7.5.08

Males indígenas (I): A terra onde “não ter passado” é caução de probidade


Mal vai a santa terrinha quando os salvadores da pátria, os novos D. Sebastião, se perfilam diante do público como gente desprovida de passado. É retórica, é certo. E a retórica, carregada das sinuosidades da semântica, dos alçapões onde se entretecem as palavras na sua ambiguidade, esconde múltiplos sinais. Que quererá um candidato à liderança do PSD dizer quando se apresenta “sem passado”? Apenas o contraste com os seus rivais, esses sim detentores de um cadastro que os implica em responsabilidades pelos males que causticam os indígenas?

Seja lá o que for, é impossível não prender a atenção às palavras que Passos Coelho e os seus apoiantes proferem, quase como pregão mor da candidatura. Ele não tem passado. Ora, o que dizer de alguém que quer cativar o voto dos apaniguados daquele partido apresentando, como certidão de credibilidade, a ausência de passado? Que dizer, caso venha a vencer as eleições e a ser entronizado líder do partido que alterna com o que detém agora o poder, de um político que quer ser primeiro-ministro e tem como capital de confiança a ausência de passado? Quem se casaria com um(a) desconhecido(a)? É insólito que se construa uma imagem alicerçada no arrivismo, um neófito que se distingue dos rivais por ter andado longe dos meandros da política nos últimos tempos. Quase como se tivesse estado em retiro, um monástico recolhimento de onde se solta agora para vir salvar um partido à deriva e um país também errante.

Admito que há nesta retórica o selo da semântica. Percebe-se onde Passos Coelho quer chegar. A diferença em relação aos rivais do partido, até em relação ao que será o seu adversário político caso saia vencedor das eleições directas no PSD – o primeiro-ministro. E que o seu recolhimento monástico, ele que quase tinha caído no esquecimento, seja laboriosamente apresentado como a vantagem da candidatura, a alavanca que faz a diferença. Ou seja: se a crise de personagens em que estamos mergulhados for sintoma da realidade, Passos Coelho terá a varinha de condão de inverter o estado comatoso porque ele andou fora da política enquanto videirinhos medíocres por cá andaram a afundar a pátria (e o partido de que ele faz parte). Quando o eixo do candidato é a putativa (sim, a putativa – e já se verá a razão) ausência de passado, apenas o cansativo recurso à imagem de uma salvífica personagem. Não aprendemos que o sebastianismo não é a cura, apenas o sintoma maior do coma dormente.

Regresso à retórica da personagem sem passado. Quem pode construir reputação, arregimentar apoios à custa de uma folha em branco, de um passado que é tão imaculado quanto inexistente? Quem pode confiar numa pessoa que aparece vinda do nada, como se o arrivista caído de pára-quedas conseguisse, só por assim chegar, sem passado, cativar as simpatias de multidões? A tentação para contrastar com a mediocridade dominante é o lenitivo que empurra Passos Coelho para a imagem do político sem passado, o político que nunca o foi. As pessoas estarão cansadas dos carreiristas que só são alguém na vida porque se souberam mover nos corredores da partidocracia. O sucedâneo de Barack Obama para consumo doméstico aposta na diferença: ele andou resguardado dessa mediocridade porque andou a fazer carreira fora da política. Eis o seu cadastro imaculado, o tal “não passado” que é a cenoura para o eleitorado enfeitiçado pela arte da retórica. A juntar a outros ingredientes que fazem parte da poção mágica da ambiguidade do candidato: não é de esquerda nem de direita, é liberal e defende a intervenção do Estado ao mesmo tempo – um caldo fétido que nidifica num atraso de vida chamado “consenso”.

Só que esta retórica é, de uma penada só, um embuste e um ardil. Ardil porque sintoma da doença terminal que apoquenta a santa terrinha quando alguém poisa na sopa de letras que é o leque de políticos e esse alguém diz “eu não tenho passado”. E um embuste, já que a estratégia de Passos Coelho é um estalinista revisionismo do seu passado. Ele afinal tem um passado: há que não esquecer os muitos anos que vegetou na liderança de um dos maiores miasmas da partidocracia caseira – as “jotas” dos partidos.

E mal andaria a pátria se apenas pessoas “sem passado” vingassem. Teríamos quase dez milhões de candidatos a primeiro-ministro.

6.5.08

Da monarquia circense


A notícia era esta: “reis da Suécia atraem uma multidão”. Suas altezas estão de visita a Portugal. Algures terão sido agraciados com uma imensa mole humana de nativos que lhes foram prestar vassalagem. Eu tenho outra interpretação: o povo gosta de aberrações, quanto mais não seja para se certificar que não faz parte do leque das aberrações. Em tempos que se convencionou apelidar de “pós-modernos”, até que ponto uma monarquia, com as suas características anacrónicas, não é uma aberração?

O povo acampa nas imediações do local onde suas altezas hão-de colocar os pés tão nobres. A curiosidade pelas coisas raras mobiliza as massas. Faz-me lembrar as gentes que se acercam do acampamento onde está um circo, com as roulottes e as jaulas dos animais espalhados em exposição para saciar curiosidade alheia. E como o povo se delicia com o bulício circense, atraído pela nómada maneira de viver dos artistas que fizeram tantas delícias quando o povo era criança. Detém-se diante das jaulas onde estão aprisionadas as infelizes feras. E olha, extasiado, para os leões e os macacos e os ursos: não é todos os dias que animais tão exóticos se expõem à vista curiosa das gentes.

É assim com os reis. Os reis que ainda preenchem parte de um imaginário de grandeza nacional, da grandeza apregoada pelas narrativas históricas. O mesmo povo que vota à esquerda – há que não o esquecer: só as esquerdas é que protegem os desvalidos – e que se deixa enternecer pela feérica realeza estrangeira de visita à republicana portugalidade. As pessoas ficam inebriadas com a cintilante aura da realeza e, num impulso irreprimível, prestam sentida homenagem aos reis e rainhas que agraciam com a sua presença a humidade portugalidade. E que as pessoas ainda vivem presas à imagem da realeza de um conto de fadas, como se a realeza tivesse mesmo o sangue azul em que os monárquicos religiosamente acreditam.

Eu acho que é tudo diferente. Ainda que haja muito povo “atraído” pela sumptuosidade das monarquias europeias que ainda o são (monarquias; porém, inanes sumptuosidades), debaixo das aparências vem o verdadeiro sentir. A indomável atracção pelas aberrações é o que leva a maralha a enamorar-se pelo circo. As monarquias são um circo à sua maneira: um espólio onde se resguarda a retórica de um estatuto sobre-humano, o que é devido aos reis e rainhas e respectiva prole. Eles são diferentes, como se tivessem carne e sangue feitos de uma essência diferente. Todavia, a realeza também adoece, também tem os seus pecadilhos, também fenece. Afinal o tecto quase divino onde a realeza acama é uma falácia sem fundo.

Descontam-se da análise as dondocas que tecem a sua vida à volta das fantasias alimentadas pela imprensa cor-de-rosa. Essa imprensa adora registar os passos, todos os passos, que os membros das realezas europeias dão. É interessante notar o esforço – combinado entre essa imprensa e os operadores de relações públicas das casas reais? – para mostrar a face humana dos reis e príncipes. Uma certa banalização da realeza, para a tornar mais próxima do cidadão comum, que ainda assim não deixa de ser um “súbdito”. (E ainda faz sentido olhar para alguém como súbdito de outrem?) Esta campanha de relações públicas ensaia a quadratura do círculo: enquanto se esforça por aproximar a realeza do comum dos mortais, fazendo parecer os membros da casa real com pessoas de carne e osso, ao mesmo tempo mantém-se intocável o trono e a coroa que dão continuidade à imagética tão anacrónica da realeza.

É uma sensação estranha: por um lado, reis e príncipes mostram a face humana, querem ser quase iguais aos súbditos. Também eles resvalam para os pecados tão humanos, as fraquezas, vícios, hobbies, o lado mundano que todas as pessoas têm – até os que se julgam imunes ao mundano. Pelo lado contrário teima a pose majestosa da realeza. Têm sempre dotes especiais: são os melhores por onde passam, desde os bancos da escola aos bancos da universidade, passando pela tropa onde dão o melhor exemplo aos varões que hão-de prestar serviço militar. Ninguém questiona por que são sempre a nata da nata. Desconfio de tamanha proficiência: suspeito que os serviços secretos se intrometem na gestão escolar, nos serviços pedagógicos das universidades, nas casernas onde convivem com o generalato, só para subtrair as influências que se jogam a favor dos príncipes que são tão magníficos nas suas capacidades intelectuais. Assim como assim, os súbditos têm que ficar sossegados: no futuro hão-de ser governados por um predestinado.

Tudo isto é circo, um circo faustoso. Com o condão de anestesiar o povo, boquiaberto com a sumptuosa corte que adeja a realeza, na obrigatória genuflexão às altezas que passam revista aos súbditos. Mesmo aos súbditos que o não são.

5.5.08

A pior profissão do mundo


Li há dias: uma brigada municipal de captura de cães maltratou um rotweiller. Terá sido chamada porque alguém fez a denúncia: o cão era feroz e teria atacado uma criança. Não se tratou de averiguar se a denúncia tinha um fundo de verdade. Havia que atalhar o mal pela raiz. A brigada dos valentes caçadores de cães fez-se ao caminho.

