10.11.08

Às portas da sobrevivência, apenas


Dizias: todo o tempo de uma vida é a contrafacção do que somos. Julgamos ser e, no fim da linha, a imagem projectada de dentro para fora, que depois se amplifica na cortina de espelhos, é uma imagem que regressa distorcida. Andamos o tempo todo em demandas falazes. Quando damos conta da falácia do pretérito, novo desengano: a certeza que chegou o tempo de ser diferente faz coincidir a descoberta com o código genético do eu, um tremendo erro de perspectiva. A renovação da existência, apenas o erro reiterado.


E dizias: afinal não vivemos. A existência gasta-se nas inúteis demandas que se agigantam no papel de magníficos projectos. A vida consome-se em fragmentos nebulosos, um amontoado de ingredientes dispersos, um cozinhado intragável, sem sentido. As sombrias máscaras que detectas por todo o lado, o sinal excruciante do terrível engodo da existência. O teu pessimismo traz a marca fatal: apenas afloramos a vida que nos pertence. Arrastamos um erro do tamanho do mundo. Quem julgar que vive, que se desengane: apenas sobrevive.


Contraponho: em pessimismo, levas a palma aos demónios apoquentados pelo cepticismo ímpar. Exageras no diagnóstico? As entranhas calcinadas por um punhado de malfeitorias alheias, por sua vez nutriente da acidez desalmada? Ou até a ilusão da própria teoria: quem te diz que o jogo de luzes que ofusca a real existência não é depurado por outra cortina que subtrai discernimento?


Implacável no diagnóstico, embarcas num inútil braço de ferro para fazer valer o que já determinaste ser a razão. Ao menos, a tua razão. Homérica razão que não admite interrogações que lhe façam vacilar os alicerces. Não admites que a tua tese seja a ilusão da ilusão. A teimosia não te deixa capaz de distinguir os passos irracionais. Mas teimas: que só os desassombrados conseguem contemplar a mera sobrevivência de todos os mortais, eles todos anestesiados pela existência parcial, errando pelos caminhos paralelos onde decorrem as vidas. O desassombro não admite que em cima da conveniente teoria venha outra contar que a colectiva alucinação escapa a uma anestesia maior que a deixa reduzida a escombros. Por cima da ilusão reivindicada outra virá, com letal capacidade destrutiva.


Pergunto-te pelas coisas belas, se existem ou são uma farsa, o produto da imaginação que deixa a existência em intransigente analgesia. Pergunto-te pela bondade, nem que seja a bondade compassada pelo interesse, ditada pelo apaziguamento dos seus fautores. Dizes que a cortina de espelhos que deforma o lugar e o modo em que somos é uma tenaz impiedosa, a substância que adultera coisas e pessoas e sentimentos. Nada é genuíno. Por entre o caos reinante, impossível saber onde está a beleza, a bondade, onde estão as pessoas que merecem encantamento. Irredutível, questionas até a existência da beleza, da bondade, de pessoas ungidas pelo encantamento.


Afogueado, dilacerado pelas dores existenciais que te incendeiam as veias, sentencias: a vida é uma toleima. Um desperdício de tempo. Uma patranha que nos servem à nascença e só se recompõe com a morte. Imperturbável, questionas a existência da humanidade. Todas as pessoas e uma singular contrafacção de gente, apenas uma indiferenciada turba amansada por sacerdotes maiores que soerguem a cabeça no firmamento para apascentarem a obediente turba. Lamentas, em jeito de pergunta: é isto, viver? De mim, nem todas as consumições juntas deixam espaço à resposta. Enquanto olhavas, impassível, com o olhar gelidamente fixado na ausência do distante horizonte, deixei-te o meu silêncio. Não era concordância lacrada pelo silêncio. A pergunta, na sua aleivosia, não carecia resposta.


Aqueles instantes de silêncio pareciam enegrecidos pela eternidade. Não havia palavras que merecessem ser ditas. A interrogação ficou a esvoaçar, tal como um balão levitando no ar despojado de vento. Os pensamentos vogaram para lugar diferente, em homenagem à pessoal sagração da vida que merece ser exaurida em cada segundo que durar. Vi-te cabisbaixo, sem coragem para responder à pergunta que já continha em si a resposta. Pressenti os olhos marejados, inundados por uma imensa tristeza. E, contudo, uma irresistível paralisia apoderou-se dos músculos, da voz. Manietado por uma sensação de impotência, seguro que palavras algumas, gesto algum, seriam capazes de te retirar da letargia em que te havias afundado. Covardia, quem sabe, mas a covardia alimentada pelo insultuoso desperdício de vida contido naquela letal interrogação.


7.11.08

Sadia tristeza


Inexplicáveis acessos de tristeza. Por mais que cavasse nas profundezas de si, nesses momentos não conseguia encontrar razões para a tristeza, a intensa tristeza que o acossava. Andava assim, dias a eito, imerso nas densas águas da melancolia. Parecia cansar-se das coisas belas da vida, que até era de uma generosidade invejável. Nem percebia como o mergulho nas turvas águas da mágoa era um ultraje à bondade que o tinha agraciado.


Mas persistia, com paciência diligente, marcada na agenda a aleatoriedade da tristeza. Emergia como uma densa cortina de nevoeiro a toldar o brilho resplandecente dos dias soalheiros, primaveris mesmo, que eram a sua existência. Cedia perante a letargia que vinha em compasso com o sentimento de pesar. Escondia-se, para não deixar que a íntima mágoa fosse partilhada pelos que lhe eram próximos. Era um sentimento estranho. Como se despojasse da alegria a que a vida o convidada, cansado da alegria que, a certa altura, lhe soava estulta. A necessidade de pisar o pântano da pungência.


Só ao fim de demorados dias de uma perturbante tristeza que se acomodava já doentia é que começava a discernir o seu sabor. Sabia que a vida só tem sentido se os contrastes forem saboreados. Os olhos tinham que experimentar o que trouxesse agradáveis sensações e a dor da tristeza. O corpo tinha que sentir a euforia dos instantes de deleite e entregar-se à dor pungente das imagens que o dilaceravam por dentro. A coreografia só se encontra completa quando os passos pisam o suave, alcatifado terreno e depois experimentam as pedregosas vielas que sangram os pés.


Aquela inexplicável tristeza era patologia. Uma patologia paradoxalmente terapêutica. Como se fosse um medicamento necessário para temperar a euforia, quando a euforia vinha de rompante e deixava em si as sementes da perigosa sobranceria. Calmante tristeza, para domar acessos de doentio narcisismo que irrompiam, a espaços. Porque não queria deixar o casulo do anonimato. Porque o cortejo de elogios o causticava. Era estranho como se incomodava com as palavras encomiásticas dos outros. Temendo descair para o ensimesmamento típico dos narcísicos, refugiava-se na intensa melancolia. Rejeitava ser aquilo que nos outros os levava ao elogio. Senão, até os dias solarengos haveriam de perder a sua beleza.


Através da medicinal melancolia, domava os ímpetos que convocavam a soltar-se de dentro de si. Num esforço doloroso para se conter nos limites que aprendera serem as suas fronteiras. Havia, naquela tristeza, um pungente apelo para mergulhar nas profundezas do ser. Como se a tristeza fosse o castelo inacessível, o castelo de que era curador único das chaves que franqueavam o acesso. Da fortaleza onde depurava as nuvens plúmbeas que se acastelavam no seu horizonte, oferecendo o céu cinzento onde a sua tristeza adejava. Nesses dias, não percebia se procurava a tristeza ou se era a melancolia que se insinuava, espontânea. Quando dava conta do inevitável contraforte da tristeza, era tarde para interrogações, era tarde para resistir ao apelo da tristeza.


Quando os dias da inexplicável tristeza se extinguiam, era a mesma perplexidade que o acossava: da mesma forma inexplicável, a tristeza desvanecia. Era como se mudassem os ventos e outra carta meteorológica anunciasse a tristeza enfim deixada lá atrás. E percebia: que é pela tristeza que o seu contrário é mais sumarento. É na tristeza que os dias de sagração da vida se tornam intensos. Que faz sentido apreciar a beleza das coisas. Uma provação indispensável para descer às profundidades do ser e encontrar os vestígios, uns gramas que sejam, que povoam a vida na sua intensidade bela.


