4.4.08

Um corpo estranho dentro de nós?


Os espelhos são a caução da ilusão do corpo. Será variável o tempo que demoramos à frente dos espelhos. Não é uma questão de narcisismo, que haverá decerto quem se deleite consigo mesmo à frente do espelho, numa contemplação de inigualável auto-amor. Mas haverá um único dia em que não nos olhemos ao espelho? À saída do banho matinal, ao fazer a barba, no singelo acto de lavar as mãos que desvia os olhos no irreprimível acto de fitar o espelho.

Julgamos conhecer o rosto, todos os seus poros, as rugas que se adensam com a espessura do tempo. Julgamos ter conhecimento perfeito do corpo que envergamos. Dos gestos, o património genético da personalidade que foi sendo feita. Julgamos conhecer a voz que escutamos de cada vez que ecoam palavras da boca. Tudo se atraiçoa nas imagens que vemos de nós mesmos. Imagens filmadas, ou retratadas em fotografias, a voz numa qualquer gravação. É nessa altura que o corpo desfila como um corpo estranho. A primeira reacção é a de conhecer todos em redor menos a nossa pessoa. Um estranho. Surgem as interrogações: aquele sou eu? Aquela é a minha voz? Aqueles são os meus gestos?

Os gestos desajeitados, os gestos que deviam ser mais discretos. O envelhecimento, que só essas imagens – filmadas ou fotografadas – desnuda. Altura para uma súbita cólera contra os espelhos, pois eles só expõem um simulacro do corpo que temos em nós. Os espelhos oferecem-se como um filtro que compõe a imagem que depois aparece sem ardis quando o corpo desfila em fotografias ou imagens. Uma sensação indizível: parece que as câmaras que retratam e filmam são uma ressonância do corpo diferente do revelado pelos espelhos mais familiares. Indizível, porque ao cabo das vezes que retratos ou filmes mostram o corpo sobra a estranha sensação de que somos um corpo diferente.

É esta a explicação para o desconforto com os filmes amadores e as fotografias onde aparece o corpo? Digo que as fotografias e os filmes rememoram o passado já enquitasdo. E que a nostalgia do tempo emoldurado é uma inutilidade, uma ilusão que distorce os sentidos, como se houvesse a arte mágica de trazer do passado o tempo que não se repete. Digo que as fotografias são um refúgio absurdo nas memórias. Só não sei se não é pretexto para não olhar para o corpo, pelo incómodo na confrontação com o corpo que parece o corpo mais estranho de todos os que dão cor às imagens.

A exaltação da estranheza acontece com a voz. Terão sido poucas as vezes que ouvi a voz sem estar a falar. Uma sensação invulgar. Contraria a impressão auditiva da voz, tão habituado a todos os dias proferir as palavras que saem com a entoação da voz que julgo ser a minha. Só que a voz que ouço não a faço coincidir com as palavras entoadas por mim. Esta insólita sensação tive-a nas poucas vezes que escutei as minhas palavras sem ver imagens do rosto, da boca a entoá-las. A sensação imediata, a de não me reconhecer naquela voz. O prolongamento do corpo estranho que sinto nas imagens filmadas ou fotografadas.

Seremos estranhos de nós mesmos? Concedo: importa mais sermos íntimos com a nossa intimidade, capazes de discernir os traços de personalidade que se sedimentaram com o tempo. O corpo e as suas manifestações exteriores são isso apenas, uma imagem que se esgota na sua fina camada. Os tempos modernos são cultores da imagem exteriorizada, na desvalorização da espessura dos elementos intangíveis que são a essência de cada um. Ainda assim, o corpo é o que nos move. Quem se sente confortável num corpo pesado, quem se compraz com um corpo que seja a negação dos seus padrões estéticos? E quando a refracção das imagens do corpo mostra um corpo desconhecido, uma voz que é diferente da que escutamos de cada vez que da boca se soltam palavras, sobra a sensação de que somos um corpo diferente daquele que julgamos envergar.

A perplexidade ao sentir que um estranho habita dentro de nós. A alturas tantas, até parece que conhecemos melhor os que nos são próximos do que nós mesmos. A câmara de espelhos que é a visão desdobra-se para o exterior de nós mesmos, captura o que os outros são. É incapaz de o fazer com o corpo que é o nosso. Só o faz com a ajuda dos espelhos que, na confrontação com os retratos ou filmes, deixam à mostra um encadeamento de ilusórias imagens. Para perceber então que o corpo nos é estranho.

3.4.08

E por que não garantir às criancinhas o direito de voto?


Lá está: o vanguardismo a que me referia no texto de ontem. Ou o “eduquês” em todo o seu esplendor. Ou apenas a bebedeira legislativa que se apodera dos engenheiros sociais que nos agraciam com a sua iluminada presença. Ou tudo isto, por junto. Ao ter tomado conhecimento da fantástica lei 23/2006, de 23 de Junho, através da crónica de Santana Castilho na edição de ontem do Público. Peço emprestado um trecho dessa crónica para se aquilatar a avançada descoberta dos pedagogos que habitam no ministério da educação:

(…) um grupo de jovens de seis anos de idade, seis, pode constituir-se em associação de estudantes. Se o fizer, tem direito a apoio financeiro, técnico, formativo e logístico por parte do Estado. Tem direito a tempo de antena no serviço público de rádio e de televisão. O Estado deverá remeter a esse grupo de jovens todos os projectos de actos legislativos que se refiram à definição, planeamento e financiamento do sistema educativo, à gestão das escolas, ao acesso ao ensino superior, à acção social escolar e aos planos de estudos, reestruturação e criação de novos agrupamentos e áreas curriculares ou disciplinas, para que eles emitam sobre o mesmo o seu parecer. Para além da audição obrigatória por parte do Estado, como referido, estes jovens de seis anos ainda têm o direito de ser consultados pelos órgãos de gestão das escolas que frequentem, quanto às seguintes matérias: projecto educativo da escola; regulamentos internos; planos de actividades e orçamento; projectos de combate ao insucesso escolar; avaliação; acção social escolar; organização de actividades de complemento curricular e do desporto escolar.

Portanto: os inefáveis socialistas que tomaram as rédeas do poder acreditam que criancinhas com seis anos tenham dotes extemporâneos que permitam fazer o que poucos de idade bem mais avançada conseguem com lucidez. Está-se mesmo a imaginar o nascimento, com a exponencial proporção do nascimento de cogumelos, de associações de estudantes de petizada imberbe. Está-se mesmo a imaginar um grupo de petizes a ter a iniciativa de formar uma associação de estudantes lá na escola que começaram a frequentar. Estes pedagogos pecam por optimismo: hão-de acreditar que os sobredotados pululam de norte a sul, numa antecipação do país fantástico que haveremos de ser quando esta gesta de sobredotados crescer e for a sua vez de se banquetear com o poder.

Regresso à revelação da lei pelas palavras de Santana Castilho. Tanta coisa a que as activistas criancinhas têm direito: é tempo de antena, é dinheiro público para se governarem, é o dever de serem consultados em leis que lhes digam respeito, o dever dos órgãos de gestão da escola os chamarem a participar em decisões importantes para a vida da escola. É por isso que proponho aqui a extensão natural desta lei tão vanguardista: o direito de voto aos petizes de, pelo menos, seis anos. Não faz sentido tanta latitude de direitos escolares e depois ser-lhes negado o direito de voto. É de uma incongruência fatal para a visão desassombrada dos pedagogos que andam sempre três passos à frente dos demais.

O que é espantoso é alguém acreditar, no seu bom juízo, que criancinhas de tão tenra idade tenham discernimento para tanta coisa prevista naquela lei. Até ia mais atrás no processo: sequer terão iniciativa para se constituírem em associação de estudantes, quanto mais interesse em se envolverem na governação da escola e em participarem, com pareceres, na política educativa da nação. Se mal sabem escrever, como poderão dar pareceres? Se isto não é optimismo excessivo dos pedagogos, o que será? Um mundo imaginário, habitado por mentes tão brilhantes, porventura a descoberta do caminho que haveremos de trilhar num futuro não muito distante. Quem sabe se, a prazo – mas em que prazo? – a espécie humana evoluirá de tal maneira que petizes de seis anos terão interesse e capacidade para fazer tudo aquilo que, em jeito premonitório, a lei 23/2006 hoje já prevê.Eu diria, parafraseando o astronauta que pisou a lua: um passo gigantesco para a humanidade, esta lei. Se aterrarmos do voo da fantasia consegue-se perceber o assassinato de carácter das criancinhas de seis anos: digam os especialistas em “ciências da educação”, com a ajuda de psicólogos, se dos petizes de seis anos o que se espera é que brinquem, e muito, e não abracem burocráticas tarefas que os tornam adultos antes do tempo.

Ou, parafraseando o conhecido slogan da monopolista empresa de telecomunicações, “há coisas fantásticas, não há?” Tenho as minhas suspeitas: que lá pelo edifício onde se congeminam estas avançadíssimas soluções tecidas pelos pedagogos, muito vinho jorra à hora do almoço. Se, contudo, os “pedabobos” forem abstémicas criaturas, só resta uma interpretação: temos “eduquês” a mais. O “eduquês” é um cancro que corrói a paixão de tantos políticos e asfixia a fonte de emancipação da sociedade civil, remetida, geração após geração, à condição de cobaia destes experimentalistas.

Pudessem os “pedabobos” ser remetidos a uma torre de marfim onde simulassem as suas extravagantes experiências, sem obrigarem crianças de carne e osso a serem submetidas a essas experiências, e a educação começava a endireitar-se. Será esse o segredo: tirar os “pedabobos” da educação?

2.4.08

Do novo-riquismo


Um estranho caso de amor e desamor: os patos bravos, vindicando o arrivismo social, alvos da maior chacota dos barões estabelecidos. No entanto, os ventos da democracia, que exalam o imperativo do igualitarismo, acolhem os novos-ricos no palco do estrelato. Para, logo de seguida, serem os cultores do igualitarismo a produzir assertivas peças de sabedoria que desconjuntam os patos bravos que conseguiram soerguer a cabeça por entre a miséria material.

