5.9.08

O “sexo ecológico”


Há pontes curiosas que se tecem. Um exemplo: há alguma afinidade entre a igreja católica e os fundamentalistas do ambiente? Até os desatentos ao que se passa no mundo têm a resposta na ponta da língua: nada – condescendamos, ou muito pouco. Daqui provoco uma resposta alternativa: a igreja e os defensores do meio ambiente têm muito em comum. A começar pelo sacerdócio em que convertem a defesa das suas causas. Podem olhar uns para os outros com desconfiança. Podem até nem se rever nas causas que uns e outros batalham. A ponte que entre eles se tece é essa: uns são sacerdotes, os outros gabam-se do ateísmo e, no entanto, comportam-se como fradescos sem remissão.


Vem isto a propósito de uma daquelas notícias que só seria motivo de surpresa se este mundo não fosse uma surpresa em forma redonda. A filial mexicana da Greenpeace publicou os dez mandamentos para o sexo ecológico. A abrir a prédica, os donos da consciência ecológica do mundo fazem saber que "ser verde nunca foi tão erótico". Ora isto é alterar as coordenadas da bússola por que nos regíamos. Estávamos habituados a associar o erotismo a outras cores, cores mais tórridas (o vermelho) ou insinuantes (o preto). Por demanda dos curas do ambiente, aquelas cores cedem passagem ao verde. Se dizem que "ser verde nunca foi tão erótico", pergunto daqui: e ser erótico é ser verde?


Prossegue o decálogo: como é sabido, o problemático aquecimento global obriga a repensar a maneira como usamos a energia. Devemos ter hábitos de poupança de energia. A inestimável Greenpeace dá o seu contributo, quando a espécie humana se entretém em práticas libidinosas: que o devemos fazer de luz apagada. Atiro daqui outra sugestão, sobretudo para os que preferem o acto sem ser às escuras: ou à luz do dia, que nessa altura existe luz natural. Se a coisa é feita pela noite, a sugestão ecológica é, como dizer, o anti-clímax do erotismo. Ou a insinuação do sexo Braille. Suspeito que os amigos do ambiente estão preocupados com outro tipo de saúde – a sanidade mental de quem se entrega aos "jeux de chambre". É que a saúde mental não se compadece com o atentando à estética que por vezes acorda no outro travesseiro. Daí que se entenda que as luzes estejam apagadas. Não é só para o bem do ambiente.


A meio do documento, a Greenpeace volta-se para outra vertente da nossa sensibilidade ambiental: o consumo de água. Há tempos um grupo de alunos disse-me que quem lhes ensina os rudimentos da ecologia se bateu com galhardia pelos banhos não diários. Talvez seja preferível o odor desagradável das hormonas que libertam o suor. Ou as pessoas encharcarem-se em perfumes, vá-se lá saber. A propósito do sexo ecológico, a Greenpeace aconselha as pessoas a tomarem banho aos pares. Poupa-se água – dizem. Parafraseando o comandante da zona marítima do Algarve (em adaptação da frase que o notabilizou), o problema é que se sabe como começa um banho a dois, só não se sabe é como acaba. Outra interrogação para a gente do ambiente deslindar: e se a parelha leva o banho para o entretenimento sexual e se distrai com isso, continuando a água a escorrer do chuveiro, não acaba o consumo de água por ser mais elevado?


Outro dos dez mandamentos: embalagens recicladas para guardar os preservativos "e outros acessórios" depois de utilizados. Primeira perplexidade, uma ingenuidade mal disfarçada: a que "outros acessórios" se referem? Segunda perplexidade, preocupado com uma incoerência em que a Greenpeace é apanhada: se sugerem que os tais "acessórios" nunca sejam fabricados em PVC, e se aconselham que os lubrificantes (a quem os use) nunca sejam de derivados de petróleo, sempre em homenagem a um ambiente mais limpo, como aceitam a utilização de preservativos se eles são feitos de um material que é inimigo do ambiente?


A Greenpeace devia combater a utilização de preservativos. Assim como assim, já é conhecida como uma seita que parece defender um planeta oásis em que o ser humano fosse dele banido. Se fossem proibidos os preservativos, talvez a SIDA acabasse por extinguir a humanidade – se bem entendo, o desiderato destes sacerdotes do ambiente. Por sinal, a prova cabal de como os sacerdotes do ambiente têm tantas afinidades com os sacerdotes católicos: uns e outros contra os preservativos.


Era o que mais faltava que agora viessem estes sacerdotes juntar-se aos sacerdotes do costume a perorar sobre a sexualidade das gentes. Com o meu sexo ninguém se mete.


4.9.08

Ainda há cavalos no centro da cidade


A grande urbe. Onde irrompem altos edifícios que assustam os que têm vertigens das alturas. Onde o ar rarefeito pelos gases de escape dos veículos empresta a nota poluente à atmosfera, tornando-a doentia. Onde, se há florestas, elas são um misto de cimento e tijolos e asfalto. Onde o registo dos tempos testemunha o emagrecimento das zonas verdes, cedendo passo às florestas de betão que sinalizam a urbanização selvática. O lugar urbano demite os vestígios de ruralidade que ainda vêm de trás, hoje apenas memórias registadas em álbuns fotográficos.


E, no entanto, há espasmos de ruralidade a teimar bem no centro da cidade. Ainda ontem, na dobra de uma esquina, uma carroça puxada por um cavalo. Era conduzida pelo lavrador, que trazia no reboque uns altos recipientes de, imagino, lavadura para as reses. Já ia longo o tempo em que não entrava pelos olhos uma ilha de ruralidade. Fez-me recordar os tempos de infância, quando havia zonas da cidade que eram ainda dominadas por largos espaços onde havia agricultura. Durante alguns anos, ao içar a persiana na alvorada, a paisagem que acordava diante dos meus olhos era uma extensa quinta que se espraiava até à foz do rio Douro. Com vacas e ovelhas a pastar, ao lado de um espaço onde se cultivavam vegetais que nunca cheguei a saber o nome. Numa extremidade da propriedade, uma pequena casa onde habitavam os agricultores.


A modernidade que empurrou as pessoas para dentro da cidade tratou de levar aquele vestígio de ruralidade. Anos mais tarde, a alvorada aclarava meia dúzia de prédios altos onde antes esteve o largo campo de pastos e vegetais. E só uma nesga de rio por entre os prédios entretanto levantados. Se continuar a resgatar recordações, por estes dias de Setembro os campos de milho estavam no seu auge e as espigas cresciam no alto das canas mais altas que um adulto. Mesmo ao lado, o campo do lavrador onde as pessoas iam comprar leite acabado de mugir, transportando-o em vasilhas metálicas. Vivia na cidade, na segunda cidade do país, rodeado de ruralidade.


Nesses tempos, os traços urbanos eram uma ilha no meio de tanta ruralidade. Contudo, uma maré urbana estava a subir, imparável. Utilizando a expressão dos especialistas, a "pressão urbanística" tratou do resto. Tratou de inverter as variáveis. Aos poucos, como a maré a encher que molha a areia dantes seca sem que muralha alguma a consiga deter, os campos perderam o seu verde e foram tomados pela parafernália de betão erguido aos céus. O rebanho de ovelhas que vinha pastar no relvado em redor da minha casa, no relvado caótico que a câmara municipal nunca tratava, desapareceu com a urbanização em redor. Nessa altura, havia visitas que ficavam surpreendidas com os vestígios de ruralidade mesmo dentro da grande cidade. Julgavam um sinal refrescante, uma ilha que libertava as amarras da asfixiante e imparável urbanização.


Estes anos todos depois, a estranha sensação de não sentir nostalgia dessa ruralidade que abraçava os prédios onde se passou a infância e a adolescência. O estranho desamparo ao deparar com um vestígio de ruralidade espetado na cêntrica urbe. Há quem se encante com os vastos campos onde o betão está impedido de arremeter. A natureza em estado puro, com o ar imune à fatal poluição. Eu, que nasci e vivi na cidade, e me fui habituando à "pressão urbanística", sinto-me paradoxalmente asfixiado com as vastas paisagens despidas de edifícios. Bem entendido, asfixia apenas na hipótese de um rural lugar acolher a residência, pois continuo enamorado pelas paisagens que emprestam toda a sua rural beleza. Mas apenas como lugares de deambulação turística. Não como lugar para acolher a residência habitual.


O cavalo a empurrar o atrelado conduzido pelo lavrador é um corpo estranho dentro da cidade. Que não pertence à grande cidade. Motivo de estupefacção. Trazendo desconforto a quem se habituou, para o bem ou para o mal nem interessa, a viver rodeado pela floresta de cimento e tijolos e asfalto, à constante míngua dos espaços verdes que iam sendo subtraídos para trazer mais gente para dentro da cidade. E, afinal, as cidades não são feitas para aglomerar milhares e milhares de pessoas? No paradoxo final: parece que as pessoas, na urgente necessidade de habitarem junto umas das outras, são adversárias da natureza.


