países, em todas as cidades, em todas as vilas e aldeias.

Na necessária socialização das crianças em infantários e escolas, mais difícil se torna escapar à questão do espírito natalício. Entre o politicamente correcto e os malefícios do consumismo globalizado, há todo um vasto oceano de diferenças de difícil harmonização. Por mais que vingue a convicção que o verdadeiro espírito natalício é o que cultiva sentimentos e não a posse de coisas, temo que este exercício seja remar contra uma maré poderosa. Um pai não pode contra um exército de pequenas crianças que convivem com os filhos. Nada pode contra as ondas alterosas que inculcam nas crianças a convicção de que natal é o momento em que são invadidas por um enxurrada de prendas.

É um lugar comum censurar o espírito natalício subvertido pela febre consumista. As crianças são levadas a interpretar o natal pelo termómetro das prendas. Quanto mais recebem, mais os ofertantes delas gostam. O fenómeno vem de trás e cultiva o efeito bola de neve. As crianças de hoje foram habituadas no fervor consumista, que tem o seu expoente máximo no natal. Quando as crianças de hoje se transformam nos pais de amanhã, há a transmissão espontânea do comportamento materialista.

Diria que é genético. Mas não diria que é uma subversão do espírito natalício, ou sequer a materialização das relações humanas, como alguns profetas da desgraça sugerem. Porque, no fundo, receber é a contrapartida de dar. Há algo de pedagógico nisto. As crianças devem ser educadas na arte de receber. E de preferência, receber com generosidade. A pedagogia paternal divide-se em dois actos: ser generoso, mas fazer ver que é a generosidade possível dentro das condições materiais que existem. Este é o espírito que fermenta nas crianças, adultos de amanhã, a predisposição para a troca, para serem elas mesmas generosas quando chegar o seu momento de oferecerem. É o natal ao serviço do capitalismo – e, como sempre, o capitalismo ao serviço do bem-estar da humanidade.

A hipocrisia que desdenha do natal consumista deve ser denunciada. Tenta educar as crianças no espírito descomprometido do natal, inculcando que é agora, mais do que nunca, que os laços familiares se devem estreitar, que as pessoas devem ser atreitas a fazer o bem. Suprema hipocrisia. Como se isto apenas fosse emergente no natal, e se pudesse esquecer durante os restantes dias do ano.

22.12.04

A eutanásia

Nos últimos tempos tem-se reavivado o debate acerca da eutanásia. Em alguns países os argumentos favoráveis e contrários à eutanásia voltam a ser contrastados. Nesses países discute-se a possibilidade de legalizar a eutanásia em condições limitadas, ainda que sob o manto da legalidade se escape à palavra tão causticada ao longo dos tempos. Em sua vez surge a expressão “assistência na morte”.

Este é um daqueles domínios que ilustra como vivemos enfeudados à ideia de que a vida individual é tutelada por uma qualquer entidade superior ao eu. Seja a deus, seja ao Estado. Somos senhores da nossa vida até a um limite em que a disposição da vida individual choca com os valores estabelecidos na sociedade. É esta a linha de raciocínio dos opositores à eutanásia. Trata-se de uma decisão delicada: um doente em estado terminal deseja pôr fim à sua vida, necessitando de auxílio médico para alcançar o objectivo. No fundo, alguém é chamado a colocar um ponto final na vida de outrem. O que pode levar a um conflito de consciência para quem é chamado a desligar o doente do ténue fio que ainda o mantém agarrado a uma vida periclitante. Mais grave, este acto em que alguém tira a vida a outra pessoa – mesmo que com o consentimento desta, ou de seus familiares – é criminalmente censurável.

São conflitos que colocam em lados diferentes da barricada o doente que anseia por ver a sua vida terminada e a sociedade que zela pelos valores inculcados na maioria. Diz-se que o candidato à eutanásia não tem o direito a dispor da sua vida para dela se desligar, porque isso atenta contra o valor da vida, tão preservado pela sociedade. O argumento seria defensável, não fossem muitos dos países onde se ergue uma cortina de hostilidade contra a eutanásia os primeiros a espezinhar o valor da vida – sejam aqueles onde ainda existe a pena de morte (ou a prisão perpétua), sejam aqueles que não hesitam em atentar contra a vida alheia em nome de guerras duvidosas.

Fico perplexo como se defendem os valores que cimentam a propalada “consciência social”, deitando para trás das costas os interesses de quem quer terminar a sua vida por estar imerso num sofrimento físico e mental ímpar. É fácil exibir o pudor de quem se sente ofendido, ou pelo menos incomodado, quando alguém quer morrer por saber que não consegue viver para além da doença que o definha. É confortável, porque o sofrimento não passa pelo corpo destas pessoas. É fácil ser juiz do sofrimento alheio, estar pronto a lavrar sentenças que repudiam a tentativa de alguém pôr cobro ao sofrimento de viver acorrentado a uma doença que eterniza o momento em que há-de chegar a morte. Gostava de saber se mantinham a mesma opinião se fossem apanhados na armadilha de uma doença letal, traiçoeira, que os acorrentasse a uma vida vegetativa, cheia de sacrifício e indignidade. Gostava de saber se mesmo aí seriam contra a eutanásia.

Sei que os mais cautelosos invocam a necessidade de prever situações obscuras, em que o desejo da eutanásia se confunde com o perverso gosto de um médico terminar vidas alheias sem o consentimento destas pessoas. Como é difícil, noutros casos, obter o consentimento do doente – por não poder exprimir a sua vontade. Por cima de tudo isto estão valores mais elevados. Reconhecer o direito de dispor da própria vida, ainda que o limite se estique e passe a tocar aquilo que está convencionado ser terreno em que o direito individual invade os interesses da sociedade. Para que a pessoa não continue a agrilhoar os seus destinos a decisões que estão fora da sua esfera, como se a vida de cada um pertencesse a todos.

Ao que sei, aos católicos que têm a coragem de cometer suicídio não é reconhecido o direito de sepultura em cemitérios segundo os rituais da religião a que pertencem. Um dos dogmas do catolicismo é de que deus criou a vida, e só deus dela pode dispor. A vida há-de terminar quando deus assim decidir. Na sua bondade, deus deve preferir prolongar o martírio daqueles que já não têm esperança senão a de ver a sua vida findar. Um deus bom é aquele que não tem problemas em eternizar o sofrimento. Dirão os crentes, na sua placidez, que foi assim que deus quis.

Será que numa era de dessacralização temos uma entidade terrena que se substitui à entidade divina que se assenhoreou da vida humana? Podemos dessacralizar a vida em sociedade, mas os vícios de raciocínio estão tão enraizados que iremos continuar a encarar o problema da mesma forma. A eutanásia há-de persistir envolta num pecado: antes religioso, agora social. Mas a ideia de pecado há-de perdurar, nem que seja para alicerçar o poder daqueles que se apossam do Estado para exercer a sua vigilância pedagógica sobre todos nós. Ou de como deus se faz homem...

No rescaldo: um direito tão basilar como o de dispor da vida individual – em toda a sua latitude, abrangendo todos os actos que interessam à vida de cada indivíduo – há-de continuar a ser negado, para as consciências que se sentem ofendidas poderem repousar descansadamente todas as noites. Ignorando que, nesse mesmo momento, algumas pessoas vivem o tormento da condenação à morte sem saberem quando, eternizando um sofrimento que só elas sentem. Eis o altruísmo social em toda a sua magnitude!

21.12.04

Efémero

Uma meta ultrapassada. Um objectivo de vida que fica para trás (um, entre os que vão desfilando ao longo da vida). Anos de trabalho, canseiras, avanços e recuos, angústia ao sentir que tinha chegado a um ponto sem retorno. A passagem do tempo era boa conselheira: a paciência destruía os obstáculos, deixava mais cabos dobrados e mais etapas pela frente para vencer. Foram quatro anos que pareciam intermináveis. Até à etapa final, a comunicação de que o grau estava conferido.

O alívio. Doravante, a necessidade de desviar a atenção para outras coisas que trazem mais recompensas. Para algo que não me exponha perante as debilidades de um trabalho, quando suponho que as críticas partem da incompreensão. Saio da etapa final com a noção de que quero que isto signifique um ponto de viragem, não uma linha de continuidade.

Para muitos que andam na profissão, a meta ontem alcançada representa um ponto intermédio. É como se fosse o último degrau que leva a um patamar, sabendo que para cima há outros patamares que espreitam em jeito de desafio. Comigo a reacção é diferente. Sinto-me cansado da investigação. Este blog é o sinal vivo desse cansaço que já dura há algum tempo. Uma válvula de escape, a necessidade de buscar na escrita um refúgio para os caminhos enviesados da investigação, para a aridez que via fecundar à medida que ela avançava. Mesmo estando a pesquisar um tema do meu agrado, olhava para o resultado e sentia-o abstracto, desligado da realidade, um produto afastado do interesse comum. Pela primeira vez, concordei com as acusações de que a universidade vive de costas voltadas para o mundo real. Senti-o com a minha própria investigação!

