7.10.08

Volantes, velocidades, adrenalina, testosterona e essas coisas todas


(Aviso: texto contendo material eventualmente discriminatório em termos de género.)


Futilidades, decerto. Mas há quem goste. Das sensações arrepiantes da velocidade ao volante de um automóvel. De preferência com muita potência domada pelo pé direito pisando furiosamente o pedal do acelerador, sem dó com o motor que grita a pulmões abertos. É um facto que há por aí muito pipi que adora pavonear-se em bólides, só para fazer inveja aos arrivistas do meio social (eles próprios, pipis envaidecidos com o sinal de ostentação, arrivistas na máxima expressão). Não passam dessa cepa torta. Incapazes de sentir a adrenalina que se liberta se deixassem à solta a seiva selvagem que na maior parte do tempo vive adormecida debaixo do capot.


Infractor, por vezes, me confesso. Cada vez menos, que a sanha persecutória da brigada de trânsito, à cata da multa por excesso de velocidade, é ingrediente do nutrido Estado policial que é adorado pelos socialistas em funções. E as multas são, elas também, nutridas. Como o dinheiro custa a ganhar, impõe-se o recato que torna o pé direito leve como uma pluma - quase uma castração. As sensações da muita velocidade são pouco dadas a descrições através da palavra. Sentem-se, e está tudo dito. Que me interessa que seja acusado de inconsciência? Arrematava o problema se dissesse que das poucas vezes que sou infractor do código da estrada o faço dentro dos parâmetros de segurança (meus e dos outros) – pois logo haveria quem contrapusesse que isso dos "parâmetros de segurança" é muito relativo, ao que viria a minha réplica: "nem mais"; tanto se pode morrer de acidente de automóvel ao cabo de manobras eivadas de loucura, como a meio de uma tranquila e cumpridora viagem.


Dos quadrantes que se acham possuídos por um manto de superioridade moral virá a advertência de futilidade. Só que os arautos da superioridade moral são-me indiferentes. Quanto mais esbracejarem a dita superioridade, mais me apetece fazer muito do que eles condenam do alto da sua tão elevada pose. Haverá ainda sábios ambientalistas a acenar com a cabeça em tom de reprovação, sentenciando: tanto combustível estupidamente desperdiçado enquanto me entrego à fútil sensação da velocidade. É uma outra forma de imperativo moral que me incomoda. Todos por junto, que se deitem com as suas dores de consciência – que as hão-de ter – e deixem os outros entregues às suas particulares demandas.


O paraíso está na Alemanha. Onde há auto-estradas sem limite de velocidade. À falta de melhor, há kartódromos onde se descarrega a adrenalina acumulada ao longo dos dias que são espartilhos das sensações. Ou testes de automóveis feitos num autódromo, aproveitando a pista fechada ao trânsito para puxar o automóvel pelo máximo das suas capacidades, escutar o silvo dos pneus, testar os limites da aderência, o corpo empurrado por acelerações ferinas. Um pouco de vida no fio da navalha, sempre dentro dos limites contidos da segurança, sem desvarios que testam as fronteiras do possível. A diferença entre a sensação estonteante da velocidade que desfila a ritmo furioso e a inconsequente loucura que desata em asneiras com um preço para o corpo.


As indescritíveis sensações coroam-se com uma espécie de lavagem por dentro quando termina a função. Nessa altura, parece que o tempo passado em devaneios de elevada velocidade se resumiu a uns instantes, tão fugazes. O relógio desmente-o. A muita velocidade tragara a noção do tempo, como se a velocidade furiosa exaurisse o tempo e os minutos e segundos tivessem uma outra dimensão. Eu digo que há em tudo isto algo de masculino. Raras as mulheres que se deixam inebriar por este tipo de sensações. Diz-me um amigo que leu uma reportagem que tentava provar, com a ajuda da ciência, que a separação de sexos no usufruto da velocidade ao volante de um automóvel tem uma explicação cromossomática. Aos genes femininos faltam certas hormonas que se excitam com as velocidades alucinantes. É o que explica o embevecimento parvo dos exemplares masculinos – é só vê-los, aparvalhados, com um ar lunático, quando se despedem do potente automóvel que acabaram de experimentar a alta velocidade no resguardo de uma pista encerrada ao trânsito.


Porventura, por tudo isto é que o sexo masculino leva a palma, e esmagadoramente, nas competições automóveis.


6.10.08

Antropologia do crime


A sociologia de pacotilha que abunda por aí assegura que a criminalidade anda nos píncaros por causa da crise económica. As gentes andam desesperadas, vivendo à míngua por entre as migalhas que a crise vai deixando no caminho. No auge do desespero, as gentes descambam para o crime. É o que lhes resta. Nesta lógica, teríamos condescendentes juízes a arranjar causa desculpabilizante para os crimes motivados pelo desespero alimentado pela profunda crise. Seria uma roda livre: mais pessoas apercebendo-se que haveria na crise o pretexto para tresloucados actos que os sentassem no banco dos réus. Logo de seguida um compassivo juiz – porventura com a mesma doutrinação maoista da senhora que combate a criminalidade económica e a corrupção – a passar uma esponja nos descaminhos da lei.


Não é teoria que me convença. Também não concordo com aqueles que tentam dar uma ajuda ao ministro da administração interna, o Rui Pereira pau-para-toda-a-obra (ele tanto é ministro dos polícias, como esteve no tribunal constitucional, como tem perfil para ser ministro da agricultura, ou das finanças, como nem seria de estranhar que entrasse para governador do Banco de Portugal, tanto o perfil plurifacetado do cromo). Acham que não há mais crimes, nem sequer tem aumentado a criminalidade violenta. O que se passa, dizem, é a comunicação social de sarjeta que faz notícia de cada crime e aumenta as proporções da criminalidade. Só que a realidade não é tão doce quanto este governo e os seus acólitos gostariam que fosse.


Tem muito que se lhe diga a maneira de pensar de um criminoso. Sem distinção de crime – tanto faz o pequeno crime como o crime mais repugnante, o que dá direito a uma boa maquia de tempo na cadeia. Vou daqui retirar os homicídios e todos os crimes sobre outras pessoas. Só os crimes motivados pelo desejo de enriquecimento, e da maneira mais fácil, que é sem as pessoas se darem ao trabalho de trabalharem. É gente que arrisca um bem inestimável (a liberdade) na aposta do súbito e fácil enriquecimento. A linha entre a liberdade e as masmorras é uma ténue linha. Quando dão conta, e quando as polícias são diligentes na investigação e os tribunais se esquecem de ser complacentes, já acordam encerrados numa cela. Nessa altura, interrogo-me, se por entre o arrependimento farão cálculos sobre o risco que correram na ânsia de enriquecerem pela via mais fácil.


Se fosse gente mais instruída, com certeza que a prática do crime seria precedida de cálculos cuidados que pesariam, em dois pratos da balança, o risco de privação da liberdade e os proventos generosos do acto punido com pena de prisão. Sociólogos, com a ajuda de economistas que construíram complexos modelos econométricos para medir as imensas variáveis em causa, teriam a resposta na ponta da língua. Acontece que raras vezes os meliantes que procuram fácil enriquecimento através do crime têm conhecimentos, rudimentares que sejam, de sociologia e de econometria. Entramos no domínio do amadorismo. Ou, diria, do empirismo, a palavra-chave para a tanta criminalidade deste tipo.


O nutriente da criminalidade que cresce em flecha não é a penetrante crise económica que semeia desespero. É o sentimento de impunidade notado entre as gentes que se deixam sucumbir pela tentação da criminalidade. Há gente muito importante que vive mergulhada em luxos principescos e que, pelo menos se suspeita, lá chegaram por meios repudiados pela lei. Ou gente que corrompe e intimida quem lhe aparece pelo caminho como obstáculo, espalhando um rasto de terror, uma espécie de máfia em pezinhos de lã. Vão passando entre as gotas de chuva sem se molharem. Quase um milagre, não fossem os esconsos meandros do direito que dão azo à existência de curandeiros (advogados espertos, muito espertos – tanta a esperteza como a ausência de escrúpulos) que os safam das masmorras com manobras processuais, ou a inepta investigação policial que dá ensejo às manobras processuais, ou juízes que proferem sentenças incríveis.


A gentinha mais anónima, que endeusa esses personagens que continuam a viver à margem da lei e ainda se pavoneiam como senhores exemplares, tenta aplicar os ensinamentos dos seus heróis. Afinal, pensa a gente corriqueira, os heróis provam que compensa andar à margem da lei. Com um pouco de sorte, um pouco de jeito e, caso as coisas corram mal, um advogado idóneo, tudo se compõe. Quando dão conta, nem houve sorte, nem menos jeito e os advogados trutas que conseguem o milagre de pôr em liberdade o criminoso mais evidente são escassos e muito, muito caros.


Nessa altura, já entre o sol perfurado pelas grades da cela, alcançam que o cálculo do risco foi tão errado quanto as negativas que tiravam nos exames de matemática enquanto penaram na escola.


3.10.08

A máfia (socialista), contada às criancinhas


Aos petizes, contem-se histórias que exaltam a excelência da democracia. Contem-se, até, imperativos categóricos que são património genético do pensamento correcto. Uma certa moralidade da época moderna que atravessamos, tutelada pelos generosos artesãos socialistas. Para ir formatando as criancinhas aos poucos: ao baterem à porta da adulta idade, já convencidos que é irrecusável a escolha de socialistas para serem bem governados. Tudo de mansinho, de forma insidiosa, quase sem que se dê conta das ardilosas estratégias, pois antes somos anestesiados para não darmos conta das falcatruas que distorcem a democracia.