Mas os novos-ricos não pertencem apenas ao domínio do material. Não são apenas construtores civis que souberam manter toda a boçalidade do berço à medida que iam enriquecendo a conta bancária. Não são apenas os arrivistas sociais, aqueles que esticam o pescoço na ânsia de aparecer nas fotografias em revistas cor-de-rosa. Há novos-ricos intelectuais, às vezes apenas intelectuais desprendidos de qualquer laivo de materialidade. Umas vezes mostram o novo-riquismo através de sinais bafientos que pedem emprestados às instituições ancestrais, não percebendo a falta de sintonia entre os tempos que andam descompassados. Outras vezes o novo-riquismo é das ideias, embrulhadas num celofane que ostenta o aroma do vanguardismo.

A tentação fácil é criticar os novos-ricos que vieram do nada e alardeiam sinais de riqueza de mão dada com uma tremenda falta de gosto. O problema é que algumas vezes o dedo em riste e a chacota irreprimível são pretexto para engomar a inveja indisfarçável. Não a inveja pela estética duvidosa que os patos bravos passeiam, atirando as provas de uma vida bem-sucedida no plano material contra a cara dos demais. É inveja pelo estatuto atingido, que autoriza a ostentação dos sinais exteriores de riqueza. Talvez por isso a crítica é tão feroz e satírica contra os arrivistas sem berço financeiro que amesendam nas grandes negociatas.

Descontando a gritante falta de gosto, de permeio com a boçalidade que fortuna alguma consegue apagar vestígio, não me chocam estes novos-ricos. Os mesmos esquerdistas empedernidos que asseguram a necessidade do igualitarismo engatilham numa insanável contradição quando figuram na linha da frente das denúncias. Assim como assim, todos têm direito a enriquecer. E a desfilar sinais exteriores dessa riqueza, sem interessar se exibem uma estética boa ou uma estética lamentável. É nesta altura que, a coberto do seu implacável juízo, os esquerdistas militantes e os da direita de berço e tacanhamente conservadora esboçam dúvidas sobre a origem da fortuna. Interrogam a licitude das actividades dos patos bravos. Debatem-se sobre a ética dos negócios de onde jorrou tanta abastança. Esquecem-se que os tribunais é que existem para tirar essas conclusões.

Não me atormentam esses patos bravos que arrastam atrás de si um cortejo de parolices. Antes pelo contrário: são a prova de como o rasgo vinga e traz mais bem-estar. A democratização da abundância material, não restrita a uma casta que se encapsula numa concha impenetrável. Com proveitos intangíveis para quem está em redor destes novos protagonistas: é sempre agradável dar de caras com bobos da corte, as provas vivas do oposto do que somos. São lições vivas que exigem estudo atento. Servem para recordar, se falta fizesse, que há passos evitáveis, toda uma estética que é a sua própria antítese.

O que me inquietam são as manifestações grosseiras de arrivismo intelectual. São os novos-ricos que copiam sinais emoldurados em instituições antigas, sem notarem que a idade jovem das suas instituições não se compadece com a imitação forçada. É como se fosse dado a um ancião experimentar a coreografia de um rap. Ou a tremenda inteligência, a incontestável sabedoria dos fautores do vanguardismo intelectual, que vomitam uma sabedoria pesporrente contra a (suposta) menoridade intelectual de quem se lhes oponha. Generosos, predispõem-se a ensinar a doutrina certa aos desvalidos. Para acentuar a sobranceria, afinal sinal inequívoco do seu novo-riquismo intelectual.

Contra os novos-riquismos deste jaez, apetece figurar no lado oposto da barricada. Ignorar rituais que são uma cópia confrangedora e descontextualizada de outros lugares, uma desordem tão evidente. Recusar ser cúmplice do embuste. Como apetece ser subitamente conservador (mau grado a genética recusa em o ser), só por antinomia da prepotência dos arrivistas intelectuais que passeiam a sua superioridade tão incontestável.

Por uma vez de acordo com os apóstolos da catástrofe que não se cansam em acusar a deriva materialista da sociedade do consumo: porventura é por sermos tão adoradores dos sinais que ostentam materialidade que nem sequer damos conta que o mais perigoso novo-riquismo não é o dos patos bravos que vieram do nada e fizeram tanta fortuna.

1.4.08

Defenestrar


Fomos sempre lunáticos...lunáticos do passado e lunáticos do futuro. Não há nenhum país que esteja quatrocentos anos à espera que um rei reapareça. Não existe! E depois aparece um borra-botas: é ele! Trezentos anos depois! Isto é fantástico, isto é bonito até. Um povo menino, um povo criança, não é? Mas depois não dá para ser país. Como a Alemanha. Não dá. E querem que sejamos, querem-nos...a CEE quer isso, que sejamos... que cresçamos.” Mário Cesariny

Eternamente céptico quanto às capacidades pátrias? Nem que corra o risco de prosseguir na senda de um discurso cansativo. Cansativo, porque insiste em apregoar as desgraças lusas, num taciturno exercício que deixa o travo amargo de não descobrir entre a penumbra qualquer saída airosa. E cansativo, na exacta medida de sublinhar a tacanha portugalidade sem propor alternativa que cure as maleitas que afocinham numa vegetativa existência.

O pior é que nem devia existir exegese nacional. O que fazer com um corpo inerte, embrulhado numa doença teimosamente terminal e que, todavia, resiste a deitar-se na sua forma cadavérica? É por isso que insisto na ideia da vida vegetativa. Por aqui tudo se adia. Até o acto final. E Cesariny tem razão: se olhamos para trás, parecemos aprisionados, como povo – se é que há um devir comum caucionado por esta suposta existência colectiva, o que dava pano para mangas –, ao cutelo da História. A esquizofrenia que ainda nos atormenta: como podemos caber na pequenez a que fomos acantonados quando outrora houve impérios só para nós?

Cesariny está certo: somos pateticamente esperançosos. O sebastianismo é uma fábula (se uma fábula for considerada uma narrativa protagonizada por um ser inanimado). A descrença em nós e o cepticismo diante dos dias presentes alimentam a adoração por uma divindade qualquer que há-de chegar algures do passado. Quando a névoa se dissipar e a claridade for ungida pelo salvador em forma de semideus. Pergunto-me se não está explicado por que insondável mistério a palavra saudade não se traduz noutros idiomas. A nostalgia de uma imaginária personagem prende-nos ao futuro esperançoso. Uma infantil ligação entre o passado tão distante, de onde há-de ressurgir do túmulo a figura salvífica, e o futuro aspergido pela sua bondade. Só que o amanhã tarda em chegar.

Volto atrás: que interessa planar sobre as desgraças pátrias? Que interessa olhar para a pátria, sequer? Os que vivem atormentados pelo “país” esquecem-se da sua vidinha própria, tantas vezes os males de si que são coisa mais grave que o inditoso país. Não aprendemos. Contra mim falo, que distraidamente erro pelas mesmas ruelas da divagação como ente colectivo: por mais que me intriguem os ensaios de ensimesmamento colectivo, tentando fumigar a nação para do exercício sobrar um lugar mais aprazível para viver, a simples anotação do fenómeno atraiçoa a minha coerência. Não quero saber da poda – chame-se-lhe país, pátria, nação, ou o nome próprio. Haverá milagrosa solução para a doença? Que nos entregássemos nas delícias de uma apátrida condição.

Houvesse convicção da maioridade pessoal e, em vez do tempo desgastado em inúteis elucubrações sobre o devir nacional, cada um tratava da sua vida. Ao contrário, curamos da vida do “país”, como se o “país” tomasse conta da vida de cada um de nós. É esta a infantilidade sublime que nos agrilhoa a existência. Oxalá soubéssemos defenestrar o “país”. Tomara que a partitura que rege a orquestra fosse escrita pelas imensas mãos dos operários que fazem todos os dias o milagre invisível que move o paquiderme. Não interessa a partitura prodigiosa dos sucedâneos de D. Sebastião que se nos prometem com a passagem do tempo. Os predestinados acabam por fracassar, tantas as expectativas que se encavalitam na sua pesada existência. É dessa ingenuidade que padecemos: empenhados em selar uma inexplicável esperança no tempo ausente, na demissão de nós mesmos. Os problemas são atirados para a responsabilidade alheia, de uma entidade que, por se acreditar que seja salvífica, ganha tonalidades divinas.

Na sua incrível lucidez, Cesariny fez o photomaton da portugalidade: somos uns lunáticos, é certo. O futuro, eternamente adiado, uma promessa que goteja sempre sobre as bocas, adoçando-as. Uma miragem, só isso. Pretexto para iludir as cores baças emprestadas pelo presente que se perpetua. Até ao futuro que nunca mais chega, sobra a infantilidade congénita. Uma imberbe forma de ser. Enquanto não houve ciência, ou vontade, para defenestrar o maldito país que é alçapão de cada um de nós.

31.3.08

A opulência dos rituais


Solenidade em ponto de rebuçado. A gravidade do momento. Sagração de pertenças, um espírito colectivo acentuado no primor das fardamentas que encerram a solenidade. Os rituais selam o momento mais alto de uma pertença. O cimento da pertença. Há um cortejo de sacerdotes que ostentam a farpela e passeiam a superioridade da casta.

Na ostentação de vaidades ao longo da passeata dos curas apessoados, uns entregam-se à causa, exaltam a pertença. A fatiota aprumada, a gravidade do momento, a solenidade feérica gravam para a eternidade os sedimentos que emprestam todas as pedras que constroem o edifício. Uma a uma, cortejo a cortejo, sempre no empenhamento do solene momento, enquistando a construção colectiva. E arregimentando as fidelidades que a pertença exige. Para outros, o ritual é o zénite de um percurso pessoal. A passadeira vermelha por onde lhes é dada a regalia de voluptuosamente arrastarem os pés, trajados a rigor e de nariz empinado, é a autocontemplação da grandeza pessoal. Um ritual que faz as vezes do espelho onde se fitam em toda a sua altivez. Asseguram-se lugar no cortejo dos aperaltados confrades para certificarem que há lugar garantido ao seu pungente trajecto.

