26.3.08

Às vezes é melhor que os políticos não tenham um “rosto humano”


É dos livros: os políticos profissionais são esfíngicas personagens que escondem a sua verdadeira pessoa. Autómatos nas mãos dos sapientes spin doctors que os aconselham (e, no fundo, os manobram). Pose estudada, discurso medido ao milímetro, e até quando aparecem em público desnudando porções da vida pessoal só destapam uma encenada faceta. Parece que os políticos de hoje não têm rosto humano, imersos nesta fabricação de imagem que faz deles uma mistela diferente daquilo que são por dentro.

Contudo, quando ensaiam gestos de condescendente revelação da pessoa que há em si apetece esquecer as críticas e pedir-lhes para voltarem a ser encenadas esfinges. Gestos, palavras, gostos pessoais, memórias, enfim, a face humana que se esconde detrás da imutabilidade da criatura política. Era melhor nem ter sabido que existe essa faceta. O esforço de humanização é um reviralho contra o encenador. A prova: a nostalgia do casal presidencial em visita a Moçambique. Em dois dias seguidos, tivemos direito a: um Cavaco desconhecido, saudosista dos dois anos que passou com a “sua mulher” enquanto prestou serviço militar à pátria; e uma primeira-dama com o habitual desbragamento verbal, a afiançar que a escola de Maputo onde deu aulas é “a sua escola”, com direito a discurso emocionado aos alunos e lições sobre a liberdade.

É surpreendente a abertura das portas da intimidade de antanho do casal. Não consta que seja uma parelha dada aos devaneios das revistas cor-de-rosa. Não escancaram a vida pessoal à comunicação social. Honra lhes seja feita por terem sabido preservar uma certa intimidade dos holofotes da política e do voyeurismo da comunicação social. É por isso que Cavaco não vende revistas cor-de-rosa, ao contrário de outros políticos que se dão a conhecer mais por esta faceta do que pela competência no desempenho.

Desta vez tivemos direito a uns fragmentos do “exílio” involuntário do então jovem casal por terras moçambicanas. Em solene discurso do senhor presidente, um discurso arrebatador porque carregado de literatura. Diria que não foi ele que o fez (ou algum dos seus conselheiros), pois ele não sai da cepa torta do “economês” e os seus conselheiros só alcançam verve de burocrata. Suspeito que houve dedo da presidenta naquele discurso, ela que é mulher mais dada às letras, aquele discurso repleto de carga emocional que encaixa na sua personalidade afectiva e não na impenetrável personalidade do consorte.

E assim fomos convidados a mergulhar no passado do casal Cavaco e Silva, de braço dado com a sua nostálgica deambulação pelas circunstâncias, lugares, felicidade daqueles dois anos de exílio involuntário. Por entre descrições repletas de imagens literárias, como os jacarandás perfumados da avenida onde residiam, ficámos a saber que a filha herdou o nome da toponímia onde o casal habitava (e, provavelmente, foi concebida). Num assomo de revelação da intimidade que se lhe não conhecia, o presidente confessou à pátria que o ouvia que aqueles dois anos foram de (e cito de cor) “intensa felicidade”.

Pela minha parte, dispensava esta cumplicidade com o agora casal presidencial. Há um certo recato que devia vingar. A quem interessa saber que aqueles dois anos moçambicanos foram de “intensa felicidade” para o jovem casal? O que se insinua nesta frase, para além da evitável revelação da libido do casal? Que grotescas imagens desfilam diante da mente dos súbditos de sua excelência quando ele escorrega para esta nostalgia? Há imagens que só de se imaginarem são dispensáveis. E há uma confusão de papéis: não digo que o casal presidencial não tenha direito a revisitar o seu passado de “intensa felicidade”. Que o tivessem feito a dois, resguardando a cumplicidade que só a eles pertence. Não o trazendo para a imprensa e para as televisões que os acompanham.

Esta inusitada ostentação de um “rosto humano” do casal presidencial é uma desastrada tentativa de romper com o passado tão cinzento que não atrai a parelha para os holofotes da coscuvilhice que faz escola. Talvez não intencionada a tentativa, atarantados com a enxurrada de emoções ao revisitarem lugares que tanto lhes dizem; mas evitável. Parece que está na moda: há duas semanas tivemos direito a uma vista de olhos pela intimidade estudada do timoneiro da nação e daquela personagem que acredita (talvez só ele – ou nem sequer ele) que lhe pode suceder no cargo. Não vi – nem queria ver – as reportagens televisivas sobre as funestas personagens. Li alguma coisa no restolho. E percebi que mesmo o esforço de apresentar um “rosto humano” dos políticos é inquinado pela pose estudada, pela palavra milimetricamente colocada, por um kitsch patético que afinal combina com a portugalidade reinante.

Pela amostra, eu cá preferia que esta gente continuasse dentro da sua concha impenetrável. Que não mostrasse os laivos humanos que neles habitam. As suposições que se entreabrem quando o casal presidencial confessa detalhes dos dois anos vividos em Moçambique alimentam o princípio do avestruz: enfiar a cabeça na areia, para fazer de conta que nada daquilo foi escutado.

Já sei: com tão proeminentes figuras não se brinca, tamanho o respeitinho que lhes é devido. Isso fica para o texto de amanhã.

25.3.08

Dez milhões de funcionários do fisco?


Outra para o compêndio da paródia instalada: o governo mandou dizer que o fisco vai controlar, com redobrado zelo, as despesas feitas em casamentos. Porque as bodas são negócio próspero – há quem goste tanto que se casa vezes sucessivas – e porque há muita gente metida no negócio das bodas que, ó heresia, foge impunemente aos impostos.

Já seria do domínio do ridículo saber que o fisco vai estar de olhar vigilante às bodas do Minho ao Algarve, à procura de meliantes que escapam ao jugo dos impostos. Não haverá outros domínios onde a fuga aos impostos custa mais ao erário público? A coisa atinge os píncaros do ridículo quando se soube que alguém, um burocrata qualquer certamente dotado de escassa imaginação, descobriu a melhor forma de acabar com a impunidade fiscal no negócio das bodas. Serão os próprios noivos que, em trinta dias, terão que comunicar à administração fiscal um infindável rol de transacções: desde o vestido da noiva ao fotógrafo, o catering contratado às prendas recebidas, exigindo-se até a apresentação de cheques que comprovem os gastos ou os proventos da cerimónia.

A farsa está aqui: quem se casar fica coagido a ser funcionário do fisco. Pois os noivos que, ainda inebriados com a fulgurante lua-de-mel, se esquecerem de comunicar o imenso catálogo de detalhes exigidos pelo fisco, arriscam-se a pagar “coima” que pode ir até dois mil e quinhentos euros. Ou seja: os casados de fresco são obrigados a trabalhar para o fisco e não recebem nada em troca (possivelmente a gratidão do fisco). É como se os noivos fossem cobradores de fraque no seu próprio casamento. Eu acho que isto mostra duas coisas: primeiro, a enorme preguiça do fisco, que em vez de alistar um exército de novos funcionários que passariam em revista os casamentos de norte a sul, endossa a tarefa para os próprios noivos; segundo, uma concepção duvidosa de meios e fins, pois não parece que a sede de receita de impostos justifique tantas intromissões em detalhes que pertencem à vida íntima de duas pessoas que acabam de contrair matrimónio. O que interessa saber quem pagou o vestido da noiva? O que interessa saber quem (e quanto) presenteou os noivos?

Começo a perceber a medida tragicómica. A vontade da equipa do secretário de Estado das contribuições e impostos (que ontem apareceu diante das câmaras da televisão em atrapalhadas explicações) era espalhar espiões do fisco nos bastidores dos casamentos. Por cada casamento, um funcionário da repartição de finanças a controlar tudo e mais alguma coisa: anotaria o nome da empresa de catering, do local onde foi feita a boda, do nome da costureira que concebeu o vestido da noiva, do alfaiate que vestiu o noivo, de quem se encarregou da reportagem fotográfica, dos entertainers que vieram abrilhantar o baile costumeiro, da florista que embelezou o lugar com uma coreografia floral. Não sei se me escapa algum detalhe, se não haverá algo mais que envolva dinheiro que passa dos noivos para empresas ou particulares que fornecem serviços ou bens típicos de casamentos.

Só que esta vontade do fisco terá esbarrado no exagero da intervenção: inconcebível seria que houvesse cobradores de fraque escalados para cada casamento e que tivessem carta-branca para vasculhar fornecimentos e pagamentos. Então os imaginativos que dão o seu melhor para que o Estado arrecade muitos impostos tiraram um coelho da cartola: e por que não endossar a tarefa para os noivos? Assim como assim, o paradoxal Estado de direito inverte o ónus da prova quando está metido num conflito com um contribuinte. É que, normalmente, quem acusa tem que provar. Quando o fisco acusa alguém de estar em falta com os impostos, o acusado é que tem que provar que tem cadastro imaculado. É nesta lógica que os desgraçados que vierem a contrair casamento passam involuntariamente a ser funcionários do fisco. Aos que gritarem objecção de consciência, haverá sempre a possibilidade de a comprar com a “coima” de dois mil e quinhentos euros.

A semana passada foi o caricato episódio dos piercings e tatuagens, de permeio com a proibição de sete “raças de cães perigosos”. Agora foi esta historieta com as transacções envolvidas em casamentos. O que sobrará para a semana? Que teremos que informar com regularidade as compras feitas nas frutarias e peixarias, as comezainas em restaurantes, as visitas ao mecânico, os livros e discos comprados, e o que mais se possa imaginar? No mesmo registo dos casamentos: e as luas-de-mel passarão a exigir apresentação de factura comprovativa – para que os zelosos funcionários do fisco, tão imersos na sua tacanha vidinha, saibam onde foram regalar a vida os casados de fresco? Ou, já agora, noivos obrigados a apresentar facturas dos gastos (nas variedades que se possam imaginar…) com despedidas de solteiro?

Passaremos a ser dez milhões de funcionários do fisco, não demora nada. O exílio, cada vez mais apetecível.

24.3.08

O rapazinho


Pode a pose soar a responsabilidade, já não à traquinice dos tempos da “jota”, a irreverência toda a relampejar da adolescência dissimulada. Pode a barba sugerir adulta condição, uns óculos sabiamente escolhidos para convencer a audiência que já é crescido e sedimentou seriedade. Debaixo da imagem permanece a mesma ossatura, o exemplo acabado da política dominada pela perfídia, pelas cambalhotas argumentativas, pelo destempero mental que todavia se faz transportar em capa de idoneidade incontestável. A mediocridade inigualável.