Só que há histórias que são rapsódias mafiosas, de como quem detém o poder o manipula para lá se eternizar. Ou de quem manobra no poder para enviesar eleições, mexendo os cordelinhos para prejudicar um autarca de cor diferente e estender o tapete à socialista aspirante à autarquia que, coincidência, se acabou de saber que vai a votos nas próximas eleições. Ele há coincidências notáveis.


É uma história de pormenores indecorosos. Havia planos assinados para obras no metro do Porto. A autarquia, porventura ingénua, porventura até mergulhando em irresponsabilidade, antecipou obras na zona para onde julgava que se iria estender a rede do metro. Foi passando tempo, prazos para decisões do governo ultrapassados, decisões adiadas. Começava a cheirar a esturro. Agora que falta um ano para as eleições autárquicas, e logo agora que parece haver acordo no aparelho socialista quanto ao nome da escolhida para roubar a autarquia do Porto ao partido concorrente, o improvável ministro das obras públicas – o homem que tem o livro de cheques na mão – decidiu e está decidido. O metro vai para outro local da cidade. Às malvas os planos, os acordos assinados, as intenções passadas a palavras e imortalizadas na comunicação social. Para o mundo ser um lugar perfeito para a seita socialista, aos súbditos a acrítica obediência, de preferência no silêncio. Só que o mundo não é todo cor-de-rosa.


Cheira a trabalhinho encomendado. Com alvos certos – o alvo a abater e o alvo a levitar até à sinecura. Isto não é uma manobra leal de combate eleitoral. Não pertence às manobras que condizem com a tão elevada moral que os sacerdotes socialistas não se cansam de apregoar – a sua moral tão boa, a dos outros, inevitavelmente reprovável. Já nem sei se é do ministro das obras públicas ainda trazer consigo o lastro da anterior militância comunista, ou se maquinação do aparelho socialista, a "partidarite" na pujança das suas excrescências. Afinal, as eleições são para ganhar. E há eleições mais apetitosas, nuns sítios mais do que noutros. Como era tão bom que o mapa saído das eleições fosse todo pintado a cor-de-rosa – hão-de pensar com os seus botões (também cor-de-rosa). Como não há mundos perfeitos, já se contentam em apagar de locais emblemáticos (e a segunda cidade do país é-o) manchas incómodas que trajam de outra cor. Sem dar importância aos meios usados para lá colocar uma das suas militantes, manobrando às escondidas para ocultar a tremenda batota que estão a encenar.


Depois pode-se discutir: é aceitável, a batota (que eles nunca hão-de admitir que o é, batota)? No complexo jogo das manobras eleitoralistas, vale tudo – até pisar os esteios da igualdade de condições com que os oponentes vão a votos? É legítimo que um dos concorrentes à autarquia tenha os préstimos do governo, a agenda do governo feita de esperas e compassos e decisões em sintonia com a oportunidade da agenda da aspirante à autarquia que tem a mesma cor-de-rosa? Isto não é distorção das condições de igualdade, e ainda para cima instrumentalizando decisões do governo só com propósitos eleitoralistas? Não interessa a racionalidade da decisão (da relocalização da nova linha do metro): o que importa é tirar o tapete ao autarca actual, lançar sobre ele o opróbrio público. Esta maquinação tresanda a trapaça de cima a baixo. Quem disse que eram os socialistas campeões da transparência e das práticas que sagram a democracia?


Estas aleivosias põem-se a jeito de rótulos pouco edificantes: chame-se-lhe batota, chame-se-lhe comportamento mafioso, o que aprouver. Não houvesse um vasto oceano de diferenças ideológicas a separar-me dessa seita, sobrava o argumento derradeiro para nunca depositar o meu voto na máfia socialista: higiene mental. E vergonha.


(Declaração de interesses final: não conheço o autarca do Porto; não contribuí para a sua eleição; e garanto que não vai ter o meu voto nas eleições do próximo ano.)


2.10.08

No reino dos ogres


De cada vez que Hugo Chávez aparece é a boçalidade em pessoa que desfila diante dos olhos. Posso estar comprometido com a impressão que a personagem me causa. Também é verdade que tanta incontinência verbal traz vantagens: ter um elemento circense na política internacional, é um favor que me fazem. Nem que mais não seja para desanuviar a atmosfera sempre solene, tão carregada, tão cinzenta, de figurões impassíveis a mostrar toda a sua decência e respeitabilidade. O caudilho da Venezuela é todo o contrário daquele retrato. No meio do disparate militante, actua como um elemento terapêutico: por um lado, só para reafirmar convicções (nos antípodas das suas); por outro lado, as suas apatetadas figuras desembotam a boa disposição.


As encenações televisivas da figura nada ficam a dever às feéricas telenovelas produzidas no país onde é ditador. Aquelas camisas vermelhas, de tão garridas que até ofuscam a vista, já sinal distintivo de um certo folclore que encanta o fiel séquito e enternece críticos pela fanfarrona figura que destila ditirâmbicas oratórias. Vejo-o e ouço-o e adivinho boçalidade em pessoa. A ter modos grotescos em banquetes onde amesenda com os amigos que foi granjeando na política internacional – tudo gente que se recomenda, a começar no camarada Fidel de Cuba, passando pelo presidente do Irão, pelo tirano da Bielorrússia, pelo apedeuta Lula da Silva, terminando no predestinado timoneiro da terra lusa. Se há traço comum a todas estas personagens? Lunáticos, todos (porém em dose variável).


Cada instante reservado à prosápia da personagem traz-me um delírio imaginativo. Toda aquela incontinência verbal e mental só pode resultar numa pose que provoque discreto incómodo nos anfitriões que o recebem, contido incómodo, contudo. Aposto que não se ensaia para libertar sonoros arrotos ao cabo de opípara refeição onde se banqueteou como um príncipe, devorando as iguarias, disparando gordurosos perdigotos enquanto come e fala ao mesmo tempo. Às urtigas as madames que ostentam tratos de polé, discretamente chocadas com a boçalidade do que se considera herdeiro de Bolívar. Obrigadas à genuflexão, as senhoras do corpo diplomático deixam o banquete só depois da exigível vassalagem que o tiranete acha merecedora.


Ou imagino-o, em digressão por lugares emblemáticos de braço dado com o congénere anfitrião, este no papel de cicerone, e a audível flatulência a invadir as redondezas. Sem um esgar de vergonha, gabando-se do feito, deixando que os outros corem de vergonha na sua vez. Há-de até soltar laracha para compor o momento, que só nele não é embaraçoso. Deve ser da minha parcialidade, pois não deixo de imaginar Chávez o campeão dos peidos. Lá onde o horizonte ganha luminosidade, consigo discernir uma explicação. A verborreia acintosa do proto-ditador venezuelano tem o odor da flatulência generosa com que presenteia os que o convidam para visitas oficiais. A verborreia que mais parece encontrar inspiração na actividade intestinal que perfuma os lugares por onde passa.


Há declinações imaginárias que pertencem a certas personalidades públicas, parecem seu património genético. O presidente da câmara de Gondomar em sonoros arrotos em almoços oficiais. Um sisudo ex-presidente da república que é o anti-clímax das emoções. O actual presidente da república, que vem ganhando uma espessura de austeridade injectada pela tão elevada solenidade do cargo, e tão beato que é em pessoa o anti-clímax sexual. Como havia Bokassa antropófago. E há em Angola um ditador também esfíngico, de uma frieza cruel, senhor para ordenar torturas com a mesma naturalidade de quem se senta à mesa para um lauto pequeno-almoço enquanto lê sumários técnicos dos consultores que tratam das suas aplicações financeiras. Ou ainda o pipi que governa a França, que muitas horas perderá diante do espelho a contemplar a sua esbelta figura.


Concedo: as imagens que construímos podem ter um tremendo alçapão debaixo dos pés, as pessoas assim retratadas afinal todo o seu contrário. Só que nestes tempos em que quase só se cultiva a imagem, as figuras que se entregam nos braços de uma imagem edificada com precisão cirúrgica não conseguem escapar dos rótulos (fantasiosos ou não) que a turba lhes aplica. Os olhos cerram-se e chegam ao santuário da imaginação, pintando na tela as personagens em todos os detalhes imaginados.


Por que não hão-de as esquerdas ter direito ao seu ogre privativo? Até proponho: um duelo entre a personagem tão vituperada pelas esquerdas, tão achincalhada pela sua enorme boçalidade (Alberto João Jardim), e o ogre da Venezuela.


1.10.08

Os pesarosos lamentadores de si


Algumas almas penadas. Solicitam, compungidos, comiseração alheia. Voam sobre nós em pose sofrida, num interminável coro de lamentações. Não há mais ninguém tão sofredor como eles. Fazem gala da melancólica existência que levam. São carpideiras de si mesmos. Arrastam-se em público imersos nas suas lamentações. Como se quisessem partilhar a sofrida existência com os outros. Fosse essa a maneira de repartir os males interiores com os demais, julgando que as suas dores particulares se esmaecem com a piedade que reclamam dos outros.


Neste mundo estranho, tanto há quem sinta uma irreprimível vontade de enaltecer o ego como há outros que navegam em maré contrária, convencidos que são a alma mais penada com que o mundo travou conhecimento. Tenho para mim: nos dois casos, egos mal resolvidos. Uns, tão inebriados com a sua própria existência, esfregam na cara do mundo como o mundo gostaria de ser tão excelso como eles. Os outros, ao contrário, no pungente auto-retrato que os coloca no papel da gente mais desgraçada que se possa imaginar. No entanto, há aí um paradoxal ensimesmar. Tentam convencer os olhos do mundo que são o pior exemplo que o mundo pode conhecer. Não se cansam de se oferecer nesse altar sacrificial, sucedâneo de kamikazes em prol das virtudes que o mundo deve cultivar. Sabendo que, se essas virtudes cultivar, os lamentadores de serviço são as cobaias que mostram por onde os pés da virtuosa gente não devem pisar.


