7.1.08

O mundo nos seus contrastes: da opulência à indigência


No epitáfio do escritor Luís Pacheco, um dos traços salientes foi a indigência que atravessou a sua vida. Pacheco terá morrido às portas da miséria. Não é a primeira vez que o desapego material é congénito à biografia de escritores. Sobretudo de escritores que o foram grandes, sem serem ícones do estrelato comercial. Não terão sido escritores campeões de vendas, mas a obra que deixaram é testamento da estatura enorme que atingiram. E, no entanto, ou porque tiveram uma vida de devaneios, ou porque os bens materiais nunca foram prioridade, atravessaram dificuldades de sobrevivência, por entre os corredores exíguos da penúria.

Há dias, num programa televisivo sobre Herberto Hélder, ficou documentada a indigência que o poeta passou quando deambulou por Paris e Amesterdão. Sem casa para viver, aos caídos entre estações de comboios e casas de banho públicas. Hoje, já restabelecido para uma forma de viver mais estável, sobrevive com um salário frugal de seiscentos euros. A certa altura, passaram imagens de uma reunião de trabalho da equipa envolvida no documentário. A propósito das dificuldades, diria da impossibilidade em entrevistar Herberto Hélder, porque o poeta se recusa a aparecer em público – sequer a deixar-se fotografar. O director do documentário avisava os membros da equipa da tarefa impossível. E dizia que iam deparar com um homem que vive mergulhado em dificuldades financeiras (o tal salário frugal) e que, todavia, recusou há anos o prémio Pessoa que lhe poderia ter valido trinta mil euros.

A cada passo que tropeço em biografias de escritores grandiosos que viveram um mar de dificuldades, por opção ou por contingência, fico impressionado. As experiências de vida de Luís Pacheco e de Herberto Hélder serão diferentes. Entre eles há um traço comum: o desapego material, o nada terem feito para amealhar alguma fortuna – até a percepção que fugiam do bem-estar material. Quantas pessoas vivendo as dificuldades típicas de quem aufere seiscentos euros por mês teriam recusado um extra de trinta mil euros que, decerto, iria compor o magro orçamento? O poeta, deixando falar mais alto princípios de que não abdica, declinou a distinção. O preço a pagar pelo refúgio no mais completo anonimato de vida, apesar da condição tão difícil de garantir pela produção literária que o distingue no firmamento das letras. (E seria acertada a provocação de Luís Pacheco, entrevistado no documentário sobre Herberto Hélder, que alvitrou que o refúgio do poeta é apenas marketing pessoal?)

À volta, o que mais se vê é opulência. Em muitos casos, ostentação gratuita. Até, dizem-me pessoas conhecidas que estão por dentro da banca, consumismo acima das possibilidades. Não vale a pena ensaiar uma sociologia do consumismo viciante que leva ao endividamento para além do razoável. Nem tão pouco interessa denunciar esses hábitos, engrossando a maré que tenta desconstruir os alicerces do capitalismo pela pornográfica dependência do consumismo. Só quero registar o contraste entre aquela maioria que não abdica do conforto material e faz dela sua substância estupefaciente e a minoria que está nos antípodas dos valores materiais que conduzem os primeiros.

Contra mim falo. Há vícios de consumismo que me fascinam. Grande o pecado se confessar que adorava ser proprietário de um Porsche? Poderia elaborar em minha defesa. Dizer que é o imenso gosto por automóveis, pela condução de potentes automóveis; e não manifestação grotesca de exibicionismo de quem passeia automóveis muito caros apenas como sinal da afluência material, esfregando na cara dos outros sinais do seu sucesso. A justificação não é suficiente para me deslocar do altar dos devotos do materialismo. Abstraindo dos sonhos quase irrealizáveis, há mínimos de subsistência que obrigam à entrega a valores materiais. As contas para pagar, uma casa para viver – e agora que se convencionou, para deleite dos bancos, que todos temos o direito a ser proprietários da casa onde vivemos. Roupa para vestir, a alimentação que provê a subsistência. Alguns objectarão: fomos educados para um nível de vida (os tais mínimos) que obrigam a empenhar a vida em prol desses sinais. E, depois, o que resta? Depois das contas esforçadas do orçamento familiar, pouco tempo para fruir a vida.

É, por tudo isto, incomensurável a admiração pelos desprendidos dos valores materiais que, por opção ou por contingência, vivem no limiar da indigência. (Não os que são empurrados, involuntariamente, para a pobreza absoluta.) Aos que se mantêm fiéis a princípios de que não abdicam e declinam os louros do exibicionismo material. Há quem diga que é matéria-prima necessária para a grandeza da criação literária. Do contraste maior entre o desapego material, que os coloca no limiar da indigência, e a grandiosidade da obra produzida. Porventura, só possível pelas carências passadas que os predispõem para páginas tão brilhantes de literatura.

4.1.08

Cavaco, o invejoso?


No tempo dos reis, eles ficavam para a história pelos feitos e pelo cognome que os distinguia. O advento das repúblicas mudou os hábitos. Aos presidentes não é usual adejar cognome quando entram para as molduras da história. No entanto, não é difícil discernir cognomes para os antecessores do actual inquilino da cadeira presidencial: Sampaio, o ininteligível (ou: Sampaio, o timorato); Soares, o monarca sem coroa (ou: Soares, o implacável); Eanes, o esfíngico (ou: Eanes, o homem que perdeu o sorriso).

Mal ficará propor cognomes para um presidente que ainda vai a meio do mandato. Fazê-lo será gesto de mau gosto: os cognomes atribuem-se depois das personalidades desabitarem a sinecura. Ora, o actual inquilino ainda mora no palácio presidencial e, ao que consta, o enamoramento com os socialistas inscreve-se na oportunista estratégia de garantir a renovação do mandato quando vier tempo de eleições. Ainda assim, ouso sugerir um cognome mesmo sabendo que rompo com os costumes: Cavaco, o invejoso.

Tudo porque na mensagem de ano novo, por entre um sucedâneo do discurso sampaísta, sua excelência perorou sobre os muito elevados salários de certos gestores. No seu douto entendimento, demasiado elevados. Só os distraídos não entenderam o alvo: os gestores do Banco Millennium que se abarbatam com salários obscenos, também no entendimento de outros observadores. Percebo a indignação destes e a cautela do “mais alto magistrado da nação”: fica sempre bem exprimir preocupações sociais. Cavaco sublinhou-o na sua mensagem sampaísta: o abismo entre os administradores e os trabalhadores comuns pode alimentar tensões insuportáveis. Pode até cercear a bovina tranquilidade que apascenta os costumes e a monotonia tão do agrado dos cinzentões do regime – de que sua excelência é o sumo pontífice.

O que sobra da retórica que ressoa a marxismo recalcado? (E digo marxismo porque, daquele aviso, intui-se a crença de Cavaco no argumentário da luta de classes, tão nítido quando chama a atenção para o abismo entre as remunerações do escol de gestores e das que são auferidas pela maralha indiferenciada.) O que sobra é uma inveja, também ela recalcada. Ambicionaria Cavaco ter sido convidado para o conselho de administração de um banco privado que remunera principescamente os seus iluminados gestores? Há que recordar: está convencionado que Cavaco é um dos maiores economistas contemporâneos da terra lusitana (numa tremenda confusão entre dois papéis: o de economista e o de político). Aos grandes economistas ficam reservados lugares de excelência na gestão das grandes empresas. Não será esta a lacuna que deixa uma mácula do currículo de Cavaco?

E depois há que adicionar um traço tão típico da idiossincrasia nacional: a mesquinhez, de braço dado com a inveja. Aliás, é a mesquinha maneira de ser, a forma tão pequenina de sermos, que fermenta a doentia inveja. Desconfiamos dos que estão muito bem na vida. A primeira tentativa para desmerecer a posição privilegiada em que se encontram é duvidar do mérito, ou questionar a forma como chegaram ao lugar de privilégio. Se houver fracasso nesse exercício, o segundo acto consiste em esfolar a criatura através da insidiosa inveja. É tempo para esgotar as aleivosias. Lá no fundo, a inveja indisfarçável é a confissão de como gostariam de estar na posição de quem tanto invejam.

O exercício de sampaísmo na mensagem de ano novo de Cavaco é ainda mais insólito por anunciar a confusão entre dois mundos que deviam viver separados: sector privado e sector público, empresários e políticos. Sim, a cumplicidade entre os dois mundos é recíproca. A culpa deve-se tanto a políticos que adoram interferir nas empresas, como aos empresários que amesendam com a política, sempre dependentes das grandes negociatas com o Estado ou da paternalista protecção do Estado. Tudo isto explica a prescrição de Cavaco. Num país normal, era o que mais faltava vir o presidente da república dar palpites sobre os salários praticados nas empresas privadas. Por cá, neste rectângulo dominado pela pequenez de pensamento, ainda se aplaude. Há um sinal sublime em tudo isto: a bênção de Cavaco à grotesca intrusão dos socialistas governantes (o tandem governo-governador do Banco de Portugal) no Banco Millennium. Mais um acto para o noivado entre Cavaco e os socialistas governantes.

O que se segue? Sugerir que há futebolistas que, também eles, auferem salários obscenos? Determinar por decreto que ninguém pode ter salário mais elevado que sua excelência o presidente da república? Suspeito que no Palácio de Belém ficou depositado um vírus, chamado “Sampaio”, que tomou conta do actual inquilino. É que ele parece, cada vez mais, um clone do seu antecessor...

3.1.08

A inteligência que se consome


Mote: a inteligência limita a autonomia humana.

É a sociedade do conhecimento. A iliteracia é a forma moderna de analfabetismo, pelo menos nos países que se gabam de pertencer ao clube dos mais desenvolvidos. Cada vez mais a inteligência distingue os aptos dos inaptos, os que vingam dos que ficam para trás. Há muitas formas de inteligência. Todas são enaltecidas: ingredientes necessários para a sobrevivência na idade moderna em que vivemos.

