24.1.08

O hino entoado com a mão direita deitada sob o coração – ou o PSD virou partido nacionalista?


A formidável liderança do PSD é um oceano infindável de surpresas. Uma navegação errática, ao sabor dos ventos que sopram, a bússola atrás dos ventos, incapaz de imprimir o seu rumo próprio. O espalhafatoso líder, um cata-vento todos os dias. Ora promete que irá governar (como se isso alguma vez pudesse acontecer…) mais à esquerda que o actual primeiro-ministro. Ora promete o desmantelamento do Estado num abrir e fechar de olhos, acenando aos liberais mais à direita. Ora revela a sua têmpera se algum dia a improbabilidade de ser primeiro-ministro acontecesse, metendo o bedelho nas televisões ao sugerir nomes para os painéis de comentadores políticos.

É pródigo em incontinência verbal. Sempre foi. Agora que chegou ao púlpito no seu partido, teria que contagiá-lo com o frenesim que se confunde com incontinência verbal. Há quem se enterneça com este “activismo”. E mantenha que a oposição tem que ser enérgica para combater a placidez instalada com os socialistas que se incrustam como inevitabilidades perenes. Nem sempre a vozearia traz dividendos. Falar só por falar pode redundar em mero ruído de fundo, ou numa gritaria ensurdecedora que apenas torna insuportável quem promove o ruído.

Tenho, em relação a este partido de centro-esquerda, o distanciamento higiénico que me permite ser observador exterior. Olhá-lo de fora e diagnosticar uma estranha tendência para a autofagia. Escolhem soluções que contentam clientelas lá dentro, esquecendo-se que quem lhes traz os votos é a esmagadora maioria dos que não são filiados mas, de vez em quando, votam neles. De Santana Lopes em Luís Filipe Menezes, até à banalização?

O último episódio risível veio à memória: há semanas, uma daquelas jantaradas nada frugais e decerto nos antípodas do higienismo alimentar tão amplamente propagandeado. Em Penafiel. Um excerto do discurso do líder, com a assistência pousando os garfos para beber a grandiloquência das palavras que parecem de improviso. Já nem me recordo do tema, nem das promessas sonâmbulas, ou das críticas atiradas contra o primeiro-ministro e seu séquito. Guardei na memória a parte final da reportagem. A mesa de honra, presidida por Menezes e ladeada por figurantes locais, em pé a cantar o hino nacional. Uma entoação arrebatada do hino. O líder teve a iniciativa de elevar a mão direita, em gesto sentido, pousando-a sobre o coração. Como necessários macaquinhos de imitação que prestam vassalagem ao líder, o edil de Penafiel e os restantes figurões locais imitaram o gesto.

Julgava que só os nacionalistas encartados (e uma certa equipa de rugby) tinham a ousadia de cantar o hino acompanhando-o deste gesto frívolo. Os nacionalistas que frequentam os terrenos da extrema-direita, ainda tributária da nação como bem supremo do indivíduo, que se deve inclinar respeitosamente perante a pátria. Como o hino celebra as grandezas pátrias, exige-se um sentido, arrebatado entoar das estrofes que acompanham a melodia. A mão direita resguarda o coração, a sublime mensagem: trazer a pátria no coração. Este ritual é uma coroação da pátria, a declinação do indivíduo perante a pátria, se necessário for a sua entrega num altar sacrificial. Com toda a religiosidade inerente. Uma religiosidade em que a pátria faz as vezes da entidade divina.

O que me intrigou foi a coragem do líder do PSD para um gesto conotado com a heterodoxia politicamente incorrecta. O gesto tem uma conotação nítida com o nacionalismo que vegeta na extrema-direita. Só não percebi a intenção de Menezes (o que, aliás, é tarefa labiríntica). Se a encenação foi intencional, uma estratégia congeminada com os seus consultores, aliciando para o PSD gente que navega nas águas da extrema-direita. Numa surpreendente ultrapassagem do CDS-PP pela direita. Ou, porventura, nesse dia Menezes tomou-se de súbitos amores pela portugalidade que ambiciona governar. No fundo, um gesto autocontemplativo por antecipação (que, diria, é uma impossibilidade).

O CDS-PP e o PNR que se cuidem. O gigante PSD soltou as amarras do centro-esquerda e invade terrenos pisados por aqueles partidos. Na ânsia de esconjurar a demorada cura de oposição, vale tudo – até dar guarida a sinais típicos do nacionalismo de extrema-direita. Pela parte que me toca, geneticamente incapaz de depositar o voto no partido cor de laranja, só lamento que todos estes desvarios sejam a caução para o lúgubre actual primeiro-ministro continuar a sê-lo por muito tempo.

23.1.08

Do que eu gosto é de barragens


Todos os dias, a abundância de gente a meter água. Até cada um de nós, inadvertidamente ou por inépcia. As inundações quase nos afogam na água que jorra. Ora em jactos, ora com uma lentidão venenosa – consoante a asneira seja flagrante ou apenas se insinue nos seus efeitos demorados. Como nos custa a introspecção dos erros próprios, vigiamos a asneira alheia. O diagnóstico lapidar: tanta água que escorre, desperdiçada, sinal da incompetência que nos outros é sempre mais nítida.

É por isso que as barragens me deixam fascinado. Obras de engenharia majestosas. O homem na exteriorização das suas plenas capacidades. Domando a natureza, transformando o curso dos rios. As barragens, ao contrário do quotidiano que nos cerca, retêm a água. Os engenheiros que as projectam conseguem desviar cursos de água para montarem a estrutura de betão que há-de ser o paredão onde embatem as águas dos rios, pondo mão no seu caudal.

Os espelhos de água retidos pelas barragens são a miragem onde se consomem todos os passos em falso na lassidão da tolice militante. Toda a água que metemos seria vertida nas albufeiras, o repositório das asneiras insistentes. Só que as albufeiras que esbarram no paredão das barragens são o contrário de tudo isso. As margens recortadas da albufeira contemplam o estio ou a estação pródiga em chuvas, consoante os caprichos da meteorologia.

Não há segredos no enchimento ou no vazamento das albufeiras. Mesmo assim, sobra o aleatório, como se a sorte das albufeiras fosse lançada pelos dados no tapete verde de uma sala de casino. No contraste com o voluntarismo humano que cede o passo à asneira, a franquia para a água que metemos a rodos. Por vezes, incapazes de admitir que somos os fautores únicos dos passos em falso, há o refúgio complacente na sorte arredia. Até nisso a água foge por entre os dedos, adensando o caudal que se esvai sem utilidade alguma.

É grande a admiração pela engenharia que soube domar a natureza. Exactamente nos antípodas de governantes que querem tapar o sol com a peneira, apenas porque esse efeito é de uma oportunidade atroz para as suas agendas. São aprendizes da arte de enganar uma vasta audiência. Eles aparecem, feiticeiros que fazem acreditar que conseguem desviar a natureza do seu curso. Congeminam um discurso feérico: a realidade pintada a cores diferentes, as que lhes são mais aprazíveis. Ainda que essa seja uma natureza idílica, apenas desejada, mas não a natureza que desfila diante dos nossos olhos. São contorcionistas que apresentam um espectáculo pestilento. A sua arte é a de convencer os incautos que conseguem domar a natureza que passa por cima deles, incontrolável. O contrário das barragens que, elas sim, domam a natureza.

A cada sinal da arte do embuste, que ganha lugar de especialidade só ao alcance de profissionais bem treinados, é maior a admiração pelas barragens. Seriam elas o farol de um lugar guiado pela honestidade na arte da política. Elas ensinariam o princípio vital de reter a água, impedindo o tão elevado ónus que é o desperdício de água, a imbecilidade da asneira premeditada. A denúncia da água que se esvai, sem freio, a cada palavra encenada pelos que não passam do tirocínio da governação. Eles estão é empenhados na sua sobrevivência, mesmo quando ela é tão nefasta para os que estão sob a sua alçada.

Nem mesmo os que se arvoram na dupla condição de engenheiros e governantes as conseguem reunir numa só. Como se tirassem partido das aptidões da engenharia, que mais do que outras ciências se aproximou do limiar quase divino que é domar a natureza. Ou são engenheiros ou são governantes. Condições que se excluem reciprocamente. Parece, até, que assim que engenheiros se inebriam pelos holofotes do poder desaprendem os atributos de domadores da natureza que lhes ensinaram. E passam a ser campeões a meter água.

Deviam andar atrelados a mini-hídricas ambulantes que retivessem toda a água que metem, a cada dia que passa. Os ecologistas desdobrar-se-iam em aplausos. E seria maneira destes profissionais do erro verem, no espelho de água acumulado atrás deles, como a humildade anda arredia. E como todos agradeceríamos que se dedicassem a outras artes, mais anónimas.

22.1.08

Brincar às guerrinhas nos ares


Enquanto as gentes em terra ficam assustadas com o súbito ribombar que estilhaça vidros, abre fendas nas paredes, rompe com a tranquilidade campestre tão típica das terras de Penamacor. É que havia por ali manobras da força aérea, “exercícios de simulação de combate”, usando a linguagem de caserna. Não terá sido preciso alertar a protecção civil, muito menos pôr de aviso as populações. A tropa continua a usufruir de regalias incomparáveis. Um Estado dentro do Estado, ainda.

Imagino como deve ser doloroso para estes generais viver em tempos que deixaram de ser visitados tão amiúde pelas guerras. Entretêm-se, pois, a congeminar fantasiosos cenários de guerra, substantivando os conflitos em que gostariam de participar. Põem os homens no terreno, atribuem-se-lhes “missões”, inventa-se um inimigo fictício e acabam todos a brincar às guerrinhas. Para conferir maior solenidade à coisa, chama-se o ministro da tutela, veste-se-lhe um uniforme para abraçar o espírito de caserna e convocam-se as câmaras de televisão para mostrar à população que ela pode dormir em descanso: não haverá invasão que não sofra a brava resistência das nossas tropas. Mas que invasão estão a imaginar?! Justificam-se: há que manter “operacionais” os “efectivos”, não vá ser necessário pô-los em acção. Há quem viva a sonhar mesmo acordado.