As almas compungidas teimam em prosseguir a sua particular via-sacra. Na perene auto-lapidação. Convencidos que são o pior exemplo entre a humanidade. Neles, os defeitos sem fim. Se houvesse um campeonato onde rivalizassem as tristezas próprias, cada uma destas carpideiras de si reclamaria o lugar mais alto do pódio. Até nas comoventes descrições dos tormentos que os afligem se encerra um contra-senso: o desnudamento das lamentações, o corrosivo ácido que os consome pelo interior, é a piedosa exibição com laivos de caritativa comiseração que os demais hão-de exibir, sejam eles compassiva gente. A exposição dos males interiores, o seu esbofetear nos outros em constante apiedar interior, um mal legado a quem se destina a procissão das particulares angústias.


Não conseguem ter decoro no exibicionismo das suas particulares aflições. Servem-se dos hábitos instalados: convencionado que está que as gentes devem comiseração aos desgraçados do mundo, empertigam-se nas suas maleitas e irradiam-nas, como se fossem vistosas coisas, aspergindo pétalas tristonhamente negras para que os outros possam ser testemunhas das suas aflições. Para que eles sejam curadores das suas aflições. Sentir-se-ão apaziguados ao saberem que há um séquito que partilha a sua pungência. Que interessa que semeiem entre essa gente um mal-estar interior, o produto da partilha das aflições que aos pesarosos dizem respeito mas que acabam por tocar quem delas padece por contágio.


Estas almas compungidas são como pirómanos. Ateiam fogos em outras almas, ao início não atormentadas – ou, senão, apenas atormentadas pelas suas interiores angústias. As palavras que avivam as feridas em carne viva são como as chamas alimentadas pelo vento indomável que espalha as cinzas pelo arvoredo ressequido. Vítimas inocentes da choradeira infindável que as carpideiras de si gostam de ostentar. Os que se especializam na arte da auto-lamentação chegarão a discernir que contagiam as suas interiores angústias por quem deles se apieda?


Não me quero convencer que a exteriorização das lamentações próprias é um acto de maldade. Prefiro olhar para o gesto como desesperada tentativa de amparar as dores lancinantes que incendeiam as suas veias. O clamor condoído que chega aos ouvidos e aos olhos dos demais será apenas um gesto de desespero: o desalento da sua incapacidade. Só que de tanta comiseração solicitada aos demais, a certa altura a esgotada paciência não admite mais compaixão. Nessa altura, a cansativa ladainha assemelha-se a um insólito voyeurismo de dentro para fora. Uma ladainha que espalha as angústias próprias aos demais. Como se eles tivessem que partilhar essas angústias. Ou fossem culpados pelas aflições que incomodam a existência alheia.


30.9.08

Imagem de marca


É curioso: como no epitáfio de Paul Newman grande parte das fotografias que aparecem na imprensa retrata uma das imagens de marca do artista – um cigarro na ponta dos dedos, ou um cigarro negligentemente no canto da boca. Antes do óbito de Newman, li algures que se fez constar que empresas tabaqueiras pagavam a certos artistas para serem sua imagem de marca. Num mundo tão dado a fantasias e a teorias conspirativas, nem interessa saber se há aqui um fundo de verdade ou se é mais uma elucubração fantasiosa de gente que não tem mais que fazer ou que se entretém a fabricar novas verdades só para o seu nome aparecer, por uma vez que seja, sob a luz dos holofotes.


Vem isto ao caso porque construir uma imagem parece uma tarefa indeclinável dos tempos correntes. No imaginário colectivo, então, as imagens funcionam como um roteiro necessário de identificações e pertenças. Ou podem actuar como espelhos refractários, um conjunto de sinais que reproduzem a desidentificação com a nacionalidade que o lugar do nascimento atribui como espartilho sem fuga possível.


Já trouxe aqui, em texto anterior, o viveiro de idiossincrasias que é a sala de embarque de um aeroporto de um voo de regresso à terra pátria. Um mostruário perfeito, em pequena escala, da terra que se encontra depois de umas horas de voo até a casa. Ontem, novo episódio significativo reforçou a convicção de que as salas de embarque nos aeroportos são o laboratório onde nidificam as espécies representativas da portugalidade no seu pior. Tal como o cigarro era a imagem de marca de Paul Newman.


A sala de embarque já cheia de gente ansiosa por regressar à santa terrinha, de permeio com alguns estrangeiros em viagem de negócios e um par de turistas japoneses em demanda das maravilhas indígenas. À minha frente um portuguesinho típico, já entrado na quinta década de vida. Baixa estatura e roliço, faces rosadas, o ralo bigode que foi outrora paradigmático da lusa masculinidade. Lia um livro esotérico, sobre o "segredo" – ou de como toda a gente, desde que bem treinada pelos truques do "segredo", é capaz de atingir tudo a que se propõe só com a destreza da força mental bem subordinada aos interesses do objectivo.


Entretido com a leitura, espetou um dedo mindinho bem fundo na narina direita. Começou a escarafunchar, com movimentos que se assemelhavam a uma escavadora em plena função. Com a naturalidade de quem o faz no recolhimento da ausência de outras pessoas. Só que ali estavam à sua volta quase cem pessoas, todas à espera do voo. À cata da matéria nasal excedentária, o dedo bem fundo na narina por fim conseguiu cumprir a sua função. Deslizou para fora da narina em pose triunfante. O portuguesinho típico, com o ar aliviado, trouxe a excrescência nasal em visitação do ar puro. E para apreciação de quem partilhava com ele a sala de embarque no aeroporto.


A função ainda não tinha terminado. A escabrosa encenação prosseguiu para o acto seguinte. Encantando com a obra de arte retirada das profundezas da cavidade nasal, o homem deteve-se com atenção na excrescência que tinha acabado de subtrair ao seu leito. Contemplou-a durante alguns segundos, parecendo orgulhoso do feito. Afagou a excrescência nasal, tacteando-a com pose deliciada, imediatamente antes de a disparar em direcção do vazio. Percebi que não era o único espectador do admirável acto. De frente para o homem, havia mais gente a tomar conta dos gestos maquinais da boçalidade sem remissão. O homem, possivelmente inebriado com a leitura de tão elevado calibre, parecia anestesiado, muito distante daquela sala do aeroporto. Parecia que estava rodeado por nada nem ninguém, tamanha a naturalidade com que tratava da higiene nasal. As pessoas ao largo, entre a náusea e observação antropológica.


Os empenhados sociólogos andam enganados ao reproduzir em laboratório os comportamentos indígenas, na tentativa de lhes capturar os sinais identificativos. Perda de tempo. Se andassem pelas salas dos aeroportos onde aguardam embarque os passageiros de voos para a lusitana terra, o trabalho ficava facilitado e o resultado da investigação era mais fidedigno.


29.9.08

Capitalismo suicidário


Aposto que ninguém, no seu juízo (a menos que seja adversário figadal do regime capitalista), fica contente quando irrompe uma crise. Menos ainda com a magnitude e, sobretudo, a incerteza que a actual crise arrasta consigo. Pelo que leio, a crise tem o condão de por alguma gente bem-disposta. Os habituais profetas da desgraça, que povoam certas esquerdas, que agora estão com a sua moral de papo cheio e repetem por todas as esquinas: "eu não dizia?"


Fico satisfeito por esta gente estar tão enternecida com a crise que tem ido de surpresa em surpresa, deteriorando a confiança, fazendo mais negras as nuvens de incerteza que pairam sobre o amanhã. Querem fazer o funeral do capitalismo. Alguns, menos radicais, viraram as costas aos mesmos capitalistas com que amesendaram tanto tempo. Agora acusam-nos de ganância, de serem os responsáveis pelo estado calamitoso dos mercados financeiros, com o angustiante contágio à economia real. Estes, menos radicais e, contudo, mais hipócritas, asseguram que a saúde da economia só se restabelece com muita regulação. Também eles esfregam as mãos de contentamento: vêm uma nesga para subordinar os mercados ao controlo dos políticos, para pôr fim à rédea solta dos mercados.


Continuo a acreditar nas virtudes do capitalismo. Não há outro sistema económico que chegue aos calcanhares. Do que me não convenço é do capitalismo adulterado que a internacional socialista prega como destino inevitável para os dias que se seguem. Teremos que deixar passar o tempo para ver se a mão mágica do Estado conseguiu corrigir os desatinos da mão livre dos mercados. Há-de se fazer um balanço quando os efeitos começarem a ser notados. Não quero antecipar esse tempo. Apenas me coloco na posição de desconfiança metódica. De quem descrê dos predicados mágicos do Estado. Com uma agravante: os políticos contemporâneos são um hino à mediocridade.


No entanto, os sinais que levaram à crise obrigam-me a reconhecer que o capitalismo, tal como evoluiu até hoje, oferece de bandeja argumentos aos detractores. Não vou dar para o peditório organizado por alguns invejosos de serviço, destilando um despropositado despeito pelos gurus da alta finança e gestores pagos a peso de ouro; li descrições dos sinais exteriores de riqueza e do sumptuoso, mas flácido, estilo de vida dos gestores e gurus que se não são sinais de pura inveja, não sei o que sejam. Parece que os mercados financeiros atingiram tamanho ponto de sofisticação que nem os seus agentes conhecem os instrumentos que a criatividade inventou. Ou seja, não será ganância; é a armadilha da criatividade. É curioso que de algumas esquerdas certifiquem diagnósticos impiedosos que lacram a ganância da gente que gravita na alta finança. Só não percebo como são capazes de conclusão tão lapidar quando se gabam de serem inigualáveis optimistas antropológicos. Em que ficamos: os nefandos capitalistas são a excepção à bondade genética da raça humana?


