8.11.07

O palimpsesto

(Do dicionário – “Palimpsesto: sentido figurado, texto que existe sob outro texto.” De um diálogo entre as duas metades do ser, uma delas – a alteridade – surgindo em itálico.)

Quem nunca acordou preso às amarras de um estranho que parece habitar em si? E quem, de tanto tempo conviver com esse estranho, não se interrogou se o estranho, de tão assíduo, suplantara o eu convencionado? Há todo um vasto território, insondável, onde fervilha a alteridade do ser. Às vezes emerge compassada com a surpresa: ao dar conta que afinal somos diferentes do que julgáramos ser, o sangue já fervente expulsando o eu que se habituara a imperar.

(Isso tudo, ou apenas fragmentos irrelevantes em demanda de mistérios e significados escondidos em inacessíveis lugares, afinal nunca visitados a não ser nestas peregrinações que servem para ensaiar a escrita. O suplício da subjectividade. O martírio de quem se aventura por ruas despidas de pavimento, só com as pedras pontiagudas à mostra, os pés desnudados sangrando na via sacrificial que leva a lugar nenhum. De que serve a coloração pungente dos devaneios interiores, se através dela se chega ao abismo?)

O arrebatamento da alteridade é um lancinante exercício, a reorientação do ser. Ou não. Pode descerrar diante dos olhos um vasto campo onde se desfraldam flores perfumadas, uma sinfonia de cores como se nessas flores todas as cores do mundo tivessem sido retratadas. A alteridade pontua a transformação. Ou sinal positivo, ou sinal negativo. Depende do alter ego descoberto – ou, muitas vezes, sem bem se perceber, apenas redescoberto –, depende do outro eu asfixiado nas catacumbas do ser. Nem sempre a experiência carpida nas incidências do tempo molda alteridade confortável. Por vezes, é a acidez que destila o outro eu, acabrunhado, contristado, suspeitoso, ensimesmado, até irascível.

(Do discurso como retórica infernal, mas placidamente anódina. Lucubrações que jorram como águas tempestuosas que descem a alcantilada garganta de um rio de montanha. Quando chegam à foz, são um gigante domado pela fértil planície que se estende além do alcance da vista. Amansadas águas, destituídas da ferocidade anunciada. Apenas águas que se entregam nos braços da imensidão salgada, onde são sepultadas. Jamais voltará a haver notícia delas, eternamente perdidas na vastidão do mar. Assim se esvaem as ideias que soam a filosofia de bolso.)

No desdobramento do eu em dois, inquieta o moralismo que uma das metades apregoa. Costuma a metade que se julga mais discernida, aquela que ajuíza só depois de acamado o tempo, entoar enfurecidas palavras que arremetem contra o moralismo, contra qualquer moralismo. A metade oposta tem conhecimento da verve racional que acaba por prevalecer. Ainda assim, é ela que domina as reacções perante um acontecimento, ou palavras ditas pelos outros. É esse hemisfério – espontâneo, estouvado, sem esmerar raciocínios – que soergue, ditando asserções que exalam decadente moralismo. Nessa altura já as águas interiores fervem, revoltosas, encavalitam-se em ameaçadoras ondas que espumam toda a sua raiva quando embatem de frente umas nas outras, desfazendo-se numa espuma branca, inerte.

(Lá no fundo, não há um eu e sua alteridade. A antítese da moralidade apregoada pela jactante “metade discernida” é um revólver que dispara balas envenenadas pela pior das moralidades. De cada vez que a alteridade racional reclama a asfixia da moralidade – de qualquer moralidade –, entrega-se nos braços da pior das moralidades. Aquela que mora no lugar imperceptível que dá existência àquilo que denega.)

Entra em cena o observador exterior, qualificado para diagnosticar as maleitas do espírito que apoquentam o indivíduo hesitante entre o seu eu – ou aquilo que julga dele conhecer – e a sua alteridade, também ela relevada. O julgador teria um duplo condão: chegar com o véu da ignorância, jamais tendo falado com o espírito atormentado; e especialista em desatar nós que semeiam as dúvidas que preenchem o horizonte de quem se divide entre o seu eu e a alteridade. Em vez de aclarar, ele diria que há outra alteridade reprimida, que combate dos fundos do ser o eu dominante e a alteridade esboçada. Diria que esta alteridade é uma construção oportuna para esbofetear traços do eu conhecido que são desconfortáveis. É, todavia, uma alteridade fabricada, artificial, apenas um pretexto para mascarar sombras do eu, ou quando o eu conhecido é uma consumição que exige refúgio de si.

A alteridade reprimida: ou a tarefa maior que aquele eu deveria abraçar, houvesse coragem para o desprendimento das duas metades de que se julga composto. Descobriria, então, que há dentro de si o palimpsesto de si mesmo: ofuscado, aprisionado em profundas masmorras onde o ar fétido não aconselha visita.

7.11.07

Segregação em forma de lei


O que me sossega é que estamos bem entregues nas mãos de uma casta onde só convivem aperaltados políticos e ululantes burocratas que pajeiam os primeiros. São perspicazes, sempre de lupa em riste em demanda das consumições da sociedade, para sem demora prescreverem miraculosa solução. Sempre em forma de lei, da enxurrada de leis e sucedâneos que impõem a ditadura da regulamentação. Pelo caminho, o detalhe – decerto insignificante, ou de detalhe não se tratasse – das pessoas ficarem presas à teia de leis para serem deglutidas por um aranhiço antropófago.

Nem é necessário andar de olho vigilante no Diário da República. A propaganda oficial, tão bem oleada, trata de veicular para a comunicação social as leis bombásticas. Aquela, preguiçosa, limita-se a fazer “copy-paste” dos comunicados fabricados nos gabinetes dos ministros, dos seus subalternos, numa esconsa repartição pública onde se acantona zeloso burocrata, ou, nos tempos de modernidade por que passamos, dos press release emitidos pela agência de comunicação que “faz” a imagem dos próceres da coisa pública. Mostram serviço, quando esbracejam com orgulho a mais recente lei que regulamenta ora assunto importante, ora o pormenor mais irrelevante. Sobem ao púlpito da vaidade: aparecem, compungidos, cheios de olheiras porque trabalham até más horas, tudo em nome do bem de todos nós. Agradecidos pela generosidade, logo depositamos o destino na iluminada aura que, esperamos, seja manancial perene de inspiração de suas excelências.

Por tão elevada produtividade, por serem os fautores do estado admirável em que nos encontramos, eu seria primeiro subscritor de um abaixo-assinado que promovesse salários mais altos e um rosário de benesses que premiasse a sua actividade. Que tem um travo metafísico, porque eles são os sacerdotes que curam de nós, os humildes mortais que sucumbimos diante de suas excelências, sabedores que somos da grandiloquência dos homens e mulheres que têm entre mãos as chaves do poder.

Aos hodiernos súbditos resta prestar vassalagem silenciosa. Como retribuição pelos serviços inestimáveis que aquelas almas desinteressadas oferecem. Embrulhados na manta do altruísmo, são os modernos cavaleiros andantes que espalham felicidade e bem-estar, combatendo os ferozes dragões que chegam disfarçados de pobreza, desigualdade, injustiça social. Os súbditos meditam pacificamente nas oferendas da casta. Entregam-lhes o destino, assinando de cruz por baixo. Nem lhes ocorre que por mais inebriados que estejam com a casta, mais hipotecam o seu livre arbítrio. O que é sintomático: de uma terra pequenina, em que cada pessoa é formatada para colocar o seu destino em mãos alheias. Os súbditos são isso mesmo – súbditos. Estão a léguas da condição de cidadãos. Enquanto estiverem amordaçados na menoridade de quem entrega o destino nas mãos de curandeiros e seu séquito de mangas-de-alpaca.

O exemplo mais recente é a distribuição de dísticos coloridos que os condutores vão ser obrigados a ostentar no pára-brisas dos seus automóveis. (Ia a escrever “o derradeiro exemplo”, quando repensei a expressão e a desfiz; oxalá este fosse, em retrospectiva, o derradeiro exemplo. Só o seria se o tempo ficasse inerte e não houvesse amanhã.) Esses dísticos vão distinguir os bons, os medianos, os maus condutores. Vão trajar autocolantes verdes, amarelos, vermelhos – respectivamente. Estou a ver os que nada têm a temer e se comportam como condutores exemplares a aplaudir a ideia, excitados. Hão-de argumentar que há por aí desde aselhas a assassinos encartados. Que devem merecer o estigma social, pagando o preço da vergonha aos olhos dos outros pelo cadastro de tropelias nas estradas nacionais. Dirão isso mesmo – que quem não deve não teme. E que a segurança rodoviária homenageia o sagrado valor da vida humana. Tudo o que for feito para que as estradas deixem de ceifar vidas deve merecer aplauso unânime.

Lamento desempenhar o papel de desmancha-prazeres. O ingrato de serviço. Por mais que dê voltas, não me convenço da bondade da medida. Primeiro, é inútil. A menos que o dístico tenha dimensões majestosas, não percebo como se há-de distinguir a sua cor quando nos cruzamos em velocidade elevada com outros automobilistas. Segundo, não há ninguém que desperte da anestesia colectiva e denuncie a obtusa ideia por segregar pessoas? Os feitores da harmonia social – que, para seu infortúnio, não pode ser decretado em forma de lei – ou desconhecem a História, ou não estão a par das modernas teorias políticas que renegam qualquer laivo de racismo (e também há racismo social, para além das fronteiras do tradicional racismo), ou fizeram de propósito dando ordens para que a nova cruz de David tenha tonalidade avermelhada e estigmatize quem anda na estrada.

Aquelas hipóteses ou sintonizam a ignorância da casta, ou a urgência em insinuar a sua autoridade, só para reforçar a longínqua distância que a separa dos humildes mortais. Nem sei o que será mais grave: desmascarar a ignorância da casta, ou perceber que ela cauciona novas segregações quando se pensava que esse era um esqueleto bem guardado dentro de um armário fechado a sete chaves.

6.11.07

Pergunta de retórica

Quando começa o Outono?

A demolição da casa e o estremecimento da mulher


No caminho entre a estação de metro e casa, do lado direito de uma ruela estreita acotovelam-se casas antigas. Defrontam-se com prédios novos, que se encavalitam uns nos outros mergulhando sobre a estreiteza da ruela. De regresso a casa, dobro a esquina que dá entrada na ruela e vejo, ao fim da recta, burburinho e azáfama. Obras, maquinaria pesada em laboração. Uma casinha térrea, antiga, a ser demolida. Do outro lado da rua um punhado de mirones testemunha a demolição.

Não detive o passo – nem por curiosidade técnica, que engenheiro não sou, e porque dançava no ar uma fina camada de poeira golfada pelo restolho. Sem deter o passo, reparei numa mulher que estava impressionada com o aparato, atónita com destruição a que assistia. De repente, desviou o olhar das pedras amontoadas que já desnudavam o interior da casa. Enquanto acenava a cabeça, não sei se em tom de reprovação ou se apenas pela impressão causada pelo acto destrutivo, percebi-lhe um estremecimento. Arrepiara-se com a facilidade com que a pá da máquina devastava uma casa onde outrora vivera uma família. A prova de como o acto destruidor se consome num instante fugaz, no contraste com a demora que leva o acto construtivo.