Causa-me espécie que haja criaturas que fazem profissão de fé no aspecto lúdico das guerras em simulacro. Como pode alguém, no seu perfeito juízo, brincar às guerrinhas? De cada vez que generais ensaiam exercícios bélicos, é a humanidade a gritar bem alto o seu ensandecimento. Um cortejo grotesco em que se faz de conta que um inimigo imaginário ameaça a sacrossanta soberania pátria. O sangue teria que escorrer para defender a soberania que se deseja intangível. Não haverá bem maior. O que interessa se a tropa assim entretida se deita no leito do mais puro anacronismo? Por mim, que sempre me enterneci com exércitos e a férrea disciplina militar (que ainda dá direito à existência de tribunais militares, como se houvesse uma justiça à parte da justiça civil), um largo sorriso irreprimível solta-se de cada vez que o exército desfila no seu anacronismo inevitável.

E, apesar da anacrónica eloquência dos senhores generais, a tropa insiste em ser um mundo cheio de particularidades e de privilégios. Dispensa-se de deveres que assistem aos demais. Uma casta que se esconde na prestação de funções na “defesa nacional” para chamar a si um estatuto de excepção. Naquele dia os F16 da força aérea iam sobrevoar o concelho de Penamacor. Não seria encargo excessivo avisar o presidente da câmara. Que, já que a tropa não se dá ao trabalho de comunicar com o povo, faria chegar avisos de que os aviões supersónicos andariam em exercícios espectaculares sobre as cabeças dos habitantes beirãos. Nada disso. Tudo em segredo. Compreende-se: as manobras militares exigem secretismo, não vá o inimigo imaginário ser avisado por um qualquer agente infiltrado entre a população local e frustrar o objectivo do simulacro.

Se a barreira do som for quase atingida, com o estilhaço que se produz, assustando as populações que não tinham sido avisadas das manobras nos céus, paciência. É pelo interesse da nação. Os sustos são efémeros. Não hão-de sequer velhinhos sucumbir de síncope cardíaca. Os animais, assustados? Não contam para o rosário, os animais. Para incómodo dos artífices das manobras aéreas, refugiados nas ameias do quartel, a comunicação social deu voz ao protesto das pessoas que ficaram assustadas com o estrondo. Soube-se depois, pelo esclarecimento de um contrariado porta-voz da força aérea, foi o produto da inépcia de um piloto que acelerou demais o F16. Foi um evento imprevisto, um incidente que não pode manchar a inestimável, prestimosa utilidade da força aérea.

Juntamente com o muito dinheiro que estas manobras custam, prejuízos em habitações que abriram fendas e viram vidros estilhaçados. Não bastava o sorvedouro estúpido de dinheiro que a simples existência da força aérea supõe – sem mencionar o dinheiro deitado fora de cada vez que um F16 se põe a voar brincando às guerrinhas –, há ainda prejuízos das gentes em terra. O incomodado porta-voz, esboçando frete no esclarecimento que lhe estava a custar tanto a prestar, prometeu visita de uma "comissão de inquérito" ao local para apurar os danos. Falta saber quando lá chegará a comitiva.

21.1.08

Culto de personalidade


Impressionam-me pessoas que se deixam passear na tela do culto de personalidade. Há neles um ego enorme. Ou houve, em tempos, tempos difíceis, sinuosas curvas em que foram depreciados. Talvez meninos escarnecidos por todos na escola, os bombos da festa. Agora, que souberam subir na escala do reconhecimento social, têm a sua vingança privada com o mundo inteiro – como se o mundo inteiro fosse o laboratório gigantesco que reproduz o microcosmos que tanta mortificação interior causou pela troça infindável.

Mesmo assim, impressiona-me que haja quem permita uma corte que se desfaz em tratos de polé, a corte do elogio fácil. Uma imagem quase deificada. Dir-se-ia que dariam chancela a biografias com estaleca de hagiografia. Gostam de ver a passadeira vermelha estendida para nela caminharem, exalando aura triunfante. Os outros devem-se curvar perante a sua magnificência. À medida que o tempo corre e as auto-façanhas o colocam num púlpito ainda mais inacessível aos outros, mais se arrebanham indefectíveis doutrinados para trazer mais rebanho para dentro da cerca.

Não há pingo de modéstia na personagem que permite o seu próprio culto de personalidade. Os pajens de serviço, os que lhe fazem a imagem e aqueles que dele dependem, constroem o culto de personalidade que a domesticada comunicação social faz chegar à gente anónima. A gente anónima, consumidores por excelência do culto de personalidade do timoneiro da nação. E assim aumentam as probabilidades de prolongar a sinecura com a esmagadora maioria que lhe caiu nos braços num tremendo golpe de sorte. Na carência de substância – visível à vista desarmada – insiste na praxis da imagem cirurgicamente arquitectada. A cada mês que passa, sobe o tom dos panegíricos vindos da corte em redor. Os que não vão na ladainha laudatória, ou são ignaros ou é a teimosia que os cega no discernimento.

O pior é que não há um dia, um dia sequer, em que o ego do timoneiro não seja massajado na televisão. Até ao fim-de-semana. O homem não tem descanso. Não tem sábados, domingos e feriados. Não vá a sua imagem apologética adormecer no espírito das massas, não vão elas esquecer-se, por um dia que seja, que há primeiro-ministro redentor. Este fim-de-semana foi outro sem igual. Num dia, confessa, num acesso de intimismo que o coloca quase ao mesmo nível humano dos governados, que o homólogo espanhol é o seu “maior amigo”. Haja muitos dentes para mentir – terão pensado os seus verdadeiros amigos, aqueles que nutrem por ele uma prolongada amizade.

Mais uma cimeira – ibérica –, mais um tijolo para o imenso culto de personalidade. Em muito feito da convivência com os “líderes mundiais”, cuja grandeza alimenta a sua própria grandeza, por efeito de contágio. Espantosamente, o timoneiro terá confundido a natureza da cimeira. Pensava-se que era a cimeira ibérica, reunindo delegações dos governos dos dois países da península. Afinal terá sido uma cimeira da internacional socialista, delegação ibérica. O homem esqueceu que estava ali na função de primeiro-ministro e descaiu-se no apoio ao seu homólogo, da mesma cor ideológica, que já está em campanha eleitoral. São comoventes estas fidelidades partidárias, só possíveis entre a ternurenta internacional socialista. Como comovente foi ver a imodéstia do timoneiro da nação ao oferecer os préstimos ao homólogo, caso fosse preciso para o levar até a nova vitória nas urnas. Há gente que faz de si uma imagem muito maior do que a revelada pelo espelho.

Domingo, Viana do Castelo. Ia inaugurar uma biblioteca municipal. Madrugou para participar na mini-maratona local. Veio mesmo a talho de foice. Afinal o patarata do líder do maior partido da oposição estava enganado no diagnóstico recente: falsas as acusações de que o senhor primeiro-ministro só chama as câmaras de televisão quando faz jogging além fronteiras. As câmaras também são convocadas para jogging em terras pátrias. Para pateta, pateta e meio.

A reportagem da RTP foi do mais encomiástico que vi nos últimos tempos. O homem chegou cedo. O homem envergava o número um – não é significativo, a provar que estou certo quando lhe atribuo o cognome de timoneiro? Aquela prova era apenas um petisco para o homem, que disse, gabarolas, que não foi esforço por aí além, ele que está habituado a correr “uma hora, uma hora e dez, cerca de dez quilómetros”. Ao passo de corrida juntavam-se intermináveis acenos à populaça espalhada pelas ruas para o aplaudir, com entusiasmo.

Cultos de personalidade provocam-me asco. Este não é excepção. O que me incomoda no homem é o tanto asco que me causa. Ele insinua-se, entranha-se, cerca por todo o lado, com o beneplácito da domesticada comunicação social, veículo do culto de personalidade. Para minha sanidade mental, queria prometer que não voltaria a escrever uma linha sobre nefanda personagem. Temo que não consiga cumprir a promessa. E não é que até nisto sou contagiado pelo timoneiro?

18.1.08

Empresários que mendigam à porta do Estado – ou da adiada emancipação do mercado numa terra empenhada em paternalismos pueris


Advertência: isto não é um texto de efervescência sindicalista contra a classe empresarial. Não me entreguei, qual noivo cegado pela ingenuidade, num enlace com os excitados detractores do “grande capital” em particular e do capitalismo em geral.

Maioridade equaciona responsabilidade. Capacidade para assumir as consequências dos actos. Quando um jovem chega à idade adulta e reclama para si emancipação paternal não pode depois esperar que, nos momentos de aperto, os progenitores apareçam quais figuras sebastiânicas a conferir a tutela aguardada. Os meninos que dançam assim, a descompasso com as suas responsabilidades, não são credores de confiança. É como se tivessem apenas um olho bom e, quando este entra na penumbra, se recusem a olhar as coisas através do olho mau. Ficam à espera que alguém o faça em sua vez. São crescidinhos dentro de uma mente que ainda adolesce.

É a falta de hábito de agirem por si, a falta de hábito de suportarem todas as responsabilidades que a idade maior – e a lei – chamam a si. Se preciso for, é vê-los fautores de uma guerra de gerações inútil, fátua, apenas um exercício de afirmação pessoal diante dos mais velhos de quem exigem carta de alforria. Hostilizam os mais velhos. Não admitem ingerências. Qualquer palpite ou sugestão dos mais velhos é furiosamente atacado: ai daqueles que pisarem a sua coutada. E confundem muitas coisas: sugestões com intromissões; preocupação com zelo intolerável; as interrogações feitas com o leme da sua vida tomado por quem as faz, logo as interrogações proibidas. Ao primeiro contacto com a dureza da realidade, ao primeiro contratempo, recolhem-se chorosos debaixo da asa protectora de quem se querem libertar. Imersos no mais profundo contra-senso. A credibilidade maculada.

Vale para arroubados jovens sabedores da independência acabada de conquistar. Como vale para uma classe empresarial sem nível, campeã dos queixumes, sempre de dedo erguido contra as intromissões do poder político, contra os obstáculos semeados pela burocracia do Estado. Em momentos áureos – quando adivinham as vacas gordas e as ajudas públicas são desprezáveis – denunciam as desajudas do Estado. Que está omnipresente, figura dominante e tutelar da economia. Um entrave aos negócios. Reclamam: se há atraso, as culpas moram alhures, nos trabalhadores preguiçosos e nos sindicalistas malandros, nos ministros que só assinam papeis a preceito com prebendas pelo meio, da inconcebível burocracia que bloqueia em vez de facilitar.

