24.10.08

A doença do nacionalismo


"A língua é a minha pátria", Fernando Pessoa


Demora em chegar, a modernidade. A teimosa ancestralidade do nacionalismo que perdura. É comportamental. Arrumamo-nos todos direitinhos nas gavetas delimitadas pelas nacionalidades que calharam em sorte à nascença (ou em desdita, depende da perspectiva). Se há coisa que me irrita é quando perguntam, no estrangeiro, de onde venho, e logo de seguida as pessoas desfilam estereótipos que julgam ser identificação da idiossincrasia nacional. Falam-me ora das sardinhas, ora do fado, ora do encantador Algarve, ora de uma agremiação regional que tinha acabado de levar a palma num troféu europeu de futebol. Como se por ter este passaporte tivesse que gostar de sardinhas, de fado, do Algarve apinhado de inestéticos turistas, ou estivesse entusiasmado com o triunfo futebolístico da agremiação regional.


Este nacionalismo é uma camisa-de-forças que aprisiona a liberdade interior. Por termos nascido num certo lugar, somos nacionais de um determinado país. Imediatamente espera-se que em nós fermente uma solidariedade colectiva com os demais que coincidem na nacionalidade. Não importa que não haja a menor identificação pessoal com o grupo, pois somos ensinados desde tenra idade que os laços de nacionalidade se sobrepõem ao resto. Que interessa que tenha mais afinidades pessoais com alguém de outra nacionalidade, se a formatação instituída me impõe solidariedade por aqueles que coincidem na posse do mesmo passaporte? É um espartilho, isto das nacionalidades. Uma tremenda restrição à liberdade pessoal.


Todos os dias, manifestações de nacionalismo pacóvio. Agricultores que vivem enquistados em tempos de antanho onde se glorificavam as virtudes do "orgulhosamente sós". Encenam patéticas teatralizações, com o dramatismo inane a tomar conta das ruas onde se manifestam. Oferecem leite nacional a quem passa e vertem no asfalto o leite estrangeiro que teima em entrar nas superfícies comerciais. Exigem restrições sobre a venda de leite estrangeiro, como se não houvesse União Europeia e as fronteiras não estivessem abertas ao leite que vem de outros países da União Europeia. Ou pescadores que perseguem camiões que trazem peixe espanhol, violentamente destruindo esse peixe que, ó heresia, ia ser vendido nas nossas lotas.


Há ainda muita gente que prega o infeliz slogan publicitário "o que é nacional é bom". Bem entendida a mensagem subliminar: convoca-se a solidariedade em nome da bandeira vermelha e verde que se deita sobre todos os concidadãos, para que nos convençamos que as coisas aqui fabricadas são melhores que as produzidas no estrangeiro. Como se fosse uma dádiva divina (logo, inexplicável) que nos levaria a preferir o que é nacional, no irracional argumento que "é bom", ao jeito dos não argumentos que apenas explicam "porque sim". Que interessa a minguada carteira das pessoas que compram esses produtos? Em muitos casos, até podiam poupar dinheiro – logo, viver melhor – se não houvesse o apelo à afectividade nacionalista e comprassem mercadoria estrangeira mais barata e de melhor qualidade. É o nacionalismo no seu esplendor irracional.


O fervor nacionalista ultrapassa as fronteiras dos exemplos mesquinhos e toca até quadrantes intelectuais. Vê-se na língua, seja na literatura, seja na música, ou ainda no teatro e no cinema. Há cultores da literatura que se excitam ainda na famosa frase do poeta Pessoa, num incontido orgulho da língua que empregam na escrita, providencial diferença que faria do português uma língua predestinada. Há académicos que vivem ultrapassados pelos tempos e se condoem por verem o português ferido pela entrada do inglês nas salas de aula. Receiam que o português se perca, como se alguém acreditasse que é por aqui que o fantasma da língua morta se abate sobre o português, qual latim dos tempos vindouros cedendo ao inglês em pose de língua franca. Há músicos que se gabam de serem pastores do português cantado, como se a música não fosse universal e a língua que a canta apenas seu instrumento. Chega-se a defender a língua a peito: há por aí um rapper – ou artista do hip-hop, ou lá o que é – que se notabilizou por uma composição em que censura, com uma violência verbal inusitada, artistas nacionais que cometem a heresia de cantar em inglês.


Mas o que interessa tudo isto? O que faz tanta gente distrair-se com os deleites envenenados da nacionalidade, que depressa resvala para um nacionalismo que é tão saloio como insensato? É ao ver estas patéticas exibições de guardadores do rebanho nacional que sinto uma incontrolável pulsão de meter os papéis para a apátrida condição.


23.10.08

A pudica chanceler


Sinal dos tempos que atravessamos: a gente que devia ser responsável e apresentar soluções credíveis para a tão profunda crise financeira que há e para a crise económica que há-de vir, entretida com lamentáveis fait divers. Angela Merkel queixou-se na embaixada alemã em Paris que Sarkozy vomita uma enxurrada de charme sobre ela. À boa maneira do macho latino, Sarkozy acha-se um sedutor (assim como assim, não está para a perna de qualquer um conquistar a, por muitos endeusada, Carla Bruni). Daí o afecto com que agracia Merkel, com indiscretos afagos e profusos beijos quando se cumprimentam. A gélida chanceler não gosta, acha indecoroso.


A começar: será a etiqueta protocolar que obriga a manifestar o incómodo através de interpostas pessoas, os diplomatas dos dois países? Não há confiança para prescindir dos préstimos dos diplomatas e ter a franqueza de passar um discreto ralhete no expansivo presidente francês? Estas coisas resolvem-se olhos nos olhos. Não com a indecente mensagem passada à embaixada de um país, que por sua vez a transmite ao ministério dos negócios estrangeiros do outro país, que finalmente faz chegar o incómodo da donzela ao marialva acusado. Pelo caminho, com fugas de informação, o sumarento episódio aterra nas redacções dos jornais, ganhando foros de incidente diplomático.


Passada a surpresa de o ver retratado como notícia, roubando tempo ao que devia interessar aos políticos e à servil comunicação social, percebe-se: ou é a comunicação social tão enamorada pelo acessório, ou é por estarmos deprimidos por causa da crise e por isso carecemos de entretenimento. O circo recupera a boa disposição das gentes atarantadas pela crise que há e pela crise que está para chegar.


Cavalgo, então, na frívola maré. Leio que o desconforto da chanceler alemã pode ser entendido à luz das diferentes educações que têm no catolicismo e no protestantismo os seus diferentes códigos genéticos. Dizem que os franceses, católicos e latinos, são mais dados à exteriorização do afecto. As pessoas tocam-se sem se sentirem repugnadas pela mão do outro que afaga, sem haver choque por uma saudação se socorrer de ósculos pespegados por carnudos lábios. Ao contrário, os alemães. A frieza de comportamentos com origem no protestantismo. Resguardam emoções, militantemente gélidos. Recusam-se ao espalhafato dos afectos em público.


Algo não bate certo, porém. Os teutónicos são gente que se esconde debaixo de uma carapaça, gente orgulhosa por guardar o domínio das emoções para si (e para os mais íntimos). Os espalhafatosos franceses precisam de contacto físico: como se fosse condição necessária para contagiar os outros com as emoções de quem as deseja libertar. Nisto, os primeiros remetidos ao recato, perseguindo o individualismo das emoções. Os segundos, expansivos, altruístas na partilha (activa e passiva) dos afectos. Contudo, é mais a norte que os costumes são mais liberais. Será mais pela Alemanha que a libertinagem sobe na sua escala. O que introduz a perplexidade: por que se incomoda Merkel com a gelatinosa simpatia de Sarkozy, toda ela embrulhada em salamaleques afectuosos, a mão pousada sobre os ombros da mulher que manda na Alemanha, os espaventosos beijos que trocam à chegada e à despedida?


Tenho teorias. A chanceler está ali a representar a grande Alemanha. Que não fiquem dúvidas que a grande Alemanha não admite que a vizinha França passe a mão pelo seu dorso. Pode haver quem entenda o gesto como uma sublime mensagem de patético paternalismo machista exercido por Sarkozy. E, depois, quem não conhece o pétreo chauvinismo francês? Ou Merkel não gosta do estilo puerilmente charmoso de Sarkozy. Para os seus botões pensará: ele não é charmoso, é sarnoso. Não faz o seu estilo, o que lhe causa repugnância de cada vez que o presidente da França avança em direcção àquele pedaço de território alemão. Ou – derradeira hipótese – ela é admiradora de Bruni e incomoda-se com as investidas de Sarkozy, não vá a cantora primeira-dama ser acometida por uma fúria ciumenta e o caldo das relações diplomáticas entornar-se.


É espantoso como, no meio da crise quase sem precedentes, esta gente ainda encontra tempo para se demorar com esta laia de fait divers. É o espelho da sua tão frouxa têmpera. Quem disse que eles eram líderes? Pobre direita, que mal andas quando entre os teus ícones estão personagens deste calibre.


22.10.08

No restolho das folhas caducas


Ainda não se anunciam os ventos já frescos, o sinal do Outono que tarda – e que chega mais tarda a cada ano que passa –, mas já as folhas se espalham pelas ruas. Fazem a sua cama densa debaixo das árvores que vão ficando despidas assim que o calendário entra pelo Outubro dentro. As amarelecidas folhas, enfraquecidas folhas, desprendendo-se dos seus ramos. Caducam no zénite da outonal estação que é a enseada onde se acolhem já féretros.


As folhas caducas, nesta altura apenas uma saudade do viço que foram outrora. Na sua tonalidade acobreada que toma contas das ruas, antes dos homens do lixo as virem recolher, encerram a nostalgia maior. Lacram as memórias de uma juventude vigorosa, aqueles tempos em que havia pressa de viver tudo ao mesmo tempo, como se o mundo fosse chegar ao fim ao cabo do dia seguinte. Eram os tempos em que tudo era vivido na sua vertiginosa velocidade. Sem oportunidade para os sentidos se demorarem nas imperceptíveis, mas contudo arrebatadoras, dádivas da vida, tamanha a pressa de passar por tudo.