E, todavia, a inteligência pode conter as suas dores. Tremendas dores que fertilizam dúvidas existenciais. Ter os olhos abertos e procurar entender os fenómenos em redor pode ser uma experiência dolorosa. Quantas vezes o exercício da inteligência traz o sabor desagradável de discernir o que não gostaríamos de discernir? O odor fétido do mundo. As classes a que as coisas se reportam, com a inversão das tabelas que ordenam as coisas. Os comportamentos que fazem a inteligência contorcer-se sobre si mesma, interrogar-se se afinal há inteligência no mundo pintado diante dos nossos olhos.

A sucessão infindável de interrogações, que só o exercício da inteligência cauciona, entrega-nos às portas de uma encruzilhada. É quando damos conta do estreito caminho alternativo por onde seguimos, diferente da linha contínua onde se afunila o mundo inteiro. Nessa altura entoa bem alto a pergunta maior: se afinal vegetamos na ininteligível forma de ser, penhores do deserto de inteligência. A inadaptação ao mundo: sinal da ausente inteligência, ou apenas um lado obscuro da inteligência que se revela inadaptada ao mundo que a circunda?

Quero crer que não ando nas margens da inteligência. Confesso: se há coisa que me atormenta é despertar de um sonho que espalhou o convencimento da ausente inteligência. É do que mais perturba quando me situo diante do mundo. Só que esta inteligência é uma consumição do ser. A fonte de todas as quedas no precipício, quando a inteligência transporta leituras que semeiam a incompreensão do que está em redor. É a inteligência que alimenta a contínua revelação do ambiente hostil. Fermenta as dores que encerram o corpo na existência de cada dia pungente.

Ao contrário do que rezam os manuais zelosamente escritos pelos pedagogos do regime, a inteligência é um espartilho humano. Não é a carta de alforria que liberta das totalitárias expressões que limitam a autonomia humana. Se muitos acreditam que só através da inteligência há descomprometimento para ajuizar o que os mandantes querem impor, no subterrâneo do pensamento vogam as retorcidas algemas que aprisionam a autonomia humana. A inteligência ao nosso dispor acaba por ser a maior prisão. É ela que sacia a sede de conhecimento, desdobrando o catálogo das interrogações que trazem incógnitas ou apenas respostas que não são as mais confortáveis. Ficamos reféns das perguntas que não têm resposta, ou são penhores das respostas a que não gostaríamos de chegar.

As coisas encerram-se no seu paradoxo. Ao contrário do convencionado, a inteligência não é sinónimo de emancipação humana. Limita-se a restringir a autonomia humana. É o que sinto quando a inteligência desperta e incendeia as cores agrestes com que o mundo aparece pintado. É quando apetece ter sido o contrário da inteligência dolorosa que me consome, dominado pela ignorância que permitiria a discrepância do mundo em redor. Seria uma ignorância terapêutica, caritativa, o condão de descerrar diante dos olhos um simulacro do mundo que me acolhe. Ao menos não haveria as trovoadas quotidianas que amedrontam. Nem teria que atravessar todos os dias as ruas lamacentas até chegar ao sossego da casa onde, talvez, atinja o refúgio da inteligência que não cessa de me consumir.

Há cansaço da inteligência que proclama a glória vã dos que, garbosos, ostentam a sua tão elevada inteligência. Não sabem, coitados, que muitas varas açoitam os corpos vaidosos da inteligência que os remete à doença maior: a perda de autonomia, oferecida no altar da inteligência de que se gabam.

2.1.08

Amotinados


A discordância era método. Catecismo, até. Eram marinheiros teimosos, carrancudos diante do degredo intelectual a que se remetiam, expostos perante as palavras que sempre embelezavam os sentidos dominantes, a militância da maioria. Contra a qual remavam. E quanto mais caudalosa fosse a torrente, com mais intrepidez saltavam para a embarcação e remavam, remavam sempre na direcção contrária.

Sentiam-se amotinados no meio da vasta nau em que todos laboravam. Sabiam que lhes estava reservado o lugar desconfortável de serem olhados de soslaio pelos outros, pelos pastores da cansativa letargia em que os demais navegavam. Por vezes, nem tinham a certeza porque remavam para o lado contrário, a não ser a convicção militante de ser o lado contrário do espelho baço onde os outros se reviam sem nada indagar. Eles, pelo contrário, tudo questionavam. Exauriam as interrogações. E diante tudo o que era confortavelmente aceite, faziam-se dissidentes. Eram as pedras no sapato dos cultores dos consensos habituais. Nem sequer os incomodava saber que de tanto serem os espinhos cravados nos pés dos que reverenciam a monotonia de sempre, era-lhes reservado isolado reduto de onde não pudessem incomodar as excelências que tomavam conta do leme.

E por vezes, dominados pela emoção: a exigência de ser dissidente, apenas uma exigência de método. Discordar era a urgência de destoar da maré fastidiosa. Nem sabiam ao certo que rumo imprimir aos remos de cada vez que entravam na embarcação necessária onde, amotinados, faziam ecoar a sua voz de protesto. Só sabiam da recusa em remar a favor da maré caudalosa. Eram diferentes os caminhos que queriam prosseguir. Outros caminhos; ainda que desconhecidos caminhos. A única razão que os invadia era a desidentificação com o luar que alumiava as veredas teimosamente pisadas pela multidão.

A tal ponto que serem amotinados era vicioso. Uma doença que se contagiava a todas as veias. Não ficava uma para ser dissidente da dissidência militante que aumentava de tom à medida que a idade se acastelava. A rejeição das coisas habituais começava a confundir-se com um espírito de contradição sem razão outra que não fosse vogar na antítese dos lugares apascentados pela maioria. Eles eram a contradição de si mesmos: de cada vez que conseguiam discernir porta de saída do labirinto onde se aprisionavam, só lhes interessava dar guarida a um novo labirinto que fosse negação dos lugares-comuns por onde vegeta a maioria. Esse novo labirinto, contradição da solução para sair do labirinto anterior.

A certa altura, param para interiorizar: dominados pela viciante entrega à negação das coisas. O temor que de tanto se amotinarem contra a água caudalosa, sejam reféns da contradição por militância, da dissidência que se dilui na sua própria opacidade. Motins estéreis. Têm experiência cimentada no passado. Eles sabem que de cada vez que sentem a gratificação de andarem pelos caminhos alternativos, ao dobrarem a página semeia-se um horizonte sem nada. A glória efémera, a glória que se esgota no instante em que descobrem que o motim levou-os a lado algum.

A dependência é tanta que se acaso vingam ideias que alguma vez defenderam enquanto alimentavam dissidências, deixam de ser ideias respeitáveis. Logo que entram no altar do reconhecimento deixam de ser seu património. Passam a ser objecto de contestação, elas que num tempo ainda não distante tinham o seu cunho. O que interessa é deambular pelos caminhos pedregosos, desconfortáveis para os que bebem apenas a seiva oferecida pelos sacerdotes da bonomia envenenada. A glória que é algum dia serem fautores a destempo das ideias que vingam é um golpe profundo na natureza de eternos amotinados. Perturba-os a atribuída paternidade das vagas que percorrem a maré que substitui a que outrora dominara. Nem que tenham que renegar o que lhes era devido no passado. Mais alto ergue-se a voz que anda a descompasso com a matéria que adensa a monotonia das cores que sinalizam o norte necessário.

Para os amotinados, a vida é extenuante. Sempre aprisionados pela caução dos lugares diferentes por onde peregrinam. São nómadas no meio dos outros. E acabam nómadas em si mesmos.

1.1.08

No trote do navio


Na angustiante busca do exílio, temporário refúgio em navio mercante. Sulcar as águas tempestuosas do oceano. Sem ver terra dias a fio. Sem ver terra. Só a quilha do navio admirada do seu trono, engolindo as águas que se confundem com a chuva sem compaixão vomitada por vento cavernoso. E o navio que ondeia, embalado pelo oceano majestoso. Ali à volta há um deserto de água, leito onde toda a fúria atmosférica se recolhe. Ou não: que a fúria dos elementos alimenta o mar encapelado, assustador.

Naquele navio seria invisível passageiro. Os homens, na rotina diária da manutenção do navio, nem dariam conta. Seriam dias a eito sem pronunciar palavra que fosse. Reservada a palavra para os registos em forma de papel, a caução maior do degredo voluntário. Sentiria o navio como um regaço acolhedor onde todas as lágrimas se derramariam no vasto oceano diante dos olhos. Toda a água, todo o sal – feitores das lágrimas vertidas, e das tantas por verter houvesse maneira de resgatar o espírito da couraça que o domou em empedernido escudo. O ferro gasto do navio, enferrujado algures, rejeitava a idade jovem, expunha-o às rasteiras metidas por ondas ousadas. A água do mar repousava no convés, espalhava-se no rosto já salgado e adormecido pelas ideias que se fertilizavam na luz dos relâmpagos.

Aquela água, ensopando o oleado, era o bálsamo onde o espírito aprisionado buscava amolecimento. Os silvos do vento, pela noite, chamamento para sair do resguardo da cabine. O peito aberto à furiosa tempestade atlântica, ao mesmo tempo que o navio parecia ser empurrado de um lado para o outro, navegando por estima. Havia algo de simbólico na luta titânica do navio contra a tempestade encolerizada. O mesmo desvario de outrora, como se as bússolas perdessem o norte e magnetismo algum curasse de recuperar a sua função.

E, porém, nem a escuridão que mergulhava o navio na boca da tempestade troava assustadora. No auge, quando já o convés era lugar inabitado mercê da força assassina do vento, e o céu parecia fundir-se com a acidentada serrania que era o mar, uma estranha acalmia adivinhada. Não estivessem os sentidos anestesiados pela ciclópica tempestade, o pavor teria tomado conta. A sinfonia de uivos dolorosos do vento, da água do mar esbarrando no casco, e depois tombando em espuma no convés, domava os temores. O exemplo era o navio. A custo, a proa arremetia contra o mar furioso, derrotava o vento que soprava de frente. O navio não se detinha – por saber que ao deter-se seria engolido pelo turbilhão que o cercava.