A prova dos nove da mediocridade chega quando as nuvens negras tingem o firmamento. Quando os lucros encolhem, e encolhem tanto que dão lugar aos prejuízos. Convivem mal com a concorrência que vem de fora, esgravatando a retórica dos “interesses nacionais” ao mesmo tempo que estendem a mão em direcção da piedade dos governantes. Conseguem iludir as massas: o “interesse nacional” resume-se ao seu próprio interesse. Portam-se como meninos birrentos que esboçam o beicinho lamechas que aplana terreno para a complacência de quem governa. Nessa altura, esquecem discursos exaltados que reclamam a separação das águas. Já não exigem que o mercado navegue num mar diferente do navegado pelo Estado.

Quando o nó aperta tanto que a asfixia ameaça, já não há mercado que queira viver emancipado dos poderes públicos. Sobra um concubinato estranho entre dois parceiros que se olham como rivais, mas que gostam de estender a mão um ao outro. Um sucedâneo de amor-ódio. Quem exerce a tutela, adora sentir o poder que se reforça quando os vínculos de dependência sobem pela mendicidade penosamente mostrada pelos empresários. Estes, de cada vez que estendem a mão em busca de piedosa esmola, humilham-se na negação dos gloriosos discursos de emancipação quando as vacas eram gordas. Entregam o seu destino na generosidade dos governantes.

Simpatia nula pelos sindicatos. E, todavia, fazem sentido quando em redor gravitam empresários que lutam, com denodo, para se enterrarem no lodaçal da ambiguidade. Dirão que são militantes do pragmatismo. Que os grandes negócios se fazem à mesa da política, com os políticos que efemeramente ocupam sinecuras. Convém agradar aos governantes, sob pena dos negócios irem parar às mãos de rivais. Há quem lhe chame concubinato (se forem mais simpáticos, solta-se o rótulo do pragmatismo); há quem a este comportamento chame uma palavra impronunciável para ouvidos sensíveis ao calão.

17.1.08

Homenagem a Armando Vara


Não me conheces de lado nenhum, Armando Vara. Ainda assim, permite a ousadia de te tratar por tu. Vai assim em sinal de singela homenagem por ti. Pela tua ascensão meteórica. Pela sagacidade, quando te retiraste do meio hediondo da política partidária e foste encontrar refúgio prazenteiro e tão bem remunerado em conselhos de administração de bancos. Tornaste-te banqueiro! És um exemplo para uma das bandeiras da propaganda do teu amigo que, um pouco à tua imagem, ainda hoje estará sem saber ao certo como chegou a primeiro-ministro: as “novas oportunidades” chegam a todos, sem olhar a classe ou habilitações, nem sequer a privilégios de casta (que não seja, obviamente, a certeira filiação partidária – mas essa é uma conversa que convém varrer para debaixo do tapete).

Presto a minha homenagem, Armando Vara. Tu és um saco de porrada de comentadores a eito. Eles põem-se em fila, esfregando as mãos de contentamento para de ti zurzirem. Uns invejosos, é o que são. Eles gostavam de ter acesso às benesses que legitimamente te pertencem, depois de uma carreira que soubeste construir com tanta diligência. Ouves e lês o rol infindável de críticas e permaneces silencioso. Gabo-te a coragem pelo silêncio asceta. Deve ser difícil ler e ouvir a maré de críticas, amiúde enxertadas de ironia depreciativa, e continuar impassível. És de uma coragem olímpica, um exemplo de fair play como não há nesta terrinha de medíocres. De tanta pancadaria que levas e nem um ai esboças.

Os que fazem da crítica à tua pessoa desporto favorito destilam uma pérfida inveja. Eles gostariam de ter tido a tua ascensão meteórica. Muitos enfatizam o que acham ser a sua superior razão: puxam dos galões das habilitações académicas superiores às tuas e choram-se pelos cantos, um queixume infindável, que só os rapazes com cartão de militante do partido certo é que vingam, sem lugar ao mérito. Estão enganados. Se subiste tão alto, vindo do quase rés-do-chão do banco onde sempre trabalhaste, é porque algum mérito hás-de ter. O que os teus críticos não conseguem perceber é que o mundo de hoje está feito para os espertos. Aos inteligentes, resta o conforto interior – e anódino – de uma inteligência sem serventia.

É isso que eles não percebem: que hoje vingam os que têm espírito pragmático. Tu és campeão do pragmatismo contemporâneo. O pragmatismo que sagra a esperteza, pois a inteligência acantona-se em elucubrações estéreis que enchem páginas de ensaios sem aproveitamento digno. Tu és um exemplo da acção com proveitos inestimáveis. Um paradigma que a universidade mais importante é a escola da vida, a espessura da experiência adquirida. Com todo o valor que se exige reconhecer aos que subiram a pulso, desde o nada até ao púlpito de onde são tão invejados. E o despeito é tanto que até desconfiam da tua licenciatura, sem perceberem que há mesmo coincidências notáveis como essa da data da carta de licenciatura ser a antevéspera da nomeação para o conselho de administração do banco público.

Chamam-te “fura-bolos”; dizem que só conseguiste chegar tão alto por causa da teia de conhecimentos privilegiados que foste angariando ao longo da carreira partidária; que não tens valor intelectual para ocupar lugar entre a nata dos banqueiros; agora criticam-te porque mudaste do banco do Estado para o banco dos socialistas. É tudo infundado. És um incompreendido. Em todas as críticas, o acessório precede o essencial. Esquecem que foram os accionistas do banco outrora dominado pela Opus Dei e agora socialista que te escolheram por esmagadora maioria. Esse é o opróbrio maior que recai sobre os teus críticos: o estigma antidemocrático. Só uma fantasiosa teoria da conspiração há-de concluir que os accionistas privados são dominados pela máquina socialista e do governo. Não se convence esta gente que o mundo não é um alfobre de conspirações?

Tinha que deixar esta carta aberta em jeito de homenagem à tua pessoa. Quem não gostaria de receber o teu salário (vais ganhar os três milhões de euros anuais que os teus antecessores auferiram em 2006?)? Quem não gostaria de ter sido encostado ao canto dourado da administração de bancos, depois do mediatismo tão desagradável a que se expõe um secretário de Estado envolvido em trafulhices várias? O que os teus críticos não percebem (incapacidade de discernimento a que és alheio) é que foste premiado com uma sinecura de tanto poder discreto e tão generosos proventos depois da passagem desastrosa pelo governo do amigo Guterres. As lealdades têm um preço a pagar no futuro – eis a explicação.

O teu exemplar percurso fala por si mesmo. Não obstante, hás-de ficar nos anais da historiografia política desta república como um caso de estudo. O exemplo que leva muita gente, carreiristas de primeira água, ao oportunismo da filiação partidária. E a sonhar que algum dia hão-de ser os novos, futuros e ladinos Armandos Varas. Eu, humilde e desacertado com a clepsidra que compassa o andamento, sei que quero ser o contrário de tudo o que representas. É a melhor homenagem que te posso prestar.

16.1.08

O homem que foi à pesca de cobre


Um estrondo, medonho. Logo a seguir ao estrépito a luz foi abaixo. Espreitei pela janela a movimentação das pessoas, assustadas pelo troar que parecia a deflagração de uma bomba. Saí à rua, em direcção do ajuntamento que se formara à porta da estação da EDP, mesmo ali ao lado. As pessoas perguntavam-se o que teria acontecido. Começavam a surgir notícias via telemóvel: a alguma distância dali também tinha falhado a energia. Em redor era vasta a área que tinha ficado sem luz – saber-se-ia mais tarde.

De repente surge um homem, ensanguentado e célere. Tinha pulado a rede que protege a estação da EDP de intrusos. As pessoas estavam surpresas: o homem saía das instalações da EDP, em passo acelerado, tão acelerado quanto permitia a perna que mancava. O seu rosto misturava fuligem com vestígios de sangue que escorriam da cabeça. Percebendo que toda a gente olhava em sua direcção, o homem acelerou o passo. Alguém lhe perguntava se estava bem. Esboçou uma resposta imperceptível, um grunhido qualquer à medida que atravessava o ajuntamento. Só tivemos tempo para ver o homem a cambalear nos seus ferimentos, carregando um escadote de metal todo fragmentado e uma caixa de ferramentas.

Alguém, com mais conhecimentos, juntou os ingredientes. Aquele homem tinha causado o estrondo assustador. Ele tinha entrado à socapa na estação da EDP para roubar cobre. Operação arriscada – comentava o entendido. Teve que se dependurar num escadote e furtar o cobre alojado nas torres que transformam a alta tensão em electricidade que os lares podem consumir. Um gesto em falso, ou a inépcia do homem, e o fracasso do roubo.

O homem teve azar. E talvez não, alvitrava o popular entendido no assunto: quem ali entrou preparado para roubar cobre correu perigo de vida. A operação podia saldar-se com a electrocussão do homem. Sair a mancar, com alguns arranhões e uns traços de fuligem que custariam a lavar, o escadote de metal despedaçado e as mãos a abanar, eis a sorte do homem por entre a fracassada operação de furto.

A polícia, com a diligência habitual, apareceu dez minutos depois de termos ficado às escuras. Demorou dez minutos a percorrer cerca de trezentos metros – a distância entre o local e a esquadra mais próxima. Os agentes, nada apressados, confirmaram que já não era a primeira vez que a estação da EDP era assaltada. Das outras vezes, o cobre não tinha sido furtado à luz do dia. E das outras vezes, os roubos com sucesso, um acto profissional. Em conversa com os populares, já indignados – e não com a anterior comiseração pelo desgraçado imerso em fuligem e sangue –, os polícias disseram que por todo o país são frequentes os assaltos a estações da EDP. O cobre tem algum valor e é fácil de roubar, para quem o souber fazer. Não é arte para principiantes. Aquele homem de meia-idade e, percebia-se pelos andrajos, de origem humilde, estaria ainda no tirocínio da arte de furtar cobre nas estações da EDP.

