19.6.08

A parafernália criativa, ou os chapéus das madames em Ascot



Começou a época das corridas de cavalos em Ascot. Aquilo é mais conhecido pelo desfile de bizarros chapéus que as senhoras da artistocracia envergam, envaidecidas, do que pelo evento em si. Até parece que as corridas de cavalos são um acontecimento de suporte ao desfile de inventivos chapéus das madames.

A galhardia dos adereços que pousam nos cabelos, já de si objectos de aturadas intervenções de cabeleireiros, merece cuidada observação. Há ali matéria-prima abundante para os teóricos da criatividade, dos vários estalões de criatividade. Não tive oportunidade de mergulhar numa investigação nos meandros da chapelada que enfeita as corridas de cavalos em Ascot. Aposto que prosperou uma indústria de criadores de chapéus que só podem ser ostentados por senhoras que tragam consigo credenciais aristocráticas – pois que parecerá mal às senhoras da burguesia, já para não mencionar as da escumalha, oferecerem a moleirinha como poiso para aqueles abstrusos adereços. Dizia: uma elite de criadores de chapéus, uma ferranha competição entre “estilistas” do chapéu. E, aposto ainda, tais “estilistas” terão prósperas finanças, pois que o preço deve variar com a jactância dos chapéus.

A cada ano que passa, a imprensa faz eco do desfile de vaidades de braço dado com a bizarria. E a cada ano que passa, as aristocratas vergam-nos na incredulidade de chapéus cada vez mais esquisitos. A primeira reacção que se esboça, um riso de desdém. Porventura inflacionado pelo confessado preconceito pessoal a tudo o que ressoe a realeza mais o séquito que lhe serve de pajem. As cortesãs, tão supremas na sua altivez de casta e, contudo, tão expostas à ridicularia. Mas depois percebo que há ali um nobre acto – ou não estivéssemos a falar da nobreza, um estatuto ímpar, só ao alcance dos predestinados, estatuto quase divino: o nobre acto é a notável capacidade de encaixe de quem se oferece para um desfile público em que o absurdo e a patetice andam em compasso.

Costuma-se dizer: por decoro, evita-se, sempre que possível, resvalar para a pessoal condição de quem se abraça ao ridículo. Quem gosta, espontaneamente, de se dar ao escárnio alheio? Acontecem, às vezes, escorregadelas involuntárias que alimentam a troça dos outros. Essas não contam, por involuntários actos serem. Olho outro vez para o bulício de Ascot, com as senhoras da cortesia ostentando seus excêntricos chapéus que roubam protagonismo a quem o merece – os cavalos e os jockeys, por esta ou por invertida ordem, consoante os gostos. Aquelas aristocratas ficam a jeito para o escárnio da populaça. O desfile de chapéus estrambóticos tem algo de circense. Os adereços que aterram nos penteados elaborados das cortesãs são a fatiota de palhaço que traz a boa disposição aos espectadores.

Esta sede de protagonismo é uma injustiça. As enfeitadas madames absorvem as atenções e Ascot transforma-se, deixa de coincidir com o evento pensado por quem o concebeu. Quando as aristocratas chegam a Ascot e roubam o protagonismo a jockeys e cavalos, sinal dos tempos – dos tempos em que as atenções se viram para o acessório e passam ao lado do essencial. Ascot, como está popularizado, é uma fuga ao essencialismo. O que nos chega não são os resultados das corridas de cavalos, detalhe sem importância ao lado do cortejo de chapéus tão esquisitos das madames que escorrem vaidade e captam a atenção dos fotógrafos. A vitória do mundano. O enamoramento pelo mundano. Pobres os jockeys e os cavalos que competem em Ascot: deles não reza a história, ao lado da chapelada que se entronizou no altar da importância.

Não há laivo de crítica, ou de juízo moral, o que quer que seja. No império do livre arbítrio, num tempo em que vinga o mercado em que se encontra a oferta de conteúdos e quem os procura, quem se pode arrogar ao papel de sacerdote dos costumes alheios? O tão criticado hedonismo (pelos zeladores da moralidade) é a chave metódica para o desassombrado regaço oferecido a manifestações deste género.

Ascot e cortejos da vaidade aristocrática não me indispõem, antes pelo contrário: entreabrem as portas à pândega avantajada. E os majestosos membros da aristocracia, tão tolerantes (e será que disso dão conta?), fautores de um inesperado cenário circense. Ascot é um comprimido para a sanidade mental.

18.6.08

Necrofagia


No fim da interminável fila de automóveis, um acidente. As pessoas parando os seus automóveis em qualquer lugar, saindo de seus automóveis para apreciarem o macabro espectáculo. Detêm-se a fitar a chapa retorcida, onde se mistura o sangue abundante dos ocupantes. Por ali ficam, deliciadas com aquele odor pestilento a morte. Inebriadas com o lúgubre cenário, como se fossem cangalheiros voluntários, espreitando entre a amálgama de destroços só para perceber os detalhes medonhos do tremendo acidente. São necrófagos das vítimas do acidente.

Ainda estou para perceber se assumem a necrófaga condição como acto voluntário, ou se a tanta ignorância os leva involuntariamente ao duvidoso circo montado num pedaço de asfalto. Seja como for, comprazem-se com as tonitruantes imagens dos automóveis que se enfaixaram de frente um no outro, ali jazendo cada um para seu lado, só ferros retorcidos de onde foram resgatados já cadáveres. Parece que se extasiam com o perfume a morte, enfeitiçados pelo mar de sangue que escorreu para o asfalto, tanta a excitação que escorre daqueles rostos populares que se passeiam entre os destroços. Saberão que são abutres dos infaustos que ali pereceram?

Ou quando passam na televisão imagens de catástrofes – um atropelamento, os corpos trucidados pelo comboio num imprudente atravessamento da passagem de nível, uma desavença familiar que terminou a tiro de caçadeira, um corajoso suicídio, ou a tragédia em massa quando um autocarro se despista e as vítimas se avolumam na contabilidade do acidente: há sempre uma turba em redor farejando o cheiro a desgraça, o dever indeclinável de muitos pares de olhos serem testemunhas do infortúnio alheio, selando-o, compondo o cenário na qualidade de anónimos figurantes investidos na pele de abutres. Por lá andam, tantas vezes a incomodar a função dos socorristas. Mirones nada compungidos com a desdita das vítimas; apenas passeando a sua tremenda ignorância.

É uma pulsão irreprimível. Uma incontrolável atracção pelo precipício da desgraça, como se no fundo andassem por ali a farejar a desgraça que um dia lhes há-de calhar (diria, sem ousar, em sorte). Só desmobilizam quando os corpos foram retirados de ambulância, já a caminho da morgue onde uma autópsia os espera. Só vão embora quando os vestígios do acidente são levados no reboque, já nada restando dos destroços que sinalizaram o desastre. No mais profundo da sua ignorância, não conseguem perceber como saciar a mórbida curiosidade é um indigno acto. Até parece que tem algum valimento para as vítimas o coro de abutres que por ali estaciona; quando se trata apenas de encherem a alma com o trágico cenário, a amálgama de ferros, o asfalto ensanguentado, os destroços onde se misturam os haveres das vítimas como prova do bocado de vida que ali findou.

Esta necrofagia militante é um pedaço da “cultura” popular. Depois chegam a casa, ou no dia seguinte junto dos colegas de trabalho, e são heróis acidentais no relato pormenorizado do que viram. Com excessos, para apimentar o espectáculo que contam aos demais. Eles também atraídos pela macabra descrição, invejosos do herói acidental que canibalizou os destroços do acidente, figurante de um impudico cortejo. Uma mesquinhez inqualificável. O sinal maior da pequenez dos mirones de acidentes alheios. Será esta curiosidade mórbida manifestação de que gostariam de ter uma lauta audiência se um dia chegar a sua vez de serem vítimas da estrada?

