6.2.08

O tempo é um material fundente


Trazemos no regaço as cores da memória. Um suspiro pelos lugares de outrora, numa divagação que sela o tempo numa hermética arrecadação que se revisita, periodicamente. Meticulosamente. As cores e os aromas das memórias retratam os lugares de outrora como se fossem intemporais. Mas nem as ruas permanecem inertes, nem as casas desfilam na mesma sequência. Até as árvores mudam a tessitura da paisagem.

As memórias que se resgatam da poeira intemporal atraiçoam a visão. Ao revisitar os lugares que perfumam as memórias com um aroma adocicado, os sentidos acreditam que o lugar encapsulou aquele tempo mágico, idílico. E, porém, há mais coisas para ver, fragmentos que semeiam a diferença. Mudara o tempo. Desmente a voracidade com que as memórias instalam nos sentidos a ilusão da intemporalidade. Os lugares transformam-se, como o tempo se fundiu na ampulheta.

Há um desgaste inútil ao subir à arrecadação das memórias. Como se fosse possível torcer a natureza e mentir ao tempo. Naqueles instantes de recolhimento, ao retomar contacto com o registo pessoal vertido no passado, refúgio na intimidade do ser. No recatamento das memórias, por uns instantes, ir lá trás e colocar no tempo presente o que ficou dobrado nas páginas já amarelecidas. Prova que o tempo é matéria fundente, uma argamassa que temos nas mãos e moldamos à conveniência do calendário, dos vapores que convocam a revisitação dos lugares, dos momentos, das pessoas. Um exercício porventura esvaziado de significado. Uma imensa embriaguez de inutilidade. Há tempo perdido ao mergulhar no tempo já gasto. O tempo que não volta a acontecer. Nem sequer nos esboços conseguidos que se aproximam de uma perfeita reconstrução dos lugares, dos instantes, das pessoas, das palavras ditas. Tempo perdido: uma viagem que traz, no seu regresso, uma recompensa ilusória, um fogo que não arde, combustível inerte que desgastou fragmentos preciosos do tempo presente.

Na deriva pelas páginas já dobradas, funde-se o tempo futuro. São as pedras gastas de calçadas cansativamente percorridas. Lugares de onde já nada se retira, exauridos. As lições que havia a recolher, há muito emolduradas no arcaboiço do ser. Na negação da nostalgia não se ensaia turvar o tempo ido, ou esquecer lugares de outrora. Imperativo maior é decantar o horizonte que se descerra diante dos olhos. Só os temerosos dos dias que hão-de vir se encerram na confortável presciência do tempo fácil de resgatar, o tempo que sabemos como aconteceu. A vida, sempre tão curta, não se honra a si mesma quando o escasso tempo se demora em rememorações contínuas. São espasmos que fundem o calendário ainda virgem.

Os lugares onde nidificam as tentadoras memórias ficam retratados para todo o sempre. Sem a traição de desfazer o passado, ou a indignidade de o refazer, esses lugares, os instantes que eles sagraram, apenas mais uma camada para a densidade que as páginas já amarelecidas não deixam esconder. De cada vez que a existência desliza para as catacumbas do tempo resgatado, uma terrível fusão presenteia a mentira do exercício repristinatório. A fusão de dois tempos: a intrusão do tempo passado é a alcáçova onde se aprisiona o tempo presente. Uma faca funda que se espeta no único tempo que os dedos conseguem sentir, sem o apelo já onírico dos sentidos atraiçoados pelas memórias. E sim, há tempo gasto, tempo perdido, ao revisitar tudo isso.

Lugares desconhecidos, sensações inéditas, o perfume que é anunciado pela aventura do futuro. A coragem exige peito aberto às ondas, deixar que o vento trazido pelo tempo presente se consuma, venha ferver o seu próprio futuro. A homenagem maior ao passado sedimentado é olhar de frente para os fragmentos do tempo que se sucedem, o alicerce de todo o tempo no seu futuro por revelar. Porque há um dever indeclinável de sorver o tempo com todas as forças que o corpo consiga reunir. Só assim merecedores da sagração do tempo ainda desconhecido, o único por degustar.

A teimosia em decapar o tempo já exausto, em divagações repetitivas que refazem memórias, é o punhal que entra fundo no lugar destinado ao tempo por tragar. Um material fundente, onde se perde a beleza do presente na consumição de revisitar o passado. A negação da homenagem ao único tempo que interessa: o porvir. A nostalgia é um alçapão envenenado de onde poucos se conseguem erguer.

5.2.08

A tradição carnavalesca do povo alarve


Há uma aldeiazinha lá para os lados de Vouzela. Perdida entra as serranias que se encavalitam nos vales. As gentes locais inventaram uma tradição de carnaval, herança de tempos a que só historiadores zelosos seriam capazes de resgatar uma data. Reza a tradição popular: pelo carnaval, que é sinónimo de folia das gentes, caça-se um gato vadio. Mete-se o bichano dentro de um saco, pendura-se o saco no alto de um bordão, que baloiça sobre um amontoado de lenha e pinhas a que se chega fogo. À medida que as chamas se levantam e aquecem a serapilheira onde o gato se debate, a populaça exulta, incendeia as emoções com os gritos aflitivos do animal que sente o esturro a chegar à cauda felpuda.

O fogo pega-se à serapilheira. O bicho trepa pelas paredes frágeis, pelas paredes escorregadias do saco onde o meteram contra sua vontade. As gentes continuam na farta gargalhada, tão farta como o ominoso espectáculo. O saco acaba por ceder à voragem do lume que por ele sobe. O gato cai – e depois depende: ou fica na fogueira, numa morte horrenda para gratificação grotesca da gentalha; ou escapa das chamas e foge com as patas em ferida. E como se não bastassem tantas tropelias juntas, o animal é perseguido pela turba equipada com varapaus, um arremedo de inquisição. É ver quem mais acerta no bicho que definha.

Nas redondezas, toda a gente acha isto normal. Tão normal quanto o estatuto de “tradição” a que a bárbara manifestação foi emproada. Complacência geral. Nem o autarca, que se lhe exige respeito pelas idiossincrasias locais; nem o padre, que em matéria de tradições os sacerdotes não mexem um dedo, não vá a ousadia reverter contra o conservadorismo da igreja que representam; e nem sequer o chefe da GNR, que se pensava existir para fazer respeitar as leis. Todos anuem na barrenta tradição. Porventura as leis da república que proíbem e punem maus tratos em animais não se aplicam naquele lugarejo. A todo o tempo se descobre, no Portugal profundo, ilhas isoladas que, em nome da sagrada tradição, são oásis de ilegalidade.

O problema nem sequer deve ser olhado sob a lupa da lei. Que ela proíba a barbaridade gratuita de que são vítimas os animais é detalhe. Aterrador é imaginar a turba a aplaudir os bravos que foram à caça do gato e chegam com a presa para deleite colectivo. As massas são atreitas à bestialidade. Há quem diga que a estreiteza de espírito não acalenta horizontes mais vastos. Os animais, que deus fez sem a inteligência humana, existem para servir os interesses, as delícias, e as perversões até, dos humanos. Há Barrancos espalhados de norte a sul. Excepções e excepções ancoradas no véu sagrado, no véu intocável, da tradição. A tradição recebe a unção popular e o beneplácito de antropólogos e outros que testemunham o povo vibrante com o sofrimento de um animal. Os mesmos cientistas sociais que militam na causa da ciência como intervenção são, nesta ocasião, espectadores imóveis: limitam-se a diagnosticar, que mexer na tradição (intervir) seria uma heresia.

Estas tradições repugnam. São alarvidades que qualificam um povo. Traços de ancestralidade que resistiu à marcha do tempo. Uma bestialidade ímpar, a destas gentes que vigiam o calendário na ânsia de chegar o carnaval e torturarem mais um gato indefeso. Não vou ao ponto de andar de braço dado com alguns bem pensantes, que denunciam a grotesca exibição de animalidade humana e opinam que a lei devia encerrar o costume nos claustros de um bem encerado museu. Limito-me a observar a bestialidade em dose bruta. Recusando-me a alvitrar a ofensiva de brigadas dos bons costumes contra esta tradição aldeã e malsã. Todos têm direito à sua alarvidade.

A cada carnaval, e enquanto a memória desta lastimável tradição perdurar, há-de sobrar um profundo lamento. E muita comiseração. Por cada gato que tiver a desdita de ser protagonista de um espectáculo de ensandecimento colectivo, com as gentes a urrarem contentamento com os miados lancinantes do bicho em sofrimento. E muita pena por tanta boçalidade humana espalhada por área tão exígua. Uma condensação de alarvidade, como se fosse um epifenómeno local, que nem sequer a insensibilidade perante os animais ou até o ódio aos gatos desvenda explicação assisada.

Resta um povo abrutado que adere ao ritual só porque é tradição – um argumento tão racional como alguém que se justifica dizendo “porque sim”. Alguns dirão: as tradições não têm explicação. Duvido da irracionalidade do argumento. Há sempre uma semente que faz fermentar uma tradição. Ao que consta, os locais não encontram o fio à meada. Entretanto, passam de geração em geração a sórdida tradição. Assim como assim, estamos na terra que celebra a matança do porco e as touradas.

4.2.08

O corso carnavalesco e o festim dos medíocres


Tenho que admitir: nunca o carnaval me aliciou. Não me lembro de envergar máscaras, nem de ficar extasiado perante a possibilidade de fazer de conta, por umas horas. Será defeito pessoal: macambúzio, ou melancólico, ou a maldição de olhar para as coisas pelo seu lado tão sério, mas o carnaval nada me diz. Contudo, o que se segue não é alinhamento pela repugnância dos festins carnavalescos. Admiro os populares que convocam a imaginação para escolher os bombos da festa que enfeitam os corsos carnavalescos. A farta dose de criatividade que se passeia nas ruas, com áspera crítica social em cada corso carnavalesco. E a coragem de meninas de corpos em trajes menores, expostas às inclemências atmosféricas no auge do inverno.

É pelas imagens dos desfiles dos carnavais caseiros que me apercebo como é ingrato pertencer à classe política. São os alvos de excelência dos corsos: governantes e políticos retratados como carretos grotescos, passeando-se na rua, expostos à chacota do povo. É nessa altura que os políticos caseiros mostram o seu elevado espírito olímpico: sorriem ao verem-se retratados, e retratados de maneira que nada os favorece. Riem ao lado do povo, que ri deles. Um caso sério de autocrítica.