No majestoso cortejo sente-se um odor ancestral. Entoam-se palavras em latim, agravando o pomposo da ocasião. Os confrades, irmanados pela fulgurante pertença à casta dos privilegiados. Não só a pertença é vangloriada em tão solene marco. Ostentação de classe também, fazendo lembrar áureos tempos de nobres e clero como sonho inacessível aos demais. Vestígios de um passado que se julgava encerrado nas catacumbas do tempo. Perduram no presente, trazendo de outrora o odor bafiento que revolve na tumba marxistas seguidores.

Na sagração do momento, ao longo do desfile passeiam-se os sinais da casta e empunha-se o orgulho da pertença à instituição. Castrense ou religiosa, ou afim. Sinais que mobilizam um sentimento de pertença. Como se fossem lenitivos episódicos que renovam a vontade de empenhar pessoas pela causa, não vá cair em desuso a pertença e esboroarem-se os alicerces da instituição. Os rituais servem para cimentar esses sedimentos. Entronizam-se rituais numa opulência onírica, como se ali houvesse um conto de fadas servido pelas sinetas que chamam para o cortejo, o som grave das trompetas emprestando as cores marciais ao momento, as palavras sábias que pontuam discursos que coroam o imponente momento.

E, contudo, a majestosa exibição esconde a sumptuosidade que embrulha os sentimentos dos confrades. Uma opulência que se entrega na fina casca das aparências, um longo bocejo que é vigília da opacidade impante. As vaidades corporizam as fatiotas aprumadas, como se os trajes tão solenes emprestassem aos corpos a sua magnificência. Como se aqueles trajes representassem a caução da grandeza dos confrades, ou para eles a prova do trajecto imponente que esbarra contra a pequenez dos que ficam de fora, a assistir.

Os rituais são encenados ao pormenor, todos os passos estudados sem deixar detalhes ao acaso, em todos os instantes uma significação eivada de simbolismo. Rituais e símbolos. Mas apenas símbolos, na linguagem cifrada que não passa de uma encenação. Uma encenação que empresta o lugar encantado que se repete só em momentos esparsos, na evitável banalidade que viria diluir a solenidade do ritual. São rituais na sua opulenta ilusão. Traços de ilusão, um encantamento que traz os confrades extasiados no dia de cerimonial, êxtase do seu percurso que se revela tão grandioso como a pompa do momento.

Os rituais: pretextos. Para festejos de si, autocontemplação vitoriosa do fausto assim encenado. Não mais que uma encenação. Faustosa, penhor da nobreza dos confrades que desfilam o cortejo das vaidades de si. A santidade assim proclamada numa sequência de actos esgota-se na vacuidade do acto. Como se lá dentro houvesse uma espessura ilusória, que só os confrades acreditam sentir. Nestes rituais, um estado de hipnotismo colectivo.

28.3.08

I have a dream...


O contexto, aqui.

Publicidade enganosa


(Aviso: contém linguagem eventualmente homofóbica.)

Passa nos ecrãs da televisão. Publicidade a um perfume que, por acaso ou não, do nome não guardo lembrança. Imagens em câmara lenta, muitos rapazes novos saídos de uma cultura específica dos manequins que estão na berra nos dias que correm. Aqueles rapazinhos inexpressivos, incapazes de esboçarem o mínimo sorriso. Corpos esculturais, muito ginásio nos interstícios das hormonas femininas que ajudam a esbater para todo o sempre qualquer vestígio de pilosidade tão masculina que destoa da moda vigente. E rostos marcadamente andróginos, numa ambiguidade sexual (ou assexuada?).

Do que percebi, é publicidade a um perfume para homens. (E decerto as feministas arrepiadas neste momento com a impressão retida farão o favor de conceder que há perfumes para homem e perfumes para mulher.) O aroma inscreve-se nos predicados das essências que só o sexo masculino empresta ao corpo. Todavia, o anúncio é um desfile de homossexualidade latente. As imagens em câmara lenta sugerem a sedução que se insinua nos olhares entre os rapazinhos inexpressivos. Gestos de uma ternura arrebatadora, sem contudo haver a explícita imagem de mãos dadas, ou rostos osculados por um parceiro. Os corpos ao início semi-desnudados, saídos do banho em pleno balneário, entregam-se a uma lânguida coreografia que perfuma a sexualidade diferente daqueles rapazinhos.

A suspeita de que o mundo da moda é uma selva composta por estranha fauna consuma-se naquelas imagens. Os manequins masculinos: meninos tão bonitinhos e, todavia, tão andróginos, deixando antever alguma homossexualidade – explícita, ou apenas encapotada. Insisto: não há aqui repressão a essa maneira de ser. Como também não pode a minha estranheza ser calada, sob os auspícios da covarde manietação da liberdade de expressão só por ela ser um atentado contra um dos dogmas que vingou com a correria do tempo – o império do politicamente correcto. Não é por aqui sangrar franqueza que contraria os padrões estabelecidos que me sento no banco dos réus, acusado de homofobia.

Gostava de ter estado por dentro dos meandros desta campanha publicitária. Para perceber se foi uma estratégia propositada, concebendo um anúncio que atrai o público gay, acantonando o perfume a uma conotação. Ou se foi a consagração de um entendimento que seria, para mim, uma surpresa: que não, o perfume teria como alvo todo o público masculino, na descoberta que uma proporção já significativa dos homens se revê naquelas imagens, seduzido por elas e pelo que elas significam.

O que causa surpresa é que um perfume dirigido ao público masculino seja tão abertamente um mostruário de imagens que insinuam homossexualidade. Posso ainda viver aprisionado numa conservadora maneira de ver o mundo (o que me assusta, por ser geneticamente contrário ao conservadorismo), mas ainda entendo a maioria dos espécimes do sexo masculino como expressões de heterossexualidade. Ora aos heterossexuais, mesmo aos que tenham mente aberta ao ponto de conviverem sem problemas com a homossexualidade (desde que seja dos outros), imagens de homossexualidade masculina agridem os sentidos. Eis a minha perplexidade: pode a empresa que comercializa aquele perfume ter a pretensão de chegar ao público masculino mais, por assim dizer, “sexualmente conservador”?

Das duas, uma: ou se confirma que entre a população masculina é já significativa a fatia dos que se abrem a orientações sexuais alternativas, e passa a fazer sentido aquele anúncio publicitário; ou esta publicidade é uma pedrada no charco nos costumes estabelecidos, pois é invulgar a coragem de assumir que o público-alvo é composto por pessoas que se deixam inebriar com o cortejo de manequins masculinos de andrógino aspecto e tão ostensivamente gays.

Não me causa incómodo a publicidade. Também devo dizer que não há-de ser perfume que compre – e não custa admitir aqui o preconceito, a que tenho direito, de não comprar produto envolvido numa imagética na qual não me revejo. Em tudo isto, uma vitória civilizacional: a franqueza de admitir que há produtos com um público específico, que se demarca pela sua orientação não heterossexual. Assim como assim, há dias a vista escorregou para uma famosa série juvenil que passa na TVI e pude ver como os guionistas tiveram o desassombro de assumir dois personagens, jovens adolescentes, nos braços um do outro.

Não sei se será publicidade enganosa. Se calhar, as convenções serão revistas: perfumes para homem, perfumes para mulher e perfumes para homossexuais.

27.3.08

“Não me toques que me tiras o brilho”


Ainda a teimosia de nos levarmos muito a sério. De ficarmos indignados se alguém parodia o que somos, aquilo que representamos. Da idiossincrasia nacional faz mesmo parte a tristonha maneira de ser, carrancudos perante o sarcasmo alheio, ou só capazes de esboçar um sorriso quando o alvo é o outro. Lá se costuma ensinar: com coisas sérias não se brinca. O respeitinho, o malfadado respeitinho que nos aprisiona numa camisa-de-forças e sufoca a grandeza de espírito.

Há tempos trouxe aqui a ofensa dos escuteiros perante a campanha publicitária de uma cadeia de electrodomésticos. Não aprendemos nada – ou, pelo contrário, a estridência dos escuteiros serviu de pretexto para que todas as virgens pudicas ofendidas com o escárnio alheio ponham a boca no trombone do protesto público e exijam retratação. Em poucos dias, dois novos episódios. Cristiano Ronaldo faz a lide a um touro, ensaia umas fintas estrambólicas que trocam os olhos ao animal. E uma campanha de um banco promove “condições imbatíveis” do crédito para compra de automóvel, teatralizando os vendedores de automóveis.

As reacções indignadas não demoraram. Associações de defesa dos animais julgaram inadmissível o anúncio em que Ronaldo toureava um bicho com bola. Um desrespeito do bovino selvagem, ali amestrado pela prestidigitação futebolística do craque. Protestam: que estes craques são exemplos para tanta gente, e sobretudo para crianças. Logo deviam dar o exemplo e embarcar no cardápio politicamente correcto do dia, de que faz parte o respeito pelos direitos dos animais.

O que me anima contra a bestialidade das touradas já ficou aqui em letra de forma por mais que uma vez. Como também já dediquei palavras aos direitos dos animais, de que sou adepto (mas não militante). E, contudo, a manifestação de desagrado de algumas associações de defesa dos animais soa-me a um histerismo inútil, que apenas terá o condão de virar contra estas associações muitas pessoas que não se deixem cegar pelo fundamentalismo da causa. Contraproducente, portanto. Faz-me lembrar a metáfora do elefante em loja de porcelana. A cada passo, um desastre pelos cacos de porcelana que se estatelam no solo. Qual o mal de se retratar em publicidade uma inofensiva faena de um touro em que o toureiro usa uma também inofensiva bola de futebol, em vez das habituais armas pontiagudas que laceram a carne do animal? Serão aqueles defensores dos animais tão cegos ao ponto de não perceberem a teatralização do anúncio?