Depois há o efémero. Ao ler a informação de que o grau estava atribuído, não senti uma irreprimível vontade de saltar da cadeira, de soltar um grito de contentamento. Estranhamente, fiquei trémulo. Apático, como se estivesse anestesiado pela boa nova que acabava de receber. O alívio sobrepôs-se ao contentamento. E se notei algum regozijo, esgotou-se ao fim de breves minutos. Estranha sensação. Receber a notícia esperada, pela qual tanto suor foi derramado, tantos sacrifícios foram feitos; mas recebê-la inerte de emoções, quase indiferente. A meta atingida, o objectivo por fim agarrado com ambas as mãos, e parece que ele deixou de fazer sentido. Sinto-me como se estivesse amordaçado pela ressaca de uma noite de álcool abundante: sem compreender o bem-estar da noite anterior, apenas sentido o mal-estar da ressaca torturante no dia seguinte.

Já não é a primeira vez que este estranho sentimento aflora. Também no passado a felicidade de outros projectos de vida se consumiu de forma instantânea. Não chegava a haver o momento para a libertação das emoções. O momento fugaz em que a notícia esperada era anunciada levava a descarregar a pressão acumulada. Esses grandes projectos de vida fazem mais sentido quando são levados durante os preparativos. Eles fazem mais sentido quando se vai desbravando o terreno que permite atingir o objectivo. Uma vez lá chegado, ele deixa de fazer o sentido que supunha que faria durante o período em que lutei contra mim mesmo para lá chegar. Instantes fugazes, regalias que se esgotam num precioso mas ténue momento. Depois fica todo o tempo do mundo por cumprir.

Já antes senti como ao chegar a uma destas metas significativas da vida ela parecia não ter o significado esperado. Talvez por saber que o objectivo estava consumado e que a sua comemoração interior não me preenchia. E, sobretudo, por perceber que atingida uma meta outras ficam por traçar para o futuro. Ou a vida deixa de ter sentido, remoendo a existência como se o vazio que preenche o horizonte fosse o grande obstáculo a ultrapassar. Depois de um projecto, outro se segue – ou o oxigénio da vida esgota-se com a vitória efémera de um projecto acabado.

Ainda me falta perceber se é nisto que se consome a essência da vida, ou se é apenas um caminho para andar distraído com o que menos interessa.

20.12.04

Rir sem parar: um relance sobre a paisagem política

Olho para o histórico dos textos do blog. Para minha satisfação, vejo que não escrevo sobre política há vários dias. E quero prometer a mim mesmo que depois deste texto quero um período de nojo, um luto necessário para bem da minha sanidade mental. Este exórdio é um manifesto do riso cínico que se instalou desde que o nível da paisagem política desceu para além do imaginável, depois do impensável engenheiro Guterres.

A coisa nem pode ser levada a sério. Sob pena do estertor da tristeza cobrir de cinzento um panorama que de si não é dado a receber de braços abertos as cores brilhantes do sol. Uns, lá para o norte da Europa, queixam-se das poucas horas de sol que têm. Chegam aqui ao sul e extasiam-se com o sol fantástico que faz desta uma terra climaticamente abençoada. Mas os nativos da terra soalheira insistem em disparar no próprio pé. Permanecem emudecidos, agrilhoados a um cinzentismo que ofusca o esplendor da luz solar que devia fazer de nós um povo mais risonho.

Ao contrário, reina a auto-comiseração colectiva. Há séculos que vivemos neste estado de torpor colectivo. Diria que é o devir nacional, o que nos separa de outros povos tão latinos como nós, mas tão diferentes na alegria de viver. Daí o fado e outras coisas que cultivam a beleza da dor humana. Daí que o panorama político tenha vindo numa trajectória descendente. De desgraça em desgraça, afunda-se a cova onde estamos. E a coisa promete não ficar por aqui, se forem confirmadas as sondagens.

É nestas alturas que vejo a União Europeia como a nossa salvadora. A desdita política doméstica pode trazer à superfície os episódios mais grotescos, as cenas mais lamentáveis. Portugal continua a rolar, não obstante. Porque as grandes decisões já não são tomadas em Lisboa, no Terreiro do Paço ou em qualquer outro local onde estejam albergados ministérios. Essas são as decisões tomadas em conjunto pelos países que fazem parte da União Europeia. É, de forma indirecta, a importação de políticos que um amigo meu sugeria como a única solução para o disparate nacional em que estamos mergulhados.

O panorama não é tão inditoso como parece. Diria tratar-se de uma tragicomédia. Sendo agridoce, há que saber separar os sabores e extrair a essência de cada uma das parcelas. Quanto à tragédia, melhor será não explorar o tema. É a sina: um povo sorumbático e descontente com o que somos, com o que construímos. Tragédia é a apetência para a mediocridade. É sermos coniventes com a exposição mediática de criaturas que, por não saberem fazer mais nada na vida, se entregam nos braços da política. O que diz muito de como vai a coisa política entre portas (versão ainda mais radical do messianismo do professor Cavaco; porque ele também lá esteve, da má imagem não se consegue livrar – com a excepção de que conseguiu fazer outras coisas úteis fora da política…).

Agora andamos com a pré-campanha. Martírio que há-de durar semanas a fio, com o chorrilho de disparates, com as promessas que em campanha nunca são vãs, mesmo que ao observador mais desatento elas o sejam, claras como a água. Ataques pessoais, manobras que iludem o eleitorado – vale de tudo um pouco. E dois figurões, candidatos ao mesmo cargo, digladiam-se num duelo de irmãos. Um quer-se manter agarrado à cadeira do poder, desfiando uma teatralização pródiga em actos de vitimização. O outro, ideias ocas, a mesma pose fabricada, qual pacotilha que embeleza produtos inanes, vai herdar o poder pela inépcia do irmão. Sem ideias que se vejam, rodeado pela chusma que faz do partido que lidera (nas sábias palavras de um venerando colega da universidade) a “nata da merda”.

Visto de cima, como se planasse sobre o território, o panorama parece pouco simpático. Ora o segredo é conseguir rir com os nossos males. Não é mero expediente, como se tentasse passar uma esponja, fazendo de conta que batemos no fundo (mas será desta que batemos no fundo?). É genuíno: é saber ser cínico e moldar a tristeza alheia como causa da boa disposição de quem se ri a bandeiras despregadas. A sério, nunca me ri tanto com a política nacional!

17.12.04

A nudez contra a utilização de peles de animais

Protestar está na ordem do dia. Contra a prepotência dos poderosos, a sociedade democrática conferiu uma arma de arremesso: o protesto, a manifestação, pacífica ou com laivos de violência. Protestam os sindicatos: querem um mundo cheio de direitos para os trabalhadores em contrapartida de uma ausência de deveres. Protestam os estudantes: querem um ensino que cultive o facilitismo. Protestam os agricultores: para que se mantenha a “segurança social” suportada por quem consome os seus produtos. Protestam os meios culturais: ávidos para sorver mais e mais recursos ao erário público, como se os contribuintes tivessem um dever categórico de subsidiar a produção cultural destinada a elites circunscritas. Protestam os abstencionistas: contra o marasmo, a reduzida qualidade dos actores do processo político.

Protestam activistas dos direitos dos animais: contra os abusos perpetrados em animais indefesos. Tenho que confessar que não sou atreito ao verbo fácil do protesto. Admito que é uma forma de exteriorizar a liberdade de expressão, trave mestra de uma sociedade que reconhece as liberdades individuais. Por razões estéticas, por razões ligadas ao individualismo que cultivo, não sou dado a alinhar em manifestações colectivas que afirmam um descontentamento. Quando o faço, restrinjo o protesto ao meu íntimo. É o que acontece com a tendência sistemática e militante para a abstenção eleitoral.

A excepção seria – se me fosse pedido um contributo – na defesa dos direitos dos animais. Sei que estaria ao lado de sectores que não atraem a minha simpatia – os ecologistas inquinados por uma forma exacerbada de defender as suas causas. Mais importante do que as más companhias seria a nobreza da causa. Vêm de há muito as manifestações que reclamam a proibição do comércio de peles de animais. Utilizam a nudez como arma contra a perfídia de matar animais pelo prazer estético de umas madames endinheiradas.

Há dias, novas manifestações algures na Europa. Apenas vi de relance as imagens: umas modelos com parcas vestimentas, só a tapar o essencial, despertaram a atenção. Desatento – ou, para ser fiel à verdade, concentrado na nudez que desfilava no ecrã – só ao fim de alguns momentos percebei o motivo da manifestação. Elas tiraram a roupa para chamar a atenção da estupidez que é sacrificar a vida de animais sem defesa, apenas para comprazimento pessoal de senhoras que se pavoneiam nos salões da alta sociedade trajando os seus casacos de peles.