O vereador rapazinho ia a Lisboa, a “despachar” em plena viagem. Nem deu conta que o motorista se distraiu e o pé direito esmagou o acelerador até aos 181 quilómetros por hora. Azar: havia uma brigada de trânsito acompanhada por sanguinários repórteres de televisão. Azar a dobrar: tinha que ser o rapazinho a cair no radar do automóvel descaracterizado da brigada de trânsito. Mediatismo ao contrário. A pior da publicidade que um político pode esperar. As leis são para cumprir, para todos. (Excepto para o ministro da economia que, em tempos, permitiu que o motorista voasse a quase 210 quilómetros por hora sem que nada acontecesse. Pelos vistos, os limites de velocidade não se aplicam a apressados governantes. É que a governação não se compadece com atrasos e a estrada tem que ser tragada a velocidades supersónicas, não vá o país atrasar-se com o atraso do ministro.)

Mas o rapazinho não é ministro (ele bem gostava). Ainda só conseguiu chegar a vice-presidente do município. Recentemente regressou ao comando da distrital do partido a que pertence, para fazer aquilo que é sua especialidade: caciquismo, puro e duro. Para sua desdita, é filiado no “partido errado” (não o do governo). Não houve contemplações da brigada de trânsito. Para não mergulhar na vergonha do apanhado televisivo, o rapazinho recusou-se a sair do automóvel e não dirigiu palavra aos jornalistas. Logo ali ocorreu-lhe brilhante estratégia para reverter a seu favor o episódio (pensava ele): adiar para mais tarde, ganhando tempo para pensar na desculpa mais esfarrapada sem o parecer.

Horas mais tarde, em Lisboa, depois de consultar os spin doctors e congeminar estratégia para atenuar os danos, convocou conferência de imprensa. A culpa não tinha sido sua. Ia “a despachar” em plena viagem e não deu conta do que o motorista ia a fazer. Começava aqui a retórica da culpa que, se não morre solteira, repousa sempre nos ombros dos outros. A lógica da irresponsabilidade, que diz muito de quem a ela recorre como pretexto de exculpação. Quem se acovarda e irrompe entre elaboradas teorias que expiam a sua culpa é, no fundo, irresponsável pelos seus actos. Ora, quem não arca com a responsabilidade dos actos merece ocupar cargos de poder?

O rapazinho destilou a sua fúria – contra a brigada de trânsito, na sua militante caça à multa; contra os jornalistas, que só sabem fazer notícia à custa de “sangue”, e se forem notáveis da política a serem apanhados no meio do sarrabulho, tanto melhor. Criticou a falta de segurança, por ter sido parado em plena berma da auto-estrada; e os jornalistas que saíram na companhia dos agentes da brigada não envergavam coletes reflectores que o código da estrada manda usar naquelas circunstâncias. Insinuou a costumeira teoria da conspiração. Como faz parte da entourage do incrível líder do maior partido da oposição, não haveria laivos de assassinato político? Aos 181 quilómetros por hora, disse nada. Preferiu desviar a atenção para o acessório: que não devia ter sido parado na berma, pois a segurança estava em causa; que os jornalistas que acompanhavam a pressurosa brigada queriam fazer sangue e tinham ganho o dia porque lhes saíra na lotaria um “notável” (acha-se assim) da política.

Esforço louvável para reverter o episódio a seu favor. Esqueceu-se que nem todos são carentes de inteligência, como ele. Pode achar-se esperto, mais esperto que os outros, à boa maneira do portuguesinho típico que gosta de se ver mais esperto que os demais e sentir que acaba por os sacanear (para não ser sacaneado). É nas mãos destes exemplares que a política está entregue.

Na sexta-feira, uma notável crónica de Paulo Moura no Público dissertava sobre a falta de sintonia que muitas vezes se nota entre a idade física e a idade mental das pessoas. Dava exemplos. Eu acrescentaria este: o rapazinho de Gaia pode mostrar pose de Estado, barba hirsuta que ostenta a espessura de seriedade. Pode até, aqui e ali, deixar à mostra um o outro cabelo grisalho, a credencial imagética da responsabilidade. Pode envelhecer, que a sua idade mental há-de ser a de um rapazinho saído da tenebrosa escola das “jotas” partidárias. Não passará de aprendiz de adulto. Irresponsável, como um perene menor de idade.

21.3.08

Lua, desordem do sol


Mistérios que a madrugada encerra: noites de lua cheia em madrugada primaveril, quando o crepúsculo matinal já se anuncia. A imensa lua platinada que vai perdendo essa tonalidade. Insinuam-se no largo disco lunar as cores alaranjadas do sol que espreita pela timidez do horizonte onde ainda se esconde. A lua copia o mesmo trajecto do sol que antes dela se pôs no firmamento. Engorda à medida que se deita no horizonte. Como se fosse um enorme rosto de bochechas viçosas, minuto a minuto na deriva que a há-de fundir com a linha do horizonte, até mergulhar nas águas atlânticas que são o seu repouso.

No seu ocaso, as cores que se apoderam da lua são uma fantástica coreografia que lhe empresta diferentes pigmentações. Na descida que a aproxima das calmas águas do mar, diz adeus à alvura cintilante que ostentou quando se hasteou no pino do céu. Ao vergar-se diante do magnetismo do ocaso marítimo, ganha matizes diferentes. Perde a cristalina alvura, granulando-se nela uma textura acinzentada. Torna-se mais nítida como circunferência platinada no seu ocaso quando se agiganta no firmamento. Ao descer, que há-de terminar com um beijo no mar, a platinada espessura da lua infiltra-se com ao início ténues centelhas alaranjadas. Anúncio do sol que se apresta a encomendar o ocaso lunar.

Dois hemisférios, no seu antagonismo natural. Vivem a descompasso, lua e sol. O enorme disco lunar ensaia uma coreografia de antípodas com o sol, que só está à espera que a lua mergulhe nas distantes águas do mar. Há uns instantes em que se encontram, mesmo que não sejam simultâneos no firmamento que se distingue a quem os observe de posto terrestre. É quando os primeiros raios solares se desprendem do lado nascente, vomitando-se na imensidão que os separam do ocaso lunar. Tocam ao de leve o parâmetro poente onde ainda reside a enfraquecida lua, a cansada lua na sua longa visitação nocturna.

Há dois crepúsculos que se misturam, trinando a sua osmose. A escuridão que domina o poente contrasta com a claridade que vai tomando conta do nascente. É quando o crepúsculo solar invade o crepúsculo da lua, fundindo na lua poente as cores raiadas do sol madrugador. Uma estafeta. Fina charneira que distingue o dia da noite. Nunca pela tradição abrupta, que a noite não finda de uma só vez, cedendo lugar, também de uma vez só, ao dia nascente. Os crepúsculos misturam-se, sorvem a transição da luminosidade à paleta de cores que se oferece na sua lânguida contagem.

Retenho a imagem da nédia lua invadida por suave tonalidade alaranjada. Apetecia emoldurar aquele instante, por saber que, sem demora, a implacável clepsidra virá toldar o encantador cenário. Um retrato tirado de memória, na impossibilidade de roubar ao tempo os seus ponteiros que não cessam de o cadenciar. Um êxtase que se consome nos breves instantes da contemplação do dilúculo quando a lua sagra uma dança invisível com o sol nascente que, de muito longe e ainda sem se ver, estende mão à lua já cansada. Um contrapeso de energias: a lua exangue a deitar-se no seu leito oceânico na fina linha do horizonte; e o sol retemperado do sono nocturno, ansioso por aspergir a terra com o seu feixe de complacente luminosidade.

Mas é a lua já enfraquecida, exposta ao sol ainda escondido que todavia tremeluz, invadindo a lua que se deixa tomarr pelo estranho corpo solar. Uma cumplicidade de astros, um retrato deslumbrante que se demora uns instantes muito breves, antes da coreografia das cores entrar em descompasso e tudo se toldar na diferença das luzes. O suave alaranjar da lua é o sinal do seu ocaso. A lua cheia repousa nas águas que se aclaram com a intensa luz do sol trepando nos contrafortes do céu. Até que a magia astrofísica se repita no dia seguinte, enquanto a lua estiver grávida da sua plenitude. E enquanto não houver a sombra de nuvens traiçoeiras a encobrir o admirável espectáculo. Motivo decente para uma madrugadora alvorada que retira o corpo tão cedo ao sono.

20.3.08

Impressões


De uma viagem sobram pinceladas avulsas. Um observador não resiste ao que passa diante dos olhos. Pequenos gestos, palavras escutadas, um acontecimento insólito, ou um acontecimento banal, registados na memória instantânea. Impressões fugazes que se perdem no seu rasto com o esvanecer do tempo. Por serem fugazes lampejos do viajante em trânsito. Anotados de cor, sucedendo-se nos contrafortes da memória. Ficam espelhados numa paleta de imagens que desfila como memória de uma viagem. Uma amálgama que reproduz um quadro difuso, como se houvesse uma intersecção de lugares e pessoas e palavras desconexos entre si. O denominador comum é o narrador.

A rapariga italiana a benzer-se quando sentiu os motores do avião a subir de rotação, nos preparativos para a descolagem. Há quem tenha medo de voar. Há quem exteriorize incómodo quando o avião está quase a atirar-se para os céus, ou quando retoma contacto com o solo. Há os que entram em pânico quando o avião chocalha nos céus, por causa do capricho das correntes de ar que embrulham o avião em turbulência. É possível que já tenha estado sentado ao lado de passageiros que fazem as suas orações antes da partida. Nunca as escutei, porventura interiorizadas no silêncio. Aquela rapariga benzeu-se três vezes quando o avião foi empurrado pela força bruta dos motores. E balbuciou umas palavras, muito baixo, imperceptíveis. Senti-me protegido pelo pedido de bênção divina da companheira de viagem. Ao aterrar, apetecia agradecer-lhe: não houve turbulência, o avião não chegou atrasado e até a aterragem foi mais ou menos suave. O avião estava entregue nas mãos de deus, pelo acto tão simples da rapariga a benzer-se e pela curta oração sussurrada. As leis da física, que põem aviões daquela tonelagem no ar, ignoradas; e a diligência dos pilotos, também detalhe irrelevante. Nas mãos de deus, que abrira os ouvidos às preces da menina e tomara em sua protecção aquele avião.