As folhas tombadas, as folhas que esvoaçam anarquicamente quando o vento se levanta, são a testemunha desses tempos de insaciável consumo da vida. As folhas caídas que emolduram o Outono são um sinal paradoxal, a inexacta expectativa da nostalgia dos tempos perdidos no sótão das memórias. É que essas folhas não regressam às árvores de onde tombaram. São, elas mesmas, os vestígios de um tempo que deixou lá atrás a sua marca indelével. Se há lição vertida pelo restolho abundante que a outonal estação semeia nas ruas é a aprendizagem do tempo – um templo de onde se soltam as ondas que amansam a voragem da vida. Como se aquelas folhas, entretanto adormecidas no seu leito fatal, mostrassem a inutilidade da existência que teima em ultrapassar-se na pressa de viver. As coisas, todas as coisas, pertencem ao seu tempo.


Desenganados os que se entristecem nos sombrios dias de Outubro, quando as árvores vão emagrecendo em folhagem à medida que as ruas se enchem das caducas folhas. Nem a conjugação de elementos, que parece um convite à melancolia – os dias plúmbeos, o vento agreste, as primeiras chuvas que adivinham a impiedosa invernia, as roupas que acamam o corpo –, tem a força suficiente para entregar os corpos na letargia de quem se deixa derrotar pela melancolia outonal. Ao contrário: a escondida beleza do restolho composto pela folhagem em decesso. O acobreado das árvores ao longe, os castanheiros que se tingem de avermelhadas tonalidades, eis a magia de uma nova paleta de cores. Mudança. O Outono no seu esplendor revelado ao rejeitar a monotonia do estio já extenuante.


A beleza do quadro onde domina a cama de folhas caducas. Das folhas que crepitam quando são calcadas, ou das escorregadias folhas quando humedecidas pelos primeiros suores nocturnos que se condensam em gotas orvalhadas. É todo um respiradouro que renova a paciente existência. Pelas folhas que se entregam na sua tão bela sepultura, trinam os sinos que ecoam pelas profundezas do pensamento. Avisam que insistir na vertigem do tempo é um passo em falso, um tremendo equívoco, os sentidos permanentemente deixando escapar as pequenas coisas que a pressa impede de reter. As pequenas coisas que encerram o sabor mais intenso da existência.


São as folhas secas, no seu leito fatal, que o ensinam: pode a existência esbarrar na incómoda curta duração – pois a vida é sempre curta, por mais que se delongue. Apressá-la, na fobia de sorver toda a sua sumarenta seiva, porventura a traição maior aos que vivem tão desalmadamente. A tranquila cessão das folhas, que não seja o falsário altar onde os endemoninhados da vida voraz acabam por chegar à meta tão antes do tempo. Só então hão-de reparar como foram atraiçoados pelos corsários que os levaram à vertiginosa forma de vida. Quando forem folhas caducas, saberão.


21.10.08

Da triunfante abstenção


Vejo os socialistas, ufanos com mais uma vitória eleitoral. Dizem que esmagaram a concorrência nas eleições regionais dos Açores. Maioria absoluta. No continente, o encantador aparelho socialista refina análises que nem o mais amador dos aspirantes a politólogo seria capaz de fazer: insinuam extrapolações das ilhas açorianas para o continente, um wishful thinking que procura antecipar o resultado que eles queriam que acontecesse nas eleições legislativas do próximo ano.


Escorrem vaidade, os socialistas lá dos Açores, com o oportunista amparo dos companheiros continentais. Apagam dos registos dois percalços que ofuscam tão feérica vitória por eles reclamada. Primeiro, perderam um deputado. Sinal de que houve menos gente a concordar com a reeleição dos socialistas. Dirão, passando a esponja neste dado, "pormenor irrelevante". Segundo, a abstenção foi superior a 50%. Foi maior o número dos que não foram votar do que os votantes no partido socialista. Esta é a dor maior que os socialistas varrem para debaixo do tapete. A dor que não convém revelar. Não vá ela beliscar a espampanante vitória. A habitual pesporrência dos que se olham do alto da putativa superioridade impede de julgar a gravidade de tão elevada abstenção. Não foi uma vitória cor-de-rosa. Quem saiu triunfante destas eleições foi a abstenção.


Foi a primeira vez, desde que a democracia trouxe o hábito de eleições, que a abstenção ultrapassou 50% em eleições para órgãos legislativos. Poucas menções ao fenómeno. Do César que vai continuar a mandar nos Açores uma breve referência, deixando pelo caminho a sugestão que para a abstenção terá contribuído a desactualização dos cadernos eleitorais. A lengalenga do costume de políticos que convivem mal com elevadas taxas de abstenção: ou há muitos eleitores inscritos que por esta altura já habitam cemitérios, ou é o específico caso dos Açores que continua a exportar muita gente para outras terras. Espantoso argumento, por ser proferido pelo presidente do governo regional açoriano: pois se as gentes continuam a emigrar aos magotes, é sintoma de que a vida nos Açores continua a ser madrasta. Por sua vez, sinal da inépcia de quem lá governa – e há mais de dez anos.


A abstenção é a filha bastarda do sistema político. Incompreendida, desvalorizada. Apoucada, até, quando os abstencionistas são atacados por, dizem os críticos, se demitirem de um dever político fundamental. (Seria altura para enxertar aqui contra-argumentação: antes de ser dever, votar é um direito. Para o objectivo do texto de hoje, essa discussão não vem ao caso.) A abstenção é a mágoa dos políticos profissionais, dos que vão a eleições e ficam tristes por dentro por haver tanta gente que não vota num deles. Continuo convencido que há muita abstenção que não se explica apenas pelos cómodos argumentos desfiados por políticos profissionais e analistas a soldo – a praia estava apetecível, ou havia um jogo de futebol que desviou as atenções (como se um jogo de futebol durasse das oito às dezanove horas…), ou as pessoas foram para fora durante o fim-de-semana, ou apenas não se interessam em escolher que os vai governar. Nunca por nunca a abstenção é sinal de desconfiança no sistema político e nos seus medíocres intérpretes.


Ainda que as eleições regionais nos Açores sejam específicas, há outra extrapolação a tirar: uma abstenção sem precedentes desmente uma teoria que tem feito furor por estes dias. Dizem alguns que diante de uma crise tão profunda e perante tempos vindouros tão incertos, as pessoas se refugiam nos actuais governantes. Neles depositam um elevado capital de confiança, esperando que sejam capazes de encontrar soluções para ultrapassar a crise. O que reforça as actuais lideranças e funciona como balão de oxigénio para aqueles líderes que estavam a descer na ladeira da credibilidade. Em si, a teoria é contestável. Francamente, acho-a esotérica. A ser verdade o que preconiza a teoria, as gentes entregam-se aos políticos do momento como se entregam à religião quando estão a viver momentos aflitivos. Há muito de metafísico nesta teoria.


A elevada abstenção nas eleições dos Açores destrói os alicerces desta inusitada teoria. O facto de haver tanta gente que se recusa a escolher um entre tantos concorrentes às eleições também pode ser interpretado como sinal de que essas pessoas (mais de metade do eleitorado) descrêem nas capacidades dos políticos para matarem a crise.


20.10.08

Um sonho por dentro do sonho


Havia múltiplas caixas que se encaixavam em caixas por sua vez maiores. O desdobramento dos sonhos. Até que se perdia o rasto ao sonho principal, ao sonho originário. A certa altura, nem sequer se distinguia a vida desprendida de sonhos da cornucópia de sonhos nos seus infindáveis desdobramentos. Uma espessa teia que restringia o discernimento. Ao destapar a caixa que encerrava um sonho, logo de seguida outra caixa perfilava tentador, porque desconhecido, sonho.


Por vezes tinha a impressão que a espessura onírica era apenas um refúgio. Da vida presente, dos cansados olhos que se fustigavam com a realidade em redor. A cada sonho mergulhava em lugares fantásticos, lugares que não figuram na geografia do mundo. Desses imaginados sítios brotava uma fonte inesgotável. Era como se a cada sonho se renovassem as forças que os olhos careciam assim que regressassem do profiláctico sonho. Paradoxalmente, desdenhava do sono. Teimava: era tempo gasto, um tempo inútil em que a vida ficava por umas horas remetida à letargia. Na sagração da sempre tão curta vida, o sono era um absurdo atentado, o perturbante mistério que rejeitava a sagração da vida. A menos que da riqueza da vida fizessem parte os nutridos sonhos em que a mente se abraça enquanto o corpo repousa.


Não que os sonhos fossem o repositório de paradisíacos cenários onde as angústias da vida acordada fossem compensadas. Havia-os maus, os sonhos. Havia-os, e muitos, surrealistas. Como havia a visitação de incomodativos pesadelos. Os sonhos tanto dispunham como indispunham, consoante as cores de que vinham tingidos, o sabor ora adocicado ora ácido que emprestavam ao despertar.


Com frequência, no momento em que o sono dava lugar à alvorada, havia uma linha ténue que não deixava distinguir se o sonho tinha já terminado ou se eram os sentidos já despertados do torpor do sono. Um limbo em que os sonhos pareciam prolongar-se para a vida sem sonhos. Às vezes, apetecia prolongar esse torpor e regressar ao sono, mergulhar nos apetecíveis sonhos que tinham terminado. Sempre melhores que a vida que esperava pelas horas seguintes.


Era nessa altura que tudo se parecia compor como se houvesse um sonho dentro do sonho. Ou como se a vida fosse o sonho maior, uma dimensão imperceptível que aprisionava os sentidos a uma tremenda ilusão não revelada. Ou, que assim não fosse, mas que assim fosse desejado todo um percurso. No contraste entre os idílicos sonhos e os pungentes cenários que se desfraldavam em redor para os olhos acordados. No fundo, os olhos que pareciam acordados, mas os olhos não acordados, possuídos pela anestesia do sonho maior – do sonho contínuo, interminável. Dele irradiavam os sonhos menores, os sonhos que se renovam a cada noite em que o corpo cansado exige o lastro do sono. Do alto contraste entre os sonhos vários, ficava sem saber se de algum deles ecoava uma melodia tingida com as pétalas da realidade.


Os sucessivos sonhos, os sonhos nos seus múltiplos desdobramentos, eram como círculos concêntricos. Problemas, ou promessas, nunca findados. Ramificações incessantes, num mapa complexo sem pontos cardeais. No caos instalado, os sonhos abraçavam-se em profusos ramos de onde nasciam outros ramos – sonhos com cores diferentes, personagens diferentes, afloramentos do sonho maior (a imaginada realidade, ou a realidade elevada ao patamar de imaginação), ou sonhos no seu contraste com o sonho maior, apenas ingredientes do sonho maior. A certa altura, uma constelação de sonhos, o ininteligível mapa do caos instalado. Todos os sonhos, um amplexo tomando conta do corpo inteiro, num asfixiante abraço. O corpo todo tomado pela miríade de sonhos, já impossível de distinguir entre a matéria onírica e a espessura do corpo.


Sonhos, têm todos um sentido? Mas o que interessa a hermenêutica dos sonhos? Parece que a hermenêutica dos sonhos é a fábrica onde os sonhos se entregam no seu interminável desdobramento. Já sem saber onde termina o sonho, ou sem perceber se a hermenêutica tarefa não é ela mesma uma derivação do sonho que interpreta. Se calhar, os sonhos apenas se degustam. Não são matéria para demoradas exegeses. O sonho, sonha-se.


17.10.08

As coisas nas suas cores


Terias que te convencer: que as coisas, todas as coisas do mundo, não são um fogoso repositório de sombras. Onde apenas triunfa a escuridão, uma asfixiante tirania que veda as cores aos olhos das pessoas. Terias que te convencer que as cores irrompem na sua clareza. As cores, monumentos maiores que emprestam a vivacidade que derrota a letargia dos vencidos.


Daqueles lugares onde habitam sorumbáticos seres, encravados nas suas indecifráveis trevas, grita um contagiante, aflitivo apelo a deixar o corpo enlear-se pelas areias movediças onde o pensamento se torna inerte. Tudo se passa como se a recusa das cores fosse a opressão do espírito livre que vê as asas seccionadas. As trevas onde todos são convocados para um rastejar digno dos vermes. Só sombras, vultos disformes – e os próprios corpos rastejantes decantados na sua disforme condição. A aliciante tentação de te abraçares aos sisudos dias onde todas as cores são assassinadas. Uma deriva fatal. Os espelhos onde as sombras se reproduzem são o altar onde repousam as cores. Cores sem sal, apenas os muitos matizes do negrume.


E, contudo, as coisas estão embrulhadas nas suas maravilhosas cores. Repousam nas portentosas cores adormecidas na recusa em serem reveladas. Adiam-se, sempre para um depois que tarda em chegar, aprisionadas na densa cortina de vultos e sombras onde se semeiam todos os alçapões onde o corpo cai com estridência. Nos dias que se sucedem, apenas a teimosia da demissão das cores, um suicidário apelo vindo das profundezas do ser, os dias sempre tristonhos. Uma pesada camada de plúmbeas nuvens que adeja sobre a cabeça. Pesa sobre a cabeça e arqueia o dorso na existência compungida. Diria: um legado da totalitária educação pontuada por dogmas metafísicos.


Os olhos, treinados para a traição das sombras onde vagueia a obscuridade. Tudo se revolve na sua opacidade. Ou parece entregar-se a essa opacidade, na fatal demissão de si. A doentia fuga dos dias aspergidos por uma coreografia de cores, todas as cores numa desenfreada embriaguez, caoticamente atropelando-se umas às outras. Mas cores. Uma paleta onde as cores são tantas que é difícil escolher um punhado delas para pintar a existência. O pior é que sabes que as cores existem, algures. E teimas no refúgio das esquálidas sombras que escondem a têmpera das coisas. Teimas em contemplar o sacrário onde navegam os vultos indiferenciados, todos empenhados na tacanhez das ausentes cores.


Temes a beleza das cores? Temes a libertária função das cores? A acomodação à procissão das sombras, um hino à indiferença do ser – à indiferença de todos os seres. Um comodismo que é demissão do ser. Há quem fique apaziguado com o ordeiro rebanho que toma a traiçoeira estrada plana onde só são admitidos os que assinam o contrato da acrítica existência. Cedem à convocatória dos sacerdotes a quem convém a negação das cores. Os sacerdotes, conscientes de que a contemplação das cores libertaria as amarras do ordeiro rebanho. Que jamais o seria, assim que tomasse conhecimento da beleza das coisas nas suas esplendorosas cores. Quem aceitaria recuar à mesquinha existência?


Podem as cores alimentar dissabores. Podem as cores causar episódicas náuseas, pois nem todas as cores espelham agradáveis sensações à vista. Nem que cores haja a fazer notar alguma repugnância espontânea, seriam preferíveis à impenitência das sombras que são o teu espartilho. Porém, persistes na acomodação malsã que te agrilhoa. Como se a liberdade em ti fosse maleita terminal.


O mundo todo a preto e branco, um mundo pequeno que se encerra na sua mesquinha concha. Nem é do exterior que a medonha escuridão te protege. É da incomodativa existência que questiona, metodicamente interroga todos os alicerces das coisas. Debaixo das fundações enraizadas das coisas, serias capaz de as discernir nas suas cores. Que assim não passam de miríficas promessas que não chegam a sair do casulo dos sonhos, aquelas promessas sempre agendadas para o depois que nunca tem lugar. Houvesse ao menos vontade. Vontade para espreitar para as coisas pelo seu lado oculto. Porventura haverias de descobrir o adiado hino ao optimismo. Até serias o seu emérito compositor.


16.10.08

Em pose para a fotografia (tristes figuras)


Tarefas ingratas. Daquelas dão sempre resultados insatisfatórios. Pôr a cara a jeito de uma fotografia que seja o retrato oficial, por exemplo. Ensaios atrás de ensaios, de um e outro ângulo, num impossível esforço para o rosto ser captado em pose natural. Sempre fotografias que são difíceis de digerir, que entram a contragosto na sensibilidade dos olhos que são os juízes mais exigentes da figura tecida através da câmara fotográfica.


Quando isto acontece, apetece-me oferecer uma silhueta imperceptível, como se fosse impossível distinguir a cara que se resguarda na silhueta por sua vez refugiada na cortina de sombras. As fotografias "tipo passe" são o lacre de desagradáveis impressões. Assim que as retiro do invólucro, uma imediata sensação de estar a fitar um desconhecido. A cara retratada não parece a minha. Invariavelmente, fico mal no retrato. E estranho que o rosto emoldurado no retrato pareça diferente do rosto que habita todos os dias no espelho matinal. Porventura, um espelho generoso. Ou as fotografias, incapazes de reter os traços fidedignos do rosto nos seus tempos habituais. As fotografias, um embuste.


Há lugares que exigem fotografia do rosto como cartão-de-visita aos visitantes desses lugares. A fotografia revela o rosto de quem habita nesses lugares. Páginas pessoais na internet, páginas profissionais, folhetos que apresentam a pose estudada do chefe de alguma coisa, etc. Onde tenho esbarrado em poses mais ridículas é em lugares onde há gente que julga pertencer a um qualquer tipo de elite. Ontem vi na televisão uma reportagem que ensinava truques para as gentes lavarem uma "vida positiva". A reportagem desfiava o enfadonho rosário de milagres da "vida positiva", com a assinatura de uma especialista vinda da psicologia.


No início da reportagem, os espectadores foram informados que as sugestões miraculosas eram da autoria de uma "investigadora na Universidade do Minho" (não retive o nome). Passou, por um punhado de segundos, a imagem do rosto da investigadora. Ocupando todo o ecrã. Os lábios semi-cerrados, esboçando um suave sorriso. Notava-se pelo brilho dos olhos que a senhora sabia do que falava, pois tanto brilho só podia ser sintoma da "vida positiva" que ela consegue levar. A pedra de toque no breve retrato filmado da cientista: o queixo amparado pelo dorso de uma mão, que erguia a cabeça com ligeireza num inaudível lampejo de altivez. Há variações desta pose. A mão amparando a parte lateral da cabeça, com dois dedos negligentemente movediços sobre o nariz ou sobre os lábios. Ou só as pontas dos dedos em assistência à parte lateral da cabeça. Ou a mão toda como sustentáculo do rosto, acamando-o nas rugas da palma da mão desde o queixo até às imediações das orelhas.


Uma interrogação: fica a pose mais grave, e portanto respeitável, se as mãos subirem ao nível do rosto e forem seus bordões que lacram a gravidade e a respeitabilidade do retratado? Se há função que essas fotografias não conseguem cumprir, é a de exteriorizarem naturalidade. São poses forçadas, fabricadas, altivas. De quem parece querer passar ao mundo uma superioridade em qualquer coisa. Poses pretensiosas. E poses ridículas, se a subjectividade mo consentir. As tristes figuras que andamos a fazer nos retratos que nos oficializam aos outros, principalmente quando dar o nosso melhor acaba por nos embrulhar no manto da ridicularia.


Estarei errado, talvez. A interminável fila de rostos suportados por mãos ou dedos ou mãos e dedos em modalidades variáveis coincide com estética que vem de outros caminhos. Ao contrário do meu diagnóstico, muita gente enamorada pela pose estudada em que o rosto e as mãos trocam os passos na valsa fotográfica. A subjectividade da estética trata do resto. No que me diz respeito, essas fotografias cheias de solenidade e carentes de naturalidade são um baú onde encontro o kitsch na sua pureza.


E por que temos que oferecer o rosto ao mundo, como se o rosto fosse noiva prometida ao ávido mundo? Na antítese da popularizada pose, há quem se esconda de retratos, impenitentes objectores da face desnudada em fotografias trazidas ao conhecimento geral. De Herberto Hélder não há conhecimento de fotografias recentes, por recusa militante do poeta. Tenho para mim que entre a exposição de poses ridículas e o recolhimento da figura, prefiro a discrição do último.


15.10.08

Tristes veteranos


Veteranos de outras guerras. De guerras para eles sempre perdidas. Na fauna particular do meio universitário, estes veteranos fazem as vezes de parasitas. Demoram-se nos bancos da universidade. Dir-se-ia, em jeito de sátira, que por gostarem tanto do que lhes é ensinado vão uma e outra vez, e outra ainda mais, fazer exames. Simpaticamente, prometem-se como clientes para o seguinte ano académico. Ufanam-se do estatuto de veteranos que lhes dá especiais benesses na hierarquia estudantil. Um estranho universo, este: onde os parlapatões andam nas palmas das mãos dos servis pares e exigem aristocrático tratamento e respeito a preceito. Um grito da mediocridade estulta.


Um dia destes cruzei-me com o veterano do momento. Vinha amparado no cajado peculiar que distingue o veterano estudante, o mais velho a quem os outros, e sobretudo os caloiros, devem prestar acrítica vassalagem. O cajado é uma colher de pau de gigantescas proporções, quase do tamanho do veterano. Pelos vistos, nem tão colossal colher chega para que sorvam generosas quantidades de caldo de sabedoria. Pudera: na insólita lógica de "socialização estudantil" o estatuto do veterano é o mais invejável.


Dizia: cruzei-me com o veterano de serviço, que tinha estacionado diante de três imberbes mas esculturais raparigas. Julgo, seriam caloiras estudantes, tal a pose do veterano e dos acólitos que o acompanhavam. Impunham-se às raparigas. O veterano insinuava-se no charme só típico da aristocrática pose que os veteranos chamam a si. Salivava, com abundância, ali parado a admirar as curvilíneas neófitas estudantes. Pareceu-me que as jovens estavam a dar trela ao paspalho. Percebi então: há quem vá na lengalenga dos imbecis veteranos. E assim os veteranos se apropriam da sinecura que ocupam na "hierarquia" estudantil para irem coleccionando conquistas. Percebi, enfim, a compensação que paga o largo tempo que se arrastam na universidade. Não é tanta a vergonha da veterana condição, as reprovações umas atrás das outras: ano após ano, vão engrossando o bornal das conquistas femininas, juntando ao pecúlio mais algumas ingénuas que sucumbem à léria inconsequente.


É a pobreza de espírito que se decanta. A mesma pobreza de espírito que preenche o desértico terreno a que pertence a "tradição" das praxes académicas. Os seus defensores continuam agarrados à ideia de que é pela praxe que os novos estudantes se socializam. Na maior parte das vezes, uma inaudita socialização que passa por humilhantes actos. Neste código muito particular, o servilismo ao veterano é uma extensão de um anacronismo que se confunde com tradição. O veterano é carinhosamente tratado por "dux veteranorum" – um latinório que apela às ancestrais tradições, e uma expressão que contém em si as sementes de um anacrónico e desigual tratamento aristocrático. Estas avantesmas são "duques" e, como duques que se julgam, exigem tratamento a preceito. Quem ousar faltar ao respeito comete o crime de lesa-majestade – um inadmissível atentado contra as "tradições académicas". E as tradições respeitam-se, não se interrogam. Nem que sejam abjectas tradições.


É pena o que sinto pelos veteranos que se arrastam na contumácia de aulas e exames. Nos bancos da universidade, pouco frequentados que os muitos afazeres que se exigem ao "dux veteranorum" não deixam agenda livre, têm pouco tempo para alguma coisa aprenderem. Preferem os deleites enraizados pela acéfala "tradição académica". Através das benesses inerentes ao estatuto fazem o tirocínio para uma inútil forma de vida em que se vão treinando na demorada estância universitária. Os anos vão passando, as aulas vão anotando a sua ausência, os exames, os poucos exames a que se decidem propor, uma via-sacra de reprovações. Pelo caminho, vão delapidando o erário familiar, com os progenitores a sustentarem a parasita forma de vida.


A tacanhez fatal, o aproveitamento do privilegiado estatuto do mais velho a quem todos se devem desmultiplicar em intermináveis genuflexões. Com uma extensão muito marialva – sem surpresa, ou não dominassem as tradições às quais as interrogações são impedidas: os "charmosos" veteranos, o charme que vem de arrasto pela sinecura que ocupam. Anotei a água na boca que escorria com abundância daquele "dux veteranorum", coitada criatura que não fosse o privilégio que ostenta do alto do seu particular cajado decerto andaria pelas ruas da amargura na satisfação dos apelos vindos das profundezas das hormonas. Nessa altura apeteceu-me resvalar para um infantil duelo (não estivesse obrigado à monogamia).


14.10.08

Solidariedade com Lino


Até já foi motivo de paródia num programa de humor da televisão. Corro o risco de perder em originalidade, pois os humoristas disseram o que já tinha agendado dizer há dias (o assunto estava a aguardar, na fila de espera, ocasião para ser tratado). O episódio aconteceu há já uma semana, quando o ministro Mário Lino foi apanhado a dormitar enquanto sua excelência, o presidente da república, orava.


Se calhar o ministro punha-se a jeito para o enésimo episódio em que a chacota tomba sobre si. Ele tem-se distinguido mais pela incontinência verbal (e, diria, mental) que acaba por se voltar contra si. Quem se esqueceu do maravilhoso "Alcochete, jamais", quando mais tarde seria Alcochete a ser escolhido para receber o aeroporto? Quem se esqueceu de declarações de terrível mau gosto, como a que proferiu depois do acidente aéreo em Madrid, puxando a razão a si ao chamar a atenção para a insegurança do aeroporto de Lisboa? A traição do sono em pleno discurso de Cavaco seria mais um acto do anedotário que cobre Lino, o ainda ministro que só o é porque ao leme segue uma seita de amadores.


Tudo ao contrário do que seria provável, contudo. Quando vi as fotografias de Lino imerso num sono profundo enquanto sua excelência o inquilino de Belém perorava, contrariei o impulso espontâneo de apedrejar o patético ministro. Os habituais críticos da personagem que parece ter sido talhada para a crítica fácil podiam vergastar o ministro atraiçoado pelo sono. Até os lídimos representantes da muito institucional maneira de olhar para o mundo poderi-se-iam sentir ofendidos pela falta de sentido institucional do ministro, aquele sono a exibir uma inadmissível falta de respeito por sua excelência que discursava. Da minha parte, um improvável acto de solidariedade com inepta personagem: Lino adormeceu durante um discurso, um longo bocejo é o que é, de Cavaco. Nisso, assino por baixo a peça satírica dos humoristas.


O que sinto de cada vez que vejo ou ouço Cavaco discursar? A irreprimível vontade de interrogar: as aulas dele eram assim tão maçadoras? Tão entediantes quanto os discursos acentuados pela pose grave, a pose tão séria, possuída pela elevação institucional, aquela voz monocórdica, os discursos monossilábicos? É curioso: recuo ao tempo em que Cavaco foi primeiro-ministro. Nunca teve o verbo fácil. Também, como agora, escorregava para expressões infelizes (tão acertadamente satirizadas pelos humoristas). A austeridade em pose foi, todavia, elevada a um expoente ímpar. Será da idade mais avançada, que traz um sentido de responsabilidade depurado? Ou sentirá Cavaco que, como presidente da república, tem que passar a pose mais grave, pois afinal o presidente da república é mais importante que o primeiro-ministro? (Que ninguém o segrede ao actual primeiro-ministro, para ele não ter um ataque de apoplexia.)


Cavaco fala e não consigo evitar os bocejos que se repetem à cadência das palavras muito compassadas entoadas com aquela voz que, no campeonato das vozes monocórdicas, só é vencida pela de Jaime Gama. E mesmo quando Cavaco se esforça por aligeirar o registo, sempre em desastradas tentativas de oferecer aos súbditos um rosto humano, é pior a emenda. O pior está reservado para os momentos solenes, que é necessário pontuar com discursos carregados da mesma solenidade. Oratórias intermináveis, em que a noção do tempo se transforma, parecendo que os minutos se demoram além dos sessenta segundos convencionados. Quem estranha que Lino tenha adormecido? Alguém, no seu juízo, pode censurar o ministro por ter sido apanhado nos braços de Morfeu?


Coitado do ministro: tantas dores de cabeça na pele de governante e ainda ter que aturar as cerimónias solenes do cinco de Outubro, quando aquilo não tem nada a ver com as funções técnicas do ministro das obras públicas. Porventura, poucas horas de sono, tantas as preocupações. Logo agora que, em plena crise financeira, a prudência aconselharia a adiar o calendário das faraónicas obras públicas que fazem desta apenas remediada terra um arremedo de rico país. A prudência esbarra na teimosia do calendário eleitoralista (eleições já para o ano) e na insensata ostentação dos socialistas empenhados em construir os elefantes brancos das obras públicas – eles querem deixar a sua impressão digital emoldurada no futuro.


Diante tantas dores de cabeça, que tantas horas de sono devem roubar ao ministro Lino, quem estranha que tenha sucumbido ao sono perante o longo bocejo das palavras de Cavaco? Não é lapidação pública que ele merece. É solidariedade.


13.10.08

Acto II: a igreja, o dinheiro e a hipocrisia


Retomo o assunto – a igreja bisbilhoteira, a igreja que não se cansa de meter onde não é chamada. A igreja que tem escorregado para um antropófago oportunismo: está entre aqueles que se acotovelam na fila dos abutres que querem carcomer a frágil carcaça do capitalismo mergulhado, dizem, na pior crise desde a depressão dos anos trinta do século passado.


Ao pequeno-almoço passo os olhos pelas notícias. Leio que o bispo de Leiria exige muita coisa a propósito da crise que nos aflige. Exige que os gestores aceitem salários menos milionários. Deve pensar que é nos muito elevados proventos dos gestores de ricas empresas que radica a crise. E apela às pessoas: é necessário redefinir as coordenadas da ética quando se relacionam com o dinheiro. Para se desprenderem dos malefícios do consumismo desenfreado, o consumismo que aliena as gentes. Eu traduzo: o consumismo que afasta as almas dos caminhos espirituais por onde andam os pastores que espalham a palavra de deus.


Mete-me confusão de cada vez que aparecem porta-vozes da igreja a meter o bedelho em assuntos para os quais não são chamados. Uma pausa para reconsiderar: não mete confusão, pois a igreja católica sempre interferiu na consciência daqueles que se acolhem no rebanho apascentado pelos seus pastores. É isso que explica que das hierarquias da igreja aos padres de aldeia todos opinem sobre qualquer assunto. Mesmo os assuntos que escapam ao conhecimento empírico da igreja (o sexo é o melhor exemplo). Desta vez reforça-se a imagem de uma igreja estranhamente (ou não) de braço dado com os que fazem do combate ao capitalismo modo de vida. Convém olhar com atenção para esta inopinada aliança.


Que o bispo renove o apelo para os católicos (os empenhados e aqueles que confortavelmente se colocam no estatuto de "não praticante") perderem de vista a fatuidade do consumismo fácil, percebe-se. Dantes era o comunismo; quase extinto o comunismo, agora é o consumismo o grande rival de igrejas a abarrotar de gente e da plenitude da fé. O bispo está a fazer pela vida. Numa estratégia de sobrevivência, é sabido, exige-se um ataque fulminante ao adversário, sobretudo quando ele está enfraquecido. Nisto, a crise é um "maná" para a igreja. A oportunidade para afastar as gentes do pérfido consumismo que as trazia afastadas dos prazeres espirituais propagandeados pelo catolicismo. A míngua de dinheiro é o pretexto ideal para trazer de volta ao rebanho algumas ovelhas entretanto tresmalhadas. Abençoada crise.


Inóspito, pedregoso mesmo, é o caminho escolhido pelos bispos e arcebispos mundo fora quando denunciam os horrendos malefícios do dinheiro. Andam muito preocupados com a ganância dos especuladores dos mercados internacionais, que apenas curam de atingir lucros, muitos e em pouco tempo. Agora a hierarquia eclesiástica atira-se aos gestores que recebem salários milionários. Por acaso a igreja é accionista das empresas que decidem remunerar os gestores com salários principescos? Ao que parece, a igreja católica empenhada entre o coro, o numeroso coro, que clama por uma vigilante regulação dos mercados. A igreja entre aqueles que ambicionam por a pata em cima dos mercados, para que não façam asneira que resulta em crises como a que estamos a padecer.


É aqui que entra a perplexidade: como pode a igreja reclamar contra os abusos do dinheiro se ela vive mergulhada numa opulência que não consegue disfarçar? Dirão em sua defesa: a "igreja dos pobres" vive em opulência porque os milhões de crentes espalhados por todo o mundo são generosos na hora das dádivas que enriquecem o património da igreja. Dirão ainda que as dádivas são um acto voluntário dos crentes. Podia contestar esta parte do argumento, se fosse fundo na lógica do pedacinho do céu conquistado a pulso através da esmola e das oferendas que entram no orçamento diário da igreja. Não vem ao caso neste momento. O que interessa é reflectir nisto: como pode a igreja denunciar o satânico dinheiro quando ela é a casa da sumptuosidade? As palavras do bispo de Leiria foram proferidas num local que é o exemplo acabado dessa opulência: o novo santuário de Fátima. Numa enciclopédia de hipocrisia, tudo isto é o retrato perfeito.


A igreja católica tem opinião sobre tudo e mais alguma coisa. Se quer assumir um papel interventivo na sociedade, fica aqui uma ideia: que se converta em partido político. Nesta altura, até eram fáceis as coligações de interesses: do PS (inclusive) para a esquerda. O frentismo de esquerda ficaria enriquecido com o contributo do partido eclesiástico.


10.10.08

A crise pedagógica


Tenho-me lembrado de Joseph Schumpeter por causa da crise financeira tão prolongada e profunda em que vivemos. Da sua teoria da destruição criativa – ou de como, por vezes, se impõe refazer tudo de cima a baixo, uma depurativa destruição de onde hão-de surgir os novos alicerces. A recuperação de Schumpeter não é uma oportunista tábua de salvação para o capitalismo, ou para o "neo-liberalismo", ou para qualquer um dos rótulos que os críticos costumam usar. Se a crise tem uma virtude, é as lições que dela se retiraram. Tanto para quem não gostava da denunciada falta de regulação dos mercados financeiros, como para os que cultivam o capitalismo.


O primeiro motivo de agrado da crise é a alegria espalhada pelos adversários do "neo-liberalismo". Andam por aí, de peito feito, vaidosos no convencimento de que a história acabou por lhes dar razão. Confirmou-se a desgraça que profetizavam para o seu particular credo ideológico vingar sobre os vícios sistémicos de um capitalismo iníquo. Alguns não hesitam em esfregar as mãos de contentamento. Deixam vir ao de cima a sua veia punitiva, exultando por haver gente abundantemente endinheirada que está a perder rios de dinheiro com a crise e empedernidos gurus da gestão cuja diligência foi desmascarada. Diria, uma certa maldade confundida com um acerto de contas, ou apenas uma genética incompatibilidade com quem fez da abastança forma de vida.


Eu, que fico feliz com o bem dos outros, regozijo com a intensa felicidade que tomou conta dos profetas da desgraça do "neo-liberalismo". Só incluo aqueles que são genuínos adversários do "neo-liberalismo", não os ratos de porão que fogem do navio que julgam em naufrágio, certos personagens menores da política que agora se dizem adversários figadais do "capitalismo selvagem" e proclamam o momento de pôr a mão visível em acção, a mão dos governos reguladores. São os simplórios oportunistas com quem não importa perder tempo. São os outros, os que sempre alimentaram o combate aos malefícios do capitalismo, que me enchem as medidas por estes dias. Pelo indescritível contentamento que exibem – e quem pode ficar indiferente a uma pessoa que irradia tanta felicidade?


Há um pouco de tudo entre o exército que acusa o "neo-liberalismo" pelo estado de coisas a que chegámos. O exército que se engrossa a cada dia que passa, a cada dia em que a crise não dá sinais de retroceder. Há os mais radicais, que exultam no convencimento de que estão diante do féretro do capitalismo. E os menos radicais, já não tão órfãos de referências que os guiem, os que aceitam o capitalismo ou com ele são condescendentes. Estes limitam-se a reclamar o controlo dos mercados que andavam indomáveis. Têm dito que são tempos sem precedentes. Afinal, cada crise é sempre uma crise singular - contraponho. Sem darem conta, porém, regressam às curas habituais. Quando as coisas andam mal nos mercados, é o momento da intervenção salvífica da entidade divina, o Estado.


Liberal dos sete costados, tenho uma desconfiança metódica em relação à milagrosa intervenção correctiva das autoridades. Que se adensa no tempo em que vivemos, um tempo de lideranças tão frouxas, um tempo onde campeia o amadorismo dos dirigentes. Episódios recentes confirmam-no: aparecem em pose grave a anunciar medidas que julgam ser a solução para inverter o rumo da crise. No dia seguinte, os mercados afundam-se ainda mais, mostrando a falta de confiança nas medidas e na gente que as adopta. Ao invés, acredito na capacidade auto-regenerativa dos mercados. Há, porventura, gente a mais sem escrúpulos, para quem só conta enriquecer depressa e depois enriquecer ainda mais. Mas acredito – ou quero acreditar, por descrença na solução alternativa da mão visível das autoridades – que o mercado sabe encontrar o seu ponto de equilíbrio com a depuração das excrescências. As falências são isto mesmo.


A crise também é pedagógica para um liberal dos sete costados. Serve para interrogar os seus alicerces intelectuais. Incomodam-me reacções exacerbadas de gente que se diz liberal (e há muitas maneiras de ser liberal), teimando que a crise não beliscou os fundamentos da economia de mercado e os esteios do liberalismo. É tapar o sol com a peneira. Uma forma diferente de religiosidade, tão imersa na cegueira que distingue os mais diligentes seguidores de qualquer religião. Perturbante, para o agnóstico militante, é sentir que a filiação liberal me aproxima de um sucedâneo de religiosidade. Um dia destes dizia que a crise não prova que o mal está na organização desregulada dos mercados. Está na ganância de gente que acaba por destruir por dentro a virtuosa organização do mercado. Ora, este argumento não se distingue da católica retórica que ensina que a deus nunca se podem imputar os males das pessoas, pois estas são dotadas de livre arbítrio.

E eis como a crise financeira produz a demanda de uma catarse interior.


9.10.08

Bento XVI, profeta da desgraça ou acólito do folclore anti-capitalismo?


Mote: "Os bancos caem; só a palavra de deus é estável."


O Papa é um castiço. Aproveitou a ocasião – mercados financeiros pelas ruas da amargura – para se juntar ao coro de pitonisas que andam, tão vaidosas, repetindo à exaustão "eu não avisei?". Um coro de abutres. Os ditos não hesitam em abocanhar o que julgam ser os restos já quase cadavéricos do execrável capitalismo. Bento XVI conseguiu ver no momento um feixe de inspiração de onde recolheu a oportunista comparação. Porque de puro oportunismo se trata. Compreensível oportunismo: a melhor forma de ocultar a crise que nos afecta é sermos profeta da desgraça da crise alheia, ainda pior que a nossa. Como se na crise alheia estivesse a cura para a nossa própria crise.


Caem, os bancos, no diagnóstico do Papa. Se soubesse um pouco de história económica, conteria o indisfarçável regozijo pelo pandemónio que varre os mercados. É que os bancos caem, uns até perecem, mas o sistema capitalista é globalmente mais forte, encontrando na crise a catarse que o salva da doença terminal que apenas consome os menos capazes. Das palavras de sua santidade percebe-se que ou está a aproveitar o caos quase sem precedentes para nobilitar a fé cristã, ou anda de mau humor porque as suas poupanças estão a ser tocadas pelos ventos da crise.


A comparação feita pelo Papa merece que a atenção nela se detenha. Afinal, quem colocou os bancos e a palavra de deus na mesma bolsa de valores? Foi o Papa. Depois deste deslize papal – lendo a notícia, fica-se a saber que a metáfora se soltou a meio de um sermão feito de improviso – a igreja católica perdeu trunfos para reclamar contra os excessos materialistas que se apoderam da gente comum. Foi o sumo-sacerdote que trouxe a palavra de deus para o mesmo nível dos bancos cotados em bolsa.


Os católicos são instruídos para nunca questionarem a sábia palavra emitida pela boca dos Papas. Apesar de não me incluir no grupo, vou fazer a vontade ao sumo padre e interrogar: qual é a cotação da palavra de deus? É ela assim tão estável como proclamado pelo chefe da igreja católica? Se fosse um daqueles ratos dos mercados financeiros, sempre com elaboradas fórmulas matemáticas que são a equação de todos os problemas, uma cotação haveria de ser encontrada. Fujo da racionalidade hermética da matemática, como fujo dos apelos cegos à fé perfumados pela metafísica. A palavra de deus não tem um valor determinado nesta bolsa de valores. Expõe-se a variações. Se quiséssemos, podia-se construir um gráfico retratando as oscilações da palavra de deus. Por mais que custe à igreja católica, se esse gráfico reproduzir uma série temporal onde está vertido o longo prazo, a invectiva papal sobre o capitalismo ignora os telhados de vidro da igreja de que Bento XVI é o pastor máximo. O gráfico seria implacável, o desmentido factual da crença do Papa: afinal a palavra de deus não é estável, está em declínio e de há muito tempo. As provas? Os seminários com menos aprendizes de padres e as igrejas com menor assistência.


Já se sabia que a igreja não morre de amores pelos símbolos que representam o capitalismo moderno. É contra a sede de dinheiro que aliena as pessoas dos valores espirituais. O capitalismo é o adversário principal da fé católica. Aqueles que forem coerentes consigo mesmos e que, sendo crentes, obedecerem aos preceitos papais, não podem cair nos descaminhos do capitalismo, da cegueira do lucro, da materialidade fútil do consumismo. São devedores da frugalidade da vida. Agora que o capitalismo está na mó de baixo, Bento XVI, já com o tirocínio da retórica falaciosa tão típica dos frouxos políticos contemporâneos, quis ser mais um a dar estocada fatal no sistema capitalista.


As suspeitas vindas de trás em sua plena confirmação: já não são apenas grupelhos católicos fantasiosos, na sua especificidade regional aberta a influências indígenas (exemplo: a teologia da libertação), que ecoam voz de protesto contra o farisaico capitalismo. O topo da hierarquia católica, também de braço dado com os folclóricos que perseguem impiedosamente o capitalismo. Só falta saber se teremos direito a ver arcebispos, em representação papal, na próxima manifestação dos movimentos anti-globalização. Seria uma diversificação de actividades da igreja. Pode ser que consiga evangelizar alguns jovens que costumam espalhar a confusão nessas manifestações alter-globalização.


Um improvável namoro, dirá a voz corrente. Nestes tempos em que arribam as mais raras aves, quem sabe?


8.10.08

O “Zé”, vereador da esquerda folclórica em Lisboa, a soldo da extrema-direita?


Há tiros que saem directos para o pé de quem os dispara. Talvez não fosse esse o efeito pretendido, pois temos que acreditar que o pistoleiro de serviço não preenche os requisitos de um doentio masoquismo.


O partido da extrema-direita voltou à carga com outro cartaz de gigantescas proporções mandado afixar numa rua qualquer de Lisboa. Tal como dantes, contra os imigrantes que, aos olhos da extrema-direita, serão a principal doença que mergulha esta santa terrinha numa profunda depressão. Um cartaz xenófobo, irradiando uma lamentável intolerância. Um cartaz que deixa à mostra a profunda ignorância que consome as entranhas da extrema-direita ao fazer do combate à imigração um dos cavalos de batalha: ignoram estudos, com rigor científico, que provam que sem a entrada continuada de imigrantes a Europa definha.


A afixação de outdoors mexe com as competências atribuídas ao vereador da esquerda folclórica, esse cidadão exemplar, activista por excelência das causas que bulem com o exercício da cidadania, o advogado José Sá Fernandes – carinhosamente tratado por "Zé" entre a casta urbana, intelectual e que não consegue esconder hábitos pequenos burgueses, que adora votar na esquerda caviar (é que está na moda). O que fez o "Zé"? Sem pestanejar, mandou retirar o cartaz por achar que ele contém linguagem xenófoba, transpirando um insidioso apelo à violência contra os imigrantes. Que interessa que a Procuradoria-Geral da República tenha dado um parecer que não encontrava razões para a desinstalação do cartaz?


Conviria lembrar ao vereador que é um homem que sabe de leis: a Procuradoria-Geral da República existe para defender os interesses públicos sempre que valores que são património da sociedade sofram entorses. Aproveitando a ocasião para puxar o lustro aos esteios que formam qualquer cidadão que viva num Estado de direito, há um princípio basilar que parece esquecido: a separação entre a política e os tribunais. Por decoro, os políticos devem ficar fora da justiça. Ou a justiça – e os políticos – perdem rasto à decência e esgotam todo o seu capital de credibilidade junto dos cidadãos. Nesse caso, o Estado de direito esfuma-se na confusão entre política e tribunais.


Entendo que haja uma irritação contra a extrema-direita. As exibições de intolerância, o passado que glorifica, a retórica que roça a violência, eis o que compõe a presença da extrema-direita na paisagem política. Não há um singelo pedaço deste ideário, uma única palavra do discurso habitual, que cative a minha simpatia. Para mim, a extrema-direita é deplorável. Mas não aceito que ela seja silenciada, ou é a democracia que tanto se ufana de certos valores que faz o jogo da extrema-direita que quer silenciar. Que essa irritação venha de sectores situados nos antípodas da extrema-direita, também é compreensível. Por todos os motivos. O principal dos quais é uma certa confluência de métodos e finalidades entre a extrema-direita e a esquerda caviar (não se lhes pode chamar extrema-esquerda que, sintomaticamente, eles ficam ofendidos). À intolerância congénita da extrema-direita respondem com a sua própria maneira de serem intolerantes. O que é revelador de um certo posicionamento perante os problemas políticos. Revelador da sua própria intolerância congénita. Nisto, o que distingue a extrema-direita da esquerda caviar?


Tenho que admitir: aplaudi a corajosa decisão do folclórico vereador. Primeiro, porque é todo um programa político da agremiação partidária onde se acolheu. Espezinhar o princípio basilar da separação de poderes é a confissão de como esta agremiação, caso algum dia tomasse conta do poder, não se cansaria de atropelar o Estado de direito. Por outro lado, a decisão de retirar o cartaz é a manifestação inequívoca de como partilham o código genético da intolerância e do não respeito pela liberdade de expressão com a extrema-direita que querem silenciar. Em terceiro lugar, sem dar conta, o patusco "Zé" ofereceu de bandeja visibilidade à extrema-direita. E terá também motivado uma inesperada solidariedade com a extrema-direita assim silenciada. Eu não sabia que o "Zé" estava a soldo da extrema-direita.


O que acho grotesco no episódio é o bafiento moralismo da esquerda caviar e do seu inestimável vereador em Lisboa. Aparecem como empertigados penhores de valores que não constam do seu património genético. E porque acho deplorável que a esquerda caviar suba nos tamancos da sua pretensa superioridade moral para nos dizer que mensagens políticas temos ou não direito a consumir. Está bom de ver: o paradoxo que é ver esta gente usar o conceito de "liberdade individual", a que puxam lustro para a legalização dos casamentos homossexuais (matéria onde coincidimos), e depois deixarem cair a máscara quando acham conveniente atropelar o princípio para silenciar a extrema-direita.


7.10.08

Volantes, velocidades, adrenalina, testosterona e essas coisas todas


(Aviso: texto contendo material eventualmente discriminatório em termos de género.)


Futilidades, decerto. Mas há quem goste. Das sensações arrepiantes da velocidade ao volante de um automóvel. De preferência com muita potência domada pelo pé direito pisando furiosamente o pedal do acelerador, sem dó com o motor que grita a pulmões abertos. É um facto que há por aí muito pipi que adora pavonear-se em bólides, só para fazer inveja aos arrivistas do meio social (eles próprios, pipis envaidecidos com o sinal de ostentação, arrivistas na máxima expressão). Não passam dessa cepa torta. Incapazes de sentir a adrenalina que se liberta se deixassem à solta a seiva selvagem que na maior parte do tempo vive adormecida debaixo do capot.


Infractor, por vezes, me confesso. Cada vez menos, que a sanha persecutória da brigada de trânsito, à cata da multa por excesso de velocidade, é ingrediente do nutrido Estado policial que é adorado pelos socialistas em funções. E as multas são, elas também, nutridas. Como o dinheiro custa a ganhar, impõe-se o recato que torna o pé direito leve como uma pluma - quase uma castração. As sensações da muita velocidade são pouco dadas a descrições através da palavra. Sentem-se, e está tudo dito. Que me interessa que seja acusado de inconsciência? Arrematava o problema se dissesse que das poucas vezes que sou infractor do código da estrada o faço dentro dos parâmetros de segurança (meus e dos outros) – pois logo haveria quem contrapusesse que isso dos "parâmetros de segurança" é muito relativo, ao que viria a minha réplica: "nem mais"; tanto se pode morrer de acidente de automóvel ao cabo de manobras eivadas de loucura, como a meio de uma tranquila e cumpridora viagem.


Dos quadrantes que se acham possuídos por um manto de superioridade moral virá a advertência de futilidade. Só que os arautos da superioridade moral são-me indiferentes. Quanto mais esbracejarem a dita superioridade, mais me apetece fazer muito do que eles condenam do alto da sua tão elevada pose. Haverá ainda sábios ambientalistas a acenar com a cabeça em tom de reprovação, sentenciando: tanto combustível estupidamente desperdiçado enquanto me entrego à fútil sensação da velocidade. É uma outra forma de imperativo moral que me incomoda. Todos por junto, que se deitem com as suas dores de consciência – que as hão-de ter – e deixem os outros entregues às suas particulares demandas.


O paraíso está na Alemanha. Onde há auto-estradas sem limite de velocidade. À falta de melhor, há kartódromos onde se descarrega a adrenalina acumulada ao longo dos dias que são espartilhos das sensações. Ou testes de automóveis feitos num autódromo, aproveitando a pista fechada ao trânsito para puxar o automóvel pelo máximo das suas capacidades, escutar o silvo dos pneus, testar os limites da aderência, o corpo empurrado por acelerações ferinas. Um pouco de vida no fio da navalha, sempre dentro dos limites contidos da segurança, sem desvarios que testam as fronteiras do possível. A diferença entre a sensação estonteante da velocidade que desfila a ritmo furioso e a inconsequente loucura que desata em asneiras com um preço para o corpo.


As indescritíveis sensações coroam-se com uma espécie de lavagem por dentro quando termina a função. Nessa altura, parece que o tempo passado em devaneios de elevada velocidade se resumiu a uns instantes, tão fugazes. O relógio desmente-o. A muita velocidade tragara a noção do tempo, como se a velocidade furiosa exaurisse o tempo e os minutos e segundos tivessem uma outra dimensão. Eu digo que há em tudo isto algo de masculino. Raras as mulheres que se deixam inebriar por este tipo de sensações. Diz-me um amigo que leu uma reportagem que tentava provar, com a ajuda da ciência, que a separação de sexos no usufruto da velocidade ao volante de um automóvel tem uma explicação cromossomática. Aos genes femininos faltam certas hormonas que se excitam com as velocidades alucinantes. É o que explica o embevecimento parvo dos exemplares masculinos – é só vê-los, aparvalhados, com um ar lunático, quando se despedem do potente automóvel que acabaram de experimentar a alta velocidade no resguardo de uma pista encerrada ao trânsito.


Porventura, por tudo isto é que o sexo masculino leva a palma, e esmagadoramente, nas competições automóveis.


6.10.08

Antropologia do crime


A sociologia de pacotilha que abunda por aí assegura que a criminalidade anda nos píncaros por causa da crise económica. As gentes andam desesperadas, vivendo à míngua por entre as migalhas que a crise vai deixando no caminho. No auge do desespero, as gentes descambam para o crime. É o que lhes resta. Nesta lógica, teríamos condescendentes juízes a arranjar causa desculpabilizante para os crimes motivados pelo desespero alimentado pela profunda crise. Seria uma roda livre: mais pessoas apercebendo-se que haveria na crise o pretexto para tresloucados actos que os sentassem no banco dos réus. Logo de seguida um compassivo juiz – porventura com a mesma doutrinação maoista da senhora que combate a criminalidade económica e a corrupção – a passar uma esponja nos descaminhos da lei.


Não é teoria que me convença. Também não concordo com aqueles que tentam dar uma ajuda ao ministro da administração interna, o Rui Pereira pau-para-toda-a-obra (ele tanto é ministro dos polícias, como esteve no tribunal constitucional, como tem perfil para ser ministro da agricultura, ou das finanças, como nem seria de estranhar que entrasse para governador do Banco de Portugal, tanto o perfil plurifacetado do cromo). Acham que não há mais crimes, nem sequer tem aumentado a criminalidade violenta. O que se passa, dizem, é a comunicação social de sarjeta que faz notícia de cada crime e aumenta as proporções da criminalidade. Só que a realidade não é tão doce quanto este governo e os seus acólitos gostariam que fosse.


Tem muito que se lhe diga a maneira de pensar de um criminoso. Sem distinção de crime – tanto faz o pequeno crime como o crime mais repugnante, o que dá direito a uma boa maquia de tempo na cadeia. Vou daqui retirar os homicídios e todos os crimes sobre outras pessoas. Só os crimes motivados pelo desejo de enriquecimento, e da maneira mais fácil, que é sem as pessoas se darem ao trabalho de trabalharem. É gente que arrisca um bem inestimável (a liberdade) na aposta do súbito e fácil enriquecimento. A linha entre a liberdade e as masmorras é uma ténue linha. Quando dão conta, e quando as polícias são diligentes na investigação e os tribunais se esquecem de ser complacentes, já acordam encerrados numa cela. Nessa altura, interrogo-me, se por entre o arrependimento farão cálculos sobre o risco que correram na ânsia de enriquecerem pela via mais fácil.


Se fosse gente mais instruída, com certeza que a prática do crime seria precedida de cálculos cuidados que pesariam, em dois pratos da balança, o risco de privação da liberdade e os proventos generosos do acto punido com pena de prisão. Sociólogos, com a ajuda de economistas que construíram complexos modelos econométricos para medir as imensas variáveis em causa, teriam a resposta na ponta da língua. Acontece que raras vezes os meliantes que procuram fácil enriquecimento através do crime têm conhecimentos, rudimentares que sejam, de sociologia e de econometria. Entramos no domínio do amadorismo. Ou, diria, do empirismo, a palavra-chave para a tanta criminalidade deste tipo.


O nutriente da criminalidade que cresce em flecha não é a penetrante crise económica que semeia desespero. É o sentimento de impunidade notado entre as gentes que se deixam sucumbir pela tentação da criminalidade. Há gente muito importante que vive mergulhada em luxos principescos e que, pelo menos se suspeita, lá chegaram por meios repudiados pela lei. Ou gente que corrompe e intimida quem lhe aparece pelo caminho como obstáculo, espalhando um rasto de terror, uma espécie de máfia em pezinhos de lã. Vão passando entre as gotas de chuva sem se molharem. Quase um milagre, não fossem os esconsos meandros do direito que dão azo à existência de curandeiros (advogados espertos, muito espertos – tanta a esperteza como a ausência de escrúpulos) que os safam das masmorras com manobras processuais, ou a inepta investigação policial que dá ensejo às manobras processuais, ou juízes que proferem sentenças incríveis.


A gentinha mais anónima, que endeusa esses personagens que continuam a viver à margem da lei e ainda se pavoneiam como senhores exemplares, tenta aplicar os ensinamentos dos seus heróis. Afinal, pensa a gente corriqueira, os heróis provam que compensa andar à margem da lei. Com um pouco de sorte, um pouco de jeito e, caso as coisas corram mal, um advogado idóneo, tudo se compõe. Quando dão conta, nem houve sorte, nem menos jeito e os advogados trutas que conseguem o milagre de pôr em liberdade o criminoso mais evidente são escassos e muito, muito caros.


Nessa altura, já entre o sol perfurado pelas grades da cela, alcançam que o cálculo do risco foi tão errado quanto as negativas que tiravam nos exames de matemática enquanto penaram na escola.


3.10.08

A máfia (socialista), contada às criancinhas


Aos petizes, contem-se histórias que exaltam a excelência da democracia. Contem-se, até, imperativos categóricos que são património genético do pensamento correcto. Uma certa moralidade da época moderna que atravessamos, tutelada pelos generosos artesãos socialistas. Para ir formatando as criancinhas aos poucos: ao baterem à porta da adulta idade, já convencidos que é irrecusável a escolha de socialistas para serem bem governados. Tudo de mansinho, de forma insidiosa, quase sem que se dê conta das ardilosas estratégias, pois antes somos anestesiados para não darmos conta das falcatruas que distorcem a democracia.


Só que há histórias que são rapsódias mafiosas, de como quem detém o poder o manipula para lá se eternizar. Ou de quem manobra no poder para enviesar eleições, mexendo os cordelinhos para prejudicar um autarca de cor diferente e estender o tapete à socialista aspirante à autarquia que, coincidência, se acabou de saber que vai a votos nas próximas eleições. Ele há coincidências notáveis.


É uma história de pormenores indecorosos. Havia planos assinados para obras no metro do Porto. A autarquia, porventura ingénua, porventura até mergulhando em irresponsabilidade, antecipou obras na zona para onde julgava que se iria estender a rede do metro. Foi passando tempo, prazos para decisões do governo ultrapassados, decisões adiadas. Começava a cheirar a esturro. Agora que falta um ano para as eleições autárquicas, e logo agora que parece haver acordo no aparelho socialista quanto ao nome da escolhida para roubar a autarquia do Porto ao partido concorrente, o improvável ministro das obras públicas – o homem que tem o livro de cheques na mão – decidiu e está decidido. O metro vai para outro local da cidade. Às malvas os planos, os acordos assinados, as intenções passadas a palavras e imortalizadas na comunicação social. Para o mundo ser um lugar perfeito para a seita socialista, aos súbditos a acrítica obediência, de preferência no silêncio. Só que o mundo não é todo cor-de-rosa.


Cheira a trabalhinho encomendado. Com alvos certos – o alvo a abater e o alvo a levitar até à sinecura. Isto não é uma manobra leal de combate eleitoral. Não pertence às manobras que condizem com a tão elevada moral que os sacerdotes socialistas não se cansam de apregoar – a sua moral tão boa, a dos outros, inevitavelmente reprovável. Já nem sei se é do ministro das obras públicas ainda trazer consigo o lastro da anterior militância comunista, ou se maquinação do aparelho socialista, a "partidarite" na pujança das suas excrescências. Afinal, as eleições são para ganhar. E há eleições mais apetitosas, nuns sítios mais do que noutros. Como era tão bom que o mapa saído das eleições fosse todo pintado a cor-de-rosa – hão-de pensar com os seus botões (também cor-de-rosa). Como não há mundos perfeitos, já se contentam em apagar de locais emblemáticos (e a segunda cidade do país é-o) manchas incómodas que trajam de outra cor. Sem dar importância aos meios usados para lá colocar uma das suas militantes, manobrando às escondidas para ocultar a tremenda batota que estão a encenar.


Depois pode-se discutir: é aceitável, a batota (que eles nunca hão-de admitir que o é, batota)? No complexo jogo das manobras eleitoralistas, vale tudo – até pisar os esteios da igualdade de condições com que os oponentes vão a votos? É legítimo que um dos concorrentes à autarquia tenha os préstimos do governo, a agenda do governo feita de esperas e compassos e decisões em sintonia com a oportunidade da agenda da aspirante à autarquia que tem a mesma cor-de-rosa? Isto não é distorção das condições de igualdade, e ainda para cima instrumentalizando decisões do governo só com propósitos eleitoralistas? Não interessa a racionalidade da decisão (da relocalização da nova linha do metro): o que importa é tirar o tapete ao autarca actual, lançar sobre ele o opróbrio público. Esta maquinação tresanda a trapaça de cima a baixo. Quem disse que eram os socialistas campeões da transparência e das práticas que sagram a democracia?


Estas aleivosias põem-se a jeito de rótulos pouco edificantes: chame-se-lhe batota, chame-se-lhe comportamento mafioso, o que aprouver. Não houvesse um vasto oceano de diferenças ideológicas a separar-me dessa seita, sobrava o argumento derradeiro para nunca depositar o meu voto na máfia socialista: higiene mental. E vergonha.


(Declaração de interesses final: não conheço o autarca do Porto; não contribuí para a sua eleição; e garanto que não vai ter o meu voto nas eleições do próximo ano.)


2.10.08

No reino dos ogres


De cada vez que Hugo Chávez aparece é a boçalidade em pessoa que desfila diante dos olhos. Posso estar comprometido com a impressão que a personagem me causa. Também é verdade que tanta incontinência verbal traz vantagens: ter um elemento circense na política internacional, é um favor que me fazem. Nem que mais não seja para desanuviar a atmosfera sempre solene, tão carregada, tão cinzenta, de figurões impassíveis a mostrar toda a sua decência e respeitabilidade. O caudilho da Venezuela é todo o contrário daquele retrato. No meio do disparate militante, actua como um elemento terapêutico: por um lado, só para reafirmar convicções (nos antípodas das suas); por outro lado, as suas apatetadas figuras desembotam a boa disposição.


As encenações televisivas da figura nada ficam a dever às feéricas telenovelas produzidas no país onde é ditador. Aquelas camisas vermelhas, de tão garridas que até ofuscam a vista, já sinal distintivo de um certo folclore que encanta o fiel séquito e enternece críticos pela fanfarrona figura que destila ditirâmbicas oratórias. Vejo-o e ouço-o e adivinho boçalidade em pessoa. A ter modos grotescos em banquetes onde amesenda com os amigos que foi granjeando na política internacional – tudo gente que se recomenda, a começar no camarada Fidel de Cuba, passando pelo presidente do Irão, pelo tirano da Bielorrússia, pelo apedeuta Lula da Silva, terminando no predestinado timoneiro da terra lusa. Se há traço comum a todas estas personagens? Lunáticos, todos (porém em dose variável).


Cada instante reservado à prosápia da personagem traz-me um delírio imaginativo. Toda aquela incontinência verbal e mental só pode resultar numa pose que provoque discreto incómodo nos anfitriões que o recebem, contido incómodo, contudo. Aposto que não se ensaia para libertar sonoros arrotos ao cabo de opípara refeição onde se banqueteou como um príncipe, devorando as iguarias, disparando gordurosos perdigotos enquanto come e fala ao mesmo tempo. Às urtigas as madames que ostentam tratos de polé, discretamente chocadas com a boçalidade do que se considera herdeiro de Bolívar. Obrigadas à genuflexão, as senhoras do corpo diplomático deixam o banquete só depois da exigível vassalagem que o tiranete acha merecedora.


Ou imagino-o, em digressão por lugares emblemáticos de braço dado com o congénere anfitrião, este no papel de cicerone, e a audível flatulência a invadir as redondezas. Sem um esgar de vergonha, gabando-se do feito, deixando que os outros corem de vergonha na sua vez. Há-de até soltar laracha para compor o momento, que só nele não é embaraçoso. Deve ser da minha parcialidade, pois não deixo de imaginar Chávez o campeão dos peidos. Lá onde o horizonte ganha luminosidade, consigo discernir uma explicação. A verborreia acintosa do proto-ditador venezuelano tem o odor da flatulência generosa com que presenteia os que o convidam para visitas oficiais. A verborreia que mais parece encontrar inspiração na actividade intestinal que perfuma os lugares por onde passa.


Há declinações imaginárias que pertencem a certas personalidades públicas, parecem seu património genético. O presidente da câmara de Gondomar em sonoros arrotos em almoços oficiais. Um sisudo ex-presidente da república que é o anti-clímax das emoções. O actual presidente da república, que vem ganhando uma espessura de austeridade injectada pela tão elevada solenidade do cargo, e tão beato que é em pessoa o anti-clímax sexual. Como havia Bokassa antropófago. E há em Angola um ditador também esfíngico, de uma frieza cruel, senhor para ordenar torturas com a mesma naturalidade de quem se senta à mesa para um lauto pequeno-almoço enquanto lê sumários técnicos dos consultores que tratam das suas aplicações financeiras. Ou ainda o pipi que governa a França, que muitas horas perderá diante do espelho a contemplar a sua esbelta figura.


Concedo: as imagens que construímos podem ter um tremendo alçapão debaixo dos pés, as pessoas assim retratadas afinal todo o seu contrário. Só que nestes tempos em que quase só se cultiva a imagem, as figuras que se entregam nos braços de uma imagem edificada com precisão cirúrgica não conseguem escapar dos rótulos (fantasiosos ou não) que a turba lhes aplica. Os olhos cerram-se e chegam ao santuário da imaginação, pintando na tela as personagens em todos os detalhes imaginados.


Por que não hão-de as esquerdas ter direito ao seu ogre privativo? Até proponho: um duelo entre a personagem tão vituperada pelas esquerdas, tão achincalhada pela sua enorme boçalidade (Alberto João Jardim), e o ogre da Venezuela.


1.10.08

Os pesarosos lamentadores de si


Algumas almas penadas. Solicitam, compungidos, comiseração alheia. Voam sobre nós em pose sofrida, num interminável coro de lamentações. Não há mais ninguém tão sofredor como eles. Fazem gala da melancólica existência que levam. São carpideiras de si mesmos. Arrastam-se em público imersos nas suas lamentações. Como se quisessem partilhar a sofrida existência com os outros. Fosse essa a maneira de repartir os males interiores com os demais, julgando que as suas dores particulares se esmaecem com a piedade que reclamam dos outros.


Neste mundo estranho, tanto há quem sinta uma irreprimível vontade de enaltecer o ego como há outros que navegam em maré contrária, convencidos que são a alma mais penada com que o mundo travou conhecimento. Tenho para mim: nos dois casos, egos mal resolvidos. Uns, tão inebriados com a sua própria existência, esfregam na cara do mundo como o mundo gostaria de ser tão excelso como eles. Os outros, ao contrário, no pungente auto-retrato que os coloca no papel da gente mais desgraçada que se possa imaginar. No entanto, há aí um paradoxal ensimesmar. Tentam convencer os olhos do mundo que são o pior exemplo que o mundo pode conhecer. Não se cansam de se oferecer nesse altar sacrificial, sucedâneo de kamikazes em prol das virtudes que o mundo deve cultivar. Sabendo que, se essas virtudes cultivar, os lamentadores de serviço são as cobaias que mostram por onde os pés da virtuosa gente não devem pisar.


As almas compungidas teimam em prosseguir a sua particular via-sacra. Na perene auto-lapidação. Convencidos que são o pior exemplo entre a humanidade. Neles, os defeitos sem fim. Se houvesse um campeonato onde rivalizassem as tristezas próprias, cada uma destas carpideiras de si reclamaria o lugar mais alto do pódio. Até nas comoventes descrições dos tormentos que os afligem se encerra um contra-senso: o desnudamento das lamentações, o corrosivo ácido que os consome pelo interior, é a piedosa exibição com laivos de caritativa comiseração que os demais hão-de exibir, sejam eles compassiva gente. A exposição dos males interiores, o seu esbofetear nos outros em constante apiedar interior, um mal legado a quem se destina a procissão das particulares angústias.


Não conseguem ter decoro no exibicionismo das suas particulares aflições. Servem-se dos hábitos instalados: convencionado que está que as gentes devem comiseração aos desgraçados do mundo, empertigam-se nas suas maleitas e irradiam-nas, como se fossem vistosas coisas, aspergindo pétalas tristonhamente negras para que os outros possam ser testemunhas das suas aflições. Para que eles sejam curadores das suas aflições. Sentir-se-ão apaziguados ao saberem que há um séquito que partilha a sua pungência. Que interessa que semeiem entre essa gente um mal-estar interior, o produto da partilha das aflições que aos pesarosos dizem respeito mas que acabam por tocar quem delas padece por contágio.


Estas almas compungidas são como pirómanos. Ateiam fogos em outras almas, ao início não atormentadas – ou, senão, apenas atormentadas pelas suas interiores angústias. As palavras que avivam as feridas em carne viva são como as chamas alimentadas pelo vento indomável que espalha as cinzas pelo arvoredo ressequido. Vítimas inocentes da choradeira infindável que as carpideiras de si gostam de ostentar. Os que se especializam na arte da auto-lamentação chegarão a discernir que contagiam as suas interiores angústias por quem deles se apieda?


Não me quero convencer que a exteriorização das lamentações próprias é um acto de maldade. Prefiro olhar para o gesto como desesperada tentativa de amparar as dores lancinantes que incendeiam as suas veias. O clamor condoído que chega aos ouvidos e aos olhos dos demais será apenas um gesto de desespero: o desalento da sua incapacidade. Só que de tanta comiseração solicitada aos demais, a certa altura a esgotada paciência não admite mais compaixão. Nessa altura, a cansativa ladainha assemelha-se a um insólito voyeurismo de dentro para fora. Uma ladainha que espalha as angústias próprias aos demais. Como se eles tivessem que partilhar essas angústias. Ou fossem culpados pelas aflições que incomodam a existência alheia.