18.12.08

Desperdícios preciosos


Um velho a vasculhar no lixo. Remexe, indiferente a quem passa. As pessoas da afluência – ou, sabe-se lá, nem tanto – descem a rua, passam pelo amontoado de lixo e, elas também, indiferentes ao velho andrajoso em demanda pelas profundezas dos detritos. Diria, o velho como se estivesse sozinho no mundo, metendo os braços no meio do lixo, revolvendo os desperdícios da classe média por saber que da actividade há-de levar sortida vantagem.


Tirava cartões, sem receio de meter as mãos na imundície que fermenta um depósito de bactérias onde nidificam as doenças dos desvalidos. Adivinhei o velho na sua deambulação rotineira pelo lixo espalhado pela cidade. O que já não tinha serventia para a classe média, o que simbolizava a sua servidão, era para aquele velho esbanjamento agradecido. Agasalhos e calçado já sem aproveitamento para a gente empenhada na sociedade da afluência, ou apenas objectos decorativos que alegravam o sítio onde o velho morava. Vasculhava, um após outro, os verdes receptáculos do lixo urbano. Metodicamente. Anestesiado diante do odor fétido do amontoado de desperdícios.


No aluvião de plásticos, papeis, cartões, papel de embrulho, restos das refeições das famílias, haveria sempre uma preciosidade para o velho. Retirou um rádio, velho como ele, das profundezas do lixo. Esfregou a sujidade com uma manga. Olhou o aparelho, primeiro com desconfiança. Como se não entendesse como pode um aparelho daqueles encontrar o seu túmulo no lixo. Quase de certeza não estaria a funcionar, suspeitei pela pose desconfiada do velho. Arriscou uma tentativa. Ecoou um ruído surdo, mas audível, o ruído que os rádios fazem quando não estão sintonizados. O aparelho sobrevivera à humidade e à humilhação de ter convivido não se sabe quanto tempo com o resto dos desperdícios. Quando não era desperdício.


Nem assim retirou o ar carregado, o rosto fechado dentro das rugas acentuadas. Nem sequer quando, noutro sítio onde o lixo se armazenava, caótico como lixo, encontrou um par de sapatos. Uns sapatos que experimentou. Um par de sapatos talvez um número acima do tamanho dos seus pés. Mas os sapatos pareciam estar quase novos. Dois pares de peúgas, agora que o inverno se acerca e os pés agradecem agasalho para derrotar o frio e a humidade, dois pares de peúgas a solução para dar serventia aos sapatos. Não se desfez das rotas e encardidas sapatilhas que calçava. Acomodou os sapatos num saco de serapilheira, como se fosse o pai natal de si próprio. E nem então esboçou um sorriso, o mesmo rosto carrancudo, o mesmo rosto inexpressivo.


Acenou com a cabeça em tom reprovador. Sinalizando a incompreensão pelo fausto, a seu ver uma incompreensível exibição de fausto. Um rádio operacional. Um par de sapatos de homem, diria, de executivo. Pouco mais do que estreados. Não sei se o homem estava informado do andamento do mundo. Não sei se alguma vez a palavra "crise" tinha emprenhado os seus ouvidos, como emprenha aos que julgamos maior discernimento com a cautela da embriaguez de informação. Provavelmente o acenar de cabeça viesse substituído por uma expressão de perplexidade, tivesse o velho travado conhecimento com os infortúnios do mundo.


Que importam as crises, quando a abundância é apenas suturada ao pé da errância do velho homem entre os restos da nossa afluência? Naquela altura, não consegui sentir comiseração pelo velho mendigo do lixo alheio. Naquela altura, senti as lágrimas interiores vertidas pela obscena, afluente sociedade quando se convenciona que a crise tomou conta do horizonte. Essa sim, é uma dor obscena.


Uma súbita lucidez apoderou-se através da tela oferecida aos meus olhos: o homem tisnado pela velhice a lutar contra a imundície do restolho burguês, sabedor que de tanto porfiar dali haveria de retirar proveito. Só lhe escapava isto: por que insondáveis mistérios uma alma se desprendera de um rádio ainda em funcionamento, porque insondáveis mistérios outra alma não quisera usar um par de sapatos quase novo? Haveria razões. Do grotesco desperdício às mais íntimas razões, com o selo emocional, que levam as pessoas a enviar para o lixo o que outros, sem serem homens errantes remexendo desperdícios, achariam serventia.


Curvado no seu mundo-arquipélago, ao velho não interessavam especulações. Só um agradecimento, um anónimo agradecimento aos autores de preciosos desperdícios. Eram a sua fábrica de reservada felicidade.


17.12.08

O anarquista perante os tumultos anarquistas de Atenas


Hoje expressa-se a costela anarquista. Diante dos protestos, e depois dos distúrbios e do caos semeado pelos jovens anarquistas em Atenas (e menos jovens, resgatados à modorra da meia-idade, em mergulho nas profundezas da juventude anárquica). Poderia o anarquista exultar com o desafio à autoridade. Ver gente a enfrentar a polícia é sinal da autoridade do Estado questionada. O anarquista poderia mostrar simpatia pelas manifestações de Atenas.


Mas há anarquismos e anarquismos. Há anarquia que rima como puro caos, amantes os seus cultores da desordem que seria penhora da desagregação do Estado. Porventura para, do caos, os seus fautores se erguerem como novos senhores de uma ordem que nunca teria esse nome. Como há um anarquismo que não se revê na autoridade do Estado e respeita os direitos de propriedade, quase sagrados esses direitos, por respeito ao esforço individual que caucionou a aquisição dessa propriedade.


O anarquista que se encontra do outro lado da barricada ideológica (por contraponto aos jovens anarquistas de Atenas) logo asfixia os sedimentos de simpatia com os revoltosos atenienses quando repara que o caos ataca tudo o que apareça pela frente, indiscriminadamente. Na seiva onde fervilha a raiva incontida dos jovens tumultuosos, espalha-se um rasto de destruição. Automóveis incendiados, lojas vandalizadas, e o alvo privilegiado: bancos e multinacionais que são o mostruário do sistema capitalista odiado pelos jovens anarquistas de Atenas. Esses bancos e multinacionais não escapam à fúria avassaladora dos revoltosos, atacados sem dó, como se nesses ataques houvesse um laivo de justiça divina (se os jovens anarquistas acreditassem em qualquer entidade divina).