As meninas (disseram-no, alto e bom som, retorquindo à hospedeira que lhes perguntou se eram maiores de idade: “ainda não chegámos aos trinta”) sentadas nos dois lugares atrás de mim, no regresso ao Porto. Duas horas de viagem e, asseguro-o, nem sequer um minuto de silêncio. Toda a saliva gasta nos assuntos mais mundanos que duas mulheres que personificam o lado mais banal do sexo feminino conseguem exercitar. Os champôs que dão brilho ao cabelo, o solário frequentado por uma delas, o namorado da outra que hesitava no decisivo passo do casamento, ela que tanto sonhava com um vestido branco com as costas desnudadas, os perfumes que levavam para o namorado e para o irmão, os homens – ah, os homens, são todos iguais! – que se deixam atraiçoar pelas hormonas e deslizam para a traição da monogamia, mas sempre com o perdão magnânimo das namoradas que tanto bem lhe querem. E até os detalhes de motéis que recebem “as amantes dos patrões” (mas com tantos pormenores, que uma delas relatava na terceira pessoa, parecia mais a envergonhada confissão de já ter frequentado um destes “lugares de pecado”). Percebi: professoras secundárias exiladas da incerteza das colocações nas escolas. Davam aulas de português em escola inglesa. Desejo-lhes que não sejam atraiçoadas pela desorientação geográfica: é que Estrasburgo não é na Alemanha.

O mendigo no metro de Londres. Vagueava pelas carruagens, de caneca imunda estendida suplicando a esmola dos passageiros. Entoava as mesmas palavras, a espaços silenciadas pelo ruído que o metro fazia. Pedia desculpa por incomodar os passageiros. Ninguém esboçava reacção. Ninguém olhava para ele. Era como se ele nem ali estivesse. Todos nós, passageiros, inertes na hipocrisia. Vendo a insensibilidade das pessoas que partilhavam a carruagem com ele, punha fim a uns segundos de silêncio pedindo outra vez desculpa por ter incomodado as pessoas. A voz calma, sem entoar o menor ressentimento pela hipocrisia de quem desviava o olhar. Resignado, sem esmola naquela altura, saltou da carruagem na próxima estação.

Os ingleses (e não só) estão cada vez mais divorciados da higiene. Pegam nos jornais gratuitos, lêem-nos durante a viagem no metro ou no comboio e, à saída, é um restolho indescritível de comunicação social espalhado pelos bancos e pelo chão. Ouve-se um anúncio a cada paragem do comboio incentivando as pessoas a levarem consigo os jornais já lidos. Em vão. Agora percebo que escasseiem em Londres os baldes de lixo em zonas públicas. São uma desnecessidade. Sugestão de acção militante para as franjas ambientalistas: lutar, com denodo, contra os jornais gratuitos. Empestam o ambiente.

Um idoso de cabelos desgrenhados e barba descuidada, passeando pela trela uma marta branca pelas ruas pejadas de turistas. O bicho parecia habituado, até à incredulidade das pessoas que paravam e tiravam fotografias. O homem responda às solicitações de um bando de turistas japoneses que recorreu ao arsenal de máquinas fotográficas digitais. E não era para receber uns trocos, como há alguns mendigos que treinam cãezinhos dóceis para pegarem o receptáculo da esmola pela boca e derreterem os corações de manteiga dos transeuntes. O homem fazia o seu passeio higiénico com a marta que ia, alegre, palmilhando o empedrado de Covent Garden.

19.3.08

O acolhedor betão das cidades


Admiro o bucolismo do campo, as paisagens verdejantes, a sucessão de montanhas que faz perder o horizonte, o som de um regato escondido entre a vegetação frondosa, o ar fresco e puro que é penhor das terras isoladas. Admiro tudo isso no campo, mas de passagem, em visitação que não se demore. Quando estive algum tempo no campo, rodeado pela sufocante ausência de edifícios: claustrofobia. O peso esmagador do embriagante verde que cercava. O silêncio, estranhamente ensurdecedor, insinuando-se nos ouvidos, penetrando em forma de miragens auditivas que tomavam conta do cérebro então mergulhado em oníricos devaneios.

Será habituação às cidades, onde sempre vivi. Habituei-me a olhar para todos os lados e ver casas, prédios, betão armado decorado com as janelas que resguardam a intimidade dos lares. Ou edifícios de escritórios, anónimos, frondosas fachadas de uma arquitectura arrojada. Dizem os puristas que uma cidade é a adulteração da natureza. Uma cidade cresceu para os terrenos virgens, tomados de assalto pela edificação. Raciocínio simplista. Os homens são parte da natureza. E se as cidades nascem e crescem a um ritmo acelerado, é porque os homens sentem a necessidade de invadir os sítios onde só havia terra a descoberto. As cidades são a adaptação do homem à natureza – ou a transfiguração da natureza às necessidades humanas. Cidades são natureza.

Uma cidade não é um desfile impessoal de betão, uma argamassa indiferenciada que degenera a límpida natureza virgem. As cidades são a maravilhosa unção do dedo humano, um amontoado de casario e edifícios e praças e avenidas e arruamentos – umas vezes atraente, outras vezes implacavelmente feio, outras vezes caótico –, mas sempre a herança de gerações pacientes, que foram juntando todas as peças que são a cidade num determinado momento. As cidades repõem o amplexo de sentimentos, emoções, necessidades do momento, estéticas dominantes, pulsares instantâneos. Os sedimentos que o tempo, na sua densa espessura, acumulou.

Não, definitivamente: a cidade não é a negação da natureza. É a natureza humana no seu vibrante latejar. Será impessoal, cada vez mais na arquitectura de traço duvidoso, na caótica urbanização autorizada por autarcas corruptos, ou quando se embelezam ou afeiam as ruas com intervenções que reflectem modismos episódicos. É tudo isso, mas sempre o produto da acção humana. Nem que, para desgosto de activistas do ambientalismo, haja reconhecimento de que o homem é agente da natureza, não apenas o agressor do meio ambiente que os activistas gostariam que fosse imaculadamente puro.

As cidades encerram os seus paradoxos. Para quem ouse refugiar-se na solidão, a cidade é o seu antípoda. Nas cidades há pessoas por todo o lado, mesmo às horas em que quase todos se entregam ao sono. Nas cidades os rostos sucedem-se, quase sempre desconhecidos, mas rostos que impossibilitam a interiorização da solidão. O paradoxo é matéria viva se uma súbita pulsão arremete um exílio na distante província, onde então a solidão é encontrada, onde a ausência de gente se concilia com a sede de isolamento. Só que irrompe a fúria do silêncio, a esmagadora fobia da paisagem campestre, a aflitiva carência de casario. Os carros não passam, ou passam esporádicos; o cantar do vento é uma melodia que ensandece; e falta o silvo dos comboios que se cruzam na apressada demanda dos passageiros, assobiando a metálica fricção dos rodados nos carris em expressão da frenética vida citadina das gentes impessoais.

Claustrofóbicas não são as cidades. Asfixiante é o peso leve do ar campestre. A paisagem interminável onde se sucedem as suaves colinas que são leito para o verde dos pastos, aqui e ali pontuadas pelas cores esfusiantes das árvores floridas, aqui e ali interrompidas por promontórios que se erguem, abruptos e petrificados. Até para alguém dominado pelo pessimismo antropológico, as cidades são um santuário de preenchimento interior. Sem soçobrar diante do sufocante peso do betão que se arqueia sob a cabeça; sem capitular perante a floresta de pessoas que erram pelas ruas das cidades.

O silêncio, a ausência, o descampado: archotes que consomem a carne, dolorosas achas que incendeiam a sublime inexistência. A sensação desconfortável de saber rodeado por pouco mais que nada. Eis a sua claustrofobia. As cidades, os sítios enxameados de pessoas, os lugares de intermináveis edifícios. Actuam como protecções contra a ausência que o campo encerra. E, por incôngruo que seja, o lugar onde vagueia a reconfortante impressão de haver uma multidão protectora. Nem que seja para alimentar o pessimismo antropológico.

(Em Londres)

18.3.08

Ninguém mexe nos meus piercings


Já entra no domínio da adivinhação: qual será a próxima proibição? O que virá aí para cercear os nossos maus hábitos, na sagração da política do bom escuteiro que nos é concedida pela graça socialista? De uma assentada, duas proibições: piercings fora de estabelecimentos licenciados (e proibição total aos menores de idade; e proibição total de piercings na língua); e o que se convencionou chamar “cães de raça perigosa”, impedidos de deixar prole.

É louvável o esforço para impedir que ignóbeis cidadãos se deixem possuir pela falta de esclarecimento. Na retaguarda está o governo que pratica a acção do bom escuteiro. O bom escuteiro ajuda a velhinha a atravessar a estrada; o governo acolhe-nos sob a sua protectora e generosa asa, não deixando que façamos as asneiras que ousamos querer. Semear piercings no corpo? Doravante, em estabelecimentos licenciados, com todas as condições de higiene garantidas. E nada de colocar piercings em zonas sensíveis do corpo. A prestimosa lei, consta, proíbe-os na língua por causa dos riscos de infecção. A ASAE à espreita?

Isto faz-me lembrar a primeira casa de piercings e tatuagens que vi, em Brighton. Na montra, uma listagem com os locais do corpo que podem receber piercings de várias formas e feitios. Só na secção “genitais” o cardápio desdobrava-se por meia dúzia de possibilidades. Ora a lei gerada pelos sapientes socialistas caseiros é pacóvia. Ignora a panóplia de piercings em genitais femininos e masculinos. Ou será que não são zonas sensíveis como a língua? Ou, por não andarem à mostra, adormeceu-se a fobia reguladora dos governantes? Inclino-me para a hipótese pacóvia. Podem os governantes trajar fatos Armani e mostrar “modernaça” imagem que nunca passarão de uns reciclados pacóvios de aldeia, sequer incapazes de soletrar a palavra “cosmopolita”.

Aos que juram a pés juntos que é por imperativos de saúde pública que partiu a investida sobre piercings e quejandos: não compro. Os imperativos, por vezes, mascaram-se de pretextos para outros objectivos, inconfessáveis. O que seria de um governo se reduzisse a sua actuação a um estatuto minimal, no fundo compatível com o estatuto de maioridade dos cidadãos eleitores? Seria um governo com pouco para fazer. Um governo que podia dispensar um fiel exército de consultores e adjuntos e experts e militantes à procura de um tacho qualquer. Inverta-se, pois, a lógica. Criem-se as oportunidades para empregar o séquito de mão estendida. E criem-se as oportunidades para que se perceba que o Estado existe para nos proteger. Nem que seja de nós mesmos, se entretanto arrepiarmos por caminhos desaconselháveis. Os cordelinhos que adejam sobre cada um de nós entrelaçam-se em seus nós inquebráveis. Omnipresentes e manobrados pelos artistas da engenharia social.