Naquele dia aprendi que há quem ponha a vida em perigo para roubar uns fios de cobre e vendê-los ao desbarato. Só não percebi quem faz as vezes da procura neste mercado subterrâneo. Ninguém o perguntou ao polícia que estava mais interessado em responder às perguntas das pessoas do que em fazer delas testemunhas da “ocorrência”. É sintomático o cenário que desfilou diante dos meus olhos. Como há gente que tudo arrisca na ânsia de arrecadar um pedaço de cobre que lhe valerá uns míseros dinheiros. A lógica do crime anda de braço dado com o risco, em doses variáveis. E com uma ética distorcida (ou uma falta de ética, apenas). Não consigo reprimir a perplexidade quando são descobertas pessoas que arriscam tanto por tão pouco. Será o desespero que as leva pelos meandros da criminalidade, a urgência em arrecadar fontes de subsistência através de métodos duvidosos, ilegais. Ou apenas a preguiça dos que lêem na criminalidade a fonte de rendimentos fáceis, e todavia arriscados.

Haverá, em tudo isto, o miserabilismo da gente que nem percebe como uns parcos dinheiros do pequeno furto podem trazer graves danos corporais, ou até a morte. Pus-me a pensar: aquele homem teve discernimento para medir o risco que corria por tão pouco? Chegaria, sequer, a ter discernimento para alcançar aquele discernimento?

15.1.08

“O sonho de Cassandra” (de Woody Allen)


Os filmes de Woody Allen mudaram. Já não são exercícios de humor sublime, sarcástico, desarmante. Woody Allen remeteu-se ao papel de realizador, desaparecendo do elenco de actores dos seus filmes. E parece rendido à velha Albion. Os últimos filmes – “O sonho de Cassandra”, “Scoop” e “Match Point” – são filmados em Inglaterra, recorrendo a imagens que percorrem a Inglaterra típica: paisagens verdejantes, palácios sumptuosos, ou Londres cosmopolita. Uma dramaturgia que se afasta do sentido de humor que distinguiu Woody Allen: as relações humanas na sua complexa contemporaneidade, aqui e ali deixando vir à superfície a banalidade burguesa. E depois há uma insólita moralidade a preencher os derradeiros filmes.

Em “O sonho de Cassandra” Woody Allen retoma essa surpreendente mensagem moral. Porventura até uma antítese da ética que obedeça aos cânones da legalidade e da convivência pacífica em sociedade. O filme narra as desventuras de dois irmãos. Um deles teve, pela vida fora, aventuras financeiramente mal sucedidas. O outro, viciado em jogo, álcool e codeína, alternava a sorte ao jogo com rombos que o deixavam com os agiotas à perna. A salvação dos irmãos, em horas de aperto, sempre fora um tio milionário que era dono de clínicas de cirurgia plástica na China e nos Estados Unidos.

Numa visita do tio bem-sucedido, os irmãos preparam-se para mendigar outra generosa ajuda. Um está convencido a enterrar dinheiro em empreendimentos hoteleiros na Califórnia, caindo no logro de um investidor fantasma que se há-de evaporar assim que vir a cor do dinheiro. O outro está a braços com mais uma dívida de jogo, desta vez uma dívida assustadora. O tio ouve-os pacientemente. Desta vez a ajuda tem uma contrapartida. É o tio que está aflito. Confessa que a fortuna que amealhou nem sempre respeitou a lei. E teme por uma auditoria que se avizinha. Admite que a descoberta de podres nos seus negócios o levará por muitos anos à cadeia.

É então que entra a ajuda dos irmãos. Há um membro do conselho de administração das empresas do tio que está disposto a contar tudo o que sabe. O tio sente-se refém deste homem. Só vê uma possibilidade de resolver o problema: liquidar o homem que lhe faz frente. Para não ficar refém de outros – por isso não equaciona a contratação de assassinos profissionais –, convoca a lealdade familiar. Escolheu os sobrinhos para a tarefa. Chegara a hora dos sobrinhos retribuírem todos os favores que o tio lhes fizera para trás. A factura é a encomenda apresentada pelo tio, a morte do homem que o ameaçava levar à prisão.

Os irmãos ficam incrédulos. Primeiro, com a desonestidade que o tio confessa, eles que sempre viram no tio um modelo de virtudes (quem sabe, apenas porque era o sustento nas horas de aperto). Depois, o tio não hesitara em pedir-lhes algo que mexia com as suas convicções. A primeira reacção é a de impossibilidade de tirar a vida a outra pessoa. Depois são tomados pela vertigem das vantagens materiais. O tio prometera uma compensação generosa, ainda mais generosa do que em vezes anteriores. Nervosos e amadores, esboçam o plano do assassinato. No fim de várias hesitações patéticas, conseguem matar o homem que ensombrava o tio.

O dia seguinte é de fantasmas. Um deles não consegue dormir. O outro acorda sobressaltado por um pesadelo. Com a passagem dos dias, o primeiro vai apaziguando a consciência, excitado com as possibilidades de sucesso que se perfilam. O outro mergulha numa depressão profunda, a cada dia mais arrependido com o acto cometido. Mergulha na bebida e nos comprimidos e regressa ao deus que outrora renegara. Um certo dia, confessa ao irmão que se vai entregar à polícia. O irmão fica assustado, temendo que a polícia chegue até à sua co-autoria do crime. Decide contar ao tio, que fica contagiado pelo pânico. Não demora a elaborar um plano de contingência: um irmão tem que silenciar o outro, silenciar para sempre. O irmão, depois da incredulidade inicial, resigna-se. Planeia o acto, no barco que ambos compraram meses antes, baptizado “sonho de Cassandra”. No momento em que preparava um cocktail de comprimidos e cerveja para liquidar o irmão tomado pelos remorsos, é incapaz de levar até ao fim o envenenamento. Furioso, dispara acusações contra o irmão remoído pelo remorso. Lutam. Aquele que ia matar acaba por ser morto, numa queda que lhe fractura o crânio. O outro, desesperado, afoga-se.

A rir-se, fica o tio sem escrúpulos. Até se adivinha que apenas quis afastar do caminho um homem que lhe fazia sombra nas empresas, que toda a história contada era o pretexto para o afastar sem o demitir. Usou os ingénuos sobrinhos, que fizeram o serviço e acabaram, com a fratricida luta, por apagar o rasto da responsabilidade do tio. A surpreendente mensagem é a antítese da moralidade. O crime, compensa. Vingou a maquiavélica personagem que teve arte de congeminar um plano perfeito. Endossou a responsabilidade para os sobrinhos inebriados pela soberba. E depois jogou com os seus remorsos para os limpar do mapa. Varrendo todos os vestígios da sua responsabilidade no homicídio, ele que havia sido o mandante.

Razão tinha um dos irmãos, quando discutiam num momento de dúvida existencial do outro: a maior parte dos crimes fica por resolver.

14.1.08

Da erudição esmagadora


Mentes brilhantes. De uma refulgência ímpar. Passeiam dotes intelectuais com indisfarçável vaidade. De umas vezes, ostentatória. De outras vezes, sublime – o que é mais irritante, ainda. Esmagam-nos com a sua erudição que vai quase até aos limites do infinito. Elevam-se aos píncaros da maioridade intelectual, um lugar reservado aos eleitos com dotes dir-se-ia sobre-humanos (quando a inteligência é contabilizada). Devem adorar concursos de coeficiente intelectual.

E, todavia, esta erudição dá uns passos em falso. Ela tropeça nos seus passos. Os excitados espécimes da inteligência esmagadora não se cansam de exercitar uma inteligência pérfida. Esfregam-na na face dos outros, reduzidos à sua insignificante condição de vassalos das elites que levitam na áurea dos eruditos. Fazem gala da sua inigualável inteligência em frases assassinas, só decifradas depois da enésima leitura. E resguardam-se na ambiguidade das palavras cifradas que escrevem ou dizem. Em sua defesa, argumentam que não há segundo sentido nas palavras proferidas. Só que as palavras codificadas encerram a sua própria ambiguidade, os múltiplos sentidos com que podem ser lidas. A erudição servida no prato dourado, de braço dado com a ausente frontalidade.

Há nesta esmerada erudição um totalitarismo recalcado. Os sacerdotes da inteligência esmagadora empurram os outros, os pobres de espírito, contra a parede da sua reduzida expressão intelectual. É uma batalha de intelectos. Os que são desprovidos de especiais atributos de massa cinzenta sofrem derrotas humilhantes, vergados perante a inteligência que esmaga, como se esmaga um incómodo insecto. É: uma erudição insecticida.

A retórica ambígua, com muito palavreado cheio de significados múltiplos – ou não fosse esta ambiguidade traço da mais elevada inteligência – mistura-se com um refinado sentido de humor. Que, contudo, é humor de sentido único, em círculo fechado, tem remetente e destinatário na mesma pessoa. Percebe-se o esboço de humor refinado, que não passa de esboço disso mesmo. Em abono da verdade, deve ser refinado este acto de humor: só as limitadas capacidades dos que vegetam na rasteira intelectualidade impedem a percepção do exercício humorístico. Para os pobres de espírito, aquele humor refinado pertence ao domínio do ininteligível: olham para os arautos da esmagadora erudição quando soltam as pérolas humorísticas e contemplam-nos nas golfadas de riso abastado que soltam no instante imediato ao chiste disparado com intempestiva arte.

Há uma forma mordaz de os tratar: “adiantados mentais”. Andam à frente dos outros, uma verdadeira vanguarda que, sabendo-se possuída dessa condição, esfrega-a no rosto dos incautos que sucumbem vergados ao peso da sua enorme sabedoria. Quando ostentam as suas capacidades com as pinças sublimes, são mestres da dissimulação. Têm garbo em ser tão sublimes com a sua incomparável erudição. É quando mais esmagam os outros, quando mais se distingue no firmamento a sua elevada inteligência. Os tentáculos da ambiguidade que cercam as vítimas da sua inteligência, da inteligência aterradora. É quando se adiciona um ingrediente fatal: o cinismo, como se fosse refúgio onde se espelham as mentes brilhantes.

É como adiantados mentais que perseguem as vítimas que aparecem pelo caminho. Orgulham-se da condição de campeões da intelectualidade, através da qual vingam no campeonato da força da razão – que o seu estatuto intelectual permite e cauciona como incontestável porta onde se abriga a verdade e a razão que professam, elas tão incontestáveis com a sua superioridade intelectual.

A vaidade sublime é notória. Lá do alto do pedestal onde se colocam, olhando com soberba para os pobres de espírito, desfilam a envaidecida erudição. Fazem lembrar a história infantil em que uma bruxa inquiria o seu espelho, observando-se nele, impante. Estes peregrinos do escol da intelectualidade também se olham a um espelho fictício de cada vez que exercitam a esmagadora inteligência contra os outros. E perguntam, febris nas suas convicções: “espelho meu, espelho meu: há alguém mais inteligente que eu?