As horas incessantes de tempestade pareciam prolongar a noite, que entrava manhã dentro. Canibalizando-a. Para onde quer que seguisse o navio, a rota parecia prometida a tempestades que se repetiam. Os breves momentos de acalmia só anunciavam a transição para a tempestade adivinhada no horizonte. Ali seguia, embalado pelo trote do navio, emprestado ao sal que se insinuava em todos os poros. Era o sal que curava a ressaca da vida. Ácido para a blindagem que teimava em semear a insensibilidade. O sal temperava outra forma de ser. Porventura também uma capa difícil de penetrar. Mas uma crisálida aberta às dores do mundo – já não uma armadura em refúgio do mundo, como se a ilusão dos males alheios contemporizasse o apaziguamento do espírito.

As semanas, as poucas semanas de exílio prometido em alto mar, pareciam tempo repleto. Os minutos vividos em pleno, todos os seus sessenta segundos. Apetecia não dormir. Vaguear pelo navio, conhecê-lo de lés a lés, abrir todas as escotilhas para o necessário arejamento. E imaginar-se capitão, ter nas mãos as rédeas do navio, imprimir o seu trote conveniente. Um dia, no intervalo entre duas tempestades, um lenço voou até às mãos. E nada, nem ninguém, havia em redor. Nem navios, nem náufragos em lancinante apelo de socorro, nada. Um lenço, perfumado, um lenço densamente colorido. No instante em que alguns tímidos raios de sol perfuravam, a custo, o tecto de nuvens que parecia habitar em conúbio com o oceano. O tanto sol a que estava habituado, ingrediente cansativo (que as estações tinham perdido a usual ferocidade): naquele instante, um fragmento do lugar de onde se refugiara.

O corpo estremeceu, incomodado com a nostalgia do sol tão sagrado na terra que havia deixado ao embarcar. E toda a quietude ancorada ao fim daquelas semanas de exílio se esboroou com o furtivo raio de sol que espreitava no quadrante. Foi quando, ainda distante, tomou forma a linha de terra. Ao fim de todas aquelas semanas de recolhimento entregue às sortes dos mares.

31.12.07

On the Hype (13) - Cocorosie, "Werewolf (live)"

Sempre a procrastinar


Oh! Amanhã será um grande dia. Mas o que acontecerá amanhã?”, Victor Hugo.

Às vezes, a necessidade de trazer o tempo vivido para uma balança. Amiúde, a sensação de que passamos mais tempo abraçados a promessas que sempre ecoam um adiamento de nós mesmos. As intenções encerram a ambição desmedida, ou apenas a vontade de fazer as coisas diferentes. Em cada esboço inscrito no amanhã que algum dia há-de chegar, arquitectos sublimes de um futuro ideal. Há nesses projectos uma perfeição que sabemos ser impossível de alcançar. Todavia, insistimos nos belos planos que farão de nós pessoas mais completas, ou apenas pessoas diferentes. Indivíduos que conseguem diluir todos os fragmentos que deixam a consciência em sobressalto. Conseguiremos?

Estes passos trazem o sabor amargo do adiamento que se perpetua à medida que os votos de outrora são renovados, pela impossibilidade, pela incapacidade de serem vertidos em matéria palpável. Ao menos, a grandiloquência dos planos com assinatura dos mestres da procrastinação é uma inspiração do onírico. A fantasiosa agitação produz a seiva demente de aspirarmos ao que não conseguimos ser. A sensação de que passamos pela vida como um esboço, matéria falhada.

Uma dúvida inquietante soma-se: se o eterno adiamento de um eu diferente é confissão de derrota interior, ou a plácida entronização do eu fantasiado. É como se levitássemos numa dimensão intangível, tão intangível que permitiria caminhar sob as nuvens. Nos instantes em que saímos de nós mesmos e nos conseguimos ver de fora, ao ponto de se soltarem as forças que promovem os monumentais planos inscritos para ponteiros do relógio que hão-de chegar no seu momento, esperamos que o futuro tenha a sua palavra. Que esse tempo futuro seja confirmação dos nutridos projectos que idealizamos. E que depois ficamos à espera que aconteçam, parados, sem movermos um passo que fermente o zénite das promessas solenizadas.

Ao ser assim, é um logro que somos. O tempo futuro dirá as mentiras que insistimos em contar a nós mesmos. Nas ilusões que não chegam para apagar a matéria desconfortável que atormenta o sonhos. É que os sonhos a dormir são de uma cor diferente dos sonhos que construímos acordados. É destes sonhos – acordados – que vem o nutriente dos adiamentos perenes. Depois, os dois tipos de sonhos chocam de frente, como se fossem as vagas alterosas de um mar incendiado por tempestades assustadoras. O corpo, entregue às aleatórias ondas que o empurram de um lado para o outro, rendido à sua incapaz vontade.

É nessa altura que os olhos se entristecem. Pela resignação que vem da alta distância entre as gloriosas promessas e a aridez que se colhe. E pelo vento agreste que arremete contra o rosto, enrugando-o na demissão intuída de cada vez que entoam os ventos da procrastinação. É então que os lobisomens escondidos no mais recôndito do ser espreitam, ameaçadores, esbracejam a sua fúria e lavam as cores frondosas dos sonhos para deixar entrar os pesadelos plúmbeos que despertam o sono sobressaltado. E é então que o leito transpirado é testemunha da enorme pequenez do espírito. Da hipocrisia que o domina de cada vez que há adiamento para o que nunca há-de ser atingido.

No fim, o relógio que pauta o tempo depura a mentira que construímos dentro de nós. E como nem o adiamento se prolonga na imensidão do tempo, algures numa dobra dos ponteiros do relógio um algoz para acertar contas com a negação do que somos pela promessa de algum dia sermos algo diferente. O pior é que de cada vez que insistimos em olhar para o firmamento à espera que ele traga as pétalas douradas, não aprendemos com os erros cometidos lá atrás. As lições de outrora parecem esquecidas, elas que seriam a caução maior para não reproduzir a protelação.

Os adiamentos apenas consomem o sempre escasso e tão valioso tempo da vida que nos resta.

28.12.07

Sócrates desmascarado (como os outros o olham)

Confesso: um secreto prazer ao ler as palavras que vou transcrever a seguir. São um resumo da análise à presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, feita por um think-tank sobre a União Europeia com o cunho da imparcialidade (euobserver.com). É pena que estas palavras não sejam compulsadas numa notícia num qualquer jornal da paróquia em que vivemos. Por cá, só temos direito a uma visão heróica da presidência, com muito bacoco orgulho patrioteiro à mistura e a grandiloquência do timoneiro que chefia o governo. A versão completa está aqui. Deixo apenas as passagens mais interessantes, porque desmascaram (de fora para dentro) a imagem encomiástica que nos foi vendida à exaustão. (Os destaques são da minha responsabilidade.)

"When small Portugal took over the EU's six-month rotating presidency from the bloc's largest member Germany on 1 July, it found itself faced with the tricky task of clearing the last political hurdles standing in the way of a new EU treaty. Berlin had used all its political weight to forge a deal on a detailed treaty blueprint at a high-drama summit in June, leaving only a limited number of mainly legal issues for the Portuguese to sort out.

(...)
Marco Incerti, analyst at the Brussels-based Centre for European Policy Studies, said "this was a relatively easy task - they practically had the treaty in the bag", but he added that the Portuguese "fared well" in tackling the last treaty obstacles.

But Lisbon then caused a small PR fiasco out of the final signing ceremony of the document in December. "This was a bit of a narrow approach," Mr Incerti told EUobserver "Instead of saying: this is a treaty for Europe and it doesn't matter where it is signed, they said: We are Portugal and this is the treaty of Lisbon."

(...) Meanwhile, the leadership style of the Portuguese presidency was characterised not only by the smooth presentation skills of prime minister Jose Socrates but also by the sometimes ad hoc approach Portuguese officials of meetings in Brussels. (...) Portuguese lunches are said never to have started before two o'clock, while meeting agendas and speaking times for the EU-Africa summit were distributed only at the very last minute. (...) "It was a bit à l'improviste, making it up as we go," according to one diplomat (...)."

O altruísmo do senhor cardeal


O maior problema da humanidade é a negação de Deus”, cardeal patriarca de Lisboa, na homilia da missa de natal.

É tocante saber que o dignitário maior da igreja de Roma se preocupa tanto com os extravios dos ateus. Comovente sabê-lo atormentado com os desvalidos da fé. Este altruísmo quase seria o convite decisivo para que um ateu volte a abraçar a fé. Falta perguntar ao senhor cardeal se o seu altruísmo não é interessado: abraçar de novo uma fé, mas de preferência a religião de que ele é sacerdote maior? É que, nesse caso, cai a máscara do altruísmo.

Ao início fiquei intrigado com as palavras ditas na homilia da missa natalícia. Porque estaria o cardeal, em plena missa, a assegurar que o maior problema da humanidade está na negação de deus se, diante dele, a audiência comunga a crença em deus? Depois aterrei da minha ingenuidade: as sábias palavras proferidas pelo cardeal ecoam na comunicação social. Elas extravasam as paredes do templo onde foram ditas. Não tinham como destinatários os membros do rebanho que se deslocaram ao templo para se alimentarem na sapiência das palavras do cardeal. O senhor cardeal dirigia-se àqueles que estavam fora do templo, àqueles que estão sempre fora de qualquer templo. Uma seta dirigida à consciência deste rebanho de ovelhas tresmalhadas. Convocando-as a deixarem de ser tresmalhadas, pois enquanto o são andam aos trambolhões por entre a negação da evidência metafísica.