Sem parar, impressionei-me com o estremecimento da mulher. Sem arriscar adivinhar, não me parecia antiga proprietária da casa derrubada. Ou o arrepio que lhe percorrera o corpo havia de ser trespassado por um choro lânguido. Os passos nos paralelos frios da calçada eram transidos pelo estremecimento, como se nela houvesse um grito interior de revolta. Como se quisesse protestar contra a destruição da casa onde se acumulavam décadas de vida.

Enquanto passava ao lado da máquina que não cessava a sua impiedosa marcha contra os já escombros da casa, olhei fugazmente para a direita. Uma espessa camada de pó vogava sobre a nudez da casa, entre as paredes reduzidas a escombros e a nudez desvelada pelo telhado que acabara de ser desfeito. No lado mais distante da rua ainda aguentava, estóica, uma parede. Percebia-se, ao olhar para dentro da nudez da casa, que estava desmobilada. Num instante, fui envolvido por um amplexo de interrogações: que vivências acolheram aquelas paredes, que pessoas fizeram vida dentro daquela casa, quanta felicidade, ou quanto fel, se passearam no chão da casa. Todas as interrogações depostas diante das engrenagens da máquina pesada, que vomitava um fumo espesso do gasóleo tragado para dentro do motor enquanto prosseguia a função, comandada por operários e engenheiros que se apressavam friamente na tarefa.

Os engenheiros e os operários decerto sem formularem as mesmas interrogações. Ocupados com a tarefa, sem se darem conta de como a pá desapiedada avançava, esventrando o que outrora fora lar de uma família. A voracidade da especulação imobiliária não se compadece com o lirismo inconsequente. Diriam que a família morrera, ou se mudara para habitação mais confortável e moderna. E que aquela casa antiga, afundando-se às mãos da pá desapiedada da máquina que semeava destruição, daria lugar a habitação mais moderna, mais confortável. Diriam: que o bulldozer possuído por uma frieza mecânica selava um acto, pequeno que fosse, do progresso que move a humanidade. Salvífico, portanto. E de quantos actos destes o mundo inteiro é testemunha, todos os dias?

O estremecimento da mulher era a caução da complacência pela casa que tombava com celeridade às mãos do bulldozer. Não sei se vizinha de longos anos, choravam-lhe as entranhas pela nova geografia da ruela, despida de uma casa que se habituara a ter como companhia. No seu estremecimento, gritava o desassossego que lhe incendiava as veias. Penhorava a modernidade que a máquina se propunha a aplanar onde horas antes se erguia a casa, antiga e abandonada, mas património daquela ruela. Ela sabia que a cada fragmento das paredes que se esboroavam pela acção maquinal do bulldozer diluíam-se as memórias resguardadas pela intimidade da casa. Perdiam-se, as memórias, na máquina que se aprestava a refazer o futuro daquele espaço.

Com o seu estremecimento, não parecia a mulher convencida da triunfal marcha do progresso – ou da especulação imobiliária, caso o registo pessoal a trouxesse por activismos desse jaez.

5.11.07

Um estranho caso de optimismo antropológico


Não sei se criatividade é inventar histórias impensáveis, onde se procura temperar a realidade com fantasias próprias de ficção científica, e esgotar o filão nos roteiros que passam para as telas do cinema. O registo dos filmes que dominam o circuito comercial insiste no filão. Há filmes que se desdobram em fantasiosos enredos que puxam pelos galões da imaginação futurista. Filmes com invasões de extraterrestres, ou teorias da conspiração em que os extraterrestres se escondem em corpos humanos para estenderem um império que há-de liquidar a raça humana. São um pasto interminável para os argumentistas.

Fui ver “A invasão”, protagonizado por Nicole Kidman. Uma trama que começa com uma tragédia: ao entrar na atmosfera, o Space Shuttle desintegrou-se. Os destroços espalharam-se por um vasto território. Havia anónimos entrevistados que confessavam ter tocado nos detritos, sem perceberem o risco de contaminação que corriam. Eis a chave do filme: os detritos da nave traziam um esporo resistente ao calor e capaz de se reproduzir, dentro do corpo humano, a uma velocidade estonteante. A contaminação acelerava-se a um ritmo exponencial. O vírus instalava-se dentro das pessoas e transformava-as em estranhos. Por fora eram as mesmas pessoas. Só que, por dentro, o vírus desumanizava-as: diluía as emoções, passando os rostos a desfilar pelas ruas numa inércia de expressões que denunciava quem já tinha sido contaminado; e transformava o organismo, extinguindo-se a transpiração.

Paradoxalmente, em pano de fundo passavam imagens de noticiários dando conta de um clima de desanuviamento mundial. Antigos conflitos sanados, países párias que finalmente assinaram tratados de desarmamento nuclear, negociações para apaziguar conflitos antigos que desatavam o nó do impasse. De repente, os líderes mundiais estavam em lua-de-mel com a concórdia. Tudo isto enquanto o vírus se espalhava, tomando conta dos humanos num processo que terminava com a sua desumanização. Quem era contaminado entrava numa sinistra confraria de rostos impávidos, desprovidos de emoções, um exército de autómatos sob a forma exterior de pessoas, quando pelo interior a mutação genética havia tomado conta delas, diluindo o que havia de humano.

Como era de adivinhar, tendo em conta que no ecrã passava uma trama hollywoodesca, à medida que o drama se encaminhava para o zénite, mais se adivinhava que no final tudo se haveria de compor. Ainda que a certa altura o abismo esteja mesmo ao lado dos bons – a psiquiatra protagonizada por Nicole Kidman e o seu filho, que por ter tido uma espécie rara de meningite era imune ao vírus – o sossego percorre os espectadores, habituados a que os “maus” sejam condenados ao insucesso, deixando o terreno para a saída triunfal dos “bons”. E apesar do cerco montado pelo exército de contagiados pelo vírus mutante, os heróis são salvos por um helicóptero providencial onde viajavam cientistas que sabiam que no organismo daquela criança habitava o antídoto contra o vírus que estava a desumanizar a espécie humana.

O epílogo está reservado para depois da devastação de automóveis durante a fuga da psiquiatra e do filho em direcção do salvífico helicóptero (e dou-me conta que a indústria cinematográfica de Hollywood é, pelos dias que correm, um porta-estandarte da causa ecológica: é só ver a quantidade de veículos que vão para a sucata depois da rodagem de filmes onde há perseguições frenéticas. Automóveis que deixam de circular, abatendo-se o activo de veículos que contribuem para a poluição atmosférica). Num salto no tempo, passam imagens de helicópteros aspergindo a vacina que permitia às pessoas infectadas recuperarem a humanidade perdida. A humanidade estava salva. Ao mesmo tempo, regressam imagens de noticiários com o recrudescimento de guerras e o fervilhar de um sentimento de discórdia entre adversários que, em breve, prometem ser inimigos de armas em riste.

Enquanto a humanidade estava a ser contaminada pelo vírus mutante, desumanizando-se, um estranho sentimento de concórdia varrera dissensões e conflitos do mapa. Depois de o vírus ter sido derrotado, a humanidade de regresso à sua essência. Com a apetência para a desordem, a insegurança, a divergência que em breve semeia a guerra. Para o final ficava reservada a subliminar ideia de que mais vale a humanidade com todos os seus defeitos do que uma humanidade geneticamente transformada, mas inteligente ao ponto de perceber que as guerras são a autofágica deriva que mergulha a condição humana num suicidário beco sem saída.

Não fiquei convencido com o optimismo antropológico. Faz-me lembrar os patriotas caseiros, convencidos que são preferíveis os defeitos dos portugueses (e são muitos) às virtudes dos outros povos.

2.11.07

Para um feminismo de pacotilha


Tive que falar da volatilidade dos valores que entram a escala de prioridades das sociedades. Para comparação, sirvo-me do enxovalho a que as mulheres são remetidas nos países islâmicos mais radicais. Há um aluno que me diz que isso não é bem assim, que ele até esteve “na Arábia” (venho depois a saber que “a Arábia” é o Dubai). Perante a minha perplexidade pelas suas palavras, emendou a mão: “para mim a mulher é uma flor. Uma flor”, lançou, enfatizando a repetição. Ao mesmo tempo que o fazia, o tom de voz escorregava para um cinismo marialva.

Um pouco confuso com o desassombro do jovem, apanhado de surpresa com a inversão táctica que operara – tão depressa negara o papel aviltante reservado às mulheres nos países árabes, como confessara que as trata como “flores” – só consegui dizer: “não sei se isso é bom ou mau para as mulheres”.

O discurso de género encerra os predicados que enlameiam os fundamentalismos. As feministas exacerbadas perturbam-me. Para elas tudo está mal, como se ainda vivêssemos presos a uma grotesca desigualdade de sexos, tal como nos tempos, quiçá, dos nossos bisavôs. Insistem em beneficiar da “discriminação positiva” que julgam exigência de uma sociedade que ao longo da História foi pouco simpática com a mulher. Mas depois são capazes de se indignar se um homem, querendo ser cavalheiro (oh! odiosa e anacrónica condição) lhes cede passagem quando franqueiam uma porta. Protestam, julgando que a deferência é apenas uma manifestação suplementar de tratamento desigual que os masculinos espécimes lhes reservam.

Há o outro lado, tão deplorável como as incansáveis feministas: os machões que destilam um gelatinoso marialvismo. Alguns não escondem que a mulher é um ser inferior. Gabam-se de as tratar à medida dessa inferioridade. São capazes de proferir despautérios que, ao menos, destapam as águas lamacentas da inteligência em que rastejam. Dizem que elas gostam de ser maltratadas. Fazem gala em discursar sobre a coisificação da mulher, pois ela foi criada para ser submissa ao homem. Santificam a consorte e reservam para as rameiras que visitam com frequência os devaneios carnais, sem sequer perceberem que a santa que fica em casa perde a santidade a partir do momento em que nidificam no circuito do alterne. Se preciso for, esbofeteiam a santificada consorte quando, no calor de uma discussão, perdem a força da razão e escorregam para a razão da força.

Serão eles que, naquilo que julgam ser sábios momentos de discernimento, soltam as palavras que enfeitiçam as donzelas desprevenidas: “a mulher é uma flor”. Algumas, porventura distraídas, hão-de ficar encantadas com a poesia de algibeira. Podiam ao menos interrogar: o que pode um homem fazer com uma flor? Pode arrancá-la da raiz, deixando-a num estado vegetativo enquanto definha ao embelezar temporariamente uma sala. Olham para a flor, embevecidos, garbosos por ostentarem a airosa flor que semeia os vestígios da estética no compartimento que a acolhe. Olham para a flor e nem percebem que a estão a condenar ao sofrimento angustiante, à morte lenta, ainda adiada enquanto a flor se saciar na água à espera de ficar fétida.