11.1.08

Ministro é que a profissão mais dura


Não é o mineiro, laborando horas a frio nas profundezas da terra, inalando poeiras que lhe hão-de roubar a vida antes do tempo. Nem o lixeiro, que recolhe os detritos que fazemos, suportando o odor fétido da imundice numa função a destempo. Ou o operário da siderurgia, cercado pelo ruído ensurdecedor das máquinas, suado como se fosse corpo deitado numa sauna infernal. Nem será a meretriz, de rua ou de bordel de luxo. A profissão mais ingrata é ser ministro. Se for teimoso, arrogante, com a certeza da sua providencial sapiência que o converte em fautor de políticas polémicas. Políticas que viram a turba contra si.

Fico angustiado ao ser observador de manifestações de rua contra o senhor ministro disto ou daquilo. É de uma injustiça atroz. Os descontentes abusam da democracia e da bondade dos governantes. Os governantes, que tanto se sacrificam para servir a pátria; que entregam as suas superiores capacidades intelectuais à causa nobre do serviço público – e depois vem a fraca recompensa de serem desafiados em público, com uma multidão folclórica em procissão pelas ruas, empunhando cartazes que beliscam o bom nome do senhor ministro. Da ingratidão em estado puro. Tamanha manifestação de ingratidão daria lugar a intervenção policial para dispersar os analfabetos incapazes de perceber o alcance das políticas escolhidas a dedo pelo iluminado ministro.

Quando alguém chega a ministro diz adeus à privacidade. Se o ministro vai ao cinema, sabe-se qual foi o filme escolhido. Se o ministro vai a um restaurante, as línguas viperinas apressam-se a circular os apetites gastronómicos de sua excelência. Os livros que compra, a música que ouve, os locais de férias – e com quem as passa –, o sítio onde compra a fatiota a preceito: andam de boca em boca. O aziago ministro tem a vida devassada pelos mirones que observam, registam com atenção e passam a palavra com a impressão que estão a contribuir para a andança da nação (quando só fazem dela uma pálida alegoria). Se alguém mantém uma vida paralela, com amantes e tudo, ou mete a vida nos eixos ou não pode almejar ser ministro. É que tudo, até pormenores, se descobrirá.

Vejo a horda a desafiar o frio da noite em mais uma manifestação contra a política obstinada do ministro. Não querem que feche o hospital da terra. Empunham cruzes, trazendo um ar clerical para a manifestação que, na minha escassa inteligência, não chego a discernir razão. Os cartazes habituais reclamam o contrário da decisão do ministro. Alguns exalam cinismo. Chamam nomes feios, enxovalhando o ministro em público e diante das câmaras de televisão, sempre atentas a captar o ruído de fundo.

A certa altura, um dinamizador do protesto toma conta do microfone e profere oratória. Longe de elogiar o ministro, como devia ser obrigação de qualquer cidadão de perfeito juízo – porque só esses é que ajuízam da bondade das medidas. Desenterra o machado de guerra contra o ministro. Deprecia a sua inteligência. E questiona a sua honradez. O ministro teve direito a uma alcunha pouco confortável: Gepetto. O orador fez uma pausa para a turba reagir ao diagnóstico. Silêncio a dominar, umas pateadas e escassas gargalhadas. O orador indagou a audiência: “vocês sabem que é o Gepetto?” E como a ignorância das gentes não soltava resposta convincente, o orador teve que oferecer resposta à sua interrogação: “é o pai do Pinóquio!” E soltou-se abundante gargalhada.

Tudo isto é lamentável. As gentes deviam aprender a respeitar quem as governa. Devia ser ensinado nos bancos da escola por mestres diligentes: que nunca se questionam os ministros e que em ocasião alguma devem ser ultrajados. E ainda é mais lamentável, porque a comparação do líder da manifestação deve ter confundido as massas: se o Gepetto é o pai do Pinóquio, haveria ali alguma alusão à protuberância nasal do primeiro-ministro? É que, nesse caso, o vândalo terminava por sugerir que o ministro da saúde é o inspirador do primeiro-ministro, numa intolerável inversão dos papéis. Não se pode duvidar da autoridade do timoneiro. Sugerir que um dos seus ministros o manobra devia ser punido com cadeia inapelável.

Não aprendemos a ser obedientes com os que albergam o poder. Será por isso que os senhorios do poder são medíocres de primeira apanha?

10.1.08

Emma Pollock, "Adrenaline"

A moda andrógina


Tenho que admitir: a espaços, necessidade de fazer a digestão do deslumbrante universo da moda. Dissecar as passerelles, as roupas tão imaginativas que nunca as vemos trajadas em plena rua, os desfiles de autómatos impassíveis, rostos fechados, passos maquinais, para trás e para a frente, repetitivos. E os rumores: as drogas, a parca alimentação que reduz os corpos à sua esquálida expressão. Tenho que admitir: o mundo da moda tem o dom de em mim causar irritação solene. Não sei se será por o associar à pura inanidade, o grito mais alto da futilidade.

A moda tem muitos modismos. Vão variando consoante a estação e os estilistas que atingem os píncaros. Entre o muito que me causa espécie na moda, a mania da imagem dos manequins masculinos que mais se assemelham a meninas. É a androginia na moda. Para além dos rostos inexpressivos, como se tivessem desaprendido de esboçar um sorriso, os rapazes que passeiam nas passerelles e se expõem diante das máquinas fotográficas têm rostos e corpos efeminados. Até uma certa moda que recorria a corpos masculinos mais musculados, muito trabalho de ginásio que adelgaçava os abdominais, entrou em desuso. Agora são corpos muito magros, desprovidos das pilosidades que distinguem um corpo masculino de um corpo feminino, corpos macilentos.

Para estes rapazinhos, até a barba parece ter sido definitivamente depilada – como, consta, fazem no torso e nas pernas, que assim deixam de ter trabalho para periodicamente rapar as excrescências capilares que teimam em irromper da epiderme. Para compor o ramalhete, consta que estes rapazes tomam hormonas (femininas?) para se acabar o incómodo dos traços masculinos que são obstáculo à imagem dos manequins que vingou no mundo da moda.

Ponto de ordem: é verdade que estes rapazes têm direito a parecer-se com raparigas. Longe de mim propor que uma brigada de costumes, guardiã do universo politicamente correcto, viesse tomar conta das leis e, implicando com os modelos andróginos, impusesse por decreto que a confusão de sexos deixava de ser admissível. Só que do mesmo modo que a moda triunfante tem direito a reservar para si as suas preferências estéticas, também estou no meu direito de não me identificar com elas. E de me interrogar por que meandros esquisitos anda esta moda que está na moda, que labirínticos caminhos palmilha, que mensagens subliminares traz nas entrelinhas.

Já em tempos admiti a admiração que tenho pelos transexuais. Admiração pela coragem em assumir que nasceram dentro de um corpo estranho. Deve ser angustiante o dilema que os consome. E a coragem que convocam quando decidem assumir o outro sexo com que não nasceram. Não é esta coragem que convive com a moda andrógina. Apenas ambiguidade. A ambiguidade que está na definição da androginia. Alguma covardia. Desconheço – e nem me interessa saber – a orientação sexual dos rapazinhos que se passeiam embrulhados nesta ambiguidade de sexos. Mas parece que estão na mesma categoria dos transformistas, só que não chegam aos seus calcanhares na coragem de se assumirem diferentes daquilo que nasceram. Ou então, nada disto. Apenas uma encenação – outra mais – do mundo da moda, uma imagem estética que manipula um rol de modelos masculinos que se assemelham a corpos femininos.

Há mais perplexidade: muitas mulheres embevecem-se com estes rapazinhos que desfilam nas passerelles e são retratados pelas câmaras fotográficas. Pelam-se por eles, suspiram pela beleza efeminada destes modelos. O que desnuda uma controversa opção interior, porventura um lesbianismo reprimido: pois elas ficam embeiçadas por homens (traço de heterossexualidade) que são um mostruário de feminilidade (vingando a homossexualidade feminina recalcada). Ou, afinal, bissexualidade sem o saberem. A mesma ambiguidade dos modelos andróginos marca as adolescentes e já não adolescentes que ficam enfeitiçadas por eles. Será que muitas delas chegam a perceber a sua homossexualidade reprimida?

Já foi tempo em que as mulheres gostavam de homens pelo que eles tinham de diferente, no espaço tão longínquo que separava os dois sexos. Isto não é a apologia do homem abrutalhado, sem maneiras, que se ufana de maltratar as mulheres. É apenas a estranheza por, em tão pouco tempo, viajarmos de um extremo ao outro, do homem retratado pelo hediondo perfil do marialva ao protótipo do rapazinho andrógino. Ou então sou eu que ando desalinhado do mundo.

9.1.08

E a ASAE não encerra a aldeia transmontana?


Há uma aldeia no concelho de Mirandela com uma provocante tradição: nos festejos do dia dos Reis, as crianças estão autorizadas a fumar – e pais e avós fornecem o tabaco. Houve uma criança de oito anos que em dois dias fumou vinte e três cigarros! Talvez por coincidência, só este ano é que a comunicação social descobriu a aldeia e a tradição ancestral. A fazer coincidir com a lei que proíbe o fumo do tabaco em locais públicos. Não fosse esta lei, mais um episódio do higienismo forçado que varre a santa terrinha de lés a lés, e a tradição insólita continuaria a ser um epifenómeno votado à clandestinidade. A aldeia nem aparecia no mapa.

Imagino o horror que invadiu os apóstolos da perfeição sanitária que se tem imposto via ASAE. (Sim, que há muitos que condescendem com a existência da autoridade paramilitar sanitarista: o argumento poderoso de que há por aí muita chafarica que é mostruário de imundice, inadmissível atentando à saúde pública. Espero não incomodar as consciências bem pensantes com a seguinte pergunta: e se acaso eu quiser ser frequentador assíduo de tabernas repugnantes, onde a palavra higiene não entra no vocabulário, porque se há-de impor a vontade dos apóstolos sanitários sobre a minha vontade?) Regresso ao horror estampado nos rostos dos fascistas do higienismo ao verem petizes de cigarro na boca. Como é possível? Só a tão grande ignorância dos progenitores, que inoculam prematuramente um vício tenebroso, o explica. Uma legião de juízes devia retirar a tutela paternal a estes pais inconscientes.