O resto, a fazer fé nos relatos de familiares do dono do cão, fez lembrar o cenário popularizado por séries de acção que retratam o combate ao terrorismo islâmico, com os atropelos à dignidade humana quando os agentes de contra-terrorismo usam tudo e mais alguma coisa nos interrogatórios. O cão terá sido barbaramente agredido, sem ter oferecido resistência aos captores. Quando os donos o foram buscar ao canil de Lisboa, o animal estava uma lástima. Até um olho fora do sítio tinha. Lacerações sem conta. E mal se tinha em pé. Como se não bastasse a violência sem sentido, o bicho foi atirado para uma gaiola imerso no seu sofrimento – como se fosse o golpe fatal, o derradeiro castigo pela culpa de que vinha acusado pela denúncia anónima. Ou pagava pela fama, a má fama que a raça dos rotweiller tem. Só havia um problema: quando a brigada o encurralou, na vizinhança ninguém deu conta de algazarra que seria a justificação (seria?) para a imbecil violência da brigada. Porque os caçadores de cães poderiam desculpar a sua violência dizendo que tinha sido em auto-defesa, perante a resistência oferecida pelo cão. Se o cão não ladrou, se ninguém notou barulho nas imediações do sítio onde a violência foi infligida a sangue frio, a estúpida brigada de captura de cães fica sem tapete para a sua acção. Para a sua acção ignominiosa.

Já tive o infortúnio de ser testemunha de algumas capturas de cães vadios por estas brigadas. Acho que não é preciso ter a sensibilidade apurada para os direitos dos animais para ficar chocado com a imagem de meia dúzia de homens abrutalhados munidos de redes e varas que têm na extremidade um laço a correr atrás de um cão, numa épica perseguição que às vezes termina mal, com a captura do cão. E às vezes termina bem, quando o canídeo ilude os perseguidores e escapa. Só que os funcionários têm destreza e apanham os cães, vezes de mais. Terão complemento de salário à comissão, por cada animal que capturam?

Esta gente recrutada para a brigada municipal de captura de cães vadios deve ser escolhida a dedo. Só por decoro não serão publicados em edital os requisitos exigidos – de resto, o edital faria constar, como predicado essencial, um ódio de morte aos cães como condição de excelência para o recrutamento. É pena que a comunidade chinesa esteja bem estabelecida nos negócios. Se é verdade que os chineses comem cães – o que revela o lugar tão baixo que o cão ocupa na escala de afectos perante os animais – se houvesse chineses desempregados, ou chineses em estado de necessidade como acontece com imigrantes de leste, as câmaras municipais teriam nos chineses matéria-prima de excelência para engrossar as fileiras das brigadas que erram pelas ruas em vigilância dos canídeos que andam a conspurcar a boa consciência dos cidadãos tão incomodados pelas matilhas que não pertencem a ninguém.

Sim, esta é a pior profissão do mundo. Não são os lixeiros, ou as prostitutas, ou os políticos. São os caçadores municipais de cães. Do alto da sua boçalidade, na ausente comiseração por cães que vieram ao mundo sem lhes calhar em sorte terem um dono, uma casa que os acolhesse da rua selvática por onde erram. O gélido coração que lhes dá alento para a perseguição que finda com a captura do cão, em plena luz do dia, diante do olhar chocado dos transeuntes, atónitos, sem reacção ao serem involuntárias testemunhas de tamanha violência. É a pior profissão do mundo, não só pelo que fazem, pela maneira desapiedada como o fazem, mas também porque devem ser os funcionários públicos mais odiados quando entram em acção e ferem a sensibilidade dos transeuntes. Mais odiados que os funcionários dos impostos, outros caçadores, os que zelosamente impedem que os cidadãos deixem de pagar os impostos devidos.

Estas brigadas espicaçam em mim uma revolta que não se traduz em palavras. Tanta que às vezes sonho, acordado, com brigadas de sinal contrário – brigadas que andariam a vigiar as brigadas que querem caçar os cães vadios, e que teriam mais destreza para boicotar a tarefa dos caçadores de cães. Nem que houvesse que caçar os caçadores de cães.

4.5.08

2.5.08

Exorcismo em público (a reaparição de Jardel)


Não é novidade: comunicação social sedenta de sangue e lágrimas, vasculhando nas profundezas do lixo social para depurar as desgraças que mobilizam as atenções. Uma peregrinação infindável, até ao fim do mundo se preciso for, para expor desgraças humanas e os seus protagonistas. Parece um jardim zoológico, um cortejo de grotescas aberrações que se revelam aos olhos indiscretos, a toda uma audiência anestesiada pelo espectáculo feérico e ao mesmo tempo sinistro que aparece nos ecrãs.

Ontem o papel de vítima resgatada de um caminho transviado coube a Jardel. A mim, o papel de voyuer inadvertido, apanhado na tentação de ser mirone de uma desgraça alheia transportada para o espaço público. Se calhar, não tão inadvertido quanto isso. Ali estava alguém que meses antes era farrapo humano, com uma tremenda vontade de mostrar a sua reabilitação. Com uma impressionante humildade, admitindo os erros cometidos, a cocaína que o desgraçou, as más companhias, a depressão, o casamento destruído, a carreira tão brilhante desbaratada. E nós, diante da televisão, convidados a partilhar aquele exorcismo público, como se fôssemos a caução da sua recuperação.

E depois da entrevista, o que sobra? O ar pungente do jornalista a fazer as perguntas mais difíceis (foi só cocaína? Começou a consumir cocaína em Portugal, ou foi antes? Consumiu a droga na véspera dos jogos?). A sinceridade desarmante de Jardel, como se quisesse remir os tantos erros de outrora, a imagem de um homem que está reabilitado, senhor de si mesmo de que não há-de voltar a pisar as vielas sombrias onde o exaustivamente proclamado deus protector estaria ausente, regressado ao sonho que alimenta a felicidade dos que se inebriaram com os seus golos. Também haverá o céptico meio do futebol, orelhas moucas ao pedido de segunda oportunidade que Jardel fez - este meio tão senhor das suas certezas, tão pronto a sentenciar que não há remissão possível e que a idade de Jardel é o esteio tardio para a protestada recuperação.

Não sei se aquele homem aparentemente renovado, de olhos marejados, fazendo um esforço enorme para não se lavar em lágrimas ao rever os esconsos caminhos por onde andou no passado recente, não sei se não seria a imagem de muitos que, à sua maneira, teriam alguma reabilitação a empreender. Nisso, um exemplo que a televisão trouxe ao espaço público. Não mais uma aberração que diverte, noutro momento circense em que a televisão é pródiga. Todavia, o registo não melhorou. Por entre a imagem de reabilitação que Jardel quis trazer a público, como se fosse um grito lancinante de que o bom Jardel está de volta - queiram-lhe dar uma oportunidade para o provar - há o aproveitamento moralista. A mensagem subliminar: afinal todos somos capazes de subir ao pináculo da reabilitação de tudo o que queiramos retomar, tarefas hercúleas ou não. E, note-se, com a ajuda do bom deus, a palavra mais dita naqueles minutos de entrevista.

Sentimentos divididos no fim da entrevista. A humildade e a coragem de Jardel, pois poucos estariam dispostos a dar a cara em público na confissão sem peias dos erros vindos do passado. E a inquietante sensação de ter feito parte de um imenso público, toda a audiência daqueles instantes, no papel de juiz a quem era mendigada a absolvição colectiva de um Jardel que quer vir outra vez para a ribalta no que sempre soube fazer. A desconfortável sensação de ter ido no engodo, imerso numa curiosidade mórbida de vasculhar no passado de um homem, no passado que a moralista televisão queria ali sublinhar na sua cor pouco recomendável.

Queria, se pudesse, fazer o que Jardel estava ali a tentar: apagar um passado. No meu caso, queria voltar atrás no relógio: regressar ao início da entrevista a Jardel e negar a minha presença à frente da televisão. Adivinhasse - e talvez pudesse adivinhar - que o curso dos acontecimentos seria o que acabou por ser. Evitaria ser testemunha, e juiz impenitente, de um exorcismo em público.

1.5.08

Feriado, porquê?


(Advertência: texto eventualmente “reaccionário”)

Pausa para o merecido descanso dos trabalhadores. O primeiro de Maio, reduto intransponível dos direitos adquiridos. Dizem: intocável, o feriado, sinal do progresso social, ultrapassada a longa via sacra que legou um avançado patamar de direitos sociais dos trabalhadores. Já não são a classe oprimida de outrora. Celebrar o primeiro de Maio, com direito a feriado e tudo, é caucionar a memória das conquistas que perfumam a história da humanidade com um travo de justiça social.

Aos mais exacerbados, aos que persistem numa efabulada teorização do mundo em que tudo continua a ser reduzido à dicotomia entre os oprimidos e os opressores (trabalhadores e “patrões”), uma interrogação: a celebração do primeiro de Maio, todas as conquistas que a humanidade (ou parte dela) pôde resgatar, afinal a prova que a retórica marxista perde sentido de existência? Ainda fará sentido falar em luta de classes, como se as pessoas vivessem acantonadas no mundo binário feito de opressores e oprimidos? Os avançados níveis de protecção dos direitos dos trabalhadores, na comparação com tempos idos, não são a prova definitiva de que a luta de classes e a opressão congénita dos nefandos capitalistas são apenas uma recordação do passado, trazida por conveniência de estratégia para o presente?

E se em vez de se perder um dia de trabalho com a celebração do descanso dos trabalhadores, como museológica revisitação do marxismo exaurido, este dia deixasse de ser feriado? Não resisto ao exemplo que, já o sei, logo será atacado pelos defensores das “conquistas da classe trabalhadora”: no Reino Unido não é feriado. Será o Reino Unido mais atrasado por se recusar a festejar em feriado o dia do trabalhador? Será menos democrático? Será um local onde o trabalhador não é respeitado como nos outros sítios onde nem sequer é permitida a ousadia de questionar a existência deste feriado?

Tenho um problema com estas visões que resumem tudo a um cenário muito a preto e branco, aliás só a preto e branco, como se não houvesse tonalidades intermédias. E não compro a simplista lógica de remeter uns para o papel de maus da fita, enquanto do outro lado surgem imaculadas personagens embebidas em bondade. É disto que é feita a narrativa dos direitos dos trabalhadores. Um mergulho no baú do tempo para recordar como os trabalhadores foram tão oprimidos, como estavam expostos à vontade dos empresários, tão desprotegidos nos seus direitos. Uma relação desigual, pois a titularidade dos meios de produção era o esteio para o insidioso aproveitamento das classes necessitadas. Que, tão miseráveis, se expunham através da sua pobreza, num estado de necessidade tal que só lhes restava subordinarem-se aos terríveis capitalistas.