O exército que se acotovela nas imediações do corpo inerte já coberto por um lençol, sinal da sua cadavérica forma, apenas uma ralé ignara e sem sentimento de compaixão. Coitados, tão mergulhados na estreiteza de vistas, nem chegam a perceber que a passeata pelos destroços do acidente, espreitando para capturar todos os macabros detalhes do acidente, é a prova de desrespeito pelas vítimas. Já não bastava terem sido vítimas, estarem a sofrer as dores lancinantes das fracturas, ou terem até partido rumo à morte; ainda têm uma turba insaciável do perfume da desgraça a caucionar a sua desdita. Nem no infortúnio têm direito ao seu recato, acossados pela turba que por ali ciranda, morbidamente curiosa.

À sua volta, as vítimas sentem o bulício dos abutres humanos que, à sua maneira, debicam no cenário da tragédia os fragmentos que saciam a sua doentia curiosidade. É a sua primavera de destroços, perene primavera de destroços.

17.6.08

Do outro lado


Todas as montanhas e vales, todos os campos de flores, as intermináveis planícies: tudo se atravessa em porfiado estirão. A peregrinação inadiável, a perene peregrinação todos os dias percorrida. Um trajecto que separa o hoje de um devir incerto. Por muito que não se dê conta, a viagem que coincide com a existência; uma viagem que sabemos ter começado, só não sabemos onde e quando tem aprazado o seu remate.

Às vezes, a margem. Deter-se diante da margem. Os olhos fitam as águas, o obstáculo da outra margem. Depois de todos os vales e montanhas e campos e planícies, a margem interrompe o cortejo. Por vezes as pontes já edificadas autorizam a jornada, sem sequer se deter na margem. As pontes diluem as margens, que não chegam a esboçar-se embaraços. Piora o diagnóstico quando os pés se encaminham a um caudal de onde não se avista passadiço. E se diante dos olhos se espraia um leito caudaloso, os movimentos amordaçados pela inquietante dúvida: como alcançar a outra margem?

Do outro lado, prometido terreno para amaciar as angústias coleccionadas, ou talvez não. Como se todos os passos até àquela margem tivessem sido sofridos passos, os pés feridos na expressão da dolorosa conquista. O outro lado é o desconhecido. Na sua frente, ainda sem saber se lá consegue chegar, divaga o pensamento. Dir-se-ia, o pensamento em dilatórias manobras, só para adiar o momento em que a decisão deixa o limiar do adiável. Mas o pensamento elabora-se em múltiplas possibilidades. Interroga-se se quer passar para a outra margem. Como se o corpo estivesse repartido em dois hemisférios absolutamente iguais. Uma balança em que o fiel teimasse em não inclinar para um dos lados. O auge da indecisão.

O corpo cansado deita-se na margem. Contempla o outro lado, desconhecido. Cederá na atracção do desconhecido? Falará mais alto a prudência, desavinda dos passos em desconhecido terreno? E assim fica, preso ao pensamento indeciso, o corpo no êxtase da margem onde todos os adiamentos encontram seu altar. De nada vale esquivar-se das interrogações que se sucedem, numa alucinante sucessão que vai amontoando as dúvidas, o agitado pensamento que esbarra no corpo. A certa altura as encruzilhadas desmembram-se num labirinto enredado. O pensamento aprisionado nas suas teias. O complexo pensamento, apenas capaz de apostar consecutivas interrogações, mesmo quando aplaude o entusiasmo de uma resposta, mirífica resposta que apenas abre as janelas de mais perguntas.

Nisto, uma nesga de discernimento deixa entrar alguma luz para depurar a profusão de cores que tomou conta do pensamento. Todas as interrogações, metódicas interrogações, a válvula de escape onde a indecisão se faz rainha. Para evitar a deliberação que se impõe, ali diante da margem que não pode ser ancoradouro definitivo. Sedentarismo nenhum acalenta esse ancoradouro. Percebe-se então que o pensamento dividido em seus dois uniformes hemisférios mergulhou nas masmorras de si mesmo. Conveniente hermetismo dos hemisférios, pretexto para o adiamento de uma decisão: deixar aquela margem e passar para o outro lado?

O ardiloso pensamento instala a letargia. Tamanho caudal, por mais agitadas que vão as águas, apenas outro pretexto para impedir o outro lado. Aquela margem, o cómodo lugar onde os desafios são metidos dentro de uma cápsula, onde a inércia se apodera de tudo. Dizer que as águas contêm perigosos remoinhos que ameaçam tragar o corpo, sugá-lo para as profundezas onde se asfixia, é outra desculpa. A vontade ultrapassa todos os obstáculos que se ergam, mesmo os que aparentam ser difíceis de vergar em sua derrota. E se não forem os vórtices que se formam nas caudalosas águas, outra desculpa logo se perfila. Aí se consome a vontade; ou apenas a indecisão, a meias com a ausente coragem de desafiar o desconhecido.

A acontecer, há-de sempre ficar um travo amargo a conviver na boca: a ausente intrepidez, barreira definitiva ao que nunca se conseguiu chegar a conhecer. O outro lado, ali à frente da vista e, no entanto, apenas uma miragem. Por demissão de si mesmo. Por falta de coragem. Ou apenas na ausente vontade de mudar.

16.6.08

Os democratas sem fair play democrata. São mesmo democratas?


Havia um menino lá na escola, o dono da bola. Filho único e com os maus modos de uma educação de família recentemente abastada. Quando a equipa dele estava a perder, do menino caprichoso irrompia uma birra que terminava subitamente o jogo, pegando na bola – porque a bola era dele. Nunca teve a desfaçatez de exigir a revisão do resultado, que os golos da equipa adversária fossem apagados do passado. O mau humor e o mau perder apenas tinham o condão de pôr um fim abrupto ao jogo. Porque era o dono da bola.

Foi do que me lembrei ao testemunhar as muitas reacções desabridas de políticos europeus depois da maioria dos irlandeses ter reprovado, em referendo, o Tratado de Lisboa. Quais são as regras do jogo? Que um tratado como o Tratado de Lisboa, que revê as regras fundamentais da União Europeia, só pode ter vida própria depois de todos os países membros da União o ratificarem. Desta vez, para evitar percalços anteriores (a vitória do “não” na França e na Holanda, quando a Constituição da União Europeia aí foi a votos), só a Irlanda organizou um referendo. A isso estava obrigada pelas respectivas regras constitucionais. Os irlandeses reprovaram o Tratado de Lisboa. Houvesse fair play democrático e todos saberiam tirar as consequências: o Tratado de Lisboa com exéquias marcadas.

Em vez disso, já diversos líderes políticos Europa fora vieram avisar que o resultado desfavorável não interrompe o processo. Será que compreendem o atropelo às regras? E percebem o atentado aos valores democráticos de que se consideram guardiães supremos, até a lesão que infligem à União Europeia como entidade em contínuo desenvolvimento? As reacções mais audíveis vieram dos líderes da França e da Alemanha: sentenciaram que os países que ainda não ratificaram o Tratado de Lisboa devem prosseguir com a ratificação. Pegando na deixa, o presidente da Comissão Europeia subscreveu a ideia (a educação maoista deixa as suas marcas). Actores menores – como o timoneiro nacional e a excelência presidencial – deram para o mesmo peditório. Mandaria a lógica, e a simples aplicação das regras, que o “não” irlandês interrompesse o processo, que fosse a sentença de morte do Tratado de Lisboa.