Eu acho que a ASAE devia meter-se ao caminho, atravessar os contrafortes do Marão e entrar na terra fria transmontana. Para colocar aquela gente na ordem. Como é possível, logo agora que deu entrada a lei que põe os fumadores em sentido, descobrir-se um longínquo reduto que teima em furar a sintonia que se impõe por força de decreto? Para contrariar a ignomínia destes aldeões, a ASAE faria o sequestro da aldeia. Invadiria a aldeia nos seus carros blindados, com um numeroso contingente de agentes armados até aos dentes, como se fossem combater os terroristas que destruíram o sonho lindo do Lisboa-Dakar. O ministro da tutela assinaria a ordem de quarentena. Os aldeões não poderiam sair de casa durante a quarentena. Seriam visitados por terapeutas que os convenceriam a abdicar da anacrónica tradição que rompe com um baluarte da modernidade de que é esteio o timoneiro do país. A quarentena só acabaria quando não houvesse vivalma a escapar à lavagem cerebral, sob pressão das baionetas da ASAE.

Tudo isto não passa de cenário fantasioso. É que uns escassos minutos após ter entrado em vigor a lei que ostraciza os fumadores, o apóstolo maior do higienismo impetuoso foi apanhado com a boca na botija, perdão, a fumar uma cigarrilha no casino do Estoril. Acho que o povo, que se acha especialmente sapiente nestes momentos marcantes, seria certeiro ao disparar um dos adágios que preenchem a sua sabedoria: “bem prega Frei Tomás”...

Não fosse o deslize do paramilitar sanitário que lidera a ASAE e o organismo que zela pela nossa saúde e ensina os costumes aceitáveis já teria feito incursão espectacular na aldeia de Mirandela. Por ora, limitam-se as vontades do fascismo higiénico a retocar a imagem beliscada do herói. Tanto que ontem tivemos o prazer de saber que há interpretações das leis feitas à medida de personagens importantes e que o director da ASAE é mesmo protagonista. Havia uma dúvida: a lei que proíbe o fumo em locais públicos sobrepõe-se à lei dos casinos? Queria-se saber se os casinos podem ser excepção à persecutória lei do tabaco. Por outras palavras, pretendia-se esclarecer de vez se o apóstolo chefe da autoridade sanitária tinha cometido um pecadilho inaceitável ao fumar dentro de um casino.

O director-geral da saúde, que no ocaso do ano passado ameaçou com a demissão caso a lei do tabaco não fosse escrupulosamente respeitada, anunciou ontem à pátria que afinal os casinos são uma excepção. No rescaldo, o director da ASAE passou incólume e nós aprendemos o contrário do que se ensina a quem aprende os rudimentos do direito: a lei geral não se impõe sobre uma lei especial. A lei pode ter sido torcida para perdoar o apóstolo da ASAE, é certo. E assim o homem há-de continuar a esfregar o seu imenso ego, julgando-se justiceiro de uma causa que nos evangeliza, nem que seja à força, contra vontades individuais que se lhe oponham. Aliás, ele já sentenciou os que teimarem em remar contra a (sua) maré, pois disse, em entrevista, que é “o rumo desta sociedade e nós, se não quisermos viver nesta sociedade, temos a hipótese de emigrar”.

Diante desta pesporrência, do desrespeito pelo livre arbítrio das pessoas, tenho uma súbita pulsão violenta (logo eu, que nunca andei à pancada com ninguém, ou sequer empunhei uma arma de fogo...): formar uma milícia que perseguisse a ASAE e só se contentasse no dia em que o seu director fosse exilado para bem longe, com bilhete de ida, apenas. E, diante desta pesporrência, uma vontade incontrolável de aplaudir uma tradição popular – logo eu, tão adversário de tradições populares anacrónicas e patéticas.

8.1.08

Afinal, não somos assim tão diferentes dos franceses


Muita tinta escorreu depois da anulação do Lisboa-Dakar. Entre a decepção dos concorrentes, sobretudo dos amadores que mais ficaram a perder (na carteira e no espírito) e comentadores desportivos e não só que subitamente descobriram a sua especialização em geopolítica, já ouvi e li muito acerca da bombástica decisão dos organizadores franceses. Lá vem o argumento usual dos Rambos de trazer por casa: foi uma vitória dos terroristas; uma lamentável cedência; uma capitulação perante as ameaças do terror sanguinário. E depois há as lucubrações fantasiosas: teorias da conspiração esplêndidas que metem ao barulho o danado governo francês que, invejoso, “forçou o cancelamento” (cito o Autosport) da prova.

Ontem, no habitual momento de meditação espiritual da semana (a leitura do Autosport, a minha bíblia semanal) o desvario atingiu o zénite. Metade do jornal desmultiplicava-se numa histeria descontrolada, no descontentamento pela anulação do Lisboa-Dakar. Começa logo na capa: “cedência a ameaça terrorista cria grave precedente” e “medo vence Dakar”. E vai por aí fora: “governo francês forçou cancelamento” – ainda que, nesse mesmo dia, em visita a Lisboa, o ministro dos negócios estrangeiros tenha garantido que não houve interferência do governo junto da organização da prova. (E se é verdade que os políticos mentem com todos os dentes, pergunto-me por que razões insondáveis haveria, nesta circunstância, perante as ameaças reveladas pelos serviços secretos, mentir um governante.)

À medida que as páginas do semanário se sucedem, mais análise toldada pelo irracional. Alexandre Correia, especialista do todo-o-terreno, assevera que foram “razões meramente políticas” que influenciaram o cancelamento do rali. É mais outro a engrossar o rol da teoria da conspiração, pois dá como certo que “a partir do momento em que o governo francês dá essa ordem [de anular a prova] as alternativas da A.S.O. são praticamente nulas (...)”. Na mesma página, sob a epígrafe “perguntas sem resposta”, há uma particularmente deliciosa – e reveladora do desacerto mental que invadiu muita gente: “se a prova se designasse Paris-Dakar – ou seja, se partisse da capital francesa – Nicolas Sarkozy tinha sido tão zeloso com a segurança dos seus cidadãos?” Ou, logo a seguir, num delírio que nem merece qualificação, interrogando se não “será uma demonstração do poder de Nicolas Sarkozy? Quiçá uma forma de se afirmar por uma acção política, quando tem sido a sua conturbada vida social a merecer a atenção da comunicação social?

(Estou mesmo a imaginar os feitores de imagem de Sarkozy, sussurrando-lhe ao ouvido: senhor presidente, as pessoas só se interessam pelo seu affaire com a cantora Carla Bruni; para desviar as atenções, e dar uma prova de força, vamos inventar ameaças terroristas sobre o Lisboa-Dakar e impor o cancelamento da prova.)

O desnorte contagiou-se até ao director do jornal. Rui Freire também dá por garantidas as ingerências políticas e reclama a cedência perante os terroristas como precedente grave. Adivinha que se abriu uma “caixa de Pandora”, ao indagar como “irão ser geridas outras situações de crise se pairarem ameaças deste jaez sobre o Mundial de Futebol, os Jogos Olímpicos, um Grande Prémio de Fórmula 1, ou uma prova do Mundial de Ralis”. Acrescento eu: como se o palco do Lisboa-Dakar fosse semelhante, perante o terreno aberto que o torna exposto a ataques terroristas, o que já não é tão provável nas outras competições desportivas exemplificadas. E depois ainda há Domingos Piedade a puxar os galões: “Eu, que todos os dias leio dezenas de publicações, em línguas diversas, garanto que nunca li nada sobre isso [as ameaças terroristas].” Descontando alguma fantasia – dezenas, no plural, implica pelo menos vinte publicações; e Domingos Piedade não faz mais nada ao longo do dia?! – sobra a seguinte interrogação: por acaso estas questões, tratadas pelos serviços secretos, não ficam reservadas ao secretismo tão típico dos serviços...secretos?

O momento mais hilariante estava reservado para uma moça que, ano após ano, recebe somas vulomosas de patrocinadores para arrastar a sua lentidão nas areias do deserto e nas savanas africanas ao volante de um camião. Elisabete Jacinto, frustrada pela decisão da organização, teve a sagacidade de concluir o seguinte: “se há problemas na Mauritânia, também os houve em Nova Iorque, em Madrid ou em Londres, mas as pessoas não deixaram de apanhar o metro ou de andar de avião.” A senhora professora de geografia, talvez por ainda estar “visivelmente irritada”, não foi capaz de discernir o seguinte: se acaso tivesse havido ameaças do que acabou por acontecer em Nova Iorque, Madrid e Londres, as autoridades não tinham evacuado o World Trade Centre, o Pentágono, as estações de metro e comboio atacadas pelos terroristas?

E se, afinal, a prova tivesse ido para a frente? E se houvesse vítimas a lamentar depois de covardes ataques terroristas? A quem se pediam responsabilidades? Podemos contemporizar com vidas humanas em risco, assim de forma tão leviana? No meio do burburinho, fica a triste imagem de um quinhão do país que é tão chauvinista como o pior dos chauvinismos que é idiossincrático em França.

7.1.08

O mundo nos seus contrastes: da opulência à indigência


No epitáfio do escritor Luís Pacheco, um dos traços salientes foi a indigência que atravessou a sua vida. Pacheco terá morrido às portas da miséria. Não é a primeira vez que o desapego material é congénito à biografia de escritores. Sobretudo de escritores que o foram grandes, sem serem ícones do estrelato comercial. Não terão sido escritores campeões de vendas, mas a obra que deixaram é testamento da estatura enorme que atingiram. E, no entanto, ou porque tiveram uma vida de devaneios, ou porque os bens materiais nunca foram prioridade, atravessaram dificuldades de sobrevivência, por entre os corredores exíguos da penúria.

Há dias, num programa televisivo sobre Herberto Hélder, ficou documentada a indigência que o poeta passou quando deambulou por Paris e Amesterdão. Sem casa para viver, aos caídos entre estações de comboios e casas de banho públicas. Hoje, já restabelecido para uma forma de viver mais estável, sobrevive com um salário frugal de seiscentos euros. A certa altura, passaram imagens de uma reunião de trabalho da equipa envolvida no documentário. A propósito das dificuldades, diria da impossibilidade em entrevistar Herberto Hélder, porque o poeta se recusa a aparecer em público – sequer a deixar-se fotografar. O director do documentário avisava os membros da equipa da tarefa impossível. E dizia que iam deparar com um homem que vive mergulhado em dificuldades financeiras (o tal salário frugal) e que, todavia, recusou há anos o prémio Pessoa que lhe poderia ter valido trinta mil euros.