Podemos sempre resvalar para a irresponsabilidade, temporariamente ensandecer. Mas sabemos que o magnânimo e paternalista Estado é o nosso guarda-costas. E se teimamos em asneirar em excesso? A solução fatal: proíba-se o comportamento. Se perdemos o discernimento para ajuizar o que nos faz mal, entrada em cena de um legislador fazendo as vezes de paternal figura que impede a asneira e nos põe de castigo caso sejamos levianos ao ponto de insistir no tiro no pé. Quando for varrido o restolho, sobra o endurecimento da mão governamental. E o enfeudamento das pessoas, a cada passo destinadas a serem obedientes membros de um rebanho bem comportado.

Como na espuma do dia não chegava proibir piercings, a fúria não deixou escapar as “raças de cães perigosos”. Sete raças de cães condenadas a esterilização, pois a salvífica lei impede a sua procriação. Ainda não ouvi uma palavra dos palavrosos ambientalistas contra tal absurda lei. Não se trata de genocídio canino? E não há ninguém que explique aos dedicados governantes que perigosos são os donos dos cães quando os treinam para serem agressivos e mortais? Nada vi escrito sobre leis idênticas noutros países. Como este governo se ufana de vanguardismo em coisas insignificantes, presumo que a tábua proibicionista, este cutelo que extingue raças caninas, não tem precedentes.

Ah valentes governantes que exterminam raças caninas à força de decreto! Não serão eles, súcia socialista, mais perigosos que mil pitbull enraivecidos? Proíba-se, e muito. De tudo um pouco. Sempre e mais. Até nada sobrar para proibir.

(Em Forlì, Itália)

17.3.08

Agora, a maçada de viajar


Viajar, conhecer lugares novos, culturas novas, hábitos diferentes, paisagens desconhecidas, gastronomia local – é do que mais enriquece uma pessoa. Nos tempos que correm, há um enorme senão a separar a gratificação interior quando regresso de uma viagem e a decisão de ir: a viagem.

O que é curioso: porque a modernidade também vem perfumada com as facilidades de circulação das pessoas. Só que essas facilidades não passam de teoria. As leis (dentro da União Europeia) fazem parte da teoria; a profusão de companhias de aviação low cost, que trouxeram a turba para os aeroportos, também. A massificação do turismo é o eldorado que alicia cada vez mais gente a mover-se de um lado para o outro, para saciar a curiosidade pelo desconhecido. Só que os aeroportos enxameados de gente são um pesadelo que desencoraja quando começo a fazer a mala antes da partida.

Ocorre-me um adágio popularizado por economistas: “não há almoços grátis”. Contra o meu acesso elitista, o contra-argumento: o embaratecimento das viagens tem outro custo. O custo da horda faminta de voar, que atafulha os aeroportos e demora os check-in, os intermináveis check-in. Os que se apressam a fazer fila na porta de embarque, porque as companhias low cost, na versão minimalista do negócio, não marcam lugares aos passageiros. Aí falam mais alto as idiossincrasias dos povos. Há confusão quando a fila é composta por uma maioria de povos latinos – e há insultos, invariavelmente, quando é gente lusitana que tenta à socapa ganhar um lugar passando à frente dos estóicos que foram de véspera. Ou a anarquia organizada dos italianos: uma fila nunca é uma fila; vai engrossando para o lado à medida que aparece mais gente a colocar-se ao lado dos que já lá estavam.

Pelo meio há apertados controlos de segurança. Culpa dos terroristas que infernizam a vida ocidental, na furiosa guerra que nos moveram; ou culpa das autoridades, que aproveitaram para reforçar controlos de segurança e exercer uma férrea disciplina sobre os passageiros. É nos controlos de segurança, sobretudo em Londres, que me sinto como um indiferenciado ser e vejo os zelosos funcionários a tratar a horda como se fosse uma manada. Sorrisos entre os funcionários, uma miragem. Palavras de ordem, ressoando um militarismo repugnante, estão na ordem do dia. Não há lugar a hesitações dos passageiros, ou a deslizes que importunem os seguranças. É logo motivo para um desconfortável interrogatório policial, que pode levar à perda do voo sem lugar a gratuita colocação no voo seguinte. Controla-se tudo e mais alguma coisa. Até os sapatos, que saem dos pés e passam por um sofisticado controlo de raio X, enquanto os pés – todos os pés – passam ao lado numa área de duvidosa higiene.

Nos controlos de passaporte (quem viaja de e para as ilhas britânicas ainda se sujeita a este anacronismo), é habitual calhar em sorte um funcionário desconfiado que olha para mim e detecta traços de terrorista potencial. Demoro-me sempre mais que os passageiros que estavam antes. O funcionário digita demoradamente o número do bilhete de identidade, cruza não sei quantos dados, olha para mim com cara de poucos amigos e, por fim, devolve, contrariado, o documento de identificação sem lhe ouvir uma palavra que seja. É penoso testemunhar a discriminação que atinge etnias sobre as quais recaem metódicas suspeitas. Indianos, paquistaneses, árabes de diversa proveniência, demoram-se longos minutos no guichet. As pessoas que vêm atrás já o sabem e encaminham-se para os outros guichets. Se já me é desconfortável ser retido por uns instantes mais que o normal, imagino a sensação que percorre aquelas pessoas ao estacionarem tantos minutos diante do funcionário das fronteiras.

Viajar, hoje, tornou-se um suplício. E até todos os atractivos que o turismo oferece, com as delícias diversificadas que os turistas procuram, começam a perder peso na hora de decidir embarcar. O paraíso das low cost, só se for a poupança na hora de comprar o bilhete. O resto, faz parte do suplício. Mas todo o suplício encerra um instante de comédia – de tragicomédia. O momento hilariante está reservado para o final das viagens, quando o avião se faz à pista (e não sei se é acaso, mas nos voos low cost que tenho feito está sempre muito vento na hora de aterrar, pois o avião abana imenso…). Quando a turba sente que aterrou em segurança e se liberta do colete-de-forças onde sustinha a respiração, soltam-se alguns aplausos que depressa se contagiam à maioria dos passageiros.

Apetece perguntar: e por acaso estavam à espera que o voo tivesse um final diferente? Que a aterragem terminasse numa catástrofe?

(Em Forlì, Itália)

14.3.08

Omitir é mentir?


As mentiras mais cruéis são geralmente pronunciadas no silêncio”, Robert Louis Stevenson

Silêncios confrangedores. Por vezes, uma assombrosa falta de frontalidade; a ausente coragem para assumir a mentira. O silêncio afoga a mentira na sua projectada ilusão, como se a mentira ficasse resguardada nos contrafortes da existência sem se dar a conhecer às suas vítimas. Que vegetam na doce ignorância da traição desconhecida. A indignidade atinge o ponto de rebuçado. Perfuma o mais puro desrespeito pelas vítimas da mentira. O pior é que na embaraçosa luta interior com a mentira por carência de frontalidade, acaba tudo por desaguar na falta de respeito que atinge quem a omite.

Outras vezes, a omissão da mentira é – julga-se – um acto caritativo. Uma pungente caridade. Dir-se-ia, uma caridade impregnada da mais sangrenta crueldade. Em vez da coragem de confrontar as vítimas, o silêncio remete a mentira para a sua suposta inexistência. Por respeito às vítimas, poupadas às dores trazidas pela mentira omitida. Julga-se que há caridade neste silêncio que é uma traição à mentira omitida. Será por respeito às vítimas da mentira que ela é silenciada. Melhor será que continuem a viver na ignorância da mentira que as afligiria, viessem elas a travar conhecimento com ela. O que seria caridade transfigura-se no acovardar dos titulares da mentira. Omitem-na por falta de coragem, não em homenagem às suas vítimas.

Apaziguam-se consciências no silêncio comprometedor que aniquila mentiras. Como se elas fossem diluídas no eco dos silêncios repetido no tempo. O tempo teria o condão de medrar o esquecimento da mentira. Seria um trato entre o fautor da mentira e os relógios de todo o mundo para que eles acelerassem os ponteiros e se apressasse a diluição da mentira no silêncio repercutido nos dias sucessivos. A consciência ao início turvada, aclarando-se à medida que os dias fossem sendo ultrapassados e, nos seus interstícios, a memória se toldasse em cores baças.

As “mentiras cruéis”, as que são, diz-se, curtidas na pele onde arremete o silêncio. E há mentiras que não sejam cruéis? Há mentiras que venham ao conhecimento na antítese da crueldade, sem o seu odor implacável? Ou, porventura, as mentiras ganham uma espessura cruel quando vêm encerradas no seu silêncio. Admitir que as vítimas das mentiras hão-de preferir tomar conhecimento delas, de que são as suas vítimas. Ao saberem-se vítimas, a mentira desprende-se dos traços de crueldade.

Esta dialéctica entre o fautor e a vítima da mentira, quando é intermediada pelo silêncio comprometedor, encerra uma teia de paradoxos. Consoante a dialéctica seja olhada pelo ângulo de quem comete a mentira ou de quem é dela vítima. Pode ser incongruente que as mentiras mais cruéis sejam as que não chegam a provocar a amargura em que nelas mergulha como destinatário. É que o silêncio cauciona o desconhecimento, fermenta a ignorância. E, pelos fragmentos do desconhecimento, não tomam consciência do papel miserável a que a mentira os destina. É como se a epiderme nem sentisse os espinhos espalhados nos lençóis onde o corpo se deita, julgando que os lençóis têm o tacto agradável do cetim.

Se as mentiras mais cruéis são as que ficam resguardadas no silêncio? Sê-lo-ão para quem assim as cauciona. Haverá ameias tão altas para jamais entoar os segredos da mentira. O silêncio será o túmulo onde nidifica o conturbado escrúpulo dos que titulam a mentira silenciada. Não será por respeito a quem sobra como vítima da mentira: ou não seriam alguma vez as vítimas sequer colocadas nesse papel, não chegasse a mentira a ser silenciada. Julgar que a omissão aniquila a mentira é mentir a si mesmo. Mentir à própria mentira. Uma dupla mentira. Um jogo de espelhos onde se simulam os efeitos desejados, mas impossíveis, que a omissão das palavras acomete sobre os actos remetidos à condição de mentira. Como se através do jogo de espelhos, e do silêncio possuído de dotes mágicos, a mentira o deixasse de ser.