Apetece-me dizer que o cardeal devia arregimentar os fiéis para outros combates. É a própria igreja que o reconhece: os tempos modernos são pouco favoráveis ao alistamento das almas no catolicismo. O que deve causar preocupação nas cúpulas da igreja é a debandada de fiéis, que o deixam de ser e engrossam o numeroso rebanho das ovelhas tresmalhadas. Afinal, o discurso do cardeal talvez não se dirigisse aos ateus; os destinatários seriam os que se deixam possuir pelas dúvidas metafísicas, interrogando-se sobre os dogmas que alicerçam a fé, equacionando a possibilidade de abdicar da sua fé. As palavras do cardeal são um apelo desesperado à contenção da cerca onde se acantona o rebanho dos fiéis. Um grito lancinante: lá fora, onde erram os perigosos lobos do ateísmo, ausenta-se a bonomia que só a admissão de deus cauciona, ausenta-se a paz de espírito dos que entregam o destino nas mãos do omnipresente e bondoso deus.

Novo retrocesso na hermenêutica da homilia do senhor cardeal: ao de leve que seja, as sábias palavras batem na face dos ateus. Quando assevera que a negação de deus é o maior problema da humanidade, não hão-de os ateus sentir-se atingidos? Foi nesta interrogação que me encerrei. Havia duas hipóteses de reacção. Podia fazer ouvidos de mercador, deixar ecoar o provérbio popular que relembra que “palavras de louco não chegam ao céu” (descontando a óbvia conotação religiosa, adejando a pouco confortável leveza do adágio). Ou podia condoer-me com o discurso da eminência eclesiástica, protestar a indignação ao sentir-me ofendido com a desqualificação.

A primeira hipótese é a mais lógica. Um ateu não reconhece a autoridade do cardeal. As suas palavras são uma espuma que se dilui na sua opacidade. Mas, logo de seguida, o espírito debate-se na sua contradição: como pode um ateu ignorar aquelas palavras? Ponto de ordem: elas não são ofensivas. Adivinho que muitos ateus hão-de rotular a ousadia do cardeal como delito de opinião. Eu acho que se trata do direito de opinião que não pode ser negado ao senhor cardeal. Despidas do lado ofensivo, aquelas palavras não podem deixar de motivar uma reflexão em alguém que afirma o seu ateísmo. Têm o condão de reforçar o ateísmo, de alongar mais ainda a distância que separa um ateu de qualquer religião. Mostram como a igreja não aprende com os erros do passado e cai na vertigem de os repetir. O que está em causa é o respeito devido às convicções (melhor dizendo: à ausência delas) dos ateus. E a teimosia em invadir a consciência das pessoas – mas deste vício não consegue escapar a igreja, faz parte da sua natureza.

Percebo a confusão mental que o ateísmo provoca nas labirínticas mentes do cardeal e dos seus subordinados. Só que um ateu – e aqui falo por mim; não subscrevo a perseguição anticlerical de muitos profetas do ateísmo – respeita as crenças e todas as religiões. Não acreditando em deus, aceita quem acredite. E mesmo que tente provar a inexistência de deus – metodologicamente, tarefa mais fácil que a prova da existência de deus – não está a escrever o roteiro obrigatório para todas as pessoas se sentirem obrigadas a renegarem deus. Está a opinar. Tal como o senhor cardeal decidir fazer no meio da homilia.

Pela parte que me toca, fiquei sensibilizado com o altruísmo do senhor cardeal. Reconfortado ao saber que o padre-mor faz as suas rezas diárias que me poderão levar à reconversão, finalmente ao lugar onde todas as amarguras são diluídas na fortaleza da fé, da fé que dá resposta a tudo. Porém: a teimosia na intrusão nos meandros da consciência individual continua – para além da negação de deus – a colocar-me nos antípodas de quem é o seu embaixador na terra. Pela parte que me toca, as palavras do senhor cardeal produzem um efeito contrário ao que ele quis.

27.12.07

Circunstâncias atenuantes…


(In Público, 26.12.07)

É reconfortante saber que há gente que puxa os galões à imaginação, ensaboando a retórica retorcida para justificar o que é aparentemente injustificável. Valha-nos a arte da retórica típica de advogado de meia-tigela, capaz de defender hoje uma coisa e amanhã o seu contrário com a maior naturalidade e sem pingo de vergonha; a retórica deste jaez não é exclusiva de advogados ilusionistas da palavra – há cada vez mais gente a tornar-se exímia na arte.

Há dias vinha no Público uma reportagem sobre a claque da agremiação regional que tanto brado tem dado por causa do envolvimento de destacados membros em actos de banditismo organizado na noite portuense. Louve-se o jornal, juntando-se a outros órgãos de comunicação social e aos habituais adeptos guiados pela canina fidelidade clubista: chama-se a isto o espírito do contraditório. Para contrabalançar as opiniões escorreitas que apontaram o dedo à brutal criminalidade que espalha medo na noite portuense, de permeio com a identificação de alguns suspeitos com a diligente filiação na claque daquela agremiação regional.

Na reportagem havia testemunhos que procuravam expurgar a claque daquelas excrescências que deram com os costados nos calabouços da polícia judiciária do Porto. Como é habitual, um antropólogo que fez mestrado e está a ultimar doutoramento dissecando a referida claque veio defender a sua dama (o que permite questionar da imparcialidade de que esta “ciência” se reveste). Depois havia depoimentos de ex-líderes da claque e da consorte do actual líder – um rapaz que ostenta sinais de riqueza que ninguém percebe a origem. A senhora começava por negar o que é por demais conhecido: que a rapaziada dos super dragões espalha a confusão em áreas de serviço nas auto-estradas quando acompanha a equipa em viagens a estádios alheios. Logo de seguida, como que confessando a patranha, a senhora sentenciou o seguinte: “roubo é o preço praticado nas áreas de serviço”.

Chama-se a isto justiça divina, interpretada pelos justiceiros mor, a rapaziada dos super dragões. Dir-se-ia que têm um dom especial para medir o que é justo e injusto. Estão capacitados para tal função, acima do cidadão comum. Fazem as vezes de barómetro da justiça. Andam atentos às manifestações de injustiça que subtraem escandalosamente dinheiro ao povo. O fantástico é chegar à conclusão que são os Robin dos Bosques da era moderna, adaptados à idiossincrasia nacional. Não, não é violência gratuita a que semeiam quando o autocarro que os transporta regressa à cidade invicta a faz uma paragem numa área de serviço. É justiça divina: quem aos ricos rouba não pode ser acusado de roubo. Um advogado torcendo argumentos ousaria avançar esta ideia. Para aquela senhora, as vítimas do roubo é que deviam sentar o rabo no banco dos réus!

Porventura a senhora – e os que assim pensam – terá lido muito Marx, Lenine, Trotsky, Rosa do Luxemburgo. Ou não: o mais certo é não ter passado da quarta classe, não chegando ao conhecimento dos teóricos que dariam beneplácito à teoria ensaiada em defesa dos energúmenos que roubam pelo prazer de roubar e não como arautos da tal justiça divina que é neles ausente. Isto faz-me lembrar outros paladinos da teoria das circunstâncias atenuantes como esteio que inverte o lugar das vítimas e dos criminosos. Há dias o senador maior da república, Mário Soares, passeando-se na companhia de uma jornalista de cabelo oxigenado numa deambulação televisiva que espalha a sua imensa sabedoria, proferiu a seguinte sentença: “o ocidente tem que desarmar os terroristas islâmicos com bondade”.

Um perito em poética, acaso estivesse a decifrar as palavras do senador – e acaso tivessem elas alguma ressonância poética – sentenciaria acerca daquela sentença: “ditirâmbico”. Do idoso senador estamos habituados a consumir os maiores dislates sem que alguém ouse questioná-lo pelos disparates pronunciados. Não é surpresa que as suas palavras ressoem à defesa da quadratura do círculo. Soares parece admitir, a custo, o estatuto de “terroristas”. Só não soube explicar como se desarma um fundamentalista islâmico, não muito distante de um sociopata, usando “bondade”.

No império do relativismo intelectual, tudo é defensável. Não há aqui o menor laivo de cinismo. Eu sou adepto do relativismo. Que mais não seja para me rir com certas teorias insólitas que enxameiam o espaço público e reúnem uma coorte de fiéis que nem sequer têm tempo para se interrogar acerca dos pressupostos da dita teorização. Repito: têm direito à existência, essas teorias. Da minha parte, preenchem a paisagem humorística.

26.12.07

A democratização da alta finança


As conotações, essas são difíceis de despegar. As conotações partidárias pairam sem possibilidade de deitar mão a um tira nódoas que as apague. Depois sobram as filiações partidárias quando saltam nomes como candidatos a tentadoras sinecuras. Por mais que venham diligentes comissários políticos sentenciar a “normalidade” dos factos, só se for para apaziguar os espíritos distraídos e para auto-convencimento das hostes do partido.

Acho deliciosa a inversão de influências que um famoso banco, tão conhecido pela publicidade kitsch, está prestes a caucionar. O banco sempre foi conotado com a Opus Dei. Agora que se esgotou a paciência para as diabruras financeiras dos administradores colocados pela Opus Dei, e que o governador do Banco de Portugal, no enésimo frete ao partido do seu coração, sugeriu a demissão desses administradores, terreno desbravado para o take over do partido do governo ao banco. Toda a estratégia bem arquitectada ao milímetro, com o necessário beneplácito do governador do Banco de Portugal, que parece mais interessado em garantir lugares na alta finança a correligionários de partido do que a respeitar o preceito da independência política do banco central, como é exigido na União Europeia.

Se há crítica comum ao regime em que vivemos é o da presença excessiva dos partidos – dos grandes partidos. A cada dia que passa, os grandes partidos afadigam-se em dar razão a quem critica a partidocracia que asfixia a cidadania. O estado comatoso a que chegámos tem expressão no episódio do banco kitsch, quase a ser a noiva oferecida em altar aos senhores colocados pelo partido do governo. É uma transferência de “quadros” (já explico de seguida as aspas) do banco “de todos nós” para o banco que era da Opus Dei e que vai passar a ser controlado pelo partido do governo. Falta saber se há aqui o dedo de zelosos estrategas que descobriram um meio de financiamento generoso e duradouro ao partido que açambarcou o poder. Que é o mesmo que insinuar uma forma de perpetuação no poder, que o dinheiro conta cada vez mais para tudo o que seja.