A cada passo que tropeço em biografias de escritores grandiosos que viveram um mar de dificuldades, por opção ou por contingência, fico impressionado. As experiências de vida de Luís Pacheco e de Herberto Hélder serão diferentes. Entre eles há um traço comum: o desapego material, o nada terem feito para amealhar alguma fortuna – até a percepção que fugiam do bem-estar material. Quantas pessoas vivendo as dificuldades típicas de quem aufere seiscentos euros por mês teriam recusado um extra de trinta mil euros que, decerto, iria compor o magro orçamento? O poeta, deixando falar mais alto princípios de que não abdica, declinou a distinção. O preço a pagar pelo refúgio no mais completo anonimato de vida, apesar da condição tão difícil de garantir pela produção literária que o distingue no firmamento das letras. (E seria acertada a provocação de Luís Pacheco, entrevistado no documentário sobre Herberto Hélder, que alvitrou que o refúgio do poeta é apenas marketing pessoal?)

À volta, o que mais se vê é opulência. Em muitos casos, ostentação gratuita. Até, dizem-me pessoas conhecidas que estão por dentro da banca, consumismo acima das possibilidades. Não vale a pena ensaiar uma sociologia do consumismo viciante que leva ao endividamento para além do razoável. Nem tão pouco interessa denunciar esses hábitos, engrossando a maré que tenta desconstruir os alicerces do capitalismo pela pornográfica dependência do consumismo. Só quero registar o contraste entre aquela maioria que não abdica do conforto material e faz dela sua substância estupefaciente e a minoria que está nos antípodas dos valores materiais que conduzem os primeiros.

Contra mim falo. Há vícios de consumismo que me fascinam. Grande o pecado se confessar que adorava ser proprietário de um Porsche? Poderia elaborar em minha defesa. Dizer que é o imenso gosto por automóveis, pela condução de potentes automóveis; e não manifestação grotesca de exibicionismo de quem passeia automóveis muito caros apenas como sinal da afluência material, esfregando na cara dos outros sinais do seu sucesso. A justificação não é suficiente para me deslocar do altar dos devotos do materialismo. Abstraindo dos sonhos quase irrealizáveis, há mínimos de subsistência que obrigam à entrega a valores materiais. As contas para pagar, uma casa para viver – e agora que se convencionou, para deleite dos bancos, que todos temos o direito a ser proprietários da casa onde vivemos. Roupa para vestir, a alimentação que provê a subsistência. Alguns objectarão: fomos educados para um nível de vida (os tais mínimos) que obrigam a empenhar a vida em prol desses sinais. E, depois, o que resta? Depois das contas esforçadas do orçamento familiar, pouco tempo para fruir a vida.

É, por tudo isto, incomensurável a admiração pelos desprendidos dos valores materiais que, por opção ou por contingência, vivem no limiar da indigência. (Não os que são empurrados, involuntariamente, para a pobreza absoluta.) Aos que se mantêm fiéis a princípios de que não abdicam e declinam os louros do exibicionismo material. Há quem diga que é matéria-prima necessária para a grandeza da criação literária. Do contraste maior entre o desapego material, que os coloca no limiar da indigência, e a grandiosidade da obra produzida. Porventura, só possível pelas carências passadas que os predispõem para páginas tão brilhantes de literatura.

4.1.08

Cavaco, o invejoso?


No tempo dos reis, eles ficavam para a história pelos feitos e pelo cognome que os distinguia. O advento das repúblicas mudou os hábitos. Aos presidentes não é usual adejar cognome quando entram para as molduras da história. No entanto, não é difícil discernir cognomes para os antecessores do actual inquilino da cadeira presidencial: Sampaio, o ininteligível (ou: Sampaio, o timorato); Soares, o monarca sem coroa (ou: Soares, o implacável); Eanes, o esfíngico (ou: Eanes, o homem que perdeu o sorriso).

Mal ficará propor cognomes para um presidente que ainda vai a meio do mandato. Fazê-lo será gesto de mau gosto: os cognomes atribuem-se depois das personalidades desabitarem a sinecura. Ora, o actual inquilino ainda mora no palácio presidencial e, ao que consta, o enamoramento com os socialistas inscreve-se na oportunista estratégia de garantir a renovação do mandato quando vier tempo de eleições. Ainda assim, ouso sugerir um cognome mesmo sabendo que rompo com os costumes: Cavaco, o invejoso.

Tudo porque na mensagem de ano novo, por entre um sucedâneo do discurso sampaísta, sua excelência perorou sobre os muito elevados salários de certos gestores. No seu douto entendimento, demasiado elevados. Só os distraídos não entenderam o alvo: os gestores do Banco Millennium que se abarbatam com salários obscenos, também no entendimento de outros observadores. Percebo a indignação destes e a cautela do “mais alto magistrado da nação”: fica sempre bem exprimir preocupações sociais. Cavaco sublinhou-o na sua mensagem sampaísta: o abismo entre os administradores e os trabalhadores comuns pode alimentar tensões insuportáveis. Pode até cercear a bovina tranquilidade que apascenta os costumes e a monotonia tão do agrado dos cinzentões do regime – de que sua excelência é o sumo pontífice.

O que sobra da retórica que ressoa a marxismo recalcado? (E digo marxismo porque, daquele aviso, intui-se a crença de Cavaco no argumentário da luta de classes, tão nítido quando chama a atenção para o abismo entre as remunerações do escol de gestores e das que são auferidas pela maralha indiferenciada.) O que sobra é uma inveja, também ela recalcada. Ambicionaria Cavaco ter sido convidado para o conselho de administração de um banco privado que remunera principescamente os seus iluminados gestores? Há que recordar: está convencionado que Cavaco é um dos maiores economistas contemporâneos da terra lusitana (numa tremenda confusão entre dois papéis: o de economista e o de político). Aos grandes economistas ficam reservados lugares de excelência na gestão das grandes empresas. Não será esta a lacuna que deixa uma mácula do currículo de Cavaco?

E depois há que adicionar um traço tão típico da idiossincrasia nacional: a mesquinhez, de braço dado com a inveja. Aliás, é a mesquinha maneira de ser, a forma tão pequenina de sermos, que fermenta a doentia inveja. Desconfiamos dos que estão muito bem na vida. A primeira tentativa para desmerecer a posição privilegiada em que se encontram é duvidar do mérito, ou questionar a forma como chegaram ao lugar de privilégio. Se houver fracasso nesse exercício, o segundo acto consiste em esfolar a criatura através da insidiosa inveja. É tempo para esgotar as aleivosias. Lá no fundo, a inveja indisfarçável é a confissão de como gostariam de estar na posição de quem tanto invejam.

O exercício de sampaísmo na mensagem de ano novo de Cavaco é ainda mais insólito por anunciar a confusão entre dois mundos que deviam viver separados: sector privado e sector público, empresários e políticos. Sim, a cumplicidade entre os dois mundos é recíproca. A culpa deve-se tanto a políticos que adoram interferir nas empresas, como aos empresários que amesendam com a política, sempre dependentes das grandes negociatas com o Estado ou da paternalista protecção do Estado. Tudo isto explica a prescrição de Cavaco. Num país normal, era o que mais faltava vir o presidente da república dar palpites sobre os salários praticados nas empresas privadas. Por cá, neste rectângulo dominado pela pequenez de pensamento, ainda se aplaude. Há um sinal sublime em tudo isto: a bênção de Cavaco à grotesca intrusão dos socialistas governantes (o tandem governo-governador do Banco de Portugal) no Banco Millennium. Mais um acto para o noivado entre Cavaco e os socialistas governantes.

O que se segue? Sugerir que há futebolistas que, também eles, auferem salários obscenos? Determinar por decreto que ninguém pode ter salário mais elevado que sua excelência o presidente da república? Suspeito que no Palácio de Belém ficou depositado um vírus, chamado “Sampaio”, que tomou conta do actual inquilino. É que ele parece, cada vez mais, um clone do seu antecessor...

3.1.08

A inteligência que se consome


Mote: a inteligência limita a autonomia humana.

É a sociedade do conhecimento. A iliteracia é a forma moderna de analfabetismo, pelo menos nos países que se gabam de pertencer ao clube dos mais desenvolvidos. Cada vez mais a inteligência distingue os aptos dos inaptos, os que vingam dos que ficam para trás. Há muitas formas de inteligência. Todas são enaltecidas: ingredientes necessários para a sobrevivência na idade moderna em que vivemos.

E, todavia, a inteligência pode conter as suas dores. Tremendas dores que fertilizam dúvidas existenciais. Ter os olhos abertos e procurar entender os fenómenos em redor pode ser uma experiência dolorosa. Quantas vezes o exercício da inteligência traz o sabor desagradável de discernir o que não gostaríamos de discernir? O odor fétido do mundo. As classes a que as coisas se reportam, com a inversão das tabelas que ordenam as coisas. Os comportamentos que fazem a inteligência contorcer-se sobre si mesma, interrogar-se se afinal há inteligência no mundo pintado diante dos nossos olhos.

A sucessão infindável de interrogações, que só o exercício da inteligência cauciona, entrega-nos às portas de uma encruzilhada. É quando damos conta do estreito caminho alternativo por onde seguimos, diferente da linha contínua onde se afunila o mundo inteiro. Nessa altura entoa bem alto a pergunta maior: se afinal vegetamos na ininteligível forma de ser, penhores do deserto de inteligência. A inadaptação ao mundo: sinal da ausente inteligência, ou apenas um lado obscuro da inteligência que se revela inadaptada ao mundo que a circunda?

Quero crer que não ando nas margens da inteligência. Confesso: se há coisa que me atormenta é despertar de um sonho que espalhou o convencimento da ausente inteligência. É do que mais perturba quando me situo diante do mundo. Só que esta inteligência é uma consumição do ser. A fonte de todas as quedas no precipício, quando a inteligência transporta leituras que semeiam a incompreensão do que está em redor. É a inteligência que alimenta a contínua revelação do ambiente hostil. Fermenta as dores que encerram o corpo na existência de cada dia pungente.