Há nos desfiles carnavalescos uma mensagem sublime: a menos que haja falta de assunto para enfeitar os corsos, a repetida utilização dos governantes e políticos dirá que eles se põem a jeito do escarnecimento carnavalesco. E quem assim se põe a jeito é merecedor do escárnio. As fraquezas da classe dão matéria-prima abundante para a febril criatividade dos encenadores dos desfiles de carnaval. Eu diria que a dificuldade será escolher entre a fartura de motivos. Aos encenadores do carnaval não falta assunto para alimentar a criatividade. É só andar atento à mediocridade impante que desfila, vaidosa, todos os dias pelas páginas dos jornais, pelos ecrãs das televisões.

Nos corsos de carnaval, um retrato fiel. Por um lado, a prova fidedigna de como a malsã mediocridade tomou conta do palco da política. Para lauto comprazimento dos fazedores dos corsos, agradecidos pela avantajada matéria-prima que recolhem ao longo do ano. Por outro lado, os carnavais são o ponto alto da crítica social que se exercita todos os dias e de que são alvos os políticos. A prova da incómoda função que é ser político. A democracia na sua veste ignóbil: a voz ao povo ingrato, sem se curvar perante os inexcedíveis préstimos de uma sacrificial classe política que, é sabido, se entrega no altar do serviço público, incapaz de se amesendar no lauto manjar que a sinecura proporciona.

A visibilidade pública dos políticos faz o resto: de tanto gostarem de ter sobre si as luzes de néon, ficam mais expostos às perguntas incómodas de jornalistas não domesticados. Como deve ser tremendo o desconforto de não ser possível andar nas ruas recolhido no anonimato, porque os olhares se deitam sobre eles. Deixam de ter vida própria: os restaurantes onde vão, o que comem, as lojas que frequentam, o que vestem, os hotéis que os recebem de férias, os livros e os discos que compram, tudo se sabe logo. E as suas máscaras que os desfiguram passeiam-se rua fora quando o calendário anuncia mais um carnaval.

Ou é defeito pessoal, na incapacidade de recordar políticos que tenham sabido irromper entre a sensaboria geral da mediocridade, ou todos os anos se repete o cenário dos carnavais: há sempre caretas de políticos, o povo zurzindo deles à mistura com indisfarçável crítica que mostra a insatisfação com a casta dos medíocres. O problema é que, de ano para ano, o lodaçal se adensa. Quando se pensava que já havíamos batido no fundo, em breve o surpreendente achado: afinal ainda havia mais fundo para descobrir. De mediocridade em mediocridade, os carnavais que se sucedem andam às voltas com a mesquinhez que magoa, tanto que só apetece levitar daqui para fora, ou fazer de conta – tal como os carnavais fazem, por três dias – que os medíocres são apenas uma ilusão que amedronta os pesadelos. E que afinal tudo não passa de uma mentira, porque ao acordar damos conta que a verdade era só uma ilusão contada através de um pesadelo. Que acaba depurado na diálise dos corsos carnavalescos.

Se calhar há um acordo secreto, uma intangível cumplicidade, entre os políticos e o carnaval. Se andássemos à míngua de políticos medíocres, que seria dos corsos carnavalescos?

1.2.08

“Couldn’t care less” (ou a negação do imperativo republicano de sermos membros da comunidade acima de indivíduos)


Faço umas leituras, por dever profissional, que me desviam do habitual teatro da investigação. Arremeto pelo terreno movediço da cidadania, da democracia, de como cidadania de corpo inteiro exige participação, e participação activa.

Autores há ainda aprisionados aos cânones tradicionais: o lugar por excelência da participação é nas eleições. Outros alargam horizontes: desconfiam da eficácia das eleições, actos esporádicos que libertam os eleitos para um longo período sem o escrutínio dos eleitores. Reconfiguram a participação cívica: fora das eleições, em fóruns que reúnem interesses específicos, mobilizando esses interesses para acções de protesto, exercendo pressão legítima sobre os governantes.

Apesar do peso crescente dos que defendem formas alternativas de participação, mesmo esses aceitam que as eleições ainda são um momento capital de participação cívica. Uns e outros denunciam a desmobilização em actos eleitorais. A descrença no processo electivo, de mão dada com a perda de credibilidade dos actores políticos, o fermento para mais abstenção que deixa alguns (nunca os actores políticos) preocupados com o fenómeno. A escolha de governantes em eleições pouco concorridas pode ferir a legitimidade dos que ocupam os cargos. Há quem recuse a mácula semeada pela elevada abstenção. Os eleitos não podem ver a sua legitimidade beliscada pela demissão dos abstencionistas. Nem os que cumpriram o seu dever, votando, podem ser prejudicados porque muita gente optou por fazer outras coisas em vez de votar.

Deparei com autores (cultores do comunitarismo e do republicanismo) que não hesitam em propor soluções radicais para ceifar o mal pela raiz. Avançam com a votação obrigatória. E justificam a ousadia. A autonomia do indivíduo só se completa quando interioriza a sua participação no seio de uma comunidade. Sobretudo para os que divulgam as ideias comunitaristas, ser membro de uma comunidade é o desígnio maior de qualquer indivíduo. É compreensível que os indivíduos tenham que ceder diante dos imperativos que surgem no horizonte da comunidade. Só então se cumpre a autonomia do indivíduo, quando ele declina perante a comunidade: o bem comum é a sua felicidade individual.

Com estes pressupostos filosóficos, os comunitaristas e os republicanos prosseguem a justificação da votação compulsória. Há um equilíbrio entre duas facetas que aparecem ligadas ao voto: o voto como direito e o voto como dever. Insurgem-se contra os liberais que sagram o direito de voto, fazendo-o preceder ao voto como dever. Os votantes devem perceber que a sua decisão é individual mas produz consequências nos outros. Particularmente quando a decisão é de se ausentarem da eleição. A abstenção – argumentam – altera os dados de uma eleição, pode até causar uma perigosa deformação nos resultados. Quanto mais elevada a abstenção, maior a sobre-representação dos partidos que mobilizam uma fiel clientela. Com prejuízo para aqueles que perdem votos entre os que se demitiram do dever de votar. Este é o problema: os votantes dos partidos mais atingidos ficam prejudicados pela decisão de não votar de alguns. É neste contexto que o voto aparece como dever e só depois como direito: a decisão de uma pessoa pode interferir com o bem-estar dos demais.

Para o voto passar a ser obrigatório, equacionam um sistema de sanções para os relapsos. Acreditam, fosse a sociedade o altar da perfeição, que o opróbrio social seria suficiente para envergonhar os abstencionistas e colocá-los na senda do seu indeclinável dever. Apercebendo-se que aquele grau de perfeição é ilusório, preconizam sanções que pesem no bolso dos abstencionistas: multas, e pesadas.

O que me custa a aceitar nesta linha de raciocínio é como a autonomia do indivíduo só fica totalmente preenchida quando ele compreende que deve ceder perante a comunidade. Parece-me uma contradição insanável. E não consigo entender o voto como um dever e só depois um direito. Os direitos-deveres são, em primeiro lugar, direitos. A ideia de obrigar ao voto é a negação de uma cidadania que se deseja emancipatória. Às pessoas, o livre arbítrio de fazerem o que bem entendem com o catálogo de direitos que lhes é garantido. Medidas que imponham condutas obrigatórias são incompatíveis com essa cidadania emancipatória. Em vez disso, uma cidadania tutelada, fiscalizada por um exército de engenheiros sociais, sempre vigilantes a caucionar e a censurar comportamentos dos outros. O que me custa, em tudo isto, é que se obriga as pessoas a serem livres. Um paradoxo sem fim.

Ao tomar contacto com estas propostas que anseiam por um rebanho bem comportado e indiferenciado, uma súbita pulsão para a dissidência – nem que seja pelo grato sabor da dissidência. Aos olhos dos comunitaristas e dos republicanos, e da sua agenda impregnada de um moralismo tão bafiento como o moralismo de sacristia que tanto deploram, só apetece fazer o contrário do que defendem. Por um imperativo de higiene mental. Não tolero que outros sentenciem um roteiro obrigatório por onde os direitos que me pertencem devem ser apascentados.

Votar devia ser obrigatório? “Couldn’t care less”.

31.1.08

Laranjas sem sumo


Dizem que os olhos também comem. A explicação para um toque final que embeleza os pratos, mania contemporânea da nouvelle cuisine, que vulgarizou um vocábulo que é predicado necessário da gastronomia de elite – empratamento. Porque os olhos também comem. Ainda que sejamos, tantas vezes, mais olhos que barriga. Acontece amiúde: iguarias que cativam a atenção da vista mas atraiçoam o sentido palatal. Há bolos assim: obras de arte, uma sinfonia de cores que atrai os olhos. Quando se ingerem, não sabem a nada.

Também há frutos que são o protótipo do engodo dos sentidos. Morangos vistosos, enormes, que se encavalitam em caixas nas prateleiras de supermercados pedindo para serem levados para casa, no seu vermelho garrido que é chamariz inevitável para os sentidos. Quando estalam na boca e revelam o seu sabor insípido, a decepção dos sentidos. E há laranjas redondas, perfeitas na forma circular, uma casca que é lição da cor reluzente. Todavia, uma desilusão ao serem abertas, de tão secas e desprovidas de sumo.

Por mais que saibamos que a probabilidade do conteúdo não corresponder às promessas do exterior é elevada, descuidadamente voltamos ao de sempre. Às frutas dir-se-ia fabricadas pela perfeição divina mas ao mesmo tempo mostruários de assepsia, às sobremesas encantadoras, à gastronomia que desfila no feitiço do empratamento. O processo repetido à exaustão: o aliciamento dos sentidos, que se entregam numa extasia pelas cores e feitios que cativam os meandros insondáveis do cérebro, abrindo as portas às reacções espontâneas. Que depois fermentam o travo amargo da decepção, quando a degustação fica a descompasso com as promessas tão elevadas deixadas para trás pelas cores e pelas formas deslumbrantes. Sobra o nada como sequela do travo amargo da decepção.

Acontece com frutos e alimentos sabiamente confeccionados em exemplares especiosos da gastronomia. Mas não só. Acontece com actores da política, das empresas, do desporto, das artes, um largo exército que presta contas a um público que é o seu alicerce para permanecerem sob os holofotes mediáticos. A sedução para a cidadania, traço da pós-modernidade vigente, alimenta esperanças de trazer estes agentes sob apertado escrutínio público. A comunicação social é um tribunal decisivo para formar a imagem destes actores. Logo, uma intimidade perversa entre comunicação social e políticos, empresários, desportistas e artistas vários. Um vai e vem entre jornalistas e aquela gente que depende da construção de uma boa imagem.