Mas isso foi lá atrás, na penumbra do tempo. A modernidade e a consciência dos homens - dos que lutaram pelos direitos dos trabalhadores e dos capitalistas que souberam ler os sinais do tempo - trouxeram dignidade às relações de trabalho. Tanto que há quem diga que na Europa a relação passou a ser desequilibrada, mas agora a favor dos trabalhadores. Do lado de lá da barricada haverá quem se apresse a denunciar a “cartilha neoliberal” que é catecismo destes - economistas, sociólogos, responsáveis de organizações internacionais - que apontam a rigidez do mercado de trabalho como motivo para a Europa estar a ficar para trás. É a maneira mais expedita de encerrar uma discussão: desmerece-se a filiação ideológica, como se à partida “neoliberal” (no que quer que isso signifique) seja pecado tão irremissível que nem sequer há discussão que mereça ser alimentada.

Mete-me confusão esta lógica dualista, os bons que são os trabalhadores e os maus que são os malévolos (todos) capitalistas. Sempre suspeitei das historietas com laivos de infantilidade, o registo “Robinbosquizado”. A realidade tem outra espessura, muito mais densa que a simplicidade do retrato que acantona toda a gente em duas categorias. Insistir em tratar uns como malévolas criaturas e os outros como desprotegidos por definição, como o faz o direito do trabalho com o princípio que, na dúvida, se inclina para o lado do trabalhador, é a expressão contemporânea disto. Admito que há empresários que não hesitam em espezinhar direitos dos trabalhadores se ninguém estiver atento. Como haverá tantos e tantos trabalhadores que, se puderem, tudo fazem para se esforçarem o menos possível. Lá está: as categorias não são assim tão herméticas como se pensa.

Encarar as relações laborais como terreno fértil para a conflitualidade é desperdiçar energias que podiam ser aproveitadas por todos, trabalhadores e capitalistas. Se, em vez de se convencerem que remam para lados contrários, se empenhassem em colaborar uns com os outros. A ideia da guerra civil permanente entre uns e outros só serve para manter em actividade anacrónicos sindicatos. Porventura a forma mais digna de celebrar o dia do trabalhador não será a sagração do oposto do que notabiliza os trabalhadores - o trabalho, e não o descanso.

30.4.08

Desarranjo ortográfico


Vai grande a tempestade por causa do novo ortográfico que vai uniformizar a norma da escrita em português. Uma divisão em duas metades: os que são favoráveis ao acordo, os que são seus detractores. Mesmo entre os especialistas da língua se esgrimem argumentos favoráveis e contrários. É salutar que haja assim tanta divisão na sociedade. Pelo menos, aplaca o doentio “consenso” que nos convida a um acrítico consentimento de soluções pensadas por iluminados.

Os que investem furiosamente contra o acordo ortográfico escudam-se em dois argumentos. O argumento conservador: estamos habituados a uma determinada grafia, não faz sentido reaprendermos uma nova grafia que exige libertar amarras mentais tão enraizadas. Este argumento anda de braço dado com o segundo: ao que consta, as soluções do novo acordo ortográfico selam a capitulação do “português de Portugal” face ao “português do Brasil”. O que é inadmissível, no fervor nacionalista que recusa a capitulação diante dos bárbaros que colonizámos e que tiveram a ousadia de reinventar uma nova grafia, uma maneira alterada de escrever e falar a língua. (Desconto aqui o implausível argumento de oposição ao acordo baseado na patética necessidade de atirarmos os livros todos para o lixo, pois estarão desactualizados quando o acordo entrar em vigor. Não o considero por destoar de uma discussão lúcida e intelectualmente honesta.)

Não me revejo no argumento conservador. A língua evolui com as necessidades, a entrada de novas palavras no léxico, a aceitação de estrangeirismos, novos maneirismos que remetem palavras para o anacronismo. A língua é viva e, como tal, aberta a reconfigurações de norma. Pode-se discutir se cabe ao legislador - aos legisladores dos países de língua oficial portuguesa - impor por decreto uma norma única, ou se seria mais razoável acolher a diversidade de usos e costumes que consagram diferentes formas de escrever e falar nos países de língua oficial portuguesa. Se a uniformização não será um colete de forças que aniquila as especificidades da língua naqueles países, com a agravante de mexer com sensibilidades, pois há-de sempre haver (como se vê por cá) quem veja no acordo uma cedência ao Brasil. Apenas ao que interessa: a língua viva, que carece de adaptações à medida que o tempo passa. Nenhuma geração pode ter a pretensão de emoldurar a língua e fechá-la à evolução natural, ou adiar a evolução para gerações vindouras. Este argumento conservador - “estou habituado a escrever assim e assado e não é agora que vou mudar” - esgota-se no seu conservadorismo sem sentido. Se assim fosse, ainda hoje escreveríamos determinadas palavras com “ph” em vez de “f”.

Quanto à suposta capitulação face aos interesses do Brasil, soa-me a preconceito xenófobo. E mesmo que seja ausente a simpatia em relação ao arquétipo do brasileiro - aquela bazófia inconsequente, o gozo em fazer anedotas em que o português é achincalhado, uma certa sobranceria que revela um chauvinismo em forma terceiro-mundista - não custa reconhecer que os brasileiros souberam reinventar a língua, dar-lhe vestes mais imaginativas, desprendê-la de um hermetismo que o português nativo tem dificuldade em se libertar. Haverá algum mal em alterar a língua e pô-la de acordo com uma norma que seja mais eficaz? Haverá algum problema em chegar à humildade intelectual e reconhecer que os brasileiros sabem tratar melhor a língua, apesar de todos os preconceitos que teimam em considerar que no Brasil a língua portuguesa é destratada?

Ao que vejo, um acordo ortográfico tem nenhuma importância. Estes são tempos em que vingam as elaboradas teorias dos pedagogos, teorias que só eles têm capacidade para perceber. Ora, se agora se defende, entre os cultores das ciências da educação, que ao ensinar a língua não se deve penalizar as criancinhas se derem erros ortográficos, nem sequer corrigir esses erros, que sentido faz um acordo ortográfico? Os especialistas da pedagogia são os grandes inimigos dos linguistas. Os esforços destes em revelarem uma norma límpida esboroam-se nas avançadas teorias dos pedagogos. E se há uma ministra da educação que grita de pulmões abertos que os alunos não devem, não podem, reprovar, para quê exigir tanto de um acordo ortográfico?

Se calhar, o que tem lógica é haver uma norma ortográfica por cada falante de português. Até porque se vê, na literatura, como a língua é reinventada (Saramago e a ausência de pontuação, por exemplo). Até porque os mais jovens, a geração SMS, só sabe escrever por sinais - quase como se fossem sinais de fumo, numa linguagem codificada que parece finlandês para quem não esteja habituado a ela. Até porque há educadoras de infância que, ao ensinarem os rudimentos da leitura e da escrita às criancinhas, ensinam-nas logo a escorregar para os pontapés na gramática (o que dizer quando na sala de aula do infantário está exposto o cartaz assim escrito: “iniciação á leitura”?).

29.4.08

Quem depura as ideias do incrível senhor ministro das agricultura?


Entre a brigada de cromos que pertence ao governo, o ministro da agricultura não é dos piores. Nestes anos todos, destacou-se quando disparou contra o líder do CDS numa pugna provocada por contundentes acusações contra o ministério da agricultura por não pagar atempadamente um dos inúmeros subsídios com que os agricultores são agraciados. O ministro Jaime Silva defendeu-se com as armas que encontrou a jeito: em vez de responder às acusações, enredou-se num chiste de putativo bom gosto acerca do milagroso caiar da dentadura do político que o havia criticado.

De resto, passara discreto entre os colegas mais habituados a coincidir palavras com disparates. Até que lhe calhou em sorte pertencer ao grupo, ao alargado grupo, dos membros do governo com declarações estrambóticas. Tudo por causa de uma daquelas acções de fiscalização deveras apertada que descobre um alimento, uma substância ou outra coisa que ameaça a saúde pública. Os vigilantes da saúde alheia não se cansam de levar para laboratório mil e um produtos, testando a compatibilidade com o organismo humano. À mínima desconfiança de alergias e intoxicações, não se repetem os testes: suspende-se a venda do produto. A enorme cautela confunde-se com um arremedo de autoritarismo. Faz parte do património genético deste governo, a sua têmpera autoritária. Em vez de provas irrefutáveis, chegam suspeitas aligeiradas para tomar decisões bombásticas. Tão bombásticas são as proibições que são o amor de perdição destes socialistas curadores da nossa saúde e da nossa segurança.

Alguém desconfiou de uma substância chamada depuralina. Ao que fomos informados, um suplemento alimentar tomado por obesos em tentativa de controlo de peso. Meia dúzia de pessoas foram parar ao hospital. Suspeitava-se de efeitos secundários da depuralina. A amostra tão restrita foi tomada como ameaça à saúde pública. Acontece amiúde: confundir a árvore com a floresta. O que nem sequer chega a ser perturbante, entre a seita que agora manda, é como há decisões que sancionam a falta de rigor científico que é confundir a árvore com a floresta. Também há pessoas que são alérgicas aos lacticínios - e devem o leite e seus derivados ser proibidos?

Quase um mês depois de ter sido espalhado o alarme entre os habituais consumidores da substância, os cérebros do ministério da agricultura deram conta que o alarmismo era infundado. Levantaram a suspensão da venda da depuralina. Os súbditos assistiram da poltrona aos dois pesos, duas medidas em que os engenheiros sociais são pródigos. O ruído ensurdecedor invadiu o espaço público quando a proibição, a tão adorada proibição, foi comunicada. Assertivamente comunicada, para todos sabermos quem manda e quem obedece. Em contraste com a saída de sendeiro, silenciosa e pela porta dos fundos, no anúncio de que afinal a depuralina não faz mal a ninguém. A depuralina, tal como qualquer outro alimento, pode provocar reacções alérgicas. Mas quem admite, no seu juízo, suspender a comercialização de todos os alimentos?