Ao contrário do que rezam os manuais zelosamente escritos pelos pedagogos do regime, a inteligência é um espartilho humano. Não é a carta de alforria que liberta das totalitárias expressões que limitam a autonomia humana. Se muitos acreditam que só através da inteligência há descomprometimento para ajuizar o que os mandantes querem impor, no subterrâneo do pensamento vogam as retorcidas algemas que aprisionam a autonomia humana. A inteligência ao nosso dispor acaba por ser a maior prisão. É ela que sacia a sede de conhecimento, desdobrando o catálogo das interrogações que trazem incógnitas ou apenas respostas que não são as mais confortáveis. Ficamos reféns das perguntas que não têm resposta, ou são penhores das respostas a que não gostaríamos de chegar.

As coisas encerram-se no seu paradoxo. Ao contrário do convencionado, a inteligência não é sinónimo de emancipação humana. Limita-se a restringir a autonomia humana. É o que sinto quando a inteligência desperta e incendeia as cores agrestes com que o mundo aparece pintado. É quando apetece ter sido o contrário da inteligência dolorosa que me consome, dominado pela ignorância que permitiria a discrepância do mundo em redor. Seria uma ignorância terapêutica, caritativa, o condão de descerrar diante dos olhos um simulacro do mundo que me acolhe. Ao menos não haveria as trovoadas quotidianas que amedrontam. Nem teria que atravessar todos os dias as ruas lamacentas até chegar ao sossego da casa onde, talvez, atinja o refúgio da inteligência que não cessa de me consumir.

Há cansaço da inteligência que proclama a glória vã dos que, garbosos, ostentam a sua tão elevada inteligência. Não sabem, coitados, que muitas varas açoitam os corpos vaidosos da inteligência que os remete à doença maior: a perda de autonomia, oferecida no altar da inteligência de que se gabam.

2.1.08

Amotinados


A discordância era método. Catecismo, até. Eram marinheiros teimosos, carrancudos diante do degredo intelectual a que se remetiam, expostos perante as palavras que sempre embelezavam os sentidos dominantes, a militância da maioria. Contra a qual remavam. E quanto mais caudalosa fosse a torrente, com mais intrepidez saltavam para a embarcação e remavam, remavam sempre na direcção contrária.

Sentiam-se amotinados no meio da vasta nau em que todos laboravam. Sabiam que lhes estava reservado o lugar desconfortável de serem olhados de soslaio pelos outros, pelos pastores da cansativa letargia em que os demais navegavam. Por vezes, nem tinham a certeza porque remavam para o lado contrário, a não ser a convicção militante de ser o lado contrário do espelho baço onde os outros se reviam sem nada indagar. Eles, pelo contrário, tudo questionavam. Exauriam as interrogações. E diante tudo o que era confortavelmente aceite, faziam-se dissidentes. Eram as pedras no sapato dos cultores dos consensos habituais. Nem sequer os incomodava saber que de tanto serem os espinhos cravados nos pés dos que reverenciam a monotonia de sempre, era-lhes reservado isolado reduto de onde não pudessem incomodar as excelências que tomavam conta do leme.

E por vezes, dominados pela emoção: a exigência de ser dissidente, apenas uma exigência de método. Discordar era a urgência de destoar da maré fastidiosa. Nem sabiam ao certo que rumo imprimir aos remos de cada vez que entravam na embarcação necessária onde, amotinados, faziam ecoar a sua voz de protesto. Só sabiam da recusa em remar a favor da maré caudalosa. Eram diferentes os caminhos que queriam prosseguir. Outros caminhos; ainda que desconhecidos caminhos. A única razão que os invadia era a desidentificação com o luar que alumiava as veredas teimosamente pisadas pela multidão.

A tal ponto que serem amotinados era vicioso. Uma doença que se contagiava a todas as veias. Não ficava uma para ser dissidente da dissidência militante que aumentava de tom à medida que a idade se acastelava. A rejeição das coisas habituais começava a confundir-se com um espírito de contradição sem razão outra que não fosse vogar na antítese dos lugares apascentados pela maioria. Eles eram a contradição de si mesmos: de cada vez que conseguiam discernir porta de saída do labirinto onde se aprisionavam, só lhes interessava dar guarida a um novo labirinto que fosse negação dos lugares-comuns por onde vegeta a maioria. Esse novo labirinto, contradição da solução para sair do labirinto anterior.

A certa altura, param para interiorizar: dominados pela viciante entrega à negação das coisas. O temor que de tanto se amotinarem contra a água caudalosa, sejam reféns da contradição por militância, da dissidência que se dilui na sua própria opacidade. Motins estéreis. Têm experiência cimentada no passado. Eles sabem que de cada vez que sentem a gratificação de andarem pelos caminhos alternativos, ao dobrarem a página semeia-se um horizonte sem nada. A glória efémera, a glória que se esgota no instante em que descobrem que o motim levou-os a lado algum.

A dependência é tanta que se acaso vingam ideias que alguma vez defenderam enquanto alimentavam dissidências, deixam de ser ideias respeitáveis. Logo que entram no altar do reconhecimento deixam de ser seu património. Passam a ser objecto de contestação, elas que num tempo ainda não distante tinham o seu cunho. O que interessa é deambular pelos caminhos pedregosos, desconfortáveis para os que bebem apenas a seiva oferecida pelos sacerdotes da bonomia envenenada. A glória que é algum dia serem fautores a destempo das ideias que vingam é um golpe profundo na natureza de eternos amotinados. Perturba-os a atribuída paternidade das vagas que percorrem a maré que substitui a que outrora dominara. Nem que tenham que renegar o que lhes era devido no passado. Mais alto ergue-se a voz que anda a descompasso com a matéria que adensa a monotonia das cores que sinalizam o norte necessário.

Para os amotinados, a vida é extenuante. Sempre aprisionados pela caução dos lugares diferentes por onde peregrinam. São nómadas no meio dos outros. E acabam nómadas em si mesmos.

1.1.08

No trote do navio


Na angustiante busca do exílio, temporário refúgio em navio mercante. Sulcar as águas tempestuosas do oceano. Sem ver terra dias a fio. Sem ver terra. Só a quilha do navio admirada do seu trono, engolindo as águas que se confundem com a chuva sem compaixão vomitada por vento cavernoso. E o navio que ondeia, embalado pelo oceano majestoso. Ali à volta há um deserto de água, leito onde toda a fúria atmosférica se recolhe. Ou não: que a fúria dos elementos alimenta o mar encapelado, assustador.

Naquele navio seria invisível passageiro. Os homens, na rotina diária da manutenção do navio, nem dariam conta. Seriam dias a eito sem pronunciar palavra que fosse. Reservada a palavra para os registos em forma de papel, a caução maior do degredo voluntário. Sentiria o navio como um regaço acolhedor onde todas as lágrimas se derramariam no vasto oceano diante dos olhos. Toda a água, todo o sal – feitores das lágrimas vertidas, e das tantas por verter houvesse maneira de resgatar o espírito da couraça que o domou em empedernido escudo. O ferro gasto do navio, enferrujado algures, rejeitava a idade jovem, expunha-o às rasteiras metidas por ondas ousadas. A água do mar repousava no convés, espalhava-se no rosto já salgado e adormecido pelas ideias que se fertilizavam na luz dos relâmpagos.

Aquela água, ensopando o oleado, era o bálsamo onde o espírito aprisionado buscava amolecimento. Os silvos do vento, pela noite, chamamento para sair do resguardo da cabine. O peito aberto à furiosa tempestade atlântica, ao mesmo tempo que o navio parecia ser empurrado de um lado para o outro, navegando por estima. Havia algo de simbólico na luta titânica do navio contra a tempestade encolerizada. O mesmo desvario de outrora, como se as bússolas perdessem o norte e magnetismo algum curasse de recuperar a sua função.

E, porém, nem a escuridão que mergulhava o navio na boca da tempestade troava assustadora. No auge, quando já o convés era lugar inabitado mercê da força assassina do vento, e o céu parecia fundir-se com a acidentada serrania que era o mar, uma estranha acalmia adivinhada. Não estivessem os sentidos anestesiados pela ciclópica tempestade, o pavor teria tomado conta. A sinfonia de uivos dolorosos do vento, da água do mar esbarrando no casco, e depois tombando em espuma no convés, domava os temores. O exemplo era o navio. A custo, a proa arremetia contra o mar furioso, derrotava o vento que soprava de frente. O navio não se detinha – por saber que ao deter-se seria engolido pelo turbilhão que o cercava.

As horas incessantes de tempestade pareciam prolongar a noite, que entrava manhã dentro. Canibalizando-a. Para onde quer que seguisse o navio, a rota parecia prometida a tempestades que se repetiam. Os breves momentos de acalmia só anunciavam a transição para a tempestade adivinhada no horizonte. Ali seguia, embalado pelo trote do navio, emprestado ao sal que se insinuava em todos os poros. Era o sal que curava a ressaca da vida. Ácido para a blindagem que teimava em semear a insensibilidade. O sal temperava outra forma de ser. Porventura também uma capa difícil de penetrar. Mas uma crisálida aberta às dores do mundo – já não uma armadura em refúgio do mundo, como se a ilusão dos males alheios contemporizasse o apaziguamento do espírito.

As semanas, as poucas semanas de exílio prometido em alto mar, pareciam tempo repleto. Os minutos vividos em pleno, todos os seus sessenta segundos. Apetecia não dormir. Vaguear pelo navio, conhecê-lo de lés a lés, abrir todas as escotilhas para o necessário arejamento. E imaginar-se capitão, ter nas mãos as rédeas do navio, imprimir o seu trote conveniente. Um dia, no intervalo entre duas tempestades, um lenço voou até às mãos. E nada, nem ninguém, havia em redor. Nem navios, nem náufragos em lancinante apelo de socorro, nada. Um lenço, perfumado, um lenço densamente colorido. No instante em que alguns tímidos raios de sol perfuravam, a custo, o tecto de nuvens que parecia habitar em conúbio com o oceano. O tanto sol a que estava habituado, ingrediente cansativo (que as estações tinham perdido a usual ferocidade): naquele instante, um fragmento do lugar de onde se refugiara.

O corpo estremeceu, incomodado com a nostalgia do sol tão sagrado na terra que havia deixado ao embarcar. E toda a quietude ancorada ao fim daquelas semanas de exílio se esboroou com o furtivo raio de sol que espreitava no quadrante. Foi quando, ainda distante, tomou forma a linha de terra. Ao fim de todas aquelas semanas de recolhimento entregue às sortes dos mares.