Ontem, em Guimarães. O melhor concerto dos últimos anos.
19.7.08
18.7.08
Revivalismo (musical)
Fico dividido perante o convite a reviver música escutada no muito distante fio do tempo passado. O revivalismo é mais forte quando esses nomes de antanho regressam da reforma e tocam ao vivo. Por estranho que pareça, sinto menos desconforto quando ocasionalmente sou acossado pelo revivalismo musical e vou ao arquivo buscar quem me apetece ouvir. Com os concertos de nomes que foram referências lá atrás, o sentimento é diferente: o apetite pela revisitação do passado fica agendado. Naquele dia, o dia do concerto, é como se fosse obrigatório ajustar a bússola para a música que vai ser tocada no palco – e para as memórias que vêm de braço dado com essa música. Os deslizes do revivalismo não se agendam. Surgem, aleatórios, sem marcarem espaço na agenda.
Estes nomes que voltam a tocar ao vivo, depois de julgar que tinham outra forma de vida, são a vitrina de sensações contraditórias. O inapelável mergulho no passado. Um pedaço da juventude resgatado, trazido até aos tempos actuais em forma da música que o emoldura na paisagem mental. Em certos casos, uma cruel comparação para os artistas envelhecidos, quando da memória se avivam vestígios de uma actuação há vinte anos. E por essa comparação, o nosso próprio envelhecimento a gritar tão alto como as vozes roucas e gastas dos cinquentões que se arrastam em palco. Então desfila diante dos olhos uma tela. Não com o passado que o revivalismo musical evoca. É a tela que põe em letra viva a curva descendente.
Estas deambulações são exercícios ingratos para quem envelhece e se aproxima da meia-idade. Exercícios inúteis, no tempo gasto com pensamentos estéreis que esvoaçaram a atenção durante os concertos de quem fez parte da iconografia musical dos finais da década de oitenta. Houvesse apenas concentração na performance e nem tempo sobrava para ligar as pontas entre a vetusta idade (artística) dos músicos e o atrelado a que vou empurrado, logo atrás deles. Há, ao mesmo tempo, melancolia pelos artistas que a idade não deixa ostentar a energia de outrora. De repente, uma ingrata sensação: como se aqueles minutos de actuação fossem uma extrema-unção dos artistas. A tão elevada probabilidade de ser a última vez que os vejo em palco.
Um esforço para afugentar a pazada fúnebre que me deixou aturdido, neste mergulho por pensamentos inutilmente profundos. Maldita ocasião para me perder no labirinto destes pensamentos, a atenção dividida entre a condoída introspecção e os decibéis que entoam, estridentes e laudatórios de uma era pessoal.
Mudança de assunto: por estes dias, em visitação a concertos vários, a insólita sensação de pertencer aos espectadores de idade mais avançada (note-se a higiénica recusa em usar a palavra “idoso”; e a falta de habituação aos anos que se vão empilhando). Desta vez a faixa etária média estava acima do meu estalão. Era o perfume do revivalismo à solta, da muita gente que ali foi para retomar contacto com um passado já distante. E é estranho como os mais jovens que no Verão peregrinam de festival em festival olham com alguma esquivança para os mais velhos que, desta vez, os cercaram em matilha numerosa. Uma desconfortável laceração de gerações. Como se os já calvos, de proeminente e adiposa pança, os que ostentam já grisalhos cabelos que pespontam as rugas espelho da mais avançada idade fossem aves de arribação que não pertencem à festividade. Só a música dos veteranos que se arrastam em palco desmente a descontextualização geracional.
O Festival Marés Vivas, a beijar as (desta noite e madrugada) mansas águas do Douro, trouxe do passado Peter Murphy e The Sisters of Mercy. Naqueles tempos éramos às vezes “góticos”, mas não parecíamos. O vento levou os sons de outrora e as palavras que tinham um significado. Não é nostalgia passadista, nem o aprisionamento pela música datada. Saí de alma lavada, incensada pelo revivalismo. Não fui em busca do passado. Sobrou o empenhamento na vida que há ainda para levar – e essa está sempre diante dos pés e não escondida detrás do ombro.
17.7.08
Os psicólogos teimam em simplificar a complexidade do ser humano
A pessoa é muito complexa. A genética está aí para o demonstrar, com os mapas genéticos que revelam arrevesados ADN. Não há dois seres humanos iguais, apesar de sermos tantos a povoar o mundo. Os psicólogos persistem em arranjar gavetas onde metem as pessoas. Porventura como método que lhes facilita o estudo da mente humana. Será apenas um instrumento para a sua particular ciência? O paradoxo está aqui: da tremenda complexidade da mente humana, passando pelas tentativas de (digo eu, artificial) simplificação feita pelos psicólogos, por sua vez gente com uma cabeça muito complicada. E como é que gente tão complicada se aventura a decifrar a complexidade do ser humano?