Quase trinta dias depois da mão de ferro do ministro da agricultura, tudo regressa à forma original. Sem humildade do ministério, que não admite o erro de apreciação. Pedidos de desculpa - às empresas que vendem o produto, às farmácias e ervanárias que o comercializam, às pessoas que estavam habituadas a tomá-lo, entretanto remetidas a dias de alarme, a todos os demais que foram testemunhas da leviandade de um organismo que devia ser mais rigoroso na exibição da sacrossanta autoridade - pedidos de desculpa, nenhuns. As empresas que vendem a depuralina estão a pensar em sentar o Estado no banco dos réus, reclamando uma indemnização. Só me espanta como ainda estejam a reflectir sobre a hipótese. Estão à espera de quê?

O incrível ministro da agricultura foi confrontado por um batalhão de jornalistas de microfone em punho. Queriam uma reacção de sua excelência. Palavra alguma acerca do erro de análise dos serviços que ele tutela. Os súbditos hão-de compreender: assim como assim, nos serviços trabalham comuns mortais, tão falíveis como qualquer humano. As autoridades nunca podem apresentar pedidos de desculpa. Não só lhes caem os parentes à lama, como esse exercício de humildade intelectual haveria de ser visto como uma diminuição da sua imarcescível autoridade. Sua excelência o ministro ainda teve tempo de enviar um recado a quem o quis ouvir: não faz sentido pensar-se em indemnizações, ó tola ideia.

Ontem aprendi. Que afinal há governantes que estão a leste do paraíso. Governantes, mas desconhecedores de uma matriz do Estado de direito que governam. Alguém devia ensinar ao senhor ministro da agricultura o princípio segundo o qual a cada macaco o seu galho: o poder político não interfere com os tribunais e vice versa. Ainda nem sequer o pedido de indemnização entrou em tribunal, mas sua alteza o ministro já se substituiu aos juízes que hão-de julgar o pedido, sentenciando a sua improcedência.

Talvez o ministro devesse tomar depuralina. Para o seu toldado discernimento se depurar.

28.4.08

O indispensável


Patologias sem remissão. Uma estranha forma de olhar para o mundo, uma estranha maneira de se olhar para si mesmo que não é ajudada pelo espelho traiçoeiro que teima em enviar sinais da predestinada condição. Um caso de doentio protagonismo. Uma doentia sede de protagonismo, mesmo depois de revés atrás de revés, mesmo depois de só ele não perceber que não está fadado para o papel em que se julga investido por um improvável segredo divino.

E, contudo, Santana Lopes é de uma persistência admirável. Não se cansa de sentir o lombo vergastado pela crítica impiedosa. Eu olho em redor e só vejo um deserto de admiradores. Diria que ele é o seu único, e portanto maior, admirador. O que não percebe, ou ninguém alguma vez terá tido a franqueza de lho notar, é a tremenda falta de jeito para a arte em que, uma vez e outra mais, insiste em aparecer como personagem principal. E aparece. Sem perceber que por vezes as personagens distinguem-se pelo que de mau emprestam à arte.

A patogenia de Santana deve trazer psicólogos e psiquiatras embrulhados em dilemas que nesta altura paralisam a ciência. Haverá dia em que a ciência desatará os seus nós, quando os cientistas por fim tiverem solução para o enigmático caso Santana. Num sítio normal, com personagens cientes do que é o decoro, Santana já tinha encerrado a carreira política. Talvez seja o único a não perceber que o seu enorme feito foi ter entregue em bandeja de ouro uma maioria absoluta nas mãos do PS. Talvez ainda não tenha percebido, passados estes anos após a retumbante derrota, que foi o involuntário abono de família da subida ao poder do medíocre que lá se encontra. Não é brilhante desempenho ser o fautor da vitória de um medíocre seu adversário.

Santana avisara, quando se despediu da liderança do seu partido: ele ia andar por aí. A assombrar, digo eu, as hostes do PSD com a possibilidade de algum dia ressuscitar da tumba onde, fosse este um país decente, já estaria definitivamente enterrado. Pelo contrário. Com uma incrível visão - aliás uma visão que só ele consegue alcançar, na infinita presciência de diagnosticar o improvável - Santana leu uma vez mais nas estrelas: a vitória de Berlusconi em Itália, o sinal inequívoco de que a sua carreira tinha que ser resgatada. Só não explicou por onde se tecem as pontes que autorizam a comparação entre a sua pessoa e a do populista que foi eleito primeiro-ministro italiano. Uma daquelas conclusões que só o fantástico Santana consegue alcançar.

Agora (re)candidata-se à liderança do PSD, numa reincarnação de si mesmo. Já não bastava o PSD ser o sucedâneo de um programa televisivo de humor; Santana dá o golpe de misericórdia, reduzindo os Monty Python ao amadorismo do humor. Nem sequer carece de elaborada explicação para se perceber o inusitado da candidatura. Os socialistas, e Sócrates em particular, estarão em campo a manobrar muito na sombra para que Santana recupere a liderança do PSD. Na repetição das últimas eleições legislativas, com os mesmos actores, quem arriscaria apostar um resultado diferente?

O caso patogénico mergulha nas águas da patetice ao observar a relação tumultuosa entre Santana e a comunicação social. Santana queixa-se da má imprensa que tem. Mas a imprensa, a impiedosa imprensa, não se cansa de lhe fazer a corte. Acerca-se dele a toda a hora, de microfone estendido, ansiosa pelas palavras que Santana tem a dizer sobre tudo e mais alguma coisa. É uma relação de amor-ódio. Santana e a imprensa não passam um sem o outro. Apesar de Santana tanto se queixar de ser maltratado; e apesar da imprensa não se cansar de satirizar a personagem. Só que sem a imprensa, mesmo a má imprensa (ou apesar da má imprensa), Santana cai no esquecimento, deixa de existir como actor político. Aposta na comiseração típica do portuguesinho, que se alia aos coitadinhos - e por isso Santana gosta de fazer o beicinho do injustiçado pela imprensa. E a imprensa deleita-se com os disparates usuais de Santana, ciente que o dislate vende.

Esta relação de amor-ódio reproduz a faceta que mais distingue Santana. A imprensa sempre em redor de Santana, como na adolescência procurávamos o palhaço da companhia para efeitos lúdicos. É o efeito circense. Para chegar ao Santana palhaço. O indispensável palhaço.

25.4.08

E o que é a liberdade?


Liberdade é quando eu posso fazer o que quero”, criança anónima, num infantário no Porto.

O cartaz afixado à entrada do infantário reproduzia as respostas das crianças quando lhes foi perguntado: “o que é a liberdade?”. Descontando as respostas que prenunciam os adultos de amanhã - os lugares comuns a que estamos habituados quando a correcção da moda impõe os seus parâmetros - e descontando uma resposta que rompia com a normalidade fixada (“liberdade é quando sou expulso”!), foi aquela resposta que ficou na retina.

Na sua inocência, a criança não entendeu que há uma diferença abissal entre o que formulamos no terreno idílico dos desejos e o que se torna possível. Há-de provar o amargo sabor da liberdade possível, de uma liberdade que se mascara de si mesma. Há-de crescer, perder a ingenuidade e, ao crescer, serão numerosas as oportunidades para perceber que a liberdade é uma outra coisa qualquer. Não o que ela agora julga ser. Terá muitas decepções enquanto aflorarem os vestígios desta ingenuidade desarmante. A menos que cresça depressa, à medida que for suportando as dores trazidas pela desilusão da liberdade condicionada, da liberdade travestida, da liberdade em distorção de si mesma. Será juiz supremo das gerações anteriores que destruíram a sua tão elevada ilusão de liberdade. Sentá-las-á no banco dos réus, acusadas da perversão dos padrões, da liberdade enfim pervertida - aquela que desfila diante dos seus olhos, a decepcionante liberdade que tolhe os movimentos.

Haverá quem discorde da candura da criança que postulou liberdade daquela maneira. Dirão que nunca a liberdade pode ter a latitude formulada pela criança. Que só o desconhecimento do mundo, e da vida, acalenta tanta ingenuidade. Uma liberdade assim é uma liberdade impossível. Porque seria um labirinto de liberdades sobrepostas, um emaranhado de conflitos, as liberdades de muitos atropelando-se nas liberdades de outros tantos na expressão de interesses de sinal contrário. Contraponho, em defesa da criança: a liberdade vem precedida da responsabilidade. É seu pressuposto. Aos que estranharem a extensa liberdade definida pela criança, porventura o sinal dos tempos: a exaltação de uma liberdade que se fica pela metade, uma embriaguez de direitos deixando os deveres sempre endossados a outrem. A pesada factura da responsabilidade, que os costumes instituídos convidam a abdicar.

A interiorização da responsabilidade individual revela o sentido da liberdade redescoberta pela criança. De cada vez que somos estorvos à responsabilidade que nos cabe, à responsabilidade pelos actos que cometemos, pisamos o alarme da liberdade. Somos fautores da enviesada liberdade. E entregamo-nos numa imprudente avenida: os que exercem o poder ficam com um pretexto para cercear liberdades individuais, no paradoxal objectivo de preservar as liberdades de todos. A retórica compensa, a julgar pela adesão das pessoas ao jogo eleitoral que sanciona a mão pesada das autoridades que não hesitam em esmagar as liberdades individuais com o pretexto de salvar a liberdade de todos. Uma espada que corta a eito, esboroando a teia de liberdades que os antepassados foram deixando como património genético de uma cidadania de emancipação.

Cedemos à vontade dos sacerdotes das liberdades reprimidas. Porventura, essa é uma ingenuidade maior que a ingenuidade de que viria acusada a criança que postulou a liberdade como o acto de fazer o que quiser fazer, quando quiser fazer, sem peias que não sejam as ditadas pela sua consciência. A cedência em nome de uma miragem: ao prescindirmos de um quinhão da liberdade individual, convencidos que as liberdades de todos se saldam reforçadas, nem damos conta que é na esfera individual que as liberdades se sentem. E não damos conta que uma liberdade condicionada é a sua negação.