3.9.08

O lugar ermo


As lamentações não se consomem. Porém, são toda uma consumição. Encerram o transviado passo de algures. Como se houvesse uma encruzilhada que atraiçoou no caminho escolhido. No caminho sem retorno possível. Sobra a lamentação do passo desacertado. A lamentação, um choro sem lágrimas que clama pelo recuo do tempo. Para lá atrás volver e repetir o encontro com a encruzilhada. Saberia então por onde seria acertado o passo. Só que o irrepetível tempo é a coerciva espada a pender sobre a angústia das memórias. Nessa altura, o arrependimento solfeja a aridez do lugar ermo onde o corpo se abandona.


O refúgio é onde as lamentações se hão-de cansar do seu torpor. De tanto arquearem o corpo, de tanto o consumirem num lugar vazio que impede o olhar de alcançar o tempo vindouro, o arrependimento no seu fúnebre desenlace. Até lá, uma demorada peregrinação pela aridez cortante do lugar ermo a que o corpo se remeteu. Um vasto deserto de pedras e poeira, as colinas suaves numa cadência repetitiva. Sem gente viva, nem vegetação, nem sequer o rumor da água em tímidos regatos que viriam romper a aridez asfixiante.


De tão ermo, aquele lugar, como direi, parecia feito à medida do curso aflitivo que a carente lamentação exigia. Do fundo da memória gotejavam todos os traços pintados na paisagem estéril. No fundo, um lugar imaginado. Ou o pretexto para esconder os passos desacertados que inflamam improfícuo arrependimento. Das entranhas da terra parecia pulsar uma ilusória renovação, exactamente como se aqueles tempos que fermentam a lamentação nunca tivessem acontecido. Erro fatal. Só o esquecimento, o metódico esquecimento, varre as recordações indesejadas. Não a lamentação. Essa só consegue manter vivos os passos trocados, mantendo aberta, e purulenta, uma ferida que assim permanece dolorosa.


O imaginado ermal, na sua esterilidade, é um garrote que não deixa o corpo exangue no solo ensanguentado. As forças esvaem-se, porém, à medida que o sangue se esbarra contra a barragem feita garrote. O planalto amuralhado onde o corpo se refugia não é uma ilha perdida, uma ilha exclusiva ao arrependimento próprio. Está marcada algures no mapa. Acessível lugar, possam os outros esquadrinhar o tortuoso caminho até lá. Nessa altura, lamentação alguma conseguirá a remissão dos feitos errados. Os forasteiros, com a sua chegada, serão os feitores dos passos trocados que se queriam sepultados no lugar ermo. Serão os algozes que avivam as memórias não queridas.


São vultos que arrastam os pés por entre o caminho pedregoso, desfiando preces repetidas. Uma ladainha interminável. Um som audível em todos os recantos do lugar ermo. Navalha encravada nos ouvidos que acusa à exaustão a padecida alma que não consegue sobressaltar o seu próprio arrependimento. O lugar ermo na sua lânguida doença que se insinua em lamentação tão inútil. Desafortunadas preces que esbarram na repetição das memórias, nas circulares memórias sempre alimentadas pelo arrependimento que nada cura.


Às voltas, imerso nos seus pesadelos acordados, mergulhado nas dores da carne viva, descobre que o lugar ermo é o prolongamento dos passos desacertados de outrora. Em vez da pedra tumular, em vez de dobrar a página já amarelecida pela espessura do muito tempo volvido, o lugar ermo é a fuga de si mesmo que o devolve às dores atrozes. Não é refúgio. De tão ermo e sombrio, tão esmagadora a aridez que parece tolher a respiração, aquele lugar é uma tela por onde passam, e em câmara lenta, os episódios que menos queria recordar.


Por vezes, teme que o lugar ermo seja viagem só de ida. É quando se interroga se a peregrinação por tão esconso sítio o leva apenas pelo terreno onírico. E a perguntar: se o ensejo para deambular por imaginado lugar não é a sede de devolver a um passado que só se quer olvidado. Então, a impenitente conclusão: de que servem as lamentações?


2.9.08

Obras de santa Engrácia


Costuma-se dizer: os engenheiros são uns ineptos. Não são capazes de planear as obras públicas como deve ser. E não têm mão nos executantes que passam tempo demais a apreciar a cerveja que escorrega pelo gargalo e a disparar piropos de mau gosto às donzelas que passam. O resultado: obras que demoram muito tempo, sempre tempo a mais. Obras mal feitas, ruas escavacadas e depois indevidamente refeitas, ruas remendadas.


A analogia: a vida é uma obra de santa Engrácia? Um projecto, sempre um projecto, ou uma sucessão de projectos sempre em andamento. Os projectos raramente terminados. Quando se pensa que o projecto está à beira do fim, alteia-se um imponderável e o projecto fica adiado, ou em suspenso. Às vezes, é outro projecto que se intercala, tornando mais densa a rede de projectos em que se revê a vida. É como se houvesse um diálogo de surdos entre dois hemisférios que habitam dentro de nós: há o arquitecto que fervilha em tempestade intelectual, ansioso por esboçar novos planos para a vida que recusa a monotonia; e o engenheiro que se inquieta de cada vez que o arquitecto acorda em constante frémito. O segundo, incapaz de acompanhar a vibrante actividade do primeiro. Dos dois a descompasso, um caótico estaleiro onde a confusão se espalha por todo o lado.


Se é isto a vida, uma gigantesca obra de santa Engrácia, como podemos apontar o dedo aos engenheiros civis?


Não há vestígio de autocrítica ao pesar a vida na báscula dos planos que se inclinam para a ausência de resultados. Pois a vida é uma experimentação perene. Podem as pernas preferir as avenidas já conhecidas, evitar pisar terrenos onde pesa a incógnita das paisagens nunca visitadas. Não admito que haja quem só queira teimar nos recantos revisitados à exaustão, por temor ao desconhecido, por demissão da febril imaginação que dá alento a projectos, ou por temer que a ousadia dos muitos projectos acabe por desaguar na frustrante sensação do vazio. Porventura não serão os resultados que contam. É o que se ensaia, mesmo que seja para abandonar ao cabo de pouco tempo. Ainda que, ao olhar para trás, estejam espalhados pelo chão os cadáveres dos muitos planos que não foram além do seu esboço.


Há uma expressão em inglês que captura a essência da vida em permanente estaleiro: "work in progress". Em tradução adaptada, obras em andamento. No caderno de encargos vão sendo anotados mais planos, ou alterando os que já foram lavrados na memória descritiva. Por vezes, a pedra tumular em projectos que deixam de fazer sentido. Sem dramatizar. É o curso da vida, ou os acontecimentos que dependem de outros, ou as vicissitudes, ou os percalços que obrigam a redesenhar planos ou a traçar novas bissectrizes que alteram, e muito, projectos anteriores.


Quando damos conta, parece que a existência se demora nos meandros dos planos que se arquitectam. A árdua incumbência de os passar do papel à prática, quando se convoca o engenheiro que adoça a vida na concretização dos planos, é tarefa que fica adiada quando o imaginativo arquitecto descobre novos projectos. De projecto em projecto, inacabadas as muitas obras que vêm de trás. A certa altura, uma tremenda babilónia resume a existência onde se perde o rasto aos tantos projectos registados. Uma desorganização mental? Ou talvez não, apenas o notável devaneio de salgar a existência com constantes desafios que impedem o adormecimento da vida. Ao de cima, a complexidade da labiríntica teia onde se acumulam ferros em estaleiros que tingem a existência com os coloridos horizontes que se anunciam para um dia vindouro. Não interessa que haja cantos da vida onde os ferros de estaleiros abandonados estejam tomados pela ferrugem, sinal do abandono de projectos a que se perdeu o rasto, ou até sítios onde os ferros retorcidos são a imagem de planos já tão antigos que se perdem na poeira da memória.


Não há grande mal que pese o estigma das obras de santa Engrácia sobre uma vida. Assim como assim, o mal maior é quando se extinguir o fio da vida. Nessa altura, todas as obras se encerram, definitivas. Uma pedra que se abate sobre os projectos. Que deixam de o ser. Obras e de santa Engrácia.


1.9.08

Um retrato da saúde oral dos lusitanos? É na “Liga dos Últimos”


Se há peças que fazem parte da idiossincrasia lusitana, o programa da RTP "Liga dos Últimos" é património genético. Todos os motivos concorrem nesse sentido. Seja qual for o diagnóstico, o futebol domina a paisagem indígena. Apesar da desertificação que vai tomando conta do Portugal profundo, o programa é um espelho da ruralidade que se vai transformando em curiosidade antropológica. Poder-se-ia contrapor que não há ali retrato algum da portugalidade contemporânea: o futebol não é espelho da cultura autóctone; e a maioria da população acantona-se nos grandes centros urbanos e arrabaldes, o que faz do mergulho pelas aldeolas perdidas no interior uma fotografia da portugalidade na sua excepção.


Para o caso, não interessa. O que me interessa é não perder um só episódio da "Liga dos Últimos". Aprende-se muito. Para os amantes da suposta sabedoria popular, a cada semana o programa é um valioso manancial. Um desfile de personagens inenarráveis que parece perder qualquer vestígio de timidez diante da câmara que os filma. É curioso o efeito que a câmara ligada produz sobre os entrevistados: soltam-se, uma verve imparável, o raciocínio febril, os argumentos que se articulam, desconexos porém. Aquelas pessoas sentem um ímpeto irreprimível em brilhar nos escassos minutos de fama que a inesperada exposição mediática garante. Soltam-se. Por vezes, escorregam para o disparate total. Uns querem falar caro e acabam por ser terroristas da gramática. Outros disparam um conjunto de palavras que, na sua forma total, oferecem um raciocínio desarticulado. É a portugalidade profunda. E os vivas à democracia.