Em tempos vi um documentário que explicava como, nas terras inóspitas e geladas do norte do Canadá, caçadores matavam a sangue frio as crias de focas para lhes subtraírem a pele alva. Na retina ficaram os gritos lancinantes das mães foca, no desespero de nada poderem fazer para salvar a vida da cria sacrificada. Testemunhei, com lividez, a frieza atroz dos caçadores, maquinalmente espetando o arpão. Os carrascos de criaturas inocentes que pagam com o preço da sua existência a necessidade de acalentar o ego narcisista de senhoras abastadas.

No final do documentário, o vazio e a revolta apoderaram-se de mim. É por isso que compreendo as manifestações de quem ergue a voz contra a ignomínia de tirar brutalmente a vida a animais para aproveitar as suas peles para os esbeltos casacos. Compreendo-as, apesar da nota folclórica que é indisfarçável. E dou comigo a pensar o que diria se alguém, algum dia, me desafiasse a dar a minha nudez contra as atrocidades cometidas sobre tantos animais. Não sei se a resposta está preconcebida pela certeza de que ninguém se queria aproveitar da minha nudez para o efeito. Ainda que a hipótese se colocasse, não hesitava em concordar. Como não hesitava em aplaudir quem – como vi num filme qualquer – inutilizasse um casaco de peles majestoso com um spray vertendo tinta vermelha.

Nestas ocasiões não consigo reprimir a revolta interior. Vejo-me um militante defensor dos animais. E desafio os que consideram que é na superioridade do ser humano que está a justificação para que os outros animais estejam ao serviço das necessidades humanas. Argumento insidioso, é ele que me coloca mais perto de ser vegetariano. Já esteve mais longe.

16.12.04

Sessenta dias

Dois meses a aprender a viver. Sessenta dias de pulsões diárias, num mundo novo que nos trouxeste. Dos teus olhos azulados, o mundo passou a ter outras tonalidades. Como se uma imparável maré de tinta, de cores alegres, tivesse tingido o planeta. Contemplar o teu sono tranquilo é como fitar o horizonte e saber que no sol que se põe vem o anúncio de dias cheios de vontade para tirar tudo o que a vida tem para oferecer.

Os choros, as comoções, os risos que ao início só existiam nos teus sonos. Tudo e mais alguma coisa. Percorrer novos caminhos, com emoções nunca vividas – é o património de uma vida nova que traz novos horizontes à existência. Quando sussurras pequenos gemidos de contentamento, depois de saciares a tua fome, é como se me tivesse banqueteado com um lauto repasto – ainda que o meu estômago estivesse a ranger de fome. Os choros que preenchem a casa, uma melodia que encanta, mesmo quando eles perduram.

Os dias passam e vais tomando mão nos teus pais. Esboças largos sorrisos que são como pétalas que sucumbem de uma árvore mágica. Com eles perfumas a casa. Nem os sonos quebrados a meio, ou aqueles dias em que sentíamos a dificuldade na tua respiração, tiraram o encantamento. Em vez da inquietação, do sobressalto pelo mínimo ai, é o embevecimento que triunfa.

Não hão-de faltar ocasiões para celebrar contigo. A cada dia que passa, a cada momento que sinto que devia partilhar mais tempo contigo, sei que tu já sentes que estou por perto. Reconforta-me saber que sou teu anjo protector, tal como sei que me deste coisas que nunca pensei que fossem inteligíveis. Olhar-te sem dar conta do tempo a passar é dos momentos mais gratificantes na rotina diária. Uma rotina que não o chega a ser, tantas as recompensas que a abstracção de tudo me trazem esses singelos momentos. É como se houvesse um feixe de luz a entrar directo em mim, com a força indómita da vida repleta de coisas por aprender que carregas em ti. No final, sentir que sou eu que tenho que reaprender através da tua aprendizagem.

Cada segundo de vida que passa por ti é um mistério por sondar. Adivinhar os teus sonhos, ora de sobressalto como de empolgantes sorrisos, é tarefa impossível. Já deixei de imaginar os mundos que se desvelam em ti para teres esses esgares no sono. Emudeço ao observar como olhas com curiosidade para as coisas que estão à tua volta, como as cores e os sons despertam os sentidos. Percorrer contigo as veredas que vão no encalço do crescimento motivam novas entrelaçados com o tempo vindouro. Elos perdidos deixam de fazer sentido.

Ao deitar, passo pela tua cama. Espreito, ansioso por confirmar que estás num sono tranquilo. E perco-me mais uns minutos na contemplação da pequena deitada na sua cama, braços para cima, os lábios que sorvem uma refeição imaginária. Passo ao de leve pelas tuas mãos. Afago-as, sempre frias e esbranquiçadas, e deixo-me enlevar pela ternura que sinto exalar da tua pele. Estou então preparado para embrulhar o sono, tão tranquilo como o teu. Contagiado pela força indomável da tua frágil existência.

O tempo é o juiz supremo do caminho que se abre por diante. Tempo frugal, que obriga a olhar para trás e esconde que dois meses, sessenta dias, levas de vida. Nem parece que ainda ontem começaste a espreitar, temerosa, um mundo diferente daquele que a tua mãe te deu na gestação. Esse é o tempo que, contigo ao lado, abranda. O tempo que queria congelado nos momentos em que o resto deixa de fazer sentido, quando estaco diante de ti sem vontade para nada mais fazer. É aí que, por breves momentos, acredito que o tempo se imortaliza: nessas imagens capturadas para todo o sempre, bem resguardadas da poeira do tempo.

15.12.04

Copiar é uma arte

Saio da universidade, num intervalo entre aulas. Dirijo-me para o portão e vejo, ao fim da descida, quatro alunos parados em alegre conversa. Como estavam de costas, não se aperceberam que me aproximava. Ao passar por eles, pude apanhar uma parte da conversa:

- Que achas?

- Não é difícil. Ainda por cima o Prof. põe-nos à vontade. Com este é fácil copiar.

O passo apressado apenas deu para captar esta parte do diálogo. Deixei o portão para trás, atravessei a rua e dirigi-me ao carro. Meia dúzia de metros antes do sítio onde o tinha estacionado, alguns pequenos papéis espalhados pelo chão. Detive-me, por breves momentos, porque sentia ter alguma familiaridade com aqueles papéis. Eram “auxiliares de memória” que já tinham prestado a sua função a um aluno mais preguiçoso.

Os papéis eram-me familiares: já por várias vezes encontrei coisas do género perdidas negligentemente no chão, ou mesmo de forma provocatória deixados junto a caixotes de lixo em salas de aula. Pequenos rectângulos de papel, letra minúscula a exigir uma boa lupa, convocando as possibilidades tecnológicas do momento: o processamento de texto dos computadores que permite redigir em letra pequena, a que se junta a possibilidade de realizar fotocópias reduzidas que acobertam os copianços da vigilância zelosa dos professores.

O terceiro acto: horas mais tarde, quando regressei para uma aula. Ao expor a matéria gosto de estender as pernas, caminhando de um lado para o outro da sala. Quando a configuração da sala o permite, estico-me ao longo da sala, percorrendo o corredor central que separa as duas fileiras de carteiras. Foi num destes momentos que reparei nas costas de uma cadeira diligentemente preenchidas a lápis com dizeres que tinham algo a ver com uma disciplina da área da sociologia. A criatura autora dera-se ao trabalho de ocupar uma sala, antes do teste ter lugar, e com paciência de chinês deu uma nova aparência às costas da cadeira. Adivinho que o fez com a cumplicidade de alguns colegas colocados à porta da sala, não fora acontecer que um contínuo irrompesse sala adentro e abortasse a tarefa.

Costumo dizer aos meus alunos que copiar é uma arte. A ciência está em saber – e conseguir – enganar o professor. É um domínio em que a imaginação fértil é um instrumento que os coloca na senda do sucesso. Por mais atento que este esteja, é impossível vigiar uma sala com dezenas de alunos a fazer um exame. Não sou daqueles que percorre ansiosamente a sala em busca dos infractores, criando um clima de terror psicológico que amedronta os que querem infringir e aqueles que nada têm a temer. Até acontece que por largos momentos me alheio da audiência, passando os olhos por um livro que me acompanha em vigilâncias de exames. É aí que os pequenos papéis começam a espreitar entre mangas de casacos, entre a folha de rascunho que o esconde, nas pernas que se entreabrem para destapar os milagrosos papelinhos.