Também houve protestos inflamados das associações que representam os comerciantes de automóveis. Contra a imagem pouco simpática dos vendedores de automóveis vertida no anúncio do banco. Insinua-se o charlatão, ou o vendedor de banha da cobra, ou o vendedor que convence pelo cansaço, ou o enganador que leva sempre o incauto comprador no engodo. Vieram logo aquelas associações exigir a retirada do anúncio, pois a seriedade dos vendedores ficou beliscada. Lembram-se do precedente dos escuteiros: o burburinho levou a água ao moinho, pois o patético escuteiro desapareceu da publicidade da cadeia de electrodomésticos. Estarão estes à espera que o banco retire a campanha que anuncia o crédito para compra de automóveis?

A pergunta: as coisas sérias, não se podem parodiar? Onde está a fronteira entre o que admite encenação cómica e o que entra no limiar do intocável à sátira? Nem as instituições, ou até os interesses sectoriais beliscados pela mordacidade alheia? Que haja virgens ofendidas pela sátira de que são vítimas, pertence ao domínio do poder de encaixe, e da sua ausência. Lá está, é o problema de nos levarmos muito a sério e acharmos que aquilo que somos, ou representamos, não pode ser objecto de gozo. Ou cai o Carmo e a Trindade. E o que se dirá das “instituições” – a “pátria” e os seus símbolos, a igreja, a exaltação das novas causas que codificam o politicamente correcto (direitos dos homossexuais, de minorias étnicas, igualdade de sexos, e por aí fora)? Também são intocáveis, insusceptíveis de troça? Lembro-me, já há mais de vinte anos, o brado que deu uma reinterpretação do hino nacional pelo actor João Grosso. Valeu-lhe a demissão da televisão e, pior ainda, uma selvática agressão por covardes nacionalistas muito ofendidos por tamanha vaca sagrada ter sido escarnecida.

Enquanto assim andarmos não passamos da cepa torta, sorumbáticas criaturas alinhadas pela estreiteza de vistas. Muito susceptíveis, muito circunspectos, adormecidos pela aura intocável que vemos adejando acima de nós. A enormidade de uma pequenez que se reflecte na falta de rins para rir com a sátira em somos actores principais.

26.3.08

Às vezes é melhor que os políticos não tenham um “rosto humano”


É dos livros: os políticos profissionais são esfíngicas personagens que escondem a sua verdadeira pessoa. Autómatos nas mãos dos sapientes spin doctors que os aconselham (e, no fundo, os manobram). Pose estudada, discurso medido ao milímetro, e até quando aparecem em público desnudando porções da vida pessoal só destapam uma encenada faceta. Parece que os políticos de hoje não têm rosto humano, imersos nesta fabricação de imagem que faz deles uma mistela diferente daquilo que são por dentro.

Contudo, quando ensaiam gestos de condescendente revelação da pessoa que há em si apetece esquecer as críticas e pedir-lhes para voltarem a ser encenadas esfinges. Gestos, palavras, gostos pessoais, memórias, enfim, a face humana que se esconde detrás da imutabilidade da criatura política. Era melhor nem ter sabido que existe essa faceta. O esforço de humanização é um reviralho contra o encenador. A prova: a nostalgia do casal presidencial em visita a Moçambique. Em dois dias seguidos, tivemos direito a: um Cavaco desconhecido, saudosista dos dois anos que passou com a “sua mulher” enquanto prestou serviço militar à pátria; e uma primeira-dama com o habitual desbragamento verbal, a afiançar que a escola de Maputo onde deu aulas é “a sua escola”, com direito a discurso emocionado aos alunos e lições sobre a liberdade.

É surpreendente a abertura das portas da intimidade de antanho do casal. Não consta que seja uma parelha dada aos devaneios das revistas cor-de-rosa. Não escancaram a vida pessoal à comunicação social. Honra lhes seja feita por terem sabido preservar uma certa intimidade dos holofotes da política e do voyeurismo da comunicação social. É por isso que Cavaco não vende revistas cor-de-rosa, ao contrário de outros políticos que se dão a conhecer mais por esta faceta do que pela competência no desempenho.

Desta vez tivemos direito a uns fragmentos do “exílio” involuntário do então jovem casal por terras moçambicanas. Em solene discurso do senhor presidente, um discurso arrebatador porque carregado de literatura. Diria que não foi ele que o fez (ou algum dos seus conselheiros), pois ele não sai da cepa torta do “economês” e os seus conselheiros só alcançam verve de burocrata. Suspeito que houve dedo da presidenta naquele discurso, ela que é mulher mais dada às letras, aquele discurso repleto de carga emocional que encaixa na sua personalidade afectiva e não na impenetrável personalidade do consorte.

E assim fomos convidados a mergulhar no passado do casal Cavaco e Silva, de braço dado com a sua nostálgica deambulação pelas circunstâncias, lugares, felicidade daqueles dois anos de exílio involuntário. Por entre descrições repletas de imagens literárias, como os jacarandás perfumados da avenida onde residiam, ficámos a saber que a filha herdou o nome da toponímia onde o casal habitava (e, provavelmente, foi concebida). Num assomo de revelação da intimidade que se lhe não conhecia, o presidente confessou à pátria que o ouvia que aqueles dois anos foram de (e cito de cor) “intensa felicidade”.

Pela minha parte, dispensava esta cumplicidade com o agora casal presidencial. Há um certo recato que devia vingar. A quem interessa saber que aqueles dois anos moçambicanos foram de “intensa felicidade” para o jovem casal? O que se insinua nesta frase, para além da evitável revelação da libido do casal? Que grotescas imagens desfilam diante da mente dos súbditos de sua excelência quando ele escorrega para esta nostalgia? Há imagens que só de se imaginarem são dispensáveis. E há uma confusão de papéis: não digo que o casal presidencial não tenha direito a revisitar o seu passado de “intensa felicidade”. Que o tivessem feito a dois, resguardando a cumplicidade que só a eles pertence. Não o trazendo para a imprensa e para as televisões que os acompanham.

Esta inusitada ostentação de um “rosto humano” do casal presidencial é uma desastrada tentativa de romper com o passado tão cinzento que não atrai a parelha para os holofotes da coscuvilhice que faz escola. Talvez não intencionada a tentativa, atarantados com a enxurrada de emoções ao revisitarem lugares que tanto lhes dizem; mas evitável. Parece que está na moda: há duas semanas tivemos direito a uma vista de olhos pela intimidade estudada do timoneiro da nação e daquela personagem que acredita (talvez só ele – ou nem sequer ele) que lhe pode suceder no cargo. Não vi – nem queria ver – as reportagens televisivas sobre as funestas personagens. Li alguma coisa no restolho. E percebi que mesmo o esforço de apresentar um “rosto humano” dos políticos é inquinado pela pose estudada, pela palavra milimetricamente colocada, por um kitsch patético que afinal combina com a portugalidade reinante.

Pela amostra, eu cá preferia que esta gente continuasse dentro da sua concha impenetrável. Que não mostrasse os laivos humanos que neles habitam. As suposições que se entreabrem quando o casal presidencial confessa detalhes dos dois anos vividos em Moçambique alimentam o princípio do avestruz: enfiar a cabeça na areia, para fazer de conta que nada daquilo foi escutado.

Já sei: com tão proeminentes figuras não se brinca, tamanho o respeitinho que lhes é devido. Isso fica para o texto de amanhã.

25.3.08

Dez milhões de funcionários do fisco?


Outra para o compêndio da paródia instalada: o governo mandou dizer que o fisco vai controlar, com redobrado zelo, as despesas feitas em casamentos. Porque as bodas são negócio próspero – há quem goste tanto que se casa vezes sucessivas – e porque há muita gente metida no negócio das bodas que, ó heresia, foge impunemente aos impostos.

Já seria do domínio do ridículo saber que o fisco vai estar de olhar vigilante às bodas do Minho ao Algarve, à procura de meliantes que escapam ao jugo dos impostos. Não haverá outros domínios onde a fuga aos impostos custa mais ao erário público? A coisa atinge os píncaros do ridículo quando se soube que alguém, um burocrata qualquer certamente dotado de escassa imaginação, descobriu a melhor forma de acabar com a impunidade fiscal no negócio das bodas. Serão os próprios noivos que, em trinta dias, terão que comunicar à administração fiscal um infindável rol de transacções: desde o vestido da noiva ao fotógrafo, o catering contratado às prendas recebidas, exigindo-se até a apresentação de cheques que comprovem os gastos ou os proventos da cerimónia.

A farsa está aqui: quem se casar fica coagido a ser funcionário do fisco. Pois os noivos que, ainda inebriados com a fulgurante lua-de-mel, se esquecerem de comunicar o imenso catálogo de detalhes exigidos pelo fisco, arriscam-se a pagar “coima” que pode ir até dois mil e quinhentos euros. Ou seja: os casados de fresco são obrigados a trabalhar para o fisco e não recebem nada em troca (possivelmente a gratidão do fisco). É como se os noivos fossem cobradores de fraque no seu próprio casamento. Eu acho que isto mostra duas coisas: primeiro, a enorme preguiça do fisco, que em vez de alistar um exército de novos funcionários que passariam em revista os casamentos de norte a sul, endossa a tarefa para os próprios noivos; segundo, uma concepção duvidosa de meios e fins, pois não parece que a sede de receita de impostos justifique tantas intromissões em detalhes que pertencem à vida íntima de duas pessoas que acabam de contrair matrimónio. O que interessa saber quem pagou o vestido da noiva? O que interessa saber quem (e quanto) presenteou os noivos?