Diante das fétidas liberdades que nos são agraciadas - como se as liberdades não fossem inatas à pessoa - rejubilei ao ler aquela frase no cartaz alusivo à data que hoje se celebra. Não é a liberdade torcionária de uns, ou a liberdade com muitas redes e espelhos de outros. Apetecia obrigar os fautores do comportamento desviante das liberdades a uma visita forçada ao infantário, só para se deterem, por alguns minutos, diante do cartaz onde estava vertida, a letras que soam a ouro, a genuína definição de liberdade. Podia ser que aprendessem.

24.4.08

Peixe fora da água (um portuense desidentificado)


Nasci no Porto. Tirando um interregno de dois anos, sempre foi a minha cidade. A cidade que, como cidade, como coisa física, me enternece. Há aquelas imagens que a celebrizam pelo mundo fora, o casario amontoado numa vertiginosa descida rumo às águas do Douro, que embevecem turistas e acalentam o orgulho dos nativos ao serem testemunhas daquele embevecimento. E o rio, outrora furioso, mas agora domado pelas barragens que selam o progresso, como a obra humana consegue domesticar a poderosa natureza.

E, contudo, há vezes em que me sinto forasteiro na minha cidade. Há vezes em que a bazófia dos nativos traz até a mim os sedimentos de um forasteiro que não se revê na idiossincrasia que vinga. Dizem que o Porto é a cidade invicta. Com garbo. Diria, até: com soberba. A condição invicta, o burgo que jamais foi franqueado por hordas de invasores, semeia altivez entre os portuenses.

Valeria a pena deitar o olhar sobre esta soberba, a atracção pelo abismo que é viver agarrado aos vestígios legados pelas narrativas da História. Dir-me-ão: a têmpera de um povo é feita da espessura dos tempos imemoriais, das sucessivas gerações que construíram, destruíram e reedificaram uma cidade. Os traços de uma personalidade colectiva que são transmitidos de geração em geração, de pessoa em pessoa. Ser-me-á permitida a discordância, a metódica discordância: as generalizações são um escorregadio terreno onde as falsificações se entretecem. Sou incapaz de compreender os diagnósticos tão assertivos sobre o “sentir colectivo”, como se todos os indivíduos fossem reconduzidos a um arquétipo de onde não há mercê de escapar, nem dissidência admissível. Faz-me lembrar os tonitruantes astrólogos e similares que desfiam uma sabedoria implacável que acantona todas as pessoas a uma dúzia de grupos - os signos -, numa cristalização que arremete contra a rica diversidade que são as pessoas.

A sobranceria portuense apresenta-se na sua inanidade. O Porto é a invicta cidade; e depois? Que nos diz isso sobre a cidade, sobre os seus habitantes? Traz-lhes especiais predicados, uma aura invencível herdada pela genética, só porque os antepassados que por cá viveram tiveram a arte de manter a cidade inexpugnável a todos os invasores? E, ainda que o seja, o que ganha a cidade em incessantemente enfatizar o atributo? Eis a soberba que se esfrega na face dos outros, dos que não tiveram a honra de nascer portuenses, ou daqueles que entretanto adquiriram a condição de portuense pelos laços afectivos que se foram assimilando. Na invocação da invicta condição há uma afirmação para o exterior, uma vaidosa agressão aos inditosos que escaparam ao privilégio portuense. Como quem esfrega no rosto dos demais (e sabe-se quem são os visados: os inimigos que dão alento à capital tão centralista) que há quem se gabe de nunca ter sido dominado por gente estranha, feito de que aos outros, pela sua franqueza inata, é coisa estranha.

E, porém, as pessoas não se dão conta da contradição em que se encerram ao elogiar a invicta condição da cidade. Será a recusa dos tempos modernos, dos tempos em que vinga o hedonismo que remete os prazeres do espírito para o reduto da arqueologia. É uma cidade invicta que tece loas ao seu virginal estatuto. Uma cidade frígida. Surpreendentemente nórdica, uma ilha no meio da mediterrânica natureza das terras semeadas no sul da Europa. Será o frio granítico que empresta esta frigidez. E um rumo sem sintonia com os tempos de agora, quando tanto se gaba o que as pessoas aprendem com se abrem aos outros, os que vêm de fora. A constante invocação do Porto invicto é um alçapão onde se deitam os nativos convencidos da sua distinta natureza, como se a invicta condição trouxesse algo de nobre, um traço que os outros teriam necessariamente que invejar. Este ensimesmamento traz ao Porto a letargia de uma cidade fechada sobre si.

Com sequelas: é esta sobranceria portuense (diria, “portista”, no seu fundamentalismo irreprimível) mentora de uma violência verbal que só tem fátua grandeza. Alimenta rivalidades espúrias. O que sobra da invicta condição enaltecida à exaustão é um ódio visceral contra a centralista Lisboa. Um contra-senso na pequenez da portugalidade e no seu contexto histórico - há que o lembrar, o país europeu com as fronteiras inalteráveis há mais tempo, um país pacífico, sem tensões étnicas ou regionais, excepto as artificialmente alimentadas por ostentações gratuitas de regionalismo sem significado.

É nestas alturas que descubro em mim o portuense desidentificado.

23.4.08

O que têm em comum Danica Patrick e Carme Chacón (e, já agora, Manuela Ferreira Leite…)?

Danica Patrick venceu uma prova da IRL - o equivalente à Fórmula 1 nos Estados Unidos. Foi a primeira dama a conseguir o feito. Na Europa não temos nenhuma senhora a ombrear com os loucos cavaleiros do asfalto. Nisto, os Estados Unidos estão na vanguarda e devem merecer das ásperas feministas os maiores encómios, o exemplo para o outro lado do Atlântico. A prova que não são as menores capacidades físicas que impedem o sexo feminino de chegar aos triunfos numa competição que se julga feita à medida dos homens.

Serve também para destruir o mito de que as mulheres são aselhas ao volante. Faz parte da mitologia urbana contemporânea: vamos nas ruas e vemos, lá à frente, um automóvel a fazer asneira da grossa. E intuímos: deve ser uma senhora. Segundos mais tarde, quando passamos ao lado do aselha que entretanto passa o vexame da reprovação mediada por um coro de buzinadelas, a confirmação: “só podia ser uma mulher…”. Danica Patrick, uma franzina menina, é o estandarte do sexo feminino capaz de rivalizar com os coriáceos pilotos na arte de domar infernais máquinas com mais de oitocentos cavalos. Não é para o comum dos mortais. Só para os que têm um dom especial. Ela é a prova cabal que também há mulheres investidas neste dom. Por confirmar ficam as teorias que asseveram que só os homens sabem da poda. E as teorias que se socorrem da fisiologia para demonstrar que as mulheres têm apetência para a desconcentração quando são visitadas pela menstruação mensal. Se isso fosse verdade, Danica Patrick não poderia correr algumas vezes.

Carme Chacón é a nova ministra de defesa espanhola. Primeira exaltação dos enamorados pela esquerda modernaça cujo papado é pertença de Zapatero, e das feministas sem remissão: um demorado aplauso pela coragem de nomear uma mulher para tutelar a tropa. Os generais passam a dever respeito a uma mulher. Sinal dos tempos. Seria imaginável que a vetusta instituição castrense fosse obrigada a ficar em sentido perante uma mulher? E ver as tropas hirtas e solenes em parada, prestando vassalagem a uma mulher que, com o ar grave da ocasião, passa revista às tropas? Para adensar a ousada decisão, a senhora ministra está grávida de sete meses. Combinem-se os dois aspectos - uma ministra da tropa e as fotografias da ministra pançuda passando revista às tropas - e compreende-se a exaltação dos sectores que se deixam levar pela aragem modernaça que a coisa transpira.

Que adianta protestar contra a política que tudo empenha nos sinais exteriores que são o refúgio da inanidade? Os aplausos demoram-se, sem que a audiência extasiada dê um passo atrás e pergunte se a pessoa tem perfil para ser ministra da defesa. Pelo que me informei, não terá. Também, nos dias que correm, os ministros disto ou daquilo nem têm que perceber da poda. Basta rodearem-se de competentes assessores que lhes fazem a política. O ministro limita-se a dar a cara, a ser o porta-voz qualificado pelo dom da retórica que anestesia as massas. É enternecedor ver como uma decisão ousada, potencialmente chocante (para os costumes), recebe tantos encómios e é logo sinalizada como prova do arejamento dos tempos. Eu diria que esta é a prova acabada de que hoje governar é só uma encenação. E, pela encenação, a demissão da democracia servida na bandeja da ilusão em que o eleitorado é convidado a embarcar.

Terceiro acto: a democracia indígena terá por fim o seu acto de maioridade (na perspectiva da igualdade de género) se Manuela Ferreira Leite conseguir ganhar a corrida para a liderança do maior partido da oposição. Depois de amanhã a democracia celebra o trigésimo quarto aniversário. Chega à maioridade com dezasseis anos de atraso - e isto no pressuposto dos militantes daquele partido se convencerem dos méritos da candidata. Os ventos da vanguarda da igualdade de sexos sopram na direcção do Portugal dos conservadores costumes, e logo num partido tão abraçado ao conservadorismo. Socialistas com inveja? Sócrates que se acautele.

E anda meio mundo excitado com a emergência de tantas mulheres (faltaria falar da senadora Clinton, mas não me apetece). Vangloria-se o feito de Danica Patrick, esquecendo que nos distantes anos oitenta Michelle Mouton venceu o campeonato do mundo de ralis (certo: tinha melhor carro que a concorrência). E que na mesma altura houve uma mulher que conseguiu ser primeira-ministra no Reino Unido (certo: uma “mulher de calças” que provoca incómodo na causa feminista por ter sido responsável pelo regresso ao conservadorismo que não é do agrado das vanguardas feministas). Nada do que se proclama como sinal do arejamento dos tempos é inédito.