Ao invés, as frouxas lideranças políticas europeias fazem tábua rasa das regras, reinterpretam-nas com desfaçatez, servem-se de argumentos implausíveis. Porque o resultado do referendo na Irlanda foi contrário à sua vontade. Não é isto a entorse maior à democracia? Que exemplo dão estas lideranças políticas aos cidadãos – a não ser um mau exemplo que as qualifica, lideranças franzinas, sem carisma, que não mobilizam as pessoas, a não ser para uma desconfiança metódica? Que moralidade têm para falarem do alto da cátedra de “exemplares democratas” quando denunciam atentados à democracia em países que manipulam resultados eleitorais, se eles ignoram o resultado de um referendo? Como podem ser a caução do Estado de direito, esteio das democracias liberais, se são os primeiros a passar uma esponja nas regras que menos lhes convêm?

No cardápio de argumentos – diria: putativos argumentos – para ignorar os resultados do referendo irlandês e assim salvar o Tratado de Lisboa, há de tudo um pouco. O mais patético é o argumento dos números: dizem que três milhões de irlandeses não podem contrariar a vontade de quinhentos milhões de europeus, insinuando que os primeiros impedem a vontade dos segundos que seria, julga-se, abraçar o Tratado de Lisboa. Há aqui um tremendo erro de perspectiva: quem pode garantir que essa é a vontade dos quinhentos milhões de europeus se eles não se puderam pronunciar como aconteceu com os irlandeses? Há quem imponha um novo referendo na Irlanda (a marosca tem precedentes: uma vez na Dinamarca, salvando o Tratado de Maastricht, e outra na Irlanda, salvando o Tratado de Nice), até que pelo cansaço e pela coacção psicológica os irlandeses “votem certo”. Outros, mais desesperados, propõem a aplicação de uma regra do Tratado de Lisboa: quando dois terços dos países tiverem ratificado uma revisão dos tratados, o Conselho Europeu pode tomar medidas, insinuando que a revisão do tratado pode produzir efeitos mesmo sem todos os países o terem ratificado. O desespero, ou os maus fígados da derrota, dão o mote à cegueira: essa regra pertence a um tratado (o de Lisboa) que ainda não entrou em vigor. As regras do futuro só se podem aplicar no futuro, nunca para trás. Para culminar a sucessão de reacções despropositadas, já até se sugeriu que a Irlanda saísse da União Europeia, o que não tem qualquer cabimento.

Falta aqui um importante registo de interesses: houvesse referendo caseiro ao Tratado de Lisboa, iria votar “sim” (apesar das várias insuficiências do tratado). Não fiquei contente com o resultado do referendo na Irlanda. Fiquei ainda mais descontente com a cabeça perdida dos líderes políticos no rescaldo do referendo. Típica do menino caprichoso que, vendo as coisas correr mal para a sua equipa, retira a bola e acaba com o jogo. É a confirmação de que a Europa vai mal com estas lideranças políticas de fraco calibre e de má têmpera democrática. Lamenta-se: porque cada vez mais se percebe que na activação da democracia a prática dos responsáveis se distancia da retórica. E que, com isso, estão a desbaratar o potencial de um projecto tão belo como o que nos trouxe até hoje a União Europeia.

Sobra um paradoxo: as pessoas, Europa fora, em crescente insatisfação com a marcha secreta da União Europeia, sem lhes ser dada a palavra. As mesmas pessoas que continuam a alimentar a permanência no poder dos partidos que caucionam a construção da Europa nas costas dos cidadãos.

13.6.08

The rising sun


(Mais um acto de enamoramento com o crepúsculo da alvorada.)

Já a primeira claridade diluiu a noite. Já a madrugada é a charneira que leva os alvores do dia até aos primeiros raios do sol. Uma frescura retemperadora no ar, a humidade no seu zénite e todo o silêncio cautelar. É quando a fauna leva vencimento sobre os humanos. Pássaros que chilreiam, madrugadores. Coelhos em frenéticos saltos no relvado que mais tarde será tomado pelas pessoas. Gatos em furtiva caça. Patos e gansos e cisnes fora do lago, nos caminhos que por essa hora são sua coutada. E raras pessoas na tão matinal hora.

Os ponteiros do relógio marcam o erguer do sol para as seis horas e um minuto. Quase no equinócio do Verão, quando os dias chegam à sua fase maior, o sol espreita desde o nordeste – contrariando as convenções que fixaram o leste como o lado nascente, o lado de onde o sol se alça desde o seu esconderijo nocturno. Vão andando os ponteiros do relógio, a clepsidra que anuncia o sol que não tarda a irromper. Primeiro uns tímidos raios que vão esbatendo a ruborizada tonalidade, tingindo-se em alaranjados raios. Depois, escala com lentidão no firmamento que se afasta da linha do horizonte de onde despontou, perde a matiz alaranjada como perde a timidez crepuscular. Sobe e perde em dimensão o que ganha em luminescência. Em seu estrépito.

Só que ao tornar-se rei do dia, o sol abdica do seu encanto. Diria que se esgota nuns breves minutos – os instantes em que o sol raia no horizonte e tece uma inebriante luz crepuscular. Os momentos em que se insinua, ainda sem se ver, despejando do seu escondedouro as primeiras emanações de luz que vão emprestando mais claridade ao dia nascente. A sagração da vida. Que a vida é diurna, onde tudo se revela em seu esplendor, sem as máscaras que a noite confere às coisas, às pessoas. Os primeiros gorjeios do sol na paleta de cores em mutação com o arrebatamento dos minutos. O imparável sol que não se detém na rotineira escalada do firmamento, só interrompida nos dias plúmbeos.

O sol que se ergue – ou a possível tradução da inglesa expressão “the rising sun”, sem todavia a tradução captar a essência dos instantes de enamoramento, os breves instantes que trazem uma intensidade de sensações difícil de colocar em palavras (o modesto ensaio destas palavras). O sol que se ergue, uma poética expressão sem palavras a compô-la. A rotineira ascensão pelos alvores do dia é o poema que se compõe no firmamento. Até que o sol toma conta do céu, solta um bafo forte que tinge o dia cálido. O sol estival que tão depressa perde o seu encantamento e absorve um envilecimento manifesto nas pessoas que dele se abrigam.

Não é o sol das longas horas, o sol no seu pino de quentura que aflige os corpos suados, que merece sagração. É o sol na sua infância diurna, o sol gentil na coreografia de cores que se descobre na conquista do firmamento. As golfadas que atira em seus passos rumo ao pináculo do céu são o travo adocicado da vida preenchida, da vida que se almeja em si mesma na plenitude semelhante à do sol que não cessa a marcha triunfante. Como se o corpo tivesse uma saudável embriaguez trazida pela imersão nos matinais raios de sol. O corpo emprestado de um admirável torpor, um paradoxal torpor: a momentânea letargia enquanto os olhos se entregam na contemplação da crepuscular coreografia do sol é o emoliente das dores que os dias costumam fermentar. Um anestesiante que revigora, na dobra de mais uma noite que deixou o corpo preparado para o acto final que entretece o dia tão pleno: a sagração do crepúsculo da alvorada.

O sol que se ergue predispõe. Arvora o corpo, emproado de um encantamento poético – do encantamento de quem assistiu, e de lugar privilegiado, ao parto do dia.

12.6.08

No melhor pano cai a nódoa


Abomino adágios populares. Pretendem ser a consagração de algo que é uma contradição de termos – a sabedoria popular. O problema é que, volta e meia, dou comigo embrulhado na conveniência de ditados que veneram a pretensa sabedoria popular. É o povo que costuma dizer que é no melhor pano que a nódoa repousa. A cínica nódoa, manchando fazenda de tão boa qualidade. É o que acontece aos que tanto se esforçam por fugir das malhas do povo e depois são oportunistas necrófagos de provérbios populares.