Começo a perceber a medida tragicómica. A vontade da equipa do secretário de Estado das contribuições e impostos (que ontem apareceu diante das câmaras da televisão em atrapalhadas explicações) era espalhar espiões do fisco nos bastidores dos casamentos. Por cada casamento, um funcionário da repartição de finanças a controlar tudo e mais alguma coisa: anotaria o nome da empresa de catering, do local onde foi feita a boda, do nome da costureira que concebeu o vestido da noiva, do alfaiate que vestiu o noivo, de quem se encarregou da reportagem fotográfica, dos entertainers que vieram abrilhantar o baile costumeiro, da florista que embelezou o lugar com uma coreografia floral. Não sei se me escapa algum detalhe, se não haverá algo mais que envolva dinheiro que passa dos noivos para empresas ou particulares que fornecem serviços ou bens típicos de casamentos.

Só que esta vontade do fisco terá esbarrado no exagero da intervenção: inconcebível seria que houvesse cobradores de fraque escalados para cada casamento e que tivessem carta-branca para vasculhar fornecimentos e pagamentos. Então os imaginativos que dão o seu melhor para que o Estado arrecade muitos impostos tiraram um coelho da cartola: e por que não endossar a tarefa para os noivos? Assim como assim, o paradoxal Estado de direito inverte o ónus da prova quando está metido num conflito com um contribuinte. É que, normalmente, quem acusa tem que provar. Quando o fisco acusa alguém de estar em falta com os impostos, o acusado é que tem que provar que tem cadastro imaculado. É nesta lógica que os desgraçados que vierem a contrair casamento passam involuntariamente a ser funcionários do fisco. Aos que gritarem objecção de consciência, haverá sempre a possibilidade de a comprar com a “coima” de dois mil e quinhentos euros.

A semana passada foi o caricato episódio dos piercings e tatuagens, de permeio com a proibição de sete “raças de cães perigosos”. Agora foi esta historieta com as transacções envolvidas em casamentos. O que sobrará para a semana? Que teremos que informar com regularidade as compras feitas nas frutarias e peixarias, as comezainas em restaurantes, as visitas ao mecânico, os livros e discos comprados, e o que mais se possa imaginar? No mesmo registo dos casamentos: e as luas-de-mel passarão a exigir apresentação de factura comprovativa – para que os zelosos funcionários do fisco, tão imersos na sua tacanha vidinha, saibam onde foram regalar a vida os casados de fresco? Ou, já agora, noivos obrigados a apresentar facturas dos gastos (nas variedades que se possam imaginar…) com despedidas de solteiro?

Passaremos a ser dez milhões de funcionários do fisco, não demora nada. O exílio, cada vez mais apetecível.

24.3.08

O rapazinho


Pode a pose soar a responsabilidade, já não à traquinice dos tempos da “jota”, a irreverência toda a relampejar da adolescência dissimulada. Pode a barba sugerir adulta condição, uns óculos sabiamente escolhidos para convencer a audiência que já é crescido e sedimentou seriedade. Debaixo da imagem permanece a mesma ossatura, o exemplo acabado da política dominada pela perfídia, pelas cambalhotas argumentativas, pelo destempero mental que todavia se faz transportar em capa de idoneidade incontestável. A mediocridade inigualável.

O vereador rapazinho ia a Lisboa, a “despachar” em plena viagem. Nem deu conta que o motorista se distraiu e o pé direito esmagou o acelerador até aos 181 quilómetros por hora. Azar: havia uma brigada de trânsito acompanhada por sanguinários repórteres de televisão. Azar a dobrar: tinha que ser o rapazinho a cair no radar do automóvel descaracterizado da brigada de trânsito. Mediatismo ao contrário. A pior da publicidade que um político pode esperar. As leis são para cumprir, para todos. (Excepto para o ministro da economia que, em tempos, permitiu que o motorista voasse a quase 210 quilómetros por hora sem que nada acontecesse. Pelos vistos, os limites de velocidade não se aplicam a apressados governantes. É que a governação não se compadece com atrasos e a estrada tem que ser tragada a velocidades supersónicas, não vá o país atrasar-se com o atraso do ministro.)

Mas o rapazinho não é ministro (ele bem gostava). Ainda só conseguiu chegar a vice-presidente do município. Recentemente regressou ao comando da distrital do partido a que pertence, para fazer aquilo que é sua especialidade: caciquismo, puro e duro. Para sua desdita, é filiado no “partido errado” (não o do governo). Não houve contemplações da brigada de trânsito. Para não mergulhar na vergonha do apanhado televisivo, o rapazinho recusou-se a sair do automóvel e não dirigiu palavra aos jornalistas. Logo ali ocorreu-lhe brilhante estratégia para reverter a seu favor o episódio (pensava ele): adiar para mais tarde, ganhando tempo para pensar na desculpa mais esfarrapada sem o parecer.

Horas mais tarde, em Lisboa, depois de consultar os spin doctors e congeminar estratégia para atenuar os danos, convocou conferência de imprensa. A culpa não tinha sido sua. Ia “a despachar” em plena viagem e não deu conta do que o motorista ia a fazer. Começava aqui a retórica da culpa que, se não morre solteira, repousa sempre nos ombros dos outros. A lógica da irresponsabilidade, que diz muito de quem a ela recorre como pretexto de exculpação. Quem se acovarda e irrompe entre elaboradas teorias que expiam a sua culpa é, no fundo, irresponsável pelos seus actos. Ora, quem não arca com a responsabilidade dos actos merece ocupar cargos de poder?

O rapazinho destilou a sua fúria – contra a brigada de trânsito, na sua militante caça à multa; contra os jornalistas, que só sabem fazer notícia à custa de “sangue”, e se forem notáveis da política a serem apanhados no meio do sarrabulho, tanto melhor. Criticou a falta de segurança, por ter sido parado em plena berma da auto-estrada; e os jornalistas que saíram na companhia dos agentes da brigada não envergavam coletes reflectores que o código da estrada manda usar naquelas circunstâncias. Insinuou a costumeira teoria da conspiração. Como faz parte da entourage do incrível líder do maior partido da oposição, não haveria laivos de assassinato político? Aos 181 quilómetros por hora, disse nada. Preferiu desviar a atenção para o acessório: que não devia ter sido parado na berma, pois a segurança estava em causa; que os jornalistas que acompanhavam a pressurosa brigada queriam fazer sangue e tinham ganho o dia porque lhes saíra na lotaria um “notável” (acha-se assim) da política.

Esforço louvável para reverter o episódio a seu favor. Esqueceu-se que nem todos são carentes de inteligência, como ele. Pode achar-se esperto, mais esperto que os outros, à boa maneira do portuguesinho típico que gosta de se ver mais esperto que os demais e sentir que acaba por os sacanear (para não ser sacaneado). É nas mãos destes exemplares que a política está entregue.

Na sexta-feira, uma notável crónica de Paulo Moura no Público dissertava sobre a falta de sintonia que muitas vezes se nota entre a idade física e a idade mental das pessoas. Dava exemplos. Eu acrescentaria este: o rapazinho de Gaia pode mostrar pose de Estado, barba hirsuta que ostenta a espessura de seriedade. Pode até, aqui e ali, deixar à mostra um o outro cabelo grisalho, a credencial imagética da responsabilidade. Pode envelhecer, que a sua idade mental há-de ser a de um rapazinho saído da tenebrosa escola das “jotas” partidárias. Não passará de aprendiz de adulto. Irresponsável, como um perene menor de idade.

21.3.08

Lua, desordem do sol


Mistérios que a madrugada encerra: noites de lua cheia em madrugada primaveril, quando o crepúsculo matinal já se anuncia. A imensa lua platinada que vai perdendo essa tonalidade. Insinuam-se no largo disco lunar as cores alaranjadas do sol que espreita pela timidez do horizonte onde ainda se esconde. A lua copia o mesmo trajecto do sol que antes dela se pôs no firmamento. Engorda à medida que se deita no horizonte. Como se fosse um enorme rosto de bochechas viçosas, minuto a minuto na deriva que a há-de fundir com a linha do horizonte, até mergulhar nas águas atlânticas que são o seu repouso.

No seu ocaso, as cores que se apoderam da lua são uma fantástica coreografia que lhe empresta diferentes pigmentações. Na descida que a aproxima das calmas águas do mar, diz adeus à alvura cintilante que ostentou quando se hasteou no pino do céu. Ao vergar-se diante do magnetismo do ocaso marítimo, ganha matizes diferentes. Perde a cristalina alvura, granulando-se nela uma textura acinzentada. Torna-se mais nítida como circunferência platinada no seu ocaso quando se agiganta no firmamento. Ao descer, que há-de terminar com um beijo no mar, a platinada espessura da lua infiltra-se com ao início ténues centelhas alaranjadas. Anúncio do sol que se apresta a encomendar o ocaso lunar.

Dois hemisférios, no seu antagonismo natural. Vivem a descompasso, lua e sol. O enorme disco lunar ensaia uma coreografia de antípodas com o sol, que só está à espera que a lua mergulhe nas distantes águas do mar. Há uns instantes em que se encontram, mesmo que não sejam simultâneos no firmamento que se distingue a quem os observe de posto terrestre. É quando os primeiros raios solares se desprendem do lado nascente, vomitando-se na imensidão que os separam do ocaso lunar. Tocam ao de leve o parâmetro poente onde ainda reside a enfraquecida lua, a cansada lua na sua longa visitação nocturna.

Há dois crepúsculos que se misturam, trinando a sua osmose. A escuridão que domina o poente contrasta com a claridade que vai tomando conta do nascente. É quando o crepúsculo solar invade o crepúsculo da lua, fundindo na lua poente as cores raiadas do sol madrugador. Uma estafeta. Fina charneira que distingue o dia da noite. Nunca pela tradição abrupta, que a noite não finda de uma só vez, cedendo lugar, também de uma vez só, ao dia nascente. Os crepúsculos misturam-se, sorvem a transição da luminosidade à paleta de cores que se oferece na sua lânguida contagem.