Para os cânones que agora ficaram na moda – quem é louco ao ponto de continuar a defender o capitalismo como ele era quando a crise rebentou? –, ecoará um coro acusando-me de ser "fundamentalista do mercado". Não incomodam os rótulos pespegados por outros. Importa-me mais o que sei que sou. Entre os profetas da desgraça que andam em estado de nirvana com o colapso de bancos e mais bancos, e os curadores da imprescindível regulação para amestrar os selvagens mercados, continuo a ter mais confiança nos mercados. Funcionaram mal, é factual. Outro facto é o erro colossal de internalizar os prejuízos à custa de quem paga impostos (solução dos Estados Unidos, esse perigoso antro de "neo-liberalismo"; e mete-me espécie: como um antro do "neo-liberalismo" adopta uma solução que está nos antípodas do liberalismo; e como os tais profetas da desgraça se esqueceram de dar a mão à palmatória e não vieram a público emendar-se, admitindo que afinal aquilo é um antro, só que não de "neo-liberalismo"). Fica por saber se a iniciativa partiu dos políticos, ou se foram os capitalistas que, de calças rotas e mão estendida, suplicaram pela ajuda salvífica do quase divino Estado. A provar-se a segunda hipótese, sou eu que dou a mão à palmatória e começar a desconfiar dos capitalistas.


Há mercados que funcionam mal? Mas é óbvio. Um mercado, como o capitalismo, é uma construção humana. Falível, portanto. Negar isso, só com a mesma cegueira dos que estão de baioneta apontada ansiosos para disparar as balas da culpa aos capitalistas – por tomarem a árvore pela floresta. Dou este exemplo: soube há dias que há gente muito esperta, mas sem escrúpulos, que agencia trabalhadores romenos para as vindimas do Douro. Esta máfia execrável fica com um terço da jorna paga aos trabalhadores. Não me recordo dos detalhes dos números, mas com a quantidade de trabalhadores agenciados esta corja consegue reunir um pecúlio mensal que pouca gente aufere com trabalho honesto. Pergunto: o mal é do capitalismo, ou da falta de escrúpulos que alimenta uma deplorável ganância?


Mas, no fim de contas, estes não são tempos de glorificação dos fins e de desprezo dos meios?


(Em Frankfürt, em trânsito)

26.9.08

O mar interminável


Atravesso o Atlântico. Dez mil metros abaixo, o mar interminável. As horas passam, e o mar que nunca mais acaba. Primeiro sem o ver, só a pressenti-lo com o senso comum (vira as ilhas britânicas a ficarem para trás) e a ajuda da tecnologia (num ecrã à minha frente desfila o trajecto que o avião sulca). Só o pressentia, tapado que estava por umas nuvens densamente acasteladas que coreografavam o avião em moderada turbulência. Depois veio a bonança. E o interminável espelho de água lá em baixo. Ao início, de águas mansas, um chão plácido onde se deitava o largo oceano. Mais tarde, porventura por uns ventos que mergulhavam na água, discernia-se uma ondulação brava, a espuma das ondas furiosamente soltando-se da parte azul do mar.


Foram horas a fio só com o mar como distante chão. Pus-me a pensar: há quem tenha como ousado projecto de vida atravessar o Atlântico embarcado num navio da marinha mercante. Só se for por contrição contra um mal tremendo em que se debatam, tamanhos os dias de viagem apenas com o mar a cercar a embarcação por todos os lados. Ou serei de uma impaciência relapsa, incapaz para me entregar a refrigérios monásticos.


Dizem que às vezes as pessoas precisam dos seus refúgios. O lugar onde as coordenadas interiores são calibradas, por carentes de calibragem estarem. Um retiro, tão monástico como os retiros conventuais onde impera a frugalidade dos hábitos, onde até o silêncio dói na sua pungência. Não sei quem uma vez me contou esse desejo secreto – de se fazer embarcar como convidado do navio mercante e jogar-se corajosamente à solidão da terra por dias a fio. Na altura escutei o devaneio – já então me parecera apenas um devaneio, juvenil devaneio – e não lhe prestei atenção.


O defeito será meu, pela impaciência que adivinhei caso fosse eu o embarcadiço, por causa da terra firme que tanto haveria de se demorar. Um dia deitei-me a pensar no assunto, a supor-me desvairado para saltar do cais para o convés que haveria de conhecer em todas as suas rugosidades. Tive medo. Que o interminável mar me engolisse, no navio tão frágil diante da força assustadora do Atlântico numa das suas ensandecidas tempestades. Ou, à míngua de borrasca marítima, o pavor do tédio. A imensidão das águas, dos milhares de quilómetros de interminável oceano. Se custa a atravessar na velocidade supersónica do avião, quanto não seria o tédio dos dias de clausura no convés do navio à espera da salvífica terra firme? Tive medo, já com a cabeça recostada na almofada, que me custa a augurar prisões, quaisquer privações da liberdade. Nessa noite, o sono tardou e percorreu toda a noite em sobressalto.


Ao demorar o pensamento sobre o assunto, dias mais tarde, houve um esgar de dúvida no anterior diagnóstico tão célere: como seria admirável testemunhar uma brava tempestade no meio do oceano – surgiu o quadro, tentador. À memória vêm imagens de navios que ficam entregues nas mãos das ondas que revolvem o mar em chocalhos violentos, a embarcação desaustinada de um lado para o outro, como se perdesse naqueles momentos o seu próprio destino, incapaz de domar o rumo por onde queria seguir. A água irrompendo contra o casco ferrugento, o restolho do mar bravio em suas próprias ondas cadentes a varrer o convés. Um vento implacável, sem deixar os marinheiros sequer espreitar o cheiro mórbido que a tempestade cavalga.


Agora seria a minha vez de confessar devaneio juvenil. Impraticável devaneio. Para ser espectador de uma tempestade em alto mar, onde as tempestades debitam toda a sua devastadora força, teria que andar ainda dias incessantes até o navio beijar os braços da intempérie. Até lá, definhava de tédio. Com o mar repetitivo, ora um lençol onde haveria repousado a quietude, ora a agitada cama ao sabor da brisa fresca, a ser o repulsivo cenário de onde irromperia a impaciência.


As promessas, quando são esperadas com ansiedade, às vezes desaguam em decepção. Esgotado o interminável mar, quando já começava a acreditar que era infinito, lá em baixo a árida e deserta terra castanha da Terra Nova. Não era grande a diferença.


(Em Edmonton, Canadá)

25.9.08

Quando a propaganda chega a ser pornográfica


A maior vantagem da independência é o distanciamento com que aprecio as manobras da governação e do combate partidário. Seria sempre acusado de estar a defender uma facção se, pelo cunho da crítica, fosse militante de um partido ou pelo menos estivesse nas suas proximidades. É o que acho mais intrigante na cegueira que toma conta de pessoas, muitas delas inteligentes, que fazem ataques à pessoa que critica os seus sem terem o cuidado de rebater, um por um, os argumentos que são o chão onde assenta a crítica.


A reacção desabrida também tem como alvo a abater certos opinadores profissionais que, não tendo filiação partidária conhecida, vão dando sinais de que estão algures noutro lado da barricada. É suficiente para os argumentos dos críticos serem desconsiderados. De permeio, se preciso for, soltam-se ataques ad hominem. Os leais defensores dos mandantes nem percebem o enxovalho a que se abraçam quando tropeçam nos ataques pessoais aos críticos e se distraem do que é importante: os argumentos, as ideias.


Longos vão os prolegómenos. Agora, ao contexto. Da maldita propaganda política, contra-arte onde triunfa quem mais e melhor iludir o destinatário da mensagem, a gente que vai votar. Não quero acreditar que haja estudos sérios que provem que uma imensa maioria das pessoas se deixa atrair pelas artimanhas dos feitores da propaganda, trazidas aos holofotes pelos políticos sucedâneos de actores de terceira categoria. O relógio do tempo testemunha a propaganda mesquinha, a propaganda que espezinha a dignidade das pessoas, a propaganda que é um atentado à inteligência dos eleitores, a propaganda que instrumentaliza – a propaganda na sua indigência. A propaganda que mente indecorosamente. O diagnóstico já é sombrio quanto baste. Os amadores que tudo fazem para se manterem agarrados ao poder tratam de juntar mais alguma fuligem ao cenário.


Anteontem foi um dia magnífico para a propaganda. Tenho o cuidado de retocar a frase: para a propaganda no que ela foi transformada, na desprezível propaganda que desvirtua a democracia. Um fartote de ministros e secretários de Estado semeados por escolas que tiveram o privilégio de inaugurar o computador portátil "Magalhães". Depois da vergonhosa propaganda encenada na anunciação da iniciativa, pensava-se que o governo tivesse mais recato quando chegasse o dia de desembrulhar os primeiros "Magalhães" nas escolas agraciadas. Afinal, fora abundante e concludente a prosa a denunciar o embuste do muito que foi solenemente anunciado em relação ao "Magalhães".


Quando se acreditava que esse episódio tinha ficado registado nos anais da propaganda lamentável, lá saltaram os governantes, em coro, em diligente visita às escolas onde as criancinhas exultavam com prenda tão generosa. Ocasião para ouvir e ler afirmações que entram no panteão do ridículo: o ministro que tutela a comunicação social e faz a gestão da propaganda oficial a assegurar, pela enésima vez, que ficam para a "história", e obviamente pelos melhores motivos; ou o timoneiro a conviver atrapalhadamente com os petizes, tentando usar da linguagem catita a que a criançada está acostumada; ou um qualquer secretário de Estado, impassível diante da rara oportunidade de brilhar ao lado dos superiores, a alvitrar que até os "senhores jornalistas" deveriam ter um exemplar do brinquedo. Estes amadores pareciam mais excitados do que os petizes que se abraçavam à maravilha da tecnologia tirada da cartola. Desbragamento em estado puro.