É aqui que se separam os caminhos destes anarquistas e do anarquista que escreve. Para começar, eles odeiam o sistema capitalista. Eu acho-o a maior invenção do ser humano. Eles atropelam a propriedade privada, destruindo automóveis de gente inocente. A menos que a simples posse de um automóvel sinalize a cumplicidade dos proprietários com o nefando capitalismo que eles gostavam de derrubar. Atacam as empresas que são o expoente da globalização gananciosa, elegendo os bancos como alvo preferencial por causa da tempestade que atravessamos, a tempestade crismada "crise financeira". Para os revoltosos, estas empresas cuidam do lucro e desvalorizam as pessoas. Tudo isto está na origem da opressão dos trabalhadores, que perdem direitos com a passagem do tempo; no exército de desempregados, que cresce de maneira aviltante; no futuro sombrio que se oferece aos jovens que passam anos a estudar sem saberem o que fazer quando terminarem os estudos.


Ainda que coincidisse no diagnóstico, logo divergia nos meios escolhidos para convocar a atenção do mundo inteiro – pois é o mundo inteiro que está de olhos em Atenas, e parte desse mundo, arauto da desgraça, pressagia que os tumultos atenienses acabarão por ter réplica noutros locais. Por mais que os acontecimentos sejam convenientes à habitual facção enamorada por lirismos espúrios (os eternos saudosistas de um Maio de 68 a repetir-se ao longo do tempo), esta gente ainda não entendeu como os protestos de Atenas foram capturados por movimentos anárquicos sedentos de semear o caos. É enternecedor ler o "aviso" presciente do "patriarca da democracia" lusitana, Mário Soares: ele não ficava surpreendido se por cá eclodisse um movimento semelhante. Apetece perguntar: não ficava surpreendido, ou até gostava que isso acontecesse?


O episódio tem um travo amargo para o anarquista situado no outro lado. O anarquista repudia o exercício da força que repousa no manto da autoridade, aquilo que politólogos e sociólogos consagraram como o "monopólio da violência", sinal necessário da existência do Estado. Todavia, como posso recusar a confissão que me dá prazer assistir às cargas policiais sobre os anarquistas de Atenas? Quando dou comigo a sentir esse prazer, é uma numa tremenda contradição interior que me sinto agrilhoado. Até porque a violência policial não se exerce para defender a propriedade privada esbulhada pela violência gratuita dos anarquistas tumultuosos, mas para defender a ordem estabelecida e a autoridade do Estado.


É por isso que me motiva uma dupla oposição aos jovens anarquistas de Atenas: por estar nos antípodas da sua agenda ideológica; e por os seus actos me levarem à heresia anarquista de condescender com a violência policial.


16.12.08

E arremessaram um par de sapatos a Bush


Está quase a sair de cena o por muitos proclamado pior presidente de sempre da história dos Estados Unidos. Agora que está nos actos finais é ainda mais vituperado, o coitado. Que fique registado: não vou cavalgar na onda bem pensante e assinar por baixo a sentença de que Bush foi o pior presidente da história dos Estados Unidos. Não conheço o suficiente da história daquele país para chegar a tal conclusão. Descontando isso, concordo que Bush foi o pior presidente dos Estados Unidos desde que me conheço a acompanhar – e de longe – a política daquele país.


Daí a enxovalhar a personagem, acho excessivo. O exercício a que se prestam os do costume tem um efeito contraproducente: de tanto se bater no desgraçado, de tanto o humilhar, a certa altura começa a irromper um sentimento de comiseração. Não que a comiseração seja apanágio recomendável para quem ela se destina. Mas há nesta piedade sobre o constantemente aviltado um paradoxal efeito. Por um lado, a compaixão tem, por uma vez, cores viçosas que parecem reabilitar, um pouco que seja, a personagem. Por outro lado, noto o pessoal incómodo em manifestar este sentimento por quem o não merece. É o desconforto provocado pela metódica perseguição dos anti-americanos primários, dos que arrumam à direita, com sobranceria, a patética maneira de fazer política.


O mais recente acto do vilipêndio de Bush: numa visita ao Iraque, estava Bush a preparar-se para falar numa conferência de imprensa e um jornalista iraquiano atirou-lhe com os dois sapatos, dirigindo-lhe um par de impropérios em árabe. Bush teve reflexos para se desviar dos sapatos, diminuindo os danos – pois decerto o enxovalho seria maior, e o prazer de um numeroso exército de detractores atingiria níveis orgásticos, se um dos sapatos só parasse no rosto do ainda por dias presidente dos Estados Unidos. O episódio está a fazer furor, como seria de esperar. Motivou o aplauso de muitos, o jornalista iraquiano já entronizado o herói do momento.


Até sou capaz de concordar que o ar patético de Bush e a sequência interminável de erros dos neoconservadores põem o ainda presidente dos Estados Unidos a jeito deste e de muitos outros actos de humilhação que se possam imaginar. Das duas, uma: ou a costela anárquica vem ao de cima e qualquer acto de desonra a qualquer líder de qualquer país merece aplauso, sem distinção de merecimento ou não; ou se toma a pose séria, a pose de Estado, e se reprovam todos os actos que insultam os líderes, ainda que no nosso íntimo haja o desejo inconfessável de atirar com sapatos, ovos podres, um nojento escarro sobre o político que coincide com o pessoal ódio de estimação.


Ora, o que me traz perplexo não é Bush ter quase sido atingido pelo par de sapatos do exaltado jornalista. É ver o entusiasmo dos metódicos desalinhados do bushismo e saber que se o boneco quase a ser atingido fosse um dos seus estariam, nesta altura, a escorrer excitados textos de reprovação do insulto. Ao que interessa: o comprazimento de ver Bush desviar-se dos sapatos para não ficar com um olho à Belenenses deve ser o mesmo se, por exemplo, naquele lugar e naquele momento fosse Chavéz, Zapatero, Brown, Lula da Silva ou, por que não dizê-lo, Obama, a baixar o corpo para escapar dos sapatos agressores.


Se pudesse chegar aos destinatários, endereçava o seguinte pedido aos militantes adversários de Bush, dos neoconservadores, dos Estados Unidos em geral: moderem-se, por favor. De tanto frenesim, de tanta perseguição, de tanto fazerem disso modo de vida – como se pouco mais houvesse de interessante neste mundo – quase têm o condão de me fazerem um adorador do país (o que está longe de acontecer), um admirador dos neoconservadores (uma heresia para o liberal clássico) e manifestar misericórdia em relação a Bush (o que me aborrece).


Gostava de saber se aqueles sapatos exalavam o odor fétido de uns pés arredios da higiene. Seria simbólico. Tanto da desastrada passagem de Bush pela Casa Branca, como dos exagerados que não poupam nas críticas, na ironia, na ofensa até e que, por o fazerem sem descanso, quase trazem Bush para o lugar da comiseração.


15.12.08

Seremos mesmo “todos” de esquerda?