Algum cinismo fermenta um sorriso mordaz. O episódio do take over do banco da Opus Dei pelo partido do governo mostra as virtudes da democratização do que quer que seja. Neste caso, a democratização da alta finança. Já não é uma coutada para entendidos, gestores especializados no complexo negócio bancário, com pós-graduações, MBA e até doutoramentos tirados em consagradas universidades estrangeiras, ou apenas para a nata vinda das famílias que sempre estiveram no negócio bancário. Agora temos comissários políticos que se fartaram das sinecuras em órgãos do Estado e se dedicaram a fazer fortuna à conta de sumptuosos cargos no banco do Estado. Mesmo que se lhes não conheçam atributos que justifiquem cargos tão elevados – a não ser que terem trabalhado na caixa da agência da terriola transmontana, antes de terem subido na escada do carreirismo partidário, seja penhor do exercício de tal cargo. Afinal estamos na vanguarda: temos dezenas de milhares de potenciais administradores de alta finança. Tantos quantos os funcionários dos bancos.

Eu acho bem. A democracia põe todos no mesmo nível. Todos temos direito ao nosso pedestal. Pena é que apenas aqueles que souberam filiar-se no partido certo, que têm especiais predicados para conhecer as pessoas certas, fazer os pedidos certos no momento ideal, sem sequer mostrarem aptidões para subirem a tão importantes sinecuras, estes é que acabem por vingar. Depois há quem estranhe que continuemos viciados num atraso que já nos vai deixando atrás de países de leste que só há dois anos entraram na União Europeia. A mediocridade não está apenas no exemplo destas carreiras políticas meteóricas que premeiam medíocres. A mediocridade também está no escol de gestores que não consegue resistir às tentações do vil metal e sucumbe diante de provas de gestão danosa. Merecem-se uns aos outros: os medíocres que ascendem na escala reservada do carreirismo partidário e os senhores da alta finança que se abarbatam com somas astronómicas e caucionam negociatas no limiar da ilegalidade.

O que sobra desta sequência lamentável de acontecimentos são as consequências para o futuro: temo que mais e mais gente se convença que tem que beber da mesma fonte que permite o sucesso aos carreiristas. E que mais e mais gente se ofereça no altar promissor dos grandes partidos, oportunistas à espera da repartição de sinecuras. Continue o partido no poder, ou seja ele substituído pelo partido rival que se limita a dar seguimento a mais do mesmo. No rescaldo, os tentáculos da partidocracia engrossam-se e cercam a cidadania por todo o lado. Até que se confundam com ela, deixando-a exangue de forças. Só não sei se não será essa a forma moderna de ditadura – uma ditadura dos partidos dominantes.

25.12.07

As tradições são perenes?


Não há contradição entre as tradições e a evolução da sociedade? A defesa arreigada das tradições fertiliza um conservadorismo que se demite de fazer interrogações às coisas. Encera os claustros dos costumes herdados da ancestralidade. Dizem que as tradições são o cimento de uma identidade colectiva. Que um povo perde razão de ser se perder a orientação das tradições que relevam da história, tradições substrato de uma cultura. Intangíveis, as tradições sublimam-se na sua existência. Ganham, até, uma espessura sagrada. As tradições não se questionam; cumprem-se obedientemente, rotineiras, rituais obrigatórios que abraçam a idiossincrasia de um povo.

Só que as tradições trazem muita espuma do imobilismo que é adversário da mudança. Quando tantos concordam no caminho degradado percorrido, o discernimento exigiria a reparação do caminho, ou dele se afastar de vez caso fosse irreparável. Só os loucos, ou os que envergam a mortalha da irracionalidade, teimam em seguir por onde o caminho é espinhoso. A menos que de tanto estarem habituados, já nem consigam reparar nos espinhos que ferem à medida que o percurso se consome. Quem se contenta com o mal que lhe bate, doloroso, no peito? E, contudo, a resignação vem falar mais alto. Como se estivéssemos anestesiados pelo poder transcendental das tradições. Nos interstícios das tradições, sazonais ou circunstanciais, soa o coro das lamentações pelo atraso que somos.

Não digo que as tradições, todas as tradições, sejam por definição sinónimo de bafiento atraso, a purulenta aguadilha de uma idiossincrasia. O problema está na subjectivação das coisas. Há tradições que fazem sentido para alguém e que são insensatas para outros. E, logo a seguir, haverá outras tradições que são objecto de culto para estes últimos e destituídas de sentido para os primeiros. Para além do obstáculo da subjectivação, ergue-se nas tradições a sua prístina substância. Alguns dizem que há nas tradições uma homenagem aos antepassados que dobraram à força do pulso e a custo do tanto suor o que somos hoje. Duvido que seja a melhor justificação das tradições. Pois se tantos desdenham do que somos o que somos hoje, decerto haverá muitas culpas a distribuir pelo legado das gerações ancestrais.

Não vou dizer que não seja cultor de nenhuma tradição. Algumas têm mais significado, outras dizem-me nada. Eis o que me inquieta: quando interrogo o sentido das tradições que cultivo, não encontro respostas que me satisfaçam. Em muitos casos, apenas um arremedo de justificações que esbarram sempre no derradeiro argumento: “porque é tradição”. Como quem diz, “porque sim”. Há, neste travo de irracionalidade, o lado perturbante das tradições: não discernir explicação lógica para que elas continuem a espalhar-se por todo o lado, a aspergir as pessoas, que as tradições sejam perfunctórias. Perante a sibilina natureza das tradições, as pessoas demitem-se do papel inquiridor. Acatam as tradições, acríticas, sendo a charneira que perpetua as tradições no tempo.

Algumas tradições têm o travo religioso. Outras adornam evocações religiosas com a interpretação popular, na condensação do paganismo. De uma forma ou de outra, as tradições encerram-se no sagrado que é tangente à religiosidade. O que explica a pose acrítica perante as tradições. Há sempre coisas na vida que não convém interrogar, nem sequer indagar da razão da sua existência. A ontologia das coisas pode reproduzir respostas ingratas, semear o vazio que se insinua depois de queimar um terreno outrora preenchido pela densidade das silvas estéreis. A queimada revela um terraplanado que modifica a paisagem, exigindo habituação. As coordenadas que orientavam o pensamento, modificadas. E o próprio pensamento é repensado. As tradições questionadas são um esteio da desconstrução do espírito, com as tremendas dores da redefinição das pessoas perante as coisas que lhes dizem respeito.

Entre o imperativo de questionar as tradições e o imperativo categórico das tradições em si, vinga a confortável posição da letargia perante as tradições. Que vão passando de geração em geração como rituais de pertença, mesmo que a evolução dos tempos e das gentes sopre ventos de inconstância diante dos sedimentos de algumas tradições. Nessa altura, mais vale sufocar os ventos de mudança para não questionar as sagradas tradições. Estruturalmente, as tradições são de uma perenidade quase absoluta. A bissectriz do conservadorismo. E o lastro do definhamento da autonomia intelectual das pessoas.

24.12.07

Natal do homem só


Errava pelas ruas. Sem saber que ruas palmilhava, sem saber se repetia as pedras das calçadas. Era como se não houvesse um mapa da cidade e ele percorresse, sem se cansar, as mesmas ruas. Sem perceber que regressava aos mesmos lugares. Era uma noite estranha, deserta. As pessoas evitavam a rua. Noite de uma placidez lúgubre. Enfeitada pelas luzes alusivas à quadra e tingida pelo frio que se insinuava nos ossos. Ensurdecedora no silêncio das ruas desertas. Notava-se movimento dentro das casas. Luzes no compartimento maior, a sala onde se juntavam as pessoas na consoada natalícia.

Para ele nada disso fazia sentido. Era uma ilha distante, cercada pelas pessoas que ocasionalmente se cruzavam nas ruas, nos edifícios que tinha que frequentar. Um rochedo frágil sozinho na paisagem. Desligado dos outros elementos da paisagem. Um monumento da solidão. As memórias eram apenas um lugar difuso onde recolhia fragmentos dispersos, o sarcófago do passado. Por mais que se esforçasse, nem se recordava se havia família. Os atropelos da vida deixaram feridas que continuavam abertas, cicatrizes que teimavam. Elas eram o seu mapa que não deixava fechar as páginas do doloroso, pesado livro de uma vida carregada de sacrifícios, pejada de dores insuportáveis, as derrotas perfilando-se umas atrás das outras. A sua única companhia era a dolorosa solidão a que se havia entregado.

Nem o calendário importava. Eram os dias que iam passando, repetidos, monótonos, uns atrás dos outros. Encurtando o tempo que faltava para que a contagem dos dias enfim cessasse. Desistira das coisas belas, que em tempos as houve. Agora era tudo uma monótona repetição dos dias, a rotina cansativa, as horas de sono que eram o seu refúgio da claridade incomodativa. As folhas do calendário estavam inertes há muito tempo. A poeira em cima do calendário, sintoma da renúncia. Aquela folha do calendário sinalizava o dia em que desistira. Já não importava que dia era, nem as efemérides que reclamam atenção do espírito e consagração de algo.

Era assim com o natal: nem sabia que havia chegado o dia da consoada. Os dias já não eram a contagem numérica do calendário. Apenas a sucessão rotineira de segunda a domingo e outra vez de segunda a domingo. Só na véspera de natal, ao notar a deserção das ruas, percebia que a folha do calendário (se houvesse sido virada) anunciava o vigésimo quarto dia de Dezembro. E vagueava sozinho pelas ruas entregues a si mesmas. Apascentava a sua solidão, escondendo-se do natal celebrado nas salas recheadas de iguarias e de crianças excitadas no prenúncio da visita do fictício pai natal.