Foi tudo tão reluzente, tudo tão excitante, que a comitiva terá regressado aos ministérios respectivos a pensar como é inevitável que a populaça lhes renove o mandato. E a maioria absoluta. As pedras da excitação foram, porém, a anestesia para a grotesca propaganda que usou as criancinhas como figurantes necessários. Agora que tanto se fala na protecção da imagem – a mesma RTP servil, minutos mais tarde, passou uma reportagem sobre diabéticos e todos os pacientes apareciam na imagem com uma faixa a tapar os olhos que impedia a identificação – e tantos cuidados se colocam na protecção dos interesses das crianças, o governo tão esplêndido escorregou, sem dar conta, na sua própria casca de banana. Inocentes e indefesos petizes no papel de figurantes do acto de propaganda.


Dizem que há limites para tudo. Eu acredito que mesmo os limites se ultrapassam. Aquela propaganda toda, com os infantis estudantes a servirem os propósitos da propaganda, escolheu o seu próprio rótulo: pornográfica propaganda. Por um momento, desejei que a minha filha fosse aluna de uma das escolas que mereceram visita feérica de suas excelências. Só para o grato prazer de colocar essa gente em tribunal.


24.9.08

Regra número um das starlets de televisão: um sorriso de orelha a orelha


Há por aí um especialista do ramo capaz de elaborada explicação: dos benefícios do sempiterno sorriso. Como se fosse um perene massajar dos músculos faciais que dispõe bem. E cativa os outros, os que são agraciados com tamanha torrente de bem-estar, o contagiante sorriso que se assemelha a uma bebedeira de felicidade. Só por isso, dirão, as meninas que desfilam na televisão no papel de "apresentadoras" merecem os maiores encómios. Um serviço público que prestam, elas sim, no permanente sorriso que se esboça de orelha a orelha.


Só que a pose soa a uma indisfarçável plasticidade. Em palavras cruas, aqueles sorrisos infindáveis que se misturam com palavras, os sorrisos que emudecem as palavras que saem das bocas das "apresentadoras", são o ninho da artificialidade. Elas são meninas de plástico em todo o seu artificial esplendor. Um esplendor feito de nada, que se dilui na vacuidade daqueles esforçados, mas nada espontâneos, sorrisos. Sorrisos cansativos. Eu digo, sem recusar uma nota de mau humor: ao vê-las no interminável cortejo de boa disposição apetece ser macambúzio, o pior dos Eanes, incapaz de mostrar um sorriso. Apetece-me ostracizar o sorriso. Porque o sorriso não pode ser matéria tão fácil, pavoneado com a ligeireza das formatadas estrelas do néon televisivo. Mereciam a acusação formal, com direito a sentar o rabo em tribunal e tudo: pelo crime de banalização do sorriso.


Um dia destes, experimentei fazê-lo. Ensaiei um sorriso de orelha e orelha. Tentei mantê-lo, por uns segundos que fosse, para sentir o efeito. Ou por falta de treino, ou por inépcia congénita, fiquei cansado ao cabo de uns instantes. Cheguei à triste conclusão, que me deixa traumatizado: terei descoberto que sou sorumbático? É que me doíam os músculos faciais depois da experiência. Nesta altura, senti comiseração pelas princesinhas entronizadas campeãs da simpatia. As provações que devem passar para ostentar o sorriso emblemático o dia todo – ou, pelo menos, o tempo a mais (diagnóstico pessoal) que passam à frente das câmaras de filmar. O sortilégio da antipatia sobra para mim. Um doce sortilégio.


Pensando bem, até faz sentido que estas Barbies de aquacultura nidifiquem no espaço público. A populaça não anda longe de uma depressão colectiva. Para compensar, precisa de ver rostos, pretensamente bonitos, a exalar um convencido sorriso a toda a hora. Aposto que elas sorriem sempre. Até quando se zangam, a ira vem perfumada com o irrecusável sorriso. Porventura, até a dormir não se conseguem desfazer do estético sorriso. Tudo a bem da nação, na terapêutica dos males que atormentam a saúde mental do povaréu. As avozinhas inebriadas com o estilo airoso das sempre juvenis "apresentadoras". E um exército de candidatas ao trono por elas ocupado que teima no estilo, abusando do sorriso gratuito, desgastando o significado do sorriso. É então que o sorriso se esboroa na sua fragilidade, tão plástico irrompe.


O estilo espaventoso contraria os cânones da simplicidade. Por hoje, torna-se mais difícil cultivar a sobriedade. E ser-se genuíno. Os espectadores educados para o telelixo preferem consumir os sorrisos fátuos das embaraçosas "apresentadoras". Uns para os outros, como do código genético do telelixo faz parte o sorriso congénito das meninas. A volúpia do sorriso fácil desengana-se em si mesma. A plasticidade das "apresentadoras" e do seu sorriso faz o resto. Tomara que por aqui medrasse um povo todo sorridente, aprendendo a lição do sorriso fácil. Podíamos não largar a miserável condição – tamanha que vamos sendo passados, no campeonato dos países em crescimento, por aqueles que estavam tão longe de nós – mas seríamos, pudéssemos decalcar o mecânico e eterno sorriso das starlets de televisão, uma gente feliz. Alimentada no seu próprio sorriso.


Lamentavelmente, a gente na sua maioria adora e aplaude o sorriso dissimulado das plásticas estrelas da televisão, mas é incapaz de o praticar no quotidiano. A prova cabal que não sabemos praticar a teoria que aplaudimos. E, lamentavelmente ainda, os sorrisos de orelha a orelha só disfarçam as misérias que por aí abundam. A contagiante simpatia esbarra nas impenetráveis muralhas da realidade. O povoléu gosta é de ver as rainhas da simpatia a sê-lo, rainhas da simpatia. Depois, vão todos dormir o sono dos justos, convencidos que o mundo se deita embrulhado no mesmo conforto. Esboços de um mundo todo salpicado com os matizes do faz-de-conta. Com o timbre daqueles sorrisos tão cansativos.


23.9.08

Very institutional


Há gente que leva muito a sério os cargos de representação institucional. O zénite de uma carreira. Pressinto um desfasamento entre o discurso de justificação para o exterior e os sentimentos interiores em que navegam. Por um lado, a solenidade da representação da instituição, a muita importância por serem rosto e porta-voz da instituição, afinal, de todos os que são o substrato da instituição. Por outro lado, lá por dentro, uma irreprimível vaidadezinha: a sinecura revela muita importância, a confiança depositada pelos seus pares, a solenidade da distinção. Lá está: o zénite de uma carreira.


Quem tem um aguçado sentido de pertença a um colectivo leva mais a sério a representação de uma qualquer instituição que corporize aquela pertença. Os indivíduos atingem a plenitude quando se agrupam num todo, o grupo que se cimenta com as afinidades conjuntas. O colectivo atinge a maioridade quando consegue pôr de pé instituições. Defende a existência através do sentido institucional e das regras que alinhavam a pertença isenta de conflitos. Uma maneira de pensar que desvaloriza o indivíduo, remetido ao papel de selvagem enquanto vive fora de um grupo, ausente das instituições que dominam o seu egoísmo. Quem assim pensa glorifica a existência de instituições, como se inclina perante a socialização – a socialização sempre voluntária, nunca forçada – do indivíduo.


Por mais voltas que estes institucionalistas dêem, a individual condição da pessoa é indeclinável. Concedo: há tantas coisas que só somos capazes de alcançar em conjunto, através de pertenças múltiplas. Isso não traduz a diluição do indivíduo no grupo a que pertence. Nem significa a concessão perante os imperativos das instituições que cimentam a pertença ao grupo. Os benefícios que cada indivíduo recolhe da pertença reflectem-se na sua esfera individual. E quando alguém decide aderir a um grupo e trabalha no seio das instituições, não o faz por desinteressado compromisso pelo grupo e pelas causas que o norteiam. Ainda que essa seja a retórica que alicerça a pertença. Ainda que seja exteriorizado um espírito de missão sempre louvável para os espíritos encantados com a entrega a causas colectivas. Não há como negar: mesmo que seja crível o desapego e o altruísmo, o impulso vem sempre de dentro do indivíduo. É uma decisão individual. A pertença e a sagração das instituições são instrumentais ao impulso individual.


Não me consigo comover com a necessária pertença a grupos e menos ainda com a sublimação das instituições como expressão máxima da pertença. Como se as reuniões plenárias das instituições fossem a sagração máxima da pertença. No imperativo de levar muito a sério a reunião plena da instituição, o momento mais solene que consolida a fortaleza do grupo. Tudo isto me soa a ficção. O grupo é uma abstracção, como a "sociedade" é a abstracção maior que violenta a individual condição de cada um. A história cauciona os piores exemplos de demissão do indivíduo perante as exigências do grupo. Como indivíduos se vêm desapossados da sua essência, entregues num altar sacrificial no putativo nome dos interesses do grupo. O pior é a cegueira da gente que se vê transformada em carne para canhão dos desígnios traçados pelos que arquitectam as causas do grupo. Eis a ficção da pertença – e do ignóbil convencimento das anónimas gentes para se sacrificarem em nome do "interesse colectivo": as mais das vezes, apenas a transposição do interesse individual do guru, que se transforma em interesse colectivo.