Eu digo que uma das coisas mais belas que a existência tem é darmos conta das armadilhas em que caímos. Custa, sobretudo aos que se acham infalíveis – ou aos que, não se considerando dotados de tanta infalibilidade, se recusam a admitir que erraram. Acontece amiúde. Comigo, com o domínio da língua. Procuro ser purista, apesar de não dominar as regras da gramática para além do que o senso comum me sussurra ao ouvido. Irrito-me com os atropelos da língua que os outros cometem. Sobretudo nos jornais, mais ainda quando os atentados partem de luminárias.

O corrector ortográfico e gramatical alojado no computador é um auxiliar que não tem preço. Evita o desmascarar de erros de palmatória. O convencimento de que uma palavra tem uma certa grafia, quando é necessário afiná-la para expurgar o erro. É verdade que erros menores podem passar em branco num texto, erros que nem sequer um bom corrector gramatical consegue assinalar: um singular onde devia estar um plural, e a vista distraída que nem à terceira leitura consegue detectar o lapso. Não contam, esses erros menores. O pior acontece com erros de sintaxe que passam incólumes à lupa dos olhos que revêem o texto. O sinal da incapacidade para tornar exemplar o texto. É então que se abre o alçapão por onde mergulha num precipício tão fundo o pretenso purista da língua. Lá está o pano, o putativo melhor pano, já não imaculado pela nódoa que o tinge.

Por dever de humildade intelectual, urge admitir os lapsos. Agora entreabriam-se as portas a novos adágios populares, ou a frases que levitam um qualquer lugar-comum. A sua negação, todavia. O que conta é ter desprendimento de si, da aura infalível que possa ter sido edificada, para perceber que foi pisada a linha do erro. Admiti-lo não é dar o flanco. Até porque ao dar a mão à palmatória não há competição onde se perfilem ameaçadores adversários. O maior adversário é o eu teimoso que se recusa a rever no seu erro. Perceber onde está o erro é a oportunidade para não voltar a cometê-lo. E se o pano aparece de início com uma nódoa que podia ter um significado aviltante, a admissão do erro é o tira-nódoas que recupera a alvura do tecido. Só perde qualidades, e deixa de ser bom tecido, caso a obstinação seja a intransponível barreira ao consentimento do erro praticado.

Regresso à casa da partida para formular uma interrogação: faz sentido comparar o jaez das fazendas? Algum pensamento emproado na condição politicamente correcta apressa-se a responder que não. Só que depois são os sacerdotes desse pensamento que traçam a rota por onde deve a populaça obediente passar, caso não queira ver o dedo reprovador apontar em seu sentido. Pela prática desmentem o que consagram no pensamento arquitectado. Como não estou preocupado com a amansada filiação no politicamente correcto, tenho a impressão que os ventos do igualitarismo são o produto de acossadas mentes que se recusam a confessar em público aquilo que praticam. Por imperativos de retórica, para agradar às massas que arregimentam em seu redor, titulam os ventos da igualdade. Não haverá tecidos de primeira e tecidos da ralé. O pretexto para recusar o lugar-comum do bom tecido manchado por nódoas. Dirão, porque não há bom tecido a distinguir-se do mau tecido. Contraponho: porque assim não têm que reconhecer-se como a boa fazenda, nem ser confrontados com a maior das dificuldades – o humilde acto de admitir um erro, de ver em sua própria fazenda uma nódoa que embacia a sua fantástica aura.

Como navego por outras águas, convencido de que a igualdade é uma miragem, há as boas e as más fazendas. E quando as nódoas se estatelam nos bons panos, eles não deixam de o ser. Desde que a humildade intelectual fale mais alto e ensaie a depuração do tecido, diluindo a nódoa em nada. Sob pena de a ausente humildade intelectual despromover o tecido, num curto passo até à fronteira do mau pano.

11.6.08

Silêncio depurativo


O silêncio que se impõe. O silêncio como cura. A limpeza de todos os sons que perfuram as cavidades escondidas e ferem, com intensidade. E, no silêncio, o reencontro com a essencialidade do ser. Todas as cicatrizes cauterizadas. A espaços, os sons, todos os sons, carecem de silenciamento. Os ruídos, mesmo os mais melodiosos, cedem perante a beleza do silêncio. Nessa altura, o ser entregue a si mesmo numa profiláctica solidão. Seguindo o tracejado caminho dos silêncios, como se houvesse a urgência em saciar o recolhimento de onde se regressa à profundidade de si mesmo.

Nesta digressão encontra-se no silêncio a exegese do ser, uma introspecção que revigora. O silêncio como melodia maior. Os demorados momentos em que os ouvidos vedam a entrada de qualquer ruído são a pauta onde se coreografam as notas de uma melodia inaudível. É na pausa silenciosa que se compõem, mentalmente, essas melodias. A melopeia só possível no alcantilado contraforte onde se encontra o refúgio, onde o ser se remete a um exílio necessário.

O silêncio pode acontecer em qualquer lugar. Até nos lugares mais movimentados, onde o intenso burburinho acompanha o quotidiano. O mergulho no silêncio é um exercício individual, o vasto campo de flores que se imagina no meio da cimentada cidade, as bocas emudecidas mesmo quando se entreabrem em ensandecida gritaria. Um exercício mental que isola os sons quando o ruído aflitivo exige alheamento. Uma concha hermética formada na fortaleza que se edifica no isolamento terapêutico. Pode o corpo passear nas margens de uma movimentada avenida da cidade sem notar os pregões das varinas, o martelar da artilharia das obras, o perfurante zumbido das motorizadas, as buzinas dos automobilistas apressados, a vozearia geral. Como se, subitamente, o mundo se emudecesse no prioritário silêncio.

Mas onde o silêncio encontra a sua pureza é no abrigo que empurra o corpo para um lugar desértico, longe do bulício das cidades onde as pessoas se atropelam no seu anonimato ensurdecedor. Em areais que se perdem de vista, em dias de invernia soalheira. Nos campos verdejantes com a unção da primavera, a paisagem bucólica a desfilar diante da vista como altar supremo onde se purifica o pensamento. Nas serranias implacáveis, por entre os penhascos abruptos e o granito que entoa as agrestes montanhas. Onde não haja vestígios de vida humana. E onde nem sequer se faça notar o silvo do vento, ou o longínquo rumorejar de um regato de água, ou o canto melódico dos pássaros em redor. Nem até o singelo tilintar das folhas das árvores ecoando a brisa que nelas esbarra.

O sossego que remete o ruído para o seu próprio exílio, onde os passos silenciosos depuram os sentidos. O segredo para o reencontro. Um mapa tacteado com todo o cuidado, sem perder o rasto aos fragmentos outrora desperdiçados que fermentaram a adulteração de si. É como se fosse um regresso à casa da partida para começar outra vez. Ainda que tempos adiante se faça sentir o apelo do silêncio como branqueamento de desvarios, correcção de erros cometidos, carregar numa tecla e regressar ao terapêutico zero. Um mergulho em águas profundas e límpidas, águas termais que trazem à superfície um corpo purificado pelas pétalas perfumadas do silêncio.

Tem algo de peregrinação pelos segredos acumulados no interior de si, o silêncio. Um refúgio numa fortaleza de que só o indivíduo detém a chave. Só ele sabe onde está o mapa que desvenda o caminho sinuoso que separa a vida tumultuosa do castelo que resguarda, nas suas ameias, os fragmentos de silêncio que hão-de depurar o pensamento. O silêncio, como a peregrinação interior, só se faz na imersão da solidão. No indeclinável dever do resgate de si mesmo. Sem música sequer, essa música que acompanha a vida como profilaxia. A ávida sede pelo silêncio.

10.6.08

Vaidade de casta (togas e tudo)


Togas outra vez. Diferentes togas. Já não as togas que investem os magistrados na suprema condição de órgão de soberania. Outras togas, de outras vaidades e outras solenidades. Um sinal de casta. A aclamação de uma elite – pois só as elites têm direito a sacralizar a pertença através de sinais que ostentem a condição. E uma soberba indisfarçável. De braço dado com um vetusto, ancestral código imagético, que se pavoneia diante dos comuns mortais convidados a assistir ao cortejo onde se passeiam as muitas vaidades individuais entronizadas na toga vestida.