Só me aborrecem aqueles alunos que o tentam fazer de forma descarada, descuidada. É nesses casos que pratico a minha vingança. Deixo-os provar o fruto proibido, permito que eles achem que me estão a enganar. Deixo-os imersos na convicção de que o sucesso está ali ao virar da esquina. Quando a coisa passa a ser flagrante demais, acerco-me do artista e exijo que entregue os “auxiliares de memória”. De seguida, marco na folha de teste o momento em que o aluno foi apanhado e informo-o que tudo o que escreveu até aí não conta para efeitos de avaliação. Só o que vier daí para a frente será corrigido e avaliado. Na maior parte dos casos, ao fim de alguns minutos entregam a folha de teste e declaram desistência. Acabam por ter sorte: seria mais humilhante aparecer na pauta a menção “anulado” do que a informação de “desistência”. Eis a dimensão da minha generosidade…

Isto no dia em que na sala de professores encontrei uma colega – daquelas que irrita o mais pacato – a perorar sobre a geração perdida que se senta diante de nós nas salas de aula. Já não é a primeira vez que ouço lições de moral da boca da senhora. Hoje indignava-se contra o matraquear (porém silencioso) nas teclas de telemóvel quando, a meio de uma aula, um aluno decide responder a um SMS. Com um sentido de humor duvidoso que vai fazendo escola naquela casa, exige que o aluno se aparte do “tamagochi”. Por, nas suas palavras impregnadas de uma moralidade acima da média, o aluno perturbar a atenção dos colegas e da própria professora.

É nestas ocasiões que prefiro um aluno matreiro, preguiçoso, desinteressado, com tendência para a infracção. É mais fácil aturá-lo do que estes pregadores de moral que se incomodam com a ínfima coisa.

14.12.04

Que lugar à nostalgia?

Cruzo-me com um amigo. A conversa trivial consumiu os primeiros minutos. De passagem pela política, tema que me causa urticária por estes dias, fiz menção de mudarmos de assunto. Pergunto-lhe como estão os filhos. Contrariando respostas passadas, o optimismo começou a irromper nas palavras proferidas. Já não como antes, em que à pergunta respondia com a extenuação que lhe corroía por dentro, porque os dois filhos vieram quase seguidos e o primeiro não o deixava ter noites descansadas.

Desta vez, não me deixou conselhos de amigo que têm um travo de presente envenenado. Não me alertou que a vida passava a ser diferente, que ia deixar de ter tempo para as minhas coisas, para mim mesmo, que agora tudo gira em redor da criança acabada de nascer. Quando ouvia a ladainha, interrogava-me se era mesmo verdade que a vida de pai se transforma de tal maneira que o filho passa a ser o centro do universo. Como se apenas existisse o filho e nada mais importasse; como se o filho levasse ao desprendimento do pai, doravante destituído de existência própria. Descontava os exageros de retórica que lhe invadiam o discurso: não deve ser tarefa fácil ter dois filhos intervalados por um ano, para mais quando o primeiro não deixava lugar ao descanso nocturno dos pais.

Não é isto que me leva ao texto de hoje. A conversa entretanto desviou-se para outro assunto, que tocava lateralmente o tema dos filhos e da alteração da vida a que estávamos habituados. Sem saber como, a conversa confluiu nas memórias do passado. Quando as namoradas ainda não existiam, quando nos reuníamos todas as noites na Maiorca para tomar café e pôr a conversa em dia. Disse-me que tem saudades desse tempo, em que as conversas oscilavam entre assuntos banais e outros mais interessantes. Sentia falta das noitadas em casa dele, à volta de uma mesa, de um baralho de cartas e de copos regados de forma frugal. Sentenciou, com pesar: “agora é tudo diferente. Quase não tenho tempo para mim”.

Com isto tinha chegado a hora de iniciarmos as nossas aulas. Fomos subindo as escadas em passo lento, trocando as últimas palavras que convocavam a nostalgia mais funda. Duas horas depois, no final de mais uma jornada de trabalho, encaminhava-me para o carro quando me lembrei de algumas passagens da conversa. Interroguei-me se estes assomos de nostalgia (em doses variáveis consoante as pessoas) são sinal de perplexidade ou apenas a memória a deitar cá para fora as boas recordações que restam do passado. Quando se faz a retrospectiva dos momentos que preenchem o álbum das boas recordações, será sinal de descontentamento com o que temos hoje?

Já sentado no carro, fiquei imóvel por momentos a pensar na dúvida que me assaltava. A resposta não tardou. Por mais compensadores que sejam os momentos de nostalgia, por mais que se eleve o bem-estar quando as recordações emergem à superfície, à nostalgia fica reservado um papel menor. Não é sonegar o passado – seja o que de bom ficou para trás, sejam as más recordações, ou as más experiências de vida que serviram para amadurecer. É apenas sentir que o passado está feito e não volta a acontecer. Destapar o baú das recordações poderá ser gratificante para quem vive atormentado com o tempo presente. A asfixia deste tempo traz a sede pelo tempo que se ausentou, perdido nas folhas rasgadas do calendário. A poeira levantada ao abrir o baú do passado pode toldar o discernimento.

Por via de dúvidas, lancei outra vez a interrogação: e tu, Paulo, tens saudades desses tempos? Fazem parte do património das boas recordações do passado. Seguro de que tudo na vida tem o seu tempo, senti que a minha vida marcou encontro com esses momentos algures no passado, algures num momento certo. Não digo que tenha saudades como se o regresso a esse tempo fosse vital para a felicidade. Até porque de seguida surgiu outra interrogação no horizonte: e se o destino quisesse que as voltas da vida tivessem sido diferentes? E se estivesse sozinho, mais disponível para continuar a frequentar tertúlias nocturnas, não sentiria falta do que sabia não ter e que agora tenho?

É a irreprimível tendência do ser humano: não estar satisfeito com o que tem, ambicionar regressar ao que já teve, para logo de seguida carpir o arrependimento pela decisão tomada. Temos uma essência de eternos insatisfeitos!

13.12.04

Monumento à decadência

Está situado em Matosinhos, no final da circunvalação, quando a estrada desagua numa rotunda que a separa do mar. Há um par de meses plantaram dois enormes pilares de metal, um de cada lado da rotunda. Durante algum tempo a incógnita pairou no ar: para que serviriam aqueles pilares? Sempre desconfiado destas iniciativas de políticos com queda para a megalomania, não augurei nada de bom.

Tempo mais tarde, o produto final era dado a conhecer com toda a sua resplandecência. Uma rede gigantesca dependurada, presa ao alto das hastes dos pilares. Ambas as peças – pilares e rede – pintadas em sucessivas faixas de vermelho e branco. A rede tem, na sua parte superior, uma boca larga, afunilando à medida que se aproxima do solo. Ondula com os movimentos que lhe são trazidos pelo vento. Não é uma ode à boa estética.

Todos os dias deparo com este esboço de monumento e fico perplexo com o possível significado que os seus fautores lhe quiseram dar. Desconheço se há explicação oficial para a obra. Não li notícia sobre a sua inauguração, onde seria de esperar que os autarcas locais tivessem fornecido explicação para o nascimento de insólito monumento. Só me posso deitar a adivinhar. Confesso que esse é um exercício difícil. Por mais voltas que desse à cabeça, a cada dia que me cruzava com o monumento não conseguia chegar a conclusões plausíveis.

Mas eis que se fez luz. Acho que compreendi a mensagem que o monumento quer deixar para os anos vindouros. Ao reparar com mais atenção na forma da rede que desce do alto dos pilares, lembrei-me do poço da morte que costumava ser espectáculo circense. No poço da morte, dois motociclistas kamikazes desafiam as leis da gravidade, fazendo piruetas ensandecidas nas paredes inclinadas de um funil de madeira. Aquela rede tem as formas parecidas com o funil onde os artistas do poço da morte faziam as suas tropelias. Que é o que o autarca de Matosinhos se habitou a fazer ao longo dos anos infindáveis que leva ao leme da edilidade.

Que saiba, o espectáculo do poço da morte já não tem a mesma assiduidade do passado. Sinal dos tempos. Também será sinal de um tempo que não se repete para o “senhor de Matosinhos”. Adivinhando que o seu tempo chegou ao final da linha, terá querido perpetuar a sua marca com este monumento que regista o dedo indelével da sua passagem à frente dos destinos da cidade. Já nem discuto a exaustão do erário público que a obra representa. Decerto não havia outras prioridades – nem que fossem as tão queridas, para gente desta cor política, “preocupações sociais” – onde utilizar os recursos municipais que, para os autarcas, são sempre escassos.

Afinal a obra encaixa-se no perfil do homenageado. Talvez sem dar conta do que encomendou, o edil acabou por se retratar no monumento que mandou edificar. Vista de cima, a rede é um convite ao abismo. A sua boca de grandes dimensões afunila quando a rede desce a caminho do solo. Como se fosse um enorme sorvedouro, que suga até ao tutano. Não terá sido isto que o autarca em causa andou a fazer durante anos a fio?

O monumento encerra um outro significado. Quem olha para o cimo vê alguma grandeza, detectável pelas dimensões generosas da obra. Quando os olhos percorrem a rede em direcção ao chão, a dimensão esgota-se num decepcionante nada. Nisto o monumento será a imagem do cadastro do edil: entradas de leão, saídas de sendeiro. Não que a sua reputação nacional fosse imaculada. Mesmo dentro do seu partido, as manhas já tinham sido descobertas há muito tempo. Não estava entre as personalidades recomendáveis para dignificar a imagem exterior dos socialistas. Tratava-se de um fenómeno localizado, com a sua credibilidade concentrada na região que o viu fazer política autárquica a partidária.

