20.11.08

O festim da existência


Os minutos escassos. O pretexto para a sagração da existência. A cada um, o pessoal muro das lamentações onde se expia o tempo desperdiçado em inúteis padecimentos, os padecimentos que levam a lugar algum. O muro onde se despedaça a intensidade do ser, reduzido a uma expressão risível, lamentável, de si. Às voltas com dores ficcionadas, ou às voltas com as enfermidades que se exageram nos seus efeitos, o tempo escapa-se entre os dedos. Volátil, como a poderosa necedade que deixamos que seja apoquentação pessoal. A expressão de uma comatosa existência. Como se passássemos ao de leve, apenas ao de leve, pela existência que nos é dádiva.


E, no fundo, é tudo tão fácil. A celebração da existência – que por o ser, existência, merece que se erga um cálice diário com o néctar que festeja a passagem pela vida. Nesse cálice há-de repousar o mágico néctar, um dia atrás do outro, num prodigioso louvor ao que somos. Sem agradecimentos embrulhados em enigmática metafísica, que a cada um cabe arrepiar o seu caminho. Chegar ao fim do dia, ou acordar pela fresca alvorada, é o festim maior. Pela cabeça passam imagens do hedonismo na sua máxima expressão. Povoadas por intermináveis festanças onde a música é credora de sublime exaltação.


Um exercício terapêutico: olhar em redor e contemplar todos os fragmentos da beleza, mesmo nas coisas mais banais, mesmo nas coisas mais improvavelmente belas. Uma árvore nua no pináculo do Outono. As pessoas que se cruzam na rua na indiferença recíproca. Os carros que passam e emprestam o ruído e a cor sem os quais as cidades não seriam cidades. Os rostos, uns irradiando alegria contagiante, outros cerrados sobre as próprias sobrancelhas, sorumbáticos ou apenas desconfiados. O par de namorados, decerto de há poucos dias, que faz juras de amor enquanto se entrega à volúpia do afecto. A água que corre, langorosa, pelo ribeiro que desce a serrania até se confiar na embocadura do grande rio, já as águas no seu remanso leito. Ou a assombrosa coreografia do mar em dias de avassaladora tempestade, nem que seja nos dias calmos onde o vento se aquieta e semeia o mar chão onde apenas o sol resplandece. Uma criança que cresce todos os dias, como se sentisse o pulsar das veias, como se houvesse mister de observar os membros a crescer centímetro a centímetro, os traços faciais a mudarem com a sucessão dos dias. A magia maior: a mulher grávida, arrastando a custo a barriga proeminente que dentro de dias há-de gerar nova vida.


O metódico niilismo é cansativo ao cabo de uma larga temporada. Nem os alicerces do pessimismo antropológico aguentam as sucessivas, intermináveis folhas do calendário que vão sendo arrancadas. As coisas têm o seu lado belo, as pessoas encerram em si, bem debaixo da espuma fétida, uma pureza decantada. Apetece subir ao palco onde está em cena a magistral partitura que é o festim da vida. O palco onde todas as coisas e pessoas são actores de um festim em uníssono. Onde as diferenças apenas unem. As pessoais desavenças banidas do dicionário, elas sim o veneno maior que liquida a adocicada existência. O palco onde palavras vãs, palavras desesperançadas – "utopia", "ilusório", "ingenuidade" – deixariam de possuir o sentido corrente. Ao som da música, com vozes de poetas a lerem poemas de outros poetas. Até o tempo seria todo "bom tempo". Até a chuva impiedosa, outrora melancólica, sinal do "mau tempo" que nunca se percebeu porque carregou com o adjectivo que desqualifica. E as feras seriam criaturas amansadas. Da maldade, apenas um vestígio arqueológico.


O festim em exaltação do milagre da existência. Pois ela é tão frágil, sempre um fio ténue a separá-la da sua negação. Eis a razão maior para o festim contínuo. Não sei onde encontrar aquele palco prodigioso onde tudo se consome na sua interminável beleza. Desconfio que esse palco habita encerrado algures numa catacumba interior, algures aprisionado sem se conseguir deliciar com a luz do sol ou a apatia de um céu carregado de plúmbeas nuvens.


Mas sei: que quero descobrir o mapa que segreda a rota até a esse remoto lugar.


19.11.08

Cores desmaiadas


Naquele lugar as cores eram baças. Na sua triste tonalidade desmaiada, parecia que todas as coisas se esvaiam na sua fragilidade, tão perto de serem levadas pela fúria dos elementos a contracenarem com as desprotegidas coisas. Os vendavais eram o agreste elemento que semeava a lividez das cores. As pessoas, todas as pessoas, caminhavam lentas pelas ruas, de rosto fechado, embebidas numa palidez confrangedora. Pareciam autómatos, inertes de sensações.


Contudo, havia nas cores desmaiadas uma beleza indizível, apenas uma beleza que se sentia a gotejar. Havia ali rejeição das cores garridas. Um metódico hino à discreta forma de ser. É que as garridas cores feriam a vista. Era como se fossem um farol incandescente, que de tanta e intensa luz irradiar, só conseguia anestesiar as pessoas. Logo, um farol incendiário. Parecia que naquele lugar as pessoas há muito tinham aprendido a lição: as cores cintilantes, na sua embriaguez, são um terrível engodo que distrai as gentes para as supérfluas coisas da existência. A coreografia que é viver dispensa o folclore das cores engalanadas.


Até à noite só havia meia-luz. A suave iluminação misturava-se com a mal disfarçada penumbra que encobria o horizonte. À distância, tudo o que a vista alcançava eram vultos – vultos das pessoas em redor, vultos das coisas nas suas formas distorcidas. Pela noite, as cores embaciadas retiravam mais nitidez às coisas, as cores ainda mais desmaiadas que à luz do dia. Era como se estivesse por dentro de um filme a preto e branco, tão discretas as cores entarameladas na escuridão nocturna. E, no entanto, havia um encantamento que dispensava explicação. Apenas a constatação do encantamento em redor. Pelo insólito das cores a que os olhos estavam desabituados.


Os escassos dias naquele lugar foram consumidos com a coreografia das cores desmaiadas na sua inusitada expressão. Nos escassos dias, os sentidos pareciam anestesiados pelas mortiças cores que tomavam conta das coisas e das pessoas. O corpo entregava-se ao exercício balsâmico, como se as cores desfalecidas fossem terapia para domar os sentidos dantes desenfreados. Até a atmosfera se compunha a preceito, a névoa matinal que descia numa fina camada até repousar no rio que fazia do vale o seu leito. A névoa que lentamente se acamava nas águas mansas do rio, demorando-se nelas enquanto não se esbatia no sol que trepava pelos contrafortes da manhã.


As ruas estreitas, as casas feitas com o granito secular, as pedras da desconfortável calçada; o cenário que recebia as cores discretas que dominavam aquele lugar. Dir-se-ia, uma labareda de melancolia vertida nas desmaiadas cores que aquele lugar escolhera como divisa. Porém, a apreciação demorada desfazia a errada percepção. Sobrepunha-se a placidez daquele lugar, onde até o tempo parecia fluir com uma lentidão que desmentia a marcha dos ponteiros dos relógios. Às vezes, parecia que o tempo se havia eclipsado detrás das pálidas cores que compunham a paisagem. Essa era a sua beleza, imersa na sensação da intemporalidade.


Ao fim dos escassos dias, o corpo sentia uma irreprimível pulsão para abandonar aquele lugar. Uma paradoxal sensação: acertado o passo com o sortilégio do lugar e das suas mortiças cores, o apelo para partir em demanda de outros sítios, dos desconhecidos sítios por desbravar. Não fosse a beleza das desmaiadas cores consumir-se no cansaço da acomodação. Não fosse a habituação a elas sinalizar o fim do encantamento daquele lugar e das suas cores desfalecidas.