Quando sugiro no título deste texto que a "Liga dos Últimos" é um retrato da saúde oral dos lusitanos, há dois sentidos possíveis no diagnóstico. O primeiro acabou de ser revelado. Quando os castiços abrem a boca para falar, os atropelos à língua sucedem-se sem cessar. É a expressão oral pelas ruas da amargura. A imagem do insucesso da política de educação década após década. A prova de que a escola tem sido encarada com suspeição ao longo dos tempos, porventura um empecilho para os miúdos que deviam estar a trabalhar na lavoura desde tenra idade e não a perder tempo precioso a aprender na escola coisas que não interessam tanto assim. Para as gentes comunicarem entre si, quem precisa de ir à escola?


O programa também encerra um retrato da saúde oral, pois quem desfila nas entrevistas é muito desdentada gente. Velhos, de meia-idade e mais novos, a amostra é sintomática de como as gentes se descuidam a tratar da dentição. O que mais se vê são bocas onde os dentes são a excepção e o vazio se locupletou no lugar onde outrora houve dentes. Homens e mulheres – que também as há entrevistadas no programa, para gáudio (ou talvez não…) das feministas de serviço, apaziguadas com um tratamento jornalístico que obedece aos padrões da igualdade de género – mais novos ou mais velhos, muitas bocas e muito desdentadas. Há bocas que trazem um singular dente escondido nas lateralidades. Há gente que ostenta orgulhosa dentição com um rombo à frente. Corajosa gente, que não esconde bocas desdentadas das câmaras que vão no encalço da sua opinião, mesmo quando as desdentadas bocas trazem dificuldades de expressão.


Os burocratas do ministério da saúde deviam prestar atenção à "Liga dos Últimos". Abrir os olhos à profunda portugalidade que desvenda um panorama lamentável da saúde oral das gentes. Nem precisavam de sair da torre de Babel lá no ministério, dar-se ao incómodo de ir para o terreno e espreitar a boca dos habitantes da Lusitânia profunda. Só têm que ver, todas as semanas, a "Liga dos Últimos". Um programa que presta um serviço incalculável aos curadores da saúde oral das gentes.


Ao ver a "Liga dos Últimos", sento-me na poltrona pronto para um programa de humor. De braço dado com uma lição de sociologia. Se calhar há alguma hipocrisia minha: afinal, a abundante gargalhada solta-se com o grotesco que vem lá da portugalidade profunda. No cortejo de aberrações que se expõem à chacota dos espectadores. Não importa. Ninguém os obriga ao papel circense a que se prestam. Assim com o assim, palhaços da companhia há-os em todos os lugares. É o outro serviço que estes anónimos que saltam para as luzes da ribalta prestam a quem se encanta com a "Liga dos Últimos": um valioso contributo para a boa disposição. Longa vida à "Liga dos Últimos"!


29.8.08

Chips, como aos cães (sem desprimor para os canídeos)


Há alturas em que as loas à tecnologia se diluem por causa das intenções dos mandantes. Ou do uso que os mandantes querem dar às tecnologias. A informática e os sistemas de informação, que inovam a uma velocidade vertiginosa, são um sintomático caso de estudo de como algo que é bom pode ser transviado por malévolos caminhos. Acontece quando a gente que governa decide deitar a unha à tecnologia inovadora para manter uma estreita vigilância sobre os governados. Sempre com evasivos pretextos a embelezar um e mais outro acto do Estado policial em que progressivamente vivemos: vendem-nos a ideia de que é em nosso favor que a vigilância se processa. E nós, lorpas, na conversa. Sem percebermos que é tão perigoso passar um cheque em branco a quem pratica entorses graves às liberdades.


Deste governo é preferível abster-me de adjectivações e qualificativos. Para não ser maçador, tantas as vezes que acabo empurrado a escrever sobre o colectivo que governa. Haverá críticas infindáveis que incomodam o convencimento de suas excelências quanto à generosidade e à proficiência da governação. A meu ver, o crime mais lesivo é a irreprimível tentação deste governo ser genuinamente socialista, no que o termo possui de pior quando toca a avaliar o grau de intervencionismo, até onde vai a dose de milagrosa engenharia social.


O recente episódio convoca uma metáfora – a metáfora do concubinato entre o presidente da república e o primeiro-ministro. O primeiro tinha nas mãos uma lei que obriga a instalar um chip nas matrículas dos veículos. Dizem-nos: para combater uma das sementes de criminalidade violenta que, sinal dos tempos modernos, cresce de forma assustadora – o car jacking. É para estarmos sossegados. Lá no governo, um crânio sabedor das maravilhas dos avanços tecnológicos descobriu maneira de acabar com o car jacking. Os meliantes, decepcionados, deixarão este tipo de crime. Porventura arriscarão outra variante de criminalidade, o que há-de fazer queimar alguns neurónios na malta do governo. Decerto apta a descobrir mais uma maneira de impedir as novas expressões de criminalidade que a inventiva mente humana está sempre pronta a experimentar.


Só que a generosidade traz desconfiança no bico. Apetece lembrar o conto infantil do menino e do incêndio que tantas vezes protestou, fazendo cair no logro as pessoas alarmadas. Da única vez que o alarme não era falso, ninguém acudiu à chamada. Pode o governo dar garantias de reserva da privacidade dos proprietários dos automóveis com chip na matrícula, que a desconfiança não se desvanece. É aqui que entra a alegoria do concubinato. No palácio de Belém mora alguém que tem puxado da caneta vermelha por várias vezes, sempre que considera que diplomas do governo vão contra a Constituição. Se calhar tem acertado no alvo errado (porventura, na lei do divórcio). Noutros casos, quando devia ser árbitro dos valores constitucionais – e as liberdades encaixam aqui – prefere não fazer mossa no concubino primeiro-ministro. Teve a oportunidade para mandar para trás esta perigosa lei do chip nas matrículas dos automóveis. Preferiu não transtornar o concubinato. A sacrossanta estabilidade que tanto apregoa. Deve valer mais que os princípios fundamentais – e, repito, as liberdades são-no –, que assim manda às urtigas.


E por que desconfio? Lá de Belém veio uma advertência, o chá que o governo deve tomar: que a lei estabeleça sem rodeios que a instalação do chip não pode servir para invadir a privacidade dos automobilistas. O governo mandou dizer que sim, que vai acautelar os interesses que correspondem às liberdades individuais. Eu não me sossego com esta garantia. Tenho o direito de desconfiar desta gente que já mostrou, por tantas vezes, que não respeita as liberdades. Por mais garantias que sejam dadas, quem assegura que, às escondidas, os funcionários públicos com acesso ao sistema não possam, se quiserem, ficar a saber em que dia, a que horas e por onde tenho andado?


O problema maior está no precedente que se abre com este chip. Os caninos já são obrigados a ser portadores de um chip. O passo seguinte será a aplicação do chip nas matrículas dos automóveis. Que, como se sabe, são conduzidos por pessoas. O incrementalismo leva à interrogação: qual será o pretexto encontrado para incrustar um chip directamente em gente?


Devagar, devagarinho, estes socialistas que mentem às liberdades vão levando a água ao moinho. Policiando as liberdades. Espiolhando vidas. Mal vai a liberdade quando é tutelada por estes mal afamados amantes da "liberdade" – da liberdade com aspas, e das grandes. Sim, gostam da liberdade. Quando são eles a vigiá-la. Gente medonha.


28.8.08

Da crueldade


A cada um a sua tenaz sensibilidade. À medida que amadureço na idade doem-me mais as imagens ou narrações de maus tratos a animais. As gratuitas, na sua sórdida estupidez. Como as que somos educados a entender como necessárias – as experiências médicas e farmacêuticas, ou até as experiências feitas pela indústria cosmética. Sem ser um fundamentalismo ecológico ou qualquer coisa parecida: de uma dor de alma se trata, porventura irrisória aos olhos da maioria. Mas não fundamentalismo. As opções pessoais – o semi-vegetarianismo, a dor pungente quando vejo animais vítimas da crueldade gratuita –, guardo-as para mim. Sem as transformar em campanha de evangelização do próximo. Opções interiorizadas.


Há dias li um número aflitivo: o número de animais em cativeiro sacrificados em, dizem-nos, nome da humanidade. Não guardo na memória o número certo. Só sei dizer que eram demais – muito além do que poderia recear no cenário mais fantasmagórico.