O lado contrário, que compactua com as reivindicações das exaltadas feministas, é loquaz na patetice. No afã de satisfazer as exigências que marcam a agenda da “discriminação positiva” que as feministas reclamam, aceitam medidas que deixam no ar o cheiro à pólvora que acabou de ser disparada no sentido do próprio pé – de quem toma essas medidas, mas sobretudo das feministas que se comprazem com elas. Um hipermercado recém-inaugurado em Santa Maria da Feira distinguiu-se pela insólita construção de um espaço no parque de estacionamento só para as condutoras. Mais espaço para cada automóvel que tenha senhoras ao volante e um sinal identificativo de estacionamento para senhoras – como há sinais de trânsito que reservam lugares para deficientes.

Chamem-lhe “discriminação positiva”. E aplaudam. Estou mais convencido que este laivo do cansativo politicamente correcto não passa de mais um acto que vem estigmatizar as mulheres. E como entretanto ainda não li palavras de protesto das feministas mais militantes, julgo que elas estão contentes com a estigmatização. Só ainda não percebi se por distracção ou por ignorância.

1.11.07

Depois – ou a religiosidade do porvir


O desencanto tingia o sabor que tomava conta da boca. Havia um persistente fel irradiando das veias, subindo desde as profundezas das entranhas. Sempre que mergulhava no tempo lá atrás era assim que se sentia. Um travo amargo, uma dor intensa apoquentando o peito, o desassossego pelo tanto que havia por cumprir e que a deriva pelo tempo de antanho mostrava.

Só tinha uma compensação. Uma inexplicável esperança que os dias sucessivos fossem santuários do cumprimento de si mesmo, o atingimento de uma plenitude que era incapaz de definir. Era o seu alento. Quase adivinhava que algures amanhã, próximo ou ainda distante, os dias iriam clarear. Vivia anestesiado pela virtude dos dias incógnitos. Uma religiosidade atípica, paradoxal até – ele que não se cansava de mostrar desdém por deuses, santos e irracionais dedicações à religião. Não se dava conta de como a religiosidade que nele brotava era isso mesmo, religiosidade. Uma fé cega, na ânsia de dobrar o cabo das vicissitudes, de partir em demanda de um outro jogo de espelhos que trouxesse as pétalas magnânimas, o perfume sublime da vida clara. Não sabia: se era religiosidade, ou apenas o cansaço do alvoroço a que se entregava permanentemente.

Recusava mergulhar no tempo ido. A cada ano dobrado, eram menos os momentos em que reavia imagens, palavras, pessoas. Não queria empurrar a avalanche dos sobressaltos que o dedilhar das páginas encardidas alimentava. Em cada dia, esperava pela parte de leão que – sabia-o, com convicção – estava à esquina dos dias vindouros. Como se houvesse uma divindade qualquer que velasse por ele, ou apenas uma ilusão empedernida que assegurava o desfazer dos dias angustiantes que o deixavam exangue. Debatia-se com uma imagem que vogava em seu redor, incapaz de a reter com as mãos: uma espada sobre a cabeça, a urgência em se desfazer dos instantes consumados, como se isso fosse a centelha de um porvir repleto de cores diferentes.

A fé inabalável era um refúgio de si mesmo – ou daquilo que tinha sido outrora, renegado esse passado. Procurava no futuro a redenção do passado. No circo da vida era como se houvesse dois palcos diferentes. E ele com um pé persistente no palco tingido de negras cores, as cortinas descerradas para passar os olhos pelas imagens resgatadas do que já acontecera, ocasionalmente cerrando os olhos, outras vezes sem força que não fosse para os baixar numa genuflexão sobre si mesmo. O outro pé no palco admirável, o que anuncia os dias que hão-de ser, aragem refrescante que povoa odores que extasiam, paleta de cores admirável, coreografia de corpos e palavras que trazem o sabor apetecível da vida. Uma esperança ao mesmo tempo alento e candeia feita de um fogo-fátuo.

A cada passo que tecia no tear do oblívio do passado, havia redenção. Interrogava-se se não havia engano a si mesmo: se a confiança inexplicável no sabor adocicado do porvir se resumia à urgência em refazer o tempo que doía resgatar, um pretexto para olhar em frente sem vacilar sequer quando impulsos interiores convocassem a visita a outrora. Afinal, não uma religiosidade reprimida a dançar por dentro de si. A impaciência pelo amanhã era a urgência em arremeter contra o tempo deixado lá trás, como se houvesse mister de o obnubilar, entronizado o lugar para o devir mais pródigo.

Havia cansaço, muito cansaço permeado pela inquietação das cicatrizes. Queria sair do espartilho do rio estreito que havia navegado lá atrás, com a foz sempre à vista, o alento do vasto oceano pronto a recolhê-lo no remanso das águas fluviais que se aprestam a deitar-se nas salgadas águas. Logo ali, que o rio se alargava e já não amordaçado pela camisa-de-forças das margens alcantiladas das rochas graníticas, logo ali que à sua volta a planície recebia nos braços o rio amansado, ali que se anunciava o devir de navegar nas infindáveis águas marítimas, debatia-se com a sua prisão maior. O mar à vista e ele assoreado, incapaz de dobrar a fronteira que separa o rio do mar – o fio tão estreito entre o tempo ido e o que há-de vir visitá-lo.

Não era religiosidade do porvir. Era ilusão, apenas, uma doce ilusão pontuada pelo cansaço que já o deixava inerte, preso aos sonhos a que se entregava no convencimento de que um amanhã qualquer viria embelezar a existência. O refúgio dos dias armazenados era um castelo de sonhos.

31.10.07

A guilhotina do tempo


Um relógio – paradoxal objecto. Tanto é obra de arte, o pináculo da estética, a admirável peça que carece meticuloso empenho dos artífices que nunca têm a vista cansada de tratarem como filhos os relógios que criam. Como é carrasco das ilusões, o ditirâmbico porteiro das oportunidades que se lamentam pelo desperdício, ou pelos planos que não escapam do papel, dos projectos cerceados porque a foice da morte tombou, pertinaz.

Há nos relógios uma dança descompassada. A voragem dos segundos que se atropelam na sua velocidade incessante, acamando os minutos, as horas, dias, meses e anos que fazem uma vida. São apenas os juízes do valor que damos ao tempo que nos foi oferecido. Uns juízes especiais, desapossados de poder de julgamento sobre as acções e omissões de quem passa pelo crivo do tempo. E somos todos, mesmo os que se convenceram que são alienadas personagens do mundo que há. Não são os juízes do tempo nossos carrascos: somos nós, com a dom de dar utilidade ao sempre escasso tempo diante das mãos.

A uma dor não consigo descobrir arte de iludir: os relógios distribuem a claridade que separa a gratificação da amargura, do que não houve mercê de alcançar. Uma prisão angustiante, quando o tempo parece voar, supersónico, sem dar conta que obedece à mesma bitola. Só que às vezes apetece acreditar que há um qualquer arquitecto do tempo que nos engana, ao chegar o periódico acto de calibrar a balança que faz mover os ponteiros do relógio. Umas vezes os minutos escorrem lânguidos, numa exasperante lentidão, quase a sensação do tempo ter sofrido de uma inércia doentia. Se preciso for, logo no dia seguinte desagua uma enxurrada de tarefas e os ponteiros do relógio dir-se-ia que aceleram como se houve temor que o mundo fosse terminar amanhã.

As masmorras que me amordaçam são os relógios que ostentam os ponteiros cadenciados. Queria, por vezes, que eles parassem, por uns instantes que fosse. Há momentos que merecem imortalização, que exigiriam uma suspensão dos ponteiros, o tempo emoldurado para beber tais momentos em toda a sua seiva. Há também o seu contrário. Ocasiões que queria banidas do tempo, como se houvesse um salto que transportasse os ponteiros para uma folha mais adiantada do calendário. É da tirania do tempo que não há mister de me libertar. Pudesse convencer-me que os dias e meses e anos escorrem com a velocidade milimétrica de um relógio atómico e perderia o rasto ao dilema dos relógios que martelam o sossego do espírito, constantemente. É daquelas coisas que me é superior. Seja pelo temor da morte, seja pelo chão viscoso que piso quando há o descuido de espreitar por detrás do ombro, numa revisitação espúria do passado.

Não é o tempo ido que carece de atenção. Esse, já feito, não se repõe. Onde os relógios trazem a sua dilacerante voz é no porvir que o andamento dos ponteiros anuncia para depois. Não é aquele passo de um segundo para outro, em qualquer quadrante do relógio, faça dia ou faça noite. É tentar olhar por cima das ameias do presente e pressentir o impossível – as pontas do novelo que se compõem, ou noutros casos se descompõem, quando a marcha dos ponteiros anuncia a chegada do amanhã por que se espera.

É nesse exercício de paciente espera que tropeço nas armadilhas semeadas pelos relógios endemoninhados. Que se tece a ponte entre passado inerte e o devir, à mostra um tremendo cadafalso para onde é fácil resvalar. Rever paisagens marcantes, tão marcantes que se avivam na memória. E interrogar se algum dia serão revistas, ou se há-de chegar primeiro a despedida fatal. Deter-me diante da colecção de CD e reparar em discos já não ouvidos há longos anos, para logo a seguir permitir a interrogação incómoda: algum dia voltarei a escutar esse CD? No entanto, estou inerte, ali, diante do CD como se ele, na adivinhada improbabilidade de audição, chorasse pelo tempo escasso que impede uma vez, uma vez só que fosse, inundar a sala com os seus sons. Ou o lamento por mim, à míngua de ponteiros do relógio que permitam a revisitação aos sons já remotos.

Eis a sublime guilhotina do tempo, irremediável, com uma envenenada candura. Quantas são as coisas feitas, ou as palavras ditas, manifestações de arte testemunhadas, lugares visitados, pessoas encontradas – quantas são as vezes em que isso acontece pela última vez, mesmo que o percurso a palmilhar até ao abismo seja demorado? E que interessa que volte a existir repetição tardia, ou não, de tudo?

Há retóricas que pertencem ao património genético da personalidade. Nem que seja um profundo hiato a separar a retórica da sua consagração. Faço do “carpe diem” lema. Não demoro, todos os dias, a cultivar a negação do lema, afinal fogo fátuo que preenche o cardápio das boas intenções. Preso ao cardume do tempo incerto, às voltas com as fendas abertas entre o tempo ido e o que está para assentar, consigo tudo menos viver cada dia que passa, um de cada vez, sem repousar na almofada com os sinos eufóricos que troam as incógnitas que só a sentença derradeira permite aclarar. Até lá, fico sentado diante dos CD, quase sempre sem vontade para regressar a discos que não voltaram a tocar desde há largos anos.