Volto a debater-me com o jogo de palavras de Stevenson: na dialéctica entre os actores da mentira, a omissão revela a crueldade suprema para quem é seu fautor. A quem sobra a terrível amargura interior de conviver sozinho com a dupla indignidade: de ter mentido e de perceber a ausente coragem para a revelar. Um silêncio que é traição de si mesmo. Daí a crueldade suprema.

13.3.08

E o que seria da beleza se não fosse a feiura?


Dizem que o corpo humano é um repositório de fealdade. Os corpos descuidados, a imensa maioria. Havia ontem, no Público, uma curiosa crónica de Paulo Varela Gomes, onde se relatava o cortejo de corpos desnudados de turistas ocidentais espalhados pelos areais de Goa. Curiosamente, o que se vê entronizado em publicidade que enxameia os olhos é a antítese do padrão onde se encaixa a imensa maioria: em vez das adiposidades inestéticas, corpos esbeltos, rostos de uma beleza ora exótica ora convencional, uma juventude eternamente celebrada. Uma minoria para invejar a imensa maioria incapaz de reproduzir os traços finos dos corpos enxutos.

Da estética se fala a propósito da relativização de gostos. Não há estética intemporal. Atravessa os tempos consoante são proclamados novos ícones, novas formas de entender o corpo, novas sagrações do corpo. Por hoje vai-se notando a tendência para sublimar corpos esquálidos, modelos femininos a quem ficam destinadas dietas sacrificiais, modelos masculinos a quem são prescritas hormonas femininas como milagre da depilação definitiva. Navegamos em paradoxos, divididos entre uma coisa e o seu contrário: a contemplação de corpos magros, os ossos salientando-se, proeminentes, sintomas de anorexia que se combatem entre as adolescentes que ambicionam o estéril estrelato das passerelles; em contrapartida, campanhas públicas que exortam os pais das crianças a educá-las na correcta alimentação, para evitar a obesidade.

O que será mais feio: um corpo esquelético cambaleando numa passerelle, as forças exangues pela carência de alimentos, os rostos cerrados e incapazes de esboçarem um sorriso? Ou um corpo avantajado, banhas abundantes saindo de roupas incompreensivelmente apertadas? Ou a interrogação porventura mais importante: e é tão importante consagrar um corpo se o que nos ensinam sacerdotes bem pensantes, de religiões e outros credos diversos, é a sublime sagração da mente?

Nas pessoas que desconhecemos, a imensa maioria com que nos cruzamos todos os dias, o que sobressai é o corpo que envergam. E como há quem diga na gastronomia que os olhos também comem, pode esta sentença ser obnubilada no incessante cortejo dos corpos diante dos nossos olhos? Sem descair para a futilidade da análise, que a espessura das pessoas distingue-se na personalidade, a estética não deixa atraiçoar o juízo dos corpos que desfilam na passerelle quotidiana, na passerelle onde todos somos manequins.

Paulo Varela Gomes conclui que os corpos que se estendem nos areais goeses são a antítese da estética – ou o grotesco altar da inestética. Há agressão à vista quando um corpo feminino em biquíni, ou um corpo masculino em calções de banho, mostram adiposidades que cultivam o descuido alimentar, o ausente exercício físico, em suma, corpos no limiar do abismo das doenças que são o sintoma da modernidade e do tão elevado desenvolvimento. É quase uma confrontação de liberdades: a liberdade dos turistas ocidentais passearem as vergonhas corporais nas areias de Goa e a liberdade dos transeuntes não serem agredidos pela inestética visão. Dir-se-ia: a beleza das praias ofuscada pela poluição visual semeada pelos corpos cheios de feiura.

A questão remete para uma polémica que invadiu a Holanda: a moda do “burquini” – um biquíni das mulheres árabes residentes naquele país que respeita os ditames culturais impostos pela sua religião, que impede o desnudamento de partes substanciais do corpo. Elas vão para a praia resguardadas pelo “burquini”. Na Holanda, os detractores do multiculturalismo insurgiram-se contra o “burquini”. Alegam que as mulheres árabes têm que viver de acordo com os costumes vigentes no país. E que o “burquini” ofende a liberdade de expressão consagrada na Holanda. Por entre alguma histeria dos que se antagonizaram com a nova moda, relapsos a tudo o que ressoe a islamismo em terras ocidentais, suspeito que há ali um inconfessável voyeurismo: o que eles querem é apreciar os corpos desnudados das mulheres árabes. Não percebem as virtudes do “burquini”, fosse a moda adoptada por pessoas de outros credos (ou sem credo algum): as desgraças corporais escondidas dos olhares alheios. Uma desanuviamento da poluição visual que enxameia as praias.

Ilação: a fealdade é tão importante como a beleza. Sem a fealdade, como teríamos oportunidade para distinguir – e apreciar – a beleza dos corpos? A feiura é a caução da beleza.

12.3.08

Havia beleza em cada instante


Não era o mundo o cataclismo que desfilava diante dos olhos. Não eram as pessoas a raiz dos males que julgava ser seu cerco. A irreverência, talvez metódico refúgio das tempestades que cavalgavam até esbarrarem no seu peito. E descobria a beleza das outras cores; já não só o negro que parecia tomar conta do céu, o cinzento que tingia os rostos cerrados das pessoas em trânsito.

Percebia uma luminosidade encantadora, uma luminosidade que só a teimosia recusara. Em vez de ir em demanda dos sedimentos do mal-estar, a urgência em asfixiar as pétalas que desabrochavam felicidade interior. Em vez de discernir a maldade em cada palavra entoada. Em vez de acreditar em perturbantes conspirações que anunciavam o pessimismo antropológico. Em vez de desconfiar, por método, por temer que houvesse nos outros a raiz da desilusão. Em vez de conceber as urdiduras que o desalinhavam do mundo inevitável. Em vez de tudo isso, descobriu uma nesga por onde espreitava uma luz feérica, singular.

Esgueirou-se dos seus fantasmas quando eles estavam imersos na sua própria sonolência. Descobriu que afinal tudo era diferente do universo plúmbeo que o apoquentava. Que muitas vezes há apenas a tentação de suprimir os gestos singelos que dispersam a muita beleza em redor. A luta titânica entre o optimismo e o pessimismo não é um alçapão que submete o corpo à incongruência do pessimismo. Por mais fácil que seja resvalar para uma espessa névoa onde pouco a vista alcança, a pouca paisagem toldada pelas gotículas impenitentes. Uma complexa mistificação, todavia, com a dolorosa fragilidade que se derrama.

O ar era mais respirável, mais leve, de uma pureza nunca sentida. Renovava. Os passos sucediam-se sem o cansaço do corpo. E as pessoas esboçavam sorrisos quando se falavam, sem a rudeza dos espíritos conturbados à espera do logro semeado pelos oportunistas. Havia bondade, uma bondade militante. E beleza em todos os gestos, até nas palavras mais singelas que entoavam um sentido poético. Subitamente, todos eram empossados numa poética condição, o sinal exaltante do novo espaço por onde o corpo se entregava. Não havia mendigos. A desonestidade, acantonada às margens do comportamento, o opróbrio supremo activado pela censura espontaneamente colectiva. Sem leis, ou mandantes, ou sequer importunados polícias.

A certa altura interrogou-se se não estava mergulhado num sonambulismo ilusório, ou dominado por oníricos ventos. Interrogou-se: se havia lugar aos mundos tão diferentes, tão antítese um do outro, com a singeleza de um curto passo. Se não era cansaço de si mesmo pelo pessimismo de que fazia militância. Derrotado pela sua fragilidade, a urgência em convocar um imaginário tão diferente das coisas e pessoas e palavras que afinal o entediavam. O súbito imperativo de tumular o antropológico pessimismo. É que os dias incessantes deixavam o travo amargo no seu final: uma sensação grotesca, em descompasso com as marés dominantes, uma dissidência irrecusável. A dor lancinante de ladear as sensações gratificantes, aquela embriaguez de reconforto interior que outros ostentavam, para sua inveja.

Talvez houvesse um lugar onde só importavam os afectos, a descomprometida entrega às pessoas queridas. Porque os afectos eram a tutela da grandeza interior que se compõe com o novo sextante encontrado naquela fenda subitamente descoberta. Olhar com os mesmos olhos para as mesmas coisas e distingui-las na sua beleza, elas que outrora eram vilipendiadas pelo espírito conturbado nas suas dúvidas existenciais. Talvez a maldade nos outros fosse um juízo precipitado. Cada palavra, cada gesto, cada rosto, cada fragmento das paisagens infindáveis, o templo onde se sagrava a beleza esfuziante.

As pálpebras esconderam, durante tanto tempo, a espessura do ar límpido, da luz tão clara descoberta na nova dimensão. Ou elas, ainda encerradas no sono profundo, escondiam um palco apenas sonhado. E serão os sonhos, as utopias, a fortaleza onde se transfigura a lamacenta espessura dos lugares em redor, a indeclinável amostra da beleza terapêutica?

11.3.08

E se Augusto Santos Silva voltasse à escola para reaprender o espírito democrático?


Enternecedor: o senhor ministro Santos Silva espumando raiva para os microfones de jornalistas amestrados. Estava zangado, muito zangado, o senhor ministro. Percebe-se: descontando o fenómeno que é a inexistência de oposição, o que sempre facilita a tarefa dos socialistas se repetirem no poder, as coisas não correm bem à estratégia de propaganda do governo. Talvez haja mais gente a ficar cansada do pedantismo totalitarista dos messiânicos governantes que nos calharam em sorte. Assim se entende que, do timoneiro aos serviçais, a desorientação comece a ser a espuma que se decanta no discurso estudado ao milímetro. As escorregadelas do discurso milimétrico sucedem-se.

E se Santos Silva estava irado! Já não bastava o incómodo de uma viagem até ao longínquo Trás-os-Montes numa gélida noite de sexta-feira. Em vez do recato familiar, mais um sacrifício que se exige aos homens da coisa pública. Outra reunião partidária, para que um dos fazedores de doutrina do partido doutrine os fiéis militantes. À entrada do conciliábulo partidário esperava-o uma ruidosa manifestação. Chamaram-lhe “fascista” – o que o irou tanto. Em vez de prosseguir com espírito olímpico, deixando o opróbrio aos manifestantes comunistas, habituados a chamar “fascista” a tudo o que se mexa, ao senhor ministro saltou a tampa e escorregou para o chinelo.