Sondagens caseiras anunciam a catástrofe (os socialistas a roçarem a maioria absoluta) e a extrema-esquerda junta abrigando 20% das intenções de voto. É a crise imparável, que teve o condão de destruir crenças de afamados economistas que agora pressagiam o regresso a Keynes, batendo no peito em jeito de "mea culpa". Há dias, no Diário de Notícias, Pedro Lomba sugeria que "somos" de esquerda porque temos salários reduzidos e trabalhamos para quem ostenta tanta abastança.


As esquerdas rejubilam. Andam de peito inchado, envaidecidas, no convencimento de que a crise trouxe o colapso do diabolizado "neoliberalismo". Entre a pose "afinal tínhamos razão" da extrema-esquerda e a conversão oportunista de socialistas a um Keynes de novo milagreiro, há muita gente a embarcar na maré. É em momentos de aperto que as emoções se sobrepõem à racionalidade. Muita gente só se lembra do seu deus quando vive uma aflição. Há muitos enamorados de uma esquerda qualquer por lhes ocorrer, vagamente, que só as esquerdas possuem sensibilidade social, só as esquerdas conseguem praticar a justiça social, tirando aos nefandos ricos para redistribuir por um numeroso exército de necessitados. Não é novo: na construção de ideias e imagens, as esquerdas gostam de visões absolutas e de chamar a si o monopólio de certos paradigmas.


A fé pessoal é incontestável. Pertence ao domínio da intimidade de cada um, logo intangível. Posso, quando muito, dirigir uma interrogação para dentro de mim: "por que não és capaz de embarcar na caudalosa maré das esquerdas triunfantes?" Em parte, por mau feitio, um veemente espírito de contradição. Quando vejo consensos irrecusáveis, as correntes copiosas que reclamam a participação de todos os que sejam sensatos, é quando mais me apetece ser dissidente do coro esmagador. Trata-se de um imperativo de higiene mental.


Por outro lado, tento convocar o discernimento – o meu discernimento, que até pode ser um tremendo erro na maneira de ver dos outros, o que pouco me atormenta. Sou observador do modismo e tento perceber se encaixa nas ideias que são meu lastro – ou se o modismo, de tão triunfante, convoca um abalo nos alicerces das pessoais ideias. Se a correspondência não existe, sobra-me o "desconsolo" de figurar entre a escassa minoria que se recusou alistar no consenso do momento. Este engrandecimento das esquerdas não me comove. E menos me convencem as receitas que elas preconizam para ultrapassar a crise. Aliás, a surpresa é a convergência de medidas defendidas pelas várias esquerdas, numa espécie de frentismo inusual se se atender à história política da democracia em que vivemos.


Primeira dissonância com o modismo: não consigo digerir o regresso a receitas do passado como solução milagrosa para extinguir o incêndio da crise. Foram resgatar Keynes ao túmulo. Esquecem-se, os promotores da ressuscitação de Keynes, que ele tinha sido enterrado por as suas políticas terem levado à grande crise da década de setenta. E por as suas políticas terem sido incapazes de voltar a página da crise. Parece que não aprendemos com os erros de outrora. Que nos esquecemos da história – ou que é conveniente olvidar certas páginas enegrecidas que ficaram registadas lá atrás.


Segunda dissonância: depois da peregrinação interior para responder à pergunta "por que não és capaz de ser de esquerda", retomo a proposta de Pedro Lomba. Sendo um remediado trabalhador por conta de outrem, não tenho o prazer de figurar entre a privilegiada minoria dos "bem pagos". Nem assim consigo encontrar razões para o alistamento no imenso exército que, por convicção, oportunismo ou lirismo, pertence às esquerdas. Sei que está na moda fazer descer o chicote nos endinheirados e nos que, não sendo capitalistas, auferem salários das arábias. Invoca-se um dever de solidariedade para amortecer os males dos muitos desvalidos com os recursos tirados, por arte de impostos, aos abastados. Outros sobem ao púlpito do tribunal da moralidade – esse lugar tão perigoso – e sentenciam a falta de ética dos poucos que ganham demais. A todos falta saber se os salários das arábias têm merecimento ou não. Partem da suposição negativa. Os preconceitos, só a eles pertencem.


Lamento, mas não sou capaz. De entrar nos sumptuosos palácios onde habitam as esquerdas, esses lugares perfumados pela justiça social, os lugares ungidos pela igualdade. Onde não haveria ricos e os pobres deixá-lo-iam de ser. Um lugar onde irradiaria a centelha da solidariedade, convencidos os abastados a redistribuir pelos carenciados e pelos menos carenciados que não reprimem a pessoal ganância e se deixam cegar pelo néon dos cifrões. Pedro Lomba terá acertado ao lado: eu não estou entre os que ganham muito e isso não me faz cultor de uma esquerda qualquer. Sem ser de direita – pelo menos das direitas indígenas.


As coisas do mundo são complexas demais para se prestarem a leituras tão simplistas. O súbito enamoramento pelas esquerdas, que tinge as cores da moda, parece-me um refulgente simplismo.


12.12.08

Prisioneiro em si


Debatia-se. Lutava contra as suas teimosias internas. Na maior parte do tempo, descontente com o que dizia, o que fazia. Angustiado pelas masmorras internas que o aprisionavam a um eu que o desprazia. Fazia planos para matar o eu que sempre conhecera. Planos sempre adiados, esbarrando na permanente incapacidade para se libertar das pessoais masmorras que o amordaçavam.


Andava pelas ruas, cruzava-se com os imensos rostos anónimos, olhava para as árvores julgando nelas encontrar a inspiração ausente. Partilhava pensamentos com as águas revoltas do oceano. E nem a inspiração dos poetas, nem isso chegava para descobrir o segredo que demandava. Esbarrava sempre no mesmo rosto, nos mesmos trejeitos, nas palavras que se repetiam em fórmulas exaustivas. Entregava-se a uma rotina cansativa. Tudo isto reconhecia, como se fosse o diagnóstico de uma maleita que ao início se insinuara, quase imperceptível. A páginas tantas, uma doença irreparável, crónica, uma dor perene mas não insuportável. Era como se tivesse ido por um caminho de onde não havia regresso. No limiar do precipício, as opções só dolorosas.


O sobressalto constante ecoava da insatisfação interior. Alimentava um pessimismo indeclinável; tudo parecia sombrio, até as cores radiosas vinham embrulhadas numa tumultuosa neblina carregada de tons plúmbeos. Encerrado na prisão pessoal, era incapaz de distinguir as coisas belas em oferenda do mundo em redor. Todos os dias zangado com o mundo, porque acordava zangado consigo. Não culpava o exterior a si, todavia. Ao menos, o discernimento para julgar os males pessoais, na recusa em atribuir ao exterior a si a culpa pelas amarguras que o consumiam.