Os últimos anos testemunham a queda no abismo. Outrora dominava a distrital dos socialistas, que entretanto perdeu. Outrora foi o senhor sem contestação da concelhia e do município, que se confundiam com a sua pessoa. Nem isto hoje consegue dominar. É a imagem do monumento, quando se olha na sua queda vertiginosa em direcção do solo. Nunca a obra de um autarca foi tão bem retratada! Com outra nota curiosa: o outro monumento à inutilidade (o famoso edifício transparente) agora já não está órfão. A menos de cem metros jaz um seu irmão, esta elipse vermelha e branca que espeta no solo a decadência de um dinossauro da política autárquica prestes a passar à história, sem glória, imerso na peixeirada (nunca a palavra se utilizou com tanta propriedade…) da lota que ceifou a vida de Sousa Franco.

10.12.04

Beautiful people

A Suzi, a cadela da casa, tem uns jornais estendidos no chão de uma das varandas. Os jornais servem para que ela liberte as urinas que não vão a tempo de ser despejadas nos passeios higiénicos que fazemos nas redondezas do prédio. Em tempos, a minha cadela tinha o luxo de urinar no Financial Times. Era, por assim dizer, um chichi com elevado teor de alta finança. Entretanto o Financial Times deixou de jazer, abandonado, pelos cantos da universidade. Agora a sua vez foi tomada pelo Mundo Universitário – um jornal de divulgação das actividades extra-académicas dos estudantes universitários. A nossa empregada encarrega-se de trazer resmas destes jornais para a Suzi os emporcalhar com a sua urina. Triste fado, o do mundo universitário que temos…

Nos últimos dias, quando vou à lavandaria e os olhos se cruzam com o chão, dou de caras com as mesmas páginas do Mundo Universitário. Quando se desdobram os jornais para fazer o urinol de substituição da Suzi, na maior parte das vezes abrem-se os jornais nas páginas centrais. É aí que, na última edição do Mundo Universitário, aparecem fotografias tiradas a jovens universitários em pleno divertimento nocturno. Pelo que pude reparar, é uma página habitual do pasquim. E como está nas páginas centrais, a secção deve ser um sucesso. As jovens criaturas que cirandam pelo meio nocturno estão sempre a jeito para a fotografia, ansiando que a sua seja uma das escolhidas para a selecção da próxima edição do jornaleco. É o estigma do beautiful people em todo o seu esplendor.

A mania do beautiful people é uma degenerescência do pretenso jet set nacional. Há as pessoas bonitas, aquelas que com a sua presença embelezam sempre uma festarola. As carinhas larocas de meninas que acabaram de ser imberbes e que preenchem com cores efusivas as páginas de jornais e revistas cor-de-rosa. Há as personagens inevitáveis, que já são património genético da propalada “vida social” do burgo. São os inspiradores de uma nova leva de aspirantes que querem singrar no meio. Surgem, empoleirados, sorriso rasgado de orelha a orelha, tentando subir mais um degrau que os levará ao reconhecimento público. Contentam-se com pouco – que para eles e elas será a aspiração máxima que a sua vida pequenina pode ambicionar: aparecer, aparecer, aparecer. Debaixo das luzes da ribalta. Sempre como exemplares de um paradigma da vacuidade doméstica: a gente bonita.

Às vezes ouço: “hoje gostava de sair para ver gente bonita”. A reacção espontânea que se apodera de mim é ficar em casa, não querer aturar as cabeças ocas da gente bonita. Sem contar que fico ofendido: então não se dá o caso que a cara-metade, ao anunciar que gostava de espairecer a mente dando uma vista de olhos pela “gente bonita”, dá a entender que a outra metade da cara dela (que sou eu) não é uma pessoa bonita? Atenção à subtileza: uma pessoa bonita não é a gente bonita que enxameia o inefável mundo social que emprenha as revistas cor-de-rosa. A diferença desnuda-se à vista desarmada: a gente bonita é um produto que não passa da superficialidade do embrulho. Raspado o verniz que o encanta, é o deserto de ideias. Nem sequer se pode dizer que são bonitos por fora e feios por dentro. Na sua maioria, nem sequer têm essa capacidade para serem feios por dentro. São apenas nulidades.

Este é um local curioso para se viver. Olhando para as tiragens dos órgãos de comunicação social, o segmento das revistas cor-de-rosa anda nos píncaros. Temos uma população que consome com avidez as tricas e baldrocas reportadas nessas revistas. É uma população sequiosa de saber as últimas da vida pessoal de uma certa vedeta, como houvesse a obrigação de partilhar a vida desta pessoa. E temos muita gente que devora as páginas destas revistas na esperança de que, finalmente, a sua fotografia apareça. É o êxtase, a consumação final de um projecto de vida. Para dizer a amigos e família, até à exaustão, que na edição 467 apareceu na revista.

Não sei se será mau feitio, mas apetece-me dizer, perante as evidências: com este universo de beautiful people, eu cá prefiro os feios, porcos e maus!

9.12.04

Responsabilidade pessoal: o que falta aos ex-fumadores

Convém não generalizar: nem todos os ex-fumadores se esquivam à responsabilidade pessoal. Só aqueles que, mercê da doença que levou parte da traqueia num maldito cancro, querem obter chorudas compensações das empresas tabaqueiras. A moda começou nos Estados Unidos. Clinton forçou um acordo entre as tabaqueiras e as associações de ex-fumadores para que as primeiras pagassem milionárias indemnizações às pessoas vitimadas por anos a fio de consumo de tabaco. A moda contagiou-se ao outro lado do Atlântico, já tendo chegado a Portugal.

Os comportamentos pessoais que visam sacudir a água do capote, passar um esponja por certos actos praticados no passado, são deploráveis. Enxotar a responsabilidade para os ombros de outrem, como se a pessoa alheia aos actos fosse a primeira responsável por eles, não abona em favor de que assim actua. Os ex-fumadores que tiveram a desdita da doença lancinante que os diminui para todo o sempre; as pessoas que tiveram ainda mais azar e viram a vida ceifada pelo consumo do tabaco; os familiares de quem já partiu, que juram vingança – todos formam uma amálgama que pretende passar uma esponja pelo passado. Querem responsabilidades das empresas que acenavam com o vício do tabaco. Julgam que as tabaqueiras os envenenaram num trágico beijo de morte (para os mais infelizes) e de incapacidade (para os que ainda se mantêm vivos).

Actuam como se fosse possível crer que, enquanto fumadores, eram simples autómatos. Ao exibirem a sua revolta contra as tabaqueiras, os ex-fumadores querem passar uma mensagem bem clara: enquanto foram fumadores não podiam assumir responsabilidade pelo acto de sacar um cigarro, puxar do isqueiro, acendê-lo e degustá-lo até ao filtro. Tudo se passou como se andassem hipnotizados pelo vício tabagista, exangues de livre arbítrio. É o cúmulo da desresponsabilização pessoal: querer atirar as culpas dos actos individuais para alguém que está fora da sua esfera.

Quando vejo as associações de ex-fumadores a clamar por justiça, e quando me lembro da onda higienista que varre o mundo – sempre pronta a impor comportamentos, com gentileza a apontar os “caminhos do bem” – cresce a inquietação. Primeiro, porque há juízes que são o alicerce deste “higienismo” social que se enraíza, lançando as bases para o ostracismo dos que desalinham. Depois, porque as pessoas começam-se a aperceber que vale a pena provar o fruto proibido: sabem que a jusante alguém há-de suportar as suas responsabilidades. Por fim, esta mania pode abrir precedentes perigosos. Pode lançar a ponte para que o mesmo aconteça noutras áreas, sedimentando a ideia de que não somos senhores da nossa vontade porque, por conveniência, acreditamos que ela é comandada por uma qualquer entidade com forças superiores às nossas. É um simples pretexto para fugirmos da culpa própria. O amesquinhamento de cada um que lança as culpas para outros, na confissão pública de seres que de tão pequeninos não merecem a maioridade social.

Estou a adivinhar futuros actos desta maquiavélica encenação. Também a sinistralidade automóvel faz muitas vítimas. Também aqui os actos individuais importam acima de tudo (descontando os defeitos das estradas, a má formação com que saímos das escolas de condução, etc.). Vai demorar muito tempo até que as vítimas de acidente de viação (e seus familiares) comecem a inundar os tribunais com processos para extrair lucrativas indemnizações dos fabricantes de automóveis? Afinal são eles que, com o avanço da tecnologia, fazem carros mais rápidos. A velocidade é um convite irrecusável às sensações fortes. Os culpados são os fabricantes de automóveis que deviam pôr um travão na performance dos carros. A lógica é a mesma dos ex-fumadores que querem sacar dinheiro às tabaqueiras.