Agora descobriram que só há seis maneiras de amar: “romântica, altruísta, lúdica, pragmática, cooperativa e possessiva”. Desta vez ensaiaram rótulos em algo tão complexo – ou porventura simples demais para ser assim teorizado – como o amor. Gostava de ver um poeta confrontado com a tentativa muito científica de colocar dísticos no amor. Os poetas são exímios na celebração do amor. Conseguem, como ninguém, descobrir palavras que são a sagração do amor. A negação da proclamada cientificidade que os psicólogos julgam encontrar nas mil e uma formas de amor, por eles arrumadas em seis categorias seis. Aposto: um poeta indignado com a banalização do amor depois deste fruste exercício de simplificação dos psicólogos. Da indignação viria pelo punho do poeta um satírico poema, as estrofes implacáveis para a soberba dos psicólogos.
Uma interrogação irrequieta: uma categoria exclui outras? Quando amamos, só o fazemos de uma daquelas formas? Há a possibilidade de um rótulo ser complementar de outro? Por exemplo, uma pessoa pode ser no amor altruísta e, ao mesmo tempo, cooperativo? É aqui que convém ir à fonte e resgatar as definições para encontrar solução para a interrogação.
Descobriram que o “amor altruísta” é aquele em que os que amam se anulam “perante o outro, tendendo a isolar-se num mundo onde, na sua imaginação, só cabem os dois ainda que o outro pense e actue exactamente ao contrário”. Como há tempo ouvi da boca de um pastor evangélico (em celebração de um casamento para que fui convidado), o amor é sacrifício; é, nas iluminadas palavras do pastor, quando a mulher se sacrifica pelo homem porque este a ama. (Não havia feministas no templo evangélico: nenhuma senhora ou menina se coçou naquele instante.) Do estudo dos eminentes psicólogos aprendemos que o “amor cooperativo” “geralmente nasce de amizade anterior e antiga e é alimentado por hábitos e interesses comuns”. Portanto, não é parecido com a forma altruísta de amar. Diria, é o amor em que cada um funciona como a muleta do outro. Um remédio. Um remendo.
Se assim é, não estaremos em presença de uma forma pragmática de amar? É só recuperar a definição de “amor pragmático”: é o que acontece com “pessoas práticas, disciplinadas e disciplinadoras, com uma educação, por vezes, austera, que podem minimizar ou reprimir o sentimento, não sendo dadas a manifestações expressivas de carinho”. Também é diferente. No amor cooperativo, cada amante tem um comportamento pragmático: à falta de melhor, lá terá que ser aquele(a), o primeiro a vir à rede. Para os psicólogos estudiosos do fenómeno, o dito “amor pragmático” é o que pertence aos que têm um coração granítico, aqueles em que a manifestação do sentimento esbarra numa esfíngica pose.
E depois ainda temos direito ao “amor lúdico” – uma derivação do pragmatismo? É o que se identifica com a “conquista e a busca de emoções passageiras e é muito frequente em jovens adultos, em especial homens”. O engate puro e simples. Mas, o engate é amor? Afinal o que é o amor? Não é antes, de acordo com a gaveta do “amor romântico”, aquele que “envolve paixão, unidade, atracção sexual, aparecendo na adolescência e ainda provoca casos de perdição e em caso de fracasso ainda pode levar ao suicídio”? Mas se tem estas características, o amor – esta categoria de amor – não é uma patologia? Se o amor é coisa boa, não pode ser compatível com uma doença. Mas se as pessoas se encaixarem no dito “amor possessivo” é porque são determinadas “pelo ciúme [que] provoca emoções extremas e comportamentos obsessivo-compulsivos”, exigindo do outro “constante atenção e em momentos de crise prejudica a vida familiar e profissional”. Isto também não é doença? Estou confuso!
Tenho uma dúvida, diria, metódica. O estudo dos psicólogos resulta da observação dos comportamentos, o que supõe uma de duas coisas: ou vasculhar na intimidade das pessoas (hipótese que descarto), ou o convite para responderem a inquéritos que retratam a sua forma de amar. E se as pessoas interpretam mal as perguntas? E se as pessoas julgam amar de uma forma, quando afinal a sua representação exterior revela outro tipo de comportamento? Este estudo pode ter a utilidade do nada. Até porque o amor não se categoriza. O poeta diria: o amor é uno.
16.7.08
O lucro, ai o malfadado lucro!