A prisão em que vivia encerrado era como um torniquete que cerceava o sangue. Impedindo-o de chegar aos pontos vitais que então seriam caução para visitar outros horizontes, horizontes agora proibidos, ou apenas desconhecidos pelo impedimento do cárcere onde se deitara. Uma insólita condenação que não partira de fora de si. A condenação era uma fustigação pessoal. Uma viuvez interior que o deixava em permanente acabrunhamento. Entregue a uma melancolia imensa. Refugiado num isolamento que julgava terapêutico, a fuga necessária dos males alheios que tanto o atormentavam. Em raros momentos de discernimento, a noção de que os males alheios eram uma plácida gota de água ao pé do pessoal oceano de contrariedades que no mareava.


Era uma estranha prisão, a que encontrara como refúgio. Uma paradoxal privação de liberdade. Voluntariamente dedicado a um retiro, como se houvesse um castigo providencial a cumprir. Uma prisão monástica onde tratava de adiar o rebentamento do espartilho que o remetia à pequenez admitida. Sentia uma tremenda impotência. A incapacidade para trepar as paredes do pessoal cárcere e irromper pelas janelas em demanda das cores esplendorosas que os solarengos dias tinham para oferecer.


Mergulhado no autismo que parecia ser refrescante, dividia-se em dois hemisférios. Ora refugiado na prisão interior que era necessário esconderijo dos outros, a expressão da timidez irremediável. Ora percebendo o cansaço do pessoal aprisionamento, implorando a implosão das masmorras que o acantonavam a um singelo pedaço de si. Já nem sabia o que eram os momentos de lucidez: se a singular e reconfortante placidez da prisão interior, se a tempestade cerebral que, a espaços, sussurrava a mudança de agulha, o esboroamento do cárcere a que se havia voluntariamente remetido. Nestes dias de ambição libertária, sentia a amargura do tempo desperdiçado, o tempo que se havia consumido na pessoal masmorra de si. Metodicamente, escondia-se da ambição libertária para não adensar a interior doença que o consumia.


Era uma força indómita, como se estivesse ali a manietá-lo. A doença maior, crónica, já nem seria admiti-lo; seria entregar-se ao emudecimento do eu cerceado pelas altas ameias do castelo onde se aprisionara. Já desencantado com tudo, a começar pela sua existência, nem se lembrava do lugar onde tinha guardado a chave que encerrava a porta do ergástulo de si.



11.12.08

Os deputados, esses incompreendidos


Vai um grande pé-de-vento por causa de uma votação na Assembleia da República que podia ter terminado com a derrota dos socialistas em maioria absoluta, se cerca de trinta deputados da oposição não tivessem apressado o fim-de-semana prolongado. Agora, cada pormenor do episódio é dissecado pela comunicação social: que o número de ausentes não bate certo com o número de deputados que votaram; que certos deputados assinaram o ponto e deram à sola antes de votarem o que havia para votar na ordem de trabalhos; até já houve quem vasculhasse nos arquivos do parlamento, descobrindo que suas excelências têm o hábito enraizado de começar a semana mais tarde e antecipar o seu final.


De repente, toda a gente se atirou aos deputados. No rol de acusações, há uma que prende a minha atenção: o absentismo dos parlamentares é inadmissível porque são os representantes políticos dos cidadãos, o que deles exige uma especial responsabilidade. Devem dar o exemplo – o bom exemplo, supõe-se. As atenções da populaça recaem sobre os senhores deputados. Não têm direito ao deslize. Não têm direito a faltar aos trabalhos da assembleia da república. Concluem: quando são os deputados que dão o mau exemplo, que esperar da populaça senão a mesma mediocridade?


Este é um raciocínio atraente. Escorrega, porém, para um populismo simplório. No fim de contas, é um problema de pescadinha de rabo na boca. Os deputados representam "o povo". Se o absentismo, ou pelo menos a preguiça para o trabalho, fazem parte da idiossincrasia indígena, quem fica chocado com o elevado absentismo dos deputados? Quem se sente chocado com a impressão de que os deputados têm escassa predisposição para o trabalho ou é hipócrita ou sofre de miopia mental. Exigir aos parlamentares mais do que se exige ao cidadão anónimo é uma perversão da igualdade por tantos sagrada. Eu punha as coisas noutros termos: entre a gente anónima, cultivam-se expedientes para não se ir trabalhar, ou para amortecer um dia de trabalho intrometendo o ócio nas horas laborais. Não é por acaso que andamos pelos fundilhos do ranking europeu da produtividade do trabalho. À sua maneira, até nisto os deputados são representantes do "povo" que os elege.


Um exemplo para provar a injustiça de que os deputados são vítimas. Quantas vezes sindicatos disto ou daquilo marcam greves antes ou a seguir a um feriado que já estava encostado a um fim-de-semana prolongado? Como tenho o mau hábito de não acreditar em coincidências, tenho a impressão que estas greves são semeadas no calendário a dedo. Os grevistas sempre poderão ter um fim-de-semana muito prolongado, o que equivale a uma mini semana de trabalho. Alguém denuncia esta esperteza saloia? Pelo contrário: os jornalistas andam pela rua, de microfone empunhado à frente do "povo" que é o primeiro sacrificado com estas greves obscenas, e é o próprio "povo" que aplaude a greve. O mesmo "povo" que vai para os cafés e para os transportes públicos atirar-se furiosamente aos deputados que fazem a trouxa mais cedo. Eis como nem todos apanham pela mesma medida. O que dá uma noção dos padrões subvertidos de justiça deste "povo".


Já que se fala em greves, outra interrogação: os deputados podem fazer greve? Imagine-se o burburinho se um dia os deputados, de uma ponta à outra da paisagem partidária, se pusessem de acordo e faltassem ao parlamento, em greve. Seriam crucificados pelo "povo" sedento de justiça – e o "povo" adora ser justiceiro dos que afiança serem mais fortes. Só não entendo o seguinte contra-senso: nas eleições seguintes, o dedicado "povo" vai às urnas escolher a "corja" de deputados que se segue. O "povo" gosta de escolher medíocres que passam a figurar, em pouco tempo, como seus particulares ódios de estimação. Ou o "povo" é optimista, ou vive mergulhado na profunda ignorância, repetindo uma e outra vez a deposição do voto que, mais tarde, leva à fustigação dos que escolheu. Por que vota o "povo", então?


Tenho pena dos deputados. A sua árdua vida não é reconhecida pelo "povo" ignaro. E ainda se expõem à língua viperina de um profundamente ignorante "povo". Eles têm a sua vidinha, como qualquer mortal. E, como qualquer mortal que tenta convencer o chefe a deixá-lo sair mais cedo do trabalho porque vai de fim-de-semana prolongado, quem pode censurar os deputados por anteciparem um fim-de-semana comprido?


Eu acho que os deputados deviam criar um sindicato.