Era uma sadia melancolia. Recorrente tristeza que anunciava os fragmentos do seu contrário sempre que perdia o norte ao sentido da beleza da existência.



6.11.08

Por que precisamos de messianismos?


A exultação quase consensual. As pessoas vibram. Umas choram, emocionadas. Alguns confessam: ainda parece um sonho (e ver-se-á se não seria preferível que o onírico fosse perene). O seu salvador obteve anuência para subir ao trono. Era a vitória indeclinável. Catástrofe, se a vitória se fosse abrigar no regaço do adversário. Agora é que tudo vai mudar. Pelos dedos ungidos de um providencial homem, predestinado para terminar os equívocos dos últimos anos.


Tenho por princípio desconfiar de gente que se acha providencial, ou que é posta em aura messiânica por uma turba de entusiasmados apoiantes. É próprio da higiene mental: detesto tudo o que soe a consensos forçados, consensos inevitáveis. Uma consensualidade doentia, por se considerar ultrajante a ousadia de desalinhar do numeroso coro que tece loas à figura providencial. Por um imperativo de higiene mental prefiro estar de lado desconfortável da barricada – essa é a primeira razão.


Some-se o seguinte: o direito de não me rever no novo messias que aterrou entre nós. O homem providencial tem carisma – mas há tantos gurus de religiosidades duvidosas que conseguem levar atrelado um imenso e acrítico séquito. O messias do momento é um bem-falante – e há-os tantos que não passam da vacuidade das palavras, enredados na retórica que seduz quem gosta de escutar balsâmicas palavras que adoçam os seus ouvidos. Mas é só isso, palavras. Só que as palavras ditas em entusiasmantes discursos não são penhor de acção alguma. Nem as propostas que se decantam entre a espuma da retórica são convincentes, oráculo de um catecismo ideológico que não é meu.


Há uma terceira razão para torcer o nariz à consensualidade imperativa que tomou conta da atmosfera: a personagem messiânica, cativada pela internacional socialista como um dos seus – como se os arautos da internacional socialista ignorassem que o novo messias de socialista não tem nada. É a oportuna janela que vem mesmo a calhar para fortalecer a lógica da inevitabilidade socialista. Para esta gente – e, todos apanhados na maré, para quem for sensato em se aconselhar na alfombra socialista – o mundo como deve ser ou é socialista ou é socialista. A colagem ao novo trovador dos sóis radiosos é uma oportunista artimanha com o propósito de reforçar a ideia de que não há hipótese credível ao socialismo mundial. É aqui que funciona, outra vez, o dever de ser dissidente. Só para não engrossar a maré que, um dia destes, ameaça liquidar a competição de ideias que é património genético da democracia.


A entronização do novo messias promete ser um fértil caso de estudo para a sociologia e para a psicologia. Arriscaria a vaticinar: até mesmo para a teologia. É impressionante a capacidade de mobilização do homem providencial. Até a imprensa, sempre tão exigente, está rendida. Fazendo tábua rasa dos manuais de estilo do bom jornalismo, não poupa nos encomiásticos adjectivos. Em mim, tudo isto tem o condão de cavalgar a náusea. A diligente pedagogia das virtudes quase celestiais do messias, emprenha-se no cérebro. Reparo como, em redor, o imparável regozijo traz um sinal que será a matéria-prima para sociólogos, psicólogos, porventura até teólogos: as gentes queriam uma figura que as enfeitiçasse.


Precisavam de acreditar, outra vez. O cansaço da desconfiança bateu no seu zénite. Um pulsar interior, tal como uma torrente vigorosa a precisar de se extravasar para fora de cada indivíduo, só estava à espera de uma figura cativante, que soubesse reavivar o afecto tão delapidado pela incúria dos que estavam quase a sair de cena. É por isso que há religiões com os seus deuses. Ou, para os ateus que recusam laivos de deificação, é por isso que há a necessidade de se ancorarem em heróis.


Herói ou deus, o homem ungido pela providência mostra a tremenda humildade dos homens comuns. Lá do fundo da sua irrelevância, ao entronizarem o messias deixam cair a máscara da pessoal inépcia. E reconhecem que só o messias é dotado da capacidade para lhes restituir a esperança que andava já esquecida. Mas: há quem não acredite em deus, nem em qualquer gesta de heróis. Os homens, todos feitos com a mesma argamassa. Acreditar em predestinadas personagens é o refúgio numa ilusão, numa ilusão qualquer – deus ou herói. Mas sempre uma ilusão.


5.11.08

De regresso ao pessimismo antropológico: o que está mal, o capitalismo ou os seus agentes?



A interminável discussão: a crise vem provar que o capitalismo faliu (hipótese mais radical) ou que o indefinível "neo-liberalismo" entrou em ocaso (hipótese mais moderada)?


Os que nunca se entusiasmaram com mercados sem regulação, de mão dada com os habituais críticos da economia de mercado, sentem que a actual crise lhes está a dar razão. Como se a razão fosse assim tão fácil de objectivar, como se a razão fosse perene. Vou deixar de lado os que ainda choram a orfandade do derrubado muro de Berlim. Concentro-me nos que clamam pela superação dos mercados em funcionamento anárquico, sem a mão reguladora das autoridades. Destes quadrantes – mesmo daqueles que, com responsabilidades de governo, conviviam com os agora nefandos capitalistas de que querem distanciamento por estes dias – chega o diagnóstico lapidar: houve ganância a mais, gente inebriada com o perfume do lucro fácil. Rematam o raciocínio com a sentença definitiva e, a seu ver, incontroversa: é preciso renovar o capitalismo, encerrar o "neo-liberalismo" nas catacumbas do passado.


Ora, as ideologias exigem contacto com a realidade humana. As ideias são um produto da massa cinzenta das pessoas. Todavia, parece excessivo o raciocínio em que laboram muitos dos excitados advogados de defesa do funeral do "neo-liberalismo". É a falácia da árvore e da floresta. Da mesma forma que é errado confundir a árvore apodrecida com a floresta – só a primeira é que apodreceu, a floresta mantém-se viçosa –, é um exagero decretar a falência do tal "neo-liberalismo", ou a necessidade de renovar os alicerces do capitalismo, porque uns quantos actores do sistema se embriagaram na soberba. Os sacerdotes do intervencionismo do Estado, sobretudo os que ainda navegarem nas águas da honestidade intelectual, hão-de reconhecer que declinar para generalizações fáceis não é o melhor método para tirar conclusões credíveis.


(De permeio, porque não discutir outra falácia: as culpas, na maneira de ver desta gente exultante, repousam apenas em determinados actores. O resto, uma imensa multidão de inocentes, sacrificados diante do altar do lucro fácil que os primeiros congeminaram.


Algo não bate certo neste retrato idílico que apresenta os culpados convenientes. Na origem da crise financeira que começou nos Estados Unidos está a bolha do mercado imobiliário. Eis as interrogações: os riscos insensatos na autorização de crédito só são imputados a quem emprestava dinheiro? Por mais que sejamos instruídos pelo lirismo da inércia das autoridades, não seria a política de crédito fácil instrumental para os políticos que se querem perpetuar no poder? E mais: os que pediam crédito são tão ingénuos, tão ignorantes, ao ponto de passarem ao lado do elevado risco? Está convencionado que os culpados – e ainda sem direito a julgamento, o que é mais fantástico vindo de quem se julga penhor dos princípios do Estado de direito – são os mais poderosos, os mais endinheirados, aqueles que quiseram fazer fortuna à custa das legítimas aspirações da populaça que queria viver melhor. A populaça limitou-se a cair no engodo.


Há histórias da carochinha mais convincentes.)


De regresso ao embuste das generalizações (mais ainda as que são oportunistas): dou por adquirido que houve mesmo ganância de uns quantos e que essa avidez detonou a crise. Serão todos acusados deste pecado? Não serão comportamentos isolados, todavia com um impacto devastador no sistema financeiro, de um punhado de gente que quis beber a água toda de uma só vez? Todos os actores do sistema financeiro comungam do comportamento censurável que preenche o imaginário conspirativo de largas fatias da ficção literária que se julga argutamente científica?