30.10.07

Envilecia

O tempo tecia a teia onde os vícios se amansavam. Dobravam os dias, densa a penumbra da experiência; julgava, até, que os anos acumulados, todas as decepções arquivadas e náuseas pelas entediantes curvas do mundo, eram lugares onde empedernia. As coisas passavam-se ao contrário. Contra as suas forças, contrariando a geometria da indiferença, notava uma consumição da alma pelos desatinos que esbarravam no peito. Reagia: a amargura destilava, abundante, espreitando de lado para os eventos que os dias ofereciam, gravitando na órbita de um implacável pessimismo da espécie.

O pior é que discernia envilecimento. Porventura, ingrediente da reacção contra o funesto que emergia do fundo do lodaçal, a espuma fétida que provocava náuseas repetidas. Envilecia não por maldade inata. Envilecia, porque as rugas e os cabelos brancos eram prova do desfalecimento diante dos olhos que o fulminavam, mesmo que os raios troantes nem lhe fossem dirigidos. Era deles vítima. Todos os dias eram dias de tempestade, com a feérica trovoada a despejar relampejantes raios que o feriam. As feridas sempre abertas, as tempestades constantes impedindo a cicatrização.

Quase desaprendera de sorrir. Muito do tempo era pasto para o desassossego que abria ainda mais feridas, um choro interior interminável. Descobrira um deserto de emoções a corroer-lhe as veias, dissolvendo o sangue num soro transparente, uma errante rota com os passos trocados, sem perceber se havia destino perseguido ou apenas o vogar aleatório. Umas vezes no conformismo de ser empurrado pelo vento dominante. Outras vezes na teimosia de remar contra as fortes águas sopradas do mais profundo por marés imparáveis. Às vezes olhava no espelho e não reconhecia a face que espreitava do outro lado. Era um estranho dentro de si mesmo. Quando olhava para trás e fazia o rescaldo da vilania a que se entregava.

Uma força incontrolável apoderara-se dos sentimentos, dos sentidos, dos gestos. Comandava as palavras. Quantas vezes dava por si a terminar frases que eram sentenças avassaladoras para quem menos as merecia. E por mais que houvesse impulso para a retractação, a exculpação tardava até que perdia oportunidade. Ganhavam espessura os traços odiosos que tinham o condão de afastar quem lhe queria bem. Os afectos perdiam-se no seu rasto, a cada passo mais ténue, já quase uma distante memória. Do mais alto de si gritava uma inexpugnável e fria parede de aço, um castelo impenetrável de onde fitava a sua solidão.

E, contudo, sabia: que a deriva pelo envilecimento, o roteiro das emoções ausentes, o ensimesmar suicidário, tudo era o funesto oceano onde navegava. Nada apascentava o bem-estar interior. Simulava soluções para provocar o reencontro com o que julgava ser o seu eu autêntico, aquele que aprendera a conviver consigo nos anos demorados. Mas desconfiava: que arrepiara caminho pela artificialidade da terapêutica, como se fugisse do lugar onde se acantonara e assim fugisse de si mesmo, daquilo em que se havia transformado, sem certeza de regressar ao que era – nem sequer com a certeza de que lá desejava chegar. As sombras negras não desistam de preencher o horizonte. Para onde quer que olhasse, pontuavam as dúvidas lancinantes, interrogações que se sucediam com voracidade, suplantando as respostas que não passavam de esboços.

Algures por entre a desorientação impante, amordaçado pela tempestade cerebral que o domava, os pontos cardeais esfumavam-se na penumbra. Cada passo, dado com hesitações, comandado pelas dúvidas do terreno pisado. Em redor só discernia uma plúmbea atmosfera que impedia retratar os rostos, as casas, as ruas, as árvores. Podiam ser notáveis os campos de flores que se estendiam na frondosa paisagem, que o nevoeiro que repousava diante de si ocultava a visão plácida. Em vez das cores garridas e do perfume das flores, apenas a angustiante ausente claridade que o acometia à labiríntica existência.

A certa altura perdera a noção das certezas. E até o envilecer metódico se estremunhava num dilema: apenas reacção hostil a um mundo condoído, ou já inércia que o domava, transformando-o em protagonista do seu mundo entregue nos braços do opróbio incontrolável?

29.10.07

Jogos de guerra


Há quem se entretenha a brincar às guerras. Arranja-se um grupo de amigos, de preferência com a colecção inteira de filmes do Rambo, Vandamme e outros espécimes que consagraram a violência como “arte”. Gastam-se verbas absurdas na compra de material bélico. E vão juntos para o mato, equipados a preceito e com o sangue a ferver na ânsia de disparar uns tiros que causem “baixas” entre o “inimigo”.

Os “camaradas” afirmam que o jogo de guerra em que participam é um acto de nobreza. Explicam-se: usam armas sofisticadas, tal como se estivessem numa guerra a sério. A única diferença é que as munições são a fingir. Por mais que ali destilem um inexplicável (para mim) sentimento de violência gratuita, sabem que passariam dos limites se o jogo se confundisse com realidade e, no rescaldo, houvesse feridos e mortos a contabilizar. Não podendo as munições aleijar os jogadores, entre eles existe um código de honra. Têm que honrar o compromisso de se darem como baixa assim que são atingidos pelo “inimigo”. É isto que significa o acto de nobreza.

Há quem se contente com pouco ao explicar conceitos. Há aqueles cuja estreiteza de vistas não deixa alcançar mais longe, ofuscando lados escondidos dos conceitos que usam. O que me deixa atónito é empregar-se a palavra “nobreza” para caracterizar um jogo que é a negação de qualquer sentimento positivo. Se dúvidas houvesse, bastava escutar os testemunhos excitados de alguns dos participantes na refrega. Equipados a rigor, com fardamento militar e caras pintadas com as cores esverdeadas escuras apanágio da tropa, falam como se estivessem embrenhados num palco de guerra. Linguagem bélica e tiques de disciplina militar. A pose de combate, enquanto se esquivam entre a vegetação rasteira, de arma em punho, as botas escorregando pelo terreno lamacento. Sempre atentos à possibilidade do “inimigo” aparecer de surpresa para um ataque que pode liquidar os contendores do jogo.

Faço uma derivação por uma notícia que tinha lido horas antes. A propósito da violência nas escolas, um inquérito à população escolar revelou que dois em cada três alunos confessou já ter envergado arma de fogo dentro da escola. Reúno as pontas do novelo. Misturando as imagens de violência gratuita que escorrem com frequência de filmes que sagram o género – os tiros de rajada, explosões que dilaceram corpos e coisas, bonecos que se despedaçam figurando a ausência de valor da vida humana, como se ela valesse tanto como um pacote de arroz ou um quilo de cenouras. E há os videojogos que levam o género ao limite. Mata-se a eito, como se as vidas das personagens que aparecem pela frente fossem escolhos descartáveis, apenas coisas que se pode liquidar com uma frieza lancinante.

Há alturas em que a ingenuidade é indeclinável. Há pouco fiz alusão à desvalorização da vida humana na bolsa das coisas – sim, das coisas, que por andar de rastos só apetece assim qualificá-la. Quando se brinca às guerras, partindo à caça do “inimigo” para o liquidar, é disso que se trata. Apoucar a vida das pessoas. Ainda que tudo não passe de uma simulação, o seu simbolismo encerra o significado do que se passa à nossa volta. Há quem não hesite em esmagar a vida de outrem, como se fosse um percevejo que incomoda e é calcado impiedosamente. As guerras a brincar são a transplantação das guerras a sério, com o grau zero de dignidade, em rigor, a inanidade elevada ao expoente máximo.

Aos valentes que fazem lazer com os teatros de guerra simulados, dois conselhos. Primeiro, umas consultas de psiquiatria. Para avaliar os distúrbios de personalidade que alimentam esta perversão de valores. Porventura a terapêutica consistirá em leituras assíduas, visitas a exposições de arte, espectadores regulares de peças de teatro alternativas, cursos de culinária, voluntariado que acalme o espírito. Pode suceder que nem assim a cura se consiga sobrepor à enfermidade mental que os apoquenta. Aí sobra o segundo conselho: façam as malas, emigrem para um teatro de guerra, daqueles onde as balas disparadas são a sério, onde as emboscadas se sucedem no instante que menos se espera, onde os corpos se desfazem em mil pedaços. Que pulem de teatro de guerra em teatro de guerra, perseguindo um trilho de sangue e morte e bombas e tiros disparados em abundância. Até que chegue a sua hora. Ao menos terão o prazer supremo de morrer num campo de batalha - a sério. Naquelas cabeças muito estreitas não haverá objectivo mais alto na vida.

Não consigam derrotar a patologia, o segundo conselho traz-lhes outra vantagem: soube há tempos que os mercenários que vagueiam de guerra em guerra são pagos a peso de ouro (cerca de novecentos euros por dia!). Mão-de-obra com elevada qualificação, portanto. Quando soube deste preço da carne para canhão das guerras, saltou a certeza de que o mundo ensandeceu e não se lhe augura panaceia.

26.10.07

As lições inúteis da História


Em Espanha, decidiu o governo passar uma esponja pela História desconfortável. Nomes que fizeram parte da ditadura franquista e que ainda perduram na toponímia vão ser varridos do mapa. Manda a lei feita por socialistas. Como se o passado franquista não tivesse acontecido. Era bom que a História da humanidade não abrigasse o património de ditadores ominosos, ou de loucos que cercearam o viver de tantos. Por mais que sejam dolorosas as feridas, por mais que elas permaneçam abertas, refazer o tempo passado é uma indignidade maior.

O pior é que nada se aprende da História – de outros episódios de revisitação do passado, com acontecimentos reescritos a condizer com a consciência aquietada, ou apenas para acalmar espíritos que ainda vivam atormentados pelas atrocidades que um regime despótico, mas já deposto, cometeu. Os exemplos do estalinismo de nada servem. E, contudo, não estão assim tão distantes de nós no tempo. Porventura será outra coisa: apenas ignorância, uma tremenda manifestação de desconhecimento dos algozes da História. Não sei o que será pior: aprender a conviver com o nome de um sequaz de uma ditadura ostentado na rua onde vivemos, ou saber que almas piedosas, mas docemente tortuosas, se desfizeram desse passado em nome de um presente imaculado. Só que manchado pela mentira, porque não há como apagar do mapa o que já aconteceu.

A ideia de que o colectivo se pode desfazer da sua história incómoda transporta a mensagem ilusória de que cada pessoa tem condições para se libertar dos fantasmas que atormentam. Convencendo-se que o percurso de vida foi um rosário de momentos idílicos, já que os momentos amargos, as horas de tristeza, as dores pungentes provocadas pela perda de um ente querido, jamais teriam marcado encontro com o calendário da vida. Seriam só o pasto para um difuso pesadelo, a confirmação da realidade que não passou de um momento onírico.

Tenho um problema com quem nos convence que há um lânguido oceano de rosas no que deparamos pela frente, todos os dias – os passados, já refeitos pela cirurgia da História, e os futuros, por acomodação dos espíritos. Temo esta gente: são artífices de uma anestesia colectiva, uma mordaça invisível com o dom de calar o descontentamento dos que não se revêem na linha oficial. A condução de quem governa obedece a imperativos de imagem, pois é cada vez mais a projecção de uma imagem, tantas vezes ilusória e sem conteúdo, que conta na hora de arregimentar fidelidades que se convertem em votos. Contudo, esta é mais uma achega para a distorção da pedagogia de quem manda. Que ensina a não olhar aos meios para chegar aos fins, e oferece padrões alterados do que aprendemos ser a ética.