Não consigo deixar de olhar para os actores envaidecidos do alto das suas togas e ver no quadro umas pinceladas medievais. As pesadas togas carregam consigo o iniludível lastro da sabedoria. Os panos espessos são o leito onde repousa a douta ciência dos que carregam as pesadas togas. São panos negros, contudo. O escurecido tecido deixa alguma perplexidade a esvoaçar: será tanto negrume a lente desfocada que esconde putativos saberes apenas? Lugar à simbologia tão adorada pelos adoradores do ritual: a transparência dos saberes porventura convocaria panos claros, não os escuros e pesados tecidos de que são feitas as togas.

Dizem que os ritos são o penhor do enorme lastro que vem de trás, dos antepassados. Um lugar ideal para testemunhar o legado de que é feita a substância do que somos hoje. São sinais necessários, uma codificação que traz consigo os fragmentos da socialização de um grupo. As pertenças convocam identificação. A identificação feita pelo vestuário que se traja, porte exclusivo dos que conseguiram escalar a ladeira e triunfar no púlpito onde só as castas ascendem. A par com as vaidades individuais que se consomem num fátuo fogo, o radioso espectáculo de se fazerem passear cobertos pela toga que afiança estatuto. Para alguns, a exibição da toga é o zénite de um trajecto pessoal onde sacrifícios e dificuldades pontuaram a escalada até ao púlpito tão desejado. Desconfio que, para outros, a ostentação da toga aplaca tormentos interiores de consciência, ainda incrédulos como conseguiram franquear as portadas da elite.

Não deixa de ser um complexo de farda. Como tantos complexos de fardamento que enxameiam esta terra mesquinha. Uma exibição de autoridade, intelectual. Quando as elites saem à rua em celebração da sua pertença, passeando as togas em júbilo pessoal, precisam de audiência. Os que ladeiam o cortejo são o rebanho necessário para aplaudir a magnificência dos entronizados na toga. Do alto do seu presumido pedestal, olham com sobranceria para a turba que é devedora de genuflexões à grandeza da casta. E assim exibem a prestimosa toga, vivificando a medieval confluência de desiguais estatutos. Então como hoje, um cortejo onde a aristocracia traja os sinais da sua superioridade. E sempre a necessidade de uma audiência, ou a expressão de superioridade da casta diluia-se em nada.

A ostentação da toga serve para incendiar vaidades pessoais. Vaidades que não passam de espúrias manifestações, a mesquinhez da pretensa altivez dos que almejam o fogaréu da toga. O laço irrecusável com o passado, na incapacidade de romper com os rituais de antanho, que não devem ser questionados sob pena de se negar uma identificação com a casta a que se pertence. O esplendor dos instantes em que a toga sai do armário é momento alto de uma carreira. Uma solenidade que entroniza a casta e os seus membros. E uma soberba que escorre de todos os passos que os confrades dão diante da turba, que não se cansa de adornar a cabeça em sinal de respeitosa homenagem. As togas vomitadas contra os que pertencem a uma escala inferior. Uma pose aristocrática que não perde o rasto aos lamentáveis vestígios herdados de tempos idos.

Vivem as togas com toda a intensidade possível nas ocasiões em que a solenidade as convoca. O feérico momento que dá vida a uma casta envaidecida de o ser. Não deixa de ser um lastro que se julgava pertencer aos livros de história: a toga como expressão da aristocrática identificação dos confrades. Tão sapientes que toda a sua ciência se passeia protegida pelos panos espessos, quentes e negros da toga. E, se calhar, só isso.

9.6.08

Jurisprudência anotada


Dos tempos em que decidira ensaiar o tirocínio para a advocacia (desses não saudosos tempos): era fundamental espreitar a jurisprudência de casos semelhantes aos que iam a tribunal dentro de dias. O que é a jurisprudência? O conjunto das decisões dos tribunais em casos semelhantes. O seu estudo serve para perceber como os tribunais têm decidido em casos parecidos. E para ter uma noção das probabilidades de êxito, sempre descontando os detalhes que distinguem os casos por mais parecidos que eles sejam. Também havia volumes de jurisprudência anotada, recebendo o contributo de ilustres juristas. Aí se fazia comentário das sentenças – a contragosto de suas excelências os magistrados, convencidos da sua aura de infalibilidade, no lastro do muito respeitinho devido que se convencionou a um “órgão de soberania”, sinalizado através do respeitoso erguer de rabo da cadeira quando suas excelências entram e saem da sala de audiências.

Sem saudades desses tempos de prometido jurista, hoje tomo o papel de jurista (não) arrependido para comentar uma sentença do Supremo Tribunal de Justiça. Use-se o termo técnico correcto: “acórdão”, não sentença – que a comunidade de juristas é muito zelosa da terminologia técnica. Cheguei a essa sentença através do blogue “cinco dias”. Foi um caso de violação de duas jugoslavas que se aventuraram a pedir boleia na berma de uma estrada algarvia. A coisa foi parar a tribunal e foi subindo, de recurso em recurso, até à decisão final do Supremo Tribunal de Justiça. Que absolveu os garbosos algarvios que tomaram pela força as jovens jugoslavas. Com esta justificação:

(…) se é certo que se trata de crimes repugnantes que não têm qualquer justificação, a verdade é que, no caso concreto, as duas ofendidas muito contribuíram para a sua realização. Na verdade, não podemos esquecer que as duas ofendidas, raparigas novas, mas mulheres feitas, não hesitaram em vir para a estrada pedir boleia a quem passava, em plena coutada do chamado “macho ibérico”. É impossível que não tenham previsto o risco que corriam; pois aqui, tal como no seu país natal, a atracção pelo sexo oposto é um dado indesmentível e, por vezes, não é fácil dominá-la. Assim, ao meterem-se as duas num automóvel justamente com dois rapazes, fizeram-no, a nosso ver, conscientes do perigo que corriam, até mesmo por estarem numa zona de turismo de fama internacional, onde abundam as turistas estrangeiras habitualmente com comportamento sexual muito mais liberal e descontraído do que a maioria das nativas.

A minha reacção imediata foi decompor a palavra “jurisprudência”. Em duas metades: juris mais prudência. Reli o excerto do acórdão e retive a segunda metade da palavra “jurisprudência”. Há alguma prudência nesta “douta” decisão do Supremo Tribunal de Justiça? Li outra vez os fundamentos da decisão: já se percebe onde a decisão se casa com prudência: é que, no fundo, os juízes-conselheiros que assinaram o acórdão subscrevem a marialva teoria do “elas estavam mesmo a pedi-las”. Quem as mandou vir para a berma da estrada de polegar em riste pedir boleia aos automobilistas que passavam? Estava-se mesmo a ver: o que elas queriam não era só uma boleia. Podiam elas ignorar que estavam “em plena coutada do chamado macho ibérico”? Até se pode ir mais longe na efabulação: quem, no seu juízo, não percebe de antemão que as jugoslavas viajaram até ao Algarve por saberem dos especiais dotes copuladores dos “machos ibéricos”?

Há palavras que são o retrato das mentes retorcidas de quem a lavra. Os juízes, homenzarrões feitos e, aposta-se, com um invejável cadastro de conquistas femininas (ou como, senão através da experiência feita, podem confirmar que as "turistas estrangeiras" têm um "comportamento sexual muito mais liberal e descontraído do que a maioria das nativas"?), não duvidaram em afirmar que nestas terra quentes do sul da Europa as hormonas ficam tão excitadas que, por vezes, a pulsão febril pelo sexo feminino não é “fácil de dominar”. Uma vez mais a prudência a aconselhar recato às turistas que vieram ao escaldante Algarve e provocaram os rapazes que corresponderam aos polegares estendidos na berma da estrada. Sem esforço se percebe a simbologia daqueles polegares estendidos: a via verde para o sexo consentido num desvio da estrada.