Porventura por uma incapacidade de compreensão que me corrói, não percebo este discurso que teima em manter acesa uma guerra dos sexos. Como se os sexos resumissem características exclusivas, como se todas as mulheres fossem iguais e todos os homens fossem iguais. Este hermetismo incomoda-me. Posso, por exemplo, confessar que tenho o que se convencionou chamar “sexto sentido feminino” sem ter que suportar comentários jocosos (dos marialvas) ou a incredulidade militante (das militantes feministas)?

Tempos modernos. Vingam as mulheres. Vinguem as mulheres. Assim como assim, os cépticos eternamente insatisfeitos com o andar do mundo não terão hesitação em apontar o dedo ao sexo masculino que tem tido os cordelinhos do mundo desde tempos imemoriais. Como dizia o escritor, gosto tanto de mulheres que se reencarnasse mulher, seria lésbica. Ou - e só então - feminista.

22.4.08

Caridade socializada?


Chego, através do blogue Ladrões de bicicletas, ao manual da recusa da filantropia dos ricos. É que está na moda a caridade dos ricaços, que decidem constituir fundações milionárias para onde vertem uma percentagem - decerto ínfima - das suas imensas fortunas. Do blogue Ladrões de bicicletas chegam cinco razões para que a esquerda seja contra esta caridade. Destaco as que me parecem mais incompreensíveis no plano da argumentação.

Em primeiro lugar, argumenta-se que a filantropia “corrói a democracia. Por que devem ser os mais ricos a definir as prioridades sociais? Devem ser os governos eleitos, impondo sistemas fiscais realmente progressivos, a decidir”. Para quem milita na esquerda radical, decidir sobre o património dos outros pertence ao registo da normalidade. A fortuna que uma pessoa acumula ficaria exposta às decisões dos políticos eleitos. Em vez da iniciativa privada - que tanto lesa as sensibilidades da esquerda radical - a caridade seria um exclusivo das políticas sociais postas em marcha pelo Estado. O instrumento? Impostos progressivos, muito progressivos, para que as grandes fortunas fossem compelidas a pagar impostos muito elevados. Dispensava-se a generosidade dos capitalistas cercados de abastança. Os impostos que eles teriam que pagar substituíam a sua generosidade.

Primeiro: a aversão à iniciativa privada explica muito desta posição. Não há vacinas que consigam impedir a reacção alérgica. Segundo: a desconfiança metódica do lucro - esse mal tão hediondo. Há uma alergia, diria religiosamente consistente, contra o lucro. Pelo menos contra os lucros que alimentam grandes fortunas. O problema não será tanto a obscenidade do lucro - obscenidade considerada pelos adversários do capitalismo. O mal está na acumulação de lucros imensos. Sobra uma pergunta: a partir de quando o lucro acumulado entra no limiar da imensidão, passando a pertencer às abjecções que só podem ser corrigidas pela milagrosa mão dos políticos dotados de uma sapiência infindável? Quando é o lucro tolerado e a partir de que dimensão ganha contornos pornográficos?

Terceira observação: o que me deixa desnorteado é a defesa de uma posição que aceita com naturalidade que os ricos sejam proibidos de fazer caridade com parte dos lucros que conseguem gerar. As proibições denotam a espessura de quem as defende. Quando os motivos vêm com a âncora da desconfiança do lucro, dos capitalistas eternos opressores dos trabalhadores e da restante retórica conspirativa, entra-se no terreno onde a discussão é entre surdos. Eis a perplexidade maior: acusam-se os detentores do capital de só quererem acumular riqueza, do alto da sua insensibilidade social. Quando um deles quer ser generoso - e, para já, não discuto se a generosidade é espontânea ou ditada por uma qualquer estratégia - cai sobre ele o opróbrio de querer ditar as preferências sociais através das opções que escolhe para a sua generosidade. Lá diz o adágio: “preso por ter cão e preso por não ter”.

Quarta observação: então se for uma cidadão não abastado a decidir fazer caridade, aí já deixam de funcionar as motivações para a socialização da filantropia? É que o anónimo cidadão não tem segundas intenções com o acto caritativo. Assim se depreende de outra das razões perfiladas contra a filantropia dos ricos: “na forma como é muitas vezes condicionada (p.e. obrigação de compra de determinados produtos e serviços), a filantropia não passa de marketing”. Não sei se as fundações dos abastados são assim tão nocivas ao ponto de fazerem depender a generosidade da aquisição daquilo que eles produzem. O que me provoca confusão é pensar-se que um rico não possa destinar o dinheiro que alimenta a filantropia. Duas perguntas: censura-se Champalimaud por ter deixado em testamento a vontade de constituir uma fundação vocacionada para a investigação médica avançada? Onde está a perfídia da Fundação Gulbenkian, que faz mais pela cultura e pela investigação científica que os ministérios que tutelam os sectores?

Registo que desta esquerda vêm à superfície manifestações que são a negação da sacrossanta igualdade que tanto apregoa. Se todos temos direito a uma religiosa igualdade, como se pode negar o direito à caridade aos “nefandos” capitalistas? Afinal, a caridade não é um direito ao acesso de todos. A desconfiança metódica que a militante teoria da conspiração alimenta é o portão vedado à filantropia dos ricos. E a armadilha onde, afinal, se descobre que nem todos são iguais.

Quanto ao resto, sobra o preconceito - e, conceda-se, todos temos direito ao preconceito. É o que resulta de argumentos como o que considera que a generosidade dos ricos “impõe atitudes pró-mercado, com consequências não esperadas”, sem se explicar porquê; ou de um lapidar “legitima e cristaliza a crescente desigualdade na distribuição do rendimento” - a insinuação de que quando se sanciona a filantropia dos ricos, essa generosidade vem contaminada com o dinheiro sujo que o é sempre o dinheiro com as cores sombrias do lucro. Por fim, a suspeita de que “ao ocuparem o espaço público e mediático, estas fundações enfraquecem os movimentos sociais de base”. As mentes atormentadas que acreditam num mundo binário, os bons e os maus em toda a simplicidade da representação, contemplam a filantropia dos ricos como necessária inimiga dos tais movimentos sociais de base. Não interessa que da filantropia dos ricos possam sobrar efeitos tangíveis. Desde que ela enfraqueça a amplitude dos movimentos sociais de base, deve ser combatida. Ainda que, no final, fique mais pobreza à mostra.

A esquerda radical será assim tão favorável ao combate às iniquidades sociais como se autoproclama? Apesar de odiar adágios populares, não consigo reprimir o seu uso pela segunda vez, socorrendo-me daquele que adverte que “a cavalo dado não se olha o dente”.

21.4.08

Mendigo por um dia


(Prolegómeno do texto de amanhã)

Quando a madrugada se anuncia na sua despedida, ainda as ruas se demoram, desertas, na ausência das pessoas. É quando se revelam os segredos da cidade. Há um segredo pungente: os mendigos e os sem abrigo, como tanta gente, ainda recolhidos no sono. Com uma diferença: o frio do inverno, sentem-no no corpo, os ossos tolhidos pela humidade que se espalha até ao tutano. Não têm tecto, nem sequer uma companhia para partilharem o sono e a vida com a face bela e a face triste. São as soleiras que os acolhem, mais uma amontoado de cartões e cobertores envelhecidos, fétidos, o ninho onde enganam o sono.

Os felizardos banqueteiam-se no seu sono repousado. Num leito aquecido, limpo. Sem escutarem o silvo do vento que esbarra nos cobertores dos que têm o céu como abrigo, os cobertores que se encharcam com a chuva que chega até aos locais que se pensaria serem protegidos. Nem as soleiras mais recuadas servem para amansar a furiosa tempestade que tira uma noite de sono. Nas casas, mesmo nas casas mais antigas, nas casas ainda sem os privilégios do conforto moderno, a tempestade só soa lá fora. Apenas o incómodo do vento que sopra furiosamente, esbarrando nas persianas, abanando as janelas, entrando pelas reentrâncias descuidadas das casas. Ainda assim, um privilégio ao ter em conta os corpos enregelados que nem o amontoado de cobertores aquece.

Um súbito impulso para simular a condição de mendigo. Por um dia que fosse. Houvesse a coragem para abdicar do conforto. Porventura para perceber que os queixumes que se sucedem pelos dias fora, a vida sombria que julgamos levar, são vestígios, uma irrelevância diante da experiência do mendigo.

Adivinho: não seria apenas a ausência de conforto, a ausência de um tecto, o corpo e os sentidos expostos ao céu ora luminoso, ora plúmbeo. Por si capazes de traduzirem o sacrifício supremo de dormir ao relento. As noites seguidas em demanda de uma soleira ainda não habitada por outro sem abrigo. E segredar aos deuses que a noite não tivesse visitas indesejáveis, meliantes noctívagos com o indizível deleite de atormentarem quem já de si leva vida sacrificada. O que mais difícil será? A noite ao relento? Ou a luz diurna recolhendo o discernimento dos sentidos, um longo bocejo enquanto dura o dia, na espera cansada pela noite incerta? Os dias sem rumo, uma longa errância pelas ruas, gastando os pés calejados pelo calçado roto. As refeições incertas. A fome a consumir-se a si mesmo. Os ossos tão cansados da indolência indesejada. Até que a fragilidade dos dias consecutivos trouxesse a doença e uma cama de hospital fosse, por fim, um tecto e um leito limpo. Porventura, residência final.

Pior seria a solidão a que se entregam os passos quotidianos de um mendigo. Os dias seguidos sem proferir palavra, a não ser as que fossem ditas no diálogo consigo mesmo, só para a voz não se desabituar da função. Os afectos desaprendidos. Sem lugar a partilhar o que fosse - alegrias ou angústias. Uma angústia virada para dentro, uma angústia a desdobrar-se em lancinante apelo para a vida sem significado. A certa altura, já nem interessava que fosse Inverno, com as noites tempestuosas ou o frio glacial, ou Verão, ou Primavera. Deixaria de haver estações. E até as palavras seriam um simulacro, desprovidas de sentido. E tudo seria uma longa anestesia de si mesmo. Talvez um espelho necessário para iludir inditoso destino.