Essa cifra angustiante é o banco dos réus onde se senta a humanidade. Da humanidade que não hesita em brutalizar indefesos animais porque convencionou que é a raça superior entre os seres vivos que habitam o planeta. Manifestações de antropocentrismo como estas deviam envergonhar a raça humana. Essas pessoas que passeiam com jactância a superioridade humana, que tem o seu esteio nos dotes de racionalidade de que somos exclusivos portadores, nem sequer percebem a contradição de termos em que incorrem. Quem assim age vê tombar sobre si o diáfano manto da irracionalidade. Não venham com os argumentos que os usos e costumes vulgarizaram: que é a necessidade de proteger a raça humana, de melhorar a sua forma de viver, nas exigências do combate às doenças que a indústria farmacêutica trava pela humanidade, que se encontra o argumento inconcusso para o sacrifício de animais. O problema é que ao entreabrir-se uma porta, à laia de pretexto, depressa as atrocidades sobre animais inocentes se estendem a outros domínios: a indústria cosmética é o melhor exemplo.


Quando escrevo estas palavras, a memória é assaltada por fotografias de indescritíveis brutalidades infligidas a animais em nome da ciência. Nunca as vi por cá, afinal terra de brandos costumes habituada a olhar para o lado quando sobre ela caem os assuntos que deviam prender a atenção. Essas imagens são divulgadas por associações de defesa dos animais em sítios mais civilizados. Lembro-me delas espalhadas pelos corredores do metropolitano em Londres e nas próprias carruagens. E da reacção espontânea de desviar o olhar das imagens que maceravam os olhos, pungentes imagens. Sem conseguir reprimir o ímpeto masoquista, segundos depois voltava a dirigir o olhar para os autocolantes que gritavam uma criminosa indignidade. Tão enjoado como revoltado, fui vendo do que é capaz a sublime humanidade em seu nome. Dei comigo enjoado. Desta inumana humanidade.


Uma incessante contradição de termos. Quem alimenta estas práticas inverte papéis com a vítima. Como se o algoz fosse a besta, capaz dos actos bárbaros documentados naquelas fotografias de animais dissecados, outros mantidos vivos em pleno sofrimento. O algoz mergulhado na animalesca forma de ser. As suas vítimas, nem sequer com o direito a serem animais, subespécies talvez. A revolta e a náusea que me percorriam cristalizavam uma ideia: a civilização é um conceito muito relativo. Se há quem pisa a dignidade de um animal (que, se não é um ser inanimado, tem essa dignidade) de forma tão gratuita, e se existe um pensamento formatado para condescender com essas atrocidades, mal anda a civilização tão avançada em que vivemos. Retardada humanidade.


Já o disse antes: a cada um a sua sensibilidade, tão variável consoante estados de espírito, educação e tantos outros factores. De dentro da minha sensibilidade brotam interrogações: os carrascos que sacrificam animais por estarem convencidos que é em nome de uma causa nobre, não são visitados por fantasmas quando repousam a cabeça na almofada? Por mais enamorados que estejam da ciência e do seu papel salvífico da humanidade na recorrente investigação que se socorre de experiências cruéis em animais, sentem prazer com os maus tratos prolongados nos animais destinados a padecer nas suas mãos?


Se me dizem que o fazem pelo imperativo maior de corresponder aos desígnios da humanidade, chamo-os covardes. Se têm a pesporrência de me dizer que não sentem remorso, o mínimo remorso que seja, começo a acreditar que a maldade é inata à tão superior raça humana. Talvez por isso ela seja tão superior às outras raças animais. No predicado da maldade gratuita.


27.8.08

As fronteiras da loucura


A complicada cabeça das pessoas. Às vezes, um súbito nevoeiro que entra pela respiração. As pessoas desatam a fazer asneiras, no puro sinal de um incompreensível ensandecimento. Um fogaréu: é sempre num instante que se consome a ilusão da loucura. Quando, apoderados pela demência, todos os poros transpiram uma fatal inimputabilidade.


O que passa pela cabeça de um homem para disparar um revólver à queima-roupa sobre a mulher que é a mãe do seu filho, e logo quando ela trazia ao colo o bebé de quatro meses? No meio da rua, à luz do dia, rodeado de testemunhas que seriam algozes necessários ao chegar a polícia? Inquieta-me, o cenário. Uma angústia atroz ao imaginar o homem com a vista toldada pelo súbito ensandecimento. Ao ponto de arriscar desfazer vidas que são património genético da sua. Que mistérios esconde o cérebro para empurrar uma pessoa para além da fronteira do inteligível, pisando os áridos terrenos onde habita a demência?


De um homem que traz a tiracolo um revólver não se afigura boa têmpera – meu diagnóstico. Porventura errado. Que há ainda quem julgue que a modernidade em que vivemos o não é, modernidade, mas apenas o prolongamento de um qualquer far-west vivenciado pelos olhos diante da tela do cinema ou de ecrãs de televisão. Insisto no diagnóstico: quem é portador de uma pistola enquanto deambula pelas ruas não terá a noção do que é a violência. Do mal que a violência pode fazer noutros, nessa própria pessoa até. Jaz aí um rudimento de loucura à espera de ser detonado? O destempero na corda bamba, a fragilidade silenciosa.


Não sei se existe maldade em estado puro. Nem do mais profundo pessimismo antropológico em que nidifico consigo aceitar que há seres que são maus em sua própria natureza. Não quero fermentar o pessimismo antropológico para além do tamanho que ele já atingiu. Escondo-me detrás de uma explicação, porventura na esperança que um pretexto seja. Não é maldade congénita: é a loucura que invade os que desatam a correr furiosamente pelos labirintos da maldade. É ausente discernimento, uma confusão que faz perder o norte. Desorientação momentânea; mas, num instante desaustinado se descompõem vidas. De quem foi vítima do acto demente e daquele que, por instantes preso à demência, abdica da sua liberdade.


A comprovação que tudo no mundo é desigual, fáceis as destruições do que foi moroso edificar. Uma certa leitura da vida. Uma certa visão do mundo. As cores garridas, as palavras maravilhosas, os gestos impregnados de afecto, uma melodia cheia de encanto – tudo na sua efémera condição. A fragilidade de poderem desmoronar-se com um esforço de nada. É a desigualdade entre o alento construtivo e o impulso doentiamente destrutivo. Nas energias gastas, tempo a fio, a compor algo. Num instante tresloucado, um singular gesto, um gesto possuído por uma dantesca simplicidade, destrona a combustão do que fora edificado. Lá no fundo, uma luz que se divisa: é o próprio tempo, voraz na concepção demorada da construção que esbarra no lapso de uns segundos, uma tempestade colérica que chega e tudo arrasa.


Não sei: se há loucura por todos os lados, para onde quer que olhemos, para onde quer que vamos. O grito aflitivo da demência, furiosamente varrendo da existência o que demorara a ser erguido, como se essa demência tivesse a energia concentrada de uma bomba de neutrões. É a larga mesa envenenada que atraiçoa os que andavam pelos carris da quietude. O pior é que essas mesas envenenadas são como traiçoeiros cogumelos apanhados do bosque por um leigo: só depois de se provar da cicuta de que são feitos é que revolve a loucura exponencial.


A loucura deve ser um imenso quarto branco. Tão imenso, e tão branco, que não tem horizonte. Aos que escorregam para as movediças areias da demência, um só destino: a consumição da alvura do quarto imenso. Onde nem o resgatado discernimento é salvação para o caminho de retorno. Nessa altura, o juízo retomado é uma dor lancinante: na dúvida de saber se habita no terreno do juízo, ou se a fronteira da loucura foi, e sem expiação, dobrada.


26.8.08

Igreja licenciosa, ou o concurso miss freira Itália


Há um teólogo italiano que se cansou do cheiro a bafio nas sacristias. Quer dizer adeus à taciturna igreja que se envergonha de tudo que ressoe a sexualidade. Como se sabe, quem entrega a vida a deus prescinde da sua sexualidade (pedem-nos para acreditar). Daí que não seja estranha a moral proibicionista, diria, castradora, que a igreja quer impor aos crentes (porque acha que pode) e aos ímpios (porque acha que deve, convicta que um dia os trará para o bom rebanho). Que interessa que a igreja católica se passeie, vetusta e anacrónica, pelas avenidas da contemporaneidade? Dirão, do alto da sua incontestável sapiência – aliás abençoada pelo seu deus – que é a sociedade que tem andado mal. O teólogo italiano contesta os obtusos dogmas católicos: propõe-se a organizar um concurso para eleger a mais bela freirinha. A miss freira Itália.


O teólogo de mente aberta fixou as regras do jogo: "ter entre 18 e 40 anos, ser freira ou noviça e enviar uma fotografia "bonita e expressiva, que mostre a beleza [da candidata] tanto no plano estético como no plano espiritual"". Sei o que é uma fotografia bonita e expressiva que seja mostruário da beleza estética. Já fico mais perplexo com o conceito de beleza espiritual. E mais ainda com a possibilidade da beleza espiritual ser desnudada através de uma fotografia. Pois não somos instruídos que essa é a beleza interior, e que fotografia alguma a consegue revelar? Porventura não será o retrato das irmãs espalhadas pelos conventos italianos a decifrar essa importante parcela da futura miss freira Itália (já agora: qual é a ponderação para a votação final?). À fotografia enviada terão as freirinhas que adicionar "um pequeno relato das suas vidas e das suas personalidades".