Esta é a minha sugestão, a interpretação que faço: as ideias continuam a ser boas. Quem falhou foram alguns dos intérpretes. Aqueles que, a dar-se como provado em tribunal (e não antes do tempo, em sumários julgamentos), forem culpados da usura que semeou a actual crise. São as podres árvores. Não põem em causa as ideias, que continuam tão frondosas quanto a floresta diante dos nossos olhos. Admito que esta interpretação possa ser acusada de ingenuidade. E que esteja a resvalar para um oportunista pessimismo antropológico, que visa apenas salvar as ideias crucificando quem as perverteu.


Em minha defesa: a de, há muito, militância pelo pessimismo antropológico.


4.11.08

Generais apenas de quatro estrelas


A tropa anda revoltada. Dizem-se abandonados pelo poder político, que anda de costas voltadas para benesses a que a tropa se habituou. Há dias, alguns porta-vozes do sindicalismo militar vieram a público com insinuações torpes: aconselhavam a repor os privilégios de outrora, ou eles podiam cometer actos tresloucados. Para se perceber melhor a dimensão tresloucada em forma de ameaça, quiseram lembrar à populaça que eles são penhores de um arsenal que mete respeito. Para bom entendedor, meia palavra basta.


Depois, o generalato puxou os galões à solidariedade corporativa e vomitou uns dislates para os microfones da comunicação social. Um deles, que em tempos foi o chefe máximo da tropa, assinou por baixo as insinuações de insubordinação dos militares caso as suas reivindicações esbarrem na insensibilidade de quem governa. Do alto da sua insolência, os insurrectos gabaram-se da presença de vários – e cito – "generais de quatro estrelas". Pelo meio, a encenação em forma de jantarada onde a malta fardada amesendou os seus protestos contra a perda de regalias. Foi nesse dia que o inefável Vasco Lourenço arrotou as costumeiras inanidades e, talvez saudoso dos tempos viçosos do PREC, dos tempos em que ele próprio acreditou que o seu protagonismo ia além da estaleca intelectual, perorou. Para assinar por baixo as ameaças de insubordinação das tropas insatisfeitas. Um aviso ao poder político: são eles que têm as armas; portanto, há que ter cuidado e corresponder às reivindicações desta tropa fandanga, desta tropa com problemas de orientação geográfica - pois eles não pertencem a um país da América Latina.


Nunca lhes terá ocorrido perceber porque têm perdido privilégios – os inaceitáveis privilégios de outros tempos, quando se convenciam que eram uma casta à parte, digna de tratos de polé, não fossem usar as armas para colocarem em sentido quem saísse da linha. Hoje, quem acredita que esta tropa é imprescindível para defender a integridade do território? É uma hipótese remota, hipotética, apenas – a da invasão do território por tropas estrangeiras. Se isso acontecesse, que resistência podia oferecer este arremedo de exército? É que já nem sequer se coloca a interrogação ao nível da capacidade de expulsão dos imaginados invasores. Por hoje, a tropa está acantonada nos quartéis, entretendo-se a exaurir o erário público com patéticos simulacros de guerra que são a suprema excitação do generalato. A tropa ainda não percebeu que o seu papel está desvalorizado, e muito. Como podem querer manter as regalias de outros tempos? Como podem teimar na obscenidade que é o pagamento de uma renda de cem – cem, não errei – euros pelas casinhas que lhes caem em sorte porque se convencionou que merecem a benesse?


Quando li os relatos do convívio gastronómico da tropa, com a bênção dos "generais de quatro estrelas", fiquei intrigado: por que razão ainda não inventaram os generais de cinco estrelas? Estará a tropa um degrau abaixo da proficiência dos hotéis, que, esses sim, já têm há largo tempo direito a ostentar a divisa das cinco estrelas? Os muito medalhados generais, que com tanto garbo ostentam as comendas militares na distinta farda de cerimónia, na sua incapacidade para romper o tecto das quatro estrelas. No fundo, um sinal da mediocridade da tropa. Por mais que subam na carreira, por mais feitos heróicos que distingam o generalato, nunca passam da cepa torta das quatro estrelas. Pobre tropa fandanga.


Apetece glosar Luther King e dizer, "eu tenho um sonho". Um sonho feito por um insólito golpe de Estado. Seria uma golpada da população farta da prosápia dos militares, cansada das torpes insinuações de onde escorrem ameaças de insubordinação. Seria a vez das gentes não armadas se revoltarem contra a tropa, tomando os quartéis, destruindo os inúteis arsenais, deportando as tropas para distantes paragens de onde jamais nos pudessem contaminar com a sua jactância. Que se dedicassem a ser mercenários a soldo de proto-ditadores espalhados pelo mundo, que sempre haverão de existir. Ao menos, podiam fazer o que tanto os excita: combater, descarregar os projécteis das armas, matar gente (e se for gente inocente, não há problema; é a lógica das "vítimas colaterais").


Então, por fim, um ambiente desanuviado, um ar respirável, sem a poluição causada pelas palavras da tropa inconsequente. Não custa sonhar: uma terra melhor sem os desconchavos da tropa.


3.11.08

A adorável (manipulação) estatística que nos tira da indigência


Não cessam os motivos de orgulho nas lusitanas gentes. De um ano para o outro, as nódoas negras que enxameavam os resultados dos exames de matemática foram limpas com o melhor dos detergentes. Revelação do diligente ministério da educação: as médias dos exames a matemática pularam com uma inusitada espectacularidade, quais cangurus em desenfreado cio. De uma assentada, deixámos de ter alunos que nem medíocres conseguiam ser. Os que fazem número para a estatística anunciada devem ser uma nova fornada, misteriosamente diferente da fornada que os antecedeu. Renova-se a esperança nos dias vindouros. Das médias cantadas pelas estatísticas ecoa a excelência deste novo escol.

Agora já podemos acordar e olhar sem temor para um radioso amanhã que se anuncia. Tranquilizam-nos as estatísticas: há por aí, nos bancos das escolas, uma prodigiosa geração que promete subtrair esta terra ao adormecimento e à indigência. Se em tempos alguém sentenciou que o nosso atraso (entre outras causas) se devia à inépcia para os números, o ministério da educação tratou de encerrar em definitivo túmulo os habituais tormentos das gentes com os números. As estatísticas não deixam mentir. Quem ousar discordar, ou é um dos ignaros que lida mal com a arte dos números, na sua incapacidade para os interpretar; ou está possuído por tenebrosa má-fé.


Esta é a convocatória oficial: devemos acreditar que a entusiasmante estatística traz um efeito de contágio para as criancinhas que hão-de aprender matemática. A engrenagem é imparável, com a prestimosa ajuda das profecias que se anunciam nos números montados em cirúrgicas estatísticas. Tudo se resume a uma crença. As gentes têm que acreditar. Que os jovens, que amanhã serão carne para canhão das lustrosas estatísticas da colectiva proficiência escolar, são feitos da mesma têmpera dos que alimentaram esta sobrenatural revelação feita através do manto das estatísticas. E devem acreditar que os pedagogos que tomaram conta do ministério da educação sabem o que fazem. Nem que seja uma tremenda ilusão colectiva, uma espécie de aparição da nossa senhora aos pastorinhos, só que em vez dos pastorinhos estamos todos convocados a acreditar que a indigência já só pertence às memórias.


Ai de alguém que denuncie a cultura de facilidades escolares como explicação para o súbito pulo no desempenho dos alunos. Terão que arrostar com as acusações de desonestidade intelectual, ou de atraso no conhecimento das vanguardas da pedagogia e da didáctica, porventura até de levarem com a pior das acusações que nestes dias se pode abater sobre um cidadão – ser oposicionista ao governo. Os críticos deviam perceber que os prescientes pedagogos que redesenham a política de educação estão três passos à frente de todos nós.