Esta intimidade, por vezes afinada em verdadeira cumplicidade, não deixa perceber quem traz quem pela trela – se os políticos é que comem na mão dos jornalistas, se estes são séquito daqueles. E há jornalistas seniores que percebem os mecanismos da cumplicidade. Do alto do seu discernimento, libertam a esperteza que cumpre o oportunismo militante. Deixam de ser jornalistas e fundam agências de comunicação. Conhecem os dois elos do processo – comunicação social e políticos. E como ambos se viciam numa intimidade cúmplice, que se transforma em endogamia, os ex-jornalistas vogam sob ambos e manobram os cordelinhos. São os mediadores entre comunicação social que depende do que dizem os políticos e os políticos que precisam da comunicação social como veículo do que dizem e fazem e atribuem aos adversários.

Há ditadura destes fazedores de imagem. Tudo soa a artificial. Uma palavra certa no momento adequado, poses estudadas, demasiado estudadas, uma imagem que soa à mais pura falsidade. São fazedores de imagem, como são fazedores de notícias de que redacções acomodadas se limitam a fazer copy paste. No palco da política, sob as suas ordens desfilam manequins apessoados, fatiotas aprumadas, cada detalhe estudado ao milímetro. Fazem-lhes as indumentárias: gravatas combinadas com camisas para impressionar a audiência – como se fosse a combinação de gravatas e camisas que fermenta a credibilidade e a competência. Quando os políticos dão entrevistas, um discurso que tem tanto de atraente como de falacioso. Nota-se que a personagem é um enfeite apenas, um embrulho que se desfaz na sua vacuidade, inexistente a substância – ou, se porventura existe, uma recalcada imagem que se asfixia perante os imperativos da imagem fabricada pelos spin doctors.

Os consultores mandam nos políticos. Dizer que são conselheiros é um eufemismo. Eles ditam o que os seus aconselhados dizem e fazem, como se vestem, como devem aparecer, onde devem ir. Imagino os briefings que preparam aparições em público, as cábulas que os políticos têm que decorar à exaustão. E o pânico dos spin doctors quando acontecimentos imprevistos exigem o improviso dos “seus” políticos. Aquele momento inesperado que exige uma reacção do político, uma palavra que não constava do roteiro milimetricamente encenado pelos spin doctors. Devem suster a respiração, soltar o nó da gravata, amordaçados pelo pânico: as criaturas emancipam-se dos spin doctors, ganham vida própria. Asneiram, e não poucas vezes, quando se soltam as amarras entre os fazedores de imagem e os políticos.

É então que se percebe que sem a tutela dos consultores de imagem, sem trela, são inócuas personagens. Sem o feérico espectáculo do embrulho com que nos são oferecidos, são a negação das laranjas sumarentas que os fazedores de imagem, notáveis ilusionistas, nos (e lhes) prometem.

30.1.08

Além da luz baça


Por mediação de uns pós mágicos, invisíveis porém, descobria-se a luz límpida detrás da cortina. A cortina que descerrava apenas uma luz baça, escondendo a luz clara na sua impossibilidade. Era por isso que as coisas apareciam escurecidas, tingidas pela podridão. E o desenraizamento se entranhava, deixando o espírito nas ameias distantes onde a solidão se refugiava. Todavia, se se esforçasse descobria a portinhola por onde alcançava o lado de lá da cortina da embaciada luz. Como se franqueasse o limiar do fantástico, onde a ténue diferença entre a luz habitualmente embaciada e a luz límpida que ali irradiava temperasse as diferenças que só têm lugar nos sítios que são seus antípodas.

Quando rompia a muralha que escondia a luz cristalina, tudo era diferente. As coisas na sua beleza fantástica. As pessoas irradiando uma bondade infindável. As palavras ecoavam no seu sentido literal, sem serem perfumadas por segundos sentidos. Tudo era tão claro que ninguém sabia da existência da palavra ambiguidade. As gentes pareciam abençoadas por uma estranha levitação dos corpos, os pequenos passos por gentis avenidas onde se deitava generosidade e compreensão recíproca.

Era um lugar sem as nódoas mundanas da humanidade. Sem tribunais, que as gentes estavam acostumadas a cumprir as leis não escritas a que os comportamentos obedeciam. Sem governantes, evitáveis figuras a partir de um momento (já distante no passado daquele fantasiado lugar aspergido pela luz branca) em que a revolta sublime exilou os políticos em parte incerta.

E havia cooperação, ao mesmo tempo desinteressada e egoísta, numa mortalha onde se abrigavam na sua aparente contradição. As gentes cooperavam. Sabiam que era a solução indeclinável se não queriam regressar aos tempos de outrora onde o fingimento e a dissimulação semearam a embaciada luz que desaproveitou por tanto tempo a alvura em que agora habitavam. Mas egoísta, ao mesmo tempo: cada um sabia, no seu íntimo, que a perpetuação da luz tão límpida era o palco conveniente para poderem repousar no sono tranquilo, despejado de pesadelos, que os visitava todas as noites.

A bondade era de uma força esmagadora. Tão esmagadora que a criminalidade era repudiada com uma severidade que dissuadia. A reprovação dos outros era pena suficiente para desaconselhar os pedregosos caminhos da dissidência antiética. Eram fantasmas já só arqueológicos. Havia museus pedagogicamente montados: museus vivos do que eram tribunais de antanho, fragmentos da mesquinhez que tanto tempo se amesendara no banquete autófago da humanidade. As pessoas tinham o hábito higiénico de visitar esses museus com alguma assiduidade. De cada vez que se sentiam acossadas por fantasmas malévolos, um impulso deixava-as à porta desses museus. Escassos minutos de digressão pelos tempos volvidos, a caução suficiente para retomar o lugar no altar da luz clara.

Pela rua, a beleza dos edifícios, os jardins frondosos, impecavelmente alindados, uma limpeza cuidada, uma organização tácita, sem regras detalhadas, exaustivas, pronunciando ditames legais sobre tudo e mais alguma coisa, como era hábito de outrora. Hábito renegado. Havia, decerto, uma preocupante organização, um lugar idílico, perfeito em demasia. Uma perfeição doentia, agressora até. As gentes eram ordeiras. Todos eram paradigmas de cidadania. Só havia cidadãos exemplares. A tal ponto que já nem sequer fazia sentido falar de cidadania exemplar. Um rebanho inebriado pela luz límpida, onde só tinham lugar as pessoas entregues à bondade irrecusável, povoava as dúvidas. Para onde tinham ido as excrescências que eram abundante matéria no passado encerrado? Sem excepção reconvertidas ao idílico lugar onde todos conviviam na perfeição almejada? Todavia, na perfeição inumana.

Era então que sobravam as interrogações que rompiam a condescendência geral perante a terapêutica luz límpida. Não era um requiem sentido pelos tempos idos, da malsã vida que tinha tido funeral com a revolta das gentes. Só legítimas dúvidas de que tamanha bondade, um lugar tão perfeito, pertença ao património genético humano. O genoma é incompatível. As imperfeições e toda a luz embaciada são a residência a que pertencemos. Não os sonhos idílicos. E, por idílicos, a sua impossibilidade perene. A voz que se sobrepõe é a da resignação. A que anuncia a intemporalidade da luz baça.

29.1.08

Um ateu reconvertido tem dilemas existenciais?


Vai por aí uma tempestade por causa de um convite da Universidade de Roma La Sapienza ao papa Bento XVI para discursar na abertura solene do ano lectivo. Correu, célere, um abaixo-assinado subscrito por professores da universidade protestando contra a visita. Bento XVI declinou o convite. A polémica incendiou-se. As versões variam (dos adeptos da igreja, ou simplesmente dos paladinos da liberdade de expressão; e dos ateus militantes, disparando munições contra a igreja): o papa foi impedido de falar; ou terá sido apenas uma encenação papal, uma retirada estratégica para se vitimizar às mãos dos carrascos da intolerância religiosa, os ateus implacáveis.

E anda meio mundo entretido a polemizar sobre um nada. O que interessa saber se houve mesmo intolerância, ou se o papa manobrou o episódio para encostar às cordas os adversários, que assim carregariam perante a opinião pública o opróbrio da intolerância? Os dois lados da barricada têm apresentado furiosas argumentações que chamam a si a razão e querem deixar os adversários em maus lençóis. Uns, ratos de sacristia ou tão só amantes da liberdade de expressão, acusam os outros – adeptos do ateísmo – de impedirem a liberdade religiosa. Houve até quem sugerisse, em perfeito exagero, que o episódio mostra como nos dias que correm os ditames do politicamente correcto empurram a igreja para a clandestinidade. Do lado contrário, a negação das acusações. E um contra-ataque que vai às catacumbas da memória para mexer com os esqueletos incómodos da igreja, as inquisições e as intromissões na consciência individual.

Há polémicas boas, polémicas que interessam apenas a uns quantos, entretidos com a especificidade do tema, e polémicas estéreis. Eu acho que está é uma polémica estéril. Com muito malabarismo argumentativo. No desfile da retórica usada pelos dois lados da barricada, truques que escondem fantasmas que os atormentam, fantasmas que enfraquecem as respectivas posições. É o que sucede quando são desferidos ataques violentos contra a parte contrária: o ataque desvia as atenções para o acessório, pela percepção de que o acessório chama mais atenções que o essencial, entretanto deixado ao esquecimento.

Nesta polémica que arde bem alto, o que tem sido discutido não deixa de pertencer ao acessório. Quem acaba por cair numa armadilha são os que, do lado do ateísmo, disparam acusações ao papa. Eis a forma como um ateu reciclado lê os acontecimentos (um ateu reciclado: alguém que teve educação católica e, entretanto, perdeu os vestígios da fé e abraçou o ateísmo). O antagonismo entre católicos e ateus centra-se em deus. Os primeiros acreditam na existência de deus. Entre as fileiras do ateísmo, há quem dedique tempo excessivo a negar a existência de deus. É a esparrela em que os exacerbados ateístas caem. Quando tentam provar a inexistência de algo, o erro metodológico de dar o flanco ao adversário. Não é tanto pela atitude de negação, com a provável exposição às críticas de quem os acuse de se limitarem a desconstruir algo. O problema é que a vertigem pela ausência de deus acaba por ser o trunfo de que estão à espera os crentes em deus.