Pode o funcionamento das instituições temperar este efeito. Serão intermediárias entre os indivíduos e o desígnio escolhido para o grupo, sobretudo se tiverem um funcionamento democrático. Desconfio: da manipulação de gente perversa, perfidamente inteligente para moldar os interesses do grupo à imagem dos seus próprios interesses; e do acomodamento de uma imensa maioria, acriticamente seguidora de quem consegue mobilizar gente à sua volta. Ao fim e ao cabo, as instituições são o retrato dos interesses de indivíduos predestinados que convencem os outros a tomar os seus interesses individuais como interesses do grupo.


Admito: esta retracção pelas pertenças e pela solenidade das instituições tem, como pano de fundo, um individualismo circunspecto. Ou o mau feitio impenitente. A persistência em permanecer desalinhado, um orgulho em ser ovelha sempre tresmalhada dos rebanhos ordeiros. É por isso que adoro a elevada importância da gente que leva muito a sério a sinecura institucional. Lá no fundo, a vaidade dos penachos.


22.9.08

Ladrão que roubo ladrão tem cem anos de perdão


Das notícias deliciosas. Um manjar opíparo que encanta os sentidos. Há poucas assim, enegrecido o panorama noticioso por entre a tristonha penumbra do que o mundo é e a atracção pelo sensacionalismo que atira a imprensa para uma qualidade que não se distingue do lixo. Só que o mundo tem coisas belas para oferecer. Por isso é que há poesia – ou talvez haja poesia porque os poetas andam arredios do mundo.


Seja como for, há pontuais oferendas que destilam o perfume do encantamento. Diante delas, até os empedernidos cépticos esboçam um sorriso. Até eles, por um momento que seja, se enamoram pelo mundo de que tanto desconfiam. Nem que seja para provar que o pessimismo metódico tem dias que esbarram no seu desmentido. Nessa altura, eventos esparsos rompem com o petrificado pessimismo. Que se descobre na sua surpreendente fragilidade: afinal as convicções do céptico militante também se esboroam quando os olhos testemunham episódios que são a negação daquela militância. Desde que haja arejamento mental para não bater a porta aos luminosos acontecimentos que ensaiam uma pontual manifestação nos antípodas do pessimismo costumeiro.


Na semana passada, a onda de criminalidade que cavalga – negando a ficção em que vivem mergulhados os maravilhosos governantes – teve o seu momento inusitado. Uma pandilha atacou uma repartição de finanças perto de Lisboa e de lá saiu com o pecúlio de impostos. Estou a imaginar os moralistas do reino, aqueles que acreditam piamente que todos temos que pagar impostos porque esse é o preço da socialização que garante a ausência de selvajaria. A vê-los, indignados, perante este crime de lesa-majestade. Suprema ousadia, dirão. Que assaltem bancos, ainda se entende: um banco é uma entidade privada e, que se saiba, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) não reúne as preferências dos gatunos especializados em bancos. Eles lá sabem: o banco do Estado não se assalta, ou assalta-se menos, ou assalta-se porque os desesperados profissionais do crime, do alto da sua ignorância, nem sabem que a CGD é o "banco de todos nós".


A lógica será esta: o que pertence ao povo nunca devia ser objecto de roubo. Os sacerdotes da bonomia do Estado protestarão duplamente contra os patifes que irromperam pela repartição de finanças e roubaram o pecúlio dos impostos. Por um lado, os impostos são como as esmolas das igrejas – intocáveis. Devia haver decoro entre a gatunagem potencial, uma espécie de código de conduta, os mínimos necessários que até ladrões não se escusariam a respeitar. Os impostos são o preço necessário para a construção da sociedade, um instrumento ao serviço do progresso da nação – assim nos ensina a doutrina oficial. Por outro lado, neste socialismo em acção em que vivemos, é de bom-tom concordar com o preceito de que os ricos pagam mais impostos em favor dos pobrezinhos. Aquilo a que se convencionou chamar "redistribuição". Eis a inadmissível ousadia dos gatunos da repartição de finanças: impediram que aquele dinheiro dos abastados fosse redistribuído pelos necessitados.


Como esta gente deve estar tão indignada, dou daqui umas sugestões para evitar furtos destes no futuro. Mudar as leis, por exemplo, para criminalizar os roubos de repartições de finanças como crime de terrorismo contra o Estado. E, porque não, a retirada de todos os direitos humanos dos pérfidos assaltantes de impostos que pertencem ao povo, se por hoje há quem defenda que as garantias fundamentais podem sofrer entorses se elas forem obstáculo a interesses supremos. Uma espécie de Guantánamo onde seriam enclausurados os gatunos de impostos, uma lição que impediria novos roubos de impostos. Para grandes males, grandes remédios. Os grandes desígnios não podem soluçar perante estes imponderáveis.


Eu tenho uma visão muito diferente sobre o assalto à repartição de finanças. Que me perdoem os que acharem a ideia despropositada, ou longe dos padrões convencionais por onde somos aconselhados a pisar. Se confessar a veia anarquista talvez me desculpem o excesso, mas continuo a achar um imposto sinónimo de roubo – um roubo com a aquiescência das gentes, tão formatadas para pagarem sem protestos. Ora se um imposto é um roubo institucionalizado, quem rouba um ladrão não será decerto ladrão normal. Será ladrão que merece condescendência, se não até aplauso.


É que, nem de propósito, foi o primeiro-ministro a que temos direito que se lembrou de inventar uma taxa contra as empresas petrolíferas a que deu o nome de "taxa Robin dos Bosques". Não era Robin dos Bosques que roubava aos ricos para dar aos pobres? Com a mania das obras faustosas, pagas com impostos desviados dos contribuintes à força, até parecemos um país muito rico. Se os impostos servem para pagar devaneios destes, o seu roubo simboliza a subtracção de quem é rico. E todos concordaremos que o produto do roubo aproveita a alguém que é mais pobre, muito mais pobre.


Diante disto, só um demorado aplauso aos ladrões da repartição de finanças. Sem que se entenda o diagnóstico como uma aproximação ao marxismo. Robin dos Bosques não foi contemporâneo de Marx. E, que se saiba, Marx não se inspirou em Robin dos Bosques.


19.9.08

Teia de aranha


Às vezes, os passos trocados desaguam num terreiro onde se alcança uma teia de aranha. Espessa teia de aranha, como se fossem as areias movediças onde os pés se afogam ao cabo de uma fatal distracção. O pior é quando, naquela encruzilhada, o sentido escolhido não foi o resultado de uma distracção, antes o exercício da convicção. Nessa altura, arrependimento algum possui a alta magia de subtrair o corpo da teia de aranha, seu leito fatal.


O corpo então debate-se nos fios viscosos da teia. Que se enredam no corpo, desmultiplicando-se vindos do nada. No seu afã, o corpo parece deslaçar-se de uns quantos fios da grande teia. Só que logo a seguir há outra parte do corpo já tomada por um entrelaçado que imobiliza um membro, o torso, outra parte qualquer. Quando a escuridão varre a luminosa luz diurna, a teia de aranha parece espessar-se mais ainda, aprisionando o corpo sem remissão. Adormece os dedos das mãos e dos pés, que deixam de se debater, consumidas as forças contra o paredão inamovível daqueles fios entrelaçados. E parece que na noite não tem fim.


E, contudo, a teia de aranha é um lugar de contradições. Nela se entretece uma multidão de frágeis fios salivados pela aranha. Vistos como peças isoladas, os fios são de uma fragilidade assustadora, quebradiços ao mínimo toque. Só que a viscosa teia em que se tecem é uma impenetrável parede. Onde cada fio isolado mostra fraqueza, no seu conjunto, tecidos numa intrincada teia, agigantam-se numa férrea estrutura onde as presas encontram a sua sepultura, só à espera que o aranhiço chegue para a degustação.


Não é o caso. Apenas os movimentos manietados pela solução viscosa que se desprende de cada fio, uma gelatinosa substância que anestesia os movimentos. A certa altura, o corpo deixa de se debater. Faz a concessão final. E, nessa altura, é como se o corpo passasse a fazer parte da teia de aranha. Salivando ele também os seus próprios fios. Tecendo uma carapaça onde se refugia do que lhe é exterior. Apanhado numa teia, transforma-a na sua fortaleza inacessível. Uma teia reflexiva, não uma teia predadora. Não é um emaranhado para atrair à armadilha quem se ofereça como sua presa. Ao contrário, a espessura salivada retrai estranhos e curiosos. Os fios viscosos, como se fossem as paredes untadas que impedem a escalada.


A teia, um sinal retemperador. Dos males que o parecem ao primeiro contacto. Que, todavia, se tornam num arremedo profiláctico, uma reserva mental que protege, em antecipação, dos alçapões traiçoeiramente espalhados, dos aleatórios alçapões. Não é o fermento da desconfiança metódica. Apenas um também metódico recato do mundo em redor. Porventura com uma maleita associada: o temerário encasular, como se desviar o olhar das doenças pungentes mostradas pelo mundo fosse vacina individual.


Os gestos enérgicos que ao início tentavam deslaçar o corpo da poderosa teia deram lugar à tranquila pose diante das coisas do mundo. Em vez de ser presa da teia tornou-se feitor da teia. Afinal, a concessão que chegou com a noite implacável fora a poção mágica que tanto procurara algures. Estava por entre os sucessivos fios viscosos que enleavam o corpo no casulo salvífico. Às vezes, o poço fundo, o assustador e escuro poço que não parece ter fundo, encerra misteriosos lugares que se oferecem como sítios de onde sussurra a regeneração. É como se os olhos andassem perdidos, por tempos infindáveis, a olhar para o lado errado. Como se um pedaço do cérebro angustiado pelas sombras nutrientes do desconhecido, temendo os insondáveis caminhos, se recusasse a irromper por aí. A ousadia da aventura desvela o lado que sempre estivera escondido. Afinal, o desconhecido na sua terapêutica forma.