Parecia uma varina gritando desorientação, doendo-se com os apupos que entravam, estridentes, nos seus finos ouvidos. Alguém devia ensinar ao senhor ministro que as figuras públicas se prestam aos equívocos da dissidência. Quem governa não pode pretender o unanimismo. Mal desta terra se fôssemos uma turba obediente, acenando placidamente a excelência das decisões tomadas pelo governo. Desconhecer isto é desconhecer a democracia, atropelando princípios mínimos de convivência com os que têm o direito de afirmar a discordância. E tão depressa se resvala para a intolerância. Ao que pude saber, nem é surpreendente que assim aconteça com este ministro, atendendo às suas credenciais passadas de alguém que foi tributário de uma ditadura do proletariado.

Desde que Santos Silva começou a fazer figura no espaço público, logo me pareceu que era uma personagem perigosa. Havia ali uma retórica torcionária. Uma lógica totalitária, um raciocínio pérfido, alguém que fizera tirocínio político nas franjas de um partido da extrema-esquerda. O recondicionamento ao espaço democrático não chega para apagar os vestígios da doutrinação de antanho. Ficam as sementes de totalitarismo à mostra. Como entender que venha, ao frio de Chaves, dar lições de democracia por antinomia com nomes por ele recordados, na sua douta sabedoria adversários da democracia de que ele se fazia ali penhor? Há um dizer popular que sintetiza o que ali se passava, entre a complacência dos jornalistas amestrados: “fala o roto do nu”.

E jornalistas amestrados: naquela noite, como na noite seguinte, quando o senhor ministro mexeu os cordelinhos para ser entrevistado na televisão pública, no imperativo de maquilhar a imagem e ficar com a última palavra na polémica que ele semeou. Desdobrou-se em explicações labirínticas, pura arte de retórica esvaziada de substância. Daquele palavreado tonto sobrava, uma e outra vez, o argumento máximo: queixava-se o senhor ministro, como se tinha queixado aos jornalistas em Chaves, que os manifestantes condicionavam o direito de reunião do maravilhoso PS, ó suprema heresia. Insisto: jornalistas amestrados porque nenhum, no dia da polémica instalada por Santos Silva e no dia seguinte, na calma de um estúdio de televisão, nenhum lhe perguntou por que considerava que tinha havido “condicionamento do direito de reunião”. Santos Silva sentenciou-o, sem direito a réplica. O que leva a interrogar: estaria a jornalista que o entrevistou treinada para não fazer a pergunta incómoda? (Depois ficam na RTP muito aborrecidos quando alguém a acusa de ceder perante as pressões do governo. Como hoje estou para os adágios populares, lá se diz que “à mulher de César não basta ser séria, também tem que o parecer”.)

A cabeça do sociólogo Santos Silva deve ser uma tremenda confusão. Era o que mais faltava que um grupo de pessoas não se pudesse reunir no exterior do local onde o maravilhoso PS marca reuniões. E era o que mais faltava que o acampamento ruidoso fosse entendido como “condicionamento do direito de reunião”. Por este caminho, pouco faltará para se fazer legislação que impeça estes “condicionamentos”. Só não sei se, nessa altura, os magníficos socialistas darão conta do atropelo ao direito de manifestação. São eles que, depois, ostentam as maiores credenciais democráticas…

Não sei se Santos Silva devia marcar sessões de acompanhamento psiquiátrico, ou apenas regressar aos bancos da escola onde se ensinam às criancinhas os rudimentos da convivência democrática. Um psiquiatra, ou uma diligente professora, viria temperar a fúria avassaladora do intolerante ministro, ajudando-o a tirar as medidas ao episódio de Chaves. Haveria “condicionamento do direito de reunião partidária” se os comunistas irrompessem pelo edifício onde os excelsos socialistas estavam reunidos e boicotassem a sessão de doutrinação, ou usassem violência.

Há quem tenha achado lamentável o episódio. Eu, pelo contrário, fiquei contente ao perceber, outra vez, que ao estalar o verniz desta gente ficam à mostra as protuberâncias de intolerância que revelam a sua verdadeira têmpera.

10.3.08

Sectarismo feminista


O feminismo faz muito sentido num mundo onde persiste a violência contra as mulheres”, Ana Vicente, in Público de 06.03.06.

Encantador, o feminismo radical que escorre nas palavras atormentadas de militantes empenhadas. O mundo continua a ser um pequeno casulo onde tudo se divide em dois grupos, como se houvesse apenas o preto e o branco. São os homens, todos, e as mulheres – oprimidas, vítimas de desigualdades inaceitáveis, vítimas da História da humanidade. O feminismo radical (poderei ousar acoplar o artigo definido masculino ao substantivo sem ser acusado de perpetuar a sociedade patriarcal em que vivemos?) não se consegue desprender do passado, transportando as suas feridas para o presente. O feminismo impede a cicatrização dessas feridas. Luta com denodo para que essas cicatrizes permaneçam abertas nos dias que correm. Se elas cicatrizassem, o feminismo pétreo passava à categoria do arqueológico.

O tempo armazenado é um lamentável cortejo de indignidades que vitimaram as mulheres. Envergonho-me da infindável série de atentados sobre a dignidade da mulher. Contudo, só me posso envergonhar pela estreiteza de vistas dos antepassados; não posso é ser responsabilizado por esses erros. Como é possível estender as consequências dos erros passados para o presente, através de uma mágica passerelle que é o legado dos erros idos que as gerações vivas são forçadas a pagar?

A retórica do feminismo radical é composta por um interminável mergulho no passado, vasculhando as desigualdades que se abatiam sobre o sexo feminino para logo depois serem atiradas à cara dos homens de hoje – como se os homens de hoje tivessem responsabilidade por actos cometidos quando nem sequer eram nascidos. O artigo de opinião que dá mote ao texto de hoje anuncia logo ao que vem nas primeiras palavras. No elogio póstumo a uma grande feminista portuguesa (Madalena Barbosa), a autora dá conta de uma conversa com um primo, juiz reformado, que lhe perguntou quem tinha sido Madalena Barbosa. Para chocar as consciências (a começar pela do primo desinformado), esclarece que quando o primo se fez juiz, e durante uma parte substancial da sua carreira, “as mulheres, qual criação subalterna e imperfeita, não o podiam fazer. Tinham, porém, o direito de ser julgadas e condenadas por homens”.

Eis a prova perfeita da dicotomia reducionista do feminismo radical: um mundo só composto pelos pólos opostos, os homens que podiam ser juízes e as mulheres a quem era reservado lugar no banco dos réus, por eles julgadas. É aceitável que assim o tenha sido durante tanto tempo? Vivendo em 2008, não hesito em dizer que não. Mas é isso que interessa avaliar, ou antes perceber o contexto no seu tempo (e não no conforto da evolução entretanto registada)? Às feministas radicais não é agradável o exercício de localização contextual que exige a compreensão do tempo em que os acontecimentos se deram. É mais conveniente ajuizar o tempo passado pela chancela do tempo presente, sem perceber o alçapão em que se metem. Uma militância que ou desconhece ou evita e epistemologia, incapaz de admitir que as sociedades evoluem. E que, na sua evolução, há museus que justamente assinalam os acidentes que mancham a História da humanidade. Sem necessidade de perpetuar os acontecimentos, prolongando-os do passado até ao presente.

Haverá desigualdades que ainda aborrecem as feministas radicais. Haverá ainda muitos homens que continuam a achar que as mulheres devem estar à frente do fogão ou oferecer-se como escravas sexuais aos seus senhores. Pergunto-me: e não têm esses comportamentos vergonhosos diminuído com a passagem do tempo? Devem todos os homens arcar com o opróbrio que fere a dignidade dos ignorantes exemplares masculinos que vivem na idade das trevas e maltratam mulheres? Não perceberão estas feministas exaltadas que estão a tomar a árvore pela floresta?

De facto, a violência sobre as mulheres – como qualquer violência, se me é permitido adicionar – é intolerável. Qualifica quem a pratica. E, de facto também, em homenagem à lógica da igualdade (e tanto haveria a interrogar a esta lógica…), apetece perguntar se não há lugar à inauguração de um movimento “masculinista”, pois os homens também são vítimas da violência. Porventura esse seja o erro de método: teimar no feminismo, ignorando que são os acidentes da biologia que nos fazem homens ou mulheres. E que, ao contrário do que acreditam piamente as feministas, o mundo não é um lugar pequenino reduzido ao preto e branco que desfila diante dos seus olhos. Os dois sexos não são categorias homogéneas, onde forçosamente todos os exemplares de cada sexo se devam abrigar, sob pena de ostracismo por dissidência. É assim que nascem os odiosos totalitarismos.

7.3.08

Tão inteligente e como pode ser tão reaccionário?!


(Inconfidência uma vez escutada, por acaso.)

Às vezes acontece. Pessoas desconhecidas, o encantamento com o que supõem ser uma brilhante inteligência, uma erudição ímpar. Do primeiro contacto, quase impessoal, às conversas que se alimentam, intensas e desafiantes. Uma cumplicidade fermentada pela espessura intelectual, dizem. Assim que o conhecimento vai esbatendo resistências (que, decerto, não deviam ceder ao primeiro passo), para cima da mesa são atirados temas mais frugais – agenda noticiosa, exigindo opiniões que desnudam um estalão normativo. Depressa o encantamento cede lugar à perplexidade, que depressa se acantona no desencanto.

Também fica à mostra a intolerância de quem apregoa imbatível estaleca de tolerância. Enquanto ficou à mostra a espessura intelectual, sem incursões por ideologias ou sem apurar a livre opinião sobre a actualidade, só havia lugar ao encantamento. O caldo entorna-se quando se descobre que aquele, tão inteligente, afina caminho por avenidas diferentes. Avenidas impróprias, dirão as sacerdotisas do lugar a que pertencem (ou devem pertencer) as mentes brilhantes. Desenganadas as sacerdotisas. Afinal não é merecedor de amesendar no banquete das ideias correctas. E estarão a indagar: agora que sabem do tecido normativo que o cobre, não será assim tão inteligente como aparentava.