Não há coragem que fale tão alto para abdicar do conforto e entregar o corpo, por um dia que fosse, à condição de mendigo. Seria sempre uma simulação, um curto dia para perceber as dores lancinantes da vida sacrificial, da solidão indeclinável. Não faz sentido ser actor neste papel. Não seria para aquietar as dores de consciência pela miséria alheia. Nem servia para semear bem-estar e felicidade por um punhado de mendigos. Perceberia, então, o egoísmo da encenação: pelo contraste a que me ofereceria, só para atingir a vacuidade de todos os momentos em que vem ao de cima uma inexplicável insatisfação que teima em vaguear.

18.4.08

O Menezes é um injustiçado


Por conveniência (deste texto), vou por um momento acreditar nessa coisa dos karmas. Há quem nasça com o rabo virado para o lado errado da lua. São os eternos patinhos feios. Ninguém – ou muito poucos, e pouco sonantes no mercado das palavras que ecoam no palco público – gosta deles. E ainda que vejam que são pouco amados, que há um enorme exército de críticos que já nem sequer critica e se limita a escarnecer, teimam em pôr a cabeça à superfície. Teimam em chamar protagonismo a si. Têm um espelho lá em casa, um espelho adulterado, ou amestrado, que lhes diz todos os dias ao acordar que sim, que estão entre o escol dos predestinados. E porfiam, querem ser personagens principais de um filme que não foi feito à sua medida.

As circunstâncias da vida por vezes conjugam-se de tal forma que são as terceiras, quartas, quintas e por aí fora escolhas que sobem ao palco para receber os aplausos pouco entusiasmados dos confrades que caucionam a escolha. Os meus amigos que são do PSD nunca mo confessaram, mas eu pressentia no seu silêncio que a arrebatadora eleição de Menezes para líder do seu partido era um acto de depuração. Talvez se acreditasse que tinham batido no fundo com Santana Lopes, esse erro de casting que só o próprio teima em não o admitir. Só que nisto da profundidade dos poços as conclusões só se tiram depois de feita uma prospecção. Não são as intuições que contam, antes as impressões reveladas pela experiência. Depois de um poço tão fundo, seguir-se-ia outro com o impressionante desempenho de conseguir sondar ainda mais abaixo.

Há quem diga que é do caos que renascem as instituições. Que é preciso destruir tudo para repensar, reordenar, burilar coordenadas, reerguer os alicerces. Uma renovação de cima a baixo. A tal diálise que refresca um sangue que estava carregado de veneno. É por isso que suspeito que os silêncios dos meus amigos do PSD eram tão reveladores: perante o diário chorrilho de disparates de Menezes, só um vendaval avassalador poderá ser a luz ao fim do túnel para este partido. Menezes foi esse furacão. Um furacão autofágico. São frescas as notícias acerca da sua demissão, estando ainda muito por descobrir. Menezes terá dito que não se candidata. Mas enviou sinais que esperar por uma “vaga de fundo”. Lá está: a obstinação da aura tão iluminada que alimenta uma luz esperançosa de que seja ele o salvador para resgatar o partido do féretro em que o colocou.

Serei cínico se confessar comiseração por Menezes? Contra mim perfila-se o gesto habitual de quem faz o elogio fúnebre onde as palavras contemplativas desvelam todos os predicados que só à hora do funeral são, por fim, enunciados. Menezes tem aquele ar de pessoa contristada sobre quem se descarregam todas as críticas, todas as chacotas. Aquele olhar de incompreendido, a face macilenta, o aspecto pungente que se põe a jeito da piedade alheia. Não sei se era pose estudada, considerando a atracção congénita de tanta gente para se pôr ao lado dos desvalidos que aparecem em público com ar contristado como se fossem pedintes mendigando a nossa piedade.

Talvez fosse esta intuição que punha Menezes a sentenciar que os opinadores encartados – uma horda militantemente crítica de si mesmo – não retratavam o “povo real”. E que o “povo real”, as pessoas comuns, as tais que têm coração de manteiga e que se apiedam dos desvalidos (como ele) lhe dariam a vitória nas eleições. Só que logo a seguir entregava-se nos braços de um tremendo paradoxo: o ar de coitadinho sugeria que o mundo acordava todos os dias contra Menezes. O mundo, incapaz de perceber os dotes de Menezes. O conspirativo mundo.

Pergunto-me: e mesmo Menezes acreditava, naqueles momentos de recolhimento consigo mesmo, na metafórica almofada celebrizada pelo seu antecessor, que havia probabilidades de ganhar as eleições legislativas do próximo ano? Na lógica cata-vento que o distinguiu nestes curtos mas intensos (de disparates) meses de liderança, quem o levava a sério? Eis a génese da minha comiseração por Menezes: de cada vez que aparecia a comentar, a criticar, a propor medidas, a abrir a boca que fosse, só se esperava por mais uma tolice. Era tão inata a propensão para a asneira, que mesmo que houvesse algum fundo de seriedade nas palavras que se soltavam da sua boca eram logo engavetadas na categoria da comédia.

Ontem terá sido o dia mais sombrio para o actual primeiro-ministro que nos calhou em fava. Com Menezes, ele nem precisava de mostrar serviço: Menezes arrepiava-lhe o caminho a nova vitória tranquila, como se fosse a segunda taluda que lhe saiu depois da sorte grande que foi ir a eleições contra Santana Lopes. E ainda que seja válida a ideia de que há sempre poços ainda mais fundos por explorar (por lá andam Mendes Bota, Marco António, o grandioso Ribau Esteves – só para citar alguns nomes que o seriam, poços mais fundos), aposto que o primeiro-ministro terá tido uma noite de insónias temendo que as eleições não vão ser as favas contadas que ele esperava, com a ajuda de Menezes.

17.4.08

Não somos todos actores?


Sarkozy de visita oficial a Londres. Mas o que estava na ordem do dia era a companhia de Carla Bruni primeira-dama. Ofuscou o consorte, na pose de primeira-dama – já não no papel de artista do mundo da música emprestada do mundo da moda. Já não alguém que pertence a um palco cuja frivolidade não se compadece com a gravidade, a elevada seriedade da política. Assim como assim, foi trocar palco por palco. O palco dos espectáculos pelo paço do protocolo de Estado. Num como noutro, um imenso oceano em que tudo se faz de conta.

A imprensa, até a imprensa séria, a que se dedica a noticiar a política e as relações internacionais, deixou-se cegar pelo protagonismo da primeira-dama francesa. Ou a imprensa contaminada pelo vírus que habita no género cor-de-rosa da imprensa? Dizem os entendidos que Sarkozy não dá ponto sem nó. Neste idílio há uma pergunta sem resposta: aquilo foi uma paixão assolapada, que rematou em boda célere, ou foi uma manobra bem congeminada para distrair as atenções de políticas impopulares que Sarkozy quer aplicar, pois a populaça e a comunicação social estariam mais interessados nos detalhes do romance? A interrogação traduz-se na seguinte dúvida (aplicando o respectivamente da praxe): espontaneidade ou manipulação?

Sarkozy representa um papel? Como Bruni passou a representar um papel diferente daquele a que estava habituada? Como actores, com papéis bem delimitados, sabem o que lhes cumpre fazer. O roteiro é-lhes oferecido pelos fazedores de imagem, tudo bem encenado, tudo muito bem ensaiado, sem haver lugar a deslizes para além das marcações que delimitam os palcos que pisam. A mim parece-me que há em tudo isto a despersonalização da política: os actores aparecem nesse papel – actores, em sentido literal. Actores como simulacros oportunos, treinados para serem imagens do que se entende que o público gosta de neles ver. Uma miríade de espelhos onde se reproduzem as imagens que distorcem a essência de que são feitos a cada filtro que se ensaia num espelho mais que desfila diante da audiência.

A entrega à teatralização despe os actores da sua genuinidade. Dir-se-á que a necessidade de espectáculo, de mão dada com a fobia da comunicação social pela passerelle das aparências, fornece a formatação da imagem dos políticos contemporâneos. Só que nalguns casos a arte peca por excesso. Nalguns casos, tudo se resume à encenação cuidadamente estudada, à pose dos actores que se entregam a um papel – ou aos sucessivos papéis que vão desempenhando, consoante as exigências das circunstâncias. No restolho da visita oficial do casal presidencial francês a Londres, era só passar a vista pela imprensa séria (por decoro higiénico, a vista não se demora na imprensa cor-de-rosa): Carla Bruni tomou o protagonismo que a seriedade do momento aconselharia que repousasse no consorte. Era o vestuário de Bruni, a rainha que simpatizou com Bruni, o que estaria dentro da carteira de Bruni entreaberta fotografada numa cerimónia oficial, o retrato que captava um pormenor tão importante como a pose senhoril dos pés da primeira-dama. A tradução de tudo isto: de toda a fruta espremida, só umas pingas de sumo. Sobra uma polpa vistosa que não alimenta estômago algum.

Sarkozy desempenha um papel insólito: é o presidente de uma França anacronicamente republicana, da França teimosamente convencida do seu grandeur. Insólito, ainda, porque vem da direita que em França sinaliza um conservadorismo de costumes, o que não parece condizer com os holofotes todos vertidos sobre a mediática primeira-dama, na diluição do protagonismo do presidente da república. Como Bruni desempenha um papel. Suspeito que faz as vezes da actriz que empresta um inusitado grandeur ao inquilino do palácio presidencial: o grandeur que interessa ao mundano, o fogo-de-artifício permanente que embevece uma imprensa anestesiada, um público anestesiado. Talvez por isso mesmo: enquanto caem no engodo, passam ao lado das medidas tomadas por Sarkozy. E depois, quando chegar o momento de escrutinar nas urnas o mandato de Sarkozy, vão avaliar o quê? O ror de páginas que o idílio consumiu? A pose enigmática da primeira-dama, o vestuário e os costureiros que a vestem, o suposto “toque de classe” que Bruni empresta ao consorte?