A dúvida existencial que assalta o ateísmo é um tremendo erro de método. O constante acosso da divindade que dizem negar traz à superfície uma interrogação: não estarão os ateus apenas a negar a evidência? Não estarão a afirmar, através da negação, a existência daquilo que se convencem não existir? É por isso que toda esta polémica é um alçapão fundo em que os ateus caem, a insistência no erro que só aproveita aos católicos. Às voltas com os crentes, são arquitectos da afirmação do deísmo. Inadvertidamente, cultores da deificação do que tão exacerbadamente negam existir. O erro dos professores de La Sapienza autores do abaixo-assinado foi a importância excessiva dedicada ao sacerdote maior de uma entidade que sagra a existência de uma divindade inexistente para os ateus. Ora, se deus não existe, porque se deitam os ateus que nem cães raivosos ao sacerdote maior dessa igreja?

Como ateu reciclado, extraviado do catolicismo, tenho dilemas existenciais. Não os tenho, contudo, relativamente a deus. Não me persegue a urgência de afirmar a inexistência de deus. O ateísmo deve pressupô-lo. O conceito de deus é um corpo estranho aos quadros mentais em que se movem os ateus. Quando a discussão envolve deus, ou traz polémicas que abraçam de lados opostos da barricada crentes e ateus, a entrega à polémica é uma forma de creditar, sem o querer, a existência do que dizem ser uma ausência. Que haja a tentação de não fugir a uma boa polémica, pela excitação intelectual que elas emprestam, é o dano colateral que atinge os ateus. Essa sim, a dilacerante dúvida existencial semeada nas suas vidas.

28.1.08

Do mau perder


Miopia, ou apenas maus fígados? Há quem se acostume a ganhar, a ganhar quase tudo. E depois, quando entram na arena com um dos rivais históricos e saboreiam a derrota, ausenta-se o poder de encaixe para digerir a desdita. Nunca, nunca o adversário merece sair vitorioso do pleito. A falta de espírito desportivo é marca registada. Podem ser consagrados – ou fazerem a sua auto-consagração – pelos feitos sucessivos nos campeonatos caseiros e até em competições estrangeiras. Nunca teriam o dom de franquear as portas do espírito olímpico.

São tão especialistas em ganhar como em não dar o braço a torcer quando o resultado é adverso. Os pragmáticos, a quem só os resultados interessam – e que rapidamente condescendem que só mesmo os resultados merecem avaliação, não tanto como lá se chega – terão uma palavra de aceitação para o fel destilado na hora das escassas derrotas: tão habituados a coleccionar vitórias e troféus, a passear a superioridade sobre os adversários, na hora em que um pleito é coroado com a derrota solta-se o azedume. E tolda-se o entendimento: numa reviravolta de cento e oitenta graus, afinal ignoram a lógica do resultado que tão religiosamente abraçam. É que quando perdem, é porque o adversário meteu mais bolas na baliza. Não é isso que conta?

Sempre com a mania de serem acossados por todos os lados, elaborando especiosas teorias da conspiração de que são vítimas preferenciais, resguardam-se numa retórica guerreira que faz do jogo uma batalha quase bélica. A animosidade da seita é o cimento da união. Quando a sorte se desencontra com eles – e a sorte é tão aleatória, não é?! – choram-se pelo abandono dos deuses da fortuna a cuja companhia se habituaram. Porventura os deuses da boa aventurança gostam de pousar noutros logradouros, para variar. Às vezes, também para variar, o sortilégio do jogo deixa-os desamparados. Ficam órfãos na sua insuficiente competência. E todas as tentativas esbarram no azar, num passo excessivo que desequilibra do golo, a trave da baliza insolentemente no caminho da bola selada com o destino do golo.

Um grito de revolta mistura-se com a miopia da análise. Vomitam as palavras que desmerecem o feito do adversário, que afinal chegou ao fim do jogo com mais golos na algibeira, açambarcando a vitória. Eles adoram que os adversários se curvem perante a sua superioridade de cada vez que saldam o jogo com uma vitória inequívoca. Faz parte a passadeira triunfal que gostam de ver desempacotada à frente dos seus pés. E pertence-lhes o execrável hábito de humilhar os adversários, como se não fosse suficiente a derrota com que saem vergados do terreno da batalha. Não chega: eles abandonam, cabisbaixos, mas são obrigados a admitir a justeza do feito do adversário, a estocada fatal que rouba os últimos pingos da dignidade dos vencidos. É assim que se comportam na hora da vitória. Todo o contrário quando sai em sorte o sabor amargo de perder uma disputa.

Eu acho que é o hábito das vitórias que dilui o espírito olímpico com que todos os derrotados se devem portar. O azar é ingrediente do jogo. Do outro lado, um adversário. E um jogo é uma sucessão de lances feitos da interacção com o adversário. A indignidade maior é menosprezar o adversário, seja na humilhante estocada fatal com que exigem a vassalagem dos adversários agraciados com a perda do jogo, quer, sobretudo, quando chega a sua hora de fazer a digestão da derrota.

O sorumbático treinador da agremiação sentenciou: “o resultado é uma mentira”. Julgava que a lógica das “vitórias morais”, o ridículo espírito do “perdemos mas saímos de cabeça erguida” tinha saído do vocabulário dos habituados a ganhar até a gigantes europeus. Terá sido distracção, ou apenas uma incontrolável manifestação biliar, mas o cenhoso treinador ensaiou ali a irreprimível pequenez dos que não sabem encaixar o peso de uma derrota.

É nestes momentos que se revela a grandeza dos intérpretes. Tão grandiosa é a vitória que sagra a maior competência face aos rivais, como a humildade de admitir que os adversários mereceram saldar o pleito com a vitória, disfarçando a turbulência que se apodera do fígado. Ou, então, trata-se apenas de maus fígados. No rescaldo, alguém devia perguntar ao treinador incapaz de esboçar um simples sorriso (imagem de marca daquela agremiação, todavia): quantos golos meteram os seus na baliza do adversário? E o adversário, quantos golos meteu? Não é o golo a chancela da justeza de um resultado? O resto, efabulações misturadas com a bílis estragada.

27.1.08

Scout Niblett, "Kiss"

Os aniversários (quatro anos do blog) também se comemoram com três semanas de atraso.

25.1.08

E se os políticos fossem obrigados a registar em notário as suas promessas eleitorais?


É talvez uma das mais agudas doenças das actuais democracias: as muitas promessas feitas em campanha eleitoral que vão sendo esquecidas, ou até violentadas, ao longo do mandato de um governo. Os mais críticos – e os que se despem de imparcialidade por vogarem de outro lado da barricada de um determinado governo – denunciam a indignidade das promessas não satisfeitas. Argumentam: desfaz-se o capital de confiança entre os eleitores e os que governam. Sobretudo entre os eleitores que foram seduzidos pelo programa eleitoral feito de promessas tentadoras que, afinal, vão sendo frustradas.

Há uma tremenda falta de responsabilidade pelos actos e, sobretudo, pelas omissões dos políticos. Desta forma, os políticos são uma classe à parte das demais pessoas, permanecendo intocáveis à medida que se desfazem as promessas de outrora que vão entrando no rol dos esquecimentos, ou das impossibilidades. Uma casta de excepção, por não serem chamados à pedra. Poderão alguns contrapor: há um momento em que não se podem furtar ao julgamento popular, quando se renovam as eleições. Só que raramente o eleitorado faz um julgamento retrospectivo. É muito tempo, tempo suficiente para as promessas antigas e não cumpridas serem resgatadas como capital de penalização de quem tanto prometeu e pouco fez. A memória curta limpa o cadastro das promessas falhadas. As eleições voltam a ser o palco para a competição do catálogo de promessas prospectivas.

A escolha de um eleitor deve, entre outros aspectos, pesar a acção passada de quem esteve no governo e a comparação das promessas dos partidos que concorrem a uma eleição. Pesar nos pratos da balança o passado e o que se promete para o futuro. É impossível desligar os dois exercícios temporais. Todavia, como a memória se apaga com os fragmentos do tempo ido, o incentivo para apresentar um cardápio de promessas deslumbrantes é irresistível. Os políticos sabem que vão ser julgados não pelo que não fizeram mas pelo que prometem para os dias vindouros.

Esta é a génese da irresponsabilidade dos políticos (no altar do governo) perante as suas omissões. Diante deste diagnóstico, que solução para curar a maleita da democracia – e para restaurar a exigível responsabilidade dos políticos? Defende-se (no blogue “A destreza das dúvidas”) a solenização das promessas em campanha eleitoral. Seria através do registo em notário do cardápio de promessas. Ficariam lacradas com selo oficial. Como se fosse um testamento que os partidos políticos deixam para posterior apreciação. A qualquer momento seria possível perguntar ao notário pelas promessas, cotejá-las com o percurso da governação. Até os partidos remetidos à oposição seriam julgados: perante as promessas que fizeram seria ajuizado o seu desempenho na oposição. Para saber se as propostas alternativas que apresentam se afastam das promessas feitas em campanha, ou se as críticas à governação não expõem incongruências em relação ao catálogo de promessas.

A proposta é aliciante. Teria o condão de evitar políticos que se confundem com vendedores de banha da cobra, atreitos a prometer tudo e mais alguma coisa, sabendo de antemão que a probabilidade de satisfazer essas promessas é reduzida. Confiam na ingenuidade dos eleitores e avançam com um rosário infindável de promessas, o isco que os incautos eleitores mordem. Pela experiência, sabem que mais tarde, quando houver eleições, o passado será branqueado e o julgamento far-se-á pelos dotes prospectivos. Espanta-me a capacidade de esquecimento do passado. Como a menoridade dos eleitores, em doce cumplicidade com os políticos, passa uma esponja pelo desempenho passado. Sem nada aprenderem com os sucessivos erros que vêm detrás, reiterando, eleição atrás de eleição, a obnubilação de promessas passadas, só interessando as promessas voltadas para o futuro. É que assim as promessas nunca chegam a ser julgadas.

A proposta de lacrar em notário as promessas dos políticos é tentadora. Temo que não seja eficaz. A qualquer altura, os mentores do governo desmultiplicariam argumentos a justificar a impossibilidade de cumprir promessas. Diriam que as “circunstâncias mudaram”, tornando impossíveis as promessas. Diriam até, quando se mudassem da oposição para o governo, que desconheciam como estava o país governado pelos antecessores. A proposta teria a vantagem de impedir a desfaçatez de políticos mentirosos, quando são confrontados com promessas que fizeram e negam que as tenham feito. Por outro lado, este sistema seria um convite para que partidos sem possibilidade de chegar ao governo registassem promessas miríficas, sabendo que nunca seriam chamados a passá-las do papel à prática. O que poderia falsear os resultados das eleições, premiando esses partidos e penalizando os que teriam a exigência de só apresentar promessas realizáveis.