Estranhamente, era porventura o dia em que solidão menos lhe doía. Entre as memórias difusas, cada vez mais obscurecidas, o natal era palavra vã. Nunca tivera sentido religioso. Deixara de ser a celebrada festa da família a partir do momento em que das memórias se diluiu a recordação de uma família. Portanto, não havia nostalgia: só poderia haver nostalgia se houvesse lugar ocupado pelas memórias, regressando aos tempos de outrora em que comungava a felicidade com alguém que se dissesse seu ente querido. O exílio interior era o obstáculo maior, a reserva mental que limpava das memórias esses tempos – que não conseguia certificar que sequer tivessem acontecido. Pelo menos, era mais fácil acomodar aquilo que a outros seria uma insuportável dor: um natal mergulhado na mais profunda solidão, porque as convenções ditaram que no natal há o imperativo de comungar a felicidade forçada com outros.

Na noite da véspera de natal percorria à exaustão as ruas da cidade. Sem se cansar. Sentia-se enfeitiçado pelas ruas na sua própria solidão. Elas, desertas de gente, faziam-lhe a companhia de que afinal carecia. As suas árvores, as estátuas, as paredes frias das casas, as montras refulgentes de adereços alusivos, as fontes vertendo a água de sempre, o pavimento das ruas que não ecoava os rodados dos automóveis que não passavam. A antítese do postal ilustrado do natal das pessoas que se fazia dentro das casas. O dele, que só a ausência das ruas soava, era a solidão comungada com as ruas também elas domadas pela solidão das pessoas ausentes. E não havia lamentações. Nem nostalgia, que às vezes o mergulhava em interrogações que queriam saber se outrora tinha sido diferente com ele: como tantas pessoas, um natal normal.

21.12.07

Uma espécie de abaixo-assinado contra a liquidação dos pequenos partidos


O Tribunal Constitucional, com o beneplácito dos partidos-tubarão, pôs os pequenos partidos em saldo. Ou mostram que têm pelo menos cinco mil filiados, ou estão condenados a encerrar as portas. E assim o regime político se encerra numa concha, onde se banqueteiam apenas aqueles que reúnem a mais grossa fatia dos votos. Um regime político que se aproxima perigosamente do monolitismo: os partidos que se sentam no parlamento escondem as divergências que cimentam as clivagens de discurso e bebem todos do mesmo receituário, feito de privilégios que guardam apenas para si. Pelo caminho, perde-se o pluralismo de um regime político aberto a uma imensidão de partidos. E reduz-se a escolha dos eleitores. Talvez mais um convite à avalanche abstencionista.

Contra mim falo: militantemente contra a partidocracia impante, doença que corrói a democracia até ao tutano. Como pode um feroz crítico da partidocracia defender a pluralidade de partidos que o Tribunal Constitucional se dispõe a liquidar? A resposta é simples: não olho aos interesses pessoais, incapaz de me rever em qualquer partido do panorama partidário. Mas recuso a fazer dos meus pontos de vista os interesses dos outros – como parece que o Tribunal Constitucional faz, numa abordagem que tem tanto de parcial como de pragmática.

Dirão os pragmáticos que os pequenos partidos são epifenómenos que emergem sazonalmente quando há eleições agendadas. Não se lhes conhece actividade regular entre as eleições, pois eclipsam-se. E dirão mais: são partidos residuais, incapazes de se aproximarem sequer do número de votos mínimo para colocar um singelo deputado no parlamento. Insignificantes na sua expressão eleitoral, não faz sentido que proliferem como cogumelos e rivalizem com os partidos “sérios”, aqueles que reúnem as preferências do eleitorado, aqueles que conseguem chegar ao parlamento e a pelouros nas autarquias.

Discordo da argumentação. Nisto da escolha eleitoral, o pragmatismo não se deve sobrepor à liberdade de escolha. Se os pequenos partidos forem incapazes de provar que têm mais de cinco mil filiados serão banidos dos boletins de voto em eleições vindouras. O eleitorado ficará limitado na escolha entre os cinco partidos (ou coligações eleitorais) que costumam ter lugar parlamentar. E isto é perigoso: não só uma restrição à liberdade de associação (porque não hei-de ser autorizado a concorrer a eleições com um partido que tenha meia dúzia de filiados?), também uma restrição à liberdade de escolha dos eleitores. As minorias habituadas a votar religiosamente em partidos residuais perderão essa liberdade. Terão que optar entre a abstenção, o voto em branco ou nulo, ou a escolha do “mal menor”, com tudo o que esta opção significa de redução do livre arbítrio de quem vota.

Os economistas têm boas explicações para este tipo de comportamento. Acontece amiúde com aqueles que se incomodam com a concorrência. E que a tentam limitar a todo o custo, banindo o incómodo que os anões provocam. Depois os grandes banqueteiam-se sozinhos, partilhando entre si as sobras dos que foram extintos. E são os economistas que ensinam que, em tese, a concorrência é profiláctica. Quanto mais limitada, menor a eficácia dos glutões que ficam com a fatia de leão, maiores os danos aos consumidores. Os consumidores do sistema eleitoral são os eleitores, bem entendido. É de desconfiar sempre que os grandes se esforçam por banir os pequenotes de um mercado – e o sistema partidário é um mercado, como há nas eleições um mercado, o mercado eleitoral. São glutões que, paradoxalmente, têm inveja dos pequenotes. E asfixiam-nos até deixarem de respirar. Depois, necrófagos, saciam a sua gula nas migalhas deixadas pelos pequenotes já extintos.

Esta liquidação forçada dos pequenos partidos tem outro importante inconveniente. Desaparece o aspecto lúdico oferecido pelos pequenos partidos. O povo tem direito a folclore. Estes pequenos partidos oferecem a nota humorística que desanuvia a seriedade bafienta, a pose de Estado que exige muito respeitinho, o cinzentismo dos grandes partidos. O que seria de uma campanha eleitoral sem o cortejo de pequenos partidos tão heterogéneos como o POUS dos camaradas Carmelinda Pereira e Aires Rodrigues, ou o PND do inefável cadáver político vivo Manuel Monteiro, ou o PCTP-MRPP do enérgico Garcia Pereira – só para usar uma amostra da pluralidade de minúsculas formações políticas. É todo um capital de diversidade e de humor atrelado à política que se perde. O empobrecimento da paisagem partidária, fazendo o regime funambular perigosamente.

Perante isto, nas próximas eleições só me apetece escrever o nome dos pequenos partidos entretanto enterrados e colocar uma cruz em todos eles, sem excepção.

20.12.07

Desembarcaram no sítio errado…


Que não se desdenhe da inditosa sorte dos desprotegidos. Fala mais alto o lamento maior pelo azar que visitou um grupo de vinte e três emigrantes marroquinos que tentavam entrar ilegalmente em Espanha. Os ventos foram caprichosos e empurraram a embarcação frágil até às praias de Olhão. No azar de ser pobre há o azar maior da fuga rumo ao prometido eldorado terminar no lugar errado.

Dirão que a diferença entre desembarcar em Olhão e em Cádiz não é significativa. Que, para emigrantes marroquinos que fogem da miséria em busca de um bem-estar tão ansiado, qualquer lugar na península ibérica é um refúgio que marca encontro com um nível de vida melhor do que levam na terra onde nasceram. Se assim é, como explicar a decepção dos emigrantes ilegais? Não será somente por terem sido capturados pelas autoridades lusitanas. Nem sequer por saberem que têm viagem de regresso agendada para dentro de umas semanas, quando as autoridades “competentes” puserem termo ao processo com um carimbo de repatriamento. Aposto que a decepção maior aconteceu quando deram conta que naquele areal ninguém falava castelhano. Sabedores de geografia, perceberam que tinham falhado no alvo. Malditos ventos que empurraram a barcaça para o país do lado.

E não: por mais que tentem compor a imagem externa do país, com campanhas decerto caras que espalham além fronteiras outdoors com as caras dos ícones do sucesso doméstico, não me excita o orgulho pátrio. Na semana passada houve vários opinadores que quiseram vergar o derrotismo que domina tantos espíritos. Puxaram lustro ao optimismo militante, que mais não fosse para mudar comportamentos apoderados pelo negativismo. E aplaudiram a campanha que, ela também, puxa o lustro – desta vez à imagem de um país que se retrata nos rostos de alguns que dão a cara como exemplos de sucesso reconhecidos no estrangeiro.

(Um parêntesis necessário: um dos “rostos de sucesso” é um decorador cujo nome nunca ouvi falar. O que leva à interrogação: por que artes de magia terá este decorador sido cooptado para a campanha de embelezamento da imagem pátria no exterior? Se a intenção é chamar a atenção para as maravilhas lusas através dos casos de sucesso com visibilidade internacional, aposto que lá por fora o conhecimento do decorador será pouco acima da nulidade. O que faz redobrar de importância a interrogação: que critérios insondáveis terão funcionado para ser um dos eleitos na campanha engendrada pelo ministro da economia – que, na palavra que titula o cargo, se fosse trocado o “m” por um “s” ficaria mais à imagem da personagem.)

Acho que já estou a perceber por que desembarcaram os candidatos a emigrantes marroquinos nas praias de Olhão. Foram atraídos pelos outdoors espalhados mundo fora, com a bênção do erário público que haure os impostos que não conseguimos deixar de pagar. Nunca os efeitos de uma campanha de imagem terão sido tão rápidos. Desenganem-se os senhores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que tranquilizaram as hostes, dizendo que foi um desembarque episódico. Atraídos pela campanha, as praias algarvias serão pousio para sucessivas levas de emigrantes do Magrebe. Só que o guardião da verdade e de todas as certezas – o primeiro-ministro – já deu por encerrado o assunto ao assegurar que foi coisa fortuita. Eu fico tranquilo com a certeza de que o primeiro-ministro e os funcionários públicos mandados por ele têm este dom de adivinhar o futuro.