Acho magníficas as cambalhotas dos que se entronizam no altar do ajuizamento moralmente superior. Sem dúvida que a cada um cabe a sua ética, um lugar muito próprio (porque individual). E a cada um, também, o indeclinável direito de escolher companhias. Já não estou tão certo que haja ideias melhores e outras piores, se elas são cotejadas num exercício interpessoal. Nem me consigo deixar convencer pela metódica indiscrição dos que sancionam julgamentos pessoais pela bitola das ideias, acoplando à rede de relacionamentos apenas os que sintonizam o mesmo diapasão. Nem me impressionam julgamentos por quem se julga aspergir salpicos de superioridade ética sobre os demais.

Não sei se hei-de dizer que é enfadonho, ou pelo contrário hilariante, que pitonisas da superioridade moral enxuguem os indesejados depois de descobrirem um património genético de ideias pouco recomendáveis (na sua maneira de ver). Sobretudo se resvalarem frequentemente para as lições de moral, abençoando os que são acolhidos à sua asa e renegando os que andam pelos antípodas do acertado caminho. É que à sebenta leccionada pertencem axiomas imperativos que são esquecidos à primeira oportunidade. Não interessa denunciar incongruências alheias. Até nas incongruências, a cada um as suas, sem peias em admitir que ninguém delas passa incólume.

É por isso que me exasperam moralismos ensaiados. Se há moralidade aceitável, é a recusa de qualquer moralismo. Até para evitar que os paladinos desta arte sanhuda sejam os primeiros a cair no alçapão que semeiam aos outros. São umas vetustas personagens que se investem na condição de juízes alheios. Porventura para obliterar angústias que as consumam pelo interior, desviam a atenção para o exterior de si. Por esta altura, entoam o ao mesmo tempo admirado e indignado “como é possível?”. O enfatuamento é mais ácido quando a decepção compõe a apreciação do outro. Como foi possível – é a minha vez de usar a expressão de retórica – serem iludidos por alguém tão inteligente e, todavia, senhor de tão abstruso leque de ideias?

Há sempre um truque na cartola para suprimir a descompensação. Sobra como sentença derradeira a que fica a pesar no fio etéreo dos dias: à desilusão (“parecia tão inteligente”) sucede-se o lenitivo que devolve o equilíbrio interior (“mas, com aquelas ideias, a prova de que não é”).

Assim como assim, a cada um – também e sempre – o direito a ladear os umbrais do discernimento. E a cada um o recato da perfídia; o lugar dos que se julgam acima das suspeitas, penhores de um passado imaculado e sacerdotisas de um presente exemplar, arquétipos da boa cidadania, impolutos, tribunais onde os outros são inapelavelmente julgados; e, contudo, todos os atributos esbarram na cambalhota mental tão fácil, e tão difícil de perceber em mentes tão brilhantes, quando as ideias descompassadas contaminam sem remissão quem as exibe. Ao secante “tão inteligente e, contudo, tão (qualquer coisa que não convenha)”, apenas o riso desbragado aos merecedores de inexpressiva importância.

6.3.08

Running up that hill


A ladeira inclinada. Escalada a pulso. Como se fosse alpinismo em elevadas altitudes, o oxigénio escasso cerceando a respiração, cada golfada de ar a despenhar-se nos pulmões. O ar, um punhal afiado a cravejar-se nos pulmões. Alguns metros escalados, uma interrupção para fitar o que sobra da subida. Não se divisa o cume, abotoado por uma névoa espessa e gélida. Só tem a certeza que o caminho é de sentido único. Palmilhando as pedras espigadas, a urze que se esvanece assim que atinge a altitude onde rareia o oxigénio.

O discernimento parece embriagado. As ideias revolvem-se numa espiral tonitruante, sucedem-se numa sequência ilógica. Episódios desconexos, palavras sem ligação, pessoas rememoradas numa ordem aleatória. Alonga-se em exercícios que parecem um manual de surrealismo. A compasso com os passos certeiros que ultrapassam os metros imparáveis, sem cessar nem com o vento que assobia uma melodia furiosa, esbracejando-se contra o rosto enregelado. Dir-se-ia que os passos são já maquinais e o corpo se deixou possuir pela febril sucessão de ideias, palavras, pessoas, lugares que desfilam no pensamento. Funcionam como o condimento energético que move o corpo ladeira acima. O corpo matéria inerte domada pelo pensamento.

Havia ali entrega descomprometida à subida perene. Quanto mais palmilhava a encosta íngreme, mais o tecto de nuvens se encostava mais alto ainda. Parecia que as nuvens se assustavam com a escalada e se encolhiam na direcção do céu. Pelo meio, a serrania parecia não chegar ao seu fim. Exigia a renovação do esforço, mais um intervalo e outra inspiração funda. Para logo a seguir retomar a teimosia, sem sequer olhar para baixo só para apreciar a façanha já conquistada. Ou a recusa em olhar para trás só para não desencorajar a parte sobrante da subida, não fosse ausentar-se a audácia e o apelo do regresso ecoasse em voz alta.

Pela noite, buscava refúgio do vento sibilante. E repouso, calculando de cabeça o trajecto que faltava para terminar a subida. Mesmo durante o sono revolvia-se com sonhos da montanha que o desafiava na escalada. Nos sonhos, amedrontava-se com uma imagem: a montanha não tinha fim, uma subida interminável, ora íngreme ora suavizando-se. Adivinhava demissão de si mesmo se pusesse fim à escalada. Percebia o símbolo que a matéria onírica desvelava: aquela subida metódica era o roteiro – o seu roteiro que preenchia os anos uns atrás dos outros. Havia subida sem cessar, havia espinhos cravados na pele à passagem por agrestes plantas, havia pedras ásperas que se esmagavam contra os pés cansados, havia dias de agressiva intempérie que atraiçoavam a motivação. O sinónimo de uma vida inteira.

Enquanto houvesse matéria para subir, e de cada vez que o rompimento do tecto de nuvens desfizesse a paisagem escondida detrás das gotículas plúmbeas, a gratificante imagem de um pequeno promontório que servia para se situar. Olhando em redor, extasiado com a paisagem já sulcada – ora árida, ora verdejante – e desviando os olhos para o horizonte que traçava o percurso em falta. Sem se demover pelo intenso apelo da letargia, como se houvesse pequenos demónios segredando ao ouvido as delícias envenenadas do percurso estancado. Seria um tentador apelo, nas exangues forças que adormeciam os membros. Até que, das inóspitas profundezas nunca visitadas, uma torrente jorrava levantando-o para o acto contínuo do percurso inacabado. Teimar na escalada da ladeira, um sopro de jovialidade encantadora.

Os lugares por conhecer, as muitas viagens preparadas em actos mentais, caução suficiente para perseguir a ladeira íngreme diante dos olhos. Lá em baixo, planícies ofereciam-se leitos apetecíveis, onde o repouso haveria de premiar a obstinação. E, contudo, teimava em vaguear pelas altitudes, onde apenas existia a solidão do vento furioso, a terra inóspita semeada por pedras avulsas e a corajosa vegetação de arbustos que desafiavam a hostilidade ambiente. Era um exílio necessário, uma peregrinação determinada pela recusa em se esconder de si mesmo. Mergulho nas profundezas irreveladas do ser, só desnudadas a cada passo que escalava a ladeira inclinada.

5.3.08

Afinal, há inferno


Papa Bento XVI dixit. O seu antecessor estava errado. O sumo-sacerdote, acolitado pelos teólogos iluminados pela razão divina, pesquisou entre as profundezas inacessíveis aos comuns dos mortais: o conciliábulo concluiu que o inferno é um assustador cutelo a pesar sobre a consciência dos crentes. Os desapossados da razão, aqueles que teimam em virar a cara à face gentia da fé, nada têm a temer. O discurso papal não lhes é dirigido. Porventura, serão eles a face terrível do demo que atemoriza a vida terrena e aparta a temente humanidade dos caminhos serenos da bondade.

De que cor será o inferno? A imagem dantesca (profetizada por escritos bíblicos ou pela crendice popular tão impregnada de ignorância) de um inferno em chamas, com tonalidades avermelhadas a adornar os diabos residentes – será este o retrato do inferno? Haverá mapa para localizar o inferno? É verdade que os espíritos malignos, aqueles que não podem almejar a redenção divina e vêm as portas celestiais vedadas, vão arder para o inferno? Não haverá amianto providencial nesta viagem final pelas catacumbas ardentes do inferno? Será coincidência a repugnância ao comunismo (e outras ideologias aparentadas com o marxismo) com os tons avermelhados que se caldeiam no inferno?

As interrogações incessantes deviam convocar os teólogos, donos absolutos da verdade terrena por inspiração divina, às necessárias explicações. Valiam para crentes e não crentes. É que estes, condenados à vegetativa fogueira perene do inferno, gostariam de saber o que os espera quando as cancelas de S. Pedro se mostrassem encerradas. Gostariam de preparar a epiderme contra as temperaturas tórridas, o forno onde todas as dores seriam consumidas nas suas cinzas. E gostariam de saber se, uma vez feita a despedida fatal da vida corpórea, a sua essência mudaria ao ponto de se demorarem no forno infernal sem se reduzirem a cinzas. A igreja convive mal com a racionalidade da ciência, é sabido. É que a química ensina que um corpo se consome em cinzas se for exposto às temperaturas que o espera nas alvenarias do inferno.

E como os sacerdotes são castas figuras, insistindo numa moral sexual que no fundo é assexuada, suspeito que é no inferno que as divas dos prazeres carnais moram. Talvez, até, se encontre aqui uma ponte que une na dissidência os que se deixam cegar pelas bulas papais e pelos dogmas do fundamentalismo islâmico: as setenta virgens prometidas aos kamikazes que entregam a vida em missões suicidas são a argamassa que se desprende das paredes do inferno, por toque de magia, ali todas em fila à espera de saciar as fantasias inconfessáveis dos que vieram bater à porta deste céu que é também inferno – depende da perspectiva.

E assim o paradoxo se concilia, por mais paradoxal que pareça. Se a humanidade se regesse religiosamente pelas tábuas dos sacerdotes de Roma, os lupanares entrariam em ruína. E de cada vez que os instintos carnais segredassem o desejo ao ouvido dos amantes – e que interessa que a relação tivesse sido abençoada por um padre – era o estigma do pecado a soçobrar a pureza que levanta as cancelas do espaço celestial. São inúteis os ensaios ecuménicos: as religiões são rivais na conquista do seu espaço vital. Por mais que queiram convencer-se do contrário, são corpos que se consomem mutuamente. Por isso é que o céu prometido aos que se deixam armadilhar com bombas suicidas é o espelho do inferno católico.