Portanto, desenganem-se os que têm fantasias com freiras nuas. O mais que poderão ver no sítio criado para o concurso (www.padreantoniorungi.myblog.it) são caras larocas, com ou sem hábito é detalhe não informado pelo organizador do criativo evento. Teremos direito a retratos de rostos insinuando sensualidade? Haverá freiras capazes de ultrapassar a castradora timidez, libertando-se para fotografias com um olhar furtivo que traz a pulga atrás da orelha? A mais improvável devassidão acolhida numa tão inocente fotografia?


Os dogmáticos, decerto, acenando a cabeça em tom reprovador. "Brincar com coisas sérias, isso não se faz", dirão. As corajosas noviças e freiras convidadas a este desaforo. E ainda por cima um desaforo que parte de alguém que está dentro da igreja. Se viesse de ateus, daqueles que se entretêm a fazer do anticlericalismo um modo de vida, nem valia a pena pestanejar diante da afronta. Os dogmáticos, tementes pela sanidade mental das freiras e noviças quando tomarem conhecimento do desafio que lhes foi lançado. Quem sabe se isso não vai despertar um apetite reprimido pelo voto de castidade a que as freirinhas se entregaram. Há remédio bastante para tamanho malefício: para tão inopinada ideia, a vergastada da canónica censura. Para repor a normalidade. E asfixiar inoportunos diabinhos libidinosos que estivessem a acossar a consciência das monjas. A castração não tem retorno.


Talvez por isso tenha confirmado, entretanto, que o dito blogue que ia arquivar as fotografias das freiras candidatas já não consta. A Santa Sé deu instruções ao teólogo para não blasfemar? É que a igreja católica só tem respeitabilidade se for soturna, tão empalidecida com o negrume dos hábitos que os sacerdotes trajam. E assim se expõe à chacota: tivesse rins, dando a sua bênção a tão criativa ideia – ou, pelo menos, assobiando para o lado sem a reprovar com a habitual veemência – e a cúpula do Vaticano não estaria a enviar sinais de que dá tanta importância ao (parece, abortado) concurso da miss freira Itália.


O que me leva a pensar que haverá padres, bispos, arcebispos, cardeais e por aí fora que não terão querido suportar a provação. O desafio de meterem debaixo da cama, à socapa, um calendário que mostra, para cada mês do ano, uma cara das que seriam as felizes contempladas entre a irmandade que se candidatara a miss freira. Ou isso, ou tementes que os abrutalhados camionistas se enamorassem pelas noviças e menos noviças trazidas para as luzes da ribalta, deitando ao lixo os calendários onde abundam avantajados corpos femininos em plena nudez. As inocentes irmãzinhas passariam a ser amanhadas na alarvidade de camionistas e afins.


No Vaticano, os tormentos da cúria não têm fim. Até parece que o mundo inteiro conspira, e vinte e quatro horas por dia, contra a igreja.


25.8.08

João Carlos Espada andava esquecido


É verdade que deixei de ter paciência para ler o Expresso. E para ler João Carlos Espada. Ou vice-versa, para o caso nem interessa. Este fim-de-semana cheguei à que continua a ser a sua crónica semanal no Expresso, onde destila verdades insofismáveis que envergonham um liberal de boa cepa. Coisa que o estudioso da teoria política não é, por mais que faça de si o embaixador nacional do liberalismo. Quem vem de onde Espada veio – ideologicamente falando – só pode, e quando muito, ser um liberal convertido. Neste caso, com a mácula dos calhamaços de extrema-esquerda que, devotamente, devorou – literatura que está nos antípodas do liberalismo de que Espada pensa ser expoente máximo, invocando amizades com Popper e Dahrendorf e Isiah Berlin, como se esses cartões-de-visita o transformassem no cardeal do liberalismo em lusas terras.


Valha a verdade – e agora viro-me para o tema que traz hoje à escrita – que todos temos o direito a provocar gargalhadas nos outros. Mesmo quando essa não é a nossa intenção. E que a ninguém seja recusado o direito de pertencer a uma tribo particular e de se orgulhar dessa pertença, trazendo a público escritos encomiásticos dessa pertença. Espada faz gala da sua condição de sócio de um clube de gentlemen em Inglaterra. Depois exporta para esta terra de lúcidos machos latinos a sua experiência ao mesmo tempo snob e descontextualizada. Espada devia ser inglês. Mas não há como renegar a terra onde se nasceu. E mesmo que ela seja renegada, através de requerimento que convoca a apátrida condição, o lugar onde a pessoa nasceu fica registado para todo o sempre. A menos que um deslize estalinista – os fundilhos da memória… – seja o apetitoso pretexto para refazer a biografia.


A provar que Agosto é um mês em que as pessoas, estando de férias, se dedicam ao supérfluo, até o académico que agora também é consultor do presidente da república não consegue reprimir os devaneios que semeiam a boa disposição no leitor. Nesta semana perorou sobre o dressing code no dito clube de cavalheiros londrino que frequenta. É o malfadado calor que convida a deixar a obrigatória gravata em casa, para o corpo dos cavalheiros não suar em estopinhas e um odor desagradável tomar conta de ambiente tão selecto. No fim da croniqueta de Espada, os leitores saem doutorados em clubes de gentlemen mais as regras sobre o código de vestuário.


Como resistir às deliciosas palavras de Espada? Numa entrada de rompante, aprendemos que "(u)m dos mais difíceis temas de Verão é o da influência da temperatura no código de vestuário". Qual guerra na Geórgia, ou a crise económica internacional que traz a reboque a recessão, ou a desaustinada criminalidade violenta que monopoliza noticiários, ou a medíocre prestação dos atletas olímpicos mais a tempestade que isso causou, uma espécie de introspecção da nacionalidade? Depois, o paladino de um certo British way of life junto da boçal portugalidade desfia as condições exigentes em que os fleumáticos lordes são autorizados a frequentar o clube desprovidos de gravata e, nos raros dias de canícula nas ilhas britânicas, até sem o bom amigo casaco. Um acto de generosidade que a tradição admite. Mas é aí que a generosidade encontra os seus limites. Para que não haja dúvidas, ou tentações para estender a excepção, as regras são claras: "nestas excepcionais ocasiões, os cavalheiros sem casaco devem usar camisas de manga comprida abotoadas no punho. E (…) «T-shirts e outras camisas sem colarinho, mesmo quando usadas com casaco, nunca são permitidas no Clube»".


Enganei-me quando pensava que o risível estava no seu auge. Espada conta que decidiu promover um "inquérito" para tomar o pulso às razões do dressing code. Tropeçou no barman grego radicado em Londres há longos anos. À pergunta "por que razão devem os 'gentlemen's clubs' dar tanta importância ao código de vestuário?", o bom homem teve uma resposta de uma simplicidade desarmante: "(p)orque, caso contrário deixariam de ser 'gentlemen's clubs'". A outra inquirida foi uma esbelta búlgara que trabalha na recepção do clube. A menina, apesar de estar há poucos meses em Inglaterra, já tinha a lábia toda: "(é) claro, disse-me ela, trata-se de um 'gentlemen's club'".


Moral da história: não se questionam as tradições. Como quem diz, "sim, porque sim". A isto se chama racionalidade em ponto de rebuçado. E mais: o que interessa ao leitor do Expresso o dressing code dessa coisa para nós tão extravagante como deslocada como são os ingleses clubes de cavalheiros? Onde quer Espada chegar? Que a boçal portugalidade devia aprender com este British way of life? Ou é apenas Espada a olhar-se ao espelho e a gostar muito do que vê?


A risível narração do consultor político do inquilino de Belém resgatou-me da sua ausência. Estes pedaços que Espada exporta para a lusitânia são sempre profilácticos: rir, e muito, nunca fez mal a ninguém. Descansem, todavia, alguns dos que mais satirizam a quadratura espadiana: ele há outras tribos que também têm o seu particular dressing code. E não é menos folclórico. Honra lhes seja feita: ao menos não vêm para as páginas dos jornais com um arrazoado de como fazer rastas no cabelo e envergar larguíssimos macacões de ganga, sem esquecer, até no Verão, o indispensável lenço palestiniano.


22.8.08

O mar das patranhas


Há mentirosos compulsivos. Vendedores de banha da cobra. A suprema desfaçatez de desdizer o que foi dito lá atrás e que ficou registado nos arquivos, teimando em distorcer a realidade. São mestres maiores em fazer da mentira verdade e da verdade mentira. Vivem de uma estranha cumplicidade com quem representam: mentem para cativar a simpatia. Paradoxalmente, os que levam a palma no campeonato do engodo são os que vingam nas preferências dos que são enganados. Dir-se-á: são as regras do jogo. E, se o povo escolheu os que tanto lhe mentem, que ninguém ouse levantar um dedo contra a democrática e inquestionável sentença das urnas.


Provavelmente, o povo nem chega a perceber o chorrilho de patranhas que engole a cada dia. Provavelmente, inebriado pelo embrulho fantasioso com que lhe é servida a realidade pelos prestidigitadores de serviço, aplaude-os ainda que seja destinatário da fileira de lérias servidas numa deslumbrante vestimenta. Aos viandeiros da falácia instalada, a distinção pelo mérito da mentira: a donairosa vitória com o selo do eleitorado. Nisto, fico convencido que a política é a arte de tisnar a realidade, mascará-la com os oportunos enfeites que transformam um deserto num faustoso oásis. Esta urgência em celebrar a mentira, só para glorificar feitos que o não são, só para somar pontos na contabilidade eleitoral, é o perigoso caminho da decepção da democracia. Os seus fautores, esses, ineptos para a função. E, ademais, verdugos da democracia.