Há algo que não bate certo. Se o caso chegou ao Supremo Tribunal de Justiça, é porque as jugoslavas apresentaram queixa. Portanto, não terá sido sexo consentido. Foi violação. É espantoso como os juízes se substituem ao livre arbítrio das vítimas e inocentam os violadores. Os magistrados sem inteligência suficiente para perceberem que pedir boleia não é uma passadeira estendida para o envolvimento carnal, sobretudo se o caso aparece à frente dos seus olhos?

Já nem sei o que será mais inquietante: acreditar que suas excelências mandariam os violadores para a cadeia caso as vítimas fossem suas filhas, ou desconfiar que, com aquela infausta argumentação do acórdão, os juízes encaixam no perfil do violador potencial.

6.6.08

A valsa dos freaks


Quando a igualdade está tão na moda, um imperativo irrecusável, às vezes a incoerência escapa-se-nos entre os dedos. Sem darmos conta, lá vai uma escorregadela em direcção do abismo da iniquidade. Há domínios onde a desigualdade é gritante. A multidão dá alento ao tratamento desigual. Os beneficiários do sortilégio são as estrelas da música pop, consagradas por uma indústria que não faz mais que a sua obrigação – fabricar ídolos de plástico que oleiem os lucros – e por um público massificado que enviesa o olhar.

Por estes dias, em que o primeiro festival de música que pontua a estação estival deu à costa – o festival da moda e das revistas cor-de-rosa (Rock in Rio by Lisboa) – dei conta de como as massas que endeusam as estrelas do firmamento musical são os pastores da mais atroz desigualdade. Houve uma cantora que está muito na moda, mais pelos escândalos em que mergulha com deleite, muitas drogas e violência à mistura, que se arrastou em palco. O suspense fixou-se na véspera e no próprio dia agendado para a performance de Amy Winehouse: na imprevisibilidade da criatura, meio mundo andou de credo na boca porque não havia certezas que quisesse apanhar o avião até Lisboa (ou estivesse em condições de o fazer). Um capricho até, acordar com o rabo virado para o lado errado da lua, seria suficiente para a menina rejeitar o concerto previsto há tanto tempo. No dia não se falava de outra coisa: vai actuar ou não?

Talvez para mal dos pecados dos entusiasmados fãs da senhora, ela veio até nós. Arrastou-se em palco, numa actuação decadente, mostrando uma visível embriaguez que ia decantando à medida que passavam mais e mais cocktails entre as músicas cantadas de maneira sofrível. O nariz constantemente assoado – e não consta que a artista estivesse engripada. Nas pausas ensaiava interacção com a audiência, atropelando-se nas palavras indecifráveis que debitava. No rescaldo do lamentável desempenho, a comunicação social foi unânime na pobreza do concerto. E nem assim a aura que se agigantou à volta de Amy Winehouse foi beliscada. Uma paradoxal sensação: um péssimo desempenho que mereceu a complacência do público, já que da aura que a cerca faz parte, quase como património genético, a decadente vida que leva. Que é, aliás, direito que lhe assiste.

A incongruência está na escala usada para avaliar o mesmo comportamento noutras pessoas. Aqueles fãs que endeusaram Amy Winehouse, e que se encantam cada vez mais à medida que se encaminha para uma vertiginosa decadência feita de drogas, álcool e violência e piora a qualidade da performance artística, são as mesmas pessoas que olham de soslaio para o primeiro drogado andrajoso que lhes apareça pela frente. E que militam entre a brigada dos bons costumes, enjoada com as drogas que desaguam num exército de viciados que emporcalham a sociedade. Para desdita dos toxicodependentes “comuns”, não têm propensões artísticas. A criatividade artística perdoa os excessos de drogas e álcool e violência. Eis a desigualdade em potência.

Outro exemplo: o vocalista de uma “boysband”, com aspecto ridículo, que tinha apaixonadas promessas de casamento de uma legião de excitadas adolescentes. Nunca tinha ouvido falar dessa “boysband” – Tokyo Hotel. O rapazinho tinha um ar, diria, aberrante, com um penteado extravagante e um aspecto nitidamente andrógino. Aliás, não é inédita esta queda do público feminino adolescente por estrelas da música pop que têm um ar tão andrógino. O que leva a interrogar se não haverá, entre estas excitadas adolescentes, um laivo de homossexualidade reprimida.

Nada contra o aspecto aberrante do rapaz. Uma vez mais, direito que lhe assiste. Perplexo fico com o olhar enviesado das meninas entusiasmadas, que confessavam paixões assolapadas à frente das câmaras que as entrevistavam, pelo meio de gritinhos histéricos próprios da idade aparvalhada. Seriam as mesmas meninas que, se dessem de caras com uma aberração clonada sem que fosse o vocalista daquela “boysband”, tremeriam de medo ou ririam de chacota pelo ar ridículo da aberração diante dos seus olhos. Mais um exemplo de lamentável desigualdade alimentada pela indústria da música pop.

Os sacerdotes do politicamente correcto deviam olhar com cuidado para este oceano de desigualdades fermentado pelo estatuto privilegiado das estrelas de pop. Seria um combate agendado para próximas missões de civilização das massas: convencer as estrelas de pop a descerem do pedestal, a serem comuns mortais, desprendidos daquelas extravagâncias que parecem código genético das estrelas consagradas. E, tarefa mais difícil, convencer os entusiasmados fãs que não podem caucionar comportamentos que depois reprovam no anónimo cidadão. Ou, então, só a confirmação que a igualdade é um logro.

5.6.08

“O segredo”


Almoço acompanhado pelo programa para entretenimento de avozinhas que vai até ao noticiário da uma da tarde. A Barbie apresentadora entrevistava dois personagens cheios de assertividade de si mesmos, uma prosápia diletante. Eram os gurus locais de uma seita qualquer que se dá a conhecer como “o segredo”. Um discurso cheio de certezas, pontuado por uma impressionante tranquilidade. Sempre resposta para tudo. E mezinhas para todas as maleitas e problemas que atormentem os aflitos que se convençam a visitá-los, ou consumam o livro que funciona como a bíblica mensagem para a seita. O “segredo” está numa coisa tão simples: o poder da mente.

E desfilavam exemplos de desgraçados que o deixaram de ser a partir do momento em que foram agraciados com os dotes de prestidigitação dos gurus do “segredo”. A Barbie apresentadora, do alto da sua infinita ignorância, arrebatada com discurso tão afirmativo. Os gurus, um de cada vez, sabiam da poda – como articular um discurso convincente, com a voz bem colocada, olhando de frente para as câmaras que os filmavam. Parecia que ensaiavam um hipnotismo hertziano, tentando captar mais clientela que viesse arregimentar a seita que devota a causa.

O que ensinam estes sacerdotes de um sucedâneo de religiosidade? Ensinam, afinal, coisa simples: que o segredo para resolver os problemas que nos mortificam está em cada um de nós, dentro da mente que resguarda as respostas para as dúvidas intermináveis. Tautológico, portanto. Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que é nos outros que reside a solução para problemas individuais? Dirão os gurus da coisa ali apresentada que por vezes as pessoas estão tão distraídas que nem sequer dão conta que a resposta se encerra nos meandros até então insondáveis da sua mente. Àqueles sacerdotes compete maximizar o poder da mente de cada um, abrir as portas interiores por onde segredam as respostas que procurávamos em vão. Até se dar o milagre destes gurus, quais entidades divinas, desapertarem os intrincados nós dos segredos que julgávamos insolúveis.