A eito, uma convicção que se reforça: quando tanto se quer confiar na vontade de cada cidadão como base de uma responsabilidade colectiva que é o património do que somos, como justificar a responsabilidade colectiva se fugimos a sete pés da responsabilidade individual? É a rábula de construir uma casa começando pelo telhado: tarefa impossível. Acobertamo-nos nos outros, nessa coisa abstracta que é o “Estado”. Na falta de discernimento para assumir as responsabilidades dos actos individuais, virá o Estado, entidade sempre paternalista, colocar a mão no nosso ombro para aquietar as más consciências. No rescaldo, o que se vê: a apetência para endossar a responsabilidade de cada um para todos os demais; a demissão de cada eu como eu diferente do outro.

8.12.04

Nirvana

Afinal, a comunicação social também sabe dar boas notícias:

Consumismo natalício e a enxurrada de anúncios de telemóveis

Repete-se todos os anos, quando a folha do calendário deixa Novembro para trás. Aproxima-se uma época que eleva o consumismo ao expoente máximo. Já sabemos que o Natal se descaracterizou. Se no passado os porta-vozes da religiosidade fervorosa se erguiam contra o excesso de paganismo das festividades natalícias, agora são os adeptos de um Natal pagão que choram lágrimas de saudade pelos tempos idos. A descaracterização da quadra motivou a transição temporal do simbolismo do Natal: de quadra religiosa para festividade pagã, que agora deu lugar ao imaginário do consumo desenfreado.

Os moralistas insurgem-se contra a deturpação. Os ingénuos apontam o dedo acusador ao maléfico capitalismo, que na ânsia de mais ganhos promove a fobia consumista. São esses ingénuos que condenam os excessos de consumo, que protestam contra a materialização das relações humanas: tudo gira em torno dos presentes que temos que dar a familiares e amigos, mais aqueles presentes que se juntam por conveniência pessoal. Prendas e mais prendas – assim se resume o Natal contemporâneo.

É este o contexto que, a cada ano que passa, traz uma enxurrada de publicidade para os ecrãs da televisão. Se por acaso apanhamos a televisão ligada no horário nobre das crianças (manhãs aos fins-de-semana), o tempo dedicado à publicidade dos mais variados brinquedos é asfixiante. Na passerelle desfilam brinquedos e mais brinquedos: desde as bonecas para as meninas, passando pelos grotescos bonecos que exibem a parafernália de material bélico que vai educando as criancinhas numa cultura de agressividade latente. Se a televisão está ligada em horas mais tardias, a publicidade tem outros destinatários: os adultos, com preferências diferentes. Os perfumes tinham, até há alguns anos, um lugar de destaque. Lembro-me, quando era mais novo e frequentava transportes públicos, que a seguir ao Natal o ambiente dentro dos autocarros era mais perfumado. Sinal de que as águas de colónias tinham um lugar importante nas trocas de presentes. As pessoas, orgulhosas na exibição das prendas natalícias, pavoneavam-se nos autocarros exalando cheiros diversos.

Nos dias que correm a primazia começa a ser ocupada pelos telemóveis. Dando razão ao falecido Sousa Franco, que enquanto ministro das finanças descobriu um novo indicador de desenvolvimento dos países (o número de telemóveis per capita!), somos invadidos por anúncios publicitários das três operadoras de telemóveis. Pude observar, no intervalo de um filme, que a mesma operadora apresentou três ou quatro spots publicitários. Como a tecnologia tem avançado a uma velocidade vertiginosa, o momento é o de atrair os consumidores para os benefícios das mais recentes tecnologias de comunicação – os chamados telemóveis da nova geração (3G).

Não vou engrossar as fileiras dos exércitos da desgraça que se voltam energicamente contra os desperdícios de recursos a que, na sua maneira de ver, estes requintes da tecnologia obrigam. Não é pela senda do fado da desgraça, ou da “perversão de valores”, que olho para esta vaga de consumismo. Pode ser um consumismo estéril, tal a fobia de muitas pessoas: para elas é imperativo andar com um aparelho que seja o último grito da tecnologia. Não dou para esse peditório, porque o condicionamento da vontade individual que esses arautos da desgraça querem impor é inadmissível.

Vejo nesta vaga comunicacional uma libertação do indivíduo. Ao contrário do que dirão os críticos – prontos a demonstrar que os consumidores ficam presos nas garras das operadoras, que apresentam aparelhos irresistíveis, mais uma campanha publicitária agressiva que manieta a sua liberdade de escolha – esta “moda” só tem efeitos positivos. Se descontar o facto de cerca de 20% dos clientes se atrasarem no pagamento das facturas dos telemóveis (mas esse factor é alheio às operadoras; é apenas o produto da ânsia e do descontrolo financeiro dos consumidores), o panorama é brilhante. Temos que estar agradecidos ao avanço da tecnologia, que hoje permite às pessoas estarem contactáveis em qualquer lugar, a qualquer hora. Os encómios vão mais longe: com os avanços da tecnologia é possível enviar fotografias para amigos, testemunhar um momento insólito, partilhar um acontecimento marcante. Com o advento da teleconferência (imagem ao vivo a acompanhar a chamada telefónica), as possibilidades de estreitar a convivência são ainda maiores.

Numa era em que o ser humano é acusado de cultivar uma crescente despersonalização, o império dos telemóveis quebra essa corrente. Aproxima pessoas que estão longe, põe em contacto pessoas que necessitam de lançar o dedo a quem, do outro lado, atende o telemóvel. Diagnóstico: é o capitalismo, de braço dado com a inovação tecnológica, que aproxima as pessoas, que contribui para um espaço mais humanizado. Ou de como, mais uma vez, o capitalismo arrepia caminho para a evolução da humanidade.

7.12.04

Brincar aos espiões

Ouço uma notícia sobre o Sistema de Informações e Segurança (SIS), onde se acoitam os espiões do país. Uma notícia qualquer sobre uma polémica devido à demissão de um alto dirigente e da sua substituição por um coronel amigo do ministro da defesa. Ouço, ainda, notas de apreensão: as mudanças anunciam a politização do SIS. Cenário tanto mais perigoso, agora que se aproxima eleições. No meio da turbulência, o país, comovido e preocupado, assiste à higiene interna do SIS.

Esta notícia, veiculada com sinal de alarme social, só inclui minudências. Em vez das pessoas se preocuparem se é o ministro da defesa que tenta controlar o SIS ou se esse controlo era feito por alguém nomeado por um governo socialista, seria mais importante discutir a existência do SIS. Enquadrá-lo no moderno Estado de direito, agora que cada vez mais se invocam as garantias fundamentais da pessoa como domínio inviolável. Ao mesmo tempo que é o próprio Estado de direito que faz tábua rasa dessas garantias fundamentais, espezinhando-as em nome da defesa do Estado de direito numa era de acentuada insegurança mundial.

No contexto nacional, falar de espiões é anedótico. Como se fossemos uma potência mundial, como se pesassem ameaças que ponham em causa a integridade do território, ou a garantia de valores que cimentam a identidade nacional. Teremos espiões a vaguear pela península ibérica, em busca de informações que antecipem qualquer manobra contra a integridade territorial? O simples equacionar da hipótese é patético. De onde vêm os riscos, afinal? Será a onda de terrorismo fundamentalista islâmico que se dissemina por todo o mundo, semeando a incerteza? Responder sim é pretensioso: apesar dos terroristas se multiplicarem como cogumelos, decerto têm outras prioridades que não este sossegado canto plantado na esquina sul-ocidental da Europa.

É por isso que apetece dizer: o SIS é uma coutada onde se aprende a brincar aos espiões. Com duas agravantes que convém não desprezar. Por um lado, uma fonte de desperdício de recursos. Quais serão as missões de elevada importância para a segurança nacional que levam a gastos exorbitantes? Alguém se questionou se as compensações que essas missões trazem chegam para justificar os gastos?

Por outro lado, a questão delicada da existência de serviços secretos no contexto de um Estado de direito. Podem os seus defensores justificar a salvaguarda do Estado de direito como pretexto para serem cometidos atropelos…ao Estado de direito. É uma argumentação que padece do pecado da “pescadinha de rabo na boca”. É como defender a pena de morte como compensação da vida que foi ceifada pelo assassino. Dá a impressão que o Estado se coloca num patamar superior de eticidade, como se fosse possível ver mais alto do que os comuns mortais sobre os quais tem jurisdição. O problema não está apenas na irracionalidade da solução; mais grave é saber que em nome da defesa do Estado de direito se autorizam atropelos às mais básicas regras do Estado de direito. Ou seja, a negação do próprio Estado de direito.

Sem contar que se entra num domínio de arbitrariedade incompatível com um princípio de segurança jurídica que deve andar de braço dado com o Estado de direito. Se os serviços secretos podem fazer tudo e mais alguma coisa em nome de valores sagrados para o Estado de direito, nunca se sabe onde estão os limites da sua actuação, nem é possível desenhar regras objectivas para a actuação dos espiões. Entramos num universo à parte, num Estado fora do Estado de direito.