A teia de aranha deixara de ser o manancial de pesadelos. Era o segredo ocultado pela espessura dos fios que não atraiam ninguém. Do lado de lá dos fios entrelaçados, sem receio daquela parede viscosa, o ar enfim purificado. Um mundo todo diferente. Mesmo que seja feito de uma espessa manta de ilusões.


18.9.08

Das incompreensíveis injustiças: o primeiro-ministro da Tailândia demitiu-se por ter participado num programa de culinária


Mergulhados no vezeiro etnocentrismo, estamos mentalizados que a bizarria vem quase sempre de longínquas paragens. Os sítios que, de acordo com os nossos padrões, rotulamos como lugares exóticos. São os sítios onde acontecimentos incomuns baralham os padrões daqui. Curiosos, damos uma espreitadela no acontecimento raro, como se andássemos por um jardim zoológico à cata de espécies que só em cativeiro teremos oportunidade de ver em carne e osso. Depois soltamos um esgar arrogante, a meias com um sorriso sarcástico, que sela a, acredita-se, nossa tamanha "superioridade civilizacional" (assim mesmo, entre aspas). É nessa altura que não damos conta como os planos se invertem: e o que se pensa ser superior desagua numa escusada inferioridade.


A curiosidade tem algo de antropológica. Ao sermos espectadores de um episódio fora do comum, apetece interrogar pelas causas. Que traços culturais específicos o possibilitam? Que idiossincrasias particulares se combinam como nutrientes do acontecimento que baralha os nossos quadros mentais? Depois deixamos funcionar as gavetas fáceis onde as coisas se encaixam em simplistas categorias. A bazófia de cá cauciona o convencimento de que somos superiores aos outros, logo engavetados no rótulo de gente que pertence a lugares atrasados. Mesmo quando há indicadores que mostram que o subdesenvolvimento de outrora é assunto encerrado, com alguns países (sobretudo asiáticos) a mostrarem uma pujança económica que faz inveja às economias pouco mais que estagnadas do auto-proclamado "mundo desenvolvido".


Puxando lustro às convenções: a Tailândia é um país atrasado? Para os auto-convencidos da notável superioridade civilizacional do "ocidente", sim, é atrasado. A prova de como esses assertivos juízes estão errados nem se funda nos indicadores económicos e sociais que seriam suficientes para negar o rótulo. Por hoje, vou provar que a Tailândia vive em maioridade social por causa da decisão tomada pelo primeiro-ministro, que se demitiu ao ter sido apanhado a participar num programa televisivo sobre culinária – que pecado imperdoável...


Dou de barato que a gente por dentro da política se deve dar ao respeito, evitando dar o flanco para a chacota dos outros. E vou dar de barato que a presença num programa de televisão sobre culinária não condiz com a solenidade do cargo de primeiro-ministro. Vou aceitar estas premissas, mesmo que delas discorde. Raciocinando através delas, a pergunta sacramental: em que outro lugar do mundo, mesmo nos que reclamam para si a condição de avançados países, este episódio daria lugar à deposição do líder do governo (ou de quem quer que seja)? Logo fermenta outra pergunta: não é factual que em países – chamemos-lhes assim: sérios –, polémicas mais graves ou escândalos vistosos não servem para remover políticos das sinecuras que ocupam?


O primeiro-ministro da Tailândia deu o exemplo, acossado por todos os lados porque muita alma tresandando uma impoluta moralidade terá ficado ofendida com a banal participação num banal espectáculo de culinária. Se calhar, banalidade a mais, incompatível com a solenidade do cargo. Demitiu-se. Noutros sítios, homólogos seus teimam em ficar no lugar mesmo quando há histórias mal contadas acerca da estalinista concepção do curriculum vitae. Afinal, onde está o país atrasado? E aqueles que satirizam a Tailândia, riem do quê?


Há uma maneira diferente de olhar para o estranho caso de um primeiro-ministro empurrado para a demissão só por ter mostrado na televisão os seus dotes culinários. Este "só" não é inocente, nem aparece por acaso. Caem os parentes na lama a alguém por confessar em público que gosta de cozinhar, mostrando de seguida os dotes culinários? Mesmo que esse alguém seja tão importante como um chefe de governo? Por acaso a culinária é uma arte de proscritos, uma arte menor onde apenas habita uma ralé? Se assim fosse, quem frequentava restaurantes? Quem tirava o prazer da gastronomia, das suas inventivas criações? O primeiro-ministro da Tailândia quis mostrar uma face humana, uma humildade que os residentes no poleiro da política não estão acostumados a praticar. No rescaldo, foi crucificado. No rescaldo, também, a nobre arte da gastronomia nunca foi tão mal tratada.


O que mais estranho é a ocultação da dimensão simbólica da presença do primeiro-ministro da Tailândia naquele programa sobre culinária. Para o mal ou para o bem, não é o primeiro-ministro que cozinha os destinos do país?


17.9.08

Da pérfida moral que as criancinhas aprendem nas historietas infantis


Agora que a minha filha descobriu que sou um exímio contador de histórias infantis ao deitar (…), começo a descobrir certas subtilezas dessas historietas. E fico surpreendido como aquela gente que cultiva o politicamente correcto, aquela gente tão pressurosa em formatar as cabecinhas de um rebanho que querem ordeiro, apascentando em terras impolutas de devaneios consumistas e materialistas, ainda não se tenha lembrado de verberar as historietas infantis. Ou andam distraídos, ou não contam histórias infantis aos seus filhos. Ou narram apenas histórias que se encaixem nos cânones dos modernismos politicamente correctos, ou versões dessas histórias que venham extirpadas dos vestígios que possam corromper o "novo homem novo" que se espera que as criancinhas venham a ser. Ou, simplesmente, não têm filhos.


Honestamente, fico espantado como estes sacerdotes do pensamento impoluto, sempre vigilantes para impedir desvios que nos coloquem para além do limiar da sua moralidade necessária, ainda não tenham percebido como as histórias infantis são uma perturbante fonte que tira os meninos do caminho certo. Ainda por cima, esta gente é tão dada a esotéricas teorias da conspiração que menos se entende que ninguém tenha protestado contra os desvios (decerto instigados por alguém a soldo do grande capital) a que os petizes são levados pela insidiosa mensagem das histórias infantis.


Passo a exemplificar: lia o "Gato das Botas" e apercebi-me como toda a história formata a cabeça das criancinhas de forma tão errada. A fábula gira em torno de um gato servil, um gato falante e maquiavelicamente inteligente. Munido de umas altas botas, que lhe darão poderes mágicos para congeminar as artimanhas que favorecem o seu dono, vai compondo as peças de um puzzle que manipula só para proporcionar ao dono, um jovem afundado na pobreza, uma faustosa vida futura. Primeira ilação da insídia contida na história: os meninos aprendem que a pobreza não interessa a ninguém. Primeiro laivo do hediondo capitalismo que coloca o bem-estar material acima de tudo. Começam a aprender pela cartilha errada – diriam, se estivessem atentos, os sacerdotes pressurosos do lirismo dominante.


O Gato das Botas congeminou um plano para casar o rapaz seu dono com a princesa herdeira do reino. Segunda ilação: as criancinhas são convidadas a mergulhar num mundo fantasioso, feito de belas princesas, imaculadas princesas, que pertencem a anacrónicos reinos. Haverá aqui o dedo de gente a soldo do capitalismo, como já sugeri. Gente que é também saudosa da monarquia. Mais um ensejo para as vozes que alimentam teorias da conspiração protestarem contra o enviesamento das historietas infantis. Narram um mundo de fantasia, um mundo que está em extinção. Uma realidade que teima em manter vivos traços ancestrais e reprováveis (reis, princesas, monarquias) dentro da modernidade que querem moldar ao seu jeito.


Onde os valores preocupantes – ou a ausência deles – se mostram em toda a sua pujança é nos detalhes do plano congeminado pelo Gato das Botas. Encena o afogamento do dono à passagem da carruagem real, motivando a comiseração do rei e da princesa pelo pobre rapaz que ia perdendo a vida afogado. Depois convence todos os camponeses que assistiam à passagem da carruagem real a dizerem que conheciam o rapaz e que ele é o marquês de Carabás. A lamentável apologia da mentira. E a apologia da instrumentalização do outro, levando-o a mentir como meio para atingir um certo objectivo. As criancinhas, aprendizes de Mourinho pela mão da história do Gato das Botas.


A perfídia total que açambarca as cabecinhas em formação tem o seu zénite quando o Gato das Botas se apropria de um castelo, transformando o gigante seu proprietário num rato que de imediato se transforma em sua refeição. Portanto, as crianças aprendem que o direito de propriedade é muito relativo, diria, volátil. De seguida, o Gato das Botas recebe o dono, na companhia do rei e da princesa. O rei rende-se a tanta riqueza. Chega a dizer: "Tanta riqueza, senhor marquês. Tem que casar com a minha filha". Lá está: como não houve nenhum sacerdote das coisas politicamente correctas que tenha apontado o dedo a esta lamentável instrumentalização dos petizes que hão-de ser os senhores do futuro? Como é que nunca se insurgiram contra a banalização dos afectos? Para, no final, concluírem que casamentos de conveniência, ao arrepio da vontade das mulheres, não acontecem apenas nas sociedades islâmicas. Nesta altura, entrariam em cena as exacerbadas feministas para denunciar o viés de género das histórias infantis. Que eu saiba, nunca o fizeram. Incompreensivelmente.


Admirado. É assim que me encontro depois de ler a história do Gato das Botas. Não pela história. Mas pelo silêncio dos sacerdotes do politicamente correcto. Por nada dizerem contra esta maquinação que – de acordo com a sua habitual retórica – formata os monstrozinhos do futuro, um exército de gente que aspira a parecer o que não é. Os Vale e Azevedo de tempos vindouros.