Os críticos do facilitismo nas escolas não conseguem reprimir os seus particulares traumas escolares. Andaram pelos bancos das escolas quando se teimava que a exigência pertencia a uma cultura de excelência, uma ferramenta que preparava as criancinhas para a selva que haveriam de encontrar na idade adulta. Têm inveja das facilidades que são o pasto para os alunos de hoje. Aprender não pode ser uma maçada. A cultura de exigência na escola esbarra com a lógica anti-maçada da aprendizagem. Remova-se essa cultura. A fasquia tem que descer para não traumatizar as criancinhas de hoje. Não se destruam as ilusões das gerações que crescem a ver o Noddy, na alucinação de que o mundo é tão ingénuo como as historietas do Noddy; as facilidades na escola, imprescindíveis para que consigam ser Noddy quando chegarem à adulta idade. O truque, mesmo debaixo do nariz de toda a gente: exames fáceis. E o último grito da moda: banir a palavra "reprovação" do léxico escolar.


A lógica deve ir por aí fora, à medida que as criancinhas se forem fazendo adolescentes e ficarem às portas da universidade. Quem sabe, se daqui a uns anos, até nas universidades – sabiamente aconselhadas por comissários do governo – reprovar seja proibido e a avaliação rejeitada se não satisfizer a báscula do facilitismo? Alguém se surpreende pela aniquilação da indigência colectiva por magia da estalinista manipulação das estatísticas? Alguém ainda fica boquiaberto com o experimentalismo pedagógico que extingue, à força de decreto, as reprovações e impõe, como bitola, as facilidades? Temos, no timoneiro da pátria, o espelho que oferece as respostas àquelas interrogações.


31.10.08

E se fôssemos todos apóstatas?


Temos ideias. Gostamos de exibir convicções. Entretidos com os prazeres da discussão, no que isso faz bem ao intelecto, pretendemos sair de uma discussão de braço dado com o triunfo das ideias. No fértil mercado das ideias, uma revoada de argumentos, um desfile de provas que ora traduzem a superioridade das ideias que nos são queridas, ora são a devastadora denegação das ideias nos antípodas. Quem não gosta de as ter, ideias e convictas? Das assertivas ideias que logo se transformam em certezas insusceptíveis de contestação, logo imperativos categóricos que esmagam os adversários à implacável inclinação diante dos garbosos vencedores no mercado das ideias?


Nestes tempos cheios de complexidade, a única certeza que se perfila no horizonte é a da fluidez das certezas. Mesmo daquelas que se julgam inabaláveis, prenhes de uma autoridade intelectual que não passa de pretensa autoridade intelectual. Neste oceano de intermináveis incertezas emergem apóstatas, humildes ao ponto de admitirem que as ideias defendidas outrora estavam erradas. Ou que essas ideias provam o seu desajustamento aos factos.


Há dias, Alan Greenspan – antigo governador do banco central dos Estados Unidos e ideólogo da desregulação financeira agora tão vituperada – confessou que estava enganado. Disse-o em público, a solenizar o epitáfio do "selvático capitalismo" escrito pelos excitados apóstolos de um novo capitalismo, o capitalismo em que os governantes passam a meter a grossa unha. Greenspan admitiu que errou ao lavrar a carta de alforria dos mercados. Perante os sintomas do vendaval financeiro, Greenspan fez meia volta ideológica. Para gáudio dos que sempre fizeram carrancas à emancipação dos mercados e dos outros que têm uma desconfiança congénita no funcionamento da economia de mercado.


É louvável quando alguém tem a humildade de admitir que as suas ideias estavam erradas. Diria que é um sinal de grandeza de carácter, de grandeza intelectual. Os obstinados das ideias, aqueles que se recusam a admitir que navegam nas águas paradas das ideias, é que ficam para trás. Ao ver a apostasia de Greenspan e as reacções excitadas dos que habitam no hemisfério intelectual oposto, percebo a grandeza do primeiro e a mesquinhez dos segundos. Destes, a pose triunfante de quem se serve da confissão de arrependimento para vincar as suas ideias como acertadas. Sobra a pesporrência de uns em contraste com a humildade intelectual de Greenspan. É desta forma que muitas vezes se perde o rasto à "razão".


Admito que a apostasia de Greenspan actua como um soco pesado e seco nas minhas convicções. E que, por isso, acho abjectas as reacções de entusiasmo dos que se banqueteiam no público arrependimento de Greenspan. Alguns dos vitoriosos do momento já tiverem o seu tempo de apostasia. Já tiveram, lá atrás, as dores do arrependimento que os levaram a repudiar credos de outrora. Saciam a orfandade de referências na meia volta ideológica de um adversário de estimação. Eu apenas me convenço que a fluidez das ideias traz o lacre da incerteza do universo. E gosto de interrogar constantemente as ideais que abrigo no regaço, de as expor ao contraditório ideológico para testar as pessoais convicções.


Se há mérito neste vendaval que reequaciona os alicerces do capitalismo é o de fermentar interrogações às ideias, à minha particular mundividência. Os factos parecem apenas confirmar a demissão de liberais visões do mundo. Um coro entoa, em uníssono, o refrão que quase todos querem escutar: os mercados não podem ter a alforria que tinham, têm que se subjugar à regulação dos sábios – dos sábios que habitam no alcantilado e presciente castelo do Estado.


Da parte que me toca, ando a meio de uma introspecção das particulares ideias. De interrogação em interrogação, já menos convencido nos méritos de mercados emancipados, sentindo que os intérpretes dos mercados não souberam merecer a liberdade que lhes foi outorgada. Só que menos me convenço que a solução está na entrada em cena dos omniscientes engenheiros sociais ungidos de soluções mágicas. Se calhar, todos devíamos ser apóstatas neste momento. E ultrapassar a binária visão do mundo, como se tudo se resumisse a aceitar mercados sem controlo ou ao dogma dos mercados subjugados ao omnisciente controlo das autoridades. O que se requer é uma reinvenção das ideias, uma solução que se liberte do espartilho daquela binária visão do mundo.


30.10.08

Um texto socialmente iníquo


Advertência preliminar: a prosa que se segue é, para muitos, um hino à iniquidade social. Censurável, portanto, se for olhada pelo prisma da consensualidade forçada, dos dogmas que imperam por força da maré politicamente correcta. É um texto que rema para o lado contrário da caudalosa maré.


Neste regresso ao Mr. Keynes de antanho, promovido por políticos excitados com a oportunidade de voltarem a domar os, pensava-se, indomáveis mercados acusados da crise que cavalgamos, vejo argumentos como uma coreografia em falsete. É de bom-tom advogar preocupações sociais, aceitar a redistribuição de rendimentos para que os mais necessitados não sejam abandonados à sua desdita. Quem tiver a ousadia da dissidência, logo apontado a dedo e quase lapidado em praça pública. Como o direito à dissonância ainda não foi banido, exerço-o como voz que rompe a sinfonia patrocinada pelos sacerdotes bem pensantes e por uma classe política inebriada com os tempos sombrios que nos cercam.


Os consultores de quem manda sussurram, por estes dias, a cartilha de Mr. Keynes – o economista que, fosse vivo, não gostaria de ver esta economia tão desregulada, este capitalismo tão desenfreado. Talvez decepcionados pelo mau desempenho dos mercados, ou dos seus agentes a quem acusam dos piores crimes (sem, contudo, chegarem ao disparate do luso escritor laureado com Nobel, que há dias asseverou serem esses crimes comparáveis a genocídio), sopram os soundbytes ao ouvido dos actores proeminentes. Os consultores, também amadores – e assim se acha o fio à meada à tenaz mediocridade dos frouxos líderes esperançados na crise para o deixarem de ser, frouxos. Prova do amadorismo maior: acreditarem que a História se repete. Insistem nas comparações com a crise que começou com o colapso da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Só para resgatarem as mesmas medidas, as de Mr. Keynes, que terão sido providenciais para limpar a demorada nódoa da crise que entrou bem fundo na década de trinta.


Do receituário de Mr. Keynes fazia parte a generosidade social. O Estado – supostamente, todos nós – é o bolso sem fundo onde a generosidade encontra manancial. Inerente à nossa condição de membros de uma comunidade onde se exige compaixão com os mais necessitados. Entra aqui a lógica da redistribuição. Nunca um slogan revolucionário assentou tão bem como retrato da redistribuição: "os ricos que paguem a crise", foi pregão pintado à exaustão nas paredes de cidades, vilas e aldeias nos tempos que se seguiram à revolução que depôs a ditadura. Hoje, interpelado por insistentes jornalistas sobre a subida do salário mínimo para 450 euros, o loquaz timoneiro da nação assegurou que é em tempos de crise devastadora que ninguém deve questionar o aumento da generosidade estatal.


Fazer generosidade social com o dinheiro dos outros é tão fácil como eu apostar os testículos dos meus gatos já castrados em como a decisão saiu da cartola porque se lembraram que há eleições para o ano. Vários empresários duvidam da capacidade para pagar este salário mínimo; ocasião para a entrada em cena da gente do costume que metodicamente desconfia das intenções dos azougados empresários, logo acusados de só terem olho para o malfadado lucro. O timoneiro insinuou a existência de uns estudos económicos provando que a competitividade da economia não é afectada pelo generoso aumento do salário mínimo. Será que os houve, esses estudos?


O que me causa espécie: a serem verdadeiros os temores de quem gere empresas (decerto com mais conhecimento de causa do que políticos encerrados nos seus castelos de marfim), esperam-nos falências. Atrás das falências, desemprego. Só então a generosidade custeada pelo orçamento de Estado começará a funcionar, por via da pesada factura dos subsídios de desemprego. Alguns estranharão a linha de raciocínio, interrogando-se: se o orçamento é financiado pelos impostos, se são os mais ricos que mais impostos pagam, onde está o problema? O problema está na lógica da generosidade forçada. Na subtracção de rendimentos que podiam ser destinados a investimentos produtivos, daqueles que criam os sacrossantos empregos que tantos votos garantem aos que adoram adoçar o discurso com promessas de não-sei-quantos empregos que haveriam de ser inventados durante a legislatura.


Odeio adágios populares, mas há um que retrata na perfeição a imperfeição desta lógica da generosidade forçada: tantas vezes vai o cântaro à fonte que num dia se há-de partir. Quando olho para estatísticas que comparam o peso das despesas públicas ao longo do tempo, é uma visão dantesca: um gráfico com uma linha sempre a subir, a do peso das despesas públicas na riqueza gerada. Já chega quase a 50%. Depois vêm os saudosos de Mr. Keynes, de braço dado com os figadais inimigos do capitalismo, fustigar o "neo-liberalismo" e o "capitalismo desregulado", mais outros chavões parecidos. As estatísticas desmentem-no. Para quê regressar a Mr. Keynes se ele nunca deixou de ser o patrono dominante?


29.10.08

O discurso do intelectual


É a muita erudição que se esbofeteia nos comuns. Consigam eles, ao menos, entender a douta inteligência que desfila dessa maneira. Embrulhada em discursos obtusos, convencidos os da casta intelectual que assim se distinguem dos demais exibindo os fantásticos dotes de intelecto. Ouvi-los, excitados com um raciocínio que só eles conseguem seguir, é outro prazer: serve para consumir uma vaidade muito própria de quem se eleva aos píncaros da elite das elites – a elite dos bafejados por superiores dons de intelecto.


E, contudo, quem os consegue perceber? Dos discursos obtusos, a exaltação de tanta erudição, um arrazoado que não passa de um aglomerado de palavras ininteligíveis ao comum dos mortais. É o palavreado obtuso que os coloca – assim acreditam – num púlpito que só os deuses podem tocar. Depois olham de cima para baixo, embriagados com a sua prosápia cintilante. Tão excitados com a retórica perfumada com a essência da sabedoria, nem cuidam que a audiência que os contempla boquiaberta está nessa pose não como sinal de admiração de tão elevada erudição. A audiência está tão boquiaberta como incapaz de reprimir um esgar de quem não consegue retirar o sentido do raciocínio que se encavalita naquele discurso impenetrável.


O que encanta é ser testemunha do orgulho que estes intelectuais têm de si mesmos. Desfilam a sua superioridade que goteja da massa cinzenta, uma gravitas que convoca à admiração dos outros. Daqueles que, das catacumbas da mediania, devem prestar vassalagem. Convencidos que a oratória, ou as peças escritas onde escorre a sua fantástica sabedoria, devem ser a montra da ostensiva prosápia, desmultiplicam a erudição que os distingue. No final, apenas eles perceberam o queriam dizer. Falam para o seu umbigo – e para uma audiência que se convenceu da sua consagração, ou que os consagrou por ter ficado convencionada a sua douta sabedoria.


E também encanta a sua excitação enquanto peroram, longamente, sobre isto ou sobre aquilo. A sua sabedoria vem pontuada pela abertura de horizontes, flexível, cobrindo saberes díspares. O raciocínio tão elaborado, socorrendo-se amiúde da sua vasta cultura, é o refúgio onde se distanciam dos comuns. É lá que os comuns não conseguem chegar. Do púlpito onde esfregam a sua erudição nos demais, intuem que a constelação de sabedoria não será questionada.


Ao discurso hermético que tanto os excita, adicionam a incomensurável bagagem cultural. A intenção esbarra na ininteligibilidade do que dizem ou escrevem. A babugem que escorre da vaidade do superior intelecto dilui-se na incapacidade dos demais decifrarem o que dizem ou escrevem. O que se cristaliza em pose tão ostensiva é um distanciamento entre os peregrinos da intelectualidade e a realidade. Parecem vegetar num mundo imaginado, lá onde as ameias são intransponíveis ao comum dos mortais.


Vê-los imersos no seu imenso garbo é um deleite. Navegam no convencimento da sua inigualável sabedoria, achando-se pastores de um povo que consideram ignaro. Um povo que deve ser apascentado na imensa sabedoria que se abriga no regaço generoso de quem milita na elite intelectual. Eles estão sempre de braços abertos, prontos para aspergir a turba com a sua imensa sapiência. Muitas vezes, o que sobra é um travo amargo: a turba incomoda-se pouco com os prazeres do intelecto. Os sacerdotes da desmedida erudição têm escassa audiência – para além de um séquito que os contempla no acrítico consumo das doutas palavras que escassamente compreendem. Alternativo diagnóstico, porém: o desalinhamento entre o ignaro povo e os generosos sacerdotes da intelectualidade, da imensa cultura abrigada na sua interminável bagagem, porventura apenas o sinal de que pouca gente consegue perceber o que querem dizer.


É para o que serve tanta bagagem cultural, tanta erudição orgástica. Para estes intelectuais se elevarem aos píncaros da sua intelectualidade, tão ufanos dos seus dotes. E tão distantes da gente comum, tão elites, propositadamente encharcados num manto que, acham, os unge com a divina qualidade que ostentam. Eles são os seus próprios deuses.


28.10.08

Vudu Sarkozy


Alguém com muita imaginação, e uma certa antipatia pela figura do presidente da república francesa, inventou um boneco reproduzindo os traços faciais de Sarkozy. O boneco tem uma interessante utilidade para os detractores da personagem: é um peluche muito especial, diria, propositadamente peluche. Só para poder receber os alfinetes que se espetam nele, das pessoas que, através do vudu, procuram exorcizar os seus particulares fantasmas.


Estranho seria que Sarkozy, do alto da gravidade das suas funções, não ficasse indignado. O obnóxio cérebro que teve a inventiva ideia há-de dar com os costados num tribunal. Acusado de ofensa à honra pessoal. Falta saber se a honra beliscada pertence a Sarkozy cidadão, um entre tantos na republicana França, ou a Sarkozy com as vestes do presidente da república em que não se pode tocar nem ao de leve. Fico maravilhado com a aura intocável destes governantes que chamam a si uma respeitabilidade acima de qualquer suspeita, elevando-se a um patamar inacessível ao comum dos mortais. É interessante que, nisto, repúblicas e monarquias pouco se distingam. Ainda há dias li num jornal espanhol que o rei lá do sítio, distraído, nada fez para impedir que um zeloso funcionário do ministério público pusesse no banco dos réus um autarca que teve um deslize e insinuou que sua alteza era corrupta.


Quando estas personagens se alcandoram a um patamar tão elevado, como se fossem muito diferentes da maralha que conduzem, há ali alguma auto-deificação. Uma paradoxal auto-deificação, porventura não surpreendente nas monarquias – pois os reis e as rainhas parecem feitos de uma massa diferente do comum dos mortais, tão especiais, tão providenciais, tão acima da média em tudo o que se envolvam. A mesma conduta em repúblicas é mais difícil de explicar. É, ao mesmo tempo, uma deriva suicida dos republicanos que se querem distinguir da putativa diferente têmpera dos monarcas. No fim de contas, os republicanos que se acham acima do cidadão comum comportam-se como reis sem coroa. E sem os privilégios da sucessão dinástica (se bem que vão abundando os exemplos que trazem a sucessão dinástica para dentro das repúblicas).


Os ofendidos políticos que não perdoam o sarcasmo que sobre eles se abate são pobres de espírito, desprovidos de ginástica mental para serem os alvos do humor alheio. Dessa forma mostram escassa inteligência, pois as suas reacções despropositadas acabam por ampliar a dimensão do sarcasmo de que são alvo. Põem-se a jeito para mais chacota. Pelo caminho, perdem a noção da decência, que se confunde com a exigência em serem respeitados, o que prejudica a possibilidade de serem criticados através do sempre saudável humor. Quem assim exige ser levado muito a sério perde o seu capital de credibilidade. A escassa inteligência mostra-se pelo dispêndio de tempo e energias a combaterem na justiça os que ousaram beliscar o seu intocável estatuto.


No caso de Sarkozy, o episódio do vudu que vai acabar em tribunal é sintomático da patetice que envolve, a cada dia que passa, a figura. É um homenzinho que não hesita em colocar-se em bicos dos pés – talvez pela estatura de minorca que, consta, atormenta os seus sonhos, de tal arte que calça sapatos com uns tacões que artificialmente esticam a personagem nuns centímetros além da sua estatura natural. No cortejo de vaidades pessoais, deve ter agradecido aos deuses a profunda crise que nos cerca: oportunidade para vir todos os dias para a ribalta, com a pose grave tecendo os dantescos diagnósticos que a sua providencial aura há-de permitir ultrapassar. Senhor das suas certezas, até já decretou a renovação do capitalismo.


O frenesim sarkozyano é o fértil terreno para intensas irritações pessoais. Admito, em alguns casos até, de empedernidos militantes de uma esquerda qualquer, motivo para o ódio de estimação. Daí ao sarcástico boneco vudu onde os detractores podem descarregar a ira, ou o cansaço pelas repetidas e aparatosas aparições do cromo, um singelo passo a separar. Como os percebo. De cada vez que vejo Sarkozy passear a sua vaidosa arrogância, os seus gestos espaventosos, a retórica assertiva e cheia de teatralidade, sinto uma súbita pulsão de, ó heresia, ser de uma esquerda qualquer.


Aos indígenas especialistas do marketing, uma interrogação: haverá mercado para o vudu Sócrates?


27.10.08

A lógica do jumento (obras públicas faraónicas durante uma crise)


Ainda a crise, mas a tão incerta crise que ainda só se anuncia. Ouvimos, e lemos, pessoas responsáveis, conhecedoras, descomprometidas politicamente, aconselhar: diante da tanta incerteza, poupemos, cortemos em despesas, sejamos inventivos para poupar ao consumir. Não é tempo para devaneios com o dinheiro que não temos. Poupança, é a palavra de ordem. Por causa da contracção da economia. Mas, sobretudo, por causa de uma crise tão incerta que se assemelha a um quarto escuro para onde somos empurrados e onde não há maneira de o alumiar.


Algures num espaço virtual, vive um governo convencido que a terapêutica para sair da doença é injectar mais matéria viral. É um aborrecimento do tamanho do mundo, esta crise ter aterrado logo quando era mais conveniente abrir os cordões ao orçamento em vésperas de ano eleitoral (em tripla dose). O que fazem os que tomaram o leme em mão? Ignoram os sinais. Ignoram os apelos à prudência feitos por quem sabe da poda. Teimosos, só lhes interessa manter o calendário das obras, das muitas obras quase todas faraónicas. É a gestão do calendário eleitoral a sobrepor-se à lógica. Os catrapázios que ensinam o orçamento cheio de prodigalidades na véspera de eleições levam de vencida análises mais finas, análises mais frias, que sugerem prudência e aperto nas contas.


O que fazem os amadores do governo? Emparedados diante de um dilema, nem hesitam: prossigam as obras públicas, abra-se a torneira do betão. Recuar, nunca: podia roubar votos tão preciosos ao ambicionado triunfo nas eleições. Escondem-se em pretextos. Às vezes, dizem que é diante da crise que abala os alicerces da confiança e que ameaça paralisar a economia que se torna imperativo um orçamento gastador. Outras vezes, tocam na ferida sensível para largas fatias da população: se não for assim, vem aí a maré cheia do desemprego.


Ao primeiro argumento: por que artes de magia são consentidos ao Estado gastos virtuosos, gastos que são especialmente profilácticos em tempo de crise? Por acaso o dinheiro que o Estado gasta é diferente do dinheiro que anda nos nossos bolsos? Existe essa convicção: financia-se com os impostos que pagamos, o tal dinheiro que é fácil de gerir porque é de todos nós e, por isso, é anónimo. Um porém: as agendadas obras deslumbrantes terão que ir buscar financiamento ao estrangeiro, à míngua de rendimentos dos contribuintes indígenas (a fonte está a secar). Eis o paradoxo: nem com os balões de oxigénio que os providenciais frouxos políticos atiram para os mercados há sinais consistentes de mudança na maré da confiança. O que nos espera nesta absurda teimosia? Uma factura muito elevada há-de chegar no futuro. É a lógica de empurrar com a barriga os problemas de hoje, a maneira mais cómoda de convencer as gentes que a crise está domada. Só que depois a bolha há-de estourar. Nessa altura, outros terão as rédeas do poder. O problema já será deles.


Ao outro argumento que ampara os milagres da mão visível: vem aí desemprego e as obras públicas são o dique que o evita. Assim estes amadores assinam com o seu punho a confissão de como só sabem governar à bolina, só com o amanhã como ponto de mira. O depois de amanhã já não interessa. Por mais tempo que as obras se demorem nos estaleiros (é usual: os prazos ficam para as calendas), não se eternizam na fase da construção. Num certo dia, terminam e inauguram-se com pompa. E depois, o que fazer com o exército que teve trabalho temporário nas obras que deixam a impressão digital de um regime? Se isto não fosse suficiente, quem acredita que uma enxurrada de obras públicas, o cartão-de-visita da ostentação de um regime, consegue estancar o desemprego que se adivinha?


A teimosia em prosseguir com as obras públicas deixa à mostra como se comportam os amadores que andam pelo Terreiro do Paço. Agem como comissários partidários. O interesse geral, esse, para as catacumbas do esquecimento. No flagrante contraste entre a necessária contenção que se abate sobre pessoas e empresas, sem folga para o circo do consumo sem dinheiro e para os investimentos, e a abastança do orçamento. Da ilusória abastança que um dia destes vai trazer pesada factura. Cada vez mais me convenço: somos uma terra que se mostra rica, mas feita de gente pobre.


É esse contraste que torna as obras públicas no prelo, altar de sumptuosidade contumaz, uma obscenidade. Contudo, sugerem sondagens, estes ditirâmbicos socialistas levam a água ao seu moinho. A lição: compensa governar através de uma cortina de embustes.

24.10.08

A doença do nacionalismo


"A língua é a minha pátria", Fernando Pessoa


Demora em chegar, a modernidade. A teimosa ancestralidade do nacionalismo que perdura. É comportamental. Arrumamo-nos todos direitinhos nas gavetas delimitadas pelas nacionalidades que calharam em sorte à nascença (ou em desdita, depende da perspectiva). Se há coisa que me irrita é quando perguntam, no estrangeiro, de onde venho, e logo de seguida as pessoas desfilam estereótipos que julgam ser identificação da idiossincrasia nacional. Falam-me ora das sardinhas, ora do fado, ora do encantador Algarve, ora de uma agremiação regional que tinha acabado de levar a palma num troféu europeu de futebol. Como se por ter este passaporte tivesse que gostar de sardinhas, de fado, do Algarve apinhado de inestéticos turistas, ou estivesse entusiasmado com o triunfo futebolístico da agremiação regional.


Este nacionalismo é uma camisa-de-forças que aprisiona a liberdade interior. Por termos nascido num certo lugar, somos nacionais de um determinado país. Imediatamente espera-se que em nós fermente uma solidariedade colectiva com os demais que coincidem na nacionalidade. Não importa que não haja a menor identificação pessoal com o grupo, pois somos ensinados desde tenra idade que os laços de nacionalidade se sobrepõem ao resto. Que interessa que tenha mais afinidades pessoais com alguém de outra nacionalidade, se a formatação instituída me impõe solidariedade por aqueles que coincidem na posse do mesmo passaporte? É um espartilho, isto das nacionalidades. Uma tremenda restrição à liberdade pessoal.


Todos os dias, manifestações de nacionalismo pacóvio. Agricultores que vivem enquistados em tempos de antanho onde se glorificavam as virtudes do "orgulhosamente sós". Encenam patéticas teatralizações, com o dramatismo inane a tomar conta das ruas onde se manifestam. Oferecem leite nacional a quem passa e vertem no asfalto o leite estrangeiro que teima em entrar nas superfícies comerciais. Exigem restrições sobre a venda de leite estrangeiro, como se não houvesse União Europeia e as fronteiras não estivessem abertas ao leite que vem de outros países da União Europeia. Ou pescadores que perseguem camiões que trazem peixe espanhol, violentamente destruindo esse peixe que, ó heresia, ia ser vendido nas nossas lotas.


Há ainda muita gente que prega o infeliz slogan publicitário "o que é nacional é bom". Bem entendida a mensagem subliminar: convoca-se a solidariedade em nome da bandeira vermelha e verde que se deita sobre todos os concidadãos, para que nos convençamos que as coisas aqui fabricadas são melhores que as produzidas no estrangeiro. Como se fosse uma dádiva divina (logo, inexplicável) que nos levaria a preferir o que é nacional, no irracional argumento que "é bom", ao jeito dos não argumentos que apenas explicam "porque sim". Que interessa a minguada carteira das pessoas que compram esses produtos? Em muitos casos, até podiam poupar dinheiro – logo, viver melhor – se não houvesse o apelo à afectividade nacionalista e comprassem mercadoria estrangeira mais barata e de melhor qualidade. É o nacionalismo no seu esplendor irracional.


O fervor nacionalista ultrapassa as fronteiras dos exemplos mesquinhos e toca até quadrantes intelectuais. Vê-se na língua, seja na literatura, seja na música, ou ainda no teatro e no cinema. Há cultores da literatura que se excitam ainda na famosa frase do poeta Pessoa, num incontido orgulho da língua que empregam na escrita, providencial diferença que faria do português uma língua predestinada. Há académicos que vivem ultrapassados pelos tempos e se condoem por verem o português ferido pela entrada do inglês nas salas de aula. Receiam que o português se perca, como se alguém acreditasse que é por aqui que o fantasma da língua morta se abate sobre o português, qual latim dos tempos vindouros cedendo ao inglês em pose de língua franca. Há músicos que se gabam de serem pastores do português cantado, como se a música não fosse universal e a língua que a canta apenas seu instrumento. Chega-se a defender a língua a peito: há por aí um rapper – ou artista do hip-hop, ou lá o que é – que se notabilizou por uma composição em que censura, com uma violência verbal inusitada, artistas nacionais que cometem a heresia de cantar em inglês.


Mas o que interessa tudo isto? O que faz tanta gente distrair-se com os deleites envenenados da nacionalidade, que depressa resvala para um nacionalismo que é tão saloio como insensato? É ao ver estas patéticas exibições de guardadores do rebanho nacional que sinto uma incontrolável pulsão de meter os papéis para a apátrida condição.


23.10.08

A pudica chanceler


Sinal dos tempos que atravessamos: a gente que devia ser responsável e apresentar soluções credíveis para a tão profunda crise financeira que há e para a crise económica que há-de vir, entretida com lamentáveis fait divers. Angela Merkel queixou-se na embaixada alemã em Paris que Sarkozy vomita uma enxurrada de charme sobre ela. À boa maneira do macho latino, Sarkozy acha-se um sedutor (assim como assim, não está para a perna de qualquer um conquistar a, por muitos endeusada, Carla Bruni). Daí o afecto com que agracia Merkel, com indiscretos afagos e profusos beijos quando se cumprimentam. A gélida chanceler não gosta, acha indecoroso.


A começar: será a etiqueta protocolar que obriga a manifestar o incómodo através de interpostas pessoas, os diplomatas dos dois países? Não há confiança para prescindir dos préstimos dos diplomatas e ter a franqueza de passar um discreto ralhete no expansivo presidente francês? Estas coisas resolvem-se olhos nos olhos. Não com a indecente mensagem passada à embaixada de um país, que por sua vez a transmite ao ministério dos negócios estrangeiros do outro país, que finalmente faz chegar o incómodo da donzela ao marialva acusado. Pelo caminho, com fugas de informação, o sumarento episódio aterra nas redacções dos jornais, ganhando foros de incidente diplomático.


Passada a surpresa de o ver retratado como notícia, roubando tempo ao que devia interessar aos políticos e à servil comunicação social, percebe-se: ou é a comunicação social tão enamorada pelo acessório, ou é por estarmos deprimidos por causa da crise e por isso carecemos de entretenimento. O circo recupera a boa disposição das gentes atarantadas pela crise que há e pela crise que está para chegar.


Cavalgo, então, na frívola maré. Leio que o desconforto da chanceler alemã pode ser entendido à luz das diferentes educações que têm no catolicismo e no protestantismo os seus diferentes códigos genéticos. Dizem que os franceses, católicos e latinos, são mais dados à exteriorização do afecto. As pessoas tocam-se sem se sentirem repugnadas pela mão do outro que afaga, sem haver choque por uma saudação se socorrer de ósculos pespegados por carnudos lábios. Ao contrário, os alemães. A frieza de comportamentos com origem no protestantismo. Resguardam emoções, militantemente gélidos. Recusam-se ao espalhafato dos afectos em público.


Algo não bate certo, porém. Os teutónicos são gente que se esconde debaixo de uma carapaça, gente orgulhosa por guardar o domínio das emoções para si (e para os mais íntimos). Os espalhafatosos franceses precisam de contacto físico: como se fosse condição necessária para contagiar os outros com as emoções de quem as deseja libertar. Nisto, os primeiros remetidos ao recato, perseguindo o individualismo das emoções. Os segundos, expansivos, altruístas na partilha (activa e passiva) dos afectos. Contudo, é mais a norte que os costumes são mais liberais. Será mais pela Alemanha que a libertinagem sobe na sua escala. O que introduz a perplexidade: por que se incomoda Merkel com a gelatinosa simpatia de Sarkozy, toda ela embrulhada em salamaleques afectuosos, a mão pousada sobre os ombros da mulher que manda na Alemanha, os espaventosos beijos que trocam à chegada e à despedida?


Tenho teorias. A chanceler está ali a representar a grande Alemanha. Que não fiquem dúvidas que a grande Alemanha não admite que a vizinha França passe a mão pelo seu dorso. Pode haver quem entenda o gesto como uma sublime mensagem de patético paternalismo machista exercido por Sarkozy. E, depois, quem não conhece o pétreo chauvinismo francês? Ou Merkel não gosta do estilo puerilmente charmoso de Sarkozy. Para os seus botões pensará: ele não é charmoso, é sarnoso. Não faz o seu estilo, o que lhe causa repugnância de cada vez que o presidente da França avança em direcção àquele pedaço de território alemão. Ou – derradeira hipótese – ela é admiradora de Bruni e incomoda-se com as investidas de Sarkozy, não vá a cantora primeira-dama ser acometida por uma fúria ciumenta e o caldo das relações diplomáticas entornar-se.


É espantoso como, no meio da crise quase sem precedentes, esta gente ainda encontra tempo para se demorar com esta laia de fait divers. É o espelho da sua tão frouxa têmpera. Quem disse que eles eram líderes? Pobre direita, que mal andas quando entre os teus ícones estão personagens deste calibre.


22.10.08

No restolho das folhas caducas


Ainda não se anunciam os ventos já frescos, o sinal do Outono que tarda – e que chega mais tarda a cada ano que passa –, mas já as folhas se espalham pelas ruas. Fazem a sua cama densa debaixo das árvores que vão ficando despidas assim que o calendário entra pelo Outubro dentro. As amarelecidas folhas, enfraquecidas folhas, desprendendo-se dos seus ramos. Caducam no zénite da outonal estação que é a enseada onde se acolhem já féretros.


As folhas caducas, nesta altura apenas uma saudade do viço que foram outrora. Na sua tonalidade acobreada que toma contas das ruas, antes dos homens do lixo as virem recolher, encerram a nostalgia maior. Lacram as memórias de uma juventude vigorosa, aqueles tempos em que havia pressa de viver tudo ao mesmo tempo, como se o mundo fosse chegar ao fim ao cabo do dia seguinte. Eram os tempos em que tudo era vivido na sua vertiginosa velocidade. Sem oportunidade para os sentidos se demorarem nas imperceptíveis, mas contudo arrebatadoras, dádivas da vida, tamanha a pressa de passar por tudo.


As folhas tombadas, as folhas que esvoaçam anarquicamente quando o vento se levanta, são a testemunha desses tempos de insaciável consumo da vida. As folhas caídas que emolduram o Outono são um sinal paradoxal, a inexacta expectativa da nostalgia dos tempos perdidos no sótão das memórias. É que essas folhas não regressam às árvores de onde tombaram. São, elas mesmas, os vestígios de um tempo que deixou lá atrás a sua marca indelével. Se há lição vertida pelo restolho abundante que a outonal estação semeia nas ruas é a aprendizagem do tempo – um templo de onde se soltam as ondas que amansam a voragem da vida. Como se aquelas folhas, entretanto adormecidas no seu leito fatal, mostrassem a inutilidade da existência que teima em ultrapassar-se na pressa de viver. As coisas, todas as coisas, pertencem ao seu tempo.


Desenganados os que se entristecem nos sombrios dias de Outubro, quando as árvores vão emagrecendo em folhagem à medida que as ruas se enchem das caducas folhas. Nem a conjugação de elementos, que parece um convite à melancolia – os dias plúmbeos, o vento agreste, as primeiras chuvas que adivinham a impiedosa invernia, as roupas que acamam o corpo –, tem a força suficiente para entregar os corpos na letargia de quem se deixa derrotar pela melancolia outonal. Ao contrário: a escondida beleza do restolho composto pela folhagem em decesso. O acobreado das árvores ao longe, os castanheiros que se tingem de avermelhadas tonalidades, eis a magia de uma nova paleta de cores. Mudança. O Outono no seu esplendor revelado ao rejeitar a monotonia do estio já extenuante.


A beleza do quadro onde domina a cama de folhas caducas. Das folhas que crepitam quando são calcadas, ou das escorregadias folhas quando humedecidas pelos primeiros suores nocturnos que se condensam em gotas orvalhadas. É todo um respiradouro que renova a paciente existência. Pelas folhas que se entregam na sua tão bela sepultura, trinam os sinos que ecoam pelas profundezas do pensamento. Avisam que insistir na vertigem do tempo é um passo em falso, um tremendo equívoco, os sentidos permanentemente deixando escapar as pequenas coisas que a pressa impede de reter. As pequenas coisas que encerram o sabor mais intenso da existência.


São as folhas secas, no seu leito fatal, que o ensinam: pode a existência esbarrar na incómoda curta duração – pois a vida é sempre curta, por mais que se delongue. Apressá-la, na fobia de sorver toda a sua sumarenta seiva, porventura a traição maior aos que vivem tão desalmadamente. A tranquila cessão das folhas, que não seja o falsário altar onde os endemoninhados da vida voraz acabam por chegar à meta tão antes do tempo. Só então hão-de reparar como foram atraiçoados pelos corsários que os levaram à vertiginosa forma de vida. Quando forem folhas caducas, saberão.


21.10.08

Da triunfante abstenção


Vejo os socialistas, ufanos com mais uma vitória eleitoral. Dizem que esmagaram a concorrência nas eleições regionais dos Açores. Maioria absoluta. No continente, o encantador aparelho socialista refina análises que nem o mais amador dos aspirantes a politólogo seria capaz de fazer: insinuam extrapolações das ilhas açorianas para o continente, um wishful thinking que procura antecipar o resultado que eles queriam que acontecesse nas eleições legislativas do próximo ano.


Escorrem vaidade, os socialistas lá dos Açores, com o oportunista amparo dos companheiros continentais. Apagam dos registos dois percalços que ofuscam tão feérica vitória por eles reclamada. Primeiro, perderam um deputado. Sinal de que houve menos gente a concordar com a reeleição dos socialistas. Dirão, passando a esponja neste dado, "pormenor irrelevante". Segundo, a abstenção foi superior a 50%. Foi maior o número dos que não foram votar do que os votantes no partido socialista. Esta é a dor maior que os socialistas varrem para debaixo do tapete. A dor que não convém revelar. Não vá ela beliscar a espampanante vitória. A habitual pesporrência dos que se olham do alto da putativa superioridade impede de julgar a gravidade de tão elevada abstenção. Não foi uma vitória cor-de-rosa. Quem saiu triunfante destas eleições foi a abstenção.


Foi a primeira vez, desde que a democracia trouxe o hábito de eleições, que a abstenção ultrapassou 50% em eleições para órgãos legislativos. Poucas menções ao fenómeno. Do César que vai continuar a mandar nos Açores uma breve referência, deixando pelo caminho a sugestão que para a abstenção terá contribuído a desactualização dos cadernos eleitorais. A lengalenga do costume de políticos que convivem mal com elevadas taxas de abstenção: ou há muitos eleitores inscritos que por esta altura já habitam cemitérios, ou é o específico caso dos Açores que continua a exportar muita gente para outras terras. Espantoso argumento, por ser proferido pelo presidente do governo regional açoriano: pois se as gentes continuam a emigrar aos magotes, é sintoma de que a vida nos Açores continua a ser madrasta. Por sua vez, sinal da inépcia de quem lá governa – e há mais de dez anos.


A abstenção é a filha bastarda do sistema político. Incompreendida, desvalorizada. Apoucada, até, quando os abstencionistas são atacados por, dizem os críticos, se demitirem de um dever político fundamental. (Seria altura para enxertar aqui contra-argumentação: antes de ser dever, votar é um direito. Para o objectivo do texto de hoje, essa discussão não vem ao caso.) A abstenção é a mágoa dos políticos profissionais, dos que vão a eleições e ficam tristes por dentro por haver tanta gente que não vota num deles. Continuo convencido que há muita abstenção que não se explica apenas pelos cómodos argumentos desfiados por políticos profissionais e analistas a soldo – a praia estava apetecível, ou havia um jogo de futebol que desviou as atenções (como se um jogo de futebol durasse das oito às dezanove horas…), ou as pessoas foram para fora durante o fim-de-semana, ou apenas não se interessam em escolher que os vai governar. Nunca por nunca a abstenção é sinal de desconfiança no sistema político e nos seus medíocres intérpretes.


Ainda que as eleições regionais nos Açores sejam específicas, há outra extrapolação a tirar: uma abstenção sem precedentes desmente uma teoria que tem feito furor por estes dias. Dizem alguns que diante de uma crise tão profunda e perante tempos vindouros tão incertos, as pessoas se refugiam nos actuais governantes. Neles depositam um elevado capital de confiança, esperando que sejam capazes de encontrar soluções para ultrapassar a crise. O que reforça as actuais lideranças e funciona como balão de oxigénio para aqueles líderes que estavam a descer na ladeira da credibilidade. Em si, a teoria é contestável. Francamente, acho-a esotérica. A ser verdade o que preconiza a teoria, as gentes entregam-se aos políticos do momento como se entregam à religião quando estão a viver momentos aflitivos. Há muito de metafísico nesta teoria.


A elevada abstenção nas eleições dos Açores destrói os alicerces desta inusitada teoria. O facto de haver tanta gente que se recusa a escolher um entre tantos concorrentes às eleições também pode ser interpretado como sinal de que essas pessoas (mais de metade do eleitorado) descrêem nas capacidades dos políticos para matarem a crise.