Temos problemas, dúvidas existenciais, nó górdios que colocam a vida num impasse. Para os problemas encontram-se soluções, quando nos é dado encontrá-las. Só que o maravilhoso momento em que marcamos encontro com uma solução para os problemas pode ser apenas uma ilusória satisfação. Se a resposta for uma bússola avariada, é o engodo para os passos que se saldarão numa falácia completa. Sim uma resposta; mas uma resposta errada, uma solução que não resolve o dilema. Os arautos do “segredo”, apenas vendedores de ilusões. É que nem sempre a mente está capacitada para oferecer as respostas. E, no fundo, se tudo é assim tão simples como ali apregoavam, para que servem estes gurus? Dirão: para exercitar as enormes capacidades da mente, tantas vezes desaproveitadas por quem se debate com um rol infindável de enigmas. De fora, com as suas capacidades analíticas acima da média, quase como sobredotados para medir o pulso às capacidades alheias, estão em posição privilegiada para encaminhar a mente para o sítio certo.

São milagreiros, portanto. Uns milagreiros especiais: não arriscam milagres, à laia de bruxos, videntes e quejandos; o milagre que fazem é ginasticar a mente para que ela abra os olhos de quem se encontra paralisado diante de asfixiantes dilemas. Tenho um problema metódico com fautores de milagres alheios. Desconfio de tanta generosidade desinteressada. Causa-me espécie que sejam milagreiros para o rol infindável de problemas que os outros apresentam. Eles não terão problemas próprios, tanta a capacidade para os espaventar.

E desconfio, mais ainda, do que escondem. Ao serem entrevistados pela acrítica Barbie apresentadora – a primeira a cair no hipnotismo colectivo que ali se ensaiava – eram só exemplos de sucesso, pessoas que foram ao seu encontro e tinham conseguido reverter problemas só com o poder da mente. Depois de bem aconselhados pelos gurus, como é óbvio. Pergunta-se daqui: e quantos foram os casos fracassados? Quantas as pessoas cegas pela possibilidade de matarem os seus problemas com a unção mágica dos gurus do “segredo” e que continuaram a ser almas penadas? Qual a proporção de insucesso, quantos os “segredos” que continuaram herméticos?

Ninguém lhes perguntou. As capacidades da apresentadora não autorizavam tanto discernimento. Nem os gurus da seita tiveram a hombridade de revelar que nalguns casos as pessoas que vão até eles não saíram satisfeitas. Quem assim procede não é guru de coisa alguma. Não passa de um charlatão.

4.6.08

Matinais mistérios


A embocadura da manhã desperta numa luz baça. Uma luz que se mistura com as camadas de névoa que se entrelaçam, criando vários anéis numa policromia de luzes que enfeitiça, como se fosse a lava já não incandescente sedimentada ladeira abaixo. O silêncio das ausências casa-se com a magia da primeira luz do dia. Não há melhor maneira de despedir do sono nocturno: contemplar o feixe de luzes que se esgota nuns instantes pelo romper da alvorada.

O crepúsculo esconde os seus mistérios. O seu lado encantador só enquanto os mistérios se encerrarem à revelação. O observador que os contempla estaciona diante dessa luz, embevecido, anestesiado por ela. Recusa-se a furar os anéis de luz embaciada em demanda dos seus segredos. Por receio da revelação terçar uma tremenda decepção e nem então os mistérios matinais resguardarem a seiva que motiva para os longos dias anunciados pela madrugada que se levanta.

São minutos, escassos minutos, em que tudo se suspende no seu êxtase. As ruas desertas ajudam à sedução matinal. E quando a humidade atinge o seu zénite com a erupção da alvorada, tudo se conjuga num fantástico quadro que se revela. O amplexo de sensações convoca um promontório onde muita paisagem desfile diante da vista. Ao longe a luz esbate-se, como se o ténue fio do horizonte se fundisse com os montes disformes. A separar o distante horizonte, os vales numa cadência irregular. Os montes descem, vertiginosos, em direcção às águas remansosas dos regatos onde os vales terminam em seus leitos. Línguas de nevoeiro escondem o fio de água, alimentam-se nestes caudais que escorrem com a lentidão primaveril das chuvas já escassas. Assim que os olhos fitam o longínquo firmamento, percebem a mescla de névoas que se acumulam no ar, sucessivas camadas com espessuras diferentes, a policromia das névoas. Entrada a manhã dia fora e o sol trepando a caminho do céu, o calor dissolve a humidade matinal. A espessura das névoas desfaz-se em nada, perdendo o rasto à luz embaciada. Agora apenas o lugar à luz tão nítida tornada clara pelo solarengo dia que se compôs.

Junto ao rio os mistérios da manhã adensam-se na espessura do nevoeiro embrulhado nas águas. Por momentos, a visão tolda-se na escuridão da densa névoa que se alimenta no caudal. Há dias em que a persistência do nevoeiro entra pela manhã fora, só ali nas margens do rio. Um túnel simétrico que esconde as águas fluviais dos olhos de quem por lá passa. Nos outros dias a osmose entre as imperceptíveis gotículas e o leito do rio consome-se quando a madrugada terminal se anuncia, cedendo a passagem à manhã que se faz alta. Uma transfiguração que apetece retratar numa sequência de diapositivos, só para admirar as cambiantes à medida que a baça luz se esbate na passagem de testemunho aos poderosos raios do sol que tomou conta do firmamento.

Uma força indomável arremete na admiração matinal. Os passos ténues do dilúculo são a vã expressão do tempo que se retarda. A capitulação perante a pletora de sensações que invadem o espírito, convocando a purificação dos sentidos, a purificação do pensamento. O alvor empresta magia à própria existência. É enquanto dura a alvorada, enquanto a coreografia de luzes embaciadas tergiversa no seu enigma, que chega o nutriente maior para o sempre demorado dia. A ambição maior é que perdurem como mistérios encerrados à decifração. Ou perdem o seu encantamento e nem então a alvorada deixará um rasto perfumado que é a consolação para o dia demorado que está à espera.

As sucessivas camadas de névoa suspensas no ar insinuam os segredos, o alimento da imaginação que frutifica o dia. Ingrediente supremo dos dias altos, plenos, aqueles dias que deixam, no seu restolho, o travo adocicado da vida que apetece sagrar.

3.6.08

Euforia enjoativa


A nação inteira com os heróis da bola ao colo. Os jornalistas empenhados em relatar todos os pormenores, quase num diário intimista dos artistas da bola. O povo histriónico que glorifica deuses com pés de barro. Um povo carente de exaltação patriótica, tão imerso numa acinzentada existência.

Nem sei: se vomitar tamanha histeria colectiva, com o adequado beneplácito até do presidente da república (que sentenciou: o povo português – numa costumeira generalização em que os políticos são pródigos – está com os seus heróis), dez milhões de gargantas gritando o nome da pátria bem alto, dez milhões de corações palpitando acelerados, o tónico que os guerreiros da bola precisam; ou se impera complacência pela anestesia de que a populaça precisa para esquecer as misérias que desfilam todos os dias, para meter a cabeça no buraco e ser como o avestruz, que é debaixo da terra que passa o mirífico filme dos feitos do futebol que orgulham a pátria inteira.

E depois há o azar do local do certame. Dizem os entendidos que tivemos sorte: é a Suíça terra de diáspora por excelência. Os emigrantes andarão com os bravos dos relvados ao colo. Prognostica-se uma vaga de fundo imparável, como se os heróis da bola nem sequer tivessem saído da terra pátria. A Suíça é por estes dias o prolongamento da terra-mãe, holofote cintilante da portugalidade espalhada pelos quatro cantos do mundo. E os emigrantes, tão saudosos da pátria deixada para trás pelas vicissitudes da miséria já abandonada, porta-estandartes da histeria colectiva. Com a boçalidade recorrente de cada vez que um jornalista coloca o microfone diante da boca opinativa de um excitado patrício emigrado trajando as cores da “selecção de todos nós”, com os atropelos à gramática como melopeia da inanidade opinativa.