Pausa para interiorizar: e não somos todos, de alguma forma, chamados a desempenhar um papel, vários papéis? Contrariando a nossa essência, despindo-nos de genuinidade? Por aí passam os elefantes que temos que engolir, as tantas vezes que somos obrigados a fazer de conta. É quando a vida real se confunde com um perene teatro, um teatro que nunca sai de cena. De tal forma que é o teatro que acaba por perder o rasto da sua fantasia cénica.

16.4.08

A tese do “povo burro” é um pau de dois bicos


Pior que os americanos elegerem George W. Bush duas vezes, só os italianos entregarem pela terceira vez o Governo a Berlusconi!...”, Vital Moreira, no blogue Causa Nossa

Maus fígados, ou mau perder que revela uma espessura pouco democrática? Como se pode afiançar que um povo subitamente se deixou tomar por uma cegueira que o levou a escolher quem não “devia” escolher? Quando tecemos juízos tão assertivos sobre as escolhas eleitorais dos outros povos, a ingerência eleitoral pode ter um imponderável: mais tarde, os outros podem tecer o mesmo tipo de comentários acerca das escolhas ditadas pelas nossas eleições. E não gostamos, decerto, da intrusão.

O povo italiano terá embrutecido (pela terceira vez) porque não teve a sensatez de escolher Veltroni. Eu fico admirado com a elevada capacidade de um cérebro só se sobrepor à escolha de dezenas de milhões de eleitores. Há quem não aprenda nada com o passado. Incapazes de se convencerem de um dos predicados da democracia que tanto apregoam: afinal o igualitarismo não passa de retórica quando o mau perder eleitoral vem ao de cima. As coisas deviam ser desta forma: haveria resultados eleitorais admissíveis, onde a legitimidade da escolha seria sancionada pelos sumos-sacerdotes que estariam, lá do alto do seu pedestal, a certificar a escolha. E haveria os resultados eleitorais impensáveis, que não passariam na apertada malha dos sacerdotes.

Suponho que, nesta hipótese, os escrutinadores da aceitabilidade das eleições gostariam de ditar a repetição do sufrágio. Porventura até que os resultados fossem em consonância com os seus gostos pessoais. É curioso, isto faz-me lembrar um episódio recente, a recusa de Mugabe em aceitar os resultados das eleições que, segundo consta, teriam tirado o malfeitor do poder. Podia-se congeminar uma solução alternativa, para impedir o incómodo dos resultados eleitorais que pressagiam um povo ignaro: tal como vinga a moda que prescinde do sigilo bancário quando há dúvidas acerca da situação fiscal de uma pessoa, por que não terminar com o secretismo do voto? Talvez instituir um centralizado Big Brother informático, com a garantia – a falsa garantia – de que seria uma máquina a vigiar a forma como cada pessoa vota. Os que contribuíssem para uma escolha eleitoral menos apropriada (eufemismo para eleitores burros) seriam penalizados no seu direito de voto futuro. Teríamos então uma brecha no sagrado princípio do voto uninominal. Os meios justificariam os fins.

Haveria eleitores qualificados e os desqualificados. Meio caminho andado para os Veltronis, os Zapateros, os Sócrates, as Clinton, toda a seita da Internacional Socialista se perpetuar no poder. Às malvas a tolerância que julgamos ser património genético da democracia. E às malvas a alternância democrática, que também julgamos fazer parte do jogo. Se o povo exibe ignorância, compete aos iluminados indicarem o caminho certo. E se por acaso o povo teimar em ostentar a sua burrice, insensível aos apelos das mentes iluminadas em campanhas eleitorais, aparições televisivas cirurgicamente preparadas para que o sistema não sofra desvios, ou artigos de opinião em jornais de referência, o que fazer? Plano B: qualificar os eleitores consoante a orientação do seu voto?

Já em 2000, quando a ominosa extrema-direita de Jörg Haider chegou ao poder em coligação com o partido liberal de Schüssel, esteve quase para cair o Carmo e a Trindade. Muitas virgens ofendidas, sobretudo na sempre atenta Internacional Socialista, ao que parece auto convencida dos seus superiores parâmetros morais. A Áustria esteve sob o ponto de mira da União Europeia, vigilante para que não houvesse desvios à democracia. Na altura, a Internacional Socialista sentenciou o mau gosto dos eleitores austríacos (certamente daquela maioria que permitiu à coligação herética chegar ao poder). Agora há quem tenha o despudor de ajuizar as escolhas livres feitas pelos eleitores italianos. O que me incomoda é como podemos julgar as escolhas dos outros quando elas não afinam pelo nosso diapasão pessoal? Não corremos o risco dos outros fazerem o mesmo com as nossas preferências? E ficamos confortáveis ao saber que os outros decidiram ajuizar as nossas escolhas? Nessa altura, não exibimos a nossa indignação? Logo, não é legítimo que os tais eleitores supostamente ignorantes se sintam lesados pelo juízo tão iluminado, e protestem?

Acho Berlusconi detestável. Seria incapaz de votar no seu partido. Só que ao dar de caras com estes juízos tão assertivos, tenho uma pulsão para ser italiano e para ter sido votante de Berlusconi.

15.4.08

E estes capitalistas comunistas?


Ponto de ordem: sou entusiasta das virtudes do capitalismo. Estaria entre o que se convencionou, por estes tempos de facilitismo dos rótulos, chamar “neoliberal” (não se desse o caso de não saber o que é o “neoliberalismo” e, pelos sinais enviados pelos seus ferozes críticos, não me rever nesse modelo). O meu liberalismo é de uma casta diferente, todavia. Repugnam-me tanto as intervenções do Estado na economia, como a mania do empresariado estender a mão ao Estado, numa valsa insidiosa com os poderes públicos.

Novo ponto de ordem: acho reprovável o oportunismo que muitos empresários exibem à primeira oportunidade. São os responsáveis pelo estigma do capitalismo selvagem, a grande tábua de salvação dos vestígios de marxismo que ainda vegetam. Um exemplo na ordem do dia: na espuma da muito antecipada pré-campanha eleitoral em que este governo já entrou, a guloseima para eleitor se deliciar – a descida de um ponto percentual no IVA. Encantados com a pose magnífica do primeiro-ministro, e muitos aderindo à realidade ilusória contada pelas palavras encantatórias do primeiro-ministro e seu séquito, acreditamos na bondade da medida. E nem percebemos que ela apenas beneficia as empresas. Pois alguém acredita que uma descida tão insignificante do IVA vá levar os empresários a diminuírem os preços, para gáudio dos consumidores? Não, decerto os empresários vão repercutir a descida do IVA nos seus lucros.

Alguém se lembra de outra fantástica medida – a descida do IVA de 21% para 5% nos ginásios, para incentivar as gentes a perderem adiposidades e a serem tão cultoras do físico como o timoneiro primeiro-ministro? Ao fim de algum tempo, percebeu-se que os ginásios (com algumas excepções) mantiveram os preços, desdobrando-se em justificações de retórica para apenas açambarcarem a seu favor a diferença percentual que resultou da descida do IVA. Eis um exemplo de “chico-espertismo” capitalista. E, dou a mão à palmatória, adepto militante do capitalismo, que este exemplo se reproduz com frequência, de pequenas a médias e a grandes empresas.

É a mania de ir como toda a sede ao pote, sem perceber que a imprudência esboroa o pote em cacos. Com um preço inevitável: sindicatos, partidos da extrema-esquerda, arautos da “alter-globalização” lavrando palavras de protesto contra a fobia do lucro e a insensibilidade dos capitalistas, desapiedadas almas, diabretes possuídos por um atroz egoísmo, que não hesitam em atropelar os direitos dos trabalhadores para se embriagarem em lucros. Aliás, na visão dantesca destes sectores tão amantes de fabulosas teorias da conspiração, os capitalistas são uma infernal maquinação para oprimir os trabalhadores. Será o seu desporto favorito. E, ao mesmo tempo, o fértil terreno onde estas atormentadas almas descobrem motivos para se emproarem na condição de justiceiros. E, contudo, diante de alguns excessos de capitalistas cegados pela sede do lucro, até entendo que estes justiceiros venham à praça pública.

Porém, é irreprimível a perplexidade quando dou conta do silêncio destes justiceiros perante as barbaridades cometidas por alguns comunistas entretanto seduzidos pelas delícias do vil metal. Assobiam para o alto e não admitem que alguns entre eles são tão pérfidos como os capitalistas contra os quais erguem a sua militância. Isto vem a propósito de um artigo de opinião de António Barreto no Público de anteontem, que reflectia nas revelações do livro de Américo Cardoso Botelho, “Holocausto em Angola – memórias de entre o cárcere e o cemitério”. Retenho uma passagem do livro que resulta de um fac simile de uma carta enviada por Rosa Coutinho ao líder do MPLA, Agostinho Neto, em plena guerra civil:

Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. A FNLA e a UNITA deixarão assim de contar com o apoio dos brancos, de seus capitais e da sua experiência militar. Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela”.

Este Rosa Coutinho fez-se homem de negócios em Angola. Enriqueceu à custa das negociatas que conseguiu depois de ter, enquanto representante de Portugal no processo de descolonização, arrepiado o caminho à subida ao poder dos comunistas. Cumplicidades convenientes, com o selo da solidariedade ideológica. Depois dos massacres de que foi conivente, dos julgamentos sumários que terminavam em inapeláveis sentenças de morte diante de uma turba extasiada, do sofrimento de um povo incapaz de ter um nível de vida condigno. Não estou a sugerir que Rosa Coutinho não tenha direito ao seu enamoramento com as delícias do capitalismo – nem menos a insinuar que há aqui incoerência ideológica, que nesse domínio fala apenas a consciência de cada um, domínio impenetrável, portanto. Só me faz espécie o silêncio – o silêncio comprometedor – das esquerdas (e de certas direitas que se banqueteiam no festim dos negócios que é hoje Angola) perante estes facínoras.

Ah, só se afinal os capitalistas bons forem aqueles que apregoam “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Porventura, já nem são comunistas, nem capitalistas. Apenas oportunistas. E facínoras.