Retenho a imagem da nédia lua invadida por suave tonalidade alaranjada. Apetecia emoldurar aquele instante, por saber que, sem demora, a implacável clepsidra virá toldar o encantador cenário. Um retrato tirado de memória, na impossibilidade de roubar ao tempo os seus ponteiros que não cessam de o cadenciar. Um êxtase que se consome nos breves instantes da contemplação do dilúculo quando a lua sagra uma dança invisível com o sol nascente que, de muito longe e ainda sem se ver, estende mão à lua já cansada. Um contrapeso de energias: a lua exangue a deitar-se no seu leito oceânico na fina linha do horizonte; e o sol retemperado do sono nocturno, ansioso por aspergir a terra com o seu feixe de complacente luminosidade.

Mas é a lua já enfraquecida, exposta ao sol ainda escondido que todavia tremeluz, invadindo a lua que se deixa tomarr pelo estranho corpo solar. Uma cumplicidade de astros, um retrato deslumbrante que se demora uns instantes muito breves, antes da coreografia das cores entrar em descompasso e tudo se toldar na diferença das luzes. O suave alaranjar da lua é o sinal do seu ocaso. A lua cheia repousa nas águas que se aclaram com a intensa luz do sol trepando nos contrafortes do céu. Até que a magia astrofísica se repita no dia seguinte, enquanto a lua estiver grávida da sua plenitude. E enquanto não houver a sombra de nuvens traiçoeiras a encobrir o admirável espectáculo. Motivo decente para uma madrugadora alvorada que retira o corpo tão cedo ao sono.

20.3.08

Impressões


De uma viagem sobram pinceladas avulsas. Um observador não resiste ao que passa diante dos olhos. Pequenos gestos, palavras escutadas, um acontecimento insólito, ou um acontecimento banal, registados na memória instantânea. Impressões fugazes que se perdem no seu rasto com o esvanecer do tempo. Por serem fugazes lampejos do viajante em trânsito. Anotados de cor, sucedendo-se nos contrafortes da memória. Ficam espelhados numa paleta de imagens que desfila como memória de uma viagem. Uma amálgama que reproduz um quadro difuso, como se houvesse uma intersecção de lugares e pessoas e palavras desconexos entre si. O denominador comum é o narrador.

A rapariga italiana a benzer-se quando sentiu os motores do avião a subir de rotação, nos preparativos para a descolagem. Há quem tenha medo de voar. Há quem exteriorize incómodo quando o avião está quase a atirar-se para os céus, ou quando retoma contacto com o solo. Há os que entram em pânico quando o avião chocalha nos céus, por causa do capricho das correntes de ar que embrulham o avião em turbulência. É possível que já tenha estado sentado ao lado de passageiros que fazem as suas orações antes da partida. Nunca as escutei, porventura interiorizadas no silêncio. Aquela rapariga benzeu-se três vezes quando o avião foi empurrado pela força bruta dos motores. E balbuciou umas palavras, muito baixo, imperceptíveis. Senti-me protegido pelo pedido de bênção divina da companheira de viagem. Ao aterrar, apetecia agradecer-lhe: não houve turbulência, o avião não chegou atrasado e até a aterragem foi mais ou menos suave. O avião estava entregue nas mãos de deus, pelo acto tão simples da rapariga a benzer-se e pela curta oração sussurrada. As leis da física, que põem aviões daquela tonelagem no ar, ignoradas; e a diligência dos pilotos, também detalhe irrelevante. Nas mãos de deus, que abrira os ouvidos às preces da menina e tomara em sua protecção aquele avião.

As meninas (disseram-no, alto e bom som, retorquindo à hospedeira que lhes perguntou se eram maiores de idade: “ainda não chegámos aos trinta”) sentadas nos dois lugares atrás de mim, no regresso ao Porto. Duas horas de viagem e, asseguro-o, nem sequer um minuto de silêncio. Toda a saliva gasta nos assuntos mais mundanos que duas mulheres que personificam o lado mais banal do sexo feminino conseguem exercitar. Os champôs que dão brilho ao cabelo, o solário frequentado por uma delas, o namorado da outra que hesitava no decisivo passo do casamento, ela que tanto sonhava com um vestido branco com as costas desnudadas, os perfumes que levavam para o namorado e para o irmão, os homens – ah, os homens, são todos iguais! – que se deixam atraiçoar pelas hormonas e deslizam para a traição da monogamia, mas sempre com o perdão magnânimo das namoradas que tanto bem lhe querem. E até os detalhes de motéis que recebem “as amantes dos patrões” (mas com tantos pormenores, que uma delas relatava na terceira pessoa, parecia mais a envergonhada confissão de já ter frequentado um destes “lugares de pecado”). Percebi: professoras secundárias exiladas da incerteza das colocações nas escolas. Davam aulas de português em escola inglesa. Desejo-lhes que não sejam atraiçoadas pela desorientação geográfica: é que Estrasburgo não é na Alemanha.

O mendigo no metro de Londres. Vagueava pelas carruagens, de caneca imunda estendida suplicando a esmola dos passageiros. Entoava as mesmas palavras, a espaços silenciadas pelo ruído que o metro fazia. Pedia desculpa por incomodar os passageiros. Ninguém esboçava reacção. Ninguém olhava para ele. Era como se ele nem ali estivesse. Todos nós, passageiros, inertes na hipocrisia. Vendo a insensibilidade das pessoas que partilhavam a carruagem com ele, punha fim a uns segundos de silêncio pedindo outra vez desculpa por ter incomodado as pessoas. A voz calma, sem entoar o menor ressentimento pela hipocrisia de quem desviava o olhar. Resignado, sem esmola naquela altura, saltou da carruagem na próxima estação.

Os ingleses (e não só) estão cada vez mais divorciados da higiene. Pegam nos jornais gratuitos, lêem-nos durante a viagem no metro ou no comboio e, à saída, é um restolho indescritível de comunicação social espalhado pelos bancos e pelo chão. Ouve-se um anúncio a cada paragem do comboio incentivando as pessoas a levarem consigo os jornais já lidos. Em vão. Agora percebo que escasseiem em Londres os baldes de lixo em zonas públicas. São uma desnecessidade. Sugestão de acção militante para as franjas ambientalistas: lutar, com denodo, contra os jornais gratuitos. Empestam o ambiente.

Um idoso de cabelos desgrenhados e barba descuidada, passeando pela trela uma marta branca pelas ruas pejadas de turistas. O bicho parecia habituado, até à incredulidade das pessoas que paravam e tiravam fotografias. O homem responda às solicitações de um bando de turistas japoneses que recorreu ao arsenal de máquinas fotográficas digitais. E não era para receber uns trocos, como há alguns mendigos que treinam cãezinhos dóceis para pegarem o receptáculo da esmola pela boca e derreterem os corações de manteiga dos transeuntes. O homem fazia o seu passeio higiénico com a marta que ia, alegre, palmilhando o empedrado de Covent Garden.

19.3.08

O acolhedor betão das cidades


Admiro o bucolismo do campo, as paisagens verdejantes, a sucessão de montanhas que faz perder o horizonte, o som de um regato escondido entre a vegetação frondosa, o ar fresco e puro que é penhor das terras isoladas. Admiro tudo isso no campo, mas de passagem, em visitação que não se demore. Quando estive algum tempo no campo, rodeado pela sufocante ausência de edifícios: claustrofobia. O peso esmagador do embriagante verde que cercava. O silêncio, estranhamente ensurdecedor, insinuando-se nos ouvidos, penetrando em forma de miragens auditivas que tomavam conta do cérebro então mergulhado em oníricos devaneios.

Será habituação às cidades, onde sempre vivi. Habituei-me a olhar para todos os lados e ver casas, prédios, betão armado decorado com as janelas que resguardam a intimidade dos lares. Ou edifícios de escritórios, anónimos, frondosas fachadas de uma arquitectura arrojada. Dizem os puristas que uma cidade é a adulteração da natureza. Uma cidade cresceu para os terrenos virgens, tomados de assalto pela edificação. Raciocínio simplista. Os homens são parte da natureza. E se as cidades nascem e crescem a um ritmo acelerado, é porque os homens sentem a necessidade de invadir os sítios onde só havia terra a descoberto. As cidades são a adaptação do homem à natureza – ou a transfiguração da natureza às necessidades humanas. Cidades são natureza.

Uma cidade não é um desfile impessoal de betão, uma argamassa indiferenciada que degenera a límpida natureza virgem. As cidades são a maravilhosa unção do dedo humano, um amontoado de casario e edifícios e praças e avenidas e arruamentos – umas vezes atraente, outras vezes implacavelmente feio, outras vezes caótico –, mas sempre a herança de gerações pacientes, que foram juntando todas as peças que são a cidade num determinado momento. As cidades repõem o amplexo de sentimentos, emoções, necessidades do momento, estéticas dominantes, pulsares instantâneos. Os sedimentos que o tempo, na sua densa espessura, acumulou.

Não, definitivamente: a cidade não é a negação da natureza. É a natureza humana no seu vibrante latejar. Será impessoal, cada vez mais na arquitectura de traço duvidoso, na caótica urbanização autorizada por autarcas corruptos, ou quando se embelezam ou afeiam as ruas com intervenções que reflectem modismos episódicos. É tudo isso, mas sempre o produto da acção humana. Nem que, para desgosto de activistas do ambientalismo, haja reconhecimento de que o homem é agente da natureza, não apenas o agressor do meio ambiente que os activistas gostariam que fosse imaculadamente puro.