Os exemplos, uns atrás dos outros – o altar das patranhas à exaustão, tanta a insistência nelas que se faz crer que a mentira se transforma em verdade. É a miragem de cento e cinquenta mil empregos que iriam ser criados, por artes de magia, durante esta legislatura. Aproximando-se o ano de eleições, ao menos seja feita honra ao maestro do bando de mentirosos que resgatou a promessa eleitoral: há dias veio defender a dama, anunciando que só faltavam uns escassos milhares de empregos para atingir a meta. Para sua grande infelicidade, há quem não goste do estilo infalivelmente mentiroso e despedace a verdade das suas mentiras. Logo a seguir houve demonstrações cabais da clamorosa mentira que nos é pespegada. Nas elucidativas palavras de Santana Castilho (no Público de anteontem):


"Reaparecendo na ribalta política, Sócrates tratou os números com a desenvoltura que tristemente lhe conhecemos, como se fôssemos todos estúpidos ou distraídos. (...) Disse, com o seu habitual optimismo de plástico, que, desde Março de 2005, foram criados 133.000 postos de trabalho. Mas não disse quantos se perderam. É preciso topete para afirmar publicamente que está quase cumprido o objectivo de originar 150.000 novos empregos até ao fim da legislatura, quando os desempregados são 7,3 por cento da população. (...) Quando Sócrates tomou posse, em 12 de Março de 2005, 413.000 portugueses estavam desempregados. No fim do segundo trimestre de 2008, esse número tinha descido para 409.900. Durante a legislatura foram, portanto, recuperados 3100 postos de trabalhos perdidos. Para cumprir o objectivo faltam-lhe recuperar 146.900. Repito: é preciso topete para dizer que está a 17.000 do objectivo".


Outro exemplo: o celebrado computador portátil Magalhães, apresentado como pedrada no charco, um marco mundial. Logo a seguir, um mar de gente veio provar, e com provas irrefutáveis, que o "Magalhães" já é produzido, e desde há algum tempo, noutros países. Claro que nesses lugares não se chama "Magalhães". Para abrilhantar mais um episódio histórico – e tantos são neste consulado que um dia destes é a própria história que se reinventa pela mão do timoneiro – até o presidente da Intel foi convidado para a patranha. Aposto que ninguém lhe contou os pormenores da encenação propagandística. E nem o discurso do relações públicas da portugalidade boçal, à boa maneira dos gurus do marketing que se passeiam descontraidamente de um lado para o outro do palco, terá sido traduzido para inglês. Só para que o presidente da Intel não desse conta do logro para que foi convidado como actor principal involuntário.


O exemplo derradeiro: quem escuta o timoneiro e perorar sobre o estado da economia, há-de ficar convencido que somos uma lança espetada no largo terreno incendiado pela crise internacional. O cantinho nos fundilhos da Europa terá, no optimista diagnóstico de sua excelência, escapado ao algoz da crise. E, no entanto, o seu grande amigo presidente da Venezuela confidenciou lá na sua terra que o amigo lusitano lhe terá dito que a economia portuguesa está estagnada. Donde, só resta perguntar: quem está a mentir?


Mas neste reino apalhaçado e inerte, continua tudo feliz e contente, todos banhados no mar de patranhas em que somos convidados a estadia demorada. Esse mar que tem o condão de nos anestesiar, incapazes depois para discernir a mentira. É neste jogo que me recuso a participar. Pois se a mentira é ingrediente congénito a todos os actores, venham eles de que quadrantes vierem, recuso-me com a minha anuência a caucionar patranhas sucessivas. Para não ficar refém do estigma da mentira como matriz da acção política.


21.8.08

Quando a muita erudição nos põe a falar com as paredes


Um debate: quem faz ciência, como a deve comunicar? Embebida de formalismo, decerto, pois há regras mínimas a respeitar, uma impressão digital da ciência honesta. Mas como deve ser a escrita que comunica os resultados da investigação científica? Arrevesada, inexpugnável ao leigo que se aventura pelos meandros de uma qualquer área que não domina?


Vulgarizou-se o entendimento que as comunidades científicas comunicam em círculo fechado. São um cluster encerrado sobre si mesmo, num hermetismo semântico que põe o seu discurso no domínio da inteligibilidade a quem não faça parte dessa comunidade particular. Com um preço que agora se discute: ciência que se coloca nos píncaros da sabedoria, só que uma ciência tão distante, tão longe do alcance da compreensão geral, que se expõe às fatais interrogações: e esta ciência serve para quê? E para quem? A resposta à segunda pergunta abre o caminho à primeira: parece que há muita ciência feita para auto-comprazimento pessoal dos investigadores, que palmilham domínios que parecem inúteis ao cidadão comum. Logo, uma ciência que se arrisca a levar com o rótulo da inutilidade.


Por dever profissional, leio bastante produção científica. Em grande parte dos casos, textos que mostram erudição, numa escrita que tem tanto de elegância formal como de ininteligibilidade para a pessoa comum. Também é verdade que essa ciência mais erudita não se destina a ser consumida pela pessoa comum, porventura nem sequer pelo autodidacta que entra por terrenos que lhe são desconhecidos e o faz por curiosidade de conhecimento. Daí que os ortodoxos da ciência, os cultores do conservadorismo na maneira de fazer ciência, defendam a sua dama: as comunidades científicas comunicam para dentro, não para o exterior. Exige-se-lhes que respeitem os cânones a que a ciência obedece. Desses cânones faz parte o discurso elaborado, a semântica hermética. Algumas vezes, uma ostentação de erudição que roça a vaidade intelectual. É como se através do texto os leitores sejam esmagados pela enorme erudição dos investigadores que são seus autores. Um gesto irreprimível, o de mostrar tão elevada sabedoria. A erudição como termómetro intelectual e, por vezes, cultural também. Ou apenas uma vaidade fátua.


O debate aqueceu com a deriva de alguns académicos que ousaram romper com a monotonia instalada e produziram literatura que procura fazer chegar a sua ciência ao público, ao público não especializado. Descerram as janelas do enclausuramento científico, divulgando a ciência a quem queira entender os seus rudimentos. Considero o desafio maior que um académico tem pela frente. É que comunicar entre pares, usando o mesmo código semântico de sempre, com as fórmulas por demais vulgarizadas, faz parte da sua rotina. Ficamos formatados para a linguagem hermética que só os pares entendem. Eis porque a divulgação da ciência ao público é o repto mais exigente: porque limita o académico a um discurso simples, escorreito, numa articulação de ideias que traduza clareza. Ou a divulgação esbarra na falta de bases dos leigos.


O problema é que a simplicidade é uma miragem. Talvez por estarmos habituados à escrita hermética, a sermos obrigados a fazer prova de vida da nossa tão elevada erudição, quando se ensaia a simplicidade da escrita fracassa a maior parte das tentativas. Contra mim fala esta impressão. Quando revejo a produção científica passada, dou com textos que não pertencem à inteligibilidade da pessoa comum. Textos que hoje não escrevia dessa forma. Acontece com a maior parte dos investigadores: quanto mais novos, maior a presunção intelectual que os leva a exagerar na ostentação de erudição. Como se fosse necessário impressionar os pares com insígnia académica mais elevada. Descontados alguns casos de dinossauros da academia que teimam em prolongar a assombrosa erudição vida fora, o amadurecimento enxuga os textos que resultam da produção científica. Simplificam-se, depuram-se. De tal maneira que o desafio maior consiste em emprestar simplicidade à ciência que se revela nos textos produzidos.


O esforço de simplicidade corresponde à democratização da ciência? E, por aí, passará alguma demagogia – pois que a simplificação semântica pode-se traduzir num caminho de sentido único se houver poucos leigos interessados em tomar contacto com essa ciência? Responder sim ou não é um detalhe insignificante. O que importa é despir a ciência do seu hermetismo, diluir os vestígios de erudição que apenas conseguem roubar espaço ao pragmatismo da ciência, desviando as atenções dos leitores para exibições inúteis de sapiência.


O que é frustrante é perceber, ao terminar um texto, que raras vezes se atinge a desejada simplicidade. Eis o paradoxo maior: fácil é escrever difícil, difícil é escrever fácil.


20.8.08

Um governo de muita presunção (considerar-se uma “direcção comercial”) e água benta (“de luxo”) – eu diria: uma direcção comercial de lixo


As maravilhas da propaganda. Os spin doctors em acção, tomando conta da agenda, fazendo dos políticos marionetas perfeitas. Limitam-se a ser manejados pelos consultores. Depositam uma confiança cega nos feitores da propaganda, que subiram a esse púlpito depois de terem começado por ser meros fazedores de imagem. Nestes tempos em que tanto se puxa lustro à cidadania, à participação cívica das gentes no meio a que pertencem, esta maneira de fazer política é a negação da cidadania. Uma cidadania que faça jus ao nome não é composta por indivíduos acéfalos, alienados, convidados a olhar para o acessório – a estratégia ideal para afastar os olhares do essencial. Se os olhos se deitassem sobre o essencial e se as gentes não fossem anestesiadas com os truques da propaganda, mal andariam os políticos que sobrevivem à custa destes estratagemas mesquinhos.