O que vale dizer que os feitos desportivos são um equívoco que apenas adormecem as pessoas, ou as distrai para as perplexidades que não se esgotam ao tomar o pulso aos indígenas negócios? Estes campeonatos que colocam equipas nacionais em compita são o pretexto perfeito para governantes incompetentes reverterem possíveis feitos alheios a seu favor. O oportunismo militante ao dobrar da esquina: se os bravos dos relvados regressarem com o humilhante travo da derrota, um coro de vaias e insultos à sua espera e os representantes da nação numa diligente ausência. Se o regresso for saldado pelo sucesso, entre os vivas urrados pela horda homenageante estarão suas excelências, coladas ao sucesso dos outros como se neles houvesse alguma razão do feito alcançado nos relvados.

Tudo o que ressoe a unanimismo tem um travo doentio, um travo que me afasta dos unanimismos. Não consigo reprimir o espírito de contradição que se revolve nas entranhas. Alimenta uma vontade indomável de romper com o unânime e exigível apoio aos rapazes de vermelho vestidos que andarão nos relvados como embaixadores do pulsar nacional. Os gritos e choros e angústias da portugalidade, da necessária portugalidade, algo que não me apetece provar, nem menos disso ser intérprete. E ainda que corra o risco de ser acusado de traição à pátria, o feitio contraditório arremete pelo indomável desejo do infortúnio a bater à porta dos heróis nacionais em helvéticas terras.

Eis a demonstração de como somos o contrário da idiossincrasia oficial, a que ensina que este é povo de brandos costumes. A algazarra que acompanha os heróis dos relvados é a negação dos brandos costumes. Ainda nem a competição começou e já está um país inteiro, mais a sua diáspora, em transe, emparelhado entre os achaques dos craques e o convencimento da vitória final. A anestesia colectiva, que leva tanta gente a tristes figuras que porventura os próprios não sonhariam ser capazes, sinal da euforia instalada. Uma euforia que se confunde com uma histeria nada diferente dos gritinhos e chiliques de adolescentes raparigas em concertos onde estrelas do rock devotados à androginia debitam inanidades musicais.

Perante este lamentável espectáculo, manda a sanidade mental que faça o mesmo que prometo em cada campanha eleitoral: banir noticiários dos ecrãs da televisão. Para não me agoniar na confrontação com o espectáculo eufórico, o encantamento imberbe dos anónimos populares que só querem ter uma visão – no sentido metafísico da palavra – do herói preferido, ou a prosápia dos entendidos ou não tanto que asseguram vitórias em todos os jogos. Tudo isto enjoa, tudo isto é terceiro-mundismo em potência, tudo isto é uma interminável exibição da mesquinha forma de ser da gentalha. Uma nova religiosidade, emproando a bandeira (tantas vezes colocada às avessas à janela nas casas da populaça). Ah, como é belo este orgulho pátrio! Ou belo, ou apenas um bocejo a culminar o enjoo sem fim.

2.6.08

O tabaco, a nova praga


Há empresas que puseram processos disciplinares a trabalhadores que têm o pecadilho pessoal de serem fumadores. Acusam-nos de promoverem a perda de produtividade, pois têm que se ausentar do local de trabalho para satisfazerem o vício. Enquanto soltam as baforadas de nicotina, não estão a contribuir para a laboração da empresa. De acordo com a notícia, estima-se que o prejuízo de produtividade atinja 15%.

Decerto os proprietários ou gestores daquelas empresas não querem apenas mudar os hábitos dos funcionários, levá-los através do processo disciplinar à mesma profiláctica promessa do timoneiro da pátria: que hão-de deixar de fumar, tão arrependidos estarão de terem um dia experimentado as delícias da viciante nicotina. Não, naquelas empresas aproveita-se uma lei deletéria – a que proibe o tabaco em qualquer local fechado – para promover o despedimento dos que carregam o opróbrio de serem fumadores. E eis como uma lei abre as portas, de par em par, a uma lamentável perseguição. Eis como uma lei ostraciza hábitos. Uma lei com a pretensão de alterar hábitos. Assim se molda a sociedade, pela régua e esquadro da lei.

Não sei se seriam previsíveis estes efeitos retumbantes de uma lei persecutória dos fumadores. Já estou a ver os impiedosos críticos da “teologia do mercado” a puxarem os galões. Este episódio será a prova de como os capitalistas são uns oportunistas que se aproveitam de uma lei para despedirem os funcionários que causam uma quebra na produtividade. São oportunistas ao lançarem mão do pior que a lei tem para baterem a porta aos funcionários que não conseguem reprimir o vício durante as horas laborais. A linha argumentativa dos tecedores do anti-mercado irá mais longe: que esta lei é o resultado de uma cumplicidade atroz entre os falsos socialistas no poder e o “patronato”. Aliaram-se para agilizar despedimentos através de uma das consequências da aplicação da lei anti-tabaco.

Como toda a moeda tem o seu reverso, também se pode defender o oportunismo dos sacerdotes da religião anti-mercado. E arranjar argumento contrário: desmerecendo o fantasmagórico conluio entre os falsos socialistas e os capitalistas, que não há-de passar de imaginativa teoria da conspiração. Que a lei anti-tabaco (permita-se-me assim apelidá-la, porque é o que ela é) é o produto da fobia pelo politicamente correcto que enxameia este governo, sem qualquer combinação debaixo da mesa entre ministros e nefandos capitalistas. A lei ofereceu o pretexto para alguns empresários que se acham espertos despedirem aqueles que passaram a ser obrigados a ir a rua sacar do cigarro. Não foi o mercado que perverteu; foi uma lei, o produto de uma política pública, que ofereceu em bandeja a possibilidade dos capitalistas serem oportunistas. A raiz do mal está na lei. Sem ela, os empresários não teriam como despedir quem saísse das instalações da empresa para saciar o vício da nicotina.

As coisas estão de tal modo que foi noticiado que já há empresas que excluem os fumadores em processos de recrutamento. Fazem-no às claras. Com a cobertura de uma lei tão repressora para os fumadores, têm à mão de semear a ferramenta que as autoriza a excluir à partida quem seja fumador. Isto vai incentivar a mentira metódica, com fumadores necessitados de trabalho a esconderem o vício que carregam. Ou então estamos na senda de uma alteração de hábitos, com um acantonamento dos fumadores, quase remetidos para campos de concentração. E as coisas estão de tal modo que os fumadores em espaços fechados para si criados são olhados pelos outros como se fossem exóticos animais em jardim zoológico, alvo da curiosidade dos transeuntes que para eles olham como estranhas criaturas empunhando um cigarro.

Neste assunto sinto-me à vontade: não sou fumador, nunca o fui. A metódica perseguição aos fumadores incomoda-me. Sinto uma irreprimível solidariedade com os fumadores. Por este andar, começam a coleccionar-se pretextos para mais intrusões na esfera individual, a cada passo que iluminados que se acham imbuídos de dotes especiais para conduzirem o rebanho descobrirem mais um reduto de hábitos pessoais que devem ser mudados. As liberdades individuais começam a esfarelar-se diante deste activismo dos engenheiros sociais que chegam ao poder.

No final, é a liberdade como valor que está hipotecada. Só não se percebe a tremenda incoerência em que o Estado mergulha, o mesmo Estado que persegue impiedosamente fumadores e cauciona outras perseguições (como a dos despedimentos que poderão atingir fumadores): por que não tem a coragem de proibir o tabaco? A resposta está diante dos olhos e tem a cor dos cifrões.