Fica por confirmar que os emigrantes marroquinos teriam sido os primeiros a provar a cicuta dos outdoors que espalham mundo fora as virtudes do “Portugal West Coast of Europe”. Estávamos enganados: não se pagou um cêntimo que fosse para espalhar estes cartazes em Marrocos. Foram os emigrantes que confessaram o erro de cálculo na rota que os levou a um destino diferente do planeado. Se soubessem ao que vinham – errar no alvo e desembarcar numa terra que não pode prometer aquilo que os leva a arriscar a vida na travessia entre os dois continentes – nem teriam saído de Marrocos. Mal por mal, antes numa terra que lhes seja familiar.

Quanto à estrambótica campanha de embelezamento de imagem pátria lá fora, só esta observação: alguém escolhe o destino do seu investimento, alguém desvia o destino turístico, apenas por ver caras com visibilidade internacional espalhadas em vistosos outdoors? Devemos ser um país a nadar na abundância de recursos, para nos darmos ao luxo de desbaratar dinheiro desta forma. Quem nos governa, tal como os fracassados emigrantes marroquinos, tem um notável dom para erros de cálculo.

19.12.07

O povo que espreita detrás das câmaras, empunhando telemóveis – e os assessores em bicos de pés detrás do senhor ministro


A democracia no seu esplendor: também a televisão se democratizou. Hoje contam-se pelos dedos das mãos as pessoas que nunca apareceram no ecrã da televisão. Todos têm direito a uns segundos de fama, ali expostos aos olhares de quem, por acaso, estiver naquele momento a olhar para a televisão.

O desporto favorito da populaça é quando os repórteres de exterior saem à rua, perfilando-se como guarda de honra durante o directo. Acotovelam-se na ânsia do melhor quinhão da imagem – ainda que não estejam detrás dos olhos do operador de câmara que, ele sim, selecciona o plano e escolhe os figurantes que se prestam ao “embelezamento” da reportagem. Mas a populaça atropela-se, empurra-se, desunha-se por figurar em primeiro plano. Que é como quem diz, em primeiro plano atrás do repórter aflito por terminar o directo, de tão acossado pela populaça.

O povo, habitualmente ignaro, confia que o seu rosto irradiando felicidade apareça na televisão. Faz lembrar aqueles fotógrafos que esticam a máquina e disparam uma revoada de fotos, pois uma fotografia decente há-de sair no meio da amálgama de sombras e escuridão. É assim a populaça ruidosa que, em magote, faz a guarda de honra ao repórter de exteriores. Atiram-se, por estimativa, para trás do repórter. Com sorte, hão-de ter dias a fio de conversa de cada vez que se cruzarem com a família, os amigos na tasca e os companheiros de trabalho. Exigindo que os holofotes imaginários continuem virados sobre eles, na glória fácil de serem mimoseados pelos entes queridos, amigos e colegas. Por esses dias, tornam-se efémeros heróis.

Do quadro faz parte um ingrediente obrigatório: a ajuda da tecnologia emoldura a prova de que fulano apareceu mesmo na televisão. Não vão os seus duvidar que perfilou na retaguarda do repórter, aproveitam os instantes de glória pública para telefonar a um familiar, a um amigo na tasca a ver a televisão, a um colega do trabalho. Em gritos ofegantes avisam o interlocutor para mudar para o canal onde naquele instante são heróis acidentais. A turba que estaciona lá atrás empunha os telemóveis, discando o número da mãezinha, do amigalhaço dos copos, ou daquele colega que está sempre com inveja. É um duplo desfile: de anónimos que por fim aparecem na televisão e dos respectivos telemóveis, debitando as palavras triunfantes enquanto dura o directo, enquanto os seus olhos decantam um sorriso de tórrida felicidade.

Há uma versão alternativa a esta actividade circense. Mete ministros em visitas oficiais, com o habitual cortejo de pajens: secretários de Estado, directores-gerais, assessores, o autarca da terriola, até a governadora civil. (Havia tanto a dizer da glorificação de funções dos governadores civis, essas peças abstrusas que ornamentam a organização administrativa do país!) Entre a propaganda que escorre a rodos, sobretudo quando os microfones se estendem na direcção das sábias palavras do ministro (por norma, sem direito a contraditório dos plumitivos), salienta-se a pose estudada do director-geral e do assessor, ladeados pelo autarca donairoso em fatiota das idas a casamentos. Todos em bicos de pés, rivalizando pela melhor fatia da imagem atrás do senhor ministro. Aparecem para os seus momentos de glória e reconhecimento público. Mesmo que pouca gente saiba associar o nome do figurão à cara de estadista em tirocínio que estacionou detrás do ministro. Na próxima remodelação do governo, pode-lhes sair a sorte grande.

Vejo estes directores-gerais, assessores e autarcas em fecunda conquista de protagonismo e lembro-me da populaça que corre desaustinada para trás do repórter prestes a entrar em directo. Uns e outros fazem-me lembrar a infância, quando pregávamos partidas uns aos outros e depois dizíamos, em pose triunfante, aos incautos apanhados na ratoeira: “ó patego, olha o balão!

Um desejo inscrito na rota do futuro: que a televisão não seja ainda mais um negócio, que não aumentem os canais codificados que exigem pagamento de tarifa proibitiva. Se isso acontecer, é o funeral da democratização da televisão. Os directos em canais codificados não servem de testemunha dos actos heróicos dos anónimos que finalmente conseguiram entrar na pantalha, pois a reportagem terá pouca audiência. Nem os exércitos de funcionários públicos em desalmada construção de carreirismo poderão, no dia seguinte, ostentar o ar tão importante que a aparição fugaz, no papel de sequazes do ministro, lhes confere. Eu diria que isto é motivo para produzir legislação com efeitos perenes: por lei, haveria de ficar garantida a existência de canais sempre abertos ao público, para o povo se fitar neles enquanto deambulam as reportagens em directo.

18.12.07

A maior maleita: os “consensos” à força


Dizem: que só deixaremos o atraso para trás das costas quando os consensos aterrarem na sua solidez. Quando os “desígnios nacionais” forem merecedores de ampla concordância. A metáfora da barca que exige os remos todos no mesmo sentido. A lógica dos consensos está institucionalizada. O mais entusiasta patrocinador é o presidente da república, clone do seu antecessor, que com pose de estadista responsável nos educa na necessidade de falarmos todos a uma só voz, de todos remarmos para o mesmo lado. A ver se derrotamos a maré que nos tem deixado tão para trás.

O pior é que os consensos a bem da nação silenciam as vozes dissonantes, como se estas estivessem acantonadas num radicalismo que leva a lado algum. Os pregadores peroram sobre a inevitabilidade dos consensos. Quase sempre se escusam a articular argumentos que tornam os consensos tão inevitáveis. Em vez do lastro da racionalidade, sobram como expressão de um capricho das elites dominantes que atrelam um séquito numeroso. Os que ousarem remar para um lado diferente são denunciados: vozes sem razão, radicais sem expressão, o rótulo de velhos do Restelo como insígnia que desmerece, réus na obstrução ao progresso da nação.

E dizem: que sem consensos estamos divididos. E divididos não avançamos. A ausência de consensos mergulha-nos no profundo atraso. Todas estas ideias são aflitivas. Vêm impregnadas de um totalitarismo intelectual inadmissível numa sociedade aberta. E se em vez de alarmarem os incautos, fazendo-lhes ver que só há um destino possível – apregoado pelo consenso divulgado – não provam a razoabilidade dos consensos que nos querem impor? Se mais não bastasse, a lógica do consenso que é inevitável "apenas porque sim" é incomodativa.

O mais perigoso é a veia totalitária dos consensos. A urgência em calar as vozes desordeiras, aqueles que não se calam contra a dormência de espíritos que os fautores dos consensos querem semear. A pesporrência dos senhores do consenso, quando olham com desdém para os que se recusam a provar o remédio tão milagroso que propõem, é o melhor argumento para estar do lado contrário da barricada. Chega alto a desonestidade intelectual. Do alto da sua pretensa superioridade intelectual, olham de soslaio para os dissidentes e remetem-nos à baixeza intelectual. Só porque não saltaram para a barca do consenso e não pegaram num remo ajudando a barca a navegar na direcção correcta.

O que esta terra precisa é de confronto de ideias. Do desassombro dos que soltam a imaginação e inventam novas ideias, aquelas que empurram a nau para a frente. E de tolerância, abertura de espírito e humildade intelectual para admitir que às vezes os que pensam diferente se recolheram em ideias que são melhores. É que os admiradores dos consensos teimam na sua vocação messiânica. São milagreiros infalíveis, como se estivessem dotados de uma varinha mágica que transforma as coisas más assim que são por eles tocadas. De tanto interiorizarem a infalibilidade, cresce-lhes a arrogância e a intolerância. Misturam a inevitabilidade das suas ideias, protegida pelo manto do consenso necessário, com um totalitarismo que denigre quem aparecer pela frente.

Apetece contrariar estes consensos forçados. Que mais não seja, por espírito de contradição, um higiénico compromisso com a abertura de espírito que escapa aos tortuosos caminhos que somos convidados a palmilhar. Sabendo à partida que os que forem pelo outro lado da encosta o fazem por sua conta e risco, abandonados à sua sorte, e logo denunciados pelos cultores da consensualidade por teimarem em remar para o lado errado. É higiénico remar para o lado errado. Nem que seja para afirmar um espírito de contradição que incomode os sacerdotes dos consensos, para que percebam que não amedrontam toda a gente ao jorrarem as certezas absolutas sobre a inevitabilidade dos consensos.

O sucessor de Sampaio, cada vez mais um seu émulo, é o papa da consensualidade. Pergunto-me se a muita gente de direita que alimentou, extasiada, a candidatura de Cavaco ainda não se arrependeu. De ver um presidente cada vez mais amorfo, cada vez mais penhor da pior doença da democracia caseira: o complexo de Dupont e Dupont que é a existência do amorfo bloco central, o centrão que é o sintoma das doenças que nos impedem de avançar.