(Ainda que seja terreno que me custa pisar: há aqui o tal moralismo que condeno e que me traz desconforto quando noto que para lá resvalei. Além de que a ética é subjectiva, não formatável por padrões de um sentido só.)

Parece sanha o que cerca por todos os lados – afinal um produto da prestimosa Internacional Socialista: penhores da consciência colectiva, imprimem o rumo que, de dentro das suas cabeças, se há-de contagiar à consciência de cada indivíduo. Sob pena das ovelhas tresmalhadas serem apontadas a dedo, votadas ao ostracismo, acusadas de complacência com o contrário do que os pais da boa moral dizem combater. É nestas alturas que emerge um espírito de contradição. Não é só pelo imperativo de aborrecer, de romper consensos que nos mergulham numa placidez doentia. É também por homenagem a princípios inamovíveis. Tão inamovíveis como o tempo arquivado nos anais da História, que se pensava fazer parte do património inerte, porque pertence ao domínio do já acontecido. Estes sacerdotes da pós-modernidade contemplativa, de um artificial maneirismo politicamente correcto, são prodigiosos espíritos convencidos que podem mudar a História por força de lei e porque a sua iluminada vontade o quer. Por mais que se esforcem por serem engenheiros sociais, às vezes descuidam-se no afã e perdem-se nos meandros do ilusionismo, sem darem conta.

O passado franquista da Espanha é deplorável? É. Mas aconteceu. E há nomes nas ruas e praças das cidades e vilas e aldeias que já são património desses locais, entranhados nos hábitos das populações. É insidioso acreditar que a História incómoda de uma país se pode branquear, passando lixívia nos nomes dos fautores desse passado ignóbil. Como é insidioso o nome da tal lei: a lei da “boa memória”. Desconhecia que se podia fazer juízos de valor acerca da memória.

Perante isto, já nem sei de quem ter medo. Os que vão ser varridos da toponímia estão mortos, já não fazem mal a ninguém. O mesmo não se pode certificar dos que ainda por cá andam, tão apressados em fazer revisitações estalinistas do passado.

(Em Madrid)

25.10.07

Hotéis assépticos

Há peças de literatura sobre hotéis, de como os escritores se enamoram por hotéis e deles fazem a sua residência. Descrevem hotéis de cinco estrelas ou menos, mergulhados no luxo e em pequenos detalhes de classe à mistura com a paisagem bucólica, arquitectura de excelência, ou apenas o charme discreto que leva os escritores ao enamoramento vertido nas palavras que imortalizaram esses hotéis.

Nessas páginas, dizem que gostam de saltar de hotel em hotel, o travo adocicado da ausente habitação fixa. Serão nómadas guiados pelo pouso temporário. Um hotel é isso mesmo: tece a ponte entre uma etapa acabada de preencher e a do porvir. Instalam-se uns poucos dias, por vezes semanas a fio. Mas acabam por embalar os haveres em demanda de outras paragens, outro hotel escolhido a dedo, que há-de trazer para as páginas da escrita outras sensações, outros detalhes da paisagem e da arquitectura, outras pessoas com quem hão-de conversar dando motivo a reflexões, banais ou das que vão até às profundezas do pensamento. Um outro que é só a repetição em lugares diferentes.

Para os escritores que alguma vez legaram palavras elogiosas aos hotéis por onde foram passando, os hotéis resguardados na memória têm vida. São lugares onde os escritores deixaram vestígios de emoção. Mais tarde, se o escritor atingiu a ribalta e germinar um séquito, os hotéis do seu roteiro ganham personalidade própria que ecoa nas palavras escritas, entoando os predicados do hotel. Estes hotéis entram num roteiro cultural, com os admiradores do escritor demorando-se em cada sala que ele retratou, no restaurante, no alpendre, no bar onde vogam as cortinas de fumo acompanhadas pelo som do piano, revivendo os dias e noites que foram o leito onde se prepararam as palavras glorificadas em êxitos editoriais.

Não consigo acompanhar a excitação com hotéis. Vejo-os como portos que acolhem navios: a paragem que se impõe para o recolhimento nocturno, pois afinal temos que dormir umas horas. Não digo que desdenhe o bem-estar de um hotel. Quem se não importa de deitar numa espelunca se a pode trocar por um hotel como comodidades? Só que não consigo, como alguns escritores celebrizaram, “sentir-me em casa” quando me acomodo num hotel. Tenha ele quantas estrelas tiver. No hotel não há nada património do hóspede. Apenas um lugar indiferenciado pernoitado por todos os hóspedes que estiveram alojados naquele quarto. Um mar de estranhos passaram pelo preciso quarto onde estamos alojados. Não é de suspeições de higiene que se trata, pois as regras de higienização actuam. É só a estranheza de saber que na noite anterior, nas noites anteriores, estranhos fizeram seu aquele que é o meu leito temporário.

Nunca passei temporadas em hotel nenhum. Nisso divirjo dos escritores que afamaram hotéis. Falta-me esse traço que poderia trazer alguma familiaridade, diria mesmo alguma intimidade, entre um hóspede e o lugar que o aloja na prolongada estadia. Todavia, as estadias demoradas transformam um hóspede em residente habitual. E, se assim for, os textos encomiásticos de hotéis perdem o seu fulgor, porque os hotéis se reconstituem em lugares onde os hóspedes deixam de o ser e passam à condição de residentes habituais. Num exílio necessário do domicílio, porventura porque o sedentarismo do lugar acomoda uma doentia claustrofobia.

Só que, então, os hotéis passam a ser refúgios. É mudar de residência por outra residência, com a arrumação dos pertences, a sedimentação de laços, o acostumar ao lugar, a identificação com a paisagem. O estreitamento de outros rituais, como a cama onde se deita, a sala do pequeno-almoço, o bar, a sala de leitura, a recepção onde vai crescendo uma intimidade familiar entre o hóspede e o hotel. Que se transforma em sua casa. É só um simulacro dos rituais que entontecem, cansam pela repetição com que se sucedem. Mas há novos rituais – rituais à mesma. Um hotel onde as pessoas se arrastam em prolongada estadia é a casa de que se exilaram. Pela identificação que se cimenta. Haverá fuga de si mesmo quando a acomodação demorada no hotel grita bem alto.

Como digo, nunca experimentei a sensação de remover a existência para um distante hotel onde seria pessoa diferente. Por enquanto, os hotéis continuam a pertencer aos lugares de passagem de seguida esquecidos. Neles, o espartilho da indiferença.

(Em Pamplona, Espanha)

24.10.07

Casamentos a prazo


Uma deputada alemã descobriu, com uma cientificidade notável, que os casamentos duram em média sete anos. Daí que tenha proposto uma lei que dá a possibilidade de celebrar um contrato de casamento por um prazo de sete anos. Desenganem-se os que já estão a adivinhar a cor política de sua excelência: não é das esquerdas, afinal penhoras de tudo o que se diz “progresso social”. É do partido democrata-cristão.

São estas desafiantes surpresas que tonificam a vida. Não é só pelo inusitado da ideia, para mais com o manto de lei que a cobriria caso tivesse sido aprovada pela maioria dos colegas da deputada. É sobretudo pela filiação ideológica de quem assumiu a paternidade da proposta. Estamos habituados a olhar para políticos democratas-cristãos como uma das exalações bafientas da paisagem partidária. Eis que da Alemanha chega uma arejada deputada que combina o conservadorismo de matriz com a coragem para avançar com uma ideia que deixa a léguas as “causas fracturantes” da esquerda caviar doméstica, tão pródiga nessas causas e no “vanguardismo social”.

É estranho que seja uma deputada democrata-cristã a defender a possibilidade de duas pessoas se casarem por sete anos. E paradoxal, porque os democratas-cristãos, fiéis ao conservadorismo dos valores, defendem a todo o transe a família como célula nuclear. Sagram a família e mobilizam os seus valores em consonância. Não sei se passou alguma ideia tresloucada pela cabeça da deputada, ou se ela foi atingida por uma trovoada que lhe revirou a parte do cérebro onde estão alojadas as tendências ideológicas. Também desconheço se a disciplina partidária, tão usual, falou mais alto na hora de calar a afronta saída da boca da deputada. Mas delicio-me a adivinhar as cabeças ordenadinhas dos conservadores cristãos a contorcerem-se perante a inopinada ousadia da colega de partido.

O que é espantoso é como sobre tudo se legisla. Não é novidade. Dizem que é produto da complexidade da vida, que exige uma actividade frenética dos sacerdotes da legislação. Outros, mais cépticos, apenas desconfiam que a febre das leis é o pretexto para ostentar a autoridade do Estado. Uma forma encapotada de autoritarismo – a forma sofisticada de totalitarismo, em convivência com a democracia. É admirável que uma ficção estatística tenha tanto poder para motivar a proposta de uma lei que fixa o prazo de um casamento. A deputada terá olhado para uma estatística qualquer que mostrava a duração média dos casamentos: sete anos. Bastou para ensaiar a lei. A deputada deve saber tanto de estatística como eu de agricultura: é que as médias escondem muita coisa por entre a penumbra.

Deito-me a imaginar que a ideia da deputada chegaria a lei. Os casamentos seriam como os contratos dos futebolistas, com prazo? Haveria que levar a sofisticação da lei ainda mais longe. Prever quando se poderia romper o casamento antes do prazo. É que os casamentos podem durar sete anos, ou menos, ou até mais. Se não houver paciência para deixar escorrer os sete anos, ou se houver pelo caminho uma terceira pessoa que requisite os serviços de um dos consortes antes de atingidos os sete anos, como se acertar o rompimento antecipado do vínculo? Haverá uma cláusula de rescisão? Matéria volátil, a da cláusula de rescisão: se tiver pouco valor, sinónimo de que não se acredita que os sete anos sejam passados em pleno casamento – ou que o vínculo tem pouco valor; se for astronómica, à medida das grandes estrelas do futebol, é porque alguém quer prender o outro com a força de correntes de aço. E se a união se for cimentando e, no fim dos sete anos, as duas pessoas quiserem continuar juntas? Serão proibidas de o fazer, para não contrariarem a fantástica visão de quem legislou? Ou terão que renovar votos por mais sete anos: nova boda, novas prendas, mais convidados, mais lauto manjar e folclore a preceito? A deputada alemã será sócia de uma empresa de eventos envolvida no negócio dos casamentos?