10.12.08

Manifesto (ultra) liberal contra os capitalistas


São a vergonha de um sistema. Os culpados maiores do opróbrio que se abateu sobre o capitalismo. Os capitalistas de duas faces. Os mesmos que tresandam falso liberalismo quando reclamam contra a intrusão do Estado em tudo e em mais alguma coisa. Para, ao primeiro aperto, virem em pose de mendigo, a mão estendida clamando pela piedosa ajuda do paternalista Estado.

São eles que instigam uma doentia cumplicidade entre negócios e política. Amesendam constantemente com políticos, incansáveis nas genuflexões que saciam o ego dos figurões. Perpetuam um sistema podre, o das decisões que trazem dinheiro a ganhar depois de amaciarem o pelo ao tráfico de influências que alimentam pelas veias da dependência estatal. Não têm o decoro de separar as fronteiras entre o privado e o público. São fautores, em compadrio com políticos sequiosos de poder por ostentar, de uma podre intimidade. A certa altura, já só o formalismo mantém a fronteira. A vidinha habitual encarregou-se de esbater as diferenças entre as duas esferas.


Uma casta dependente, tributária da tutela paternal das autoridades sempre farejadas. Não se conseguem emancipar dos políticos. Não homenageiam os antecessores que construíram a afirmação da esfera privada, quando então havia genuína, espontânea acção empreendedora, quando a livre iniciativa fazia todo o sentido. Hoje, apenas restam vestígios de livre iniciativa, sempre contaminada pelo concubinato com os políticos que selam, com a sua assinatura, as dádivas esperadas pelos empresários. Actores menores, manietados por uma letargia incompreensível, a letargia induzida pelo persistente estado de dependência tão do agrado dos políticos imponentes que adoram trazer o grande empresariado debaixo da asa.


Deles, a imagem de um oportunismo que se confunde com parasitismo. Só têm pernas quando se socorrem da milagrosa muleta do Estado. Nem percebem como se prestam a uma insólita, indirecta nacionalização. São a vergonha dos antepassados que souberam construir a pulso, e sem ajudas públicas, rendosos negócios. Agora, o que compensa é traficar influências para conquistar os favores de quem tem o cutelo da decisão entre as mãos. A suspeita de negócios obscuros não lhes retira o sono. Consta que é a única forma de sobrevivência. Todos comem do mesmo prato, por que hão-de os mais rectos fugir da maré dominante se com isso vierem os dissabores, o emagrecimento do negócio pela perda dos favores dos figurões que mandam?


Falta quem tenha coragem de virar a mesa do avesso, dar um murro na mesa e limpar a fétida, densa poeira que se acumulou. Faltam visionários que tragam a iniciativa privada de regresso ao seu lugar, ao lugar de onde nunca devia ter saído não tivesse um dia frutificado a perversa cumplicidade entre negócios e política. Entretanto, esses capitalistas deitam-se na lama que alimentam. E isso importuna-os? Não. Enquanto tiverem assegurado o seu quinhão nos proventos caucionados pela divina decisão dos governantes, toda a ética é letra morta, um arcaísmo. Enquanto os protestos e a figadal inimizade vierem dos detractores habituais, dos que se saciam no altar do marxismo e derivantes, o clamor que os vitupera não faz cócegas nos ouvidos. Enquanto do outro lado da barricada persistir um silêncio cúmplice, estes capitalistas continuarão de cedência em cedência até acordarem cercados por uma espessa teia de aranha salivada por uma seita de políticos que não tardará a abocanhá-los.


É diante destes pobres espécimes que ilustram o capitalismo que percebo a necessidade dos comunismos. São eles que dão alento aos comunistas, e isso não lhes perdoo. De cada vez que leio histórias dos inconfessáveis interesses que unem em comandita grandes empresários e figurões da política, mais entendo a alergia inata de comunistas e afins pela espécie do capitalista indígena, do indigno capitalista. Do capitalista que capitula diante dos que mandam na política e faz disso modo de vida. E depois há quem tresleia o filme que passa diante dos olhos e acuse os governantes de se ajoelharem diante dos empresários. Parece-me que estão a ver o filme às avessas.


O mal é que a roda dentada parece imparável. Um ciclo vicioso, que afunda a perversão de capitalistas enamorados pelo Estado. Nos intervalos do realista oportunismo desta gente, não haverá tempo para uma incursão, por breve que seja, em literatura que refresque os fundamentos do que são e do sistema que representam?


9.12.08

Da inutilidade dos serviços secretos


Passa um filme na televisão. Sobre espiões e serviços secretos, romanceando (ou talvez não) a frieza dos serviços secretos, na constante agressão dos vectores do Estado de direito. O filme narra as aventuras de um espião duplo, habituado a espiar para os Estados Unidos e para a (na altura) União Soviética. Ao fim de muitos anos de perseverança e de um deslize fatal, o seu papel dúbio foi descoberto. Ficou sob ponto de mira. Queriam apanhá-lo em pleno delito, conspirando contra a própria pátria, quando estivesse a entregar segredos ao inimigo. Para ser acusado do pior dos crimes: traição à pátria.


Documentos cifrados provavam a traição suprema do agente duplo. Revelara à KGB a identidade de dois espiões soviéticos infiltrados a soldo dos Estados Unidos. Mortos a sangue frio, os Estados Unidos perderam duas importantes toupeiras dentro do labiríntico KGB, o que não podia ser perdoado ao traidor. Foi então que dei comigo a pensar na inutilidade dos serviços secretos que andam por aí às escondidas, num bas fond que renega os princípios que alicerçam o Estado de direito.


Dizem, os que transigem com serviços secretos, que é no "superior interesse nacional" (ou qualquer fórmula estafada de idêntico calibre) que existe a espionagem com o carimbo do Estado. Os países têm que se espiar uns aos outros, mesmo quando são aliados para todo o sempre, para conhecerem os segredos da casa alheia. Para prevenirem que a própria casa seja arrombada. Esta é uma actividade de elevado risco. Na parafernália da espionagem, quem pode garantir que os seus segredos não foram descobertos por outro serviço secreto? Dizem que a contra-espionagem é tão importante como a espionagem. Tão importante é atacar como defender-se da espionagem dos outros. Só que o complexo mundo da espionagem não se compadece com certezas. A existência de espiões que fazem jogo duplo aumenta os riscos do insucesso. Muitas vezes, o inimigo é um dos "nossos". Quando damos conta que dormimos com o inimigo, já os estragos estão feitos e os segredos deixaram de o ser.