Leio: “Bloco de Esquerda está contra a privatização do aeroporto Sá Carneiro”. A ladainha do costume. Haverá empresários interessados em tomar conta da gestão do aeroporto. Adivinha-se a intenção: calculam que o aeroporto é um filão. Avultados lucros no horizonte. Lucro – a palavra proibida para a esquerda caviar. É que a militância por estas bandas assemelha-se a uma religiosidade como outra qualquer: há palavras banidas, diabolizadas. O lucro que os empresários procuram é o espantalho do Bloco de Esquerda. Como em qualquer religiosidade, há um catálogo de pecados de que os crentes devem fugir a sete pés. A esquerda caviar, mal sente no ar o fétido odor do lucro, persigna-se mentalmente e apressa-se a lavrar sentença condenatória dos empresários incorrigíveis.
Não há semana que passe sem mais uns passos na persistente peregrinação pedagógica da esquerda caviar. Procuram educar as massas, trazê-las até à sua acolhedora tenda onde apenas se respira um ecológico ar despido de interesses materiais – os valores humanos entronizados no altar das prioridades. Os empresários são o inimigo de estimação. Ser empresário é sinónimo do pérfido lucro. Pérfido porque supõe a extracção de uma volumosa renda pela produção de bens e serviços. Quando o fazem, os nefandos empresários espalham o mal pela sociedade: a começar pela produção, na usurpação da força de trabalho, pois os trabalhadores são oprimidos pela tremenda desproporção entre os seus salários e os proventos apropriados pelos empresários; depois, a sede do lucro eleva os preços que os consumidores pagam, também eles penalizados pela avidez materialista dos empresários; a terminar, o lucro é responsável pela carestia dos bens e serviços. Se a sede do lucro fosse moderada, os preços seriam mais baixos, a inflação mais reduzida e a imensa maioria dos consumidores viveria melhor.
É nesta altura que seria interessante colocar de braço dado economistas e psicólogos. Estudariam a mente humana, tão adoradora do capitalismo, tão dependente do aumento do bem-estar – no que o bem-estar é, por estes dias, sinónimo de condições que empurram para a materialidade da vida. Para tristeza dos sacerdotes da esquerda caviar e dos seus seguidores, o cidadão médio é um viciado na materialidade da vida. Tão carentes de explicações sobrenaturais, onde abundam fantásticas teorias conspirativas, os fradescos da esquerda caviar depressa descobrem vestígios de uma conspiração de interesses que remete as pessoas para uma dormente dependência do consumo. É no consumismo das massas que se sacia a sofreguidão lucrativa dos empresários. Daí outro mal contemporâneo: a publicidade, culpada pelo corruptor consumismo das gentes.
Se percebo o mundo retratado pela lente da esquerda caviar: há uma minoria de privilegiados que se insinua junto do poder – aliás, a abundância de meios dá-lhes o poder – e tem o dom de oprimir a imensa maioria dos pobres e remediados que sustentam os seus lucros. É o selo anti-democrático na sua perfeição. Os empresários conspiram entre si para afundarem as massas em mais consumismo, em redobrada dependência. Para se reproduzir o ciclo interminável que autoriza a engorda dos empresários e o empobrecimento das massas. Um duplo empobrecimento: material, pelo endividamento até ao tutano; e o pior dos empobrecimentos, o que semeia a desumanização através da dependência material. Nada que importe aos empresários. Só o aumento da conta bancária é que conta, nem que seja à custa daqueles dois infortúnios alheios.
Juro que gostava de imaginar o mundo em acção se esta extrema-esquerda chegasse ao poder – como se fosse possível reproduzir em laboratório o mundo perfeito para a lente da esquerda caviar. Descontando a privação de liberdades que toma conta do seu catecismo particular, teríamos a extinção dos empresários, da iniciativa privada. Pois a Constituição teria lá um artigo a proibir o lucro. As pessoas por fim a viver um idílio: jamais dependentes do inane consumismo, livres para os prazeres do espírito. Um amor e uma cabana. E um mundo mais ecológico, com os tenebrosos empresários que já não andariam a empestar o ambiente.
Quem não percebe as virtudes da cartilha dos frades da esquerda radical só pode estar desapossado de inteligência. Ou tão possuído pela toxicodependência do consumismo que não consegue discernir o mundo tão ideal que eles preconizam. Até por isso os empresários deviam ser sentados perante um tribunal popular para julgamento sumário: culpados por este estado de coisas. E por impedirem o mundo de ser como a esquerda caviar gostaria que fosse.
Regresso à notícia: a infâmia do lucro, impedimento inultrapassável. Que interessa que os utentes do aeroporto possam beneficiar se a gestão passar a ser privada?