As cidades encerram os seus paradoxos. Para quem ouse refugiar-se na solidão, a cidade é o seu antípoda. Nas cidades há pessoas por todo o lado, mesmo às horas em que quase todos se entregam ao sono. Nas cidades os rostos sucedem-se, quase sempre desconhecidos, mas rostos que impossibilitam a interiorização da solidão. O paradoxo é matéria viva se uma súbita pulsão arremete um exílio na distante província, onde então a solidão é encontrada, onde a ausência de gente se concilia com a sede de isolamento. Só que irrompe a fúria do silêncio, a esmagadora fobia da paisagem campestre, a aflitiva carência de casario. Os carros não passam, ou passam esporádicos; o cantar do vento é uma melodia que ensandece; e falta o silvo dos comboios que se cruzam na apressada demanda dos passageiros, assobiando a metálica fricção dos rodados nos carris em expressão da frenética vida citadina das gentes impessoais.

Claustrofóbicas não são as cidades. Asfixiante é o peso leve do ar campestre. A paisagem interminável onde se sucedem as suaves colinas que são leito para o verde dos pastos, aqui e ali pontuadas pelas cores esfusiantes das árvores floridas, aqui e ali interrompidas por promontórios que se erguem, abruptos e petrificados. Até para alguém dominado pelo pessimismo antropológico, as cidades são um santuário de preenchimento interior. Sem soçobrar diante do sufocante peso do betão que se arqueia sob a cabeça; sem capitular perante a floresta de pessoas que erram pelas ruas das cidades.

O silêncio, a ausência, o descampado: archotes que consomem a carne, dolorosas achas que incendeiam a sublime inexistência. A sensação desconfortável de saber rodeado por pouco mais que nada. Eis a sua claustrofobia. As cidades, os sítios enxameados de pessoas, os lugares de intermináveis edifícios. Actuam como protecções contra a ausência que o campo encerra. E, por incôngruo que seja, o lugar onde vagueia a reconfortante impressão de haver uma multidão protectora. Nem que seja para alimentar o pessimismo antropológico.

(Em Londres)

18.3.08

Ninguém mexe nos meus piercings


Já entra no domínio da adivinhação: qual será a próxima proibição? O que virá aí para cercear os nossos maus hábitos, na sagração da política do bom escuteiro que nos é concedida pela graça socialista? De uma assentada, duas proibições: piercings fora de estabelecimentos licenciados (e proibição total aos menores de idade; e proibição total de piercings na língua); e o que se convencionou chamar “cães de raça perigosa”, impedidos de deixar prole.

É louvável o esforço para impedir que ignóbeis cidadãos se deixem possuir pela falta de esclarecimento. Na retaguarda está o governo que pratica a acção do bom escuteiro. O bom escuteiro ajuda a velhinha a atravessar a estrada; o governo acolhe-nos sob a sua protectora e generosa asa, não deixando que façamos as asneiras que ousamos querer. Semear piercings no corpo? Doravante, em estabelecimentos licenciados, com todas as condições de higiene garantidas. E nada de colocar piercings em zonas sensíveis do corpo. A prestimosa lei, consta, proíbe-os na língua por causa dos riscos de infecção. A ASAE à espreita?

Isto faz-me lembrar a primeira casa de piercings e tatuagens que vi, em Brighton. Na montra, uma listagem com os locais do corpo que podem receber piercings de várias formas e feitios. Só na secção “genitais” o cardápio desdobrava-se por meia dúzia de possibilidades. Ora a lei gerada pelos sapientes socialistas caseiros é pacóvia. Ignora a panóplia de piercings em genitais femininos e masculinos. Ou será que não são zonas sensíveis como a língua? Ou, por não andarem à mostra, adormeceu-se a fobia reguladora dos governantes? Inclino-me para a hipótese pacóvia. Podem os governantes trajar fatos Armani e mostrar “modernaça” imagem que nunca passarão de uns reciclados pacóvios de aldeia, sequer incapazes de soletrar a palavra “cosmopolita”.

Aos que juram a pés juntos que é por imperativos de saúde pública que partiu a investida sobre piercings e quejandos: não compro. Os imperativos, por vezes, mascaram-se de pretextos para outros objectivos, inconfessáveis. O que seria de um governo se reduzisse a sua actuação a um estatuto minimal, no fundo compatível com o estatuto de maioridade dos cidadãos eleitores? Seria um governo com pouco para fazer. Um governo que podia dispensar um fiel exército de consultores e adjuntos e experts e militantes à procura de um tacho qualquer. Inverta-se, pois, a lógica. Criem-se as oportunidades para empregar o séquito de mão estendida. E criem-se as oportunidades para que se perceba que o Estado existe para nos proteger. Nem que seja de nós mesmos, se entretanto arrepiarmos por caminhos desaconselháveis. Os cordelinhos que adejam sobre cada um de nós entrelaçam-se em seus nós inquebráveis. Omnipresentes e manobrados pelos artistas da engenharia social.

Podemos sempre resvalar para a irresponsabilidade, temporariamente ensandecer. Mas sabemos que o magnânimo e paternalista Estado é o nosso guarda-costas. E se teimamos em asneirar em excesso? A solução fatal: proíba-se o comportamento. Se perdemos o discernimento para ajuizar o que nos faz mal, entrada em cena de um legislador fazendo as vezes de paternal figura que impede a asneira e nos põe de castigo caso sejamos levianos ao ponto de insistir no tiro no pé. Quando for varrido o restolho, sobra o endurecimento da mão governamental. E o enfeudamento das pessoas, a cada passo destinadas a serem obedientes membros de um rebanho bem comportado.

Como na espuma do dia não chegava proibir piercings, a fúria não deixou escapar as “raças de cães perigosos”. Sete raças de cães condenadas a esterilização, pois a salvífica lei impede a sua procriação. Ainda não ouvi uma palavra dos palavrosos ambientalistas contra tal absurda lei. Não se trata de genocídio canino? E não há ninguém que explique aos dedicados governantes que perigosos são os donos dos cães quando os treinam para serem agressivos e mortais? Nada vi escrito sobre leis idênticas noutros países. Como este governo se ufana de vanguardismo em coisas insignificantes, presumo que a tábua proibicionista, este cutelo que extingue raças caninas, não tem precedentes.

Ah valentes governantes que exterminam raças caninas à força de decreto! Não serão eles, súcia socialista, mais perigosos que mil pitbull enraivecidos? Proíba-se, e muito. De tudo um pouco. Sempre e mais. Até nada sobrar para proibir.

(Em Forlì, Itália)

17.3.08

Agora, a maçada de viajar


Viajar, conhecer lugares novos, culturas novas, hábitos diferentes, paisagens desconhecidas, gastronomia local – é do que mais enriquece uma pessoa. Nos tempos que correm, há um enorme senão a separar a gratificação interior quando regresso de uma viagem e a decisão de ir: a viagem.

O que é curioso: porque a modernidade também vem perfumada com as facilidades de circulação das pessoas. Só que essas facilidades não passam de teoria. As leis (dentro da União Europeia) fazem parte da teoria; a profusão de companhias de aviação low cost, que trouxeram a turba para os aeroportos, também. A massificação do turismo é o eldorado que alicia cada vez mais gente a mover-se de um lado para o outro, para saciar a curiosidade pelo desconhecido. Só que os aeroportos enxameados de gente são um pesadelo que desencoraja quando começo a fazer a mala antes da partida.

Ocorre-me um adágio popularizado por economistas: “não há almoços grátis”. Contra o meu acesso elitista, o contra-argumento: o embaratecimento das viagens tem outro custo. O custo da horda faminta de voar, que atafulha os aeroportos e demora os check-in, os intermináveis check-in. Os que se apressam a fazer fila na porta de embarque, porque as companhias low cost, na versão minimalista do negócio, não marcam lugares aos passageiros. Aí falam mais alto as idiossincrasias dos povos. Há confusão quando a fila é composta por uma maioria de povos latinos – e há insultos, invariavelmente, quando é gente lusitana que tenta à socapa ganhar um lugar passando à frente dos estóicos que foram de véspera. Ou a anarquia organizada dos italianos: uma fila nunca é uma fila; vai engrossando para o lado à medida que aparece mais gente a colocar-se ao lado dos que já lá estavam.

Pelo meio há apertados controlos de segurança. Culpa dos terroristas que infernizam a vida ocidental, na furiosa guerra que nos moveram; ou culpa das autoridades, que aproveitaram para reforçar controlos de segurança e exercer uma férrea disciplina sobre os passageiros. É nos controlos de segurança, sobretudo em Londres, que me sinto como um indiferenciado ser e vejo os zelosos funcionários a tratar a horda como se fosse uma manada. Sorrisos entre os funcionários, uma miragem. Palavras de ordem, ressoando um militarismo repugnante, estão na ordem do dia. Não há lugar a hesitações dos passageiros, ou a deslizes que importunem os seguranças. É logo motivo para um desconfortável interrogatório policial, que pode levar à perda do voo sem lugar a gratuita colocação no voo seguinte. Controla-se tudo e mais alguma coisa. Até os sapatos, que saem dos pés e passam por um sofisticado controlo de raio X, enquanto os pés – todos os pés – passam ao lado numa área de duvidosa higiene.

Nos controlos de passaporte (quem viaja de e para as ilhas britânicas ainda se sujeita a este anacronismo), é habitual calhar em sorte um funcionário desconfiado que olha para mim e detecta traços de terrorista potencial. Demoro-me sempre mais que os passageiros que estavam antes. O funcionário digita demoradamente o número do bilhete de identidade, cruza não sei quantos dados, olha para mim com cara de poucos amigos e, por fim, devolve, contrariado, o documento de identificação sem lhe ouvir uma palavra que seja. É penoso testemunhar a discriminação que atinge etnias sobre as quais recaem metódicas suspeitas. Indianos, paquistaneses, árabes de diversa proveniência, demoram-se longos minutos no guichet. As pessoas que vêm atrás já o sabem e encaminham-se para os outros guichets. Se já me é desconfortável ser retido por uns instantes mais que o normal, imagino a sensação que percorre aquelas pessoas ao estacionarem tantos minutos diante do funcionário das fronteiras.