Sei que há países mais poderosos, mais ricos, onde os serviços secretos são mais profissionais. Nem esses países escapam ao vitupério dos espiões duplos. São os mais apetecíveis, por serem os mais poderosos, por serem os que garantem um prémio maior caso os segredos sejam desvendados. Mesmo os países mais pelintras se dão ao luxo de possuírem um arremedo de serviços secretos, nem que seja para ostentarem com orgulho a medalha que é a simples existência de serviços secretos. Que os haja em terras enlameadas em ditaduras não deslustra – é timbre das ditas. Existirem serviços secretos nos países que se gabam de estarem na vanguarda civilizacional, por serem democracias, é inexplicável. Os seus líderes e os gurus que promovem o modelo andam a pregar as respectivas virtudes e, afinal, lá num esconso lugar habitam os serviços secretos que desconhecem os princípios que regem o Estado de direito.


As actividades dos espiões a soldo dos serviços secretos são inqualificáveis. Espiolham, são intrusos em casa alheia, esmeram-se em fazer o oposto do que os progenitores lhes terão ensinado em tenra idade – não vasculhar a intimidade alheia. A espionagem é um voyeurismo com a chancela da autoridade. Aliás, um utensílio que reforça a autoridade. A autoridade é a pior voyeur de todos os voyeurs. Os maus exemplos chegam de onde não deviam chegar – isto na óptica dos que permanecem enfeitiçados pela existência do Estado. As autoridades a braços com o estigma do mau exemplo é um cenário balsâmico para mim: o espelho da desautorização do Estado, confirmando o adágio "não olhes ao que faço, olha para o que eu digo". O Estado, enfim, deseduca pelo punho dos serviços secretos.


Se há tanta espionagem e contra-espionagem, uma teia labiríntica de espiões que nunca se sabe se também ajudam a espiar quem lhes paga o salário, porventura faria sentido os países porem-se todos de acordo para banir os serviços secretos. Tal como a concórdia que proibiu minas anti-pessoais, a lógica faria nascer uma convenção que suprimisse os serviços secretos. Ficaria mais limpo, o mundo. E todos nós, inocentes peões no tabuleiro dos inconfessáveis interesses dos países, mais protegidos contra atropelos em nome de putativos "interesses nacionais".


Sou só eu a sonhar, ingénuo.


8.12.08

Quando o (semi) vegetariano defende o consumo de carne


O consumo de carne pelos outros, bem entendido. Pelos carnívoros que não caem em lírica objecção de consciência, por comiseração com os animais que entram no matadouro só para comprazimento da raça humana (é o caso do autor). Pelos carnívoros que ignoram os apelos compungidos dos castos protectores do ambiente, sempre militantes na pedagogia dos bons comportamentos em homenagem à qualidade do planeta.


Só que há incoerências, deliciosas incoerências, dos zeladores do ambientalismo. Agora terão descoberto que o gado bovino é responsável por um nocivo contributo para a degradação da atmosfera. As vacas e os bois são animais muito dados à flatulência. E de cada vez que se soltam gases intestinais das reses, há uma baforada de gás metano que se perde na atmosfera. Um gás, dizem os entendidos, muito venenoso. Já há algum tempo tinha feito eco de um estudo que divulgou o potencial poluente do gado bovino. O estudo agitou as consciências: os bovinos emitiam mais metano que jipes de alta cilindrada. Na altura, a malta defensora do ambiente denunciou as ligações suspeitas entre os cientistas e a indústria automóvel. Não acreditavam que bois e vacas rivalizassem com os automóveis na contaminação da atmosfera. Acusaram os cientistas de estarem a soldo da indústria automóvel. Um estudo por encomenda, com conclusões esboçadas logo à partida.


Agora, a cruzada ambientalista chegou ao gado bovino. Afinal os cientistas, os mesmos cientistas que haviam sido vilipendiados, estavam cobertos de razão. É mesmo verdade: a elevada actividade flatulenta dos bovinos é um perigo para a atmosfera. Até descobriram mais: a "peugada ecológica" – conceito que está na moda, mais um instrumento para a sensibilização ambiental das gentes – das vacas e dos bois é dantesca. Também por causa da quantidade de água que cada animal consome ao longo da vida, antes de perecer às mãos do carrasco que trabalha no matadouro. Ponto da situação: comer carne bovina é um atentado ao meio ambiente, devido ao metano que os animais expelem e à muita água exigível para os dessedentar.


Convém identificar os tipos de ambientalistas. Há os fundamentalistas da protecção do meio ambiente, aqueles que têm o sonho de varrer o Homem do planeta para a natureza regressar ao seu estado virginal. Há os que rejeitam os excessos do tipo anterior, mas que se insinuam no papel de educadores das massas, ensinando, com inigualáveis doses de presciência, o que os incautos devem fazer para não serem réus no suicídio do planeta. E há os que alinham nas modas – e o ambientalismo está na moda –, muitas vezes apenas para se libertarem do ónus da pessoal consciência, sem haver uma motivação espontânea para a preservação do ambiente, outras vezes apenas porque sabe bem integrar uma vanguarda qualquer.


Agora um pouco de especulação. Se algum dia estas facções representassem a larga maioria, e os apelos dos advogados de defesa do ambiente fizessem um eco audível, que destino estaria traçado para os infelizes bovinos? Se as pessoas deixassem de consumir esta carne, a espécie bovina estaria condenada a desaparecer. A pureza da atmosfera o exigiria. Falaria mais alto do que o (julgava-se) sagrado princípio da biodiversidade, tão amado pelos ambientalistas.


Daqui surge outra interrogação: que estirpe de ambientalistas é esta que preconiza o genocídio bovino? Serão, paradoxalmente, ambientalistas nada amigos dos animais, quando julgávamos que estavam à frente dos demais na defesa dos direitos dos animais. Afinal há animais que merecem ser sacrificados no altar no deus ambiente. Animais que são a ralé da fauna. Ou reféns do oportunismo ambientalista. Não fossem as pitonisas do ambiente adversárias de manipulações genéticas (mais porque são negócio do que por outra razão substancial), aposto que defenderiam o eugenismo dos bovinos. Até um cientista maluco manipular os genes dos bovinos para que deixassem de ser animais habituados à habitual deposição de ventosidades na atmosfera. Ou talvez não: como iriam perder a oportunidade de reeducar as massas, o seu divino desígnio, levando-as a abdicar da carne bovina? As cadeias de hambúrgueres que se acautelem.


Há, de facto, contradições deliciosas. A das pitonisas do ambiente, em cruzada pelo genocídio bovino. E as minhas próprias contradições, em contramão pela estrada dos ambientalistas, defendendo o consumo de carne bovina – pelos outros.