E depois há muitas perguntas que ficam sem resposta: na hora da verdade, em que as promessas anteriores fossem deslacradas e um juízo fosse feito, o que acontecia aos partidos com mais promessas falhadas? Que sanções lhes seriam aplicadas? E todas as promessas falhadas teriam a mesma gravidade?

Às vezes, propostas aliciantes esbarram na sua própria impossibilidade. Com o inconveniente de agravar a doença da democracia.

24.1.08

O hino entoado com a mão direita deitada sob o coração – ou o PSD virou partido nacionalista?


A formidável liderança do PSD é um oceano infindável de surpresas. Uma navegação errática, ao sabor dos ventos que sopram, a bússola atrás dos ventos, incapaz de imprimir o seu rumo próprio. O espalhafatoso líder, um cata-vento todos os dias. Ora promete que irá governar (como se isso alguma vez pudesse acontecer…) mais à esquerda que o actual primeiro-ministro. Ora promete o desmantelamento do Estado num abrir e fechar de olhos, acenando aos liberais mais à direita. Ora revela a sua têmpera se algum dia a improbabilidade de ser primeiro-ministro acontecesse, metendo o bedelho nas televisões ao sugerir nomes para os painéis de comentadores políticos.

É pródigo em incontinência verbal. Sempre foi. Agora que chegou ao púlpito no seu partido, teria que contagiá-lo com o frenesim que se confunde com incontinência verbal. Há quem se enterneça com este “activismo”. E mantenha que a oposição tem que ser enérgica para combater a placidez instalada com os socialistas que se incrustam como inevitabilidades perenes. Nem sempre a vozearia traz dividendos. Falar só por falar pode redundar em mero ruído de fundo, ou numa gritaria ensurdecedora que apenas torna insuportável quem promove o ruído.

Tenho, em relação a este partido de centro-esquerda, o distanciamento higiénico que me permite ser observador exterior. Olhá-lo de fora e diagnosticar uma estranha tendência para a autofagia. Escolhem soluções que contentam clientelas lá dentro, esquecendo-se que quem lhes traz os votos é a esmagadora maioria dos que não são filiados mas, de vez em quando, votam neles. De Santana Lopes em Luís Filipe Menezes, até à banalização?

O último episódio risível veio à memória: há semanas, uma daquelas jantaradas nada frugais e decerto nos antípodas do higienismo alimentar tão amplamente propagandeado. Em Penafiel. Um excerto do discurso do líder, com a assistência pousando os garfos para beber a grandiloquência das palavras que parecem de improviso. Já nem me recordo do tema, nem das promessas sonâmbulas, ou das críticas atiradas contra o primeiro-ministro e seu séquito. Guardei na memória a parte final da reportagem. A mesa de honra, presidida por Menezes e ladeada por figurantes locais, em pé a cantar o hino nacional. Uma entoação arrebatada do hino. O líder teve a iniciativa de elevar a mão direita, em gesto sentido, pousando-a sobre o coração. Como necessários macaquinhos de imitação que prestam vassalagem ao líder, o edil de Penafiel e os restantes figurões locais imitaram o gesto.

Julgava que só os nacionalistas encartados (e uma certa equipa de rugby) tinham a ousadia de cantar o hino acompanhando-o deste gesto frívolo. Os nacionalistas que frequentam os terrenos da extrema-direita, ainda tributária da nação como bem supremo do indivíduo, que se deve inclinar respeitosamente perante a pátria. Como o hino celebra as grandezas pátrias, exige-se um sentido, arrebatado entoar das estrofes que acompanham a melodia. A mão direita resguarda o coração, a sublime mensagem: trazer a pátria no coração. Este ritual é uma coroação da pátria, a declinação do indivíduo perante a pátria, se necessário for a sua entrega num altar sacrificial. Com toda a religiosidade inerente. Uma religiosidade em que a pátria faz as vezes da entidade divina.

O que me intrigou foi a coragem do líder do PSD para um gesto conotado com a heterodoxia politicamente incorrecta. O gesto tem uma conotação nítida com o nacionalismo que vegeta na extrema-direita. Só não percebi a intenção de Menezes (o que, aliás, é tarefa labiríntica). Se a encenação foi intencional, uma estratégia congeminada com os seus consultores, aliciando para o PSD gente que navega nas águas da extrema-direita. Numa surpreendente ultrapassagem do CDS-PP pela direita. Ou, porventura, nesse dia Menezes tomou-se de súbitos amores pela portugalidade que ambiciona governar. No fundo, um gesto autocontemplativo por antecipação (que, diria, é uma impossibilidade).

O CDS-PP e o PNR que se cuidem. O gigante PSD soltou as amarras do centro-esquerda e invade terrenos pisados por aqueles partidos. Na ânsia de esconjurar a demorada cura de oposição, vale tudo – até dar guarida a sinais típicos do nacionalismo de extrema-direita. Pela parte que me toca, geneticamente incapaz de depositar o voto no partido cor de laranja, só lamento que todos estes desvarios sejam a caução para o lúgubre actual primeiro-ministro continuar a sê-lo por muito tempo.

23.1.08

Do que eu gosto é de barragens


Todos os dias, a abundância de gente a meter água. Até cada um de nós, inadvertidamente ou por inépcia. As inundações quase nos afogam na água que jorra. Ora em jactos, ora com uma lentidão venenosa – consoante a asneira seja flagrante ou apenas se insinue nos seus efeitos demorados. Como nos custa a introspecção dos erros próprios, vigiamos a asneira alheia. O diagnóstico lapidar: tanta água que escorre, desperdiçada, sinal da incompetência que nos outros é sempre mais nítida.

É por isso que as barragens me deixam fascinado. Obras de engenharia majestosas. O homem na exteriorização das suas plenas capacidades. Domando a natureza, transformando o curso dos rios. As barragens, ao contrário do quotidiano que nos cerca, retêm a água. Os engenheiros que as projectam conseguem desviar cursos de água para montarem a estrutura de betão que há-de ser o paredão onde embatem as águas dos rios, pondo mão no seu caudal.

Os espelhos de água retidos pelas barragens são a miragem onde se consomem todos os passos em falso na lassidão da tolice militante. Toda a água que metemos seria vertida nas albufeiras, o repositório das asneiras insistentes. Só que as albufeiras que esbarram no paredão das barragens são o contrário de tudo isso. As margens recortadas da albufeira contemplam o estio ou a estação pródiga em chuvas, consoante os caprichos da meteorologia.

Não há segredos no enchimento ou no vazamento das albufeiras. Mesmo assim, sobra o aleatório, como se a sorte das albufeiras fosse lançada pelos dados no tapete verde de uma sala de casino. No contraste com o voluntarismo humano que cede o passo à asneira, a franquia para a água que metemos a rodos. Por vezes, incapazes de admitir que somos os fautores únicos dos passos em falso, há o refúgio complacente na sorte arredia. Até nisso a água foge por entre os dedos, adensando o caudal que se esvai sem utilidade alguma.

É grande a admiração pela engenharia que soube domar a natureza. Exactamente nos antípodas de governantes que querem tapar o sol com a peneira, apenas porque esse efeito é de uma oportunidade atroz para as suas agendas. São aprendizes da arte de enganar uma vasta audiência. Eles aparecem, feiticeiros que fazem acreditar que conseguem desviar a natureza do seu curso. Congeminam um discurso feérico: a realidade pintada a cores diferentes, as que lhes são mais aprazíveis. Ainda que essa seja uma natureza idílica, apenas desejada, mas não a natureza que desfila diante dos nossos olhos. São contorcionistas que apresentam um espectáculo pestilento. A sua arte é a de convencer os incautos que conseguem domar a natureza que passa por cima deles, incontrolável. O contrário das barragens que, elas sim, domam a natureza.

A cada sinal da arte do embuste, que ganha lugar de especialidade só ao alcance de profissionais bem treinados, é maior a admiração pelas barragens. Seriam elas o farol de um lugar guiado pela honestidade na arte da política. Elas ensinariam o princípio vital de reter a água, impedindo o tão elevado ónus que é o desperdício de água, a imbecilidade da asneira premeditada. A denúncia da água que se esvai, sem freio, a cada palavra encenada pelos que não passam do tirocínio da governação. Eles estão é empenhados na sua sobrevivência, mesmo quando ela é tão nefasta para os que estão sob a sua alçada.

Nem mesmo os que se arvoram na dupla condição de engenheiros e governantes as conseguem reunir numa só. Como se tirassem partido das aptidões da engenharia, que mais do que outras ciências se aproximou do limiar quase divino que é domar a natureza. Ou são engenheiros ou são governantes. Condições que se excluem reciprocamente. Parece, até, que assim que engenheiros se inebriam pelos holofotes do poder desaprendem os atributos de domadores da natureza que lhes ensinaram. E passam a ser campeões a meter água.

Deviam andar atrelados a mini-hídricas ambulantes que retivessem toda a água que metem, a cada dia que passa. Os ecologistas desdobrar-se-iam em aplausos. E seria maneira destes profissionais do erro verem, no espelho de água acumulado atrás deles, como a humildade anda arredia. E como todos agradeceríamos que se dedicassem a outras artes, mais anónimas.

22.1.08

Brincar às guerrinhas nos ares


Enquanto as gentes em terra ficam assustadas com o súbito ribombar que estilhaça vidros, abre fendas nas paredes, rompe com a tranquilidade campestre tão típica das terras de Penamacor. É que havia por ali manobras da força aérea, “exercícios de simulação de combate”, usando a linguagem de caserna. Não terá sido preciso alertar a protecção civil, muito menos pôr de aviso as populações. A tropa continua a usufruir de regalias incomparáveis. Um Estado dentro do Estado, ainda.

Imagino como deve ser doloroso para estes generais viver em tempos que deixaram de ser visitados tão amiúde pelas guerras. Entretêm-se, pois, a congeminar fantasiosos cenários de guerra, substantivando os conflitos em que gostariam de participar. Põem os homens no terreno, atribuem-se-lhes “missões”, inventa-se um inimigo fictício e acabam todos a brincar às guerrinhas. Para conferir maior solenidade à coisa, chama-se o ministro da tutela, veste-se-lhe um uniforme para abraçar o espírito de caserna e convocam-se as câmaras de televisão para mostrar à população que ela pode dormir em descanso: não haverá invasão que não sofra a brava resistência das nossas tropas. Mas que invasão estão a imaginar?! Justificam-se: há que manter “operacionais” os “efectivos”, não vá ser necessário pô-los em acção. Há quem viva a sonhar mesmo acordado.