Este governo apresenta-se como uma "direcção comercial de luxo". O auto-panegírico merece dissecação. Primeiro, o contexto. A propaganda enaltece o que o governo acha ser uma meritória atracção de investimentos estrangeiros. Os manuais de economia explicam ao detalhe o círculo virtuoso do investimento estrangeiro. Os amadores que nos governam não se dão ao trabalho de desempenhar o papel pedagógico que se lhes exige: em vez de explicarem aos governados o bem que o investimento estrangeiro faz à economia nacional, preferem colocar-se em bicos dos pés e fazer gala dos seus especiais atributos para captar investimentos estrangeiros. Depois confundem funções: desde quando governar um país se assemelha a dirigir (e comercialmente) uma empresa?


Entendo a urticária que a espalhafatosa comparação provoca nas esquerdas mais à esquerda. Governar um país é actividade sagrada. Não merece confusão com a hedionda gestão empresarial. Onde já se viu misturar o sector público com o sector privado? Para mais, dar o flanco da governação ao que pior transpira do sector privado, tão conhecidas as acções lesivas da boa ética constantemente praticadas pelos empresários, essa gente que, sem excepção, não tem escrúpulos. Do lado contrário, bebendo inspiração em princípios diametralmente opostos, quero ser porta-voz do mesmo tipo de indignação. Mas uma indignação com outra matriz: era o que faltava a governação ter semelhanças com a gestão empresarial. Desde quando se confunde amadorismo com profissionalismo? (Ponha-se aqui um "respectivamente", para fazer a correspondência entre as duas frases anteriores.)


É por isso que a ideia do governo como direcção comercial (já me atiro ao auto-qualificativo "de luxo") é quase a cereja no topo do bolo confeccionado por este governo, onde o ingrediente principal é a presunção e o tom encomiástico que usa para provar o seu desempenho. Olho para a gente que nos governa e não consigo deixar de os avaliar como amadores. Ora, uma empresa não sobrevive com uma direcção comercial de amadores. Daí que esta imagem só possa ser uma metáfora para enganar os governados. Mesmo que se aceitasse a ideia, é um tiro no pé: se uma empresa é um corpo feito de várias partes, desde quando a direcção comercial é o cérebro da empresa? É um instrumento, não a parte mais nobre que concebe a estratégia e imprime o rumo da empresa. Quando um governo se vê a si mesmo como direcção comercial, está tudo dito quanto ao erro de perspectiva. Ou é erro de perspectiva, ou simples amadorismo. Nesta altura, já nem consigo perceber o que será pior.


E depois há a muita água benta com que este governo se unge. Como se fosse o sacerdote que faz a unção a si mesmo, coisa tão impensável. É que não chegava sermos informados que o governo se acha uma direcção comercial. Ainda nos rimos com a patética ideia quando, sem fôlego para recuperar a respiração, somos esmagados com o adjectivo que auto-qualifica o governo (perdão, a direcção comercial): "de luxo". Sempre convivi mal com a gabarolice. A falta de modéstia apodera-se dos frágeis, dos inseguros que precisam de se fazer passar por aquilo que não são. Estas auto-avaliações esbofeteadas à cara de quem é governado dizem muito da fraca têmpera de quem as faz.


O problema é que esta gente parece lidar mal com o contraditório, gente que está estruturalmente tomada por um vírus salazarento que teima em adejar sobre a sociedade que somos. O mal deles é a sociedade aberta em que vivem e que tentam condicionar com estes imperativos categóricos que são, quando muito, ditirambos. Quem se auto-avalia com esta presunção não pode fechar a porta ao diagnóstico dos outros. É que os outros são os destinatários do que esta direcção comercial anda a fazer. É por isso que há ali uma letra trocada no adjectivo que qualifica o desempenho desta direcção comercial. No "luxo", o "u" surge onde devia aparecer um "i".



19.8.08

Olimpíadas: para provar a mediocridade nacional


Parto da interrogação do texto de ontem: os jogos olímpicos são uma competição entre países? Como sei que nisto remo contra a maré – eu convencido que se trata de uma competição entre atletas que se procuram superar para atingir o Olimpo; a maioria segura que são os países que competem entre si, procurando escalar a tabela das medalhas na sofrível imagem de brio e garbo pátrios – vou, por um momento, saltar para a barca onde habita a maioria. Dou por assente, por conveniência, que são as nações que rivalizam em cada olimpíada.

O que é a portugalidade a cada olimpíada que passa? Uma extensa comitiva de atletas e, no regresso, um par de medalhas. De quatro em quatro anos, no rescaldo de uns jogos olímpicos, aquelas pessoas que medem o pulso à têmpera desportiva dos patrícios olímpicos têm escassos motivos de orgulho. Como lembrava ontem, na tabela que ordena as medalhas "conquistadas pelos países" há muitos países do terceiro mundo que nos passam a perna. Será sintomático que no regresso dos atletas, a pátria celebre ruidosamente os feitos dos atletas que ganharam medalhas. Os outros ficam esquecidos. Não digo que esteja errado: os primeiros é que merecem os aplausos pelo feito. Afinal, destacam-se entre a mediocridade geral. Só que também digo que a festiva pátria não deve esquecer os que foram às olimpíadas apenas para participar.


Estes são os atletas que saem da lusitana terra cheios de contentamento por irem participar. Alguns enfatizam: terem feito os mínimos que dão acesso aos jogos olímpicos é a sua medalha particular. Lamentavelmente, estes feitos pessoais não entram na contabilidade que ordena os países na compita global. Ao povo, nesta altura muito exigente mas apenas com os outros – com os atletas olímpicos que julgam em representação do "país" – pouco interessam os feitos pessoais dos atletas que não passam da cepa torta da competição olímpica. E como cresce a mentalização cidadã para o destino dos impostos pagos, recrudesce a incompreensão pela numerosa comitiva que vai até aos jogos olímpicos à custa do erário público só para fazer o papel de figurante. Para que esses atletas, que não passam da mediania olímpica, sintam brio pessoal por terem sido figurantes nuns jogos olímpicos.


Atento às notícias, noto que manhã após manhã os jornalistas transmitem com pesar as más novas que não exultam o brio pátrio. Os atletas lusos ficam-se pelas eliminatórias. Os atletas lusos, quando chegam às finais, terminam mais próximo do último classificado (quando não marcam lugar na derradeira posição). Outros desistem, vergados pela responsabilidade da participação nos jogos olímpicos. Há até atletas que fizeram check in para uma medalha e que não conseguiram suportar o peso da responsabilidade, baqueando de quatro e nem sequer chegando às finais. Ou o ridículo das desculpas de mau pagador para lamentáveis desempenhos: um atleta tomado pelo pânico quando entrou no estádio repleto de público a confessar que as pernas fraquejaram, uma praticante de judo a queixar-se da parcialidade dos árbitros, um atirador do peso que, com ar que tinha tanto de folgazão como de imbecil, revelou que de manhã gosta mais de ficar na cama.


O que interessa é que nas olimpíadas os atletas competem entre si. O que conta, no final, são os resultados – e não as desculpas, os pretextos, os súbitos bloqueios psicológicos. Acho sintomático o bloqueio psicológico que parece amaldiçoar muitos atletas lusitanos. É que os de outros países estão à altura das responsabilidades. Será sinal da fraqueza de espírito, a imagem de um povo afogado na sua mediocridade congénita? Fracos de espírito, campeões na demissão das responsabilidades pessoais que repousam sobre os nossos ombros. Na nossa demissão, deixamos os louros para os outros.


Uma outra perspectiva do problema, um diagnóstico menos cruel. É errada a crucificação dos atletas que fracassam e depois metem os pés pelas mãos no relambório das desculpas de mau pagador. Como é errado admoestar os atletas que navegam pelas posições últimas de cada modalidade, ou os que nem sequer ultrapassam as eliminatórias. Em cada competição há um vencedor, mais dois que vão ao pódio e regressam com medalhas ao peito. E depois há os figurantes. Não há olimpíadas sem figurantes. Que ninguém dispute a máxima: dos fracos não reza a história. Sem eles, a glória dos vencedores perde sentido. Honra, pois, aos figurantes. A maneira óbvia de atenuar a mediocridade pátria que se passeia a cada olimpíada.


18.8.08

Os jogos olímpicos, uma competição de países?


Devo ser ingénuo, mas não percebo a lógica dos jogos olímpicos. Ao fim de cada dia, entra-se-nos pelos olhos uma tabela que ordena os países pelo número de medalhas conquistadas. Como se fosse uma pugna entre países. Para se saber, no final dos jogos, qual a nação mais proficiente nos feitos desportivos. A perfídia das nações, e a malvadez dos nacionalismos, toma conta das olimpíadas. Uma aleivosia para os feitos dos atletas. Um esforço quase sobre-humano, para no fim de contas a medalha que arrecadam pertencer ao país que os viu nascer. O tamanho de uma enorme ingratidão.