5.12.08

To live fast and die young


Um mito. Urbano, moderno, de mão dada com um certo romantismo. As vidas vividas tão depressa que consomem a própria voracidade do tempo. Ultrapassam o tempo por dentro. Os endemoninhados da veloz vida, depressa exauridos. Depressa se consome a sua então efémera vida. O epitáfio regista a biografia em tonalidades douradas: viveram pouco, decerto, mas muito. Há páginas e páginas de literatura a consagrar o estilo. E um exército de adoradores dos penhores da vida delirante, célere e breve. Poucos, contudo, os que passam do enamoramento das intenções e culminam o pessoal percurso com uma desvairada e breve correria pela existência.


Dizem que é na juventude que o festim da vida se extrai na sua plenitude. É na juventude que residem, intermináveis ao que parece, as energias para os desvarios. Dorme-se pouco. O rosário de excessos, infindável. Mas as cicatrizes dos excessos ficam acumuladas, inexoráveis. Ao início imperceptíveis, enquanto as forças não se exaurem. Todavia, a eternidade é a trémula ilusão que se desfaz em nada com a densa névoa de cicatrizes que testemunham os desmedidos excessos orgulhosamente ostentados.


Desvanecem-se, as forças. É quando o declínio chega de rompante. A rampa da vida na sua tremenda e imparável inclinação. Não há como travar a marcha para a decadência fatal. Morrem, ainda jovens, em corpos ulcerados por todas as cicatrizes que são o lastro orgulhoso dos devaneios incessantes. Morrem envoltos em corpos mirrados, mas imersos numa singular felicidade – a felicidade de quem soube chegar ao tutano da vida sem esperar pelo atroz envelhecimento.


Nessa altura, têm tempo para a contemplação em redor. Por pretexto, ou talvez não, amedronta-os a velhice. Dizem: que o envelhecimento é uma faca que se espeta na decência da vida. No seu leito de morte, não vertem lágrimas de arrependimento pela breve passagem pela vida. Selam pelo seu punho o testamento de uma vida plena, os minutos todos aproveitados, todo o sal, todos os sabores resguardados nas memórias indestrutíveis. No lacre do testamento, a teimosia derradeira: envelhecer seria um inútil desgaste de tempo, uma ofensa à impetuosa existência de outrora. Num paradoxal arrebatamento de lucidez, agradecem que a doença fatal neles tenha repousado tão precocemente. Sentem-se apaziguados com as respostas às perguntas listadas ao longo da vida. Saciados com a excitante forma de vida dos dias em que se insinuavam no tempo e eram eles que o consumiam.


Os adoradores da vida intensa e breve são um insulto à velhice. Um mastro onde hasteia uma bandeira hostil à biologia que embala a chegada da velhice aos corpos já cansados. Se a ordem natural fosse a dos cultores da vida em contra-relógio, a esperança de vida por aí abaixo parando numa cifra sem precedentes. A geriatria perdia o seu lugar no dicionário. E tantos os problemas financeiros que desapareciam com um toque de magia, o beneplácito de uma humanidade convertida ao arroubo de uma vida passada em fast forward.


Não me comovo, não me comovi, com o culto da vida veloz e delirante. Prefiro-a devagar, reter os instantes memoráveis, cultivar uma inacabada curiosidade pelo infinito que fica sempre por conhecer. As angústias do corpo que envelhece não são pretexto para a desilusão pela juventude cujos vestígios já só pertencem às recordações. Porventura será a angústia do ateu a estalar, com fragor, no peito estrangulado pela convicção de que a morte é o fim da existência. O imperativo de prolongar a existência até se tornar tão ténue que encontra o indeclinável fim. Querer que o dia final esteja longínquo, adiado sempre uma e outra vez, o mais que for possível.


Ao contrário dos enamorados pela vida que escorre fulgurante e depressa, não me amedronta o envelhecimento. Não acredito na fábula de uma existência ungida pela bênção da intensidade. Só a espessura do tempo cauciona a degustação do muito que a deambulação pela existência anima.


4.12.08

O préstimo de uma boa polémica


A saudável mania de polemizar. A inquietação intelectual que desvenda o desassossego da monotonia, quando muitos concordam em pensar da mesma maneira. É nessa altura que irrompe um incontrolável desejo de divergir, o metódico impulso de quebrar o enfermo consenso que é um espartilho da inteligência. Perturbam-me as consensualidades necessárias. Mais ainda quando com elas romper significa carregar o opróbrio do acantonamento, o lugar onde tombam as trovoadas dos que pulsam o cansativo pensamento judicioso.


É indomável a vontade de ser o agente provocador. Detesto discussões terminadas. E detesto ainda mais quando, numa discussão, alguém fica com a impressão que a coroou empunhando a harpa triunfal, esmagando o adversário, humilhando-o sob o peso da derrota. É que a verdade não existe. Ou, se existe, é apenas uma verdade circunscrita às fronteiras do nosso ser. Dos contrafortes das verdades que esbarram uma na outra nasce a frutuosa discussão. Por vezes, a polémica intensa quando os argumentos são trocados à mesma velocidade com que se desembainham as pessoais tempestades intelectuais.


Quando entro numa polémica não o faço para comprazimento pessoal, na demanda de um triunfo sobre quem entra no pleito. Não é para dobrar a minha razão sobre a razão do outro, vergando-a ao nada. As discussões que me apetecem são com as pessoas que gravitam em órbitas diferentes. Tenho dois propósitos. Provocar quem partilha comigo a polémica, fazê-lo questionar os seus próprios alicerces. E permitir que a outra pessoa me confronte com as minhas fundações. Se não fosse um lugar-comum, chamava aqui à colação o princípio socrático: "só sei que nada sei". As discussões apetecíveis são aquelas que nos revolvem pelas entranhas através das interpelações que viram do avesso os pessoais pressupostos. O questionamento permanente.


Só que nem sempre as polémicas se saldam pelo efeito desejado. Raras vezes, para ser franco. Ou porque quem se situa do lado contrário da barricada distorce factos, servindo-se da retórica falaciosa, num contorcionismo que expõe a fragilidade de quem encaixa mal os alicerces mexidos. Tantos os que confundem a pureza da discussão, mesmo quando entra numa apaixonante polémica, com a fátua grandeza de arrematar o pleito com estrondosa vitória. Nessa altura, só conta encaminhar a discussão para o terreno conveniente onde tudo se facilita para aclamar o triunfo cheio de galhardia. Tácticas soturnas, manobras desleais, a irritação que sobe de intensidade, por vezes a razão que se molda à razão da força – e a polémica perde os seus rudimentos.