16.9.08

Gostava de dizer isto ao rapaz dos graffiti


Discordo da direita de sacristia, tão apessoada nos seus inamovíveis costumes, quando destila impropérios contra os graffiti. Já ouvi, em tempos, o CDS de Paulo Portas propor legislação restritiva sobre os graffiti que redesenham a geografia urbana. Acho excessivo. Na diarreia de leis que nos consome, as leis devem-se voltar para coisas importantes em vez de se debaterem com o acessório. Era assim que pensava e agora estou na dúvida. Pois hoje fui vítima de um rapazola que decidiu dar azo à criatividade no meu carro. Um belo desenho a ocupar uma das portas traseiras, um azul florescente a sobrepor-se ao preto que é a cor do catálogo.


Há muitas maneiras de encaixar isto. Uma delas nem merece muito arrazoado: o ganapo decerto desprovido de inteligência, talvez mesmo carente de neurónios, incapaz de perceber que a sua fantástica impressão digital de artista tem um custo – o número de dias de trabalho que me vai custar a repor a pintura no estado original. O artista que me perdoe: não duvido da sua proficiência, dos seus dotes como futuro ícone da representação graffítica, mas que não me leve a mal por desdenhar da oferta que plantou na porta do meu carro. Prefiro vê-lo a uma só cor – a cor que trazia quando o fui buscar ao stand.


Andamos pela Europa fora e, nas grandes cidades, os graffiti são ponto de honra. Por todo o lado, em paredes de casas, em painéis de publicidade, pintando de uma ponta a outra carruagens de metro e de comboios urbanos. É uma forma de expressão dos mais jovens, da seita enamorada pelo rap e pelo hip-hop, que puxam da paleta de tintas e desatam a mudar o lustro das paredes e de painéis publicitários e de carruagens de metro e de comboios urbanos, dando-lhes cor e movimento. Sim, os graffiti embelezam as cidades. Convencionou-se até que não se deve cercear a criatividade dos jovenzinhos quando modificam o elemento conceptual da tela que se põe a jeito para os avassaladores graffiti. Não vão os jovenzinhos sentir a sua liberdade de expressão tolhida pelos velhos do Restelo que ainda não foram capazes de compreender a elevação estética dos graffiti.


Juro, e sem ponta de ironia, que uma cidade enxameada de graffiti não me transtorna o espírito nem agride a vista. Só que não acho aceitável que certos sectores prefiram dar prioridade à "criatividade" dos jovens artistas dos graffiti, desvalorizando outros valores. E há aqui um valor que é determinante: a propriedade. Bem sei que em certos lugares e de certas franjas ideológicas há líricas tentativas de resgatar um ideário que questiona a eticidade da propriedade. Há até um jovem lírico que, a culminar um raciocínio muito bem elaborado, conclui o seguinte: "(a) propriedade como extensão do corpo, como a via Locke, é uma coisa. A propriedade tal como existe (…), como um direito exclusivo e irrestrito sem consideração do valor da igualdade, é outra. E essa outra coisa, se não é um roubo, é pelo menos um ultraje". Já percebi: é um ultraje ser proprietário do meu carro. Donde, o graffiti tem toda a legitimidade: o artista terá manifestado o seu ultraje pela existência daquele carro, e dele ter um proprietário. Longe de a isto se poder chamar, e só, vandalismo. Se isto não é o mundo virado às avessas…


Como a malta do rap e do hip-hop e dos graffiti e dessas merdas se gaba de uma notável consciência social, há neste gesto algo que não bate certo. É natural que eu queira fazer regressar a cor preta onde neste momento se encontra o gatafunho azul florescente. Ora, isso custa dinheiro. Que sai de um remediado trabalhador para os bolsos de gente capitalista, decerto mais endinheirada: a empresa que produz a tinta, o concessionário onde o carro vai ser reparado. Afinal de contas, o imbecil dos graffiti está a soldo do grande capital. E, afinal também, ou esta gente é desmiolada ou a retórica da igualdade não passa de um poster que gosta de ostentar sem a saber praticar.


Eu tenho uma vingança para o magnífico artista que alterou o aspecto do meu carro: já que não lhe posso enfiar goela abaixo dois litros da mesma tinta florescente que utilizou para roubar espaço ao preto da carroçaria, deixo-lhe aqui esta mensagem. A sua "obra" é uma impressão digital tão idêntica às marcas deixadas por gaivotas atrapalhadas com a sua disenteria particular. Tão corrosivas, uma como a outra. Tão merdosas, uma como a outra.


15.9.08

A cantora das trezentas plásticas, o político que faz dois mil abdominais por dia e o labrego que veste fatos Armani


É espantoso como as massas se deixam inebriar por gente de plástico. Gente artificial, quase irreal. Tudo neles soa a maquinação, entre uma bancada de cosméticos que transfigura (ou, deveríamos dizer, desfigura), cirurgias que recompõem a pele e têm o condão de recuar a aparência no tempo, tratamentos dispendiosos que desligam a idade real da idade biológica. Uma outra forma de serem modelos – aqui modelos noutra acepção da palavra: gente modelar, gente modelada no mais profundo que a artificialidade pode alcançar. E, no entanto, uma plasticidade que atrai a horda, tal o exército de seguidores, o séquito que se desfaz em homenagens mecânicas à plasticidade de quem veneram.


Uma cantora exótica, cinquentona que não o parece, sabe-se lá quantas operações plásticas naquela epiderme. Desconto o género artístico, a descompasso com as minhas preferências estéticas. Daqui sairão palavras apenas sobre a feérica imagem, o cartão de apresentação da artista. O eterno problema do endeusamento de artistas. Os apaniguados que vão de véspera e ficam a dormir ao relento à entrada do recinto onde a artista será consagrada, tributam a imagem cheia de artificialidade que dali exala. Estarão na primeira fila, ainda assim suficientemente longe para não terem pretensões de estarem perto demais da deusa, aos gritinhos histéricos não condizentes com a já nada adolescente idade. Glorificam a artista mais pelo que ela aparenta. Contudo, quantas destas pessoas fariam seu o estilo de vida que ela tem levado ao longo da sua vida?


A plasticidade dominante contagia-se do universo artístico para o mercado político. Já não é novidade: que os políticos se destacam não pela competência, não pelas ideias que escasseiam cada vez mais. Distinguem-se pelo embrulho com que aparecem. Aliás, evite-se perscrutar para além do brilhante papel de celofane que encanta os incautos e os que têm a certeza que o não são, pois só se há-de encontrar o vazio. A ensurdecedora perfeição é que motiva a desconfiança. Tudo tão modelado, cirurgicamente composto, sem detalhes que escapem à equipa que compõe a figura, o altar inacessível de onde exala uma perfeição inumana.


Li há dias: um antigo primeiro-ministro espanhol, que se diz retirado mas que continua a adejar sobre a paisagem política, continua na ribalta. Um exército de seguidores prossegue o encantamento com a fatuidade da personagem. Possivelmente desde as catacumbas da inenarrável imprensa cor-de-rosa dali do lado, tão ao jeito da umbiguista gente que adora a nobreza e a burguesia brasonada, os maiores encómios ao ar informal com que a personagem aparece – ele são as camisas desportivas desabotoadas, as pulseiras "hippy" (?!), até o patético bigode que tem vindo a evaporar-se, o corpo musculado que ostenta uma idade biológica quinze anos abaixo dos cinquenta e cinco que o bilhete de identidade anuncia. Tudo tão bem orquestrado que o "personal trainer" veio dizer que o homem faz dois mil abdominais por dia!


(Parêntesis para a perplexidade pessoal. A matemática não engana. Levo quinze minutos diários para fazer duzentos abdominais. É só fazer as contas. Dois mil abdominais são dez vezes mais. Dando de barato que a progressão geométrica do tempo é difícil de alcançar, o herói da direita espanhola teria que gastar duas horas e meia por dia a fazer abdominais. Sem pingo de inveja, acho que se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo.)


Quando vejo a fantasia que envolve estes exemplares da direita bafienta – este, como o presidente francês que se estica em cima de tacões de dez centímetros para não parecer minorca, ou do primeiro-ministro italiano que desfila diariamente uma patetice infantil e aquele improvável ar blasé – entendo que as esquerdas tenham que existir. Há gente que morre pela boca, tal como o peixe. Outros são atraiçoados pela sua imagem tão imaculada, tão perfeita, um penteado sem um cabelo fora do sítio, um cortejo de inanidades que descerram diante do público exemplares de uma perfeição que só pode ser inumana. Esta gente tão direitinha é outro motivo pelo qual ando tão longe desta direita. De repente, porém, uma fulgurante excepção: o presidente da câmara de Londres, excêntrico e com imagem descuidada. Uma personagem mais próxima da gente comum, com os seus pecadilhos e devaneios. Porventura outro produto da imagem bem elaborada. Ao menos, uma imagem que se distancia da imaculada perfeição dos outros.


Por cá, também os há. Por exemplo, o labrego que aparenta aquele ar irritantemente modernaço. Pode envergar fatos Armani que não deixará de ser um labrego. Os ofendidos que perdoem o assomo de "fascismo social", mas quem andou a projectar pela Beira Alta casas do quilate estético há tempos revelado tem o seu cartão-de-visita – o cartão-de-visita de um labrego sem remissão. Não, não é a reconversão urbana, nem as causas modernas património genético do indissociável politicamente correcto, que fazem extinguir os vestígios da labreguice. Esses são inatos, por mais fatos Armani que venham a envolver a figura.


De tanta gente feita de plástico, depois vêm os arautos da modernidade clamar pelo humanismo. Uma contradição de termos.