No tempo em que vivemos, já nada espanta quando damos de caras com a fobia de quem legisla. O que é raro é não haver leis que versam sobre o insólito. Outro exemplo: há tempos soube-se que o governador de um Estado brasileiro embirrou com o uso do gerúndio, porque os funcionários – talvez tomados pelo vírus que caricatura o alentejano – estavam habituados a responder “vai-se fazendo” de cada vez que eram interpelados sobre o andamento de projectos e obras. Ora o “vai-se fazendo” é um eufemismo para “deixa para amanhã”, ou “logo se vê”, ou “talvez se faça”. Irritado, o governador proibiu, por decreto, a utilização do gerúndio. Para coagir os preguiçosos funcionários a fazerem, em vez de “irem fazendo”. E assim, por força de decreto, se mudam as convenções gramaticais a uma língua.

23.10.07

Nem o pseudónimo lhe valeu


Houve um dia, já remoto, em que um homem de meia-idade, boçal, entrou no gabinete. Estava lá para se queixar, de tudo e contra todos. Tinha uma ideia vaga do mundo, tido como um resumo do pouco espaço que gravitava em seu redor. O bigode farfalhudo aparava os salpicos de saliva que gotejavam a raiva incontida nas palavras amargas, agrestes, por vezes grotescas. No melhor dos exemplos da suprema ignorância: dos que se fazem passar por expoentes da inteligência, quando nidificam na mais rasteira falta de inteligência.

O primeiro impulso foi terminar a conversa ao fim de poucos minutos. O homem incomodava-o, profundamente. Aquela boçalidade mental era um atentado, soez. E, contudo, deixou o tempo escorrer, deixou o homem expandir a imbecilidade descontrolada. Perante os queixumes, entrecortados com fina análise social a destempo, sentia-se dividido ao olhar para o homem que não parava de falar. Tanto queria pôr um ponto final na conversa, com a mão abrupta que a arrogância do homem merecia, como se deixou anestesiar pela sucessão de dislates exarados a cada instante, só para certificar até onde ia a necedade de uma pessoa.

A raiva soltava-se entre os dentes, perfumava cada palavra com o odor fétido de uma cabeça inquinada por uma visão distorcida do mundo. Os olhos fulminavam-no, com uma ferocidade assustadora. Não que temesse pela integridade física: ainda que o homem fosse assustador, ainda que não fosse difícil adivinhar que era um agressor em potência, estranhamente não se sentia ameaçado. Talvez porque a raiva não lhe parecia dirigida. Talvez porque ele era, naquele momento, o confessor que amparava toda a revolta do homem – contra a universidade que o acolhera, trinta anos depois de ter deixado os bancos da escola; contra os alunos que coincidiam no mesmo curso; contra professores que acusava de inépcia, incapazes de manter a disciplina e, no seu supremo julgamento, incompetentes; contra o país inditoso, que perdera há muito o rumo, mergulhado numa profunda crise de onde não se antecipava saída; contra o mundo que ele desenhava como uma conspirativa força unida contra a sua pessoa.

Os disparates de enfiada iam crescendo de intensidade. A certa altura, por ocasião do protesto contra a indisciplina dentro das salas de aula, asseverou que o problema era a falta de pulso dos professores. Sintoma de como o mundo estava torto. Os professores deviam esbofetear os indisciplinados para os pôr na linha. Diante do sociopata, olhou-o nos olhos, deixando de escutar as palavras poluídas de indigência mental. O homem continuava a debitar o absurdo, mas já nem o ouvia. Perante o sociopata, apeteceu-lhe ser o mandante de uma brigada de energúmenos que dessem caça, pelas ruas da cidade, aos sociopatas que dependiam da violência como oxigénio da sua existência. Enquanto o homem teimava em desfiar o rosário de acusações, do outro lado imaginava o gosto perverso dos energúmenos a cometer atrocidades sobre o sociopata. E de como ele se acovardava, suplicando por misericórdia, invocando o nome de santas da devoção e os filhos – como se os filhos lhe pudessem valer, ou como se eles tivessem responsabilidade pela idiotia do progenitor.

Anos mais tarde, quando compulsou memórias em livro, ficcionou este episódio. Os nomes eram fictícios. Até o seu, como autor, escondido sob um pseudónimo. O livro viria a ser um êxito editorial. À terceira edição, a editora organizara o lançamento com direito a cerimónia solene, seguida de sessão de autógrafos. Ao fim de mais de uma hora de cansativo dedilhar da caneta, já exangue de tanto autografar, surgiu-lhe pela frente um homem idoso, maciço, farfalhudo e grisalho bigode, os olhos vidrados, estendendo maquinalmente o livro sem proferir qualquer palavra. O cansaço tirara-lhe o discernimento: era mais um comprador do livro, mais outra anónima pessoa que passara diante da mesa onde eram produzidos os autógrafos.

À medida que abria o livro na página escolhida para o autógrafo, perguntou ao homem qual o seu nome. “Severino”, saiu-lhe, seco, com uma voz forte emprenhada por um acentuado sotaque minhoto. “O mesmo Severino que lhe apareceu no gabinete nas páginas desse livro. Não trouxe a brigada de energúmenos para me pôr no sítio? Aproveite que estou aqui, diante de si, preparado para tudo”. Lívido, olhou a medo para cima, onde estacionara o homem consumido pela idade, em tom desafiante. Antes que pudesse balbuciar o que quer que fosse, o homem voltou-lhe costas com um esgar cínico, deixando o livro a meio do autógrafo. Disparou, triunfante: “como vês, nem o pseudónimo te valeu”.

22.10.07

As curvas sinuosas da Europa


Por entre o reboliço de negociadores e comunicação social, que não se cansam de aclamar o “Tratado de Lisboa”, há expressões de desencanto, até de alguma virulenta oposição. Sinto-me dividido. Europeísta convicto, acho exageradas algumas manifestações dos que vêm na União Europeia aquilo que dificilmente ela alguma vez será – os Estados Unidos da Europa, com os países remetidos à condição de anónimas regiões. Mas, europeísta convicto, não me revejo na euforia uníssona de políticos envolvidos nas negociações.

Se há virtude nestas negociações, é trazer a Europa para os holofotes. Poderá haver alguma razão no desconforto dos críticos, quando acusam a coligação de políticos nacionais, eurocratas e entusiasmados jornalistas de tecerem um tapete por onde campeia alguma manipulação. Todavia, as páginas dos jornais têm sido esconderijo de prosa contra-sistema. Se as pessoas estiverem interessadas em consumir o que vai além da retórica oficial, não há carência de material alternativo. É aqui que vejo o lado positivo, um momento deliberativo por excelência: informação à disposição das pessoas que se queiram interessar pela União Europeia. Cabe-lhes digerir a informação, perceber onde existe manipulação, onde termina a propaganda iconoclasta que parece divinizar a Europa unida, os erros factuais dos seus críticos. E saber se são muitos os que se interessam pela recolha de informação.

Um europeísta convicto pode não morrer de amores pelos resultados de Lisboa. Pode estar convencido que o “Tratado de Lisboa” reproduz 97% da Constituição abortada e, por isso, manifestar perplexidade – mesmo que aceitasse a Constituição. Ambos os documentos são uma e a mesma coisa. Se a Constituição foi rejeitada em França e na Holanda, que houvesse a decência de respeitar as regras concebidas por todos os participantes no processo. Sem a ratificação em todos os países, a Constituição estava destinada ao baú das recordações. Mesmo que nutrisse por ela alguma simpatia, este era o destino inevitável. Caso os meandros da política não fossem uma cela escura onde as negociações são secretas e a força das leis nada vale se a vontade política remar noutra direcção.

É aqui que o processo começa a fraquejar, a expor-se a críticas impiedosas dos adversários. Sobram acusações de falta de democracia. Não diria, como denunciam (erradamente) alguns dos críticos, que a União Europeia perde qualidades democráticas com este tratado. A acusação faz sentido quando é ajuizado o processo usado. Retomar a Constituição da União Europeia, mascarando-a com outro nome, é a pedra de toque dos que, quase sem se dar conta, se enredam numa lamentável ausência de cultura democrática. A sua aposta conjunta foi derrotada pelos eleitores holandeses e franceses. Vieram agora ressuscitar uma Constituição que, eufesticamente, tinha sido colocada no “congelador” – para reflexão. Quando nada havia a reflectir, pois o objecto da reflexão devia ter sido enterrado, falasse o direito mais alto que a vontade política. Para piorar o diagnóstico, suspeita-se de um caldo de vontades dos líderes nacionais (e das instituições da União) para que o “Tratado de Lisboa” não passe pelo crivo dos referendos.

Devo dizer que me causam estranheza referendos numa democracia que se diz parlamentar e representativa. No caso do “Tratado de Lisboa”, é bom recordar que não há tradição das Constituições nacionais (e suas revisões) serem servidas nos boletins de votos em referendo. Custa-me a perceber a lógica dos que exigem o mais na União quando são complacentes com o menos nos seus países. Mas adiante. Reitero a opinião de que é um exercício inútil colocar à consideração dos cidadãos a aprovação ou rejeição das revisões dos tratados europeus. Por culpa de quem os cozinha, são um produto complexo, inexpugnável ao cidadão comum. Defender um referendo nestas circunstâncias é conceber o princípio do voto irresponsável (porque desinformado). Se temos referendo assim, só para sossegar as consciências democráticas de uns quantos, entramos numa democracia que se resume a uma formalidade.

E ainda que continue a ser esta a ideia que tenho acerca do assunto, o contexto mudou e agora referendar o “Tratado de Lisboa” deixou de ser um projecto perturbante. É que é tanta a urgência em o ratificar, em segredo, escondido do julgamento popular, que mais sou obrigado a perder os pruridos pessoais contra o referendo. A forma desastrosa como o processo foi conduzido expôs os seus actores a esta inabilidade. E deu trunfos para a raiva latente que se nota nos textos dos adversários do rumo actual da Europa unida. Com outra agravante. Porventura toldados pela fúria, escorregam com facilidade para o erro. Eles, tanto como os artífices de Lisboa que querem esconder a União Europeia dos cidadãos, contribuem para a desinformação. Desmotivam as pessoas a tomarem contacto com a Europa unida – ou, quando o fazem, partem com ideias erradas acerca do que é a União Europeia.

Pelo seu gabarito intelectual, exigir-se-ia maior cuidado na divulgação de informação, mais honestidade intelectual que tanto apregoam. Três exemplos: não fica mais fácil o caminho para uma Europa federal (seja lá o que isso for), sugerindo-se que se dediquem a estudar o federalismo antes de tirarem conclusões precipitadas; Portugal não perde o “seu” comissário: todos os países o hão-de perder durante cinco anos; uma comunidade destas só pode funcionar se as decisões forem tomadas por maioria qualificada. Por quê insistir tanto nos “interesses nacionais” (que, a crer nos críticos, são delapidados pelo “Tratado de Lisboa”)? Hoje votamos de vencido, amanhã estaremos entre os que concorrem para a vontade maioritária. Se não gostarmos, resta-nos a porta da saída.

São as dores de parto da Europa unida. Prolongadas, mas necessárias. Paradoxal Europa, esta: já leva mais de cinquenta anos de vida e ainda lambe as feridas pós-parto.

19.10.07

No rés-do-chão do pensamento



Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.