Repito: devo ser ingénuo. Achava que nos jogos olímpicos competem as façanhas dos atletas. As façanhas individuais, quando o desporto é feito do desempenho de um só atleta, com as capacidades maximizadas pelo treinador. Ou os feitos colectivos, quando a medalha ostentada à lapela resultou do trabalho em equipa. Ainda assim, o somatório de feitos individuais. Donde, a interrogação: quem pode, em honestidade, julgar que uma medalha seja do país A se quem suou por ela foi um atleta, ou uma equipa de atletas, que por acaso nasceu (ou não…) no país em causa?


Confesso: o tema estava agendado há algum tempo. Só estava à espera que um dos imensos atletas olímpicos lusos subisse ao pódio em garbosa ostentação de uma medalha. Após muitas promessas que terminaram em amargas decepções, há um par de horas a nação pôde exultar de contentamento – aquela parte da nação que retardou o sono madrugada dentro, que a outra parte só quando acordar vai ser presenteada com a boa nova: a rapariga do triatlo chamou a si a medalha de prata. O dia vai correr bem. Assim como assim, a portugalidade cheia de orgulho. A pátria já não vai sair de Pequim virgem de medalhas. Por acaso nem interessa que haja tantos países, daqueles que costumam aparecer na angustiada rua do terceiro mundo, que fiquem à frente na tabela final das medalhas. Nessa altura, as mágoas varridas para segundas núpcias para não toldarem o faustoso garbo de umas escassas medalhas que os lusos atletas hão-de mostrar, para orgulho pátrio, à chegada ao aeroporto de Lisboa.


No entanto, continuo sem perceber porque se diz, no final de cada olimpíada, que "Portugal conquistou tantas medalhas". No triatlo, por acaso foram os não sei quantos milhões de lusitanos espalhados pelo mundo que carregaram Vanessa Fernandes na prova de natação? Foram eles que imprimiram o ritmo na prova de ciclismo? Foram eles que a empurraram rumo à medalha de prata na prova de atletismo? Curiosa ficção, esta: de vez em quando, cardiologistas saltam para a praça pública denunciando um povo sedentário, carente de exercício físico que explica por que tanta gente morre de doenças cardiovasculares. Contudo, somos atletas de sofá, partilhando com os verdadeiros atletas os seus feitos olímpicos. Para a desfaçatez ser total, demitimo-nos da condição de atletas de sofá quando os patrícios que prometiam medalhas saldam a participação olímpica com um decepcionante vazio. Nessa altura conseguimos ser incisivos críticos dos que fracassaram. Somos incapazes de perceber que a ajuda virtual que a nação inteira deu ao atleta fracassado foi insuficiente.


É pena que os jogos olímpicos não valorizem os feitos individuais dos heróis do certame – os que são mais fortes, os que chegam mais longe, os que chegam mais alto. Quando a sagração destes heróis tem lugar, é só para glorificar os heróis que se distinguem entre o escol: aqueles que regressaram cobertos de ouro. Fora disso, os olímpicos são tratados como se fossem uma competição entre países. Servem para ensaboar o ego pátrio. Um terrível erro de perspectiva. Aplicando ao caso de Vanessa Fernandes: só pelo azar de ter nascido portuguesa, é um abuso considerar que a medalha que ganhou pertence à lusitana pátria. É um insulto às privações que passou para chegar ao estatuto de atleta de alta competição.


Dirão alguns, em réplica: é o erário público que paga a deslocação da comitiva olímpica; logo, as medalhas com que regressarem são património da portugalidade. Outro erro de análise: o esforço de um atleta que resulta num lugar medalhado não pode ser a compensação pelo investimento do erário público. Como se fosse possível comprar um produto chamado desempenho desportivo. Por acaso os atletas são uma mercadoria com preço – o preço do investimento às custas do erário público?


O "espírito olímpico" é uma farsa. Não são as glórias individuais, os feitos dos atletas, que são exaltados. O que interessa é a vã glória das nações que se digladiam na tabela que contabiliza as medalhas. Este espírito olímpico é uma maneira pacífica de prolongar as guerras entre os países. E de aguçar o patético espírito xenófobo à medida que gente com passaporte igual traduz em medalhas o desempenho atlético. Já há muito me desenganei. Não perco um minuto com transmissões de provas olímpicas.


15.8.08

A vida é como um bolso cheio de trocos


A prisão do lugar-comum. Como se caminhos houvesse que desaguam num beco de onde não se avista saída. Indesejável, o lugar-comum, na sua irritante repetição, despedaça-se no pensamento em redor. Por mais labirintos que prossiga, o pensamento esmagado pela simplicidade de um lugar-comum que harpeja melodia sem audácia. Diante do lugar-comum, os querubins da lhaneza pisam as nuvens que adejam sobre a mente sobressaltada. Soçobram as resistências e recolhe-se nos braços a lição do lugar-comum.


Hoje, num sonho, fui visitado por um lugar-comum edificante. A soberania da vida. Da vida sempre tão curta – por mais tempo que seja vivido, por mais intensa e sumarenta que a vida se ofereça. O lugar-comum emparelhado com uma metáfora tonitruante, que não cessava de percorrer os corredores mentais: "a vida é um como um bolso cheio de trocos".


Um bolso cheio de trocos esvazia-se num instante. A menos que haja metódico entesouramento, aprisionados os trocos no mealheiro que há-de ficar reduzido a cacos quando um ávido martelo o desfizer e as moedas escorrerem num arremedo de abastança. Tomara que pudéssemos aforrar vida. A escravidão do tempo na sua materialidade era aqui a dor pungente. E, todavia, a vida pode saltar as barreiras do tempo. Enquistar-se numa moldura que embarga as águas do tempo, como se a vida tivesse as suas próprias albufeiras onde as águas retidas fermentam um prolongamento da vida. O segredo é – sussurrava o mensageiro do lugar-comum – derrotar os céus plúmbeos que se demoram no horizonte. A personagem onírica, de rosto indistinguível, assegurou: somos nós que inventamos os nossos problemas. Na sua ausência, uma montanha frondosa é o regaço da existência em pleno sentido.


O sono despertou do seu sonho. A frase batida, contudo, reproduzia-se no horizonte meditativo. Como se fosse um refrão de uma música escutada à exaustão. Aquela frase podia significar tantas e diferentes coisas. Podia, até, ser caução da insignificância da existência individual – afinal reduzida a uns irrisórios trocos, uns indiferenciados trocos a tilintar na algibeira. A atenção desviada para esta cor enegrecida do lugar-comum em assalto permanente. A desvalorização da vida; ou apenas que não fazemos da vida aquilo que queremos, ela tão autónoma, tão livre para escolher o leito por onde voga. Nós, apenas marionetas das circunstâncias sempre alheias. Nós, os trocos que ou pejam os bolsos ou se gastam com o frémito da luz traiçoeira.


As moedas, as miudezas que simbolizam cada vida, apenas a limalha que sobra dos grandiloquentes projectos que acabam no estirão das lamentações. Uma imagem pintada a cores vivas e, todavia, uma palidez convulsiva: hoje o bolso cheio de moedas e, porventura amanhã, despojado. A vida deserta de si. Um coro ao longe a entoar um lânguido choro, porta-voz do infortúnio. O tempo, esse, chega sempre adiantado às promessas abortadas. O maldito tempo que se esgota, na recusa em ser complacente com a esquadria efémera da vida.


Outro lugar-comum em forma de interrogação múltipla: de que servem as aflições pessoais, o rosto que se vira para acolher os ventos tempestuosos, os pés que teimam em abrasar o caminho sem retorno, ou os pés que caminham maquinalmente rumo ao primeiro precipício encontrado? Qual a serventia das nuvens sempre carregadas que adornam as avenidas do pensamento? Onde está a utilidade dos prazeres da vida, dos afectos, das pessoas resguardadas num canto da alma, se caíram na rotina suicida? Qual o sentido das emoções entoadas no vazio?


Sim: a vida é um bolso cheio de trocos. Tão frágeis – os trocos como, em sua metáfora, a existência. O esbanjamento dos exíguos cobres é a centelha do juízo que se reencontra: só então os olhos alcançam o que foi desperdiçado. Sobretudo quando o corpo já caiu no abismo e não há maneira de inverter a marcha. Os meros trocos, afinal valioso pecúlio, inestimável tesouro que só merece consagração quando está no limiar da delapidação.


Inspirado pelo sonho vestido pelo atordoador lugar-comum, uma lição. Que importa a turba ruidosa no parque aquático, ou o muito francês de subúrbios em vozearia a sitiar as meninges, ou as mulheres espalmando as abundâncias adiposas em reduzidos biquínis, ou os homens de meia-idade exibindo o pujante e arredondado ventre debruçado sobre o temerário calção de banho, ou a donzela que retira de uma perna, com uma pinça, pêlos encravados, ou uma adolescente que cata nas costas da amiga as excrescências da acne juvenil? Há alturas na vida em que a ventura chega por interposta pessoa. É isso, também, a paternidade.


O segredo está em aprender a ser feliz com a felicidade dos filhos.