Já errava o corpo, sem destino marcado, e ainda vogavam as memórias daquele lugar que entronizava as cores desmaiadas. Por momentos, sentia o chamamento para regressar às ruas labirínticas onde todas as pessoas trajavam o rosto fechado. Por momentos, todos os lugares entretanto visitados pareciam um trono de aridez, mesmo aqueles sagrados pelos roteiros do turismo, notabilizados pelo desaguar diário de hordas de turistas em demanda dos encantos oficializados. Sentia ser aquele o ser idílico lugar. Resistiu ao chamamento, porém. Temia que no retorno se diluísse a indizível beleza que o extasiara da outra vez.


Há lugares que só se visitam uma vez. Por mais que as memórias convoquem o regresso, a resistência ao retorno é a terapêutica decisão que impede a banalização do encantamento.


18.11.08

A valsa dos vesgos



Aprende-se muito com o sociólogo Boaventura Sousa Santos. Sobretudo quando produz doutrina nos jornais – pois não acredito que o Boaventura Sousa Santos académico, que se gaba de ser referência para um exército de seguidores aqui e além fronteiras, escorregue para a ciência ideologicamente engajada como o faz quando produz opinião militantemente enviesada nas páginas dos jornais. Não estou a sugerir que o eminente sociólogo não tenha o direito de calcorrear as veredas de uma qualquer ideologia. O que me causa estranheza é servir-se da aura de reputado académico internacional para doutrinar o lastro ideológico que carrega consigo.


Boaventura Sousa Santos, que vem das franjas da extrema-esquerda que seduz tanta burguesia urbana, ofereceu prosa no Público que escorre mais um fragmento da esperança mundial no novo presidente dos Estados Unidos. É surpreendente como alguém que milita na extrema-esquerda caviar consegue dar à estampa um naco de prosa tão encomiástico do novo messias. Outro guru da extrema-esquerda caviar, o fradesco Louçã, retorquiu, exasperado, a quem lhe perguntou se Obama era de esquerda, que naquela terra hedionda não há nada que se assemelhe a "esquerda" (àquilo que Louçã considera "esquerda"). Em abono de Boaventura Sousa Santos, a flexibilidade intelectual de admitir que Obama representa uma qualquer esperança que rima com mudança.


O pior está na argumentação que "Boa" – assim é carinhosamente tratado pelo séquito que o admira no estrangeiro – desfila na peça de doutrinação das massas nas páginas do Público. Começa por asseverar que a eleição de Obama "é um acontecimento de global e transcendente importância para todos os que acreditam na possibilidade de um mundo melhor", o que só tem par nos últimos quinze anos em dois outros acontecimentos: "a eleição de Nelson Mandela como Presidente da África do Sul em 1994 e os quinze milhões de cidadãos que, por todo o mundo, saíram à rua em 15 de Fevereiro de 2003 para protestar contra a invasão do Iraque."


Não é inocente ter fixado os últimos quinze anos como prazo de análise. Se recuasse mais quatro anos teria que identificar outro acontecimento transcendente para muitos que acreditavam na possibilidade de um mundo melhor: a queda do muro de Berlim. Percebe-se a delimitação temporal: a queda do muro de Berlim não foi conveniente para as convicções ideológicas de Boaventura Sousa Santos. Não será por acaso: durante o fim-de-semana decorreu em Lisboa um congresso sobre Marx, uma celebração quase religiosa de crentes que aproveitam a profunda crise financeira, que crêem ser um sinal da falência do capitalismo, para resgatar Marx do túmulo. Se "Boa" incluísse a queda do muro de Berlim nos tais acontecimentos com transcendência global cometia uma traição ao seu companheiro de lutas, Fernando Rosas, um dos principais organizadores daquele congresso. E assim fica provado como há quem precise de colocar mais dioptrias nas lentes, para conseguir alcançar além dos limitados horizontes que a desonestidade intelectual fixa.


Mais à frente, Boaventura Sousa Santos aproveita a cor de pele do vencedor das eleições nos Estados Unidos para repisar uma tecla que lhe é muito querida: "(n)os últimos quinze anos, a África mostra-se ao mundo nos ombros destes dois gigantes e assim responde Basta! aos insultos do Banco Mundial e do FMI, para quem a África é o continente infeliz onde o capitalismo global decidiu depositar multidões de seres humanos considerados descartáveis". Um cliché que excita os seguidores do guru Boaventura, pois a repulsa do nefando capitalismo obriga a destilar argumentos de reprovação que misturam irracionalidade com o mais puro ódio. Não vale a pena, nesta ocasião, discutir os malévolos efeitos do FMI e do Banco Mundial, entendidos como factos consumados pelos que acreditam, acriticamente, nas prédicas de "Boa". Limito-me a apreciar a parte final da certeza assertiva: a África é o caixote do lixo escolhido pelos malfeitores do capitalismo. Sem provas, a não ser a sua autoridade intelectual, estas verdades irrefutáveis cobrem-se com um manto religioso – o mesmo manto que explica a crença em dogmas que de racional nada possuem.


A derradeira pérola fica guardada para uma inominável comparação que se julgava enterrada no tempo passado. Boaventura Sousa Santos é mais um a comparar os atentados às torres gémeas com o sofrimento que os pobres deste mundo padecem, mergulhados numa obscena miséria. O sociólogo de referência assegura que "outras populações do mundo sofrem anualmente ataques tão injustos, tão criminosos e muitas vezes mais devastadores do que o ataque às Torres Gémeas, sem que isso mereça mais do que uma pequena referência noticiosa." Porventura Boaventura regressou a esta patética retórica depois do laureado Saramago ter dito, há umas semanas, que a crise financeira tem um efeito devastador nos mais desprotegidos e que, por esse motivo, os capitalistas são acusados de genocídio. Vale a pena comentar o dislate? Não.


Retomo o início deste texto: aprendo muito com o guru Boaventura Sousa Santos. De cada vez que o leio, fico enternecido com a retórica que distorce factos para os colocar a jeito das conclusões convenientes à afirmação das crenças ideológicas. Aprendo: a acreditar, e cada vez mais, no contrário do que é doutrinado por Boaventura Sousa Santos. Nisto, "Boa" é um pedagogo por excelência.


17.11.08

Ocaso épico


Entregar o corpo às balas, dizem com indisfarçável orgulho. A vaidade de serem carne para canhão em causas de que são peões. Todas as causas com os seus idiotas úteis.


É pueril o entusiasmo dos que concebem morrer por algo, ou por outros, ou por uma causa bem identificada. Acreditam na desmaterialização do ser. Em delirantes exercícios prospectivos em que ensaiam o próprio epitáfio, imaginam-se heróis de muitos, a morte a levar essa heroicidade que se consome num instante. O heroísmo lacrado com eles, na pedra tumular. A cada um o direito inalienável de fazer com a vida o que bem entender, que fique registado. Contra isso, apenas a pessoal incapacidade para ser entregue em sacrifício num altar onde os outros se deleitam.


Dirão os projectados auto-heróis: o consolo maior de se saber elogiado na despedida da vida, com a elegia prolongada por tempos imemoriais, a cada dia que alguém vier recordar o acto de desapego individual de quem se sacrificou em nome de muitos. O desassombro da generosidade atinge aí o seu auge. Há maneira maior de provar o desprendimento de si?


Lirismo inconsequente, apenas, diria. A antecipação do epitáfio debruado em homéricos poemas não passa de um sonâmbulo narcisismo. Não acredito em tanto desprendimento. A generosidade em nome dos outros, mesmo quando vem selada com a definitiva morte, mergulha nas masmorras do ensimesmamento. É a sede da glória futura, eterna até. O acto tresloucado de quem se atira de peito feito abraçando a granada que se despedaça no estilhaçado corpo é ainda motivo para glorificação. De todos os sacerdotes que, pelo seu punho, poetizam o feito. À sua maneira arregimentam o potencial exército de heróis vindouros. Daqueles que ficam inebriados pela detalhada descrição da fátua glória, de permeio com pormenores fantasiados que exageram a proeza.