Intrigante é saber que muitas pessoas são contra a independência do Banco Central Europeu (BCE), mas esquecem-se da existência de espiões. Alegam que sem o controlo de políticos – as pessoas que têm legitimidade política, por serem eleitas – o BCE é uma instituição secreta, que não responde perante ninguém, que pode decidir sozinha sobre assuntos essenciais para o bem-estar geral (taxas de juro, por exemplo). Se se invoca o secretismo que caracteriza o BCE como razão da sua ilegitimidade democrática, o que dizer dos serviços de espionagem? O que dizer dos seus métodos, ao arrepio das mais elementares regras de um Estado de direito (nomeadamente o respeito pela vida humana e pela privacidade dos indivíduos)?

Sinto-me mais seguro com o secretismo dos bancos centrais (até porque emancipa pessoas competentes da tutela de políticos oportunistas) do que com a nebulosa onde estão suspensos os serviços secretos. Desassossega-me saber que as mais elementares garantias individuais podem estar, neste momento, a ser vasculhadas por espiões sem escrúpulos.

6.12.04

Pena de Santana

Não sei se é espírito de contradição, ou a reincidente comiseração por quem é vergastado impiedosamente pela adversidade. Estou para saber qual o diagnóstico, mas estou possuído por um estranho sintoma: tenho andado com pena de Santana Lopes. Talvez por ser um saco de porrada em que toda a gente bate até à exaustão. Talvez pela pose sofrida com que apareceu no dia em que o presidente da república lhe decidiu tirar o tapete. Talvez pelo assédio infindável dos jornalistas, que insistem nas perguntas que levam o estóico primeiro-ministro a responder sempre com um sorriso nos lábios num esgar de paciência chinesa.

Não sei se este assomo de comiseração pela figura do ainda primeiro-ministro não revela aquela queda que temos para verter lágrimas de pena pelos coitados deste mundo. Se é isto que me traz a compaixão pela figura, é motivo de preocupação: o facto dos portugueses serem um povo piedoso para com a desgraça alheia é coisa atroz. Enquanto uma pessoa está bem da vida, passa ao lado das atenções – ou, quando muito, por estar bem e espicaçar a inveja alheia é alvo da chacota, da perseguição crítica dos que gostariam de trocar de posição. Ao cair na desgraça, a mesma pessoa passa a ser contemplada com a pena colectiva. Alguns chamarão a isto solidariedade. Desconfio que se trata de uma tendência doentia para exibir a compaixão como acto que espessa a dor do inditoso.

A indignação em relação a este sentimento colectivo traz-me preocupado com as vertigens que me assaltam, com a pena com que olho para Santana. Mas chego à conclusão (ou é a conclusão a que quero chegar…) que o que me motiva não será bem esse sentimento. Será um espírito de contradição fervilhante, a necessidade de ir contra a corrente, de desalinhar do pensamento estabelecido, de fugir aos imperativos categóricos dos que estão convencidos que corporizam o sentir geral – como se houvesse um sentir geral, como se fosse fácil arregimentar o unanimismo em torno de questões que fracturam a sociedade. É por um estímulo de contradição contra este mundanismo que me movo. E que, no caso em apreço, dou comigo a cultivar um estranho sentimento de solidariedade em relação a uma personalidade que não me motiva a mínima simpatia.

Quando ouço um dos cultores da verdade oficial (o inefável Louçã) a pronunciar-se como porta-voz “dos portugueses”, solta-se uma gargalhada sonora. Quando escuto as suas palavras, sempre carregadas de raiva, a sentenciar que “só Santana Lopes não percebe porque foi demitido, porque todos os portugueses já o perceberam”, um estímulo percorre-me pelo interior, pede-me para afirmar a minha solidariedade com o primeiro-ministro (como dizer?) demissionário.

Mas volto a repetir o que já disse em textos passados. Santana Lopes é uma excrescência do panorama político nacional, um produto da sociedade medíocre que somos. Representa o que de mais deplorável a política oferece. A sua passagem pelo governo é um equívoco sem fim, tantas as armadilhas que o governo colocou a si mesmo. Ainda assim não consigo deixar de fazer cara de António José Seguro (aquele que parece que está sempre a chorar, qual carpideira profissional pronta a verter as abundantes lágrimas no velório de um desconhecido) quando vejo o que se está a passar. Santana Lopes desempenha o papel do saco de boxe que todos, com um prazer inaudito, esmurram sem parar. Esbofetear Santana Lopes passou a ser desporto nacional, quase um imperativo para os bem-pensantes.

Porque gosto de desalinhar de consensos espúrios, porque gosto de fugir por caminhos alternativos que me coloquem nos antípodas dos guardiães da verdade absoluta – eis as razões que semearam a comiseração por Santana Lopes. Que não pode ser confundida com apoio à personagem. Longe disso. Por mais voltas que dê, por mais que se tente transformar para cativar a atenção do eleitorado, por mais tenebrosa que seja a campanha das esquerdas, não há-de captar o meu voto. Alguém dizia, há dias, que a credibilidade é como a virgindade: uma vez perdida nunca mais se recupera. Este é o estigma de Santana Lopes, coitado, o alvo da perseguição nacional.

3.12.04

Confusões sublimes: “lava-te porco” num vidro de um automóvel

Andar às voltas para estacionar o carro quando vou trabalhar tem as suas compensações. Quando mais não seja, por ter arranjado tema para hoje. Lá andava, como às vezes sucede, com o olho aguçado à procura de uma nesga para estacionar. Ao fim da rua, o semáforo passou para vermelho. Havia alguns carros parados à espera da mudança do semáforo. Quando parei, do lado esquerdo estava um carro encardido, tanta era a sujidade acumulada. No vidro de trás, a inscrição manuscrita: “lava-te porco”.

Quem nunca deparou com inscrições do género em carros impregnados de sujidade? O insólito estava na mensagem escrita pela pessoa atenta a estas coisas da higiene alheia. Noutras ocasiões este tipo de avisos surgia com outra forma: o pronome pessoal após o verbo “lavar” costuma ser o “me”, não o “te”. Quem se atreve a deixar a aviso no vidro de um automóvel de outrem passa por estar a falar em nome do veículo que não vê água há meses. Em vez do “lava-te porco”, aparece um “lava-me, porco”.

Fiquei curioso em deslindar o equívoco da altruísta pessoa que quis lembrar o dono daquele carro que a lavagem era urgente: será que queria falar em nome do automóvel, e apenas se enganou no pronome pessoal acoplado ao verbo “lavar”? Pode ter acontecido que a alma caridosa tenha querido dizer “lava-me, porco”, como se estivesse a falar em nome do carro dirigindo-se ao seu dono, mas lhe tenha saído um “lava-te porco”. Sem dar conta, atraiçoado pelo pronome pessoal usado, aquela pessoa estaria a falar consigo mesma, vendo retratado no carro a falta de higiene de si mesma?

É fácil cair no alçapão das palavras. Principalmente quando usamos palavras que podem ter múltiplos sentidos, e temos a infelicidade de usar um jogo de palavras que revelam o sentido menos desejado pelo discurso. A semântica prega partidas de que é difícil sair (quando se detecta a gaffe). Recordo-me, numa aula, de tentar explicar determinado aspecto utilizando a técnica do “por outras palavras”. Só que em vez desta expressão saiu-me o “trocando por miúdos”. Na ressaca dos primeiros momentos do escândalo Casa Pia, aquela expressão teve uma ressonância diferente. Só depois das palavras se terem soltado é que dei conta, ao mesmo tempo que os alunos, como aquela expressão passava a figurar no rol de expressões a evitar.

Volto à pichagem no vidro do carro. A pessoa que se deu ao trabalho de avisar o proprietário do automóvel foi atraiçoada pelas palavras. A simples troca do pronome pessoal foi a razão da traição. Não é crível que esta pessoa estivesse ciente de que o carro pode meter as pernas ao caminho por sua livre iniciativa e dirigir-se a uma lavagem. Logo, não faz sentido que a mensagem tenha o carro como destinatário. Portanto, quando a diligente pessoa escreveu “lava-te porco”, estaria longe de perceber que a mensagem, tal como apareceu escrita, só podia ter como destinatário ela mesma. Talvez fosse uma reacção instintiva: ao ver como o carro estava tão sujo, e por saber que ela mesma estava longe do asseio desejável, o subconsciente tê-la-á empurrado a escrever no vidro do carro aquilo de que ela necessitava com urgência. Quanto mais não seja porque ao ter o trabalho de escrever aquela mensagem com o seu dedo, a mão ficou impregnada de sujidade.

O semáforo ficou verde. Percorro nem cem metros e, do outro lado do passeio, destacam-se quatro enormes bostas. Como não é local de pastagem de bovinos, deitei-me a adivinhar que a proveniência só podia ser equídea. Como os cidadãos comuns não trazem cavalos para a cidade, os dejectos só podiam vir das patrulhas a cavalo da PSP. Não vou entrar em pormenores escatológicos. Apenas digo que o panorama não era agradável – e menos o seria para os transeuntes que calcorreassem aquele passeio.