Nem de propósito, ainda ontem a União Europeia divulgava estatísticas desconfortáveis: o poder de compra vai ficando para trás da média europeia e até países que estavam atrás nos vão ultrapassando (Hungria, República Checa, Malta e Chipre). Devem ser os efeitos dos milagrosos consensos que nos vendem.

17.12.07

Niemeyer: o louvor do comunista


Um dos maiores arquitectos do mundo fez cem anos. Ou terá sido um dos rostos mediáticos que ainda acredita no comunismo que fez cem anos? A comunicação social não deixou passar o centenário sem celebração. A TSF lembrava-me que Óscar Niemeyer fazia cem anos. Na peça laudatória, o jornalista só de relance destacou a arte de Niemeyer. Só ao início fez menção ao arquitecto, à sua extensa e arrojada obra, ao desassombro que foi projectar Brasília, até a um hotel no Funchal que tem a sua assinatura. O resto do tempo foi gasto com a orgulhosa condição de comunista do arquitecto.

Primeiro acto: os encómios do homem que se destacou como arquitecto passam ao lado desta faceta, toda a atenção no empenhamento ideológico. Desprestigiante para quem dedicou uma vida inteira à arquitectura? Não que a intervenção cívica seja parte menor na vida de alguém. Não quero desconsiderar o empenhamento ideológico de Niemeyer. Pode-me ser desconfortável, mas o comunista não sou eu. Fico perplexo quando um homem com tão importante obra arquitectónica aparece aos olhos da opinião pública como um dos últimos dinossauros do comunismo, como se esse fosse o maior motivo para o tornar conhecido. É como se toda a sua obra fosse relegada para plano secundário, desvalorizada perante essa coisa maior que é a crença no comunismo como a ideologia perfeita.

Segundo acto: o romantismo de muita comunicação social, enamorada pelo comunismo. A mesma imprensa que aparece na linha da frente a denunciar os atropelos da extrema-direita – o “fascismo”, que tudo o que ressoe a diabólico cai no saco do “fascismo”. E, no entanto, há relatos entusiasmados de ícones do comunismo, como se no comunismo não houvesse também experiências hediondas de negação da liberdade de expressão, tantas mortes praticadas sob pretexto da “revolução proletária”. Dois pesos, duas medidas.

Este comportamento contraria a imparcialidade que se espera dos jornalistas. Nada contra as convicções dos jornalistas – as pessoais, as religiosas, até as ideológicas. O que me custa é dar de caras com jornalistas que escorregam com facilidade para a doutrinação da audiência. Só não percebo se o fazem por ingenuidade, tomados pela emoção das causas, inebriados pela militância ideológica; ou se há ali intenção, encantados pelo missionarismo que faz da profissão de jornalista o caminho para educar as massas. Jornalismo assim é de provocar o vómito. A menos que o jornalismo moderno tenha mudado os cânones e já não esteja comprometido com a imparcialidade.

Ao escutar o relato deliciado do jornalista da TSF, destacando Niemeyer como comunista mais do que arquitecto, adivinhei a pele arrepiada do jornalista à medida que ia desfilando a peça laudatória. Quase ficava comovido. Um acto emotivo de lírico compromisso com o comunismo, a ideologia certa que, para desdita do jornalista, fracassou. Também fico comovido quando tenho pela frente estes desiludidos do mundo, desafinados com a História, convictos que a queda do império comunista foi um tremendo erro da História. Comovo-me só de pensar na sua orfandade. Percebo-os bem, porque também padeço de orfandade, que todavia se distancia desta orfandade por não ser nostálgica de nenhum regime ou de ideologia que vingou no passado ainda recente. A minha nostalgia está mais na antinomia com o que existe.

O centenário de Niemeyer foi a ocasião ideal para tirar esqueletos do armário. E recordar, pelas palavras do arquitecto que nunca se recusou a fazer intervenção cívica, que o comunismo é a utopia que ficou por cumprir. Se há um passado vergonhoso a manchar o comunismo em acção, não passa de um detalhe insignificante, um ligeiro erro de percurso que não prejudica a superioridade do comunismo. Só falta perguntar que outro julgamento da História será necessário para colocar o comunismo no cadafalso. Ou se o comunismo teve apenas maus intérpretes, próceres de tanta gente que ousou dissidir e que pagou o tão elevado preço da vida. São os mesmos que apregoam à exaustão as palavras “liberdade” e “democracia”, corroidos pela memória distorcida dos países onde o comunismo viveu longas décadas na prova de que nem democracia nem liberdade chegaram a ser praticadas.

Niemeyer foi usado como o comunista ideal, no desapego dos valores materiais, na proclamação de um mundo sem pobres e também sem ricos. O jornalista contou, ainda toldado pela emoção, como o arquitecto deu uma casa ao motorista, outra ao jardineiro e como a generosidade se consumou com a oferta de inúmeros edifícios para espalhar sedes do partido comunista do Brasil. Só se esqueceu de pontuar o discurso com duas observações: a generosidade é um acto individual, que apenas depende da consciência de cada um, não devendo ser imposta de fora para dentro; e que há, entre a “corja” dos “porcos capitalistas” (para usar o linguajar tão típico) quem faça semelhantes benfeitorias.

É que isto do mundo ser um binómio entre os bons e os maus (neste caso: os bons são os comunistas; os maus todos aqueles que se entregam aos fúteis devaneios das mordomias do dinheiro) é uma alegoria mais ao jeito do Hollywood que os comunistas rejeitam. A menos que já tenham sido contagiados pelo espírito hollywoodesco...

14.12.07

O natal só das crianças


A incumbência de escrever uma frase alusiva ao natal para a minha filha levar para o colégio. Andei três dias a adiar a tarefa, ou porque não havia maneira de encontrar a inspiração, ou pela dificuldade em descobrir uma frase que fizesse a síntese do que é o natal. Tive que mudar o método. No deserto de ideias acerca do significado pessoal do natal, esforcei-me por recuar no tempo e indagar ao passado o que sentia em criança quando o natal se fazia anunciar. Por hoje, tenho outras referências que ajudam à tarefa: ver como as crianças lidam com o natal.

E assim se fez luz: uma frase que à partida não podia incorporar os lugares-comuns que desfilam, com profusão, a propósito do natal. Uma frase que contivesse o espírito das crianças diante do natal. Daí que tenha descoberto, pelos olhos alheios, que “o natal perfuma as estrelas com as cores da felicidade”. Pelos olhos das crianças que festejam o natal com o êxtase de quem fica à espera da descida das prendas pela estreiteza da chaminé. Na sua inocência, nunca se questionam que os embrulhos chegam imaculados, refulgentes, sem o menor vestígio da fuligem acumulada nas paredes da chaminé.

O envelhecimento instala a monotonia dos preceitos que se repetem na volta habitual do calendário. É assim com o natal. Uma certa melancolia. Inexplicável melancolia. Só rompida com a revisitação de infantis natais de outrora, através da excitação das crianças que entraram na minha vida. Um sentimento ambíguo: entre a nostalgia inexplicável que esconde uma certa tristeza, o cansaço de natais que se repetem com os rituais de sempre; e a felicidade que jorra das crianças nos dias que antecedem o natal e naqueles momentos tão esperados por elas, quando por fim chega a vez de desembrulharem os presentes.

Já sei que há muita gente, empenhada em combater os malefícios do consumismo, que verbera este tipo de natal a que as crianças se entregam. Sei que há maneiras alternativas de educar o natal às crianças. Páginas inteiras escritas a censurar a enxurrada de prendas que ao fim de meia dúzia de dias são remetidas ao esquecimento pelas crianças mimadas, enquanto pelo mundo fora tantas crianças têm uma vida preenchida por carências que nem sequer fazem sentido por cá. Que me seja perdoado o devaneio individualista: é que sou penhor da felicidade das crianças que me são queridas. É a sua felicidade que me compraz. E sim, é verdade que há despropósito na educação – diria, colectiva (já me explico) – que ensina os predicados materialistas do natal. O que fazer para contrariar esses excessos? Roubar a felicidade às crianças?

(Digo “educação colectiva” porque há um efeito de contágio que os pais podem pouco fazer para combater. Os filhos não vivem isolados no mundo. Convivem com outras crianças. Entre a vigorosa maré materialista que varre as crianças cada vez mais mimadas, é uma insensatez meter o remo em sentido contrário ao da vigorosa corrente. Só conseguirá ostracizar a criança, noutro descaminho da sua felicidade. É resignação, decerto. Pelo bem-estar da criança.)

Se há virtude no natal habitado por crianças é a nostalgia que elas semeiam em mim. E os rostos delas, espelhos de felicidade incontida – que interessa se nutrida pelo “hediondo consumismo”, pois a felicidade é para ser sagrada, sem curar de saber onde ela radica. As virgens pudicas que espalham verdades insofismáveis, soltando discursos inflamados contra o consumismo e o materialismo que se apodera do natal, não passam de personagens que querem roubar a felicidade que as estrelas espalham nos rostos das crianças. Haviam de ser presos por esse crime insuportável. E deixar as crianças sentir toda a felicidade – por materialista que seja – do natal. Os que surgem como obstáculos à felicidade delas, deviam ser deportados para lodosos terrenos onde a sua desdita pessoal pudesse ser apascentada.

Por hoje, retomo algum gosto no natal. Simplesmente pela ansiedade que vai consumindo as crianças nos dias que contam até chegar a véspera de natal, pela expressão de felicidade que delas brota, um manancial que me inunda com um preenchimento interior indizível. Os olhos das crianças são os meus olhos quando o natal aparece no calendário. É pelos olhos delas que sinto a felicidade que irradia. E se elas encontram as estrelas coloridas com os tons radiosos da felicidade, eu vejo nos rostos e nos olhos das crianças a minha felicidade natalícia.

O natal, que aparenta pertencer só das crianças, também é oferenda aos adultos pela expressão deslumbrada vertida nos rostos das crianças.