(Variações em torno de “Opiário”, poema de Álvaro de Campos)

O desassossego. O tremendo desassossego pelas grotescas exibições do pensamento que vegeta pelas caves serôdias de onde arremetem os paladinos da menoridade intelectual. São palavras e actos que ensombram os dias claros do pensamento mais alto. Mas: e o que é o rés-do-chão do pensamento se a sua antítese, o nem sempre clarividente pensamento mais alto, se aprisiona num arrogante distanciamento, brame com pesporrência contra a inferioridade intelectual dos que vegetam nas caves do pensamento?

É verdade que o desassossego vem bater à porta, com fragor, de cada vez que os baluartes da vilania intelectual se fazem notar. Há nesse desassossego reacção instintiva, na impossibilidade de não se fazer notado o gritante pensamento que vem dos baixios. E, contudo, não devia produzir dor sequer. Não devia, sequer, fazer-se notar. Por exalar o bolorento cheiro das arrecadações mentais onde devia estar acantonado. E porque as tonitruantes bandeiras arpoadas no pérfido sinalizar do rés-do-chão do pensamento trazem a mediocridade alheia, chaga que vem de fora para dentro quando devia cessar a sua marcha no limiar do ser.

O mais incómodo nem é o rés-do-chão do pensamento. O que desassossega nem são as exalações perturbantes do ininteligível raciocínio – ou da negação da articulação coerente do raciocínio. Haveria de soar mais alto o convencimento de que pelo raciocínio alheio só podem falar os seus detentores, só eles responsabilizados. Se há condoer que se nota quando a vilania do pensamento esbarra no peito e o estilhaça em feridas, é a errada cicatriz que fica por fechar sem terem sido as dores individuais do pensamento que a causaram. O que mais aflige é cativar a atenção pelo rés-do-chão do pensamento alheio.

É isso que está errado – não tanto os baixios fétidos de onde exala o rés-do-chão do pensamento. O tempo gasto a decifrar os ininteligíveis meandros de um pensamento que desagua num labirinto sem saída. A armadilha de atentar nas palavras alheias de onde goteja o gorduroso pensamento que traz as náuseas e o incómodo por saber que há quem consiga enlamear-se nesses baixios. Esquecendo o seu contrário: os sublimes momentos de exaltação da inteligência, que povoam a literatura, a música, a pintura, a paisagem, a natureza, as pessoas queridas ao perto ou ao longe.

E o que está errado também é a superioridade intelectual dos que denunciam o rés-do-chão do pensamento. Há uma tentação, diria quase narcisista, de ostentar a muita inteligência que é caução para denunciar os que residem nas catacumbas do pensamento. A voragem pela condição de “intelectual”. E, contudo, a pesporrência da vanguarda intelectual é o lado contrário da moeda onde habita do rés-do-chão do pensamento. O que conta não é estar no lado contrário da moeda; é ser parte da mesma moeda. A diligência com que são apontados a dedo os exemplos de menoridade intelectual traz tanto desassossego como o rés-do-chão do pensamento. O pedantismo das elites intelectuais é tão nauseabundo como o que se propõe desmascarar.

O remédio contra todo este desassossego é o ópio do poeta, um metafórico ópio que obriga a ensimesmar. Não será narcisismo, ou um grito de envaidecimento individual que profere a grandeza do ser como antítese das caves do pensamento em que muitos vogam e da dilacerante e zelosa aura de superioridade intelectual dos que zombam da vozearia inconsequente vinda das cavernosas lotas do pensamento. Será talvez um narcisismo inócuo, um paradoxal narcisismo que não se mostra para o exterior. Ou um umbiguismo terapêutico, que se esconde das dores do mundo e do que é exterior ao ser. Poderá ser uma deriva individualista, a recusa em sentenciar os mares que cercam a ilha tão individual. Uma exigência de honestidade intelectual. A fuga dos rios poluídos do rés-do-chão do pensamento, tão insidiosos que não merecem um segundo de atenção.

Será difícil resistir à tentação fácil de esmagar os paladinos do cavernoso pensamento. Mas quando se der conta que a tentação é o roteiro para a envaidecida liturgia da superioridade intelectual, abrem-se de par em par as janelas para a fuga ao que é exterior.

18.10.07

A trilogia das previsões: economistas, meteorologistas, astrólogos


Gostava de ser economista. Descobri o gosto pela economia quando estava a terminar a inditosa licenciatura em direito. Já não havia tempo para voltar atrás. Até porque a matemática tinha ficado no nono ano de escolaridade, o que me retirava conhecimentos para usar uma ferramenta crucial dos economistas – os modelos econométricos. Na investigação que faço, quando deparo com textos de economistas há partes que são um mistério insondável: a sucessão de equações que provam um certo argumento, usando linguagem matemática com o rigor que os cultores dessa linguagem certificam. Essa linguagem é um alfabeto estranho para mim. Tal como se me detivesse diante de um texto escrito em cirílico.

Também gostava de ser meteorologista. Interessam-me os fenómenos atmosféricos. Como se desenvolvem tempestades. A dinâmica das frentes que chegam do Atlântico, carregadas de chuva e vento. Observar a evolução de depressões que se formam no interior da península ibérica e que desembocam em violentas tempestades de Verão, com trovoadas medonhas e aguaceiros que parecem despejar toda a água acumulada nos céus. E observar como as condições do tempo variam na geografia de lugares diversos na Europa. Tentar perceber, pelas imagens de satélite, como vai estar o tempo – antes mesmo de ler as previsões escritas pelos meteorologistas.

Há pouco em comum entre a economia e a meteorologia. Coincidem na apetência para as previsões. Os meteorologistas fazem da capacidade de previsão parte importante do seu dia-a-dia. As pessoas querem saber que tempo vai fazer amanhã, ou daqui a uns dias quando forem viajar para outro lugar. Consultam os boletins meteorológicos. E se procuram desmultiplicar a informação, visitando diversos sítios com previsões meteorológicas, o mais certo é encontrarem tantas previsões quantos os boletins consultados. Ficam a saber que os especialistas da previsão do tempo aprenderam por diferentes cartilhas. Cada cabeça, sua sentença meteorológica. Às vezes as previsões são um falhanço. Os modelos matemáticos e a experiência acumulada, feita da rotina do tempo que costuma fazer, traídos pela imprevisibilidade dos elementos, num desvio inesperado que baralhou as previsões.

Com os economistas, a tentação de antecipar o futuro depara-se com problemas semelhantes. A diferença é que as suas previsões são sazonais e projectam o que pode acontecer no ano que vem. Usam sofisticados modelos econométricos que dependem de variáveis infindáveis e confiam no rigor milimétrico da matemática. Entre os economistas, as cartilhas também terão sido muito diferentes, a atestar pela divergência de previsões quando se deitam a perorar sobre o que pode acontecer com a economia de amanhã. É então que se assegura, com alguma ironia à mistura, que dois economistas à mesa da discussão produzem três opiniões diferentes – e todas elas se revelam erradas quando, mais tarde, é tempo de comparar os dados da realidade com as previsões feitas.

(Um exemplo: ontem foram divulgadas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia portuguesa para 2008. São mais pessimistas do que as previsões do governo e do Banco de Portugal. Menos crescimento, mais inflação, mais défice orçamental. A excepção é no desemprego, que para o FMI será mais baixo do que nas estimativas do governo e do Banco de Portugal. O leigo pergunta: como podem diferir tanto as previsões? Estarão todos a observar o mesmo país? Haverá dados ignorados por alguma das entidades que se aventura a fazer as previsões, induzindo-as em erro? Ou algumas dessas previsões – as mais optimistas – são engodo para iludir as pessoas, um convite a redobrar a confiança no futuro, mas apenas um “wishful thinking”. E que raramente se confirma. O que é mais interessante é que, ano após ano, acabam por se aproximar mais da realidade as previsões do FMI, ou da Comissão Europeia, do que as elaboradas pelas instituições nacionais. Não será, pois, só por pirraça pessoal se disser que confio mais nas previsões do FMI. Primeiro, por maior competência técnica. Segundo, porque o distanciamento joga a seu favor. Desconfio das motivações políticas dos técnicos nacionais que manobram os modelos que resultam em previsões. Desconfio que tenham o trabalho encomendado, para satisfazerem os interesses dos políticos que os tutelam.)

Admito que a tentação de adivinhar o futuro é grande. Uma tarefa homérica, diria. Que nem a tão elevada sofisticação de modelos que usam a infalível matemática chega para obviar. É essa a beleza do futuro: a imprevisibilidade, a incerteza, os insondáveis mistérios que encerra. Os que se deitam a adivinhar o que vai acontecer são os desmancha-prazeres que revelam uma surpresa que assim o deixa de o ser. É que, ainda por cima, resvalam frequentemente para o erro, na observada percentagem das previsões que desaguam  no erro. Acontece mais com os economistas, talvez por não terem o hábito diário das previsões.

É então que percebo que fiz bem em não ser economista. Eu, que tanto gozo com a astrologia, vejo uma analogia diante dos meus olhos: economistas e astrólogos atrelados na bazófia das previsões, raramente acertadas.

17.10.07

Do orçamento, para desmascarar (mais um) embuste


Até podem chamar mania da perseguição, que eu confirmo. Mas dói-me quando os políticos se embelezam com declarações pomposas, mas fátuas, que escondem debaixo do véu o que convém permanecer escondido. Andou por aí aplauso ruidoso à gestão do orçamento deste governo. Já anunciaram que o défice orçamental vai ser inferior (3% do PIB) ao que tinham previsto no final do ano passado (3,3%). E reclamam o estatuto de heróis, massajando os impérvios egos pelos dons de presciência que nos ofereceram.

É provável que os funcionários do ministério das finanças tenham andado semanas a fio de máquina calculadora na mão (versão prosaica para os complexos modelos econométricos manipulados por computador) fazendo e refazendo as contas para anunciar a boa nova. Pela primeira vez em muitos anos, o défice fica abaixo das previsões. Dantes, as previsões saíam furadas. Ficava-se com a impressão que ou os orçamentos estavam mal feitos, ou se gastava muito acima do previsto, ou os contribuintes se especializavam na sublime arte de fugir aos impostos, ou o exército de economistas com grandes dotes premonitórios era inepto. Agora é que estamos bem entregues. Uma equipa vigilante, com as contas bem feitas, que se deu ao luxo de gastar menos que o previsto.

Tenho para mim – que não consigo prescindir do cepticismo militante em relação à trupe que governa – que tudo isto não passou de uma cuidadosa manobra, bem arquitectada para produzir a enxurrada de elogios. Ninguém me convence que abusaram da prudência, quando há um ano deram corda aos modelos econométricos e saldaram a confecção do orçamento para este ano com uma previsão de défice de 3,3%. Aposto que já sabiam na altura que essa meta era alcançável com facilidade. Preferiram errar por excesso, pois estamos é habituados ao catastrófico efeito das estimativas por defeito. A imagem – a sempre sagrada imagem – sai melhorada quando se mostra que ao chegar ao fim do ano sobrou dinheiro. Depois, os governantes ficam à espera do aplauso – e, de preferência, unânime.