Viajar, hoje, tornou-se um suplício. E até todos os atractivos que o turismo oferece, com as delícias diversificadas que os turistas procuram, começam a perder peso na hora de decidir embarcar. O paraíso das low cost, só se for a poupança na hora de comprar o bilhete. O resto, faz parte do suplício. Mas todo o suplício encerra um instante de comédia – de tragicomédia. O momento hilariante está reservado para o final das viagens, quando o avião se faz à pista (e não sei se é acaso, mas nos voos low cost que tenho feito está sempre muito vento na hora de aterrar, pois o avião abana imenso…). Quando a turba sente que aterrou em segurança e se liberta do colete-de-forças onde sustinha a respiração, soltam-se alguns aplausos que depressa se contagiam à maioria dos passageiros.

Apetece perguntar: e por acaso estavam à espera que o voo tivesse um final diferente? Que a aterragem terminasse numa catástrofe?

(Em Forlì, Itália)

14.3.08

Omitir é mentir?


As mentiras mais cruéis são geralmente pronunciadas no silêncio”, Robert Louis Stevenson

Silêncios confrangedores. Por vezes, uma assombrosa falta de frontalidade; a ausente coragem para assumir a mentira. O silêncio afoga a mentira na sua projectada ilusão, como se a mentira ficasse resguardada nos contrafortes da existência sem se dar a conhecer às suas vítimas. Que vegetam na doce ignorância da traição desconhecida. A indignidade atinge o ponto de rebuçado. Perfuma o mais puro desrespeito pelas vítimas da mentira. O pior é que na embaraçosa luta interior com a mentira por carência de frontalidade, acaba tudo por desaguar na falta de respeito que atinge quem a omite.

Outras vezes, a omissão da mentira é – julga-se – um acto caritativo. Uma pungente caridade. Dir-se-ia, uma caridade impregnada da mais sangrenta crueldade. Em vez da coragem de confrontar as vítimas, o silêncio remete a mentira para a sua suposta inexistência. Por respeito às vítimas, poupadas às dores trazidas pela mentira omitida. Julga-se que há caridade neste silêncio que é uma traição à mentira omitida. Será por respeito às vítimas da mentira que ela é silenciada. Melhor será que continuem a viver na ignorância da mentira que as afligiria, viessem elas a travar conhecimento com ela. O que seria caridade transfigura-se no acovardar dos titulares da mentira. Omitem-na por falta de coragem, não em homenagem às suas vítimas.

Apaziguam-se consciências no silêncio comprometedor que aniquila mentiras. Como se elas fossem diluídas no eco dos silêncios repetido no tempo. O tempo teria o condão de medrar o esquecimento da mentira. Seria um trato entre o fautor da mentira e os relógios de todo o mundo para que eles acelerassem os ponteiros e se apressasse a diluição da mentira no silêncio repercutido nos dias sucessivos. A consciência ao início turvada, aclarando-se à medida que os dias fossem sendo ultrapassados e, nos seus interstícios, a memória se toldasse em cores baças.

As “mentiras cruéis”, as que são, diz-se, curtidas na pele onde arremete o silêncio. E há mentiras que não sejam cruéis? Há mentiras que venham ao conhecimento na antítese da crueldade, sem o seu odor implacável? Ou, porventura, as mentiras ganham uma espessura cruel quando vêm encerradas no seu silêncio. Admitir que as vítimas das mentiras hão-de preferir tomar conhecimento delas, de que são as suas vítimas. Ao saberem-se vítimas, a mentira desprende-se dos traços de crueldade.

Esta dialéctica entre o fautor e a vítima da mentira, quando é intermediada pelo silêncio comprometedor, encerra uma teia de paradoxos. Consoante a dialéctica seja olhada pelo ângulo de quem comete a mentira ou de quem é dela vítima. Pode ser incongruente que as mentiras mais cruéis sejam as que não chegam a provocar a amargura em que nelas mergulha como destinatário. É que o silêncio cauciona o desconhecimento, fermenta a ignorância. E, pelos fragmentos do desconhecimento, não tomam consciência do papel miserável a que a mentira os destina. É como se a epiderme nem sentisse os espinhos espalhados nos lençóis onde o corpo se deita, julgando que os lençóis têm o tacto agradável do cetim.

Se as mentiras mais cruéis são as que ficam resguardadas no silêncio? Sê-lo-ão para quem assim as cauciona. Haverá ameias tão altas para jamais entoar os segredos da mentira. O silêncio será o túmulo onde nidifica o conturbado escrúpulo dos que titulam a mentira silenciada. Não será por respeito a quem sobra como vítima da mentira: ou não seriam alguma vez as vítimas sequer colocadas nesse papel, não chegasse a mentira a ser silenciada. Julgar que a omissão aniquila a mentira é mentir a si mesmo. Mentir à própria mentira. Uma dupla mentira. Um jogo de espelhos onde se simulam os efeitos desejados, mas impossíveis, que a omissão das palavras acomete sobre os actos remetidos à condição de mentira. Como se através do jogo de espelhos, e do silêncio possuído de dotes mágicos, a mentira o deixasse de ser.

Volto a debater-me com o jogo de palavras de Stevenson: na dialéctica entre os actores da mentira, a omissão revela a crueldade suprema para quem é seu fautor. A quem sobra a terrível amargura interior de conviver sozinho com a dupla indignidade: de ter mentido e de perceber a ausente coragem para a revelar. Um silêncio que é traição de si mesmo. Daí a crueldade suprema.

13.3.08

E o que seria da beleza se não fosse a feiura?


Dizem que o corpo humano é um repositório de fealdade. Os corpos descuidados, a imensa maioria. Havia ontem, no Público, uma curiosa crónica de Paulo Varela Gomes, onde se relatava o cortejo de corpos desnudados de turistas ocidentais espalhados pelos areais de Goa. Curiosamente, o que se vê entronizado em publicidade que enxameia os olhos é a antítese do padrão onde se encaixa a imensa maioria: em vez das adiposidades inestéticas, corpos esbeltos, rostos de uma beleza ora exótica ora convencional, uma juventude eternamente celebrada. Uma minoria para invejar a imensa maioria incapaz de reproduzir os traços finos dos corpos enxutos.

Da estética se fala a propósito da relativização de gostos. Não há estética intemporal. Atravessa os tempos consoante são proclamados novos ícones, novas formas de entender o corpo, novas sagrações do corpo. Por hoje vai-se notando a tendência para sublimar corpos esquálidos, modelos femininos a quem ficam destinadas dietas sacrificiais, modelos masculinos a quem são prescritas hormonas femininas como milagre da depilação definitiva. Navegamos em paradoxos, divididos entre uma coisa e o seu contrário: a contemplação de corpos magros, os ossos salientando-se, proeminentes, sintomas de anorexia que se combatem entre as adolescentes que ambicionam o estéril estrelato das passerelles; em contrapartida, campanhas públicas que exortam os pais das crianças a educá-las na correcta alimentação, para evitar a obesidade.

O que será mais feio: um corpo esquelético cambaleando numa passerelle, as forças exangues pela carência de alimentos, os rostos cerrados e incapazes de esboçarem um sorriso? Ou um corpo avantajado, banhas abundantes saindo de roupas incompreensivelmente apertadas? Ou a interrogação porventura mais importante: e é tão importante consagrar um corpo se o que nos ensinam sacerdotes bem pensantes, de religiões e outros credos diversos, é a sublime sagração da mente?

Nas pessoas que desconhecemos, a imensa maioria com que nos cruzamos todos os dias, o que sobressai é o corpo que envergam. E como há quem diga na gastronomia que os olhos também comem, pode esta sentença ser obnubilada no incessante cortejo dos corpos diante dos nossos olhos? Sem descair para a futilidade da análise, que a espessura das pessoas distingue-se na personalidade, a estética não deixa atraiçoar o juízo dos corpos que desfilam na passerelle quotidiana, na passerelle onde todos somos manequins.

Paulo Varela Gomes conclui que os corpos que se estendem nos areais goeses são a antítese da estética – ou o grotesco altar da inestética. Há agressão à vista quando um corpo feminino em biquíni, ou um corpo masculino em calções de banho, mostram adiposidades que cultivam o descuido alimentar, o ausente exercício físico, em suma, corpos no limiar do abismo das doenças que são o sintoma da modernidade e do tão elevado desenvolvimento. É quase uma confrontação de liberdades: a liberdade dos turistas ocidentais passearem as vergonhas corporais nas areias de Goa e a liberdade dos transeuntes não serem agredidos pela inestética visão. Dir-se-ia: a beleza das praias ofuscada pela poluição visual semeada pelos corpos cheios de feiura.

A questão remete para uma polémica que invadiu a Holanda: a moda do “burquini” – um biquíni das mulheres árabes residentes naquele país que respeita os ditames culturais impostos pela sua religião, que impede o desnudamento de partes substanciais do corpo. Elas vão para a praia resguardadas pelo “burquini”. Na Holanda, os detractores do multiculturalismo insurgiram-se contra o “burquini”. Alegam que as mulheres árabes têm que viver de acordo com os costumes vigentes no país. E que o “burquini” ofende a liberdade de expressão consagrada na Holanda. Por entre alguma histeria dos que se antagonizaram com a nova moda, relapsos a tudo o que ressoe a islamismo em terras ocidentais, suspeito que há ali um inconfessável voyeurismo: o que eles querem é apreciar os corpos desnudados das mulheres árabes. Não percebem as virtudes do “burquini”, fosse a moda adoptada por pessoas de outros credos (ou sem credo algum): as desgraças corporais escondidas dos olhares alheios. Uma desanuviamento da poluição visual que enxameia as praias.

Ilação: a fealdade é tão importante como a beleza. Sem a fealdade, como teríamos oportunidade para distinguir – e apreciar – a beleza dos corpos? A feiura é a caução da beleza.