Quando há campanhas que alertam os donos de cães para a necessidade de recolher o que os animais soltam dos intestinos, para evitar que quem anda pela rua tenha surpresas desagradáveis que trazem um odor pestilento aos seus sapatos, o que dizer deste desplante da PSP? Não será um mimo de higiene, decerto. E ilustra uma regra do agrado do Estado: um peso, duas medidas. O que os cidadãos não podem, pode o Estado com toda a latitude. Se um cão depositar os dejectos na via pública, o dono sujeita-se a multa caso esteja a ser observado por um zeloso agente da autoridade. Mas duvido que esse agente da autoridade teria a coragem de multar os seus colegas ao ver os cavalos a soltarem a abundante bosta para o meio do passeio.

2.12.04

O cavalheirismo, essa excrescência sexista

Há momentos em que somos apanhados no meio de uma encruzilhada, sem saber por onde ir. É o que acontece com as deferências que os homens, num rasgo de cavalheirismo, dedicam às senhoras. Deixamo-las passar à frente quando uma porta se entreabre. Damos-lhe primazia em tantas outras coisas, educados no hábito de dar precedência às senhoras. É uma espécie de trato social que ainda se conserva, apesar das distorções que sofre. Não apenas por parte de espécimes do sexo masculino que fazem tábua rasa destes costumes. Também por espécimes do sexo oposto que não se cansam de erguer a sua voz contra a discriminação sexual.

Não vou discutir se a conservação destes hábitos é salutar. O relativismo impede-me de entrar a fundo na discussão. Envolve múltiplos aspectos que iriam prolongar o texto para além do razoável. Apenas interessa reconhecer o direito de cada pessoa respeitar ou não o hábito de estender a passadeira vermelha diante dos pés de uma senhora. Os que forem mais individualistas, aqueles que prestarem tributo à tradição islâmica de relegar as mulheres para um estatuto de subalternidade, esses estão no seu direito de espezinhar o costume que ainda vegeta nas relações sociais.

Pior são aquelas que engrossam as fileiras do feminismo militante. Elas, sempre prontas a brandir a bandeira da “discriminação positiva” para que os seus direitos se possam nivelar pelos direitos do sexo masculino, encontram-se na linha da frente contra exibições de cavalheirismo. Protestam, indignadas, que o cavalheirismo é uma forma de perpetuar o marialvismo dominante, de estender no tempo a desigualdade entre homens e mulheres. As senhoras que defendem com unhas e dentes uma pretensa igualdade de sexos trepam às paredes quando um homem, na sua maneira de ser cortês, abre alas para a passagem de suas excelências. Sentem-se ofendidas e recusam a consideração. E, como já me sucedeu, disparam, com maus modos, a sua indignação.

As fundamentalistas da causa feminista ignoram que a cortesia masculina é uma forma de aceitar a discriminação positiva que elas reclamam. Se os homens dão passagem às mulheres quando uma porta se abre à sua frente; se faz parte do estabelecido pensar-se que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher; se é aceitável que as mulheres são o ponto de equilíbrio que traz as compensações necessárias ao homem – tudo isto revela que as mulheres estão, pelo menos, no mesmo patamar do homem. Para não concluir, sem exageros, que até estarão acima do homem, tal a influência que sobre ele exerce, tal a sublime consideração em relação às mulheres.

Quando as feministas convictas se abespinham porque um homem as deixou passar à sua frente, mostram ingratidão e atropelam o cimento cultural do desgraçado que de seguida vai ouvir das boas por ter ousado ser cavalheiro. É o fruto do fundamentalismo: pensar que se pode ver o mundo apenas de acordo com os parâmetros que conformam a maneira de ser dos intolerantes, desprezando outras formas de ver as mesmas coisas. É um autismo militante que as deixa presas à rigidez dos seus quadros mentais. E que as impede de perceberem que aquilo que tanto criticam (as deferências masculinas) simbolizam a discriminação positiva que defendem aguerridamente.

A falta de bom senso leva a desmazelos destes. Sem se darem conta, procuram ver no cavalheirismo a negação das igualdades de direitos entre homem e mulher. Porque convencionaram que os cavalheiros são os marialvas do passado que sempre menosprezaram os direitos das mulheres. Falta-lhes discernimento para verem que nem todos os cavalheiros são marialvas. Se fizessem um esforço viam que o cavalheirismo é apenas o produto de certas normas de educação; seria bastante para não resvalarem para uma grotesca falta de educação que emerge da cegueira dos ideais que prosseguem.

1.12.04

E se o 1 de Dezembro de 1640 não tivesse existido?

Imaginar, por artes de magia, que o calendário de 1640 tinha saltado uma folha: que a seguir a 30 de Novembro tinha vindo o 2 de Dezembro. Imaginar que não tinha ocorrido a restauração da independência que nos livrou da dinastia dos Filipes de Espanha. Especular, um exercício de imaginação que tenta perceber o que seria de nós como região de uma Espanha que então teria cumprido um objectivo que fermenta no mais recôndito do seu íntimo – abraçar todo o território da península ibérica.

É um desafio interessante. Mais pelo que de provocatório encerra, olhando para as sensibilidades nacionalistas que ainda fervilham pelo território pátrio, lembrando as desconfianças que vêm de uma história feita de antagonismos com os vizinhos do outro lado. Não é por acaso que continua vivo o adágio “de Espanha, nem bom vento nem bom casamento”.

O orgulho nacionalista ainda mobiliza muitas vontades. É tão poderoso que chega para desprezar juízos que apenas olhem para o bem-estar material das pessoas. Se fossemos parte integrante da Espanha desde 1580 não estaríamos com um nível de desenvolvimento idêntico ao da média espanhola? Não seria sinónimo de mais bem-estar para os cidadãos desta que seria uma região autónoma da Espanha imperial?

As interrogações deixam escapar a vertente materialista, ofuscando os sentimentos de pertença que fazem de Portugal um país independente e garbosamente diferente da Espanha vizinha. Olha apenas para o bem-estar que a integração na Espanha poderia supor – partindo do pressuposto de que os mais de quatrocentos anos de destino comum seriam suficientes para obliterar as discriminações contra a região portuguesa, pelo seu passado de independência. Eis a pergunta que se impõe: estariam os portugueses dispostos a abdicar da independência do local onde se viram nascer em troca de mais bem-estar? Pergunta difícil de responder, até porque é intemporal – atravessa várias gerações, abrindo a hipótese das respostas serem variáveis de geração em geração.

Aposto que a esmagadora maioria dos portugueses daria um não à pergunta formulada. Independentemente de credos, condição social, nível de rendimento ou afinidades partidárias, temos inculcado o juízo da nossa identidade diferenciada. Somos diferentes dos espanhóis, desde logo porque falamos línguas diferentes. (Ignorando que há países multi-étnicos que falam línguas diferentes sem que seja um factor de desagregação do todo.) Qual o significado deste sentimento arreigado, numa era em que vai tendo aceitação a ideia do desenraizamento das pessoas, da crescente materialização das relações sociais, da volatilidade dos laços indentitários?

Na aparência, refulge aqui um paradoxo. Um paradoxo localizado que é, no entanto, explicado pelo peso acumulado da história. Factor decisivo: lembrar como é ensinada a história nos bancos da escola. Os feitos dos descobrimentos ainda são glorificados, a lembrar o povo grandioso que fomos no passado, a destapar a passadeira para as crianças perceberem, quando se fizerem adultos, como somos agora um povo deprimido (quando nos comparamos com esses antepassados). Mais importante, a história de Portugal está carregada de exemplos que moldam o subconsciente desde tenra idade: a Espanha aparece como o inimigo histórico. Contra a corrente, é difícil perceber que os tempos modernos não se compadecem com as ancestrais curvas da história. Porque o passado está feito e não volta a acontecer.

Hoje continuam presentes os sinais de animosidade. Continuamos a olhar com desconfiança para o vizinho do lado. Manifestamos preocupação pela invasão de empresas espanholas, pela compra de empresas portuguesas por capitais espanhóis, pelo mar de alimentos espanhóis nas prateleiras dos supermercados. Não temos a presença de espírito para calcular dois importantes aspectos: em tempos de globalização não faz sentido cada país achar-se isolado do resto do mundo; e esta invasão espanhola não periga a nossa tão querida soberania (com o que de incerto ela significa…), ela permite aumentar o bem-estar dos portugueses que, directa ou indirectamente, dela tiram partido (mais emprego; mais rendimentos; mais consumo, com preços mais favoráveis, etc.).

Impõe-se um pedido de desculpa pela heresia de tocar neste assunto logo no dia em que se festeja a restauração da independência. Apenas queria sublinhar como os sentimentos do passado merecem ser enterrados com o passado que fica distante nos tempos imemoriais. Verdade seja dita que, à excepção de uns poucos saudosistas (monárquicos – a quem, paradoxalmente, até devia interessar fazer parte da Espanha, pois sempre é uma monarquia…) e da iconoclastia oficial que obriga a comemorar o feriado, ele tem pouca importância. A não ser por significar um louvável dia de descanso!