É quando a discussão parece entrar no fétido território da luta entre políticos, como se houvesse um combate de emproados galos que querem, a qualquer custo, fazer vingar a sua crista cheia de elegância intelectual. Nessas polémicas não me apanham. Que elas só têm soberba, os seus intérpretes enleados no lodaçal dos falsos argumentos, actores que se tornam mestres em truques dignos de um qualquer mangas-de-alpaca. Perece, então, a polémica. Arrefecida no gélido entusiasmo dos que se excitam com o doce trinar da vitória que já se perfila. Não é demissão diante da derrota que se anuncia. É virar as costas a um combate inútil. Nesta coreografia a descompasso, já só sobra um diálogo de surdos. Já só resta o enternecimento ao testemunhar o ar altivo de quem se julga entronizado na sua suprema razão, espezinhada a razão do outro, desfeita numa inócua concha sem conteúdo.


O chamamento das polémicas vem ao de cima quando sinto o frémito de indagar as minhas próprias certezas. Ou de interrogar alguém possuído por indesmentíveis imperativos categóricos. Diante destes, o truque de aparecer como um ingénuo predisposto à catequização. Fazer o ar inocente dos imberbes, dos que julgam saber apenas que nada sabem. Aqueles que, aos olhos dos disseminadores de verdades incontestáveis, são o terreno apetecível para mais doutrinação, para outra rés que deixa de andar tresmalhada. Desses sacerdotes que proclamam imperativos categóricos gosto de ser vítima. É quando frutificam as polémicas mais promissoras. Que, todavia, em breve se desfazem em nada. Os imperativos categóricos aspergidos pelos doutrinadores de verdades várias não aceitam refutação. São alérgicos à enxurrada de interrogações, incapazes para domar o questionamento dos pessoais, ideológicos pressupostos. Detestam ser importunados por agentes provocadores.


As polémicas são um néctar precioso. Uma filigrana que se despedaça ao menor abalo das convicções.


3.12.08

Assim se vê o anacronismo do PC


Não acredito que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço, como era doutrinado no tempo do Estado novo. Mas também recuso a visão romântica do PCP que ainda domina uma certa intelectualidade lusa. Os tempos são de crise para os comunistas lusitanos: perderam a âncora soviética, restando-lhes os gloriosos exemplos que resistem à varridela da história (Cuba, China, Coreia do Norte); e perderam espaço eleitoral, vindo por aí abaixo nas sucessivas eleições. Sobrevivem. De cada vez que ficam a roçar os 10% dos votos é uma tremenda vitória eleitoral. Aliás, é apanágio dos comunistas: seja qual for o resultado que obtêm nas eleições, é sempre uma vitória. Um estranho caso de fair play eleitoral.


Nos antípodas do comunismo, acho contudo que os comunistas devem continuar a ser presença marcante. Há uma certa pedagogia na sua persistência na paisagem partidária. Há por aí muitos críticos que acusam o PCP de ser um caso perdido, parado na história, incapaz de se desprender do dogmatismo ideológico, em suma, um partido anacrónico. Criticam a peculiar concepção de democracia dos comunistas – a visão do que é democracia como modelo de organização da sociedade e a democracia interna do partido comunista.


Começo pelas críticas relacionadas com a democracia. Quem não é militante deste partido não se deve pronunciar sobre a qualidade da democracia interna. Esse é um problema que só diz respeito aos militantes. Se convivem com a atípica concepção de democracia interna, quem os pode censurar? Já subscrevo as críticas ao enviesamento dos comunistas quando empregam a palavra "democracia" como sistema político de que se dizem seguidores. Nem a teimosia de reinterpretarem à sua maneira os atropelos às liberdades que foram cometidos pelos sucessivos governos da sagrada União Soviética os impede de dar lições de democracia. Para eles, "a direita" não anda muito longe do "fascismo" (não acentuar a primeira sílaba, para pronunciar como os comunistas nos habituaram). É o atrevimento de quem se serve de um catecismo ideológico que não renega o totalitarismo. O passado é o legado que os marca. Não só o passado do altar soviético que sempre reverenciaram. Também os episódios de turbulência social e política em que foram protagonistas no Verão quente após a revolução que instaurou a democracia.


Já as críticas que acusam o PCP de anacronismo me parecem desacertadas. Não digo que o PCP esteja parado no tempo, agarrado à ortodoxia ideológica. Só não concordo que isso seja motivo de crítica. Deixá-los ser saudosistas dos idos gloriosos da União Soviética. Deixá-los confessar a admiração pelas maravilhosas democracias que existem em Cuba, na China, na Coreia do Norte. Há melhor confissão dos pergaminhos democráticos dos comunistas caseiros? Existe melhor testemunho do que teriam preparado caso algum dia chegassem ao poder, com o manto totalitário a estender-se na asfixia das liberdades fundamentais? Retomo a ideia: há uma certa pedagogia na existência do PCP.


(A propósito, apetece interrogar a camarada Odete, a figura maior do congresso do último fim-de-semana, quando num comovente discurso pressagiou a proximidade da falência do nefando capitalismo. Camarada Odete: e na adorada China, o capitalismo também tem os dias contados?)


Há dias escutei alguém a sentenciar, do alto da sua sabedoria: que a sobrevivência do PCP, que teima em conquistar deputados e câmaras municipais, é sinal da pequenez da portugalidade. Percebo a tentação de quem assim raciocina: que é como quem diz, ainda há muita gente que aceitaria regressar a uma ditadura. Mas não concordo com a mesquinhez de quem revela tamanha ausência de fair play democrático ao causticar os eleitores do PCP. São os mesmos que têm o despautério de insinuar que o povo é ignaro quando cauciona o triunfo eleitoral de um partido que não preenche os seus gostos pessoais.


O PCP é uma peça de arqueologia política. Que deve ser preservada, para avivar a memória histórica do que foi o comunismo. Tal como não devem ser proibidos os partidos da extrema-direita, no pessoal desacordo com o sectarismo da Constituição que temos. Uns e outros são importante caução a quem entender a democracia como o regime possível, o regime onde, pelo menos, a tolerância e a liberdade de expressão não são cerceadas com o beneplácito do poder e da lei. Esta é a utilidade dos comunistas, como se fossem peças de um museu que, através da sua observação, muito ensinam.


Uma interrogação final: o camarada do "partido irmão" de Cuba, aquele que excitou os congressistas com a oferenda de um retrato dos irmãos Castro, viajou de Cuba em classe executiva?


2.12.08

E o rock and roll trouxe a palavra do senhor (variante evangélica)


Os tempos modernos são uma sucessão vertiginosa de modismos. Efémeros modismos. Uma revoada que aporta ao cais onde são experimentadas as modas do momento. Na maior parte das vezes, os modismos que vingam são os que vêm embrulhados no adocicado papel da surpresa. É que a criatividade esgota-se na nuvem que resguarda os ventos da imaginação. De cada vez que surgem ventos que sopram uma aragem inusitada, os gurus das novas modas ficam excitados e impingem a excitação aos acríticos seguidores.


Vale para as artes, como vale para a moda, até para excitações colectivas que fabricam um exército de seguidores de personalidades que