Causa-me espécie que haja criaturas que fazem profissão de fé no aspecto lúdico das guerras em simulacro. Como pode alguém, no seu perfeito juízo, brincar às guerrinhas? De cada vez que generais ensaiam exercícios bélicos, é a humanidade a gritar bem alto o seu ensandecimento. Um cortejo grotesco em que se faz de conta que um inimigo imaginário ameaça a sacrossanta soberania pátria. O sangue teria que escorrer para defender a soberania que se deseja intangível. Não haverá bem maior. O que interessa se a tropa assim entretida se deita no leito do mais puro anacronismo? Por mim, que sempre me enterneci com exércitos e a férrea disciplina militar (que ainda dá direito à existência de tribunais militares, como se houvesse uma justiça à parte da justiça civil), um largo sorriso irreprimível solta-se de cada vez que o exército desfila no seu anacronismo inevitável.

E, apesar da anacrónica eloquência dos senhores generais, a tropa insiste em ser um mundo cheio de particularidades e de privilégios. Dispensa-se de deveres que assistem aos demais. Uma casta que se esconde na prestação de funções na “defesa nacional” para chamar a si um estatuto de excepção. Naquele dia os F16 da força aérea iam sobrevoar o concelho de Penamacor. Não seria encargo excessivo avisar o presidente da câmara. Que, já que a tropa não se dá ao trabalho de comunicar com o povo, faria chegar avisos de que os aviões supersónicos andariam em exercícios espectaculares sobre as cabeças dos habitantes beirãos. Nada disso. Tudo em segredo. Compreende-se: as manobras militares exigem secretismo, não vá o inimigo imaginário ser avisado por um qualquer agente infiltrado entre a população local e frustrar o objectivo do simulacro.

Se a barreira do som for quase atingida, com o estilhaço que se produz, assustando as populações que não tinham sido avisadas das manobras nos céus, paciência. É pelo interesse da nação. Os sustos são efémeros. Não hão-de sequer velhinhos sucumbir de síncope cardíaca. Os animais, assustados? Não contam para o rosário, os animais. Para incómodo dos artífices das manobras aéreas, refugiados nas ameias do quartel, a comunicação social deu voz ao protesto das pessoas que ficaram assustadas com o estrondo. Soube-se depois, pelo esclarecimento de um contrariado porta-voz da força aérea, foi o produto da inépcia de um piloto que acelerou demais o F16. Foi um evento imprevisto, um incidente que não pode manchar a inestimável, prestimosa utilidade da força aérea.

Juntamente com o muito dinheiro que estas manobras custam, prejuízos em habitações que abriram fendas e viram vidros estilhaçados. Não bastava o sorvedouro estúpido de dinheiro que a simples existência da força aérea supõe – sem mencionar o dinheiro deitado fora de cada vez que um F16 se põe a voar brincando às guerrinhas –, há ainda prejuízos das gentes em terra. O incomodado porta-voz, esboçando frete no esclarecimento que lhe estava a custar tanto a prestar, prometeu visita de uma "comissão de inquérito" ao local para apurar os danos. Falta saber quando lá chegará a comitiva.

21.1.08

Culto de personalidade


Impressionam-me pessoas que se deixam passear na tela do culto de personalidade. Há neles um ego enorme. Ou houve, em tempos, tempos difíceis, sinuosas curvas em que foram depreciados. Talvez meninos escarnecidos por todos na escola, os bombos da festa. Agora, que souberam subir na escala do reconhecimento social, têm a sua vingança privada com o mundo inteiro – como se o mundo inteiro fosse o laboratório gigantesco que reproduz o microcosmos que tanta mortificação interior causou pela troça infindável.

Mesmo assim, impressiona-me que haja quem permita uma corte que se desfaz em tratos de polé, a corte do elogio fácil. Uma imagem quase deificada. Dir-se-ia que dariam chancela a biografias com estaleca de hagiografia. Gostam de ver a passadeira vermelha estendida para nela caminharem, exalando aura triunfante. Os outros devem-se curvar perante a sua magnificência. À medida que o tempo corre e as auto-façanhas o colocam num púlpito ainda mais inacessível aos outros, mais se arrebanham indefectíveis doutrinados para trazer mais rebanho para dentro da cerca.

Não há pingo de modéstia na personagem que permite o seu próprio culto de personalidade. Os pajens de serviço, os que lhe fazem a imagem e aqueles que dele dependem, constroem o culto de personalidade que a domesticada comunicação social faz chegar à gente anónima. A gente anónima, consumidores por excelência do culto de personalidade do timoneiro da nação. E assim aumentam as probabilidades de prolongar a sinecura com a esmagadora maioria que lhe caiu nos braços num tremendo golpe de sorte. Na carência de substância – visível à vista desarmada – insiste na praxis da imagem cirurgicamente arquitectada. A cada mês que passa, sobe o tom dos panegíricos vindos da corte em redor. Os que não vão na ladainha laudatória, ou são ignaros ou é a teimosia que os cega no discernimento.

O pior é que não há um dia, um dia sequer, em que o ego do timoneiro não seja massajado na televisão. Até ao fim-de-semana. O homem não tem descanso. Não tem sábados, domingos e feriados. Não vá a sua imagem apologética adormecer no espírito das massas, não vão elas esquecer-se, por um dia que seja, que há primeiro-ministro redentor. Este fim-de-semana foi outro sem igual. Num dia, confessa, num acesso de intimismo que o coloca quase ao mesmo nível humano dos governados, que o homólogo espanhol é o seu “maior amigo”. Haja muitos dentes para mentir – terão pensado os seus verdadeiros amigos, aqueles que nutrem por ele uma prolongada amizade.

Mais uma cimeira – ibérica –, mais um tijolo para o imenso culto de personalidade. Em muito feito da convivência com os “líderes mundiais”, cuja grandeza alimenta a sua própria grandeza, por efeito de contágio. Espantosamente, o timoneiro terá confundido a natureza da cimeira. Pensava-se que era a cimeira ibérica, reunindo delegações dos governos dos dois países da península. Afinal terá sido uma cimeira da internacional socialista, delegação ibérica. O homem esqueceu que estava ali na função de primeiro-ministro e descaiu-se no apoio ao seu homólogo, da mesma cor ideológica, que já está em campanha eleitoral. São comoventes estas fidelidades partidárias, só possíveis entre a ternurenta internacional socialista. Como comovente foi ver a imodéstia do timoneiro da nação ao oferecer os préstimos ao homólogo, caso fosse preciso para o levar até a nova vitória nas urnas. Há gente que faz de si uma imagem muito maior do que a revelada pelo espelho.

Domingo, Viana do Castelo. Ia inaugurar uma biblioteca municipal. Madrugou para participar na mini-maratona local. Veio mesmo a talho de foice. Afinal o patarata do líder do maior partido da oposição estava enganado no diagnóstico recente: falsas as acusações de que o senhor primeiro-ministro só chama as câmaras de televisão quando faz jogging além fronteiras. As câmaras também são convocadas para jogging em terras pátrias. Para pateta, pateta e meio.

A reportagem da RTP foi do mais encomiástico que vi nos últimos tempos. O homem chegou cedo. O homem envergava o número um – não é significativo, a provar que estou certo quando lhe atribuo o cognome de timoneiro? Aquela prova era apenas um petisco para o homem, que disse, gabarolas, que não foi esforço por aí além, ele que está habituado a correr “uma hora, uma hora e dez, cerca de dez quilómetros”. Ao passo de corrida juntavam-se intermináveis acenos à populaça espalhada pelas ruas para o aplaudir, com entusiasmo.

Cultos de personalidade provocam-me asco. Este não é excepção. O que me incomoda no homem é o tanto asco que me causa. Ele insinua-se, entranha-se, cerca por todo o lado, com o beneplácito da domesticada comunicação social, veículo do culto de personalidade. Para minha sanidade mental, queria prometer que não voltaria a escrever uma linha sobre nefanda personagem. Temo que não consiga cumprir a promessa. E não é que até nisto sou contagiado pelo timoneiro?

18.1.08

Empresários que mendigam à porta do Estado – ou da adiada emancipação do mercado numa terra empenhada em paternalismos pueris


Advertência: isto não é um texto de efervescência sindicalista contra a classe empresarial. Não me entreguei, qual noivo cegado pela ingenuidade, num enlace com os excitados detractores do “grande capital” em particular e do capitalismo em geral.

Maioridade equaciona responsabilidade. Capacidade para assumir as consequências dos actos. Quando um jovem chega à idade adulta e reclama para si emancipação paternal não pode depois esperar que, nos momentos de aperto, os progenitores apareçam quais figuras sebastiânicas a conferir a tutela aguardada. Os meninos que dançam assim, a descompasso com as suas responsabilidades, não são credores de confiança. É como se tivessem apenas um olho bom e, quando este entra na penumbra, se recusem a olhar as coisas através do olho mau. Ficam à espera que alguém o faça em sua vez. São crescidinhos dentro de uma mente que ainda adolesce.

É a falta de hábito de agirem por si, a falta de hábito de suportarem todas as responsabilidades que a idade maior – e a lei – chamam a si. Se preciso for, é vê-los fautores de uma guerra de gerações inútil, fátua, apenas um exercício de afirmação pessoal diante dos mais velhos de quem exigem carta de alforria. Hostilizam os mais velhos. Não admitem ingerências. Qualquer palpite ou sugestão dos mais velhos é furiosamente atacado: ai daqueles que pisarem a sua coutada. E confundem muitas coisas: sugestões com intromissões; preocupação com zelo intolerável; as interrogações feitas com o leme da sua vida tomado por quem as faz, logo as interrogações proibidas. Ao primeiro contacto com a dureza da realidade, ao primeiro contratempo, recolhem-se chorosos debaixo da asa protectora de quem se querem libertar. Imersos no mais profundo contra-senso. A credibilidade maculada.

Vale para arroubados jovens sabedores da independência acabada de conquistar. Como vale para uma classe empresarial sem nível, campeã dos queixumes, sempre de dedo erguido contra as intromissões do poder político, contra os obstáculos semeados pela burocracia do Estado. Em momentos áureos – quando adivinham as vacas gordas e as ajudas públicas são desprezáveis – denunciam as desajudas do Estado. Que está omnipresente, figura dominante e tutelar da economia. Um entrave aos negócios. Reclamam: se há atraso, as culpas moram alhures, nos trabalhadores preguiçosos e nos sindicalistas malandros, nos ministros que só assinam papeis a preceito com prebendas pelo meio, da inconcebível burocracia que bloqueia em vez de facilitar.

A prova dos nove da mediocridade chega quando as nuvens negras tingem o firmamento. Quando os lucros encolhem, e encolhem tanto que dão lugar aos prejuízos. Convivem mal com a concorrência que vem de fora, esgravatando a retórica dos “interesses nacionais” ao mesmo tempo que estendem a mão em direcção da piedade dos governantes. Conseguem iludir as massas: o “interesse nacional” resume-se ao seu próprio interesse. Portam-se como meninos birrentos que esboçam o beicinho lamechas que aplana terreno para a complacência de quem governa. Nessa altura, esquecem discursos exaltados que reclamam a separação das águas. Já não exigem que o mercado navegue num mar diferente do navegado pelo Estado.

Quando o nó aperta tanto que a asfixia ameaça, já não há mercado que queira viver emancipado dos poderes públicos. Sobra um concubinato estranho entre dois parceiros que se olham como rivais, mas que gostam de estender a mão um ao outro. Um sucedâneo de amor-ódio. Quem exerce a tutela, adora sentir o poder que se reforça quando os vínculos de dependência sobem pela mendicidade penosamente mostrada pelos empresários. Estes, de cada vez que estendem a mão em busca de piedosa esmola, humilham-se na negação dos gloriosos discursos de emancipação quando as vacas eram gordas. Entregam o seu destino na generosidade dos governantes.

Simpatia nula pelos sindicatos. E, todavia, fazem sentido quando em redor gravitam empresários que lutam, com denodo, para se enterrarem no lodaçal da ambiguidade. Dirão que são militantes do pragmatismo. Que os grandes negócios se fazem à mesa da política, com os políticos que efemeramente ocupam sinecuras. Convém agradar aos governantes, sob pena dos negócios irem parar às mãos de rivais. Há quem lhe chame concubinato (se forem mais simpáticos, solta-se o rótulo do pragmatismo); há quem a este comportamento chame uma palavra impronunciável para ouvidos sensíveis ao calão.

17.1.08

Homenagem a Armando Vara


Não me conheces de lado nenhum, Armando Vara. Ainda assim, permite a ousadia de te tratar por tu. Vai assim em sinal de singela homenagem por ti. Pela tua ascensão meteórica. Pela sagacidade, quando te retiraste do meio hediondo da política partidária e foste encontrar refúgio prazenteiro e tão bem remunerado em conselhos de administração de bancos. Tornaste-te banqueiro! És um exemplo para uma das bandeiras da propaganda do teu amigo que, um pouco à tua imagem, ainda hoje estará sem saber ao certo como chegou a primeiro-ministro: as “novas oportunidades” chegam a todos, sem olhar a classe ou habilitações, nem sequer a privilégios de casta (que não seja, obviamente, a certeira filiação partidária – mas essa é uma conversa que convém varrer para debaixo do tapete).

Presto a minha homenagem, Armando Vara. Tu és um saco de porrada de comentadores a eito. Eles põem-se em fila, esfregando as mãos de contentamento para de ti zurzirem. Uns invejosos, é o que são. Eles gostavam de ter acesso às benesses que legitimamente te pertencem, depois de uma carreira que soubeste construir com tanta diligência. Ouves e lês o rol infindável de críticas e permaneces silencioso. Gabo-te a coragem pelo silêncio asceta. Deve ser difícil ler e ouvir a maré de críticas, amiúde enxertadas de ironia depreciativa, e continuar impassível. És de uma coragem olímpica, um exemplo de fair play como não há nesta terrinha de medíocres. De tanta pancadaria que levas e nem um ai esboças.

Os que fazem da crítica à tua pessoa desporto favorito destilam uma pérfida inveja. Eles gostariam de ter tido a tua ascensão meteórica. Muitos enfatizam o que acham ser a sua superior razão: puxam dos galões das habilitações académicas superiores às tuas e choram-se pelos cantos, um queixume infindável, que só os rapazes com cartão de militante do partido certo é que vingam, sem lugar ao mérito. Estão enganados. Se subiste tão alto, vindo do quase rés-do-chão do banco onde sempre trabalhaste, é porque algum mérito hás-de ter. O que os teus críticos não conseguem perceber é que o mundo de hoje está feito para os espertos. Aos inteligentes, resta o conforto interior – e anódino – de uma inteligência sem serventia.

É isso que eles não percebem: que hoje vingam os que têm espírito pragmático. Tu és campeão do pragmatismo contemporâneo. O pragmatismo que sagra a esperteza, pois a inteligência acantona-se em elucubrações estéreis que enchem páginas de ensaios sem aproveitamento digno. Tu és um exemplo da acção com proveitos inestimáveis. Um paradigma que a universidade mais importante é a escola da vida, a espessura da experiência adquirida. Com todo o valor que se exige reconhecer aos que subiram a pulso, desde o nada até ao púlpito de onde são tão invejados. E o despeito é tanto que até desconfiam da tua licenciatura, sem perceberem que há mesmo coincidências notáveis como essa da data da carta de licenciatura ser a antevéspera da nomeação para o conselho de administração do banco público.

Chamam-te “fura-bolos”; dizem que só conseguiste chegar tão alto por causa da teia de conhecimentos privilegiados que foste angariando ao longo da carreira partidária; que não tens valor intelectual para ocupar lugar entre a nata dos banqueiros; agora criticam-te porque mudaste do banco do Estado para o banco dos socialistas. É tudo infundado. És um incompreendido. Em todas as críticas, o acessório precede o essencial. Esquecem que foram os accionistas do banco outrora dominado pela Opus Dei e agora socialista que te escolheram por esmagadora maioria. Esse é o opróbrio maior que recai sobre os teus críticos: o estigma antidemocrático. Só uma fantasiosa teoria da conspiração há-de concluir que os accionistas privados são dominados pela máquina socialista e do governo. Não se convence esta gente que o mundo não é um alfobre de conspirações?

Tinha que deixar esta carta aberta em jeito de homenagem à tua pessoa. Quem não gostaria de receber o teu salário (vais ganhar os três milhões de euros anuais que os teus antecessores auferiram em 2006?)? Quem não gostaria de ter sido encostado ao canto dourado da administração de bancos, depois do mediatismo tão desagradável a que se expõe um secretário de Estado envolvido em trafulhices várias? O que os teus críticos não percebem (incapacidade de discernimento a que és alheio) é que foste premiado com uma sinecura de tanto poder discreto e tão generosos proventos depois da passagem desastrosa pelo governo do amigo Guterres. As lealdades têm um preço a pagar no futuro – eis a explicação.

O teu exemplar percurso fala por si mesmo. Não obstante, hás-de ficar nos anais da historiografia política desta república como um caso de estudo. O exemplo que leva muita gente, carreiristas de primeira água, ao oportunismo da filiação partidária. E a sonhar que algum dia hão-de ser os novos, futuros e ladinos Armandos Varas. Eu, humilde e desacertado com a clepsidra que compassa o andamento, sei que quero ser o contrário de tudo o que representas. É a melhor homenagem que te posso prestar.

16.1.08

O homem que foi à pesca de cobre


Um estrondo, medonho. Logo a seguir ao estrépito a luz foi abaixo. Espreitei pela janela a movimentação das pessoas, assustadas pelo troar que parecia a deflagração de uma bomba. Saí à rua, em direcção do ajuntamento que se formara à porta da estação da EDP, mesmo ali ao lado. As pessoas perguntavam-se o que teria acontecido. Começavam a surgir notícias via telemóvel: a alguma distância dali também tinha falhado a energia. Em redor era vasta a área que tinha ficado sem luz – saber-se-ia mais tarde.

De repente surge um homem, ensanguentado e célere. Tinha pulado a rede que protege a estação da EDP de intrusos. As pessoas estavam surpresas: o homem saía das instalações da EDP, em passo acelerado, tão acelerado quanto permitia a perna que mancava. O seu rosto misturava fuligem com vestígios de sangue que escorriam da cabeça. Percebendo que toda a gente olhava em sua direcção, o homem acelerou o passo. Alguém lhe perguntava se estava bem. Esboçou uma resposta imperceptível, um grunhido qualquer à medida que atravessava o ajuntamento. Só tivemos tempo para ver o homem a cambalear nos seus ferimentos, carregando um escadote de metal todo fragmentado e uma caixa de ferramentas.

Alguém, com mais conhecimentos, juntou os ingredientes. Aquele homem tinha causado o estrondo assustador. Ele tinha entrado à socapa na estação da EDP para roubar cobre. Operação arriscada – comentava o entendido. Teve que se dependurar num escadote e furtar o cobre alojado nas torres que transformam a alta tensão em electricidade que os lares podem consumir. Um gesto em falso, ou a inépcia do homem, e o fracasso do roubo.

O homem teve azar. E talvez não, alvitrava o popular entendido no assunto: quem ali entrou preparado para roubar cobre correu perigo de vida. A operação podia saldar-se com a electrocussão do homem. Sair a mancar, com alguns arranhões e uns traços de fuligem que custariam a lavar, o escadote de metal despedaçado e as mãos a abanar, eis a sorte do homem por entre a fracassada operação de furto.

A polícia, com a diligência habitual, apareceu dez minutos depois de termos ficado às escuras. Demorou dez minutos a percorrer cerca de trezentos metros – a distância entre o local e a esquadra mais próxima. Os agentes, nada apressados, confirmaram que já não era a primeira vez que a estação da EDP era assaltada. Das outras vezes, o cobre não tinha sido furtado à luz do dia. E das outras vezes, os roubos com sucesso, um acto profissional. Em conversa com os populares, já indignados – e não com a anterior comiseração pelo desgraçado imerso em fuligem e sangue –, os polícias disseram que por todo o país são frequentes os assaltos a estações da EDP. O cobre tem algum valor e é fácil de roubar, para quem o souber fazer. Não é arte para principiantes. Aquele homem de meia-idade e, percebia-se pelos andrajos, de origem humilde, estaria ainda no tirocínio da arte de furtar cobre nas estações da EDP.