Se me é permitido, eu não aplaudo. Em vez de me desfazer em louvores e agradecimentos pela notável gestão do orçamento, desconfio. Com as exaustivas operações de cosmética que esta gente faz à sua imagem pública, ninguém me tira da ideia que as expectativas foram colocadas numa fasquia baixa, porque é mais fácil superá-la do que ultrapassar um desafio exigente. É a via dos medíocres. E, no entanto, mais me parece que são tratos de polé que a gestão do dinheiro público continua a sofrer. Habituados a nivelar por baixo, apoderados por uma certa tacanhez colectiva, ficámos (quase) todos entusiasmados porque o défice estará uns míseros 0,3 pontos percentuais abaixo do previsto.

No meio da excitação colectiva, alguns comentadores conseguiram decifrar o emaranhado de números, desmascarando o embuste. As contas públicas melhoraram, mas os remédios aplicados cheiram a batota. O problema é teimosamente gastarmos mais do que os recursos amealhados. A solução é a mais fácil: cortar nos investimentos (o que, em si, não é mau: sempre se evitam inúteis despesas que dão a imagem de um Estado balofo sem haver razões para estulta grandiosidade) e aumentar o roubo dos cidadãos, legalizado via impostos (que aumentaram, como têm aumentado desde há vários anos). As despesas públicas viciosas e parasitas – as “despesas correntes”, que a maioria dos economistas considera “rígidas”, isto é, não podem deixar de se realizar – essas subiram. Contrariando mil e uma promessas, repetidas até ao cansaço da audição, de que iriam diminuir e muito, no solene altar das reformas do Estado anunciadas com tanta pompa e circunstância. Este é o bilhete do insucesso do governo na gestão do orçamento. Com a estratégia da mentira repetida à exaustão, que de tão repetida passa a engalanar-se como verdade.

Aos poucos que tiveram a honestidade intelectual de denunciar o embuste, faltaria explicar porque escasseia a coragem para cortar a eito na despesa corrente. Primeiro, políticos profissionais alimentam-se de uma administração pública com tamanho de elefante. É aí que se acoitam quando o tapete do poder sai debaixo dos pés. Segundo, cortar nas despesas correntes é emagrecer as clientelas que dependem desse cheque generoso, com uma desagradável dupla consequência: com menos clientelas que chegam ao gabinete do ministério de mão estendida, é menor a ostentação do poder; e se as clientelas habituadas a lautos manjares à mesa do orçamento forem disso desabituadas, podem, por vingança, traficar influências para que outros venham tomar conta do trono.

Aos que pagam impostos, reservado o papel de palonços nesta peça lamacenta.

16.10.07

Um dogma: nos filhos há todo um lastro que vem dos pais


Há duas maneiras de dizer isto: faz hoje três anos que nasceu a minha filha; ou: faz hoje três anos que fui pai. Sei que as duas coisas são causa e efeito. Que tanto faz formulá-las de uma forma ou da outra. No entanto, a escolha de uma das fórmulas não é inocente. Suspeito que muitos progenitores que optam pela primeira no seu íntimo pensam na segunda. É natural que o façam. A inauguração da paternidade é um marco na vida, uma página dobrada, um dia que fica retratado para a eternidade, com as memórias bem frescas que perduram anos a fio.

Diz-se que um filho é um acto de generosidade. Uma vida legada, muito de nós – os pais – posto na vida gerada. E depois vem o relambório dos manuais da puericultura: todo o amor consagrado aos filhos, quase como se os pais fossem levados a um desprendimento da vida própria, dedicados agora a viver apenas para e em função dos filhos. Os filhos seriam pequenos ditadores a marcar o passo dos pais. Uma ditadura feliz, porque pai nenhum questiona o amor depositado no filho. Contudo, há uma desconformidade nos usos da paternidade. É que estamos habituados a ver nos filhos o nosso prolongamento. São clones imperfeitos das nossas virtudes (e só nos agrestes momentos é que vem o reconhecimento, por íntimo que seja, que há neles semeados alguns dos defeitos que em nós habitam). As façanhas dos filhos são glorificadas, como se no âmago houvesse ali auto-comprazimento dos progenitores.

Dizer-se que um filho é acto maior de generosidade choca com a ideia – escondida – de que um filho é um acto sublime de egoísmo. Quando se confunde o amor devido ao filho com a ideia de que ele é o nosso prolongamento, destila-se a exaltação de um narcisismo reprimido (ou não). Como é enternecedor ir às reuniões de pais do infantário e ver o desfile de rivalidades inconsequentes dos paizinhos que não conseguem calar as façanhas dos petizes, sempre um pouco mais além que a façanha acabada de descrever pelo paizinho que terminou de orar. É um concurso que mostra criancinhas com dotes fantásticos porque – adivinha-se – foram gerados por quem foram.

Aceita-se que um filho tem a genética dos pais, sob pena de negação da ciência. E que no crescimento dos filhos há muito dos pais que vai sendo incorporado – e dos avós, de outros familiares, dos amigos, dos professores. O que se esquece é que uma criança é um individuo, ela também uma ilha com o seu ADN, que mesmo sendo uma mistura dos pais é nessa mistura uma individualidade própria. Reconforta os pais sagrarem os filhos porque são o produto do seu amor – ou de um arrebatamento da paixão, ou de um acidente de percurso, o que quer que seja. A contradição é que tão depressa o acto supremo de amor, num desprendimento que se convencionou elevar ao altar do altruísmo, assenta na poeira do egoísmo imperceptível. Sim, há num filho essência dos pais. Mas um filho é uma ilha que desagua na sua individualidade. Porque temos que encontrar em tudo o que um filho é, traços que vêm do pai ou da mãe? Quantas vezes o narcisismo reprimido dos pais se desnuda na exaltação do filho, denunciando o ensimesmar dos pais?

Agora que passam três anos e olho para trás, o que celebro são todos os passos que cimentam o crescimento diário da minha filha. Recordar os sedimentos desse processo – o gatinhar, os primeiros passos, o esboço de linguagem que evoluiu na articulação das primeiras palavras, o afecto, o simples olhar enquanto dorme, as brincadeiras que me permitem descer à infantilidade da idade dela, até as reprimendas necessárias depois da impertinência ou da asneira mais surpreendente (ontem: um telemóvel assado no microondas...).

Quando tudo isto assoma à superfície não consigo reprimir um arrepio da pele. Quero que seja sentido como um acto de desprendimento, olhar para ela como alguém que vai dando os seus passos num crescimento que tem muito de auto-aprendizagem. Na recusa de ver na filha um espelho de quem a gerou, porque aí fala mais alto a recusa maior de impregnar a filha com o egoísmo típico dos progenitores.

15.10.07

Um intruso por dentro


Às vezes conseguia-se ver como se estivesse por fora de si. Olhar de fora para dentro – ou se houvesse um espelho que reflectisse a sua imagem, uma crítica fotografia do que não conseguia ver quando se investia na sua pessoa. Ao olhar por fora, por vezes desconhecia-se. O que via era um intruso que tomara conta do seu corpo. Via gestos autómatos que lhe traziam o desconforto. Havia palavras ditas que profundamente o desgostavam. Actos de que não se orgulhava.

Era então que sentia uma vontade indómita de sair de fora de si e à sua interioridade regressar. Nem que fosse para se resguardar da fotografia tirada do exterior, daquela fotografia que dava uma imagem de fealdade que tanto o atormentava. Ou regressar à carne já gasta dos anos vividos, só para asfixiar a sensação de que em si habitava um intruso. Nisto, navegava num oceano de interrogações. Se um intruso havia dentro de si; ou se o que estava convencido de ser era o intruso, quando afinal o suposto intruso o não era, mas antes a imagem fidedigna – mas reprimida – da sua essência. Perdia dias nestas deambulações pelos meandros do ser, que só traziam mais dúvidas que respondiam às interrogações levantadas.

Ficava perturbado pela sensação que o estranho era ele. Atormentado pela sensação de que afinal não era o que estava convencido de ser. Pensava: todos temos uma imagem do que somos, acreditamos naquilo que pensamos ser. E quando assomam as dúvidas sobre a essência do que em nós vagueia, todas as palavras perdem sentido, as coisas oferecem-se com o odor inabitual, e até os pontos cardeais perdem o devir da bússola. Enquanto o corpo vai apoderado pelo desnorte, as ideias batem forte contra o peito, ensanguentam-no na voracidade das coisas que jorram intensas e diferentes do formato preconcebido que fermentava a rotineira passagem de testemunho entre os dias repetitivos.

A perturbante imagem do intruso por dentro consumia-o – tempo e forças. Sabia que todos os instantes levados pela dialéctica poderosa entre o que julgava ser e a ácida sensação de nele habitar algo de tão diferente, eram instantes que adensavam o labirinto onde se metera. As forças exauridas a cada vez que ensaiava o exercício. Mais os dias passavam, mais as interrogações se acastelavam sobre a cabeça, menos a capacidade para cicatrizar as feridas que abriam de cada vez que estalava na boca a descoberta dos sedimentos do intruso em si. A carne viva expunha-se, dobrava a pele protectora à espera das salgadas e dolorosas dores da vida nela acamarem. Uma doentia vocação para condoer os dias fartos da trivial sucessão entre si.

Por mais nítida que fosse a sensação de que um estranho partilhava a sua existência, não se conseguia habituar à ideia. Revisitava os tempos idos, as pessoas, as palavras ditas, os actos cometidos. Revia-os à luz do intruso que se convencia, a cada passo, que afinal talvez fosse ele. Perguntava se as pessoas, as palavras, os actos tinham o mesmo significado pela lente do intruso. Ou então interrogava-se se acaso teriam essas pessoas, ou as palavras, ou os actos obedecido ao mesmo roteiro se, no remoto tempo repisado, o intruso em si tivesse sido o protagonista. Desconfiava que no ensaio de retorno a outrora havia sinal de revisão do tempo emoldurado. De tanto recusar fotografar o passado, ecoava a perplexidade por percorrer o caminho que sempre negara.

Eram as pessoas, as pessoas mais próximas, que reforçavam a perturbante dúvida do intruso por dentro. As pessoas retratavam-no como ele julgara não ser. A certa altura, na peregrinação permanente de si, já começara a duvidar da densa camada que sedimentava os anos vividos, se tudo aquilo tinha acontecido – todas as pessoas, ou seriam outras, tal como ele, desconhecidas. Talvez fosse o tempo biombo que desdobra a existência em duas dimensões. A que traz uma anestesiante sucessão dos dias, os planos sempre adiados, promessas de mudança por cumprir. E a outra, exterior palco de onde é possível sair do corpo e ver como era actor de si mesmo. Lá de fora, onde dava conta do intruso que habitava em si.

De tanto se debater contra a poderosa imagem do estranho que afinal era, a certa altura nem sequer sabia se era o que julgava ser ou já o intruso que discernia ao olhar-se de fora. Ou ainda nada disso.