23.9.08

Very institutional


Há gente que leva muito a sério os cargos de representação institucional. O zénite de uma carreira. Pressinto um desfasamento entre o discurso de justificação para o exterior e os sentimentos interiores em que navegam. Por um lado, a solenidade da representação da instituição, a muita importância por serem rosto e porta-voz da instituição, afinal, de todos os que são o substrato da instituição. Por outro lado, lá por dentro, uma irreprimível vaidadezinha: a sinecura revela muita importância, a confiança depositada pelos seus pares, a solenidade da distinção. Lá está: o zénite de uma carreira.


Quem tem um aguçado sentido de pertença a um colectivo leva mais a sério a representação de uma qualquer instituição que corporize aquela pertença. Os indivíduos atingem a plenitude quando se agrupam num todo, o grupo que se cimenta com as afinidades conjuntas. O colectivo atinge a maioridade quando consegue pôr de pé instituições. Defende a existência através do sentido institucional e das regras que alinhavam a pertença isenta de conflitos. Uma maneira de pensar que desvaloriza o indivíduo, remetido ao papel de selvagem enquanto vive fora de um grupo, ausente das instituições que dominam o seu egoísmo. Quem assim pensa glorifica a existência de instituições, como se inclina perante a socialização – a socialização sempre voluntária, nunca forçada – do indivíduo.


Por mais voltas que estes institucionalistas dêem, a individual condição da pessoa é indeclinável. Concedo: há tantas coisas que só somos capazes de alcançar em conjunto, através de pertenças múltiplas. Isso não traduz a diluição do indivíduo no grupo a que pertence. Nem significa a concessão perante os imperativos das instituições que cimentam a pertença ao grupo. Os benefícios que cada indivíduo recolhe da pertença reflectem-se na sua esfera individual. E quando alguém decide aderir a um grupo e trabalha no seio das instituições, não o faz por desinteressado compromisso pelo grupo e pelas causas que o norteiam. Ainda que essa seja a retórica que alicerça a pertença. Ainda que seja exteriorizado um espírito de missão sempre louvável para os espíritos encantados com a entrega a causas colectivas. Não há como negar: mesmo que seja crível o desapego e o altruísmo, o impulso vem sempre de dentro do indivíduo. É uma decisão individual. A pertença e a sagração das instituições são instrumentais ao impulso individual.


Não me consigo comover com a necessária pertença a grupos e menos ainda com a sublimação das instituições como expressão máxima da pertença. Como se as reuniões plenárias das instituições fossem a sagração máxima da pertença. No imperativo de levar muito a sério a reunião plena da instituição, o momento mais solene que consolida a fortaleza do grupo. Tudo isto me soa a ficção. O grupo é uma abstracção, como a "sociedade" é a abstracção maior que violenta a individual condição de cada um. A história cauciona os piores exemplos de demissão do indivíduo perante as exigências do grupo. Como indivíduos se vêm desapossados da sua essência, entregues num altar sacrificial no putativo nome dos interesses do grupo. O pior é a cegueira da gente que se vê transformada em carne para canhão dos desígnios traçados pelos que arquitectam as causas do grupo. Eis a ficção da pertença – e do ignóbil convencimento das anónimas gentes para se sacrificarem em nome do "interesse colectivo": as mais das vezes, apenas a transposição do interesse individual do guru, que se transforma em interesse colectivo.


Pode o funcionamento das instituições temperar este efeito. Serão intermediárias entre os indivíduos e o desígnio escolhido para o grupo, sobretudo se tiverem um funcionamento democrático. Desconfio: da manipulação de gente perversa, perfidamente inteligente para moldar os interesses do grupo à imagem dos seus próprios interesses; e do acomodamento de uma imensa maioria, acriticamente seguidora de quem consegue mobilizar gente à sua volta. Ao fim e ao cabo, as instituições são o retrato dos interesses de indivíduos predestinados que convencem os outros a tomar os seus interesses individuais como interesses do grupo.


Admito: esta retracção pelas pertenças e pela solenidade das instituições tem, como pano de fundo, um individualismo circunspecto. Ou o mau feitio impenitente. A persistência em permanecer desalinhado, um orgulho em ser ovelha sempre tresmalhada dos rebanhos ordeiros. É por isso que adoro a elevada importância da gente que leva muito a sério a sinecura institucional. Lá no fundo, a vaidade dos penachos.


22.9.08

Ladrão que roubo ladrão tem cem anos de perdão


Das notícias deliciosas. Um manjar opíparo que encanta os sentidos. Há poucas assim, enegrecido o panorama noticioso por entre a tristonha penumbra do que o mundo é e a atracção pelo sensacionalismo que atira a imprensa para uma qualidade que não se distingue do lixo. Só que o mundo tem coisas belas para oferecer. Por isso é que há poesia – ou talvez haja poesia porque os poetas andam arredios do mundo.


Seja como for, há pontuais oferendas que destilam o perfume do encantamento. Diante delas, até os empedernidos cépticos esboçam um sorriso. Até eles, por um momento que seja, se enamoram pelo mundo de que tanto desconfiam. Nem que seja para provar que o pessimismo metódico tem dias que esbarram no seu desmentido. Nessa altura, eventos esparsos rompem com o petrificado pessimismo. Que se descobre na sua surpreendente fragilidade: afinal as convicções do céptico militante também se esboroam quando os olhos testemunham episódios que são a negação daquela militância. Desde que haja arejamento mental para não bater a porta aos luminosos acontecimentos que ensaiam uma pontual manifestação nos antípodas do pessimismo costumeiro.


Na semana passada, a onda de criminalidade que cavalga – negando a ficção em que vivem mergulhados os maravilhosos governantes – teve o seu momento inusitado. Uma pandilha atacou uma repartição de finanças perto de Lisboa e de lá saiu com o pecúlio de impostos. Estou a imaginar os moralistas do reino, aqueles que acreditam piamente que todos temos que pagar impostos porque esse é o preço da socialização que garante a ausência de selvajaria. A vê-los, indignados, perante este crime de lesa-majestade. Suprema ousadia, dirão. Que assaltem bancos, ainda se entende: um banco é uma entidade privada e, que se saiba, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) não reúne as preferências dos gatunos especializados em bancos. Eles lá sabem: o banco do Estado não se assalta, ou assalta-se menos, ou assalta-se porque os desesperados profissionais do crime, do alto da sua ignorância, nem sabem que a CGD é o "banco de todos nós".


A lógica será esta: o que pertence ao povo nunca devia ser objecto de roubo. Os sacerdotes da bonomia do Estado protestarão duplamente contra os patifes que irromperam pela repartição de finanças e roubaram o pecúlio dos impostos. Por um lado, os impostos são como as esmolas das igrejas – intocáveis. Devia haver decoro entre a gatunagem potencial, uma espécie de código de conduta, os mínimos necessários que até ladrões não se escusariam a respeitar. Os impostos são o preço necessário para a construção da sociedade, um instrumento ao serviço do progresso da nação – assim nos ensina a doutrina oficial. Por outro lado, neste socialismo em acção em que vivemos, é de bom-tom concordar com o preceito de que os ricos pagam mais impostos em favor dos pobrezinhos. Aquilo a que se convencionou chamar "redistribuição". Eis a inadmissível ousadia dos gatunos da repartição de finanças: impediram que aquele dinheiro dos abastados fosse redistribuído pelos necessitados.


Como esta gente deve estar tão indignada, dou daqui umas sugestões para evitar furtos destes no futuro. Mudar as leis, por exemplo, para criminalizar os roubos de repartições de finanças como crime de terrorismo contra o Estado. E, porque não, a retirada de todos os direitos humanos dos pérfidos assaltantes de impostos que pertencem ao povo, se por hoje há quem defenda que as garantias fundamentais podem sofrer entorses se elas forem obstáculo a interesses supremos. Uma espécie de Guantánamo onde seriam enclausurados os gatunos de impostos, uma lição que impediria novos roubos de impostos. Para grandes males, grandes remédios. Os grandes desígnios não podem soluçar perante estes imponderáveis.


Eu tenho uma visão muito diferente sobre o assalto à repartição de finanças. Que me perdoem os que acharem a ideia despropositada, ou longe dos padrões convencionais por onde somos aconselhados a pisar. Se confessar a veia anarquista talvez me desculpem o excesso, mas continuo a achar um imposto sinónimo de roubo – um roubo com a aquiescência das gentes, tão formatadas para pagarem sem protestos. Ora se um imposto é um roubo institucionalizado, quem rouba um ladrão não será decerto ladrão normal. Será ladrão que merece condescendência, se não até aplauso.


É que, nem de propósito, foi o primeiro-ministro a que temos direito que se lembrou de inventar uma taxa contra as empresas petrolíferas a que deu o nome de "taxa Robin dos Bosques". Não era Robin dos Bosques que roubava aos ricos para dar aos pobres? Com a mania das obras faustosas, pagas com impostos desviados dos contribuintes à força, até parecemos um país muito rico. Se os impostos servem para pagar devaneios destes, o seu roubo simboliza a subtracção de quem é rico. E todos concordaremos que o produto do roubo aproveita a alguém que é mais pobre, muito mais pobre.


Diante disto, só um demorado aplauso aos ladrões da repartição de finanças. Sem que se entenda o diagnóstico como uma aproximação ao marxismo. Robin dos Bosques não foi contemporâneo de Marx. E, que se saiba, Marx não se inspirou em Robin dos Bosques.