Naquele dia aprendi que há quem ponha a vida em perigo para roubar uns fios de cobre e vendê-los ao desbarato. Só não percebi quem faz as vezes da procura neste mercado subterrâneo. Ninguém o perguntou ao polícia que estava mais interessado em responder às perguntas das pessoas do que em fazer delas testemunhas da “ocorrência”. É sintomático o cenário que desfilou diante dos meus olhos. Como há gente que tudo arrisca na ânsia de arrecadar um pedaço de cobre que lhe valerá uns míseros dinheiros. A lógica do crime anda de braço dado com o risco, em doses variáveis. E com uma ética distorcida (ou uma falta de ética, apenas). Não consigo reprimir a perplexidade quando são descobertas pessoas que arriscam tanto por tão pouco. Será o desespero que as leva pelos meandros da criminalidade, a urgência em arrecadar fontes de subsistência através de métodos duvidosos, ilegais. Ou apenas a preguiça dos que lêem na criminalidade a fonte de rendimentos fáceis, e todavia arriscados.

Haverá, em tudo isto, o miserabilismo da gente que nem percebe como uns parcos dinheiros do pequeno furto podem trazer graves danos corporais, ou até a morte. Pus-me a pensar: aquele homem teve discernimento para medir o risco que corria por tão pouco? Chegaria, sequer, a ter discernimento para alcançar aquele discernimento?

15.1.08

“O sonho de Cassandra” (de Woody Allen)


Os filmes de Woody Allen mudaram. Já não são exercícios de humor sublime, sarcástico, desarmante. Woody Allen remeteu-se ao papel de realizador, desaparecendo do elenco de actores dos seus filmes. E parece rendido à velha Albion. Os últimos filmes – “O sonho de Cassandra”, “Scoop” e “Match Point” – são filmados em Inglaterra, recorrendo a imagens que percorrem a Inglaterra típica: paisagens verdejantes, palácios sumptuosos, ou Londres cosmopolita. Uma dramaturgia que se afasta do sentido de humor que distinguiu Woody Allen: as relações humanas na sua complexa contemporaneidade, aqui e ali deixando vir à superfície a banalidade burguesa. E depois há uma insólita moralidade a preencher os derradeiros filmes.

Em “O sonho de Cassandra” Woody Allen retoma essa surpreendente mensagem moral. Porventura até uma antítese da ética que obedeça aos cânones da legalidade e da convivência pacífica em sociedade. O filme narra as desventuras de dois irmãos. Um deles teve, pela vida fora, aventuras financeiramente mal sucedidas. O outro, viciado em jogo, álcool e codeína, alternava a sorte ao jogo com rombos que o deixavam com os agiotas à perna. A salvação dos irmãos, em horas de aperto, sempre fora um tio milionário que era dono de clínicas de cirurgia plástica na China e nos Estados Unidos.

Numa visita do tio bem-sucedido, os irmãos preparam-se para mendigar outra generosa ajuda. Um está convencido a enterrar dinheiro em empreendimentos hoteleiros na Califórnia, caindo no logro de um investidor fantasma que se há-de evaporar assim que vir a cor do dinheiro. O outro está a braços com mais uma dívida de jogo, desta vez uma dívida assustadora. O tio ouve-os pacientemente. Desta vez a ajuda tem uma contrapartida. É o tio que está aflito. Confessa que a fortuna que amealhou nem sempre respeitou a lei. E teme por uma auditoria que se avizinha. Admite que a descoberta de podres nos seus negócios o levará por muitos anos à cadeia.

É então que entra a ajuda dos irmãos. Há um membro do conselho de administração das empresas do tio que está disposto a contar tudo o que sabe. O tio sente-se refém deste homem. Só vê uma possibilidade de resolver o problema: liquidar o homem que lhe faz frente. Para não ficar refém de outros – por isso não equaciona a contratação de assassinos profissionais –, convoca a lealdade familiar. Escolheu os sobrinhos para a tarefa. Chegara a hora dos sobrinhos retribuírem todos os favores que o tio lhes fizera para trás. A factura é a encomenda apresentada pelo tio, a morte do homem que o ameaçava levar à prisão.

Os irmãos ficam incrédulos. Primeiro, com a desonestidade que o tio confessa, eles que sempre viram no tio um modelo de virtudes (quem sabe, apenas porque era o sustento nas horas de aperto). Depois, o tio não hesitara em pedir-lhes algo que mexia com as suas convicções. A primeira reacção é a de impossibilidade de tirar a vida a outra pessoa. Depois são tomados pela vertigem das vantagens materiais. O tio prometera uma compensação generosa, ainda mais generosa do que em vezes anteriores. Nervosos e amadores, esboçam o plano do assassinato. No fim de várias hesitações patéticas, conseguem matar o homem que ensombrava o tio.

O dia seguinte é de fantasmas. Um deles não consegue dormir. O outro acorda sobressaltado por um pesadelo. Com a passagem dos dias, o primeiro vai apaziguando a consciência, excitado com as possibilidades de sucesso que se perfilam. O outro mergulha numa depressão profunda, a cada dia mais arrependido com o acto cometido. Mergulha na bebida e nos comprimidos e regressa ao deus que outrora renegara. Um certo dia, confessa ao irmão que se vai entregar à polícia. O irmão fica assustado, temendo que a polícia chegue até à sua co-autoria do crime. Decide contar ao tio, que fica contagiado pelo pânico. Não demora a elaborar um plano de contingência: um irmão tem que silenciar o outro, silenciar para sempre. O irmão, depois da incredulidade inicial, resigna-se. Planeia o acto, no barco que ambos compraram meses antes, baptizado “sonho de Cassandra”. No momento em que preparava um cocktail de comprimidos e cerveja para liquidar o irmão tomado pelos remorsos, é incapaz de levar até ao fim o envenenamento. Furioso, dispara acusações contra o irmão remoído pelo remorso. Lutam. Aquele que ia matar acaba por ser morto, numa queda que lhe fractura o crânio. O outro, desesperado, afoga-se.

A rir-se, fica o tio sem escrúpulos. Até se adivinha que apenas quis afastar do caminho um homem que lhe fazia sombra nas empresas, que toda a história contada era o pretexto para o afastar sem o demitir. Usou os ingénuos sobrinhos, que fizeram o serviço e acabaram, com a fratricida luta, por apagar o rasto da responsabilidade do tio. A surpreendente mensagem é a antítese da moralidade. O crime, compensa. Vingou a maquiavélica personagem que teve arte de congeminar um plano perfeito. Endossou a responsabilidade para os sobrinhos inebriados pela soberba. E depois jogou com os seus remorsos para os limpar do mapa. Varrendo todos os vestígios da sua responsabilidade no homicídio, ele que havia sido o mandante.

Razão tinha um dos irmãos, quando discutiam num momento de dúvida existencial do outro: a maior parte dos crimes fica por resolver.

14.1.08

Da erudição esmagadora


Mentes brilhantes. De uma refulgência ímpar. Passeiam dotes intelectuais com indisfarçável vaidade. De umas vezes, ostentatória. De outras vezes, sublime – o que é mais irritante, ainda. Esmagam-nos com a sua erudição que vai quase até aos limites do infinito. Elevam-se aos píncaros da maioridade intelectual, um lugar reservado aos eleitos com dotes dir-se-ia sobre-humanos (quando a inteligência é contabilizada). Devem adorar concursos de coeficiente intelectual.

E, todavia, esta erudição dá uns passos em falso. Ela tropeça nos seus passos. Os excitados espécimes da inteligência esmagadora não se cansam de exercitar uma inteligência pérfida. Esfregam-na na face dos outros, reduzidos à sua insignificante condição de vassalos das elites que levitam na áurea dos eruditos. Fazem gala da sua inigualável inteligência em frases assassinas, só decifradas depois da enésima leitura. E resguardam-se na ambiguidade das palavras cifradas que escrevem ou dizem. Em sua defesa, argumentam que não há segundo sentido nas palavras proferidas. Só que as palavras codificadas encerram a sua própria ambiguidade, os múltiplos sentidos com que podem ser lidas. A erudição servida no prato dourado, de braço dado com a ausente frontalidade.

Há nesta esmerada erudição um totalitarismo recalcado. Os sacerdotes da inteligência esmagadora empurram os outros, os pobres de espírito, contra a parede da sua reduzida expressão intelectual. É uma batalha de intelectos. Os que são desprovidos de especiais atributos de massa cinzenta sofrem derrotas humilhantes, vergados perante a inteligência que esmaga, como se esmaga um incómodo insecto. É: uma erudição insecticida.

A retórica ambígua, com muito palavreado cheio de significados múltiplos – ou não fosse esta ambiguidade traço da mais elevada inteligência – mistura-se com um refinado sentido de humor. Que, contudo, é humor de sentido único, em círculo fechado, tem remetente e destinatário na mesma pessoa. Percebe-se o esboço de humor refinado, que não passa de esboço disso mesmo. Em abono da verdade, deve ser refinado este acto de humor: só as limitadas capacidades dos que vegetam na rasteira intelectualidade impedem a percepção do exercício humorístico. Para os pobres de espírito, aquele humor refinado pertence ao domínio do ininteligível: olham para os arautos da esmagadora erudição quando soltam as pérolas humorísticas e contemplam-nos nas golfadas de riso abastado que soltam no instante imediato ao chiste disparado com intempestiva arte.

Há uma forma mordaz de os tratar: “adiantados mentais”. Andam à frente dos outros, uma verdadeira vanguarda que, sabendo-se possuída dessa condição, esfrega-a no rosto dos incautos que sucumbem vergados ao peso da sua enorme sabedoria. Quando ostentam as suas capacidades com as pinças sublimes, são mestres da dissimulação. Têm garbo em ser tão sublimes com a sua incomparável erudição. É quando mais esmagam os outros, quando mais se distingue no firmamento a sua elevada inteligência. Os tentáculos da ambiguidade que cercam as vítimas da sua inteligência, da inteligência aterradora. É quando se adiciona um ingrediente fatal: o cinismo, como se fosse refúgio onde se espelham as mentes brilhantes.

É como adiantados mentais que perseguem as vítimas que aparecem pelo caminho. Orgulham-se da condição de campeões da intelectualidade, através da qual vingam no campeonato da força da razão – que o seu estatuto intelectual permite e cauciona como incontestável porta onde se abriga a verdade e a razão que professam, elas tão incontestáveis com a sua superioridade intelectual.

A vaidade sublime é notória. Lá do alto do pedestal onde se colocam, olhando com soberba para os pobres de espírito, desfilam a envaidecida erudição. Fazem lembrar a história infantil em que uma bruxa inquiria o seu espelho, observando-se nele, impante. Estes peregrinos do escol da intelectualidade também se olham a um espelho fictício de cada vez que exercitam a esmagadora inteligência contra os outros. E perguntam, febris nas suas convicções: “espelho meu, espelho meu: há alguém mais inteligente que eu?