E, no entanto, olho para as exaltadas descrições das façanhas debruadas pelo ouro da bravura e não consigo extrair uma gota de entusiasmo sequer. Todos os peões que aceitam, impassíveis, a condição de heróis em salvação alheia são figurantes que aspiram a um papel maior. Querem deixar de ser figurantes, apenas um a mais na anónima massa que pastoreia os indiferenciados campos da existência. A prova do turvado narcisismo, ficarem conhecidos na morte pelo acto derradeiro que lhes decepou a vida. Tão épicos e, contudo, imersos uma aviltante ofensa ao louvor maior que é a vida.


O ocaso, como o que todos os dias leva o sol para além do horizonte, é inspiração de arrebatadas composições poéticas. Embriagante a beleza das cores que se transfiguram com os minutos no seu esvaimento, o ingrediente das odes que empunham a veia épica do sol que se esconde. Mas do sol nunca derrotado, logo umas horas depois revigorado na rotineira sucessão dos dias. Os que concebem entregar o peito às balas usam a metáfora do ocaso do sol como inspiração. Ficam à espera que escrevinhadores tomem o seu heroísmo como fonte onde a poética inspiração encontra nutriente. Babam-se, antes do tempo, a imaginar o epitáfio que os letrados oferecem em sagração da epopeia pessoal.


Esta é uma pérfida indústria. Fazer arte com a celebração da morte, nem que seja da morte enfeitada em épicas vestes, é indecoroso. Só deveria haver arte na celebração da entusiasmante existência. E nem que um persistente eco trine uma razão insondável, nas loas ao desapego do herói que, com a sua morte, salvou tantas vidas, não entendo como disso se faz celebração. Sobra apenas um herói que prefere ficar recordado nos livros das memórias pelo desvairado acto. Deixou de ser figurante logo quando se despedia da vida. Porventura, uma existência monótona. E uma existência sem qualquer laivo de orgulho. Estes heróis entram para a eternidade não pelo que souberam fazer em vida, apenas pelo derradeiro acto que terminou com a sua existência.


Todos os fins são tristes. Mesmo os ocasos que se julgam épicos.


14.11.08

A notícia que gostaria de ler


Há dias, alguém se lembrou de passar os sonhos particulares para uma versão forjada do New York Times. Fizeram uma tiragem de mais de um milhão de exemplares e distribuíram o jornal gratuitamente nas ruas. As pessoas, desprevenidas porque à primeira vista parecia a versão verdadeira do jornal, ficavam boquiabertas com as notícias, todas belas notícias (para certos sectores, bem entendido). Eu também gostava de ler notícias idílicas num qualquer jornal. Mesmo que se tratasse da extensão dos sonhos, ou de pessoais desejos, para as páginas de um imaginado jornal. Como esta notícia, com o seguinte bombástico título: "Sócrates não se recandidata a primeiro-ministro". O corpo da notícia seria o que segue.


"Ninguém o esperava. A conferência de imprensa foi marcada de surpresa, à última da hora, sem indicação do assunto que trazia apenas o rótulo de urgência. Nem sequer houve tempo para as habituais especulações entre comentadores e jornalistas. No meio da azáfama, só houve tempo para meter ao caminho em direcção do Largo do Rato.


Sentia-se o ar tenso na sede dos socialistas. Os funcionários, misturados com figuras gradas do PS, mostravam um semblante carregado. Nos instantes em que foi possível abordar alguns funcionários e figuras gradas do PS, a tarefa de extorquir informação sobre o tema da conferência de imprensa esbarrava no mutismo. Ao longe, uma secretária já idosa deixou escapar uma lágrima furtiva. O mistério adensava-se na exacta medida daquela lágrima, como se ela fosse uma inconfidência sem segredo algum revelar.


Com cinco minutos de atraso, o primeiro-ministro – ou seria o secretário-geral do PS? – entrou na sala. Pose grave e corpo tenso, situou-se no palanque e esperou que os jornalistas se acomodassem. Notava-se algum cansaço, tristeza até. Ao lado, uma jornalista que costuma acompanhar as visitas oficiais notou algo que não era usual: as mãos trémulas contrastavam com a habitual dose de confiança que lhe permitia abordar qualquer acontecimento, mesmo os mais solenes, com uma serenidade impressionante. Começou a discursar. Disse que ia fazer uma curta declaração e que depois se punha à disposição das perguntas dos jornalistas.


Não demorou a revelar o segredo. À segunda frase, informou que tinha tomado uma difícil, mas contudo irrecusável, decisão: não se ia recandidatar a primeiro-ministro. Andava a ponderar no assunto há alguns meses. Tinha acumulado muito cansaço. Soltou uma inusitada confissão pessoal: olhava-se ao espelho, todas as manhãs, e os abundantes cabelos brancos eram o sinal da extenuação de governar um país. Um ingrato país. Protestou a sua indignação por haver tanta gente incapaz de lhe devolver o mérito que ele julgava ser a recompensa merecida pelos prestimosos serviços à pátria. Sentia-se fatigado da useira ingratidão indígena.


Atacou a comunicação social, acusando-a de fazer o jogo das muitas e desgarradas oposições. Os passos desacertados tinham prova nas sondagens que colocavam o PS na senda da maioria absoluta ou muito perto de lá chegar. Se as sondagens o continuavam a premiar, como entender que na comunicação social destilasse tanta crítica, algum ódio até, à sua governação? Teve o desassombro de admitir que tolera mal a crítica. Defeito pessoal, disse, num tardio assomo de político com rosto humano. E mais disse: que tem o direito de se sentir magoado pelas críticas, pois elas revelam má-fé, incompreensão das políticas postas em marcha, alguma distorção que enviesa a análise. Atirou-se à conjuntura internacional, que com a passagem do tempo se foi afundando numa crise ímpar que dificultava a vida ao leme da nação. Nas entrelinhas pôde-se entender a amargura de um primeiro-ministro que sentia a conjuntura internacional virada contra si, como se fosse uma terrível conspiração de forças invisíveis no palco internacional.


Rematou a comunicação: com modéstia – ou seria imodéstia? – percebeu que o povo não o merece. Largos sectores da sociedade confundiam crítica pessoal com incapacidade para ajuizar com frieza as medidas do governo que liderava. Era um homem doído que ali se expunha diante de uma plateia de jornalistas inerte, lívida, sem reacção. Não guardou segredo do que ia fazer no futuro. Ainda era novo para se reformar, tantas as energias e a percepção das inigualáveis capacidades intelectuais que não mereciam ser desperdiçadas numa retirada de cena.


Das andanças dos últimos tempos, conseguira discernir a sua vocação: passaria a ser embaixador da empresa J. P. Sá Couto. Andaria pelas sete partidas do mundo a divulgar as incontáveis virtudes do computador portátil Magalhães, a aspergir a literacia informática entre as criancinhas e os menos jovens. O ensejo para conhecer o mundo inteiro sem carregar atrás de si uma comitiva de voyeurs jornalistas. A oportunidade para deixar a sua impressão digital no futuro ainda por fazer, ele que tantas vezes havia proclamado que andava a fazer história.


Dobrou o papel onde tinha escrevinhado o discurso e, fazendo tábua rasa da promessa do início da conferência de imprensa, abandonou a sala deixando os boquiabertos jornalistas sem hipótese de lhe dirigirem perguntas."


Exultaria se me fosse dado o privilégio de ler esta notícia. Mas não me iludia. Na retaguarda do amargurado primeiro-ministro que ali se despedia, o delfim (António Costa) era o rosto de mais do mesmo.


13.11.08

E se os padres e as freiras pudessem procriar?


Um bispo a perorar: se caminhamos para uma crise demográfica, por que se aceita o aborto e todo um relativismo ético que faz soçobrar a família como "célula nuclear"?