Adivinho o sobressalto que percorre, por estes dias, o espírito dos católicos. Estavam convencidos que o inferno não existia. O antecessor do actual papa tinha-os tranquilizado. Deus havia derrotado satanás. Os católicos andavam mais sossegados, acreditando que os pecadilhos por onde resvalavam a espaços eram perdoados pela magnanimidade divina. De uma vez por todas, a prova que deus era infinitamente bom e dotado de uma incomparável capacidade para perdoar desvarios momentâneos. Não havia inferno, nem sequer para os militantes do pecado.

Tudo mudou com a chancela do papa Bento XVI. Afinal, há inferno. Nem que isso signifique que deus, afinal também, cedeu perante o enrubescido satanás. O que me deixa perplexo. Dizem que deus é omnipotente, naturalmente insusceptível de ser vergado pela derrota. Mas se o inferno existe, deus não conseguiu destruí-lo. Satanás mantém a sua coutada intacta. Impermeável aos esforços de deus, uma selva impenetrável às investidas da bondade divina.

Já nem sei o que não bate certo: se a paradoxal incapacidade para deus vencer o braço de ferro com satanás; ou se a perfídia papal ao atemorizar os crentes com a revelação de que o inferno não acabou.

4.3.08

O concerto low cost e os trovadores do amor magoado


Para quem nunca tinha ido à Casa da Música, duas visitas em quinze dias é para tirar a barriga de misérias. Desta vez havia água na boca para o concerto de Lou Rhodes, a vocalista dos Lamb, agora em carreira a solo. Desconhecia a obra de Lou Rhodes, a não ser enquanto vocalista dos fantásticos Lamb. Informei-me: soube que apostou em sonoridades diferentes dos ritmos acelerados e electrónicos dos Lamb. A Rádio Radar sintetizou as sonoridades que me esperavam na Casa da Música: “folk gentil”.

(Há sempre uma admirável dimensão na intelectualidade jactante dos críticos de música. Sobretudo quando lhes cabe inventar rótulos onde se encaixam os sons, como se fosse necessário arquivar a música que criticam em categorias herméticas. “Folk gentil” – fez-me coçar a cabeça, meio perplexo: e haverá folk sem ser gentil? Se por “gentil” se entender “delicado”, descubram-me, por favor, exemplares de folk desabrido ou insultuoso. O folk é uma aproximação da música popular ao imaginário folclórico. E como pode o imaginário folclórico ser senão gentil? Tentei decifrar o rótulo: Lou Rhodes tem uma presença doce, uma voz ao mesmo tempo poderosa e melódica, uma fragilidade física que se mistura com um contacto envergonhado com o público. Será daqui que se exaltam os traços “gentis” do folk produzido pela artista? É que, afinal, gentil é Lou Rhodes – e não o folk que ela compõe.)

Foi a primeira vez que assisti a um concerto low cost. A artista, a sua voz e a guitarra dedilhada, com um singelo jogo de luzes a emprestar o cenário à sala cubicular que, ao que dizem, tem inigualáveis dotes de acústica. Um concerto acústico, na singeleza dos acordes de guitarra acompanhando a voz suave e adocicada de Lou Rhodes. Aos que ali iam à espera de revisitação dos temas dos Lamb, apenas um par de incursões em versões despidas da elaboração electrónica. De resto, as composições de Lou Rhodes arrastadas em mais de uma hora. A certa altura, o tempo parecia ter-se estendido para além da sua definição. Uma artista muito zen, apaixonada pelo amor que celebrava em composições acústicas e soporíferas.

Para quem estava habituado a vê-la como vocalista dos Lamb, esta nova vestimenta foi uma surpresa. Negativa. A introspecção, a sagração do amor, a pose de trovadora: eis o seu novo habitat. E das duas uma: ou a audiência estava à espera de mais agitação, não se entusiasmando com os devaneios líricos de Lou Rhodes, notando-se algum preconceito mental perante esta nova faceta; ou a artista encaixa-se mal no novo habitat. E por mais que a gentil e doce Lou Rhodes se esforçasse por desatar a empatia com o público – conseguiu-o a espaços, sobretudo na revisitação de “Gabriel”, um hit dos Lamb – a adesão descomprometida vinha de meia dúzia de espectadores. Os demais aplaudiam sem energia, quase maquinalmente, no fim de cada composição. Diria: quase por exigência de educação, em respeito ao estatuto da artista. Não é o melhor elogio. Sinal da etapa descendente?

Ao mesmo tempo, renovei a impressão da coragem de alguns artistas para se desnudarem perante o amor. Cantam o amor: celebram-no, ou choram-se quando o desamor se entroniza. Confessam a sua entrega nas mãos da pessoa amada, como se a entrega descomprometida a outrem fosse exibição ostensiva de amor. Há ali um desnudamento: a face visível de um amor, afinal partilhado com toda uma audiência. É nesta perda de intimidade do amor que reside o acto corajoso, como se houvesse mister de tirar as roupas e deixar a nu o amplexo de sentimentos que pertence à intimidade dos amantes.

O momento da noite, entre a monotonia que se instalou naquela sala fria e desconfortável da Casa da Música, estava guardado para o prefácio do concerto de Lou Rhodes. Antes da sua entrada em palco, por lá desfilou numa demorada meia hora um artista islandês desconhecido, também trovador do amor magoado. A meio da actuação, algumas palavras para descongelar um público adormecido ou desinteressado. O marketing habitual: uma cidade esplendorosa, um povo acolhedor, um prazer imenso estar no Porto, a lengalenga de sempre. E confessou-se desassombrado diante da arquitectura da Casa da Música. Eis a revelação do momento da noite: o edifício fazia-lhe lembrar uma nave espacial.

Na mouche! Tantos dias consecutivos a olhar para o mastodonte e nunca me tinha apercebido que ele se assemelha a uma extravagante nave espacial.

3.3.08

Os bastardos da democracia


São filhos ilegítimos da democracia. E, no entanto, encharcam a sua boca com prosas que os auto-enobrecem como penhores da democracia. Acham-se sacerdotes dela, seus bastiões inexpugnáveis, os garantes da intangibilidade das liberdades. Asseguram espaço à tolerância das ideias dissidentes. Porém, insinuam-se no seu contrário sempre que “distraidamente” caucionam atropelos a tudo aquilo de que dizem ser penhores. Insidiosamente, testando a atenção do público, escorregam para frases assassinas ou decisões que fazem tábua rasa dos valores de que se dizem ardorosos defensores.

É toda uma corte que adeja os senhores ministros e secretários de Estado, desfazendo-se em genuflexões que podem ser gestuais ou apenas em palavras ou actos bem pensados. Os aprendizes do poder, que um dia anseiam subir um degrau que seja na hierarquia da função pública, porventura sonhando com uma anónima sinecura distrital – expoente máximo do que podem aspirar, no seu cinzentismo indisfarçável – dão guarida a decisões que julgam ser do agrado dos seus superiores (e, se calhar, são). Que interessa que sejam varridos direitos que entram no catálogo da democracia? Se a gente estiver distraída, ninguém se apercebe e, no final, tudo se conjuga para um controlo maior sobre o espaço público. As divergências, logo desnudadas e prontas a juízo severo. Porque os messias do poder têm que se perpetuar, asfixiem-se as hipóteses de opinião divergente – ou, pelo menos, acantonem-se às suas sequelas nefastas para quem ousar divergir.

Eles e elas são os bastardos da democracia. Funcionários pequeninos, que se afadigam no frete aos chefes, julgando – na sua pequenez intelectual – que os chefes mostrarão eterno agradecimento pelo rasgo de que resultou a supressão de liberdades gratas à democracia (e, porventura, até agradecem). Por isso é que são os bastardos da democracia: são eles e elas que a abastardam, que a corrompem, que a entronizam numa crise que tem o condão de tornar ideologias totalitárias atraentes para alguns desiludidos.

O pior é nunca se fica a saber se os senhores ministros e secretários de Estados, que se deixam cercar por esta corte obediente, alimentam a verve torcionária dos inferiores hierárquicos. Fica por saber se é com conhecimento e consentimento dos chefes que os cinzentões anónimos cometem atentados a liberdades fundamentais. Há uma sensação ácida a dominar o paladar: com o controlo apertado com que a governação é feita, quem acredita que estas medidas sejam atiradas para o ar sem o conhecimento dos mandantes? Se o abuso é notório ao ponto de não passar despercebido mesmo aos mais desatentos, no final sempre podem invocar os mandantes que nada sabiam acerca do desvio do zeloso funcionário. Com o ar cândido de quem foi o último a tomar conhecimento do desvario, asseguram que foram dadas instruções para desfazer o equívoco. Pois.

Abastardam e abastardam, sem cessar, a democracia. Convivem mal com os que discordam e, fazendo-o, se limitam a exercer um direito fundamental: a liberdade de expressão. Há estalinistas mentes que povoam os ministérios e secretarias de Estado e direcções gerais e direcções regionais que enxameiam tudo isto. Multiplicam-se até à base da pirâmide. Como uma directora de uma escola em Leiria que se propunha incluir, como critério de avaliação dos professores, a expressão crítica contra a douta política do ministério da educação. Os que ousassem discordar e o dissessem em voz alta, em plena escola, seriam penalizados pelo atrevimento. Depois, uma patética sequência de desmentidos e contra-desmentidos que vieram revelar o amadorismo surpreendente da central de comunicações que “faz” a imagem deste governo.

Para depois fica a urgência da gestão dos danos: afinal não se pretendia fazer aquilo que foi ventilado (ou não se disse o que foi dito, apesar das palavras gravadas; ou os outros é que entenderam mal o que foi dito). Foi um erro de apreciação, uma distracção, chamem-lhe o que quiserem. Que nunca – jura-se a pés juntos, ostentando as credenciais democráticas que são sagradas e superiores às dos adversários – foi objectivo cercear a voz dos professores que não alinham pela política oficial das mentes brilhantes que residem no ministério da educação. O que sobra é a impressão de que esta medida, na sua aparente inocência, soa ao barro que foi atirado contra a parede só para ver se lá ficava colado, se andássemos todos distraídos.

Se há sensação grata é perceber, a espaços, laivos de maioridade cívica. Os que denunciam estes atentados são os penhores dessa maioridade cívica. Remetendo os cinzentos funcionários, portadores do cartão de militante do “partido certo”, aqueles que se esforçam por fazer fretes aos chefes (e os chefes que mostram mal disfarçada surpresa, por que não dizê-lo?), ao hediondo lugar de algozes da democracia.