19.9.08

Teia de aranha


Às vezes, os passos trocados desaguam num terreiro onde se alcança uma teia de aranha. Espessa teia de aranha, como se fossem as areias movediças onde os pés se afogam ao cabo de uma fatal distracção. O pior é quando, naquela encruzilhada, o sentido escolhido não foi o resultado de uma distracção, antes o exercício da convicção. Nessa altura, arrependimento algum possui a alta magia de subtrair o corpo da teia de aranha, seu leito fatal.


O corpo então debate-se nos fios viscosos da teia. Que se enredam no corpo, desmultiplicando-se vindos do nada. No seu afã, o corpo parece deslaçar-se de uns quantos fios da grande teia. Só que logo a seguir há outra parte do corpo já tomada por um entrelaçado que imobiliza um membro, o torso, outra parte qualquer. Quando a escuridão varre a luminosa luz diurna, a teia de aranha parece espessar-se mais ainda, aprisionando o corpo sem remissão. Adormece os dedos das mãos e dos pés, que deixam de se debater, consumidas as forças contra o paredão inamovível daqueles fios entrelaçados. E parece que na noite não tem fim.


E, contudo, a teia de aranha é um lugar de contradições. Nela se entretece uma multidão de frágeis fios salivados pela aranha. Vistos como peças isoladas, os fios são de uma fragilidade assustadora, quebradiços ao mínimo toque. Só que a viscosa teia em que se tecem é uma impenetrável parede. Onde cada fio isolado mostra fraqueza, no seu conjunto, tecidos numa intrincada teia, agigantam-se numa férrea estrutura onde as presas encontram a sua sepultura, só à espera que o aranhiço chegue para a degustação.


Não é o caso. Apenas os movimentos manietados pela solução viscosa que se desprende de cada fio, uma gelatinosa substância que anestesia os movimentos. A certa altura, o corpo deixa de se debater. Faz a concessão final. E, nessa altura, é como se o corpo passasse a fazer parte da teia de aranha. Salivando ele também os seus próprios fios. Tecendo uma carapaça onde se refugia do que lhe é exterior. Apanhado numa teia, transforma-a na sua fortaleza inacessível. Uma teia reflexiva, não uma teia predadora. Não é um emaranhado para atrair à armadilha quem se ofereça como sua presa. Ao contrário, a espessura salivada retrai estranhos e curiosos. Os fios viscosos, como se fossem as paredes untadas que impedem a escalada.


A teia, um sinal retemperador. Dos males que o parecem ao primeiro contacto. Que, todavia, se tornam num arremedo profiláctico, uma reserva mental que protege, em antecipação, dos alçapões traiçoeiramente espalhados, dos aleatórios alçapões. Não é o fermento da desconfiança metódica. Apenas um também metódico recato do mundo em redor. Porventura com uma maleita associada: o temerário encasular, como se desviar o olhar das doenças pungentes mostradas pelo mundo fosse vacina individual.


Os gestos enérgicos que ao início tentavam deslaçar o corpo da poderosa teia deram lugar à tranquila pose diante das coisas do mundo. Em vez de ser presa da teia tornou-se feitor da teia. Afinal, a concessão que chegou com a noite implacável fora a poção mágica que tanto procurara algures. Estava por entre os sucessivos fios viscosos que enleavam o corpo no casulo salvífico. Às vezes, o poço fundo, o assustador e escuro poço que não parece ter fundo, encerra misteriosos lugares que se oferecem como sítios de onde sussurra a regeneração. É como se os olhos andassem perdidos, por tempos infindáveis, a olhar para o lado errado. Como se um pedaço do cérebro angustiado pelas sombras nutrientes do desconhecido, temendo os insondáveis caminhos, se recusasse a irromper por aí. A ousadia da aventura desvela o lado que sempre estivera escondido. Afinal, o desconhecido na sua terapêutica forma.


A teia de aranha deixara de ser o manancial de pesadelos. Era o segredo ocultado pela espessura dos fios que não atraiam ninguém. Do lado de lá dos fios entrelaçados, sem receio daquela parede viscosa, o ar enfim purificado. Um mundo todo diferente. Mesmo que seja feito de uma espessa manta de ilusões.


18.9.08

Das incompreensíveis injustiças: o primeiro-ministro da Tailândia demitiu-se por ter participado num programa de culinária


Mergulhados no vezeiro etnocentrismo, estamos mentalizados que a bizarria vem quase sempre de longínquas paragens. Os sítios que, de acordo com os nossos padrões, rotulamos como lugares exóticos. São os sítios onde acontecimentos incomuns baralham os padrões daqui. Curiosos, damos uma espreitadela no acontecimento raro, como se andássemos por um jardim zoológico à cata de espécies que só em cativeiro teremos oportunidade de ver em carne e osso. Depois soltamos um esgar arrogante, a meias com um sorriso sarcástico, que sela a, acredita-se, nossa tamanha "superioridade civilizacional" (assim mesmo, entre aspas). É nessa altura que não damos conta como os planos se invertem: e o que se pensa ser superior desagua numa escusada inferioridade.


A curiosidade tem algo de antropológica. Ao sermos espectadores de um episódio fora do comum, apetece interrogar pelas causas. Que traços culturais específicos o possibilitam? Que idiossincrasias particulares se combinam como nutrientes do acontecimento que baralha os nossos quadros mentais? Depois deixamos funcionar as gavetas fáceis onde as coisas se encaixam em simplistas categorias. A bazófia de cá cauciona o convencimento de que somos superiores aos outros, logo engavetados no rótulo de gente que pertence a lugares atrasados. Mesmo quando há indicadores que mostram que o subdesenvolvimento de outrora é assunto encerrado, com alguns países (sobretudo asiáticos) a mostrarem uma pujança económica que faz inveja às economias pouco mais que estagnadas do auto-proclamado "mundo desenvolvido".


Puxando lustro às convenções: a Tailândia é um país atrasado? Para os auto-convencidos da notável superioridade civilizacional do "ocidente", sim, é atrasado. A prova de como esses assertivos juízes estão errados nem se funda nos indicadores económicos e sociais que seriam suficientes para negar o rótulo. Por hoje, vou provar que a Tailândia vive em maioridade social por causa da decisão tomada pelo primeiro-ministro, que se demitiu ao ter sido apanhado a participar num programa televisivo sobre culinária – que pecado imperdoável...


Dou de barato que a gente por dentro da política se deve dar ao respeito, evitando dar o flanco para a chacota dos outros. E vou dar de barato que a presença num programa de televisão sobre culinária não condiz com a solenidade do cargo de primeiro-ministro. Vou aceitar estas premissas, mesmo que delas discorde. Raciocinando através delas, a pergunta sacramental: em que outro lugar do mundo, mesmo nos que reclamam para si a condição de avançados países, este episódio daria lugar à deposição do líder do governo (ou de quem quer que seja)? Logo fermenta outra pergunta: não é factual que em países – chamemos-lhes assim: sérios –, polémicas mais graves ou escândalos vistosos não servem para remover políticos das sinecuras que ocupam?


O primeiro-ministro da Tailândia deu o exemplo, acossado por todos os lados porque muita alma tresandando uma impoluta moralidade terá ficado ofendida com a banal participação num banal espectáculo de culinária. Se calhar, banalidade a mais, incompatível com a solenidade do cargo. Demitiu-se. Noutros sítios, homólogos seus teimam em ficar no lugar mesmo quando há histórias mal contadas acerca da estalinista concepção do curriculum vitae. Afinal, onde está o país atrasado? E aqueles que satirizam a Tailândia, riem do quê?


Há uma maneira diferente de olhar para o estranho caso de um primeiro-ministro empurrado para a demissão só por ter mostrado na televisão os seus dotes culinários. Este "só" não é inocente, nem aparece por acaso. Caem os parentes na lama a alguém por confessar em público que gosta de cozinhar, mostrando de seguida os dotes culinários? Mesmo que esse alguém seja tão importante como um chefe de governo? Por acaso a culinária é uma arte de proscritos, uma arte menor onde apenas habita uma ralé? Se assim fosse, quem frequentava restaurantes? Quem tirava o prazer da gastronomia, das suas inventivas criações? O primeiro-ministro da Tailândia quis mostrar uma face humana, uma humildade que os residentes no poleiro da política não estão acostumados a praticar. No rescaldo, foi crucificado. No rescaldo, também, a nobre arte da gastronomia nunca foi tão mal tratada.


O que mais estranho é a ocultação da dimensão simbólica da presença do primeiro-ministro da Tailândia naquele programa sobre culinária. Para o mal ou para o bem, não é o primeiro-ministro que cozinha os destinos do país?


17.9.08

Da pérfida moral que as criancinhas aprendem nas historietas infantis


Agora que a minha filha descobriu que sou um exímio contador de histórias infantis ao deitar (…), começo a descobrir certas subtilezas dessas historietas. E fico surpreendido como aquela gente que cultiva o politicamente correcto, aquela gente tão pressurosa em formatar as cabecinhas de um rebanho que querem ordeiro, apascentando em terras impolutas de devaneios consumistas e materialistas, ainda não se tenha lembrado de verberar as historietas infantis. Ou andam distraídos, ou não contam histórias infantis aos seus filhos. Ou narram apenas histórias que se encaixem nos cânones dos modernismos politicamente correctos, ou versões dessas histórias que venham extirpadas dos vestígios que possam corromper o "novo homem novo" que se espera que as criancinhas venham a ser. Ou, simplesmente, não têm filhos.


Honestamente, fico espantado como estes sacerdotes do pensamento impoluto, sempre vigilantes para impedir desvios que nos coloquem para além do limiar da sua moralidade necessária, ainda não tenham percebido como as histórias infantis são uma perturbante fonte que tira os meninos do caminho certo. Ainda por cima, esta gente é tão dada a esotéricas teorias da conspiração que menos se entende que ninguém tenha protestado contra os desvios (decerto instigados por alguém a soldo do grande capital) a que os petizes são levados pela insidiosa mensagem das histórias infantis.


Passo a exemplificar: lia o "Gato das Botas" e apercebi-me como toda a história formata a cabeça das criancinhas de forma tão errada. A fábula gira em torno de um gato servil, um gato falante e maquiavelicamente inteligente. Munido de umas altas botas, que lhe darão poderes mágicos para congeminar as artimanhas que favorecem o seu dono, vai compondo as peças de um puzzle que manipula só para proporcionar ao dono, um jovem afundado na pobreza, uma faustosa vida futura. Primeira ilação da insídia contida na história: os meninos aprendem que a pobreza não interessa a ninguém. Primeiro laivo do hediondo capitalismo que coloca o bem-estar material acima de tudo. Começam a aprender pela cartilha errada – diriam, se estivessem atentos, os sacerdotes pressurosos do lirismo dominante.


O Gato das Botas congeminou um plano para casar o rapaz seu dono com a princesa herdeira do reino. Segunda ilação: as criancinhas são convidadas a mergulhar num mundo fantasioso, feito de belas princesas, imaculadas princesas, que pertencem a anacrónicos reinos. Haverá aqui o dedo de gente a soldo do capitalismo, como já sugeri. Gente que é também saudosa da monarquia. Mais um ensejo para as vozes que alimentam teorias da conspiração protestarem contra o enviesamento das historietas infantis. Narram um mundo de fantasia, um mundo que está em extinção. Uma realidade que teima em manter vivos traços ancestrais e reprováveis (reis, princesas, monarquias) dentro da modernidade que querem moldar ao seu jeito.


Onde os valores preocupantes – ou a ausência deles – se mostram em toda a sua pujança é nos detalhes do plano congeminado pelo Gato das Botas. Encena o afogamento do dono à passagem da carruagem real, motivando a comiseração do rei e da princesa pelo pobre rapaz que ia perdendo a vida afogado. Depois convence todos os camponeses que assistiam à passagem da carruagem real a dizerem que conheciam o rapaz e que ele é o marquês de Carabás. A lamentável apologia da mentira. E a apologia da instrumentalização do outro, levando-o a mentir como meio para atingir um certo objectivo. As criancinhas, aprendizes de Mourinho pela mão da história do Gato das Botas.


A perfídia total que açambarca as cabecinhas em formação tem o seu zénite quando o Gato das Botas se apropria de um castelo, transformando o gigante seu proprietário num rato que de imediato se transforma em sua refeição. Portanto, as crianças aprendem que o direito de propriedade é muito relativo, diria, volátil. De seguida, o Gato das Botas recebe o dono, na companhia do rei e da princesa. O rei rende-se a tanta riqueza. Chega a dizer: "Tanta riqueza, senhor marquês. Tem que casar com a minha filha". Lá está: como não houve nenhum sacerdote das coisas politicamente correctas que tenha apontado o dedo a esta lamentável instrumentalização dos petizes que hão-de ser os senhores do futuro? Como é que nunca se insurgiram contra a banalização dos afectos? Para, no final, concluírem que casamentos de conveniência, ao arrepio da vontade das mulheres, não acontecem apenas nas sociedades islâmicas. Nesta altura, entrariam em cena as exacerbadas feministas para denunciar o viés de género das histórias infantis. Que eu saiba, nunca o fizeram. Incompreensivelmente.


Admirado. É assim que me encontro depois de ler a história do Gato das Botas. Não pela história. Mas pelo silêncio dos sacerdotes do politicamente correcto. Por nada dizerem contra esta maquinação que – de acordo com a sua habitual retórica – formata os monstrozinhos do futuro, um exército de gente que aspira a parecer o que não é. Os Vale e Azevedo de tempos vindouros.


16.9.08

Gostava de dizer isto ao rapaz dos graffiti


Discordo da direita de sacristia, tão apessoada nos seus inamovíveis costumes, quando destila impropérios contra os graffiti. Já ouvi, em tempos, o CDS de Paulo Portas propor legislação restritiva sobre os graffiti que redesenham a geografia urbana. Acho excessivo. Na diarreia de leis que nos consome, as leis devem-se voltar para coisas importantes em vez de se debaterem com o acessório. Era assim que pensava e agora estou na dúvida. Pois hoje fui vítima de um rapazola que decidiu dar azo à criatividade no meu carro. Um belo desenho a ocupar uma das portas traseiras, um azul florescente a sobrepor-se ao preto que é a cor do catálogo.


Há muitas maneiras de encaixar isto. Uma delas nem merece muito arrazoado: o ganapo decerto desprovido de inteligência, talvez mesmo carente de neurónios, incapaz de perceber que a sua fantástica impressão digital de artista tem um custo – o número de dias de trabalho que me vai custar a repor a pintura no estado original. O artista que me perdoe: não duvido da sua proficiência, dos seus dotes como futuro ícone da representação graffítica, mas que não me leve a mal por desdenhar da oferta que plantou na porta do meu carro. Prefiro vê-lo a uma só cor – a cor que trazia quando o fui buscar ao stand.


Andamos pela Europa fora e, nas grandes cidades, os graffiti são ponto de honra. Por todo o lado, em paredes de casas, em painéis de publicidade, pintando de uma ponta a outra carruagens de metro e de comboios urbanos. É uma forma de expressão dos mais jovens, da seita enamorada pelo rap e pelo hip-hop, que puxam da paleta de tintas e desatam a mudar o lustro das paredes e de painéis publicitários e de carruagens de metro e de comboios urbanos, dando-lhes cor e movimento. Sim, os graffiti embelezam as cidades. Convencionou-se até que não se deve cercear a criatividade dos jovenzinhos quando modificam o elemento conceptual da tela que se põe a jeito para os avassaladores graffiti. Não vão os jovenzinhos sentir a sua liberdade de expressão tolhida pelos velhos do Restelo que ainda não foram capazes de compreender a elevação estética dos graffiti.


Juro, e sem ponta de ironia, que uma cidade enxameada de graffiti não me transtorna o espírito nem agride a vista. Só que não acho aceitável que certos sectores prefiram dar prioridade à "criatividade" dos jovens artistas dos graffiti, desvalorizando outros valores. E há aqui um valor que é determinante: a propriedade. Bem sei que em certos lugares e de certas franjas ideológicas há líricas tentativas de resgatar um ideário que questiona a eticidade da propriedade. Há até um jovem lírico que, a culminar um raciocínio muito bem elaborado, conclui o seguinte: "(a) propriedade como extensão do corpo, como a via Locke, é uma coisa. A propriedade tal como existe (…), como um direito exclusivo e irrestrito sem consideração do valor da igualdade, é outra. E essa outra coisa, se não é um roubo, é pelo menos um ultraje". Já percebi: é um ultraje ser proprietário do meu carro. Donde, o graffiti tem toda a legitimidade: o artista terá manifestado o seu ultraje pela existência daquele carro, e dele ter um proprietário. Longe de a isto se poder chamar, e só, vandalismo. Se isto não é o mundo virado às avessas…


Como a malta do rap e do hip-hop e dos graffiti e dessas merdas se gaba de uma notável consciência social, há neste gesto algo que não bate certo. É natural que eu queira fazer regressar a cor preta onde neste momento se encontra o gatafunho azul florescente. Ora, isso custa dinheiro. Que sai de um remediado trabalhador para os bolsos de gente capitalista, decerto mais endinheirada: a empresa que produz a tinta, o concessionário onde o carro vai ser reparado. Afinal de contas, o imbecil dos graffiti está a soldo do grande capital. E, afinal também, ou esta gente é desmiolada ou a retórica da igualdade não passa de um poster que gosta de ostentar sem a saber praticar.


Eu tenho uma vingança para o magnífico artista que alterou o aspecto do meu carro: já que não lhe posso enfiar goela abaixo dois litros da mesma tinta florescente que utilizou para roubar espaço ao preto da carroçaria, deixo-lhe aqui esta mensagem. A sua "obra" é uma impressão digital tão idêntica às marcas deixadas por gaivotas atrapalhadas com a sua disenteria particular. Tão corrosivas, uma como a outra. Tão merdosas, uma como a outra.


15.9.08

A cantora das trezentas plásticas, o político que faz dois mil abdominais por dia e o labrego que veste fatos Armani


É espantoso como as massas se deixam inebriar por gente de plástico. Gente artificial, quase irreal. Tudo neles soa a maquinação, entre uma bancada de cosméticos que transfigura (ou, deveríamos dizer, desfigura), cirurgias que recompõem a pele e têm o condão de recuar a aparência no tempo, tratamentos dispendiosos que desligam a idade real da idade biológica. Uma outra forma de serem modelos – aqui modelos noutra acepção da palavra: gente modelar, gente modelada no mais profundo que a artificialidade pode alcançar. E, no entanto, uma plasticidade que atrai a horda, tal o exército de seguidores, o séquito que se desfaz em homenagens mecânicas à plasticidade de quem veneram.


Uma cantora exótica, cinquentona que não o parece, sabe-se lá quantas operações plásticas naquela epiderme. Desconto o género artístico, a descompasso com as minhas preferências estéticas. Daqui sairão palavras apenas sobre a feérica imagem, o cartão de apresentação da artista. O eterno problema do endeusamento de artistas. Os apaniguados que vão de véspera e ficam a dormir ao relento à entrada do recinto onde a artista será consagrada, tributam a imagem cheia de artificialidade que dali exala. Estarão na primeira fila, ainda assim suficientemente longe para não terem pretensões de estarem perto demais da deusa, aos gritinhos histéricos não condizentes com a já nada adolescente idade. Glorificam a artista mais pelo que ela aparenta. Contudo, quantas destas pessoas fariam seu o estilo de vida que ela tem levado ao longo da sua vida?


A plasticidade dominante contagia-se do universo artístico para o mercado político. Já não é novidade: que os políticos se destacam não pela competência, não pelas ideias que escasseiam cada vez mais. Distinguem-se pelo embrulho com que aparecem. Aliás, evite-se perscrutar para além do brilhante papel de celofane que encanta os incautos e os que têm a certeza que o não são, pois só se há-de encontrar o vazio. A ensurdecedora perfeição é que motiva a desconfiança. Tudo tão modelado, cirurgicamente composto, sem detalhes que escapem à equipa que compõe a figura, o altar inacessível de onde exala uma perfeição inumana.


Li há dias: um antigo primeiro-ministro espanhol, que se diz retirado mas que continua a adejar sobre a paisagem política, continua na ribalta. Um exército de seguidores prossegue o encantamento com a fatuidade da personagem. Possivelmente desde as catacumbas da inenarrável imprensa cor-de-rosa dali do lado, tão ao jeito da umbiguista gente que adora a nobreza e a burguesia brasonada, os maiores encómios ao ar informal com que a personagem aparece – ele são as camisas desportivas desabotoadas, as pulseiras "hippy" (?!), até o patético bigode que tem vindo a evaporar-se, o corpo musculado que ostenta uma idade biológica quinze anos abaixo dos cinquenta e cinco que o bilhete de identidade anuncia. Tudo tão bem orquestrado que o "personal trainer" veio dizer que o homem faz dois mil abdominais por dia!


(Parêntesis para a perplexidade pessoal. A matemática não engana. Levo quinze minutos diários para fazer duzentos abdominais. É só fazer as contas. Dois mil abdominais são dez vezes mais. Dando de barato que a progressão geométrica do tempo é difícil de alcançar, o herói da direita espanhola teria que gastar duas horas e meia por dia a fazer abdominais. Sem pingo de inveja, acho que se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo.)


Quando vejo a fantasia que envolve estes exemplares da direita bafienta – este, como o presidente francês que se estica em cima de tacões de dez centímetros para não parecer minorca, ou do primeiro-ministro italiano que desfila diariamente uma patetice infantil e aquele improvável ar blasé – entendo que as esquerdas tenham que existir. Há gente que morre pela boca, tal como o peixe. Outros são atraiçoados pela sua imagem tão imaculada, tão perfeita, um penteado sem um cabelo fora do sítio, um cortejo de inanidades que descerram diante do público exemplares de uma perfeição que só pode ser inumana. Esta gente tão direitinha é outro motivo pelo qual ando tão longe desta direita. De repente, porém, uma fulgurante excepção: o presidente da câmara de Londres, excêntrico e com imagem descuidada. Uma personagem mais próxima da gente comum, com os seus pecadilhos e devaneios. Porventura outro produto da imagem bem elaborada. Ao menos, uma imagem que se distancia da imaculada perfeição dos outros.


Por cá, também os há. Por exemplo, o labrego que aparenta aquele ar irritantemente modernaço. Pode envergar fatos Armani que não deixará de ser um labrego. Os ofendidos que perdoem o assomo de "fascismo social", mas quem andou a projectar pela Beira Alta casas do quilate estético há tempos revelado tem o seu cartão-de-visita – o cartão-de-visita de um labrego sem remissão. Não, não é a reconversão urbana, nem as causas modernas património genético do indissociável politicamente correcto, que fazem extinguir os vestígios da labreguice. Esses são inatos, por mais fatos Armani que venham a envolver a figura.


De tanta gente feita de plástico, depois vêm os arautos da modernidade clamar pelo humanismo. Uma contradição de termos.


12.9.08

Peixe : Avião, "A Espera é um Arame"

Os ateus não deviam gozar feriados religiosos – disse


Por mais que se afiance o Estado laico, os vestígios da religião católica permanecem vivos. Nos feriados, por exemplo. O calendário oficial permeável à tradição católica. Impondo-se a todos, católicos, gente de outros credos, aos ímpios que negam a existência de um deus. Nos feriados religiosos, uma externalidade em favor dos não crentes. Beneficiam, por arrastamento, de algo em que não acreditam. Quem conhece um ateu que proteste contra um feriado qualquer, mesmo dos que têm o selo do catolicismo?


Por isso ouvi dizer: "os feriados religiosos não deviam aproveitar aos ateus". Sabia, ao sentenciar a frase, que era mais uma provocação ao interlocutor ateu que coisa que fosse praticável. Sujeitou-se a ouvir o ateu a retorquir com uma interrogação: "e como se fazia o cadastro de crentes e ateus?" Que o cadastro seria peça fundamental para saber quem ficava a gozar do feriado religioso e quem continuava a trabalhar. Até podia ateus haver que ocultassem a sua condição, só para não serem impedidos do descanso dos feriados religiosos. Afinal, os ateus são gente tão pouco recomendável, com uma moral tão duvidosa, porventura sem espinha dorsal, que não se estranharia que fizessem de conta que não eram aquilo que dantes se anunciavam só para tirarem partido dos feriados religiosos.


Insistia: no fim de contas, os feriados religiosos consagram acontecimentos que só têm significado para quem pratica o catolicismo. Entre crentes devotos e a híbrida categoria dos "católicos não praticantes", só a eles deviam aproveitar os feriados com a chancela da igreja católica. Aliás, há ateus que têm o atrevimento de não saberem o que é consagrado em feriados religiosos. Eu não sei para que serve o 15 de Agosto. Estava convencido que o primeiro de Novembro era o dia das pessoas fazerem o cortejo anual pelos cemitérios, reservado o dia para homenagear entes queridos já sepultados. Afinal, o primeiro dia de Novembro celebra todos os santos, sem discriminação dos ditos.


A indignação dos ateus terem direito a descansar nos feriados religiosos não cessava. O pior, dizia, é que os ateus cometem a aleivosia de satirizar a igreja. Não tementes a deus, escorregam para heresias a torto e a direito. Permitem-se parodiar coisas tão sérias como os dogmas católicos. Para depois, num arroubo de incoerência, se deixarem dormir até tarde quando o calendário regista dia festivo para a igreja católica. Prova definitiva de uma falta de coerência dos ateus, manchando o seu trajecto de vida. De braço dado com o argumento final que a católica esfregava, altiva, na cara do ateu: a generosidade maior dos católicos, que agraciam os ateus com dias de descanso que se ficam a dever a algo em que eles não acreditam.


Mas: não dizia no início da conversa que os ateus não deviam ter direito aos feriados religiosos? Quem, no fim de contas, era apanhado no alçapão da incoerência? O ateu que goza o feriado católico e goza com a religião católica, ou a crente convencida da generosidade dos católicos no legado dos feriados que também aproveitam aos ateus, mas depois reclama que a herética gente devia trabalhar nos feriados religiosos? Que culpa tem o ateu das meias tintas do Estado que se diz laico mas que tem um ror de feriados religiosos?


Não propunha o ateu a extinção dos feriados religiosos. Ele queria perceber que o laicismo em letra de lei e com o cunho de políticos dados a um republicanismo intolerantemente laico não podia aniquilar as arreigadas tradições católicas de uma larga fatia das gentes. Era o ateu a perceber que faz parte de uma minoria, que nada contra a maré engrossada pela maioria dos católicos. Na volátil fronteira entre as tradições religiosas e a cultura popular, tudo num caldo que identifica uma certa idiossincrasia nacional.


O ateu não queria banir os feriados religiosos. Recusava essa intolerância. Só queria que a católica não fosse intolerante ao ponto de reclamar a exclusividade dos feriados religiosos para os crentes da sua religião. Que cada um fizesse do feriado o que bem entendesse.


11.9.08

Everest, um sonho


Não temos todos um sonho exótico, um projecto faraónico que sabemos ser quase impossível alcançar? Uma qualquer façanha pessoal, daquelas que até aos mais modestos faça garbo. Um lampejo de heroicidade pessoal. Qualquer que seja o género de feito, que as façanhas mudam de tonalidade consoante quem as idealize. Que um feito pode-o ser para uma pessoa e ser uma irrelevância para o vizinho do lado.


O meu projecto distante, muito distante em tudo, chegar ao alto do Everest. A montanha mais alta do planeta, que se eleva a quase nove mil metros de altitude. Um fascínio que vem desde criança, quando os olhos se colavam ao ecrã da televisão sempre que passava um documentário sobre temerárias expedições ao Everest. Naquela altura, a inocência da tenra idade semeava o deslumbramento pelo risco dos alpinistas que se aventuravam palas ladeiras geladas da montanha. Por vezes, o dramatismo encharcava os documentários quando expedições terminavam com a morte de alpinistas – às vezes apanhados numa inesperada e traiçoeira tempestade que os enregelava até à morte, outras vezes escorregando para precipícios inacessíveis, suas sepulturas finais. Havia, naquela heroicidade dos ousados alpinistas, uma inexplicável magia que era a razão de parte do fascínio de então.


A entrada pela idade dentro foi amolecendo os traços imberbes saídos da mais pura irracionalidade. Todavia, todo o encantamento pela alcantilada montanha manteve-se. Já não era o arrebatamento pela heroicidade gratuita, no fio ténue que separava os aventureiros da morte. Era um magnetismo que as formas da montanha deixavam em forma de rasto. Imagens do Everest ao longe continuavam a prender a atenção por demorados momentos. Cada notícia de um alpinista que ascendia ao cume da montanha era lida de uma ponta à outra. As expedições de João Garcia, passadas a texto, seguidas com atenção. E, apesar de ocasionalmente continuar a haver gente a perder a vida na montanha, persigo no encantamento quase religioso pelo Everest – e quase religioso porque estas palavras que aqui compulso são um difícil ensaio para passar um sentimento à forma de palavra.


Consta que a escalada do Everest se banalizou. Há tempos, a propósito da tragédia numa montanha que rivaliza em grau de dificuldade (o K2) que levou a vida de um punhado de experimentados montanhistas, a imprensa dedicou várias páginas à escalada das altas montanhas dos Himalaias. Soube que há turismo organizado na área, permitindo a interessados sem grande experiência tentar a escalada de alguns desses picos. Há quem lhe chame turismo vaidoso, para gente que depois regressa à terrinha para se gabar do feito alcançado. Esta forma vaidosa de associar turismo com a escalada do Everest é, dizem os puristas, uma adulteração do espírito com que os pioneiros encararam as traiçoeiras ladeiras até ao cimo da montanha. Sem as provações dos alpinistas profissionais, que agora até as tendas nos acampamentos-base possuem ar condicionado! Turismo pago a peso de ouro: os amadores aventureiros que ambicionem chegar ao tecto do mundo pagam trinta mil euros só por um lugar numa expedição.


Não vou contestar o rótulo depreciativo que os puristas colam à "comercialização" do Everest. Há muitas maneiras de encarar as coisas. Até uma escalada ao cume do Everest. Ao que sei, há vias de lá chegar que são menos difíceis, onde a exposição ao risco é menor. E as vias mais inacessíveis só ao alcance dos alpinistas profissionais, onde a probabilidade de acidentes é maior. Há quem julgue que só são válidas as chegadas ao cimo do Everest se não houver a ajuda de máscaras de oxigénio. As expedições organizadas para aspirantes a alpinistas e gente que depois ostenta a façanha obrigam à utilização de máscaras de oxigénio a partir de determinada cota, quando o ar se torna rarefeito. Que interessa discutir a pureza da escalada, ou se há ostentação nestes aventureiros endinheirados que procuram chegar lá cima? Nisto, como na compra de um potente e vistoso automóvel: há quem o faça por puro gosto, por ser apreciador; e quem o faça por pura ostentação.


É discussão irrelevante. Oxalá pudesse um dia fazer como um jovem economista do Banco de Itália que, no seu gabinete em Roma, tinha uma discreta fotografia tirada quando atingiu o cimo do Everest. Não o faria como espectáculo gratuito para os outros verem. Seria, e apenas, o simbólico orgulho de ter pisado a tecto do mundo ao cabo de uma (imagino) extenuante subida pelas ladeiras íngremes e geladas da montanha mágica. Uma mania então deixada para trás.


10.9.08

A falácia da democracia participativa – ou os meninos só sabem jogar com regras feitas à sua medida


Há por aí muito intelectual que reclama a paternidade do refrescamento da democracia. Desiludidos com o rumo da democracia tradicional – a democracia parlamentar representativa – querem orientar a democracia para formas que, argumentam, se aproximem da participação popular. Sem que esta participação se resuma, como agora, a depositar o voto nas urnas de cada vez que há eleições. Acham que é uma participação esparsa. A pouca assiduidade sela a reduzida qualidade da democracia que nos é oferecida. Entre as eleições, os eleitos actuam de forma pouco democrática: fazem o que bem entendem, quantas vezes alijando-se do cardápio de promessas eleitorais que terão caucionado o triunfo nas eleições. Estes intelectuais protestam a crise da democracia tradicional. Provam-no com os miasmas que consomem a democracia pelas entranhas: a mediocridade dos políticos, já que a política só consegue atrair os menos capazes; e, talvez até por isso, o estigma da corrupção que tomou conta do processo político.


Não tenho problemas em coincidir com estes intelectuais no diagnóstico. A coincidência pára por aí. Quando olho para as receitas prescritas por estes pretensos curadores da "boa democracia", prefiro continuar com o que tenho. Apesar de todas as suas maleitas, apesar do cortejo grotesco que, com o tempo, dá sinal de uma patologia que se afunda no seu lodaçal. Apesar dos medíocres que sucedem aos anteriores medíocres, tornando mais densa a rede de mediocridade – quando se pensava que seria impossível ir mais abaixo no poço da mediocridade.


Aqueles curadores propõem a reconfiguração da democracia. Ela deve-se modernizar. A cidadania plena exige mais participação das pessoas na governação do que as afecta. A modernização da democracia depende da vontade para ultrapassar o colete-de-forças do modelo tradicional. A democracia representativa já não é suficiente. Acusam os actos eleitorais de não terem capacidade para exprimir escolhas racionais. Os votantes são ofuscados por manobras eleitorais, pelo intenso marketing político que oculta o que não convém e mostra o que é conveniente mostrar, mesmo que sejam ingredientes acessórios. Entre as eleições, reduz-se a pouco mais que nada o escrutínio efectivo de quem foi escolhido para governar. Até porque a governação se distingue pela arte da ilusão, pelos tiques que uma retórica bem estudada consegue passar, pela imagem cirúrgica que desvia a atenção para as margens do acessório.


A alternativa é a "democracia participativa". Os seus defensores aparecem como milagreiros, os indispensáveis arquitectos da renovação do sistema político. Dotados de verdades incontestáveis. Quem se apresenta senhor de verdades divinas merece o estatuto de desconfiança. A desconfiança de que devem ser credores os infalíveis deste mundo. O que propõem vem enfeitado com um atraente papel de embrulho. Não devia haver decisões sem se darem a conhecer a quem fosse por elas afectado, antes de serem decisões. Os intelectuais da "democracia participativa" enamoraram-se das assembleias populares onde todas as decisões seriam tomadas. Propostas, discutidas, votadas (e de braço no ar, para melhor se controlar a vontade dos interessados) e, só então, adoptadas. É encantador, o modelo. As gentes interessadas teriam sempre uma palavra a dizer. No final, argumentam, o processo político teria uma legitimidade redobrada.


Quando as coisas são assim tão lineares, costuma haver uns inesperados grãos a ensombrar o raciocínio e as lapidares e cristalinas conclusões. As assembleias populares são o ensejo para os intelectuais destas causas poderem fazer vingar as suas ideias, dotados do notável poder de persuasão tão próprio da sua incomensurável inteligência. Põem a sua inteligência e dotes de retórica ao serviço da arte da manipulação. Para influenciarem a discussão e conseguirem condicionar a votação. A desconfiança prossegue: são bem capazes de infiltrar agentes, que actuam como seus capatazes, para orientar a discussão para os resultados que querem atingir. Como se sabe, a inteligência pode ter utilidades perversas. É quando a inteligência se confunde com perfídia.


Muito democratas, são os feitores da "democracia participativa". Daquela democracia que coincide com a razão que lhes assiste do alto da sua predestinada condição. Mesmo quando essa razão não é subscrita pela maioria. Há muitos ditadores que começaram assim. Por isso é que, entre dois males, continuo a preferir o mal menor. Com todas as críticas que por aqui já destilei contra a agónica democracia convencional, prefiro-a à "democracia participativa".


9.9.08

Nine Inch Nails, "Pig" (live)

PIGS (are we?)


As metáforas são um movediço terreno. Às vezes, felizes imagens que retratam o que desfila diante dos olhos. Outras vezes infelizes metáforas, como se fosse um desbocado que põe o coração à frente da boca e solta as primeiras palavras que vêm à superfície – não pesadas palavras. As metáforas também pertencem ao domínio da relatividade. Uma metáfora pode ser genial para uns e verberada por outros, pelos que estejam do lado contrário de uma qualquer barricada. Há ainda as metáforas que tomam proporções gigantescas, quando afinal não merecem a dimensão que as virgens ofendidas lhes conferem.


O contexto: o Financial Times arranjou um novo acrónimo para os países do sul da Europa (apenas os que fazem parte da União Europeia, daí ilibando os países balcânicos). Dantes, Portugal, Itália, Grécia e Espanha eram, pejorativamente, o "Club Med". Não passávamos de destinos turísticos, onde há sol e calor e águas do mar cálidas, a caldear outras coisas exóticas que os povos da parte mais nortenha da Europa aproveitam, em hordas despejadas por aviões de companhias low cost, para retemperar forças. Curiosamente, havia muita gente nos países do "Club Med" que ficava ofendida com o epíteto. Achavam-no pejorativo. Nunca entendi tanta sensibilidade à flor da pele. Afinal, os de lá de cima, mais do norte da Europa, os que vêm tisnar as suas esbranquiçadas tezes ao sol tórrido do "Club Med", escolhem-nos para fazer férias. Não é bom sintoma gostarem de fazer férias por cá?


Agora já não somos (apenas) o "Club Med". Agora somos PIGS – acrónimo para Portugal, Italy, Greece, Spain. E a malta ficou tão ofendida! Quem se julgam aqueles bifes mal cheirosos para insinuarem que somos porcos? Anda por aí muita gente exaltando a veia nacionalista, acusando o calo pisado. As ofensas à honra pátria não podem ficar sem resposta. Assim como assim, quem não se sente não é filho de boa gente – lá ensina o sábio povo, parafraseado numa ocasião pelo funambular Santana Lopes então acidentalmente primeiro-ministro. A cereja no topo do bolo, quase a elevar o episódio à categoria de incidente diplomático: o improvável Pinho ministro da economia acabou de dizer, ao retardador como é usual, que não gostou de ler no Financial Times que fazemos parte da quadrilha suína.


Antes de mais prosa elaborada em defesa da honra latina (três quartos latina, que os gregos o não são), convinha ler as palavras do Financial Times e saber colocá-las no devido contexto. Para os que não saibam – ou que tenham convenientemente esquecido – o Financial Times é um jornal de assuntos económicos. Foi a fazer análise económica que um jornalista, no uso da criatividade com que foi agraciado, desencravou a metáfora dos porcos. Dos porcos que, em linguagem que tem tanto de simbólica como de apelo ao imaginário, descolam como se aviões fossem. E depois aterram, também como os aviões. Traduzo do inglês para o português (daqui):


"Há oito anos, os PIGS conseguiam voar. As suas economias dispararam depois de terem entrado na zona euro. As taxas de juro desceram para mínimos históricos (…). Seguiu-se uma explosão de crédito, tal como a noite vem depois do dia. Os salários aumentaram, o endividamento subiu a níveis estratosféricos, o mesmo acontecendo com o preço da habitação e com o consumo. Agora os PIGS desceram à terra."


Eis como uma inocente metáfora em análise económica se está quase a transformar num incidente diplomático. Eu não sei se quem acusa tanta dor pela sigla PIGS está, de alguma maneira, a acusar o toque. Lá vem outro adágio popular: "quem não deve não teme". E uma interrogação: os que protestam tão alto a sua ofensa terão esqueletos escondidos no armário? Ninguém gostará de ser pejorativamente tratado com suínas alusões. Mas só quem andar em pocilgas é que acusará o toque. Os outros, que de forma alguma se revêem num dos múltiplos significados do epíteto, por que hão-de ficar ofendidos?


Talvez um ponto sensível. E isto é uma exótica pocilga, com praias que atraem as hordas de higiénicos povos que vêm de lá de cima, onde o sol é coisa rara. A pocilga onde eles fazem férias, bem entendido: e quem gosta de fazer férias numa pocilga? Mais a mais, as mulheres deles adoram os suínos latinos, quando por fim descobrem as virtudes dos amantes a sério. Ah! Deve ser por isso. Puro ressentimento. No restolho do lamentável fait divers que quase tomou proporções de incidente diplomático, o lamento maior é a ofensa aos suínos. Que não têm culpa de o serem e ainda são pejorativamente colados à humanidade grotesca.


8.9.08

Dos fundilhos das calças


Ia no metro. À minha frente, dois ganapos entretidos a apreciar a clientela da carruagem. Bem entendido, iam a apreciar o vestuário. Comentavam a preceito. Fixaram-se numa rapariga que ia ao fundo da carruagem. Diria, à distância, parecer uma daquelas meninas que andam a soletrar a palavra do senhor de porta em porta, mercando a boa nova das testemunhas de Jeová. Na outra fila, era a vez de um rapaz esquálido merecer a atenção sarcástica dos oratórios da boa estética que, ao mesmo tempo que disparavam o comentário jocoso, mastigavam chicletes com estardalhaço.


Foi a minha vez de apreçar os particulares trapos que os rapazes, dir-se-ia críticos de moda, envergavam. Começo por jurar a pés juntos que nada me move contra modas juvenis que irrompem com os anos que passam. De uma forma ou de outra, também passei por um desses modismos de vestuário. As modas, quaisquer que sejam, nunca são involuntárias. Sinto um gosto especial em ver como os adolescentes vão variando os trajes. O relógio do tempo é generoso na estação estival: vai destapando cada vez mais partes generosas de corpos femininos, por exemplo. É uma certa espessura do tempo que cauciona a observação. E se há coisa que me indigna é a indignação de gente muito aperaltada, da cabeça que seja, que acena com a cabeça em tom de reprovação quando se cruza com um jovem que ostenta a "moda esquisita" dos dias correntes.


Os rebeldes continuavam a satirizar a rapariga com ar evangélico e o rapaz acabrunhado, eles emproados à condição de catedráticos dos costumes. E o seu retrato, o que era? Sobressaíam as calças de ganga fartamente esfarrapadas, com meia dúzia de golpes negligentemente em pontos nevrálgicos. Um ar negligé, mas paradoxalmente cuidado. Pois que esta é a moda que está na moda. Mas não fica por aqui o retrato: pois os adolescentes de agora gostam de descair a parte traseira das calças, como se não houvesse cóccix para amparar os fundilhos das calças. Aliás, estes fundilhos acercam-se dos meados das coxas em vez de estarem mais perto do lugar que se julgava anatomicamente feito à medida. O toque de requinte final: à guisa de descontracção fatal, os ausentes fundilhos das calças deixam à mostra uma substancial parcela das cuecas, com uns dizeres refulgentes "Calvin Klein".


Oxalá houvesse espelhos nas casas dos incisivos rapazes que continuavam a bolçar juízos de estética, a desdenhar dos alvos da sua chacota peculiar. É certa a medida relativa quando entramos no campo da estética, pântano viscoso onde se afundam, e sem remissão, os que se julgam penhores dos mais elevados padrões. Era o pecado original daqueles ganapos. Fanfarronice em telhados de vidro. Os telhados de vidro de quem dava o flanco pela grotesca pose. Porventura, apenas um lampejo de tacanha gente incapaz de se imaginar no mesmo tribunal onde tinham sentado as vítimas do seu escarnecimento.


Damos desmedida importância aos trapos que escondem a nudez envergonhada. O pior, é que o vestuário sinaliza tribos particulares a que julgamos pertencer. Como se fosse um sinal de pertença, um dressing code que fala mais alto que mil palavras que queriam expressar o que somos. À minha frente vive um engenheiro que tem amigos que, diria, partilham o mesmo guarda-vestidos, todos tão iguaizinhos. Só que este é um raciocínio que encerra uma armadilha, uma irritante armadilha. Depois de nela apanhado é que percebo como é inútil o exercício de avaliar a estética alheia através da roupa. O pior é ver-me cercado por uma exasperante futilidade. Bem me tento convencer, em arabescos líricos, que o que conta é a profundidade do interior das gentes (há quem lhe chame alma). Logo esbarro de frente contra a dupla irritação: a cada passo que dedico atenção ao vestuário, pareço rivalizar com a improvável espécie de estilistas e afins, uma fauna que glorifico no altar das irritações pessoais.


Saí do metro com uma dúvida: que interesse tinham as manobras satíricas dos dois ganapos vestindo calças sem fundilhos? E que interesse tinham as calças sem fundilhos? O cinismo letal: assim termina um texto que se esgota nas suas interrogações finais. Ou, que é como quem diz, um texto tomado pela futilidade.


5.9.08

O “sexo ecológico”


Há pontes curiosas que se tecem. Um exemplo: há alguma afinidade entre a igreja católica e os fundamentalistas do ambiente? Até os desatentos ao que se passa no mundo têm a resposta na ponta da língua: nada – condescendamos, ou muito pouco. Daqui provoco uma resposta alternativa: a igreja e os defensores do meio ambiente têm muito em comum. A começar pelo sacerdócio em que convertem a defesa das suas causas. Podem olhar uns para os outros com desconfiança. Podem até nem se rever nas causas que uns e outros batalham. A ponte que entre eles se tece é essa: uns são sacerdotes, os outros gabam-se do ateísmo e, no entanto, comportam-se como fradescos sem remissão.


Vem isto a propósito de uma daquelas notícias que só seria motivo de surpresa se este mundo não fosse uma surpresa em forma redonda. A filial mexicana da Greenpeace publicou os dez mandamentos para o sexo ecológico. A abrir a prédica, os donos da consciência ecológica do mundo fazem saber que "ser verde nunca foi tão erótico". Ora isto é alterar as coordenadas da bússola por que nos regíamos. Estávamos habituados a associar o erotismo a outras cores, cores mais tórridas (o vermelho) ou insinuantes (o preto). Por demanda dos curas do ambiente, aquelas cores cedem passagem ao verde. Se dizem que "ser verde nunca foi tão erótico", pergunto daqui: e ser erótico é ser verde?


Prossegue o decálogo: como é sabido, o problemático aquecimento global obriga a repensar a maneira como usamos a energia. Devemos ter hábitos de poupança de energia. A inestimável Greenpeace dá o seu contributo, quando a espécie humana se entretém em práticas libidinosas: que o devemos fazer de luz apagada. Atiro daqui outra sugestão, sobretudo para os que preferem o acto sem ser às escuras: ou à luz do dia, que nessa altura existe luz natural. Se a coisa é feita pela noite, a sugestão ecológica é, como dizer, o anti-clímax do erotismo. Ou a insinuação do sexo Braille. Suspeito que os amigos do ambiente estão preocupados com outro tipo de saúde – a sanidade mental de quem se entrega aos "jeux de chambre". É que a saúde mental não se compadece com o atentando à estética que por vezes acorda no outro travesseiro. Daí que se entenda que as luzes estejam apagadas. Não é só para o bem do ambiente.


A meio do documento, a Greenpeace volta-se para outra vertente da nossa sensibilidade ambiental: o consumo de água. Há tempos um grupo de alunos disse-me que quem lhes ensina os rudimentos da ecologia se bateu com galhardia pelos banhos não diários. Talvez seja preferível o odor desagradável das hormonas que libertam o suor. Ou as pessoas encharcarem-se em perfumes, vá-se lá saber. A propósito do sexo ecológico, a Greenpeace aconselha as pessoas a tomarem banho aos pares. Poupa-se água – dizem. Parafraseando o comandante da zona marítima do Algarve (em adaptação da frase que o notabilizou), o problema é que se sabe como começa um banho a dois, só não se sabe é como acaba. Outra interrogação para a gente do ambiente deslindar: e se a parelha leva o banho para o entretenimento sexual e se distrai com isso, continuando a água a escorrer do chuveiro, não acaba o consumo de água por ser mais elevado?


Outro dos dez mandamentos: embalagens recicladas para guardar os preservativos "e outros acessórios" depois de utilizados. Primeira perplexidade, uma ingenuidade mal disfarçada: a que "outros acessórios" se referem? Segunda perplexidade, preocupado com uma incoerência em que a Greenpeace é apanhada: se sugerem que os tais "acessórios" nunca sejam fabricados em PVC, e se aconselham que os lubrificantes (a quem os use) nunca sejam de derivados de petróleo, sempre em homenagem a um ambiente mais limpo, como aceitam a utilização de preservativos se eles são feitos de um material que é inimigo do ambiente?


A Greenpeace devia combater a utilização de preservativos. Assim como assim, já é conhecida como uma seita que parece defender um planeta oásis em que o ser humano fosse dele banido. Se fossem proibidos os preservativos, talvez a SIDA acabasse por extinguir a humanidade – se bem entendo, o desiderato destes sacerdotes do ambiente. Por sinal, a prova cabal de como os sacerdotes do ambiente têm tantas afinidades com os sacerdotes católicos: uns e outros contra os preservativos.


Era o que mais faltava que agora viessem estes sacerdotes juntar-se aos sacerdotes do costume a perorar sobre a sexualidade das gentes. Com o meu sexo ninguém se mete.


4.9.08

Ainda há cavalos no centro da cidade


A grande urbe. Onde irrompem altos edifícios que assustam os que têm vertigens das alturas. Onde o ar rarefeito pelos gases de escape dos veículos empresta a nota poluente à atmosfera, tornando-a doentia. Onde, se há florestas, elas são um misto de cimento e tijolos e asfalto. Onde o registo dos tempos testemunha o emagrecimento das zonas verdes, cedendo passo às florestas de betão que sinalizam a urbanização selvática. O lugar urbano demite os vestígios de ruralidade que ainda vêm de trás, hoje apenas memórias registadas em álbuns fotográficos.


E, no entanto, há espasmos de ruralidade a teimar bem no centro da cidade. Ainda ontem, na dobra de uma esquina, uma carroça puxada por um cavalo. Era conduzida pelo lavrador, que trazia no reboque uns altos recipientes de, imagino, lavadura para as reses. Já ia longo o tempo em que não entrava pelos olhos uma ilha de ruralidade. Fez-me recordar os tempos de infância, quando havia zonas da cidade que eram ainda dominadas por largos espaços onde havia agricultura. Durante alguns anos, ao içar a persiana na alvorada, a paisagem que acordava diante dos meus olhos era uma extensa quinta que se espraiava até à foz do rio Douro. Com vacas e ovelhas a pastar, ao lado de um espaço onde se cultivavam vegetais que nunca cheguei a saber o nome. Numa extremidade da propriedade, uma pequena casa onde habitavam os agricultores.


A modernidade que empurrou as pessoas para dentro da cidade tratou de levar aquele vestígio de ruralidade. Anos mais tarde, a alvorada aclarava meia dúzia de prédios altos onde antes esteve o largo campo de pastos e vegetais. E só uma nesga de rio por entre os prédios entretanto levantados. Se continuar a resgatar recordações, por estes dias de Setembro os campos de milho estavam no seu auge e as espigas cresciam no alto das canas mais altas que um adulto. Mesmo ao lado, o campo do lavrador onde as pessoas iam comprar leite acabado de mugir, transportando-o em vasilhas metálicas. Vivia na cidade, na segunda cidade do país, rodeado de ruralidade.


Nesses tempos, os traços urbanos eram uma ilha no meio de tanta ruralidade. Contudo, uma maré urbana estava a subir, imparável. Utilizando a expressão dos especialistas, a "pressão urbanística" tratou do resto. Tratou de inverter as variáveis. Aos poucos, como a maré a encher que molha a areia dantes seca sem que muralha alguma a consiga deter, os campos perderam o seu verde e foram tomados pela parafernália de betão erguido aos céus. O rebanho de ovelhas que vinha pastar no relvado em redor da minha casa, no relvado caótico que a câmara municipal nunca tratava, desapareceu com a urbanização em redor. Nessa altura, havia visitas que ficavam surpreendidas com os vestígios de ruralidade mesmo dentro da grande cidade. Julgavam um sinal refrescante, uma ilha que libertava as amarras da asfixiante e imparável urbanização.


Estes anos todos depois, a estranha sensação de não sentir nostalgia dessa ruralidade que abraçava os prédios onde se passou a infância e a adolescência. O estranho desamparo ao deparar com um vestígio de ruralidade espetado na cêntrica urbe. Há quem se encante com os vastos campos onde o betão está impedido de arremeter. A natureza em estado puro, com o ar imune à fatal poluição. Eu, que nasci e vivi na cidade, e me fui habituando à "pressão urbanística", sinto-me paradoxalmente asfixiado com as vastas paisagens despidas de edifícios. Bem entendido, asfixia apenas na hipótese de um rural lugar acolher a residência, pois continuo enamorado pelas paisagens que emprestam toda a sua rural beleza. Mas apenas como lugares de deambulação turística. Não como lugar para acolher a residência habitual.


O cavalo a empurrar o atrelado conduzido pelo lavrador é um corpo estranho dentro da cidade. Que não pertence à grande cidade. Motivo de estupefacção. Trazendo desconforto a quem se habituou, para o bem ou para o mal nem interessa, a viver rodeado pela floresta de cimento e tijolos e asfalto, à constante míngua dos espaços verdes que iam sendo subtraídos para trazer mais gente para dentro da cidade. E, afinal, as cidades não são feitas para aglomerar milhares e milhares de pessoas? No paradoxo final: parece que as pessoas, na urgente necessidade de habitarem junto umas das outras, são adversárias da natureza.


3.9.08

O lugar ermo


As lamentações não se consomem. Porém, são toda uma consumição. Encerram o transviado passo de algures. Como se houvesse uma encruzilhada que atraiçoou no caminho escolhido. No caminho sem retorno possível. Sobra a lamentação do passo desacertado. A lamentação, um choro sem lágrimas que clama pelo recuo do tempo. Para lá atrás volver e repetir o encontro com a encruzilhada. Saberia então por onde seria acertado o passo. Só que o irrepetível tempo é a coerciva espada a pender sobre a angústia das memórias. Nessa altura, o arrependimento solfeja a aridez do lugar ermo onde o corpo se abandona.


O refúgio é onde as lamentações se hão-de cansar do seu torpor. De tanto arquearem o corpo, de tanto o consumirem num lugar vazio que impede o olhar de alcançar o tempo vindouro, o arrependimento no seu fúnebre desenlace. Até lá, uma demorada peregrinação pela aridez cortante do lugar ermo a que o corpo se remeteu. Um vasto deserto de pedras e poeira, as colinas suaves numa cadência repetitiva. Sem gente viva, nem vegetação, nem sequer o rumor da água em tímidos regatos que viriam romper a aridez asfixiante.


De tão ermo, aquele lugar, como direi, parecia feito à medida do curso aflitivo que a carente lamentação exigia. Do fundo da memória gotejavam todos os traços pintados na paisagem estéril. No fundo, um lugar imaginado. Ou o pretexto para esconder os passos desacertados que inflamam improfícuo arrependimento. Das entranhas da terra parecia pulsar uma ilusória renovação, exactamente como se aqueles tempos que fermentam a lamentação nunca tivessem acontecido. Erro fatal. Só o esquecimento, o metódico esquecimento, varre as recordações indesejadas. Não a lamentação. Essa só consegue manter vivos os passos trocados, mantendo aberta, e purulenta, uma ferida que assim permanece dolorosa.


O imaginado ermal, na sua esterilidade, é um garrote que não deixa o corpo exangue no solo ensanguentado. As forças esvaem-se, porém, à medida que o sangue se esbarra contra a barragem feita garrote. O planalto amuralhado onde o corpo se refugia não é uma ilha perdida, uma ilha exclusiva ao arrependimento próprio. Está marcada algures no mapa. Acessível lugar, possam os outros esquadrinhar o tortuoso caminho até lá. Nessa altura, lamentação alguma conseguirá a remissão dos feitos errados. Os forasteiros, com a sua chegada, serão os feitores dos passos trocados que se queriam sepultados no lugar ermo. Serão os algozes que avivam as memórias não queridas.


São vultos que arrastam os pés por entre o caminho pedregoso, desfiando preces repetidas. Uma ladainha interminável. Um som audível em todos os recantos do lugar ermo. Navalha encravada nos ouvidos que acusa à exaustão a padecida alma que não consegue sobressaltar o seu próprio arrependimento. O lugar ermo na sua lânguida doença que se insinua em lamentação tão inútil. Desafortunadas preces que esbarram na repetição das memórias, nas circulares memórias sempre alimentadas pelo arrependimento que nada cura.


Às voltas, imerso nos seus pesadelos acordados, mergulhado nas dores da carne viva, descobre que o lugar ermo é o prolongamento dos passos desacertados de outrora. Em vez da pedra tumular, em vez de dobrar a página já amarelecida pela espessura do muito tempo volvido, o lugar ermo é a fuga de si mesmo que o devolve às dores atrozes. Não é refúgio. De tão ermo e sombrio, tão esmagadora a aridez que parece tolher a respiração, aquele lugar é uma tela por onde passam, e em câmara lenta, os episódios que menos queria recordar.


Por vezes, teme que o lugar ermo seja viagem só de ida. É quando se interroga se a peregrinação por tão esconso sítio o leva apenas pelo terreno onírico. E a perguntar: se o ensejo para deambular por imaginado lugar não é a sede de devolver a um passado que só se quer olvidado. Então, a impenitente conclusão: de que servem as lamentações?


2.9.08

Obras de santa Engrácia


Costuma-se dizer: os engenheiros são uns ineptos. Não são capazes de planear as obras públicas como deve ser. E não têm mão nos executantes que passam tempo demais a apreciar a cerveja que escorrega pelo gargalo e a disparar piropos de mau gosto às donzelas que passam. O resultado: obras que demoram muito tempo, sempre tempo a mais. Obras mal feitas, ruas escavacadas e depois indevidamente refeitas, ruas remendadas.


A analogia: a vida é uma obra de santa Engrácia? Um projecto, sempre um projecto, ou uma sucessão de projectos sempre em andamento. Os projectos raramente terminados. Quando se pensa que o projecto está à beira do fim, alteia-se um imponderável e o projecto fica adiado, ou em suspenso. Às vezes, é outro projecto que se intercala, tornando mais densa a rede de projectos em que se revê a vida. É como se houvesse um diálogo de surdos entre dois hemisférios que habitam dentro de nós: há o arquitecto que fervilha em tempestade intelectual, ansioso por esboçar novos planos para a vida que recusa a monotonia; e o engenheiro que se inquieta de cada vez que o arquitecto acorda em constante frémito. O segundo, incapaz de acompanhar a vibrante actividade do primeiro. Dos dois a descompasso, um caótico estaleiro onde a confusão se espalha por todo o lado.


Se é isto a vida, uma gigantesca obra de santa Engrácia, como podemos apontar o dedo aos engenheiros civis?


Não há vestígio de autocrítica ao pesar a vida na báscula dos planos que se inclinam para a ausência de resultados. Pois a vida é uma experimentação perene. Podem as pernas preferir as avenidas já conhecidas, evitar pisar terrenos onde pesa a incógnita das paisagens nunca visitadas. Não admito que haja quem só queira teimar nos recantos revisitados à exaustão, por temor ao desconhecido, por demissão da febril imaginação que dá alento a projectos, ou por temer que a ousadia dos muitos projectos acabe por desaguar na frustrante sensação do vazio. Porventura não serão os resultados que contam. É o que se ensaia, mesmo que seja para abandonar ao cabo de pouco tempo. Ainda que, ao olhar para trás, estejam espalhados pelo chão os cadáveres dos muitos planos que não foram além do seu esboço.


Há uma expressão em inglês que captura a essência da vida em permanente estaleiro: "work in progress". Em tradução adaptada, obras em andamento. No caderno de encargos vão sendo anotados mais planos, ou alterando os que já foram lavrados na memória descritiva. Por vezes, a pedra tumular em projectos que deixam de fazer sentido. Sem dramatizar. É o curso da vida, ou os acontecimentos que dependem de outros, ou as vicissitudes, ou os percalços que obrigam a redesenhar planos ou a traçar novas bissectrizes que alteram, e muito, projectos anteriores.


Quando damos conta, parece que a existência se demora nos meandros dos planos que se arquitectam. A árdua incumbência de os passar do papel à prática, quando se convoca o engenheiro que adoça a vida na concretização dos planos, é tarefa que fica adiada quando o imaginativo arquitecto descobre novos projectos. De projecto em projecto, inacabadas as muitas obras que vêm de trás. A certa altura, uma tremenda babilónia resume a existência onde se perde o rasto aos tantos projectos registados. Uma desorganização mental? Ou talvez não, apenas o notável devaneio de salgar a existência com constantes desafios que impedem o adormecimento da vida. Ao de cima, a complexidade da labiríntica teia onde se acumulam ferros em estaleiros que tingem a existência com os coloridos horizontes que se anunciam para um dia vindouro. Não interessa que haja cantos da vida onde os ferros de estaleiros abandonados estejam tomados pela ferrugem, sinal do abandono de projectos a que se perdeu o rasto, ou até sítios onde os ferros retorcidos são a imagem de planos já tão antigos que se perdem na poeira da memória.


Não há grande mal que pese o estigma das obras de santa Engrácia sobre uma vida. Assim como assim, o mal maior é quando se extinguir o fio da vida. Nessa altura, todas as obras se encerram, definitivas. Uma pedra que se abate sobre os projectos. Que deixam de o ser. Obras e de santa Engrácia.


1.9.08

Um retrato da saúde oral dos lusitanos? É na “Liga dos Últimos”


Se há peças que fazem parte da idiossincrasia lusitana, o programa da RTP "Liga dos Últimos" é património genético. Todos os motivos concorrem nesse sentido. Seja qual for o diagnóstico, o futebol domina a paisagem indígena. Apesar da desertificação que vai tomando conta do Portugal profundo, o programa é um espelho da ruralidade que se vai transformando em curiosidade antropológica. Poder-se-ia contrapor que não há ali retrato algum da portugalidade contemporânea: o futebol não é espelho da cultura autóctone; e a maioria da população acantona-se nos grandes centros urbanos e arrabaldes, o que faz do mergulho pelas aldeolas perdidas no interior uma fotografia da portugalidade na sua excepção.


Para o caso, não interessa. O que me interessa é não perder um só episódio da "Liga dos Últimos". Aprende-se muito. Para os amantes da suposta sabedoria popular, a cada semana o programa é um valioso manancial. Um desfile de personagens inenarráveis que parece perder qualquer vestígio de timidez diante da câmara que os filma. É curioso o efeito que a câmara ligada produz sobre os entrevistados: soltam-se, uma verve imparável, o raciocínio febril, os argumentos que se articulam, desconexos porém. Aquelas pessoas sentem um ímpeto irreprimível em brilhar nos escassos minutos de fama que a inesperada exposição mediática garante. Soltam-se. Por vezes, escorregam para o disparate total. Uns querem falar caro e acabam por ser terroristas da gramática. Outros disparam um conjunto de palavras que, na sua forma total, oferecem um raciocínio desarticulado. É a portugalidade profunda. E os vivas à democracia.


Quando sugiro no título deste texto que a "Liga dos Últimos" é um retrato da saúde oral dos lusitanos, há dois sentidos possíveis no diagnóstico. O primeiro acabou de ser revelado. Quando os castiços abrem a boca para falar, os atropelos à língua sucedem-se sem cessar. É a expressão oral pelas ruas da amargura. A imagem do insucesso da política de educação década após década. A prova de que a escola tem sido encarada com suspeição ao longo dos tempos, porventura um empecilho para os miúdos que deviam estar a trabalhar na lavoura desde tenra idade e não a perder tempo precioso a aprender na escola coisas que não interessam tanto assim. Para as gentes comunicarem entre si, quem precisa de ir à escola?


O programa também encerra um retrato da saúde oral, pois quem desfila nas entrevistas é muito desdentada gente. Velhos, de meia-idade e mais novos, a amostra é sintomática de como as gentes se descuidam a tratar da dentição. O que mais se vê são bocas onde os dentes são a excepção e o vazio se locupletou no lugar onde outrora houve dentes. Homens e mulheres – que também as há entrevistadas no programa, para gáudio (ou talvez não…) das feministas de serviço, apaziguadas com um tratamento jornalístico que obedece aos padrões da igualdade de género – mais novos ou mais velhos, muitas bocas e muito desdentadas. Há bocas que trazem um singular dente escondido nas lateralidades. Há gente que ostenta orgulhosa dentição com um rombo à frente. Corajosa gente, que não esconde bocas desdentadas das câmaras que vão no encalço da sua opinião, mesmo quando as desdentadas bocas trazem dificuldades de expressão.


Os burocratas do ministério da saúde deviam prestar atenção à "Liga dos Últimos". Abrir os olhos à profunda portugalidade que desvenda um panorama lamentável da saúde oral das gentes. Nem precisavam de sair da torre de Babel lá no ministério, dar-se ao incómodo de ir para o terreno e espreitar a boca dos habitantes da Lusitânia profunda. Só têm que ver, todas as semanas, a "Liga dos Últimos". Um programa que presta um serviço incalculável aos curadores da saúde oral das gentes.


Ao ver a "Liga dos Últimos", sento-me na poltrona pronto para um programa de humor. De braço dado com uma lição de sociologia. Se calhar há alguma hipocrisia minha: afinal, a abundante gargalhada solta-se com o grotesco que vem lá da portugalidade profunda. No cortejo de aberrações que se expõem à chacota dos espectadores. Não importa. Ninguém os obriga ao papel circense a que se prestam. Assim com o assim, palhaços da companhia há-os em todos os lugares. É o outro serviço que estes anónimos que saltam para as luzes da ribalta prestam a quem se encanta com a "Liga dos Últimos": um valioso contributo para a boa disposição. Longa vida à "Liga dos Últimos"!