Não digo que os senhores padres e bispos e por aí acima na hierarquia eclesiástica se calem perante os problemas da sociedade contemporânea. A liberdade de expressão merece todas as homenagens, até o tempo de antena aos dislates que os representantes da igreja repetem sem cessar sempre que oferecem oratória sobre assuntos que a sua forma de vida desaconselha opinião, por desconhecimento de causa. Mete-me confusão que se armem em cavaleiros que vigiam os bons costumes, como se neles houvesse uma aura especial que permite sentenciar se os caminhos pisados pelo rebanho são certeiros ou um equívoco. É por isso que lhes causa transtorno o odioso "relativismo ético" – ou qualquer espécie de relativismo: é nele que esbarram as certezas milimétricas que são património genético da doutrina católica.


Há associações de ideias convenientes para os dogmas da igreja católica, mas que soam a pérfida inteligência a quem está de fora. Quando o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é também arcebispo de Braga, protesta a sua perplexidade pela abertura da lei ao aborto logo agora que se anunciam nuvens negras no plano demográfico, sinto-me diante de uma manifestação de terrorismo mental. A igreja tem o direito de se opor ao aborto. O que já passa das marcas é aproveitar a diminuição de nascimentos, que ameaça a consistência demográfica, para a enésima exibição contra o aborto. Apetece perguntar pela honestidade intelectual do arcebispo: indague, junto das estatísticas, se é pelo aumento dos abortos (dos que agora têm cobertura da lei e dos que sempre se fizeram às escondidas da lei) que se explica o recuo na taxa de natalidade. Nisto, nada o diferencia de um político demagógico: também na igreja há quem tenha tirado doutoramento em soundbytes cheios de inanidade.


A visão da sexualidade com a chancela da igreja é por demais conhecida. Se fôssemos todos obrigados a ser católicos, e devotos, daqueles que seguem acriticamente os mandamentos da hierarquia eclesiástica, pecaríamos menos ao sermos menos dependentes de sexo. É a visão de um mundo asséptico, que tanto agrada aos sacerdotes que teimam em mandar palpites sobre a vida íntima de cada crente (e dos não crentes também). Se o mundo fosse perfeito – um lugar exposto ao totalitarismo da igreja – seria pecado mortal desperdiçar um espermatozóide que fosse.


O catolicismo, metido no seu arcaísmo, continua a conviver mal com o livre arbítrio de cada indivíduo. A igreja gostaria de todos arrepanhar na coutada de ovelhas não tresmalhadas, e muito obedientes, que seguem os mandamentos porque eles são ditados pelos intocáveis arquitectos da doutrina católica. Aquilo que o catolicismo teima em não entender é a liberdade individual. Para um ateu, este é indubitavelmente o bem maior, maior do que a fé numa qualquer entidade divina. Por isso é que a igreja católica fica no limiar da apoplexia quando dá de caras com visões de vida que se distanciam das que são por ela preconizadas (a que chama, por conveniência, "relativismo moral"). Ou quando esbarra no, a seu ver, censurável hedonismo.


Tudo isto se articula num documentário de cariz idêntico que me chegou ao conhecimento por mão amiga: "Inverno Demográfico". Num caso como noutro, o mesmo dantesco diagnóstico é pretexto para soluções que liquidam o livre arbítrio de cada um. Todos devemos constituir família. Todos devemos sagrá-la. Cada um se deve mentalizar do imperativo que é o contributo pessoal para derrotar o inverno demográfico que uns e outros anunciam, procriando e de forma abundante. Ao que consta, é um dever inerente à participação de cada um na sociedade global. Às malvas a sensibilidade de cada um (pois há quem não queira constituir família). E às malvas a ausente predisposição para deixar numerosa prole (pois há quem esteja no seu direito de não deixar descendência).


Como sempre me causaram espécie os "imperativos categóricos" destilados por gente muito senhora das suas certezas serem as certezas de toda a gente, digo: que os padres e freiras (em idade pré-andropausa e pré-menopausa) se alistem no rol dos que contribuem para revigorar uma ambicionada primavera demográfica. Que sejam eles a dar o exemplo. Com uma vantagem adicional: passariam a falar com conhecimento de causa sempre que perorassem sobre a sexualidade dos outros. Se o mal é tanto, deve justificar um desvio aos arcaicos dogmas católicos.


12.11.08

Moço de recados


Há aqueles personagens servis, de uma dedicação ímpar ao amo, educados para demoradas genuflexões que homenageiam o endeusado amo. São a carne para canhão, a tropa fandanga que vai para a linha da frente oferecer o peito às balas. A gratidão obriga a entregarem-se cegamente a uma causa, a uma causa qualquer que explica a militância. A lembrança de quem lhes ofereceu a sinecura traz a gratidão à tona. E a gratidão torna imperativa a dedicação extrema, afinal a doce factura que têm que pagar. Nem que sejam os idiotas úteis quando fazem tristes figuras.


Assim anda, por estes dias, o governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio. Desde que entrámos para a união económica e monetária tivemos que ajustar o sistema político para destruir as bases da obscura cumplicidade entre o banco central e as autoridades políticas. Até então, o banco central era mais um instrumento de mão para os desejos do momento de cada governo. Muitas vezes, apenas outro ingrediente para a gestão do ciclo eleitoral, outro artefacto usado com precisão cirúrgica para a reeleição do governo do momento.


Os dias dessa perversa cumplicidade terminaram com a entrada para a união económica e monetária. Os bancos centrais passaram a gozar de total independência em relação aos políticos. Foi a sua carta de alforria, para que pudessem olhar às questões técnicas (política monetária) sem fazerem fretes aos políticos. Frequentemente, esses fretes eram convenientes ao governo do momento mas aziagos para os interesses dos países. Os especialistas do assunto destacam a solidariedade entre os membros dos bancos centrais, como se fossem uma corporação que soube cimentar laços internos para se defender das intrusões a que os políticos estavam habituados. Todos estes anos de euro e de independência da política monetária provam como os bancos centrais – com o Banco Central Europeu à cabeça – souberam resistir às insinuações em jeito de pressão que os governos foram exercendo. Conseguiram manter-se num plano diferente dos políticos, a certidão de independência que ostentam com orgulho.


Lá na extremidade ocidental da Europa mora a lamentável excepção. O governador do banco central desse pequeno país tem feito aparições públicas de onde escorre uma pestilenta cumplicidade com o governo instalado. Como está convencionado que não se questiona a competência técnica da figura, ai de quem insinuar que ele anda a fazer favores aos correligionários que estão no governo. Já tinha ficado mal no retrato quando lhe encomendaram um relatório sobre as finanças públicas, era o incauto Santana Lopes primeiro-ministro. Aproveitando a desorientação geral desse governo de triste memória, o governador do Banco de Portugal ofereceu um panorama desastroso. Houve quem visse nesse exercício um trabalho encomendado: o devastador diagnóstico caucionava o funeral do governo de então, abrindo de par em par as portas ao outro partido do bloco central, por coincidência o partido em que o governador do Banco de Portugal milita e de que foi líder há anos.


De um momento para o outro, quase como se fosse por um efeito de magia, a economia livrou-se de todas as maleitas e passou a exibir uma surpreendente saúde. Foi o governador do banco central que o assegurou quando o actual timoneiro tomou as rédeas do poder e os podres anteriores foram extirpados. Ocasionalmente, lá vinha Constâncio a público prestar contas do desempenho das finanças públicas, surgindo como penhor do notável desempenho do governo dos seus correligionários de facção. Sempre que o fazia, ficava mal na fotografia. Os seus colegas de outros bancos centrais não se prestavam a essa triste figura. Os outros levavam a sério a independência em relação aos políticos. Constâncio preferia consagrar as fidelidades partidárias.


No recente episódio da nacionalização do BPN, o Banco de Portugal sai chamuscado, ainda que o seu governador diga uma e outra vez – como quem repete à exaustão uma mentira na esperança que ela se transforme em verdade – que os malfeitores que geriam aquele banco conseguiram enganar o banco central. O pior é Constâncio surgir como o homem de mão do governo na lamentável nacionalização do BPN. Ele comparece em conferências de imprensa ao lado do ministro das finanças, dando razão a quem o acusa de se prestar a uma cumplicidade que não é compatível com o estatuto de independência que dele se esperava. Ele vai ao parlamento e, perante as interrogações dos deputados, só se nota total sintonia com o partido do governo (que é também o seu).


Triste figura a de um governador de um banco central que se esquece que está obrigado a ser independente dos políticos. O que é mais lamentável é a imagem que transpira deste episódio: é o próprio Constâncio que se oferece aos correligionários do governo, num servilismo que inverte o sentido da dependência política entre governos e bancos centrais. Neste caso, é o governador do banco central que se põe de cócoras diante das conveniências do governo. A solidariedade partidária fala mais alto que as responsabilidades institucionais. Depois estranha que haja um coro que protesta a sua demissão.


11.11.08

O engenheiro da duvidosa estética louva Benidorm



Outro engenheiro. Este é engenheiro sem aspas. Há dias informou a comunidade onde estou que um determinado software técnico "nasceu da necessidade de projectar os inúmeros e grandiosos edifícios da fabulosa estância balnear Espanhola que tem por nome Benidorm".


Começo a entender certos abcessos arquitectónicos que enxameiam as cidades. Quem conhece Benidorm e outras estâncias balneares de estilo idêntico sabe que se trata de localidades onde o caos urbanístico é a nota dominante. Só conheço Benidorm de passagem. Num certo ano passava férias a cerca de duzentos quilómetros dessa "fabulosa estância balnear Espanhola (sic) que tem por nome (sic) Benidorm". A pessoa com quem passava férias quis satisfazer a curiosidade: afinal havia tanta gente que passava férias em Benidorm. Lá fomos. Não estivemos lá mais que um par de horas, tal a péssima impressão, posso afirmar sem exagerar, a claustrofobia que senti. Por coincidência ou não, até o almoço foi a pior experiência gastronómica que guardo na memória.


Benidorm é um pesadelo urbanístico. Os "grandiosos edifícios", só se o forem pela altura. O tal engenheiro deve ter um problema com a etimologia das palavras, só pode ser. É que uma coisa grande nem sempre é grandiosa. O que abunda em Benidorm são torres enormes que irrompem pelas alturas. Encavalitam-se umas nas outras, ocupando as vistas. Anda-se nas ruas e tudo o que a vista alcança é a tralha de prédios que trepam pelo céu acima. Tem uma vantagem: naquelas ruas faz sempre sombra, o que no tórrido Verão mediterrânico é muito agradável.


Já sei, já aqui o preconizei, a estética é terreno por excelência da subjectividade. Ainda assim, ao ler aquela assombrosa informação do engenheiro que sempre tive por penhor da duvidosa estética fiquei a entender melhor os abortos urbanísticos que por aí há. O mau gosto da engenharia civil não é exclusivo nacional. Do outro lado da fronteira também fez escola nos ateliers. Deste lado, há quem fique embevecido com os horrores urbanísticos em que se transformaram algumas estâncias de férias mais conhecidas de Espanha. Devem ser os mesmos que têm postais de Armação de Pêra pendurados nas paredes de casa, ajoelhando-se todas as noites, antes de se deitarem, em contemplação da beleza que se salienta daquele medonho emaranhado de edifícios. Ou então confundem os planos e misturam as idílicas memórias de uma, adivinho, lua-de-mel passada em Benidorm, para concluírem que se trata de uma "fabulosa estância balnear".


Será defeito profissional, ou defeito de formação: estes engenheiros cultores da duvidosa estética em loas ao betão armado. No seu sincretismo, os adoradores do betão armado concebem o labirinto de prédios em altura como expoente máximo da sua intervenção na sociedade. Deixam uma marca indelével: assim como assim, as implosões de prédios não acontecem todos os dias. Quando nasce mais uma aberração destas, costuma ficar para todo o sempre. É mais um ingrediente a juntar-se ao tremendo abcesso que são algumas das cidades, sobretudo quando a pressão demográfica e o êxodo dos campos empurra as cidades para fora dos seus limites ancestrais. É então que germinam os arrabaldes que são abjecções urbanísticas, agressões visuais, poluição arquitectónica.


Os engenheiros que as conceberam deixam escola. Engenheiros mais novos são os cultores desta escola que é penhora de uma relapsa anti-estética. É lamentável: os mais novos não são capazes de interiorizar os erros dos antecessores. Em vez disso, insistem no erro. Amplificam-no. São os sabotadores do bem viver nas cidades. Adoram cidades caóticas, caixotes onde se acantonam as pessoas, arrumadas em alcantilados edifícios que se atropelam uns aos outros ao irromperem céu acima. É a orgia do betão armado. A gente que ali vive sitiada só vê betão armado à sua volta. Tenho para mim que os engenheiros que assim conceberam as cidades são potenciais voyeurs da vizinhança. E querem que todos os habitantes do emaranhado de prédios das cidades babilónicas e desordenadas que saem dos seus estiradores alegremente partilhem os interiores das suas casas, das suas vidas, com os vizinhos em redor. Não há melhor expressão de vida em comunidade. Se calhar, estes engenheiros, para além do estigma da estética duvidosa, são cultores do comunitarismo.


Deve ser um diálogo de surdos, este entre os engenheiros penhores da duvidosa estética e os arquitectos.


10.11.08

Às portas da sobrevivência, apenas


Dizias: todo o tempo de uma vida é a contrafacção do que somos. Julgamos ser e, no fim da linha, a imagem projectada de dentro para fora, que depois se amplifica na cortina de espelhos, é uma imagem que regressa distorcida. Andamos o tempo todo em demandas falazes. Quando damos conta da falácia do pretérito, novo desengano: a certeza que chegou o tempo de ser diferente faz coincidir a descoberta com o código genético do eu, um tremendo erro de perspectiva. A renovação da existência, apenas o erro reiterado.


E dizias: afinal não vivemos. A existência gasta-se nas inúteis demandas que se agigantam no papel de magníficos projectos. A vida consome-se em fragmentos nebulosos, um amontoado de ingredientes dispersos, um cozinhado intragável, sem sentido. As sombrias máscaras que detectas por todo o lado, o sinal excruciante do terrível engodo da existência. O teu pessimismo traz a marca fatal: apenas afloramos a vida que nos pertence. Arrastamos um erro do tamanho do mundo. Quem julgar que vive, que se desengane: apenas sobrevive.


Contraponho: em pessimismo, levas a palma aos demónios apoquentados pelo cepticismo ímpar. Exageras no diagnóstico? As entranhas calcinadas por um punhado de malfeitorias alheias, por sua vez nutriente da acidez desalmada? Ou até a ilusão da própria teoria: quem te diz que o jogo de luzes que ofusca a real existência não é depurado por outra cortina que subtrai discernimento?


Implacável no diagnóstico, embarcas num inútil braço de ferro para fazer valer o que já determinaste ser a razão. Ao menos, a tua razão. Homérica razão que não admite interrogações que lhe façam vacilar os alicerces. Não admites que a tua tese seja a ilusão da ilusão. A teimosia não te deixa capaz de distinguir os passos irracionais. Mas teimas: que só os desassombrados conseguem contemplar a mera sobrevivência de todos os mortais, eles todos anestesiados pela existência parcial, errando pelos caminhos paralelos onde decorrem as vidas. O desassombro não admite que em cima da conveniente teoria venha outra contar que a colectiva alucinação escapa a uma anestesia maior que a deixa reduzida a escombros. Por cima da ilusão reivindicada outra virá, com letal capacidade destrutiva.


Pergunto-te pelas coisas belas, se existem ou são uma farsa, o produto da imaginação que deixa a existência em intransigente analgesia. Pergunto-te pela bondade, nem que seja a bondade compassada pelo interesse, ditada pelo apaziguamento dos seus fautores. Dizes que a cortina de espelhos que deforma o lugar e o modo em que somos é uma tenaz impiedosa, a substância que adultera coisas e pessoas e sentimentos. Nada é genuíno. Por entre o caos reinante, impossível saber onde está a beleza, a bondade, onde estão as pessoas que merecem encantamento. Irredutível, questionas até a existência da beleza, da bondade, de pessoas ungidas pelo encantamento.


Afogueado, dilacerado pelas dores existenciais que te incendeiam as veias, sentencias: a vida é uma toleima. Um desperdício de tempo. Uma patranha que nos servem à nascença e só se recompõe com a morte. Imperturbável, questionas a existência da humanidade. Todas as pessoas e uma singular contrafacção de gente, apenas uma indiferenciada turba amansada por sacerdotes maiores que soerguem a cabeça no firmamento para apascentarem a obediente turba. Lamentas, em jeito de pergunta: é isto, viver? De mim, nem todas as consumições juntas deixam espaço à resposta. Enquanto olhavas, impassível, com o olhar gelidamente fixado na ausência do distante horizonte, deixei-te o meu silêncio. Não era concordância lacrada pelo silêncio. A pergunta, na sua aleivosia, não carecia resposta.


Aqueles instantes de silêncio pareciam enegrecidos pela eternidade. Não havia palavras que merecessem ser ditas. A interrogação ficou a esvoaçar, tal como um balão levitando no ar despojado de vento. Os pensamentos vogaram para lugar diferente, em homenagem à pessoal sagração da vida que merece ser exaurida em cada segundo que durar. Vi-te cabisbaixo, sem coragem para responder à pergunta que já continha em si a resposta. Pressenti os olhos marejados, inundados por uma imensa tristeza. E, contudo, uma irresistível paralisia apoderou-se dos músculos, da voz. Manietado por uma sensação de impotência, seguro que palavras algumas, gesto algum, seriam capazes de te retirar da letargia em que te havias afundado. Covardia, quem sabe, mas a covardia alimentada pelo insultuoso desperdício de vida contido naquela letal interrogação.


7.11.08

Sadia tristeza


Inexplicáveis acessos de tristeza. Por mais que cavasse nas profundezas de si, nesses momentos não conseguia encontrar razões para a tristeza, a intensa tristeza que o acossava. Andava assim, dias a eito, imerso nas densas águas da melancolia. Parecia cansar-se das coisas belas da vida, que até era de uma generosidade invejável. Nem percebia como o mergulho nas turvas águas da mágoa era um ultraje à bondade que o tinha agraciado.


Mas persistia, com paciência diligente, marcada na agenda a aleatoriedade da tristeza. Emergia como uma densa cortina de nevoeiro a toldar o brilho resplandecente dos dias soalheiros, primaveris mesmo, que eram a sua existência. Cedia perante a letargia que vinha em compasso com o sentimento de pesar. Escondia-se, para não deixar que a íntima mágoa fosse partilhada pelos que lhe eram próximos. Era um sentimento estranho. Como se despojasse da alegria a que a vida o convidada, cansado da alegria que, a certa altura, lhe soava estulta. A necessidade de pisar o pântano da pungência.


Só ao fim de demorados dias de uma perturbante tristeza que se acomodava já doentia é que começava a discernir o seu sabor. Sabia que a vida só tem sentido se os contrastes forem saboreados. Os olhos tinham que experimentar o que trouxesse agradáveis sensações e a dor da tristeza. O corpo tinha que sentir a euforia dos instantes de deleite e entregar-se à dor pungente das imagens que o dilaceravam por dentro. A coreografia só se encontra completa quando os passos pisam o suave, alcatifado terreno e depois experimentam as pedregosas vielas que sangram os pés.


Aquela inexplicável tristeza era patologia. Uma patologia paradoxalmente terapêutica. Como se fosse um medicamento necessário para temperar a euforia, quando a euforia vinha de rompante e deixava em si as sementes da perigosa sobranceria. Calmante tristeza, para domar acessos de doentio narcisismo que irrompiam, a espaços. Porque não queria deixar o casulo do anonimato. Porque o cortejo de elogios o causticava. Era estranho como se incomodava com as palavras encomiásticas dos outros. Temendo descair para o ensimesmamento típico dos narcísicos, refugiava-se na intensa melancolia. Rejeitava ser aquilo que nos outros os levava ao elogio. Senão, até os dias solarengos haveriam de perder a sua beleza.


Através da medicinal melancolia, domava os ímpetos que convocavam a soltar-se de dentro de si. Num esforço doloroso para se conter nos limites que aprendera serem as suas fronteiras. Havia, naquela tristeza, um pungente apelo para mergulhar nas profundezas do ser. Como se a tristeza fosse o castelo inacessível, o castelo de que era curador único das chaves que franqueavam o acesso. Da fortaleza onde depurava as nuvens plúmbeas que se acastelavam no seu horizonte, oferecendo o céu cinzento onde a sua tristeza adejava. Nesses dias, não percebia se procurava a tristeza ou se era a melancolia que se insinuava, espontânea. Quando dava conta do inevitável contraforte da tristeza, era tarde para interrogações, era tarde para resistir ao apelo da tristeza.


Quando os dias da inexplicável tristeza se extinguiam, era a mesma perplexidade que o acossava: da mesma forma inexplicável, a tristeza desvanecia. Era como se mudassem os ventos e outra carta meteorológica anunciasse a tristeza enfim deixada lá atrás. E percebia: que é pela tristeza que o seu contrário é mais sumarento. É na tristeza que os dias de sagração da vida se tornam intensos. Que faz sentido apreciar a beleza das coisas. Uma provação indispensável para descer às profundidades do ser e encontrar os vestígios, uns gramas que sejam, que povoam a vida na sua intensidade bela.


Era uma sadia melancolia. Recorrente tristeza que anunciava os fragmentos do seu contrário sempre que perdia o norte ao sentido da beleza da existência.



6.11.08

Por que precisamos de messianismos?


A exultação quase consensual. As pessoas vibram. Umas choram, emocionadas. Alguns confessam: ainda parece um sonho (e ver-se-á se não seria preferível que o onírico fosse perene). O seu salvador obteve anuência para subir ao trono. Era a vitória indeclinável. Catástrofe, se a vitória se fosse abrigar no regaço do adversário. Agora é que tudo vai mudar. Pelos dedos ungidos de um providencial homem, predestinado para terminar os equívocos dos últimos anos.


Tenho por princípio desconfiar de gente que se acha providencial, ou que é posta em aura messiânica por uma turba de entusiasmados apoiantes. É próprio da higiene mental: detesto tudo o que soe a consensos forçados, consensos inevitáveis. Uma consensualidade doentia, por se considerar ultrajante a ousadia de desalinhar do numeroso coro que tece loas à figura providencial. Por um imperativo de higiene mental prefiro estar de lado desconfortável da barricada – essa é a primeira razão.


Some-se o seguinte: o direito de não me rever no novo messias que aterrou entre nós. O homem providencial tem carisma – mas há tantos gurus de religiosidades duvidosas que conseguem levar atrelado um imenso e acrítico séquito. O messias do momento é um bem-falante – e há-os tantos que não passam da vacuidade das palavras, enredados na retórica que seduz quem gosta de escutar balsâmicas palavras que adoçam os seus ouvidos. Mas é só isso, palavras. Só que as palavras ditas em entusiasmantes discursos não são penhor de acção alguma. Nem as propostas que se decantam entre a espuma da retórica são convincentes, oráculo de um catecismo ideológico que não é meu.


Há uma terceira razão para torcer o nariz à consensualidade imperativa que tomou conta da atmosfera: a personagem messiânica, cativada pela internacional socialista como um dos seus – como se os arautos da internacional socialista ignorassem que o novo messias de socialista não tem nada. É a oportuna janela que vem mesmo a calhar para fortalecer a lógica da inevitabilidade socialista. Para esta gente – e, todos apanhados na maré, para quem for sensato em se aconselhar na alfombra socialista – o mundo como deve ser ou é socialista ou é socialista. A colagem ao novo trovador dos sóis radiosos é uma oportunista artimanha com o propósito de reforçar a ideia de que não há hipótese credível ao socialismo mundial. É aqui que funciona, outra vez, o dever de ser dissidente. Só para não engrossar a maré que, um dia destes, ameaça liquidar a competição de ideias que é património genético da democracia.


A entronização do novo messias promete ser um fértil caso de estudo para a sociologia e para a psicologia. Arriscaria a vaticinar: até mesmo para a teologia. É impressionante a capacidade de mobilização do homem providencial. Até a imprensa, sempre tão exigente, está rendida. Fazendo tábua rasa dos manuais de estilo do bom jornalismo, não poupa nos encomiásticos adjectivos. Em mim, tudo isto tem o condão de cavalgar a náusea. A diligente pedagogia das virtudes quase celestiais do messias, emprenha-se no cérebro. Reparo como, em redor, o imparável regozijo traz um sinal que será a matéria-prima para sociólogos, psicólogos, porventura até teólogos: as gentes queriam uma figura que as enfeitiçasse.


Precisavam de acreditar, outra vez. O cansaço da desconfiança bateu no seu zénite. Um pulsar interior, tal como uma torrente vigorosa a precisar de se extravasar para fora de cada indivíduo, só estava à espera de uma figura cativante, que soubesse reavivar o afecto tão delapidado pela incúria dos que estavam quase a sair de cena. É por isso que há religiões com os seus deuses. Ou, para os ateus que recusam laivos de deificação, é por isso que há a necessidade de se ancorarem em heróis.


Herói ou deus, o homem ungido pela providência mostra a tremenda humildade dos homens comuns. Lá do fundo da sua irrelevância, ao entronizarem o messias deixam cair a máscara da pessoal inépcia. E reconhecem que só o messias é dotado da capacidade para lhes restituir a esperança que andava já esquecida. Mas: há quem não acredite em deus, nem em qualquer gesta de heróis. Os homens, todos feitos com a mesma argamassa. Acreditar em predestinadas personagens é o refúgio numa ilusão, numa ilusão qualquer – deus ou herói. Mas sempre uma ilusão.


5.11.08

De regresso ao pessimismo antropológico: o que está mal, o capitalismo ou os seus agentes?



A interminável discussão: a crise vem provar que o capitalismo faliu (hipótese mais radical) ou que o indefinível "neo-liberalismo" entrou em ocaso (hipótese mais moderada)?


Os que nunca se entusiasmaram com mercados sem regulação, de mão dada com os habituais críticos da economia de mercado, sentem que a actual crise lhes está a dar razão. Como se a razão fosse assim tão fácil de objectivar, como se a razão fosse perene. Vou deixar de lado os que ainda choram a orfandade do derrubado muro de Berlim. Concentro-me nos que clamam pela superação dos mercados em funcionamento anárquico, sem a mão reguladora das autoridades. Destes quadrantes – mesmo daqueles que, com responsabilidades de governo, conviviam com os agora nefandos capitalistas de que querem distanciamento por estes dias – chega o diagnóstico lapidar: houve ganância a mais, gente inebriada com o perfume do lucro fácil. Rematam o raciocínio com a sentença definitiva e, a seu ver, incontroversa: é preciso renovar o capitalismo, encerrar o "neo-liberalismo" nas catacumbas do passado.


Ora, as ideologias exigem contacto com a realidade humana. As ideias são um produto da massa cinzenta das pessoas. Todavia, parece excessivo o raciocínio em que laboram muitos dos excitados advogados de defesa do funeral do "neo-liberalismo". É a falácia da árvore e da floresta. Da mesma forma que é errado confundir a árvore apodrecida com a floresta – só a primeira é que apodreceu, a floresta mantém-se viçosa –, é um exagero decretar a falência do tal "neo-liberalismo", ou a necessidade de renovar os alicerces do capitalismo, porque uns quantos actores do sistema se embriagaram na soberba. Os sacerdotes do intervencionismo do Estado, sobretudo os que ainda navegarem nas águas da honestidade intelectual, hão-de reconhecer que declinar para generalizações fáceis não é o melhor método para tirar conclusões credíveis.


(De permeio, porque não discutir outra falácia: as culpas, na maneira de ver desta gente exultante, repousam apenas em determinados actores. O resto, uma imensa multidão de inocentes, sacrificados diante do altar do lucro fácil que os primeiros congeminaram.


Algo não bate certo neste retrato idílico que apresenta os culpados convenientes. Na origem da crise financeira que começou nos Estados Unidos está a bolha do mercado imobiliário. Eis as interrogações: os riscos insensatos na autorização de crédito só são imputados a quem emprestava dinheiro? Por mais que sejamos instruídos pelo lirismo da inércia das autoridades, não seria a política de crédito fácil instrumental para os políticos que se querem perpetuar no poder? E mais: os que pediam crédito são tão ingénuos, tão ignorantes, ao ponto de passarem ao lado do elevado risco? Está convencionado que os culpados – e ainda sem direito a julgamento, o que é mais fantástico vindo de quem se julga penhor dos princípios do Estado de direito – são os mais poderosos, os mais endinheirados, aqueles que quiseram fazer fortuna à custa das legítimas aspirações da populaça que queria viver melhor. A populaça limitou-se a cair no engodo.


Há histórias da carochinha mais convincentes.)


De regresso ao embuste das generalizações (mais ainda as que são oportunistas): dou por adquirido que houve mesmo ganância de uns quantos e que essa avidez detonou a crise. Serão todos acusados deste pecado? Não serão comportamentos isolados, todavia com um impacto devastador no sistema financeiro, de um punhado de gente que quis beber a água toda de uma só vez? Todos os actores do sistema financeiro comungam do comportamento censurável que preenche o imaginário conspirativo de largas fatias da ficção literária que se julga argutamente científica?


Esta é a minha sugestão, a interpretação que faço: as ideias continuam a ser boas. Quem falhou foram alguns dos intérpretes. Aqueles que, a dar-se como provado em tribunal (e não antes do tempo, em sumários julgamentos), forem culpados da usura que semeou a actual crise. São as podres árvores. Não põem em causa as ideias, que continuam tão frondosas quanto a floresta diante dos nossos olhos. Admito que esta interpretação possa ser acusada de ingenuidade. E que esteja a resvalar para um oportunista pessimismo antropológico, que visa apenas salvar as ideias crucificando quem as perverteu.


Em minha defesa: a de, há muito, militância pelo pessimismo antropológico.


4.11.08

Generais apenas de quatro estrelas


A tropa anda revoltada. Dizem-se abandonados pelo poder político, que anda de costas voltadas para benesses a que a tropa se habituou. Há dias, alguns porta-vozes do sindicalismo militar vieram a público com insinuações torpes: aconselhavam a repor os privilégios de outrora, ou eles podiam cometer actos tresloucados. Para se perceber melhor a dimensão tresloucada em forma de ameaça, quiseram lembrar à populaça que eles são penhores de um arsenal que mete respeito. Para bom entendedor, meia palavra basta.


Depois, o generalato puxou os galões à solidariedade corporativa e vomitou uns dislates para os microfones da comunicação social. Um deles, que em tempos foi o chefe máximo da tropa, assinou por baixo as insinuações de insubordinação dos militares caso as suas reivindicações esbarrem na insensibilidade de quem governa. Do alto da sua insolência, os insurrectos gabaram-se da presença de vários – e cito – "generais de quatro estrelas". Pelo meio, a encenação em forma de jantarada onde a malta fardada amesendou os seus protestos contra a perda de regalias. Foi nesse dia que o inefável Vasco Lourenço arrotou as costumeiras inanidades e, talvez saudoso dos tempos viçosos do PREC, dos tempos em que ele próprio acreditou que o seu protagonismo ia além da estaleca intelectual, perorou. Para assinar por baixo as ameaças de insubordinação das tropas insatisfeitas. Um aviso ao poder político: são eles que têm as armas; portanto, há que ter cuidado e corresponder às reivindicações desta tropa fandanga, desta tropa com problemas de orientação geográfica - pois eles não pertencem a um país da América Latina.


Nunca lhes terá ocorrido perceber porque têm perdido privilégios – os inaceitáveis privilégios de outros tempos, quando se convenciam que eram uma casta à parte, digna de tratos de polé, não fossem usar as armas para colocarem em sentido quem saísse da linha. Hoje, quem acredita que esta tropa é imprescindível para defender a integridade do território? É uma hipótese remota, hipotética, apenas – a da invasão do território por tropas estrangeiras. Se isso acontecesse, que resistência podia oferecer este arremedo de exército? É que já nem sequer se coloca a interrogação ao nível da capacidade de expulsão dos imaginados invasores. Por hoje, a tropa está acantonada nos quartéis, entretendo-se a exaurir o erário público com patéticos simulacros de guerra que são a suprema excitação do generalato. A tropa ainda não percebeu que o seu papel está desvalorizado, e muito. Como podem querer manter as regalias de outros tempos? Como podem teimar na obscenidade que é o pagamento de uma renda de cem – cem, não errei – euros pelas casinhas que lhes caem em sorte porque se convencionou que merecem a benesse?


Quando li os relatos do convívio gastronómico da tropa, com a bênção dos "generais de quatro estrelas", fiquei intrigado: por que razão ainda não inventaram os generais de cinco estrelas? Estará a tropa um degrau abaixo da proficiência dos hotéis, que, esses sim, já têm há largo tempo direito a ostentar a divisa das cinco estrelas? Os muito medalhados generais, que com tanto garbo ostentam as comendas militares na distinta farda de cerimónia, na sua incapacidade para romper o tecto das quatro estrelas. No fundo, um sinal da mediocridade da tropa. Por mais que subam na carreira, por mais feitos heróicos que distingam o generalato, nunca passam da cepa torta das quatro estrelas. Pobre tropa fandanga.


Apetece glosar Luther King e dizer, "eu tenho um sonho". Um sonho feito por um insólito golpe de Estado. Seria uma golpada da população farta da prosápia dos militares, cansada das torpes insinuações de onde escorrem ameaças de insubordinação. Seria a vez das gentes não armadas se revoltarem contra a tropa, tomando os quartéis, destruindo os inúteis arsenais, deportando as tropas para distantes paragens de onde jamais nos pudessem contaminar com a sua jactância. Que se dedicassem a ser mercenários a soldo de proto-ditadores espalhados pelo mundo, que sempre haverão de existir. Ao menos, podiam fazer o que tanto os excita: combater, descarregar os projécteis das armas, matar gente (e se for gente inocente, não há problema; é a lógica das "vítimas colaterais").


Então, por fim, um ambiente desanuviado, um ar respirável, sem a poluição causada pelas palavras da tropa inconsequente. Não custa sonhar: uma terra melhor sem os desconchavos da tropa.


3.11.08

A adorável (manipulação) estatística que nos tira da indigência


Não cessam os motivos de orgulho nas lusitanas gentes. De um ano para o outro, as nódoas negras que enxameavam os resultados dos exames de matemática foram limpas com o melhor dos detergentes. Revelação do diligente ministério da educação: as médias dos exames a matemática pularam com uma inusitada espectacularidade, quais cangurus em desenfreado cio. De uma assentada, deixámos de ter alunos que nem medíocres conseguiam ser. Os que fazem número para a estatística anunciada devem ser uma nova fornada, misteriosamente diferente da fornada que os antecedeu. Renova-se a esperança nos dias vindouros. Das médias cantadas pelas estatísticas ecoa a excelência deste novo escol.

Agora já podemos acordar e olhar sem temor para um radioso amanhã que se anuncia. Tranquilizam-nos as estatísticas: há por aí, nos bancos das escolas, uma prodigiosa geração que promete subtrair esta terra ao adormecimento e à indigência. Se em tempos alguém sentenciou que o nosso atraso (entre outras causas) se devia à inépcia para os números, o ministério da educação tratou de encerrar em definitivo túmulo os habituais tormentos das gentes com os números. As estatísticas não deixam mentir. Quem ousar discordar, ou é um dos ignaros que lida mal com a arte dos números, na sua incapacidade para os interpretar; ou está possuído por tenebrosa má-fé.


Esta é a convocatória oficial: devemos acreditar que a entusiasmante estatística traz um efeito de contágio para as criancinhas que hão-de aprender matemática. A engrenagem é imparável, com a prestimosa ajuda das profecias que se anunciam nos números montados em cirúrgicas estatísticas. Tudo se resume a uma crença. As gentes têm que acreditar. Que os jovens, que amanhã serão carne para canhão das lustrosas estatísticas da colectiva proficiência escolar, são feitos da mesma têmpera dos que alimentaram esta sobrenatural revelação feita através do manto das estatísticas. E devem acreditar que os pedagogos que tomaram conta do ministério da educação sabem o que fazem. Nem que seja uma tremenda ilusão colectiva, uma espécie de aparição da nossa senhora aos pastorinhos, só que em vez dos pastorinhos estamos todos convocados a acreditar que a indigência já só pertence às memórias.


Ai de alguém que denuncie a cultura de facilidades escolares como explicação para o súbito pulo no desempenho dos alunos. Terão que arrostar com as acusações de desonestidade intelectual, ou de atraso no conhecimento das vanguardas da pedagogia e da didáctica, porventura até de levarem com a pior das acusações que nestes dias se pode abater sobre um cidadão – ser oposicionista ao governo. Os críticos deviam perceber que os prescientes pedagogos que redesenham a política de educação estão três passos à frente de todos nós.


Os críticos do facilitismo nas escolas não conseguem reprimir os seus particulares traumas escolares. Andaram pelos bancos das escolas quando se teimava que a exigência pertencia a uma cultura de excelência, uma ferramenta que preparava as criancinhas para a selva que haveriam de encontrar na idade adulta. Têm inveja das facilidades que são o pasto para os alunos de hoje. Aprender não pode ser uma maçada. A cultura de exigência na escola esbarra com a lógica anti-maçada da aprendizagem. Remova-se essa cultura. A fasquia tem que descer para não traumatizar as criancinhas de hoje. Não se destruam as ilusões das gerações que crescem a ver o Noddy, na alucinação de que o mundo é tão ingénuo como as historietas do Noddy; as facilidades na escola, imprescindíveis para que consigam ser Noddy quando chegarem à adulta idade. O truque, mesmo debaixo do nariz de toda a gente: exames fáceis. E o último grito da moda: banir a palavra "reprovação" do léxico escolar.


A lógica deve ir por aí fora, à medida que as criancinhas se forem fazendo adolescentes e ficarem às portas da universidade. Quem sabe, se daqui a uns anos, até nas universidades – sabiamente aconselhadas por comissários do governo – reprovar seja proibido e a avaliação rejeitada se não satisfizer a báscula do facilitismo? Alguém se surpreende pela aniquilação da indigência colectiva por magia da estalinista manipulação das estatísticas? Alguém ainda fica boquiaberto com o experimentalismo pedagógico que extingue, à força de decreto, as reprovações e impõe, como bitola, as facilidades? Temos, no timoneiro da pátria, o espelho que oferece as respostas àquelas interrogações.