26.2.08

O aselha manual


As mãos desastradas. Um deserto de aptidão para os louvores manuais. Sem jeito para espetar um prego na parede, compor avarias eléctricas, nos antípodas da jardinagem. E, todavia, as mãos são a parte mais preciosa do meu corpo. Talvez por isso mesmo: não podem ser desgastadas nas artes manuais, que laceram a epiderme, semeiam feridas e calosidades, afeiam-nas. Contudo as contradições internas não cessam de me afligir: pois não é verdade que ando frequentemente com as mãos tracejadas pelos arranhões dos gatos?

Descontando os paradoxos das mãos, o que há certeza é da ausente destreza para os trabalhos manuais. Vem de longe. Recordo-me dos tempos da escola. Como eram penosas as horas semanais das aulas de “trabalhos oficinais” – madeiras, macramé e electrotecnia, por esta ordem na sucessão dos trimestres. A plaina era um objecto estranho. Estava sempre desconfiado que a plaina entrasse nos meus dedos, com a sua lâmina escondida mas avisadamente afiada a espreitar pela extremidade. Deitava-me à plaina sem convicção, com um jeito desconchavado. Não havia surpresa quando, no final da obra, o objecto produzido era um esboço mal amanhado do que tinha sido pedido pelo professor.

Depois vinha o pior: macramé. As cordas entrelaçadas geravam geringonças de utilidade duvidosa. Não que fosse ausente alguma utilidade, concedo: os aprestos que a turma produzia serviam, as mais das vezes, para pendurar vasos ornamentados de flores. Eu é que duvidava da necessidade do sistema de ensino treinar os homens de amanhã para os predicados do macramé. Duvidava que a excelência estivesse ali, nos especialistas de um louvor doméstico. Admito que a repulsa do macramé era auto-interessada. Pela tremenda falta de destreza manual que me punha a dançar a descompasso com o macramé. Os dedos contorciam-se entre as cordas esbranquiçadas, e os nós que deviam soerguer-se teimavam em desfazer-se na inépcia das mãos. O resultado foi quase vergonhoso. A professora foi indulgente e presenteou-me com uma “negativa alta” (cito-a de memória). Chamou-me à parte para segredar: “só não tiveste 1 porque nas outras disciplinas tinhas excelentes notas”.

Para a electrotecnia partia com elevada desconfiança. Não podia ser pior que o macramé. O objectivo era chegar ao fim do ano lectivo sem manchar o cadastro com uma negativa na disciplina abstrusa que se misturava com outros saberes interessantes. O que me salvou foi haver uma componente teórica na parte dedicada à electrotecnia. O problema surgiu quando fui chamado a passar a teoria à prática. A mexer nos circuitos eléctricos, comprovando os ensinamentos transmitidos. Lá voltei a defrontar-me com a deficiente destreza manual.

Havia um motivo para a inaptidão: em criança tinha apanhado meia dúzia de choques por inadvertidamente ter levado os dedos à tomada da electricidade. E, como sabemos, os traumas de infância são travões mentais que se accionam mais tarde, quando se convoca um acto que nos leva de regresso às complicações da tenra idade. A lembrança dos choques eléctricos, que entravam pelos dedos e iam braço a dentro, bloqueava a acção diante dos circuitos eléctricos que tinha que manipular. Foi aí que comecei a descobrir outro defeito pessoal: a falta de pragmatismo, que foi sendo acentuada com a idade e com a descoberta de como a teoria (e a teorização) tem encantos indescritíveis. Ao ponto de hoje mergulhar em intrincados problemas teóricos que, no fim de contas, se forem espremidos servem para apaziguamento pessoal, desprovidos porém de aplicação prática.

As mãos desastradas continuaram, vida fora, destreinadas para as artes manuais. Numa relação causal que se auto-alimenta: os travões mentais herdados da infância e da adolescência nunca foram ultrapassados, redobraram de intensidade e fizeram-me voltar as costas a todos os louvores que exigem destreza manual. Às vezes tento combatê-lo. Ao menos, um esforço para dominar as mãos desastradas. Ou só para confirmar a inaptidão. No fim do exercício que exigiu a aplicação das mãos desastradas, sobra uma obra mal feita, o cansaço pelo tempo perdido entre parafusos e quejandos e a certeza que se reafirma: sou um aselha manual, incorrigível.

Um dia destes procurei montar uma cadeira de escritório. Um plano detalhado facilitava a montagem. Passo a passo, não havia como enganar. Horas depois, quando terminei a função – que, aposto, roubaria uns escassos minutos a alguém capacitado – sobravam parafusos e a cadeira abanava para além do razoável. Tempo depois, quando o desgaste da cadeira exigiu a sua substituição, comprei uma nova e contratei os serviços de montagem da loja. Foi a prova dos nove da aselhice manual: o que me levou um par de horas foi cumprido a preceito em meia dúzia de minutos.

25.2.08

O Benfica é um clube gay?


(Advertência: texto com linguagem eventualmente homofóbica. E eventualmente chocante para benfiquistas sem poder de encaixe.)

Já percebi tudo. Houve alguma estranheza, no início da época, quando o autoproclamado “maior clube do mundo” (pausa para esboçar sorriso sarcástico) apresentou uma indumentária onde o cor-de-rosa se engalanava. Já se sabia que por lá jogava uma Amélia, com aquele tique irritante a empurrar as melenas efeminadas para trás. Depois, contrataram um Di Maria (passando, portanto, o clube a ser considerado o clube das Marias) e um guarda-redes suplente que dá pelo nome de Butt (e sabemos o que significa butt em inglês…). Eram trejeitos a mais para a raça marialva da agremiação que se diz representar a preferência clubista de uma esmagadora maioria dos cidadãos nacionais, já para não mencionar dos cidadãos do mundo.

Os indícios foram confirmados agora, através de uma campanha publicitária que procura atrair os desenganados benfiquistas até ao estádio onde jogam. Isto faz-me lembrar as manobras da igreja católica para evitar a desertificação dos templos, ao menos na missa dominical. Perante a deserção dos fiéis – católicos ou benfiquistas – uma campanha em marcha para reavivar as fidelidades. Sinal de desespero? A campanha do Benfica serve-se de renomados artistas, que estão dispostos a deixar tudo o que lhes é mais querido para irem ver o jogo do amado Benfica. Num spot, três Gatos Fedorentos (que o quarto, por definição, está afastado da campanha: soube escolher o clube acertado) revelam toda a homossexualidade reprimida do adepto do “glorioso” (aspas com toda a propriedade).

Numa praia deserta, um dos Gatos num enlevo típico de telenovela mexicana com uma beldade de cortar a respiração. A cena pateticamente telenovelesca é sintomática do protótipo do benfiquista. Entre abraços e promessas de ósculos, num romantismo de pacotilha, o varonil conquistador repentinamente larga a donzela, deixa-a com água na boca: está na hora do jogo, o “glorioso” Benfica vai jogar, o romance fica para segundas núpcias. Atrás das dunas, os outros Gatos levantam a cabeça ao chamamento da hora do jogo. As meninas que os acompanham – deslumbrantes mulheres, dirão benfiquistas empedernidos, só ao alcance de benfiquistas empedernidos –, atónitas, vêm os seus amados fugir numa correria desenfreada rumo à sua Meca onde tantos desgostos têm arcado nos últimos anos.

O ramalhete compõe-se, finalmente. O equipamento rosinha, a Amélia, o di Maria, o Butt; a peça que faltava: a campanha publicitária que mostra o amor infinito pelo Benfica, tanto que até se trocam as delícias de mulheres curvilíneas por um mísero jogo do Benfica. Tenho para mim que isto é revelador das preferências sexuais do benfiquista retratado na publicidade. Jogos do Benfica há muitos. O mesmo se não dirá da oportunidade de trazer para os lençóis uma mulher que deixa água na boca e as hormonas aos saltos. Um homem que se preze não deixa escapar trutas daquela qualidade. Por razão nenhuma. É significativo que a libido benfiquista leva a trocar mulheres gostosas por um estádio apinhado por uma maioria de homens excitados a verem vinte e dois pares de pernas másculas e peludas atrás de uma bola. Homossexualidade latente, portanto.

Ou o cérebro do marketing do Benfica é homossexual assumido (e as parcas habilitações literárias do presidente da agremiação não permitem discernir o alcance da campanha em marcha), ou há aqui uma mensagem subliminar. Na moda da discriminação positiva e das causas fracturantes, há militâncias vanguardistas que recolhem o aplauso da sociedade mais virada para estas coisas. Quem sabe se o Benfica não se quer apresentar ao mundo como o maior clube LGBT do mundo? O passo seguinte da campanha será esse: o Benfica sempre um passo à frente dos demais – um clube onde os machos trocam delícias carnais pela religiosidade clubista, afinal, a confissão da homossexualidade latente que se desnuda. Só não percebo como ainda se assegura que os bons pais de família são do Benfica.

Para o ano, o carnaval gay de Berlim vai-se de mudar para o Estádio da Luz. A estátua do Eusébio será ornamentada com motivos efeminados. Vieira será o patrono da marcha, envergando collants e unhas pintadas de encarnado berrante. Às mulheres que queiram satisfazer a sua libido, o melhor é baterem à porta de exemplares do sexo masculino que forem adeptos de outros clubes.

22.2.08

Plus ça change, plus ça c’est la même chose


Há tantas vezes cansaço da rotina. Tantas vezes promessas que a mudança será a bússola seguida. Os passos de sempre, mundanos ou não, trazem o corpo pelos mesmos sítios. Uma rotina, repetitiva como as rotinas são. As cores, sempre as mesmas. Até as paisagens por onde os dias se repetem são as mesmas, com as mesmas árvores, as mesmas nuvens, o céu indistinguível. Uma palavra que magoa com dores que não se acomodam a analgésicos: a palavra “mesmo”.

O apelo das coisas diferentes é irreprimível. Como se houvesse uma porta, dantes invisível, que se revela diante dos olhos. Para surpresa dos olhos. A curiosidade de abrir a porta, só para espreitar o que há do lado de lá. É a voracidade pela repressão das rotinas instaladas que desperta o espírito curioso. Por um momento, alguma sede de aventura. Um gérmen de mudança que verga os sedimentos da quietude instalada, do conhecimento repisado. Os olhos espreitam, a medo, o que se anuncia do lado de lá da porta. O conservadorismo latente, que se apoderou do sangue que corre nas veias, fermenta a prudência que leva os olhos a espreitarem, temerários. O corpo acanhado esconde-se do lado conhecido, ainda inerte do lado de cá da porta. Não seja o terreno desconhecido, a antítese da rotina estafada, um lugar pior para acamar as novas rotinas que hão-de vingar.

É o tirocínio da vida. Nunca um mergulho descomprometido por lugares não visitados outrora. Os passos lentos, cautelosos, como se houvesse metódica desconfiança no chão desconhecido que os pés palmilham. Faz lembrar o corpo que se aventura pela escuridão de um lugar, os olhos embotados pela ausente claridade, os dedos tacteando as paredes rugosas. O tacto que faz as vezes da visão, mapeando com lentidão o caminho pelo labirinto escuro e desconhecido, exercício de espeleologia em grutas húmidas onde as trevas são a única coisa certa, inóspitas.

O cansaço do habitual declina um espírito sequioso de suprimir os laivos de conservadorismo que são o altar onde só o conhecimento das coisas conta. Às vezes, um instante para interiorizar o tempo já gasto: de como é sintoma de desaproveitamento de um mundo inteiro ainda por conhecer. É então que apetece ir ao encontro dos lugares diferentes, das coisas na sua imensidão não revelada, sentir o ar diferente que se respira nos sítios nunca dantes visitados. Aportar num cais tranquilo, onde tudo em redor seja um convite ao que há de novo para oferecer aos sentidos. Ou apenas mudar rotinas, num singelo apelo à derrota do conservadorismo que acalenta a demissão do espírito com sede de conhecimento.

Só que, depois, a gratificação da mudança é efémera. As rotinas derrotadas depressa são lugares esvaziados, apenas lembranças dos hábitos desapossados. A transição é a adocicada expressão dos hábitos encerrados numa página já dobrada. Porém, uma transição. Fugaz; como todas as transições. Há-de uma nova habituação chegar, rotinas diferentes, mas rotinas à mesma. Uma dependência perene de rotinas. A revelação de que somos corpos dados aos passos habituais, às coisas que se desfilam todos os dias diante dos olhos, a palavras que assaltam o espírito na sua repetitiva eloquência, que depressa se desprende dela e ganha a espessura do que se repete a cada dia.

Em ciclos, a existência. A vida composta por capítulos. Que se encerram e renovam a cada passo em que o cansaço da rotina falou mais alto e a empurrou para a sua decadência. Ciclos, também eles repetitivos. Um singular destino: não há mudanças que se repitam, na voragem de combater o conservadorismo maquinal, que não sejam traço de uma rotina. Todas as mudanças desaguam sempre num lugar conhecido. É então que sobra o amargo sabor das mudanças que espalham rotinas diferentes, mas rotinas. O agridoce sabor de mudar para voltar ao mesmo, ainda que o mesmo seja efemeramente um odor de diferença.

No fim de contas, dominados por um conservadorismo irreprimível. As dores de parto afligem mais os que se condoem com o impante conservadorismo. Ingrata sensação de descobrirem que, por mais que mudem, tudo fica na mesma.

21.2.08

O justiceiro dos impostos


A mitologia de Robin dos Bosques perdura. Podem os novos justiceiros não palmilhar as terras em demanda das opressões dos fortes sobre os desprotegidos. Nem tão pouco roubam aos endinheirados para distribuir pelos pobres. A tarefa está reservada ao sistema fiscal que asperge as pétalas de socialismo inevitável, na forma da redistribuição forçada de rendimentos. As pichagens de paredes no período revolucionário quente, logo a seguir ao 25 de Abril, já avisavam: “os ricos que paguem a crise”. Para o sistema de impostos, estamos permanentemente em crise. Socialismo radical.

A gente abastada não se comove com os predicados do socialismo científico. Quando pode, foge aos impostos. Mentem com todos os dentes que têm: escondem rendimentos, escondem fortunas, servem-se da engenharia fiscal para pagar menos impostos, ou até – suprema heresia – para fugir aos impostos. Às vezes, a fuga é ilícita e ficam com o fisco à perna, aturando fiscais tacanhos, muito cinzentos, cobradores de fraque em nome do povo credor dos impostos em falta. Outras vezes é apenas elisão fiscal, a ginástica entre os buracos da lei que deixam uma pequena fresta por onde fogem ao pagamento de um balúrdio de impostos, sem irem contra a lei.

O que nos vale é que os diabos que não se convencem das suas obrigações fiscais têm a vida cada vez mais difícil. O fisco aperta as malhas, com a ajuda da tecnologia que faz cruzamento de dados entre várias entidades, para que os contribuintes não sejam relapsos nos deveres fiscais. E mesmo que a máquina fiscal não fosse um monstro tentacular que cerca, impiedoso, qualquer tentativa de fuga aos impostos, teríamos ainda direito a uma espécie de provedor do povo carenciado. É provedor por iniciativa própria, sem ter sido constituído nessa qualidade por decreto do governo. Saldanha Sanches, o justiceiro dos impostos.

As suas aparições como especialista dos impostos são frequentes. Dá lições de permeio com uma retórica caceteira, espumando uma raiva incontida em relação aos contumazes dos impostos. Que, normalmente, são os ricos, essa espécie odiada por Saldanha Sanches. Na sua infância, deve ter sido assoberbado por sonhos constantes que o faziam regressar à Idade Média e vestir-se na figura de Robin dos Bosques. Hoje, o justiceiro do fisco adoraria vasculhar as contas bancárias dos endinheirados, passar em revista as suas declarações de impostos, chafurdar nos registos prediais para descobrir o património imobiliário. Só para, no final, denunciar e depois punir – e com severidade – os que ousassem fugir, um cêntimo que fosse, ao dever de pagar os impostos devidos.

A saga justicialista exige desbragamento verbal. Solta meias denúncias: lança a granada à espera que outros venham tirar a cavilha para ela rebentar. Queixas que ficam pela metade, não vão os acusados colocá-lo em tribunal por ofensas à honra. A incontinência verbal só chega para percebermos que ele suspeita de muita coisa, de muita gente, das coisas comezinhas que “todos sabemos” mas que, no final, ficam quase sempre por provar. Entretanto vai espalhando a confusão. E surgindo aos olhos dos incautos como alguém dotado de uma consciência cívica apurada: o seu estatuto de figura pública e de reputado docente de uma não menos reputada universidade são o substrato para um dever de silenciar o silêncio, soltando a voz de protesto contra os que já tanto têm e se recusam a distribuir pelos necessitados, via impostos.

Às vezes não percebo se a urticária contra os ricos resulta das dores de parto de um passado revolucionário no regaço do MRPP, ou se há ali convicção no combate contra a evasão fiscal. Quem o ouve fica com a impressão que só os ricos escondem rendimentos e fortuna para escaparem ao jugo do fisco – e quanto mais ricos, mais fogem. Incompreensível é ainda não ter sido convidado para director-geral dos impostos, ou secretário de Estado da tutela, e com cargo vitalício. Não será pelo cadastro de extrema-esquerda deixado lá atrás, pois que já houve um primeiro-ministro com o mesmo registo.

Para quem acha que pagar impostos é um roubo legalizado, o justiceiro fiscal é dos piores inimigos que se pode conceber. Desconfio quando me aparecem pela frente personagens muito certinhas, só virtudes, com uma moralidade milagrosamente superior que as coloca num estatuto quase divino que dá direito a sentenciar comportamentos alheios. Quem passeia a vaidade da cidadania exemplar há-de ter esqueletos tenebrosos escondidos bem no fundo de um baú inacessível. Quanto mais estes justiceiros (sem que ninguém lhes tenha pedido para desempenharem o papel) insistirem em o ser, denunciando, protestando, lançando suspeições, mais tenho vontade de fugir aos impostos, de fugir com os parcos rendimentos para uma Suíça, um Liechtenstein, umas ilhas Caimão, umas ilhas Virgens.

O paraíso é o lugar onde nem sequer o rosto do justiceiro fiscal possa vogar numa televisão à distância dos olhos. A menos que ele amesendasse no poder e mandasse as chaimites invadir a Suíça, o Liechtenstein, as ilhas Caimão e as ilhas Virgens. Submetendo pela força estes lacaios do grande capital e obrigando-os a abdicar do malfadado sigilo bancário.

20.2.08

A direita incorrigível


Às vezes percebo quem é de esquerda. Por que razões são de esquerda – sobretudo aqueles que têm instintos niilistas, de negação das ideias em que se não revêem, sendo esse o móbil para se situarem no espectro das ideias políticas. Assim como eu não sou de esquerda, pelas reacções epidérmicas que tudo o que ressoe a esquerda me causa. Sem ser de direita, da direita conservadora, beatificamente católica, tacanha, nacionalista, tributária de um Estado forte que traz a iniciativa privada na sua alçada, forçada às reacções pavlovianas de quem depende da generosidade estatal. Dessa direita trauliteira, apanhada por “valores” ancestrais, como se ainda vivesse algures perdida no nebuloso final do século XIX.

Há espécimes desta direita incorrigível por todo o lado. Para gáudio das esquerdas, que nem precisam de se esforçar muito para convencer exércitos que se alistam nas suas fileiras que elas são a inevitabilidade dos tempos modernos. Basta olhar para os disparates infindáveis dessa direita para que muitos se encostem a uma esquerda qualquer. Essa direita irregenerável é o maior capital de confiança para as esquerdas. Se a direita deste jaez desaparecesse, ou se fosse reduzida a uma expressão insignificante, o que seria das esquerdas que vivem dela como quem necessita de oxigénio?

O mais recente episódio da irreprimível tolice desta direita foi conhecido através das palavras sábias da Sra. Berlusconi. Publicou artigo de opinião no dia dos namorados, no jornal Corriere della Sera, destilando um manual do comportamento das senhoras mães de família. Imagino as feministas empedernidas, as insónias que as terão assaltado ao lerem as preciosidades oferecidas pela Sra. Berlusconi. Começa por ensinar que “a mulher deve ser o anjo moral do lar e estar sempre disposta a oferecer uma carícia ou a servir os outros, através de simples gestos caseiros”.

Há frases sumarentas, um vasto cardápio que vem polir o altar do supremo disparate. Esta afirmação catedrática da Sra. Berlusconi é, diria, burlesca na sua sagacidade. É só pérolas, e todas acantonadas numa singela frase: a mulher como “anjo moral” (e há, por acaso, anjos imorais?! E se a mulher é a caução da moralidade dentro do lar, será o homem, por antinomia, o demónio da imoralidade?); a generosidade perene de quem deve estar “sempre disposta a oferecer uma carícia”, para logo desfazer possíveis equívocos de mentes mal intencionadas que poderiam tresler as doutas palavras da senhora: pois as carícias concretizam-se através de “simples gestos caseiros”. Não resisto a enfileirar ao lado das mentes perversas, propositadamente viradas para uma interpretação maliciosa das palavras da consorte do ex-primeiro-ministro italiano: oferecer carícias ao marido, vá lá, faz parte do contrato matrimonial; faltou-lhe explicar como podem as donas de casa oferecer essas carícias a alguém com quem não tenham contraído matrimónio. É que na expressão “simples gestos caseiros” cabem muitas possibilidades…

A Sra. Berlusconi – que, a propósito, tem nome próprio: Veronica Lario – prossegue a sua saga anacrónica. Reclama dos homens o reconhecimento de um estatuto específico para as mulheres. Desenganem-se os arautos da igualdade dos sexos. A D. Veronica quer que os homens não incentivem as consortes a optarem por uma carreira igual à deles. Uma carreira profissional, onde se joga o prestígio, o poder, o dinheiro, a ambição, está reservada aos varões. De outro modo, as senhoras não terão condições para exercer a função para que foram criadas – supõe-se, com a ajuda do dedo divino: serem fadas do lar. Para agigantar os fantasmas que se levantam detrás das nuvens da modernidade, a D. Veronica apressa-se a pressagiar o futuro caso as mulheres se demitam do seu lugar de “anjos morais do lar”: de acordo com a sua mente fantasiosa, hão-de nascer muitas “gerações mortas”. (E o que é uma “geração morta”?)

O mundo pequenino da senhora Berlusconi é este: lugares diferentes, papéis diferentes, uma caução à estafada superioridade masculina. Já sabia que ainda sobrevivem abundantes exemplares do marialvismo que, por cá, tem expressão em toureiros monárquicos com veia para o fado gingão. Desconhecia que há, entre a fauna feminina, quem escreva palavras de apoio ao marialvismo retrógrado. Terá a D. Veronica feito um curso intensivo com D. Nuno da Câmara Pereira?

19.2.08

Mau, muito mau


Eu sei que, não há muito dias, prometi que não voltaria a desperdiçar um minuto que fosse com a personagem que se pavoneia como primeiro-ministro. Eu sei que de cada vez que gasto palavras com a personagem lhe dou uma importância que ele não merece. E sei que ao passar em revista as fantásticas elucubrações do meirinho desta paróquia me confesso importunado só pela sua simples existência. É uma verdade: como não tenho artes de simular a existência num mundo faz de conta, é para este que os olhos despertam todas as manhãs. Para esta terrinha paroquial, comezinha, a mediocridade tacanha a campear à solta.

O pior é que as novidades que apoquentam chegam logo pela alvorada, quando a teimosia de me querer informado esbarra nas desagradáveis notícias. O timoneiro foi entrevistado num canal televisivo. Hossanas obrigatórios. Excertos no noticiário radiofónico, uma síntese da entrevista. E se tudo isso não bastasse, a reprodução de uma anunciação solene pela voz solenemente irritante de sua excelência: podemos estar descansados que a excelência assegura o cumprimento de uma promessa que foi bandeira maior da campanha eleitoral que o trouxe para o cadeirão do poder. Garantiu: há-de chegar à criação dos 150.000 empregos.

Primeira observação: nunca consegui compreender como pode um governo – já para não dizer um primeiro-ministro – criar xis postos de trabalho. Os empregos só são criados pelo governo – e nunca por um primeiro-ministro – na administração pública. Ora sucede que este governo se ufana de ter posto em marcha a reforma da administração pública (outra fantasia para irmos no engodo): por cada funcionário que entra, saem dois antigos. A matemática não deixa mentir: na administração pública (a ser verdade aquela regra), há subtracção de empregos. Sobra o sector privado. Alguém compreende que sejam ministros, ou governos, ou messiânicos primeiros-ministros, a inventar empregos nas empresas que, sendo privadas, não lhes pertencem? De uma vez por todas: quem gera emprego nas empresas são os empresários, não os mentirosos primeiros-ministros que aparecem com uma varinha mágica com dotes de geração de emprego.

Segunda perplexidade: os ares de aprendiz de feiticeiro com que o maravilhoso meirinho aparece diante dos entrevistadores, manipulando números sem que os entrevistadores consigam esboçar uma réplica decente. O raciocínio lapidar foi este: ele “criou” (repito: as aspas porque ele não cria um único emprego) 96.000 empregos desde que caiu em sorte à paróquia tê-lo como timoneiro. Um jornalista retorquiu: “ainda faltam 54.000 para cumprir a promessa”. Como bom vendedor de banha da cobra, de permeio com uma falta de rigor matemático que lhe é conveniente, veio a réplica de sua excelência: “50.000, eu sei”. A diferença de 4.000, um detalhe que fura a matemática formidável que a personagem viria a desfiar logo de seguida. Em três anos e meio “criou” 96.000 novos postos de trabalho. Falta um ano e meio para o fim do seu mandato. Regra de três simples: em três anos conseguiu “criar” 96.000 empregos, no ano e meio que falta há-de conseguir “criar” metade daquela quantidade – sensivelmente os 54.000 que faltam para atingir a meta proposta.

É nestes momentos que me convenço que só há uma maneira de ler estes episódios da política: com humor. A rir, com gargalhadas sonoras e prolongadas. Correndo o risco de ser acusado de desrespeito de sua excelência. Que, é sabido, não tolera a falta de respeito e não admite que o questionem nas suas verdades insofismáveis. Do fim-de-semana, mais uma manifestação de como convive muito mal com manifestações públicas que beliscam a sua aura intocável. Um grupo de professores acampou às portas da sede do PS, onde sua excelência iria gastar tempo precioso numa reunião com professores socialistas, tentando apaziguar a contestação contra a avaliação dos professores. Perturbado com as vaias dos manifestantes, espumou a raiva à frente das câmaras que o filmavam. Indignado: na sua iluminada maneira de ver as coisas, não deviam ser permitidas manifestações à porta das sedes dos partidos quando elas são convocadas por gente alheia ao partido em causa. Porque condicionam. Faltaria perguntar-lhe: e veda-se o direito à manifestação? Não lhe soa a tempos sombrios que ficaram para trás? E as manifestações não são feitas para, à sua maneira, condicionarem? Fica no arquivo da já longa série de exibições de intolerância do primeiro-ministro.

Regresso à fantasia matemática dos empregos “criados” por sua excelência. É impressionante como desdobra um raciocínio tão simplista. Como quem diz: se conseguiu “criar” quase 100.000 empregos em três anos de mandato, manda a regra de três simples da matemática que no tempo que falta (metade dos três anos) haja a necessária “criação” de metade daqueles empregos. Uma regra mecânica, que a matemática não deixa mentir. E uma tirada digna de aprendiz de feiticeiro. Se a condição de feiticeiro não é abonatória, o que dizer da de aprendiz?

O registo humorístico ficou guardado para o final da notícia: o grande timoneiro inventou um tabu em torno da sua excelsa pessoa. Ainda não decidiu se vai para novo mandato à frente do governo. Primeiro: alguém, no seu juízo, acredita que isso seja verdade? Como pode personagem tão providencial para um país, que decide do alto das suas prescientes capacidades os momentos emoldurados na história, deixar de ser primeiro-ministro? Segundo: um elevado narcisismo desnudado, definitivamente. Percebe-se a táctica do tabu: ficar à espera de uma “vaga de fundo”, vinda do Portugal profundo, que se ajoelhe diante da personagem e clame pela sua continuidade ao leme da nau. Por mim, bem podia emalar os pertences e assentar arraiais numa qualquer sinecura internacional onde o seu enorme ego ficaria ainda maior. A bem da minha sanidade mental.

Como está na moda a avaliação dos professores, e como professor que vai passar à margem dessa avaliação, aproveito para avaliar a infausta personagem que, adivinho, vou aturar como primeiro-ministro por sei lá quantos anos mais: mau, muito mau. Mau de mais para ser verdade.

18.2.08

A discoteca mais cara do mundo – ou ecos de um “clubbing” na Casa da Música


Algum dia teria que acontecer a minha entrada no mastodonte das artes, sorvedouro de recursos públicos, outro exemplo (mais) do famoso descarrilamento das contas públicas. Ia a um concerto (Múm e Pere Ubu) que acabei por não ver, pois o desleixo das coisas deixadas para a última hora surpreendeu com os bilhetes esgotados. Restava o plano B: ir ao “clubbing” da Optimus, um desfile de DJs pelas salas da Casa da Música que se improvisaram discotecas.

A ideia tem méritos. Para obra tão cara, a imaginação de lhe dar usos variados. Uma programação abundante, diversificada; uma ocupação intensa do cubículo incensado na massa fria do cimento que rodeia os visitantes. Só assim haverá arte de amortizar a fartura de dinheiro que o edifício custou. Ali dentro, ao som estridente do trance-ou-house-ou-lá-o-que-aquilo-se-chama, dei comigo estacado na discoteca mais cara do mundo. Orgulhoso da cidade em que vivo. Daqui a sugestão para programadores culturais: ao mundo, ofereçam a imagem da discoteca mais cara do mundo, para atrair mais peregrinos que são consumidores de roteiros do turismo cultural. Assim como assim, o fantástico primeiro-ministro sentenciou, há tempos, que Lisboa tinha entrado no roteiro cultural da Europa. Que não se esqueça do Porto e da sua discoteca mais cara do mundo, para não ser acusado pelos arrebatados tripeiros de contribuir para o hediondo centralismo.

Ali dentro, cercado pelo cinzento asfixiante e pelas formas originais do edifício, com as arestas vivas que pareciam afunilar das alturas sobre os visitantes de copo na mão, os ouvidos agredidos por sons que continuam a ser corpos estranhos. Entre a fauna pós-pós-moderna, que saltava excitada no arrebatamento dos sons repetidos e da alquimia das músicas misturadas e remisturadas, sentia os ouvidos ardentes como se houvesse martelos pneumáticos numa meticulosa percussão aflitiva.

Admito: o pé não conseguia reprimir um movimento basculante, impelido pelos ritmos alucinantes. Às vezes, o corpo hesitante ensaiava movimentos mais generosos, desprendendo-se do estigma do dançarino desajeitado. Longe, muito longe, dos corpos desinibidos que se faziam à coreografia ostensiva, desafiando os DJs que retorquiam com mais uma dose de sons misturados e remisturados, cheios de efeitos especiais com o auxílio de software manipulado em computadores portáteis que rivalizavam com leitores de CD e o prato dos discos de vinil que aqui ainda são um ingrediente necessário.

Os DJs iam mudando, a música também. A sala enchia-se com a madrugada que entrava. Do alto das escadas, uma vista total da sala e da audiência que ensaiava coreografias díspares de frente para os DJs de serviço. Já com a madrugada a pino, foi a vez da música saída do manicómio. Percussões estridentes, às vezes longos minutos de repetitivas percussões que eram fragmentos ásperos entrando nos ouvidos. À mistura com imagens que se reproduziam na parede cinzenta de cimento, imagens alucinogénias que anestesiavam os corpos em coreografias disformes e maquinais. Como se fosse um convite ao desprendimento dos corpos da dimensão terrena onde aportavam. Os pés estariam em contacto esparso com o solo, mas as mentes adejavam algures, entre corredores muito coloridos e corpos extenuados languidamente deitados, mostrando-se exangues.

Havia profusão de faixas etárias. Mais novos, mais velhos – até um casal na sexagenária idade, porventura na desventura de um erro de diagnóstico ao lerem a programação da Casa da Música. Não fiquei cliente. Não sei se será sinal de envelhecimento, ou apenas desalinhamento dos cânones musicais que por ali dominam. Eram três da madrugada: os ouvidos enrubescidos e os neurónios cansados por tanta percussão alucinantemente repetitiva convocavam ao abandono do recinto.

As dores da música de manicómio perduraram sono dentro. Quando acordei, ainda havia ecos da música de manicómio a troar no cérebro. E não eram as dores da consumição etílica, que se guardam para o dia seguinte, pois a abstémia condição o impede. Eram mesmo as cicatrizes da música saída do manicómio, as cores psicadélicas barradas nas paredes de cimento, a rivalizar – agora percebo – com o psicadélico magma alaranjado da empresa de telemóveis que patrocinava o evento.

15.2.08

As rugas, caução da experiência


O elogio da velhice. Nem por não estar na moda, que a idade moderna, com a voracidade do tempo que se consome a cada instante gasto, trata de sagrar a juventude como a virtude onde os corpos deviam repousar. E de sangrar a velhice da sua dignidade. A ciência ainda não foi longe ao ponto de retardar o envelhecimento das células. E os corpos, por mais que se debatam, por mais que se oponham à marcha do tempo, acolhem as marcas da idade. Envelhecem. As rugas, a cal viva da velhice que se insinua, inexorável.

Vejo rostos marcados pelas rugas. Rugas que entram fundo na carne, pronunciam-se na sua densidade. Mostram o roteiro de uma vida, tão marcada por vicissitudes como as rugas marcadas no rosto. Esses rostos possuem uma expressividade ímpar. Caucionam uma extensa experiência de vida, a garantia de uma clarividência ausente da vida frenética dos mais jovens. Ao mesmo tempo, as rugas são o repositório de uma serena sabedoria. Contra a maré dominante: a força galopante do conhecimento, que avança a galope furioso, num arrebatamento da insaciável inteligência humana, convencionou que os mais novos aparecem na vanguarda. Aos mais velhos, as rugas perdem serventia. O saber decantado pelo tempo, pela larga experiência da vida, perdeu o valor de outrora.

Teme-se que os idosos sejam os novos excluídos. Que o sejam pelo insidioso silêncio a que são deixados. Ou pela solidão que lhes sobra, à medida que deixam de ter utilidade para a sociedade, enquanto os entes queridos vão deixando a vida. E à medida que são esquecidos por aqueles a quem eles legaram vida. Porventura na expressão mais grotesca da ingratidão de que se pode ser testemunha. Nessa altura, as rugas deixam de ser a tutela de uma sabedoria que se depurou com as camadas do tempo que se foram sedimentando. As rugas são o sinal da decadência, da extremidade da vida que pode chegar a qualquer momento, pela doença fatal.

E, no entanto, vejo nesses rostos uma serenidade inigualável. Não será o cansaço dos corpos que são leito para rostos tão enrugados a sanção para a sabedoria serena. Será a clarividência do saber acumulado, o mais alto discernimento que só a nitidez da vista alcança com a densidade do tempo acumulado. Uma paradoxal evidência: os olhos cansados que reclamam lentes mais graduadas, a descompasso com a nitidez das imagens que desfilam diante da vista, só dos olhos envelhecidos que repousam na montanha de rugas espalhadas pelo rosto. A nitidez trazida pela depuração da sabedoria. Ao cabo de um percurso acidentado, com as estradas muito sinuosas que foi necessário deixar para trás, as encruzilhadas que semearam frugais hesitações.

A sagração da juventude prolongada esbarra no comedimento da sabedoria envelhecida. Para gáudio da indústria de cosméticos, que oferece abundante gama de cremes e sucedâneos que tentam convencer incautos que o envelhecimento da epiderme pode ser retardado, até revertido. Os cremes espalham-se com a convicção que aquela ruga expressiva, e ao mesmo tempo incómoda, há-de desaparecer. Desenganados, iludem-se na fantasiosa retórica da indústria cosmética. Uma oportunidade perdida: o denodo com que se entregam numa luta contra a natureza do seu próprio organismo é a caução para a experiência adiada. Acreditam que adiam o envelhecimento. Munem-se dos cremes e sucedâneos na promessa da juventude, se não eterna pelo menos prolongada.

Quando chegarem à velhice irreprimível e notarem que a queda do pedestal da juventude prometida onde se elevaram é tão dolorosa, as insuportáveis dores do envelhecimento. Todas as rugas que forem desnudadas pelo meticuloso espelho, as pás de uma engrenagem irremediável, a velhice todavia renegada. Haverá nostalgia pelas fotografias que retratam na eternidade o que o tempo trata de desmentir. São os teimosos em aceitar a fina camada dos dias que se transforma na densidade do tempo, onde acama a sua própria velhice.

Nessa altura, as rugas marcadas no rosto serão um manancial de dor interior, já não o altar onde se oferece a sabedoria decantada.

14.2.08

Circo e rosas


Sarkozy & Bruni. A política já o tinha deixado de ser há muito tempo. Só um palco de ilusões, onde contam os malabarismos, a espectacularidade das palavras em ocasiões solenes, estudadas com a milimétrica cirurgia dos fazedores de imagem. A política abastardou-se, perdeu o rasto da ideologia. Dizem alguns: são os ventos do pragmatismo, que põem a política (e a governação) ao serviço das pessoas. Os meandros da ideologia são as sobras para ideólogos, filósofos, ensaístas e outras abencerragens encerradas em empoeiradas e escuras bibliotecas.

De França chega episódio que é um passo em frente na mutação da política. O romance do presidente francês com uma ex-top model e agora cantora que encanta um exército de fiéis seguidores – porventura são-no (seguidores) mais pelos atributos físicos do que pelos dotes artísticos, o que não será confortável para a artista. O passo em frente é uma exibição de fulanização da política: a simbiose entre a vida pessoal e actividade pública de Sarkozy. No fim de contas, será um passo – mais um – atrás.

Andam por aí alguns observadores que anunciam que já perceberam tudo: como hoje não se dá ponto sem nó na política, com políticos nas mãos dos consultores de imagem, há aqui uma elaborada encenação para desviar as atenções. O público, atraído pela resplandecente vida amorosa do seu presidente da república, e ao mesmo tempo anestesiado para a desmaterialização da governação. Em vez de vigiarem de perto Sarkozy político, encantam-se com o romance com a cantora Bruni. Outros, talvez mais invejosos porque são testemunhas de como um adversário político roubou o coração de uma cantora que endeusavam, peroram sobre a inanidade do político Sarkozy, que assim se refugia na asa protectora da (dizem eles) deslumbrante Bruni.

Quem se põe a jeito dos holofotes mediáticos procurou ser o alvo de toda a atenção. O que me intriga é como pode uma figura que à partida já é pública, com tudo o que isso significa de perda do recato que só o doce anonimato traz, como pode essa figura adensar a exposição da sua vida privada como Sarkozy (e Bruni). O idílio parece uma telenovela com episódios todos os dias nos noticiários, com fotografias dignas de um filme romântico de segunda categoria todos os dias nos magazines, fossem revistas cor-de-rosa ou sérios periódicos. Um dia destes, detalhes sobre a vida íntima do casal?

Uma possível explicação que desmerece o feminismo é a seguinte: que mais pode desejar um cinquentão saído de um divórcio, ao que consta doloroso, que a beldade caída no regaço? Há no casal Sarkozy (ou como dizem alguns, da esquerda invejosa, o casal Bruni) um inevitável exibicionismo. Não querer resguardar recato da vida pessoal é o sinal desse exibicionismo. Ao mesmo tempo, Sarkozy desfila no plateau onde a companheira é experiente. Os franceses, divididos: uns, embevecidos pelas façanhas do D. Juan que é o inquilino do cadeirão presidencial; outros, esmerando a crítica pelo espectáculo que desvia as atenções para o voyeurismo a que são convidados pelo seu próprio presidente.

Enquanto não assentar a poeira deste idílio que faz do presidente francês um rival dos top stars do meio musical ou cinematográfico, a França está tomada por uma estranha silly season. A que se entregam todos os franceses: os que apoiam a aventura amorosa de Sarkozy e se esquecem que Sarkozy se parece esquecer de fazer aquilo para que foi eleito; e os invejosos à esquerda, que apontam o dedo a Sarkozy e se embrulham em comentários que têm tanto de jocoso como de mau gosto sobre a vida pessoal do adversário político que, para seu desgosto, preside ao país a que pertencem.

Pelo caminho, renovo a impressão que Sarkozy é um embuste. Politicamente, com uma sucessão de medidas que são a face vergonhosa de uma certa direita, que tem em França expoente máximo: a castração química de pedófilos e violadores; a extensão da pena de prisão a condenados que não mostrem sinais de reinserção social quando a pena chega ao final; a paternidade da eliminação do princípio da livre concorrência na União Europeia, durante as negociações do Tratado de Lisboa; a protecção dos interesses da indústria francesa, num proteccionismo que renega qualquer vestígio de liberalismo e arremete contra as ondas da globalização, como se a França estivesse orgulhosamente sozinha no mundo; e agora o autismo com a repetição da violação de compromissos no seio da União Europeia que obrigavam a França a atingir uma meta do défice orçamental, a que Sarkozy já mandou dizer que se está nas tintas. Para obliterar estas nódoas, um romance com a cantora para toda a gente ver.

Esta é a direita que faz as delícias das esquerdas. Um lauto banquete que deixa às esquerdas abundante terreno de crítica. O melhor que lhes pode acontecer: é que nem precisam de esconder os seus esqueletos no armário. Bastam os entretenimentos da vida pessoal de Sarkozy.

13.2.08

Expressões encantatórias (lavagem de dinheiro; caça aos talentos; fuga de cérebros)


Por vezes, as palavras encavalitam-se numa coreografia de fascínios. Não é só com a poesia, aí mais na musicalidade das palavras que se entoam nas estrofes que compõem o poema. Há palavras que se combinam numa estranha metamorfose dos sentidos, dos sentidos que, isoladas, elas têm. Quando aprecem conjugadas, tecendo expressões idiomáticas que se revelam, pressente-se o fascínio das palavras. Essas expressões embelezam a nossa deambulação pelas palavras. Somos espectadores passivos das palavras encavalitadas que se passeiam diante dos olhos.

Por exemplo: lavagem de dinheiro. Na correcção da sintonia social pelas leis e costumes estabelecidos, esta é uma expressão que arrasta uma conotação negativa. Fala-se em lavagem de dinheiro e logo se pensa no refugo de actividades criminosas que tiveram a prodigalidade de proventos. Dinheiro sujo que carece de uma adequada lavagem. É a forma de branquear capitais que, de outro modo, haveriam de pôr a nu a origem criminosa. E poria também os seus titulares com a mala à porta da prisão.

Não me interessa aqui debater a censura social da lavagem de dinheiro. Nem tão pouco apetece libertar o aplauso aos justiceiros da nossa praça que não se cansam em denunciar crimes de colarinho branco e a fuga aos impostos das grandes fortunas, algumas delas nascidas com o opróbrio da dúvida. O que me encanta não é o fenómeno da lavagem de dinheiro; é a expressão “lavagem de dinheiro”. Se ele é sujo, há que o tornar imaculado. Como se, por sortilégio, existisse uma máquina de lavar onde o dinheiro à entrada imundo saísse com a mais pura alvura, e o seu odor pestilento se transformasse num aroma a detergente perfumado.

A expressão em língua inglesa é ainda mais fascinante: “money laundering”. “Laundering”, se for substantivo, vale para lavandaria. E assim fica demonstrado como existe uma lavandaria para fazer o branqueamento dos dinheiros duvidosos que se acumulam em certas fortunas, também elas duvidosas. Bancos, offshores e o sacrossanto sigilo bancário que é a alma mater do negócio dos bancos na Suíça são os ódios de estimação dos tais justiceiros que se insurgem contra a abastança construída à custa de crimes de colarinho branco, ou deploráveis fugas a impostos.

São necessárias caças aos talentos para iludir a vigilância das leis e delinquir com o propósito de reunir uma fartura de notas que depois exige tirocínio da lavandaria das fortunas duvidosas. São mestres no risco, sempre com o estigma da censura social a bater sob as suas cabeças, atormentando a consciência em sonos intranquilos (quando a consciência não é comprada pelas mordomias materiais do dinheiro a rodos). Outra vez, o que fascina não é a meticulosa engenharia da criminalidade que gera tantos dinheiros que trazem o rótulo da sujidade social. É a expressão “caça aos talentos”, à massa cinzenta que se conjuga para apascentar a delinquência. Há outro tipo de caça aos cérebros, lícita: as empresas farejam o mercado dos profissionais à procura do recrutamento dos génios disponíveis. Caçam-nos. Como se o mercado dos profissionais fosse uma selva onde há caçadores e caça. Com uma diferença que não é de somenos: ao serem alvejados, os cérebros tiram partido da caça. Partido material, pois como cérebros muito procurados exigem recompensas a preceito.

O que me leva à terceira expressão fascinante: fuga de cérebros. Os cientistas que se especializam no estrangeiro e nunca regressam à terra-mãe (o que é para alguns nativos uma reprovável traição da terra que os viu nascer). Ou os especialistas que se cansam da ingratidão da pátria, incapaz de reconhecer o seu mérito com justa recompensa, e emalam haveres oferecendo os préstimos intelectuais em terra estrangeira. Há quem diga que este é um sintoma da profunda crise da portugalidade contemporânea. Também aqui o que me interessa não é perorar sobre o fenómeno. Uma vez mais, o que é fascinante é a harmonia das palavras que se casam entre si numa expressão idiomática: “fuga de cérebros”.

É como se fosse possível a emigração da massa encefálica, desprendida da cavidade óssea que é seu leito. O crânio ficaria na terra-mãe. A massa cinzenta, a essência dos primores dos cientistas premiados, voaria para terras distantes, desmaterializava-se. Não acontece só aos cérebros o adeus à terra-mãe que se revela indigna, ou pelo menos ingrata, das suas capacidades. Também há muito dinheiro que foge ao cutelo dos impostos e voa para outras paragens, para a asa protectora dos offshores e bancos suíços que garantem confidencialidade e generosidade fiscal. Fuga de cérebros, fuga de capitais – emigração de uma terra que não se cansa de desperdiçar oportunidades por não saber ser grata. Ou por inépcia de quem traz o leme na mão.

Será isto alheio a incentivos para a profusão de crimes de colarinho branco, ou de crimes que proporcionam avantajados proventos, e para a lavagem de dinheiro?

12.2.08

Também somos do tribalismo?


Nem sei como me situar perante os critérios da comunicação social. Tenho a consciência da vertigem do espectáculo que conduz as opções editoriais. A tentação pela imagem fácil, a imagem-choque, aquela imagem que desperta a veia animalesca que vive, latente ou ostensiva, em cada um. É o império do jornalismo sensacionalista, que abdica do rigor para se entregar às preferências do povo inculto. Demite-se da faceta pedagógica que, julgava na minha inocência, devia ser seu atributo.

Ontem senti uma vontade de vomitar para cima da televisão. Pela vilania das imagens servidas no noticiário nocturno. Uma primeira vez, ao de leve, no resumo ao bater das oito da noite. Uns minutos mais tarde, as imagens da afronta passearam-se segunda vez, demoradas. Como se não bastasse a repetição, a RTP voltou a passá-las terceira vez. Imagens no rescaldo do ataque ao presidente da república e ao primeiro-ministro de Timor-Leste. Na linguagem das pesarosas reacções oficiais, imagens da “tentativa de decapitação” do regime. As imagens do insurgente, o Major Reinado, jazendo já cadáver no meio de uma poça de sangue.

A imagem da bestialização: não chegariam testemunhos de gente considerada credível, por exemplo do contingente da GNR estacionado em Timor-Leste, assegurando que o mau da fita tinha sido morto? Não. Era necessário presentear a opinião pública com as doces imagens do mau da fita imerso numa poça de sangue, do seu sangue derramado após mais um putativo golpe de Estado (ainda que não haja certeza de ter sido tentativa de golpe de Estado, não obstante a certificação dos sacerdotes do politicamente correcto que, à distância de milhares de quilómetros, já cuidaram de assim sentenciar).

Um doce presente: quem atenta contra heróis e tomba mergulhado no insucesso deve ser humilhado na hora da morte. O preço a pagar pela afronta de ter atentado contra a vida dos heróis. Que interessa que os cânones politicamente correctos, dos que se pavoneiam pelos meandros do humanismo, sejam espezinhados neste necessário parêntesis que excepciona a regra? Os que palmilham essas veredas nem sequer terão reparado na indignidade das imagens que ostentam o cadáver do Major Reinado. Nem uma palavra protestando o atropelo dos ditames humanistas, que tanto (e correctamente) empunham, por exemplo, ao protestarem contra as violações básicas dos direitos humanos na prisão de Guantánamo. A emoção dos acontecimentos e a preocupação pela vida de um dos heróis atacados terão ofuscado o discernimento desta gente, sempre tão pressurosa em indicar o lado bom da barricada onde as ovelhas ordeiras devem ser pastoreadas.

Desta comunicação social espero pouca coisa, habituado aos critérios editoriais que são a expressão da mediocridade que campeia. Mares de sangue é com a comunicação social – sabendo que se dirige a um povo bruto, um povo que também adora meter o nariz em cabidelas do género. Ontem passou dos limites. É repugnante a divulgação das imagens do cadáver de Reinado, uma única vez que fosse. É infamante que em quinze minutos tenham passado três vezes essas imagens. Numa repetição nauseabunda.

A sensação que sobra é a de que não nos distinguimos do tribalismo dos outros, que se passeiam pela inanidade da violência com requintes de malvadez que julgamos ausentes de nós. É o que resulta da divulgação da imagem do mau da fita caído em combate (e nem vou discutir a simplicidade de quem vê o mundo a preto e branco, com a certeza inabalável de quem é o mau da fita e de quem são os heróis). Para que nós, tutores do bom caminho, sejamos certificados que aquela nódoa foi varrida do baralho. Acabamos cultores da mesma barbárie que julgamos ser atributo das sociedades ditas incivilizadas.

Não escapamos ao diagnóstico se formos penhores da brutalidade de quem ostenta o cadáver do mau da fita como quem exibe um troféu de caça. Não é inédito: recordo-me das imagens quando Savimbi foi morto pelas tropas angolanas, com grandes planos do cadáver repetidos à exaustão. Ou de como vieram parar à televisão as imagens que precederam o enforcamento de Saddam Hussein. Há muitos cultores do politicamente correcto que anseiam por alardear a sua superioridade civilizacional (o que acho, à partida, disparatado). Fracassam pelo seu silêncio diante das imagens da barbárie, das imagens que humilham uma pessoa que acabou de se transformar em cadáver. Talvez sem darem conta, são um areópago de tribalismo. O tribalismo de quem não denuncia o tribalismo alheio.

11.2.08

AAN


Já o confessei algures: meteorologista frustrado. Desde cedo me atraíram os fenómenos da atmosfera. A sucessão das estações. O que as causava. E o que explicava as chuvas abundantes do inverno, o estio doentio, as tempestades que tinham tanto de assustador como de encantatório, a magia das neves que só caem tão distantes da cidade natal – e, pela sua raridade, elevadas a um altar de deslumbramento que só as coisas escassas possuem.

Desde tenra idade prestei muita atenção aos boletins meteorológicos. À sinalética a decifrar a linguagem hermética dos geofísicos desajeitados à frente das câmaras de televisão. Às vezes, as figuras dos geofísicos desapareciam da televisão. A falta de telegenia o ditava. O boletim meteorológico tornava-se uma fria expressão de frases feitas que passavam pela voz dos locutores de serviço, sem a mesma expressividade com que eram debitadas pelo saber dos geofísicos. Esses anónimos boletins do tempo que haveria de fazer perdiam credibilidade. Sabia que as previsões eram feitas pelos profissionais, por aqueles especialistas que eu invejava no seu saber que não se confundia com a esotérica sabedoria popular que se desmultiplica em adágios de prescientes antecipações do tempo que fará. Sem as caras dos geofísicos, parecia que as previsões soavam a patranha no falsete das vozes tão profissionais.

Agora os meteorologistas regressaram à televisão (à RTP). Passaram por um curso intensivo de postura diante das câmaras de televisão. Já não são as desajeitadas personagens que depois davam azo a anedotas sobre a figura que faziam. A crendice popular teimava em desmerecer a ciência da previsão meteorológica, ainda e sempre acreditando no “cheiro” que o povo tinha para o tempo. Com a experiência do passado, tentavam adivinhar o tempo que iria fazer na estação seguinte. Os meteorologistas eram apenas criaturas estranhas, entesourando uma qualquer ciência que se confundia com um esoterismo estranho ao povo. E como qualquer ciência, falível. Mais falível ainda, porque os elementos da natureza e as forças da atmosfera provocam surpresas constantes que desmentem previsões.

A ciência evolui. Toma como instrumento sofisticados modelos matemáticos que medem variáveis infindáveis: os ventos, sua direcção e velocidade, as temperaturas em diferentes camadas da atmosfera, as superfícies frontais que anunciam uma revoada de chuva. Já não erram tanto como outrora. O povo parece ir abdicando do seu suposto empirismo meteorológico e presta mais atenção às previsões dos geofísicos. Sinal de amadurecimento. O que muda é o tempo. Isto a propósito da sinalética que os experts do tempo usavam nos boletins televisivos, a busca incessante de símbolos que tornassem acessível a linguagem técnica e hermética da ciência. Havia um símbolo que aparecia constantemente durante o inverno: “AAN”, denotando a expressão acentuado arrefecimento nocturno.

O frio do inverno, quando a noite se deitava no céu, enraizava-se nos campos de tal arte que, ao acordar, um manto branco pintava os campos, substituindo a verdejante paisagem por uma alvura gélida. Dantes, quando não entravam as superfícies frontais desde o Atlântico despejando um fartote de chuva, era o frio árctico que comandava o inverno. O símbolo AAN omnipresente. Em toda a geografia, mais pronunciado no interior que no litoral. Nas terras do interior, um intenso AAN. Temperaturas que desciam bem além da fasquia da congelação, um frio penetrante, imagens de estalactites de gelo num mágico equilíbrio da água que se congelou com o AAN. Mas também havia AAN bem junto ao mar. Os vidros dos carros cobriam-se de uma fina camada de geada. Também sentíamos temperaturas que se aproximavam do ponto de congelação. Às vezes, poucas vezes, um frio tão intenso mostrando o termómetro para lá dos zero graus.

Agora é diferente. Será o alarmismo do aquecimento global com o degelo das camadas polares, o activismo ambientalista de Al Gore, ou apenas o tempo que muda por outros motivos ainda não sondados pela comunidade científica. O AAN emigrou das terras litorais. E mesmo lá para o interior o AAN visita as cercanias do ponto de congelação, já não desce a níveis quase nórdicos. Faz menos frio. Parece que o inverno se tropicaliza – ou, a ser menos exagerado, ameniza. Com uma desvantagem maior: a nitidez do céu e das formas que só o frio intenso desnuda começa a pertencer aos registos da memória. Essa diáfana condição perde-se com a tropicalização da invernia. Já não aquele frio que tanto fazia tiritar o corpo como actuava como bálsamo, na redefinição das formas, na nitidez com que tudo aparecia diante dos olhos.

8.2.08

As feridas abertas


O coração do homem existe para sanar as contradições mais insanáveis”, David Hume.

Será a maquinal tendência para meter caminho pelas avenidas da complicação. Será, até, a atracção pelo abismo do conflito, mesmo sabendo que o conflito é o ingrediente do desconforto, da perturbação do espírito, das palpitações aceleradas do coração que consomem saúde. Pela vida, espalhados vestígios de confrontações acaloradas, divergências logo promovidas a protagonismo desmerecido, quando afinal não passam de pormenores. O pior é o restolho que fica por varrer.

A sentença de Hume é tentadora. O primeiro contacto com a frase trará a irresistível concordância. Diria: a imperativa concordância. Somos feitos de uma massa que convoca a abertura de espírito para ultrapassar as diferenças. No fundo, as diferenças que afinal nos unem. A tolerância é também acerca disso. Será lugar-comum confirmar que o património genético da espécie humana é a profunda diferença que distingue cada indivíduo. Pela imensidão do código genético, na expressão das infindáveis variáveis que tornam cada pessoa espécime único. Se Hume está certo na sua observação, as divergências encontram porto de abrigo na complacência que é capital de confiança de cada indivíduo. Recusar aquela que parece uma verdade insofismável é franquear as janelas ao conflito perene, dando passo, por vezes, a manifestações de estupidez servidas através de violência.

Há sempre um porém semeado no caminho a perturbar a clarividência dos diagnósticos vertidos na sua simplicidade. Descontando patologias que acamam no divã de psiquiatras, alguém no seu juízo desmente a asserção de Hume? Poderá alguém contrariar o entendimento que é de dentro de cada um que estão as forças para liquidar uma contradição que tenha entrado no umbral do insanável? Na negativa, a opção clara: o conflito que se adensa, o sono perturbado, a irascível reacção que sobe de intensidade, os olhares desconfiados que são um ensombrado cenário acossando espíritos atormentados. E tudo parece tão linear: quem ganha alguma coisa com uma via-sacra de divergências? E as contradições que julgamos insanáveis, terão atingido esse patamar?

Por vezes, há polémicas irremediáveis. Um choque de personalidades. Dar o flanco traz o travo amargo da cedência, como se o triunfo do oponente fosse um punhal cravado fatalmente na dignidade que não tem preço. Até pode o diagnóstico seja exagerado. Que não sejam insanáveis as contradições, nem venha mal ao mundo se, no rescaldo da divergência, haja anuência perante a razão do outro. O ensimesmamento tolda a visão das coisas. É quando se fazem as tempestades em copo de água. Escusadas tempestades. As ondas, inocente maresia, transfiguradas pela visão deformada das coisas. Transfiguradas em mar alteroso que se esmaga contra o peito que grita toda a sua dor. A convicção da sua alteridade, ou a entronização de si mesmo num lugar inacessível, como se houvesse um eu que vogasse acima dos outros, e a caução para a discórdia febril. Há quem acuse uma dor excruciante por um pequeno abanão na sua personalidade. Depois sucedem-se as reacções desproporcionadas. Conflitos que o não são, a não ser na sua fantasiosa visão.

Outras vezes, os lugares e as ideias navegam nos antípodas, e o choque de personalidades faz o resto. Espalha as contradições insanáveis. A certa altura, um laivo que seja de divergência, ainda que alimentado por insignificâncias, chega para libertar o arsenal de palavras que magoam, a belicista entrega dos guerreiros que se alimentam no seu antagonismo. É altura de convocar David Hume. Interiorizar as diferenças como manto natural do código genético acentuadamente diferente. Que as divergências são nutriente das pontes que se constroem, sabendo que o senão dos caudalosos rios que separam as duas margens é a dolorosa ferida que permanece aberta enquanto houver o arremesso de munições que magoam o outro.

A asserção de Hume parece arrebatadora na sua profundidade, como roteiro impreterível para uma vida apreciável, para o reencontro com a prometida plenitude da existência. E, todavia, Hume contornou uma pergunta que ficou sem resposta: quando saímos vitoriosos ao sanar as contradições que pareciam insanáveis, não ficam feridas abertas por sarar? E que o tempo venha cicatrizar essas feridas; não são as cicatrizes o mostruário das contradições de outrora, impedindo o olvido das avenidas divergentes que foram pasto para os dias atormentados?

7.2.08

A antiética da ética


(In Público, 03.02.08)

Incomodam-me as lições pespegadas por supostos sacerdotes de valores que se objectivam em si mesmos. Incomodam-me os telhados de vidro. E, todavia, há sempre gente que se afadiga em apontar o dedo aos outros, àqueles que até se põem a jeito da crítica fácil. A tentação de actuar como denunciante. Não é esta uma peça de exculpação dos devaneios que espezinham a ética. Ultimamente até fomos presenteados por um primeiro-ministro que hesita entre a compulsória imagem que faz de si mesmo como messiânica personagem que “faz história” e alguém cujo passado resgata fragmentos que muito ficam a dever aos convencionados padrões da ética.

Longe de mim defender tal personagem. Não me está no sangue a possibilidade. O que mais me incomoda ainda são as pitonisas do desespero que ficam boquiabertas com os outros que pisam a linha da ética. Desde logo, porque fermentam o estigma da vítima que leva a infausta personagem a aparecer nas televisões com ar de Calimero. Ora, como a populaça gosta de exercer os seus dotes de comiseração abrigando os coitadinhos debaixo da asa, os sacerdotes da ética acabam, sem o saberem, por ajudar a compor a imagem do timoneiro que o quer continuar a ser para desdita pessoal.

Tudo isso é detalhe no meio da nefasta retórica que prega as virtudes da ética, como se fossem as suas pítias imaculada gente que conduz um rebanho atreito a obliterar os traços de ética que devem ser seu norte. Podia-se discutir o que é a ética. A que deve ela obedecer. Este exercício seria suficiente para se perceber que a ética não se objectiva. Concedo: em cada momento, em cada lugar, haverá um mínimo denominador comum que as pessoas respeitam, ou pelo menos dizem respeitar (diferença que é, adiante se verá, significativa). Mas trata-se de um catálogo minimalista de valores que dá substância à tal ética que deve ser bússola de quem não deambula pelos caminhos da dissidência. Além desses mínimos está um vasto terreno de divergência. Muito mais que os consensos que entregam a letargia à comunidade, essa ética pertence ao domínio da subjectividade. Como aceitar que venham algumas vozes protestar contra as entorses à ética cometidas por outros?

Sublinhava lá atrás: o tal mínimo denominador comum da ética que esmagadora maioria diz respeitar. Bem diferente de interiorizar o respeito desses princípios. A diferença entre fazer e dizer que se faz. O dogma da ética esboroa-se nas ruínas da consciência individual, nas ruínas resguardadas no íntimo de cada indivíduo, naquela dimensão inexpugnável jamais exposta aos outros. Desconfio muito daquelas personagens assépticas, exarando a sua cândida alvura que proclama uma ética invejável. Oferecem-se como faróis da ética, encavalitando-se num púlpito de onde ajuízam os comportamentos dos outros. Só a impressão de que há consciências que apascentam as consciências dos outros deixa-me apoquentado. O manto enraizado da educação católica é o adubo plausível: o hábito de ajuizar as atitudes dos outros é faca invasiva que entra fundo na intimidade do ser. Desconfiança metódica: a tentação de ajuizar os outros é válvula de escape para evitar a introspecção que desnudaria os pecadilhos inconfessáveis.

As pitonisas do desespero sentenciam: esta é uma terra carente de ética. Entregam-se à generosidade social, predispostas a oferecer soluções que varram as excrescências antiéticas para o canto onde são lapidados os alvos da censura social. Os males da paróquia são intermináveis. Mas quando se debruçam sobre os atentados à ética, sobre o que elas avaliam como o ausente fundo de ética que é o leito onde navegamos, soltam a sua notória preocupação com as doenças que nos mirram. São os sacerdotes da ética e, ao mesmo tempo, médicos com as soluções milagrosas para restaurar o “deve ser” imperativo de onde não devíamos ter descarrilado. Não admitem que alguém questione as suas credenciais éticas. Estão acima de qualquer suspeita. Põem-se acima de qualquer suspeita.

Contudo, noto alguma pestilência quando certos predestinados (que assim se consideram) se elevam no firmamento e dão lições de moral aos coitados que deslizam para além da fronteira da ética. A aura iluminada que os bafeja encandeia os demais, incapazes de discernir os pecadilhos que as pitonisas da ética cometem, afiando a faca no gume da apetecível antiética. É que é fácil colocar um pé – ou até os dois – no palco onde se acolhe a antítese da ética quando se é sacerdote da ética. No rescaldo, o deserto da ética.

6.2.08

O tempo é um material fundente


Trazemos no regaço as cores da memória. Um suspiro pelos lugares de outrora, numa divagação que sela o tempo numa hermética arrecadação que se revisita, periodicamente. Meticulosamente. As cores e os aromas das memórias retratam os lugares de outrora como se fossem intemporais. Mas nem as ruas permanecem inertes, nem as casas desfilam na mesma sequência. Até as árvores mudam a tessitura da paisagem.

As memórias que se resgatam da poeira intemporal atraiçoam a visão. Ao revisitar os lugares que perfumam as memórias com um aroma adocicado, os sentidos acreditam que o lugar encapsulou aquele tempo mágico, idílico. E, porém, há mais coisas para ver, fragmentos que semeiam a diferença. Mudara o tempo. Desmente a voracidade com que as memórias instalam nos sentidos a ilusão da intemporalidade. Os lugares transformam-se, como o tempo se fundiu na ampulheta.

Há um desgaste inútil ao subir à arrecadação das memórias. Como se fosse possível torcer a natureza e mentir ao tempo. Naqueles instantes de recolhimento, ao retomar contacto com o registo pessoal vertido no passado, refúgio na intimidade do ser. No recatamento das memórias, por uns instantes, ir lá trás e colocar no tempo presente o que ficou dobrado nas páginas já amarelecidas. Prova que o tempo é matéria fundente, uma argamassa que temos nas mãos e moldamos à conveniência do calendário, dos vapores que convocam a revisitação dos lugares, dos momentos, das pessoas. Um exercício porventura esvaziado de significado. Uma imensa embriaguez de inutilidade. Há tempo perdido ao mergulhar no tempo já gasto. O tempo que não volta a acontecer. Nem sequer nos esboços conseguidos que se aproximam de uma perfeita reconstrução dos lugares, dos instantes, das pessoas, das palavras ditas. Tempo perdido: uma viagem que traz, no seu regresso, uma recompensa ilusória, um fogo que não arde, combustível inerte que desgastou fragmentos preciosos do tempo presente.

Na deriva pelas páginas já dobradas, funde-se o tempo futuro. São as pedras gastas de calçadas cansativamente percorridas. Lugares de onde já nada se retira, exauridos. As lições que havia a recolher, há muito emolduradas no arcaboiço do ser. Na negação da nostalgia não se ensaia turvar o tempo ido, ou esquecer lugares de outrora. Imperativo maior é decantar o horizonte que se descerra diante dos olhos. Só os temerosos dos dias que hão-de vir se encerram na confortável presciência do tempo fácil de resgatar, o tempo que sabemos como aconteceu. A vida, sempre tão curta, não se honra a si mesma quando o escasso tempo se demora em rememorações contínuas. São espasmos que fundem o calendário ainda virgem.

Os lugares onde nidificam as tentadoras memórias ficam retratados para todo o sempre. Sem a traição de desfazer o passado, ou a indignidade de o refazer, esses lugares, os instantes que eles sagraram, apenas mais uma camada para a densidade que as páginas já amarelecidas não deixam esconder. De cada vez que a existência desliza para as catacumbas do tempo resgatado, uma terrível fusão presenteia a mentira do exercício repristinatório. A fusão de dois tempos: a intrusão do tempo passado é a alcáçova onde se aprisiona o tempo presente. Uma faca funda que se espeta no único tempo que os dedos conseguem sentir, sem o apelo já onírico dos sentidos atraiçoados pelas memórias. E sim, há tempo gasto, tempo perdido, ao revisitar tudo isso.

Lugares desconhecidos, sensações inéditas, o perfume que é anunciado pela aventura do futuro. A coragem exige peito aberto às ondas, deixar que o vento trazido pelo tempo presente se consuma, venha ferver o seu próprio futuro. A homenagem maior ao passado sedimentado é olhar de frente para os fragmentos do tempo que se sucedem, o alicerce de todo o tempo no seu futuro por revelar. Porque há um dever indeclinável de sorver o tempo com todas as forças que o corpo consiga reunir. Só assim merecedores da sagração do tempo ainda desconhecido, o único por degustar.

A teimosia em decapar o tempo já exausto, em divagações repetitivas que refazem memórias, é o punhal que entra fundo no lugar destinado ao tempo por tragar. Um material fundente, onde se perde a beleza do presente na consumição de revisitar o passado. A negação da homenagem ao único tempo que interessa: o porvir. A nostalgia é um alçapão envenenado de onde poucos se conseguem erguer.

5.2.08

A tradição carnavalesca do povo alarve


Há uma aldeiazinha lá para os lados de Vouzela. Perdida entra as serranias que se encavalitam nos vales. As gentes locais inventaram uma tradição de carnaval, herança de tempos a que só historiadores zelosos seriam capazes de resgatar uma data. Reza a tradição popular: pelo carnaval, que é sinónimo de folia das gentes, caça-se um gato vadio. Mete-se o bichano dentro de um saco, pendura-se o saco no alto de um bordão, que baloiça sobre um amontoado de lenha e pinhas a que se chega fogo. À medida que as chamas se levantam e aquecem a serapilheira onde o gato se debate, a populaça exulta, incendeia as emoções com os gritos aflitivos do animal que sente o esturro a chegar à cauda felpuda.

O fogo pega-se à serapilheira. O bicho trepa pelas paredes frágeis, pelas paredes escorregadias do saco onde o meteram contra sua vontade. As gentes continuam na farta gargalhada, tão farta como o ominoso espectáculo. O saco acaba por ceder à voragem do lume que por ele sobe. O gato cai – e depois depende: ou fica na fogueira, numa morte horrenda para gratificação grotesca da gentalha; ou escapa das chamas e foge com as patas em ferida. E como se não bastassem tantas tropelias juntas, o animal é perseguido pela turba equipada com varapaus, um arremedo de inquisição. É ver quem mais acerta no bicho que definha.

Nas redondezas, toda a gente acha isto normal. Tão normal quanto o estatuto de “tradição” a que a bárbara manifestação foi emproada. Complacência geral. Nem o autarca, que se lhe exige respeito pelas idiossincrasias locais; nem o padre, que em matéria de tradições os sacerdotes não mexem um dedo, não vá a ousadia reverter contra o conservadorismo da igreja que representam; e nem sequer o chefe da GNR, que se pensava existir para fazer respeitar as leis. Todos anuem na barrenta tradição. Porventura as leis da república que proíbem e punem maus tratos em animais não se aplicam naquele lugarejo. A todo o tempo se descobre, no Portugal profundo, ilhas isoladas que, em nome da sagrada tradição, são oásis de ilegalidade.

O problema nem sequer deve ser olhado sob a lupa da lei. Que ela proíba a barbaridade gratuita de que são vítimas os animais é detalhe. Aterrador é imaginar a turba a aplaudir os bravos que foram à caça do gato e chegam com a presa para deleite colectivo. As massas são atreitas à bestialidade. Há quem diga que a estreiteza de espírito não acalenta horizontes mais vastos. Os animais, que deus fez sem a inteligência humana, existem para servir os interesses, as delícias, e as perversões até, dos humanos. Há Barrancos espalhados de norte a sul. Excepções e excepções ancoradas no véu sagrado, no véu intocável, da tradição. A tradição recebe a unção popular e o beneplácito de antropólogos e outros que testemunham o povo vibrante com o sofrimento de um animal. Os mesmos cientistas sociais que militam na causa da ciência como intervenção são, nesta ocasião, espectadores imóveis: limitam-se a diagnosticar, que mexer na tradição (intervir) seria uma heresia.

Estas tradições repugnam. São alarvidades que qualificam um povo. Traços de ancestralidade que resistiu à marcha do tempo. Uma bestialidade ímpar, a destas gentes que vigiam o calendário na ânsia de chegar o carnaval e torturarem mais um gato indefeso. Não vou ao ponto de andar de braço dado com alguns bem pensantes, que denunciam a grotesca exibição de animalidade humana e opinam que a lei devia encerrar o costume nos claustros de um bem encerado museu. Limito-me a observar a bestialidade em dose bruta. Recusando-me a alvitrar a ofensiva de brigadas dos bons costumes contra esta tradição aldeã e malsã. Todos têm direito à sua alarvidade.

A cada carnaval, e enquanto a memória desta lastimável tradição perdurar, há-de sobrar um profundo lamento. E muita comiseração. Por cada gato que tiver a desdita de ser protagonista de um espectáculo de ensandecimento colectivo, com as gentes a urrarem contentamento com os miados lancinantes do bicho em sofrimento. E muita pena por tanta boçalidade humana espalhada por área tão exígua. Uma condensação de alarvidade, como se fosse um epifenómeno local, que nem sequer a insensibilidade perante os animais ou até o ódio aos gatos desvenda explicação assisada.

Resta um povo abrutado que adere ao ritual só porque é tradição – um argumento tão racional como alguém que se justifica dizendo “porque sim”. Alguns dirão: as tradições não têm explicação. Duvido da irracionalidade do argumento. Há sempre uma semente que faz fermentar uma tradição. Ao que consta, os locais não encontram o fio à meada. Entretanto, passam de geração em geração a sórdida tradição. Assim como assim, estamos na terra que celebra a matança do porco e as touradas.

4.2.08

O corso carnavalesco e o festim dos medíocres


Tenho que admitir: nunca o carnaval me aliciou. Não me lembro de envergar máscaras, nem de ficar extasiado perante a possibilidade de fazer de conta, por umas horas. Será defeito pessoal: macambúzio, ou melancólico, ou a maldição de olhar para as coisas pelo seu lado tão sério, mas o carnaval nada me diz. Contudo, o que se segue não é alinhamento pela repugnância dos festins carnavalescos. Admiro os populares que convocam a imaginação para escolher os bombos da festa que enfeitam os corsos carnavalescos. A farta dose de criatividade que se passeia nas ruas, com áspera crítica social em cada corso carnavalesco. E a coragem de meninas de corpos em trajes menores, expostas às inclemências atmosféricas no auge do inverno.

É pelas imagens dos desfiles dos carnavais caseiros que me apercebo como é ingrato pertencer à classe política. São os alvos de excelência dos corsos: governantes e políticos retratados como carretos grotescos, passeando-se na rua, expostos à chacota do povo. É nessa altura que os políticos caseiros mostram o seu elevado espírito olímpico: sorriem ao verem-se retratados, e retratados de maneira que nada os favorece. Riem ao lado do povo, que ri deles. Um caso sério de autocrítica.

Há nos desfiles carnavalescos uma mensagem sublime: a menos que haja falta de assunto para enfeitar os corsos, a repetida utilização dos governantes e políticos dirá que eles se põem a jeito do escarnecimento carnavalesco. E quem assim se põe a jeito é merecedor do escárnio. As fraquezas da classe dão matéria-prima abundante para a febril criatividade dos encenadores dos desfiles de carnaval. Eu diria que a dificuldade será escolher entre a fartura de motivos. Aos encenadores do carnaval não falta assunto para alimentar a criatividade. É só andar atento à mediocridade impante que desfila, vaidosa, todos os dias pelas páginas dos jornais, pelos ecrãs das televisões.

Nos corsos de carnaval, um retrato fiel. Por um lado, a prova fidedigna de como a malsã mediocridade tomou conta do palco da política. Para lauto comprazimento dos fazedores dos corsos, agradecidos pela avantajada matéria-prima que recolhem ao longo do ano. Por outro lado, os carnavais são o ponto alto da crítica social que se exercita todos os dias e de que são alvos os políticos. A prova da incómoda função que é ser político. A democracia na sua veste ignóbil: a voz ao povo ingrato, sem se curvar perante os inexcedíveis préstimos de uma sacrificial classe política que, é sabido, se entrega no altar do serviço público, incapaz de se amesendar no lauto manjar que a sinecura proporciona.

A visibilidade pública dos políticos faz o resto: de tanto gostarem de ter sobre si as luzes de néon, ficam mais expostos às perguntas incómodas de jornalistas não domesticados. Como deve ser tremendo o desconforto de não ser possível andar nas ruas recolhido no anonimato, porque os olhares se deitam sobre eles. Deixam de ter vida própria: os restaurantes onde vão, o que comem, as lojas que frequentam, o que vestem, os hotéis que os recebem de férias, os livros e os discos que compram, tudo se sabe logo. E as suas máscaras que os desfiguram passeiam-se rua fora quando o calendário anuncia mais um carnaval.

Ou é defeito pessoal, na incapacidade de recordar políticos que tenham sabido irromper entre a sensaboria geral da mediocridade, ou todos os anos se repete o cenário dos carnavais: há sempre caretas de políticos, o povo zurzindo deles à mistura com indisfarçável crítica que mostra a insatisfação com a casta dos medíocres. O problema é que, de ano para ano, o lodaçal se adensa. Quando se pensava que já havíamos batido no fundo, em breve o surpreendente achado: afinal ainda havia mais fundo para descobrir. De mediocridade em mediocridade, os carnavais que se sucedem andam às voltas com a mesquinhez que magoa, tanto que só apetece levitar daqui para fora, ou fazer de conta – tal como os carnavais fazem, por três dias – que os medíocres são apenas uma ilusão que amedronta os pesadelos. E que afinal tudo não passa de uma mentira, porque ao acordar damos conta que a verdade era só uma ilusão contada através de um pesadelo. Que acaba depurado na diálise dos corsos carnavalescos.

Se calhar há um acordo secreto, uma intangível cumplicidade, entre os políticos e o carnaval. Se andássemos à míngua de políticos medíocres, que seria dos corsos carnavalescos?

1.2.08

“Couldn’t care less” (ou a negação do imperativo republicano de sermos membros da comunidade acima de indivíduos)


Faço umas leituras, por dever profissional, que me desviam do habitual teatro da investigação. Arremeto pelo terreno movediço da cidadania, da democracia, de como cidadania de corpo inteiro exige participação, e participação activa.

Autores há ainda aprisionados aos cânones tradicionais: o lugar por excelência da participação é nas eleições. Outros alargam horizontes: desconfiam da eficácia das eleições, actos esporádicos que libertam os eleitos para um longo período sem o escrutínio dos eleitores. Reconfiguram a participação cívica: fora das eleições, em fóruns que reúnem interesses específicos, mobilizando esses interesses para acções de protesto, exercendo pressão legítima sobre os governantes.

Apesar do peso crescente dos que defendem formas alternativas de participação, mesmo esses aceitam que as eleições ainda são um momento capital de participação cívica. Uns e outros denunciam a desmobilização em actos eleitorais. A descrença no processo electivo, de mão dada com a perda de credibilidade dos actores políticos, o fermento para mais abstenção que deixa alguns (nunca os actores políticos) preocupados com o fenómeno. A escolha de governantes em eleições pouco concorridas pode ferir a legitimidade dos que ocupam os cargos. Há quem recuse a mácula semeada pela elevada abstenção. Os eleitos não podem ver a sua legitimidade beliscada pela demissão dos abstencionistas. Nem os que cumpriram o seu dever, votando, podem ser prejudicados porque muita gente optou por fazer outras coisas em vez de votar.

Deparei com autores (cultores do comunitarismo e do republicanismo) que não hesitam em propor soluções radicais para ceifar o mal pela raiz. Avançam com a votação obrigatória. E justificam a ousadia. A autonomia do indivíduo só se completa quando interioriza a sua participação no seio de uma comunidade. Sobretudo para os que divulgam as ideias comunitaristas, ser membro de uma comunidade é o desígnio maior de qualquer indivíduo. É compreensível que os indivíduos tenham que ceder diante dos imperativos que surgem no horizonte da comunidade. Só então se cumpre a autonomia do indivíduo, quando ele declina perante a comunidade: o bem comum é a sua felicidade individual.

Com estes pressupostos filosóficos, os comunitaristas e os republicanos prosseguem a justificação da votação compulsória. Há um equilíbrio entre duas facetas que aparecem ligadas ao voto: o voto como direito e o voto como dever. Insurgem-se contra os liberais que sagram o direito de voto, fazendo-o preceder ao voto como dever. Os votantes devem perceber que a sua decisão é individual mas produz consequências nos outros. Particularmente quando a decisão é de se ausentarem da eleição. A abstenção – argumentam – altera os dados de uma eleição, pode até causar uma perigosa deformação nos resultados. Quanto mais elevada a abstenção, maior a sobre-representação dos partidos que mobilizam uma fiel clientela. Com prejuízo para aqueles que perdem votos entre os que se demitiram do dever de votar. Este é o problema: os votantes dos partidos mais atingidos ficam prejudicados pela decisão de não votar de alguns. É neste contexto que o voto aparece como dever e só depois como direito: a decisão de uma pessoa pode interferir com o bem-estar dos demais.

Para o voto passar a ser obrigatório, equacionam um sistema de sanções para os relapsos. Acreditam, fosse a sociedade o altar da perfeição, que o opróbrio social seria suficiente para envergonhar os abstencionistas e colocá-los na senda do seu indeclinável dever. Apercebendo-se que aquele grau de perfeição é ilusório, preconizam sanções que pesem no bolso dos abstencionistas: multas, e pesadas.

O que me custa a aceitar nesta linha de raciocínio é como a autonomia do indivíduo só fica totalmente preenchida quando ele compreende que deve ceder perante a comunidade. Parece-me uma contradição insanável. E não consigo entender o voto como um dever e só depois um direito. Os direitos-deveres são, em primeiro lugar, direitos. A ideia de obrigar ao voto é a negação de uma cidadania que se deseja emancipatória. Às pessoas, o livre arbítrio de fazerem o que bem entendem com o catálogo de direitos que lhes é garantido. Medidas que imponham condutas obrigatórias são incompatíveis com essa cidadania emancipatória. Em vez disso, uma cidadania tutelada, fiscalizada por um exército de engenheiros sociais, sempre vigilantes a caucionar e a censurar comportamentos dos outros. O que me custa, em tudo isto, é que se obriga as pessoas a serem livres. Um paradoxo sem fim.

Ao tomar contacto com estas propostas que anseiam por um rebanho bem comportado e indiferenciado, uma súbita pulsão para a dissidência – nem que seja pelo grato sabor da dissidência. Aos olhos dos comunitaristas e dos republicanos, e da sua agenda impregnada de um moralismo tão bafiento como o moralismo de sacristia que tanto deploram, só apetece fazer o contrário do que defendem. Por um imperativo de higiene mental. Não tolero que outros sentenciem um roteiro obrigatório por onde os direitos que me pertencem devem ser apascentados.

Votar devia ser obrigatório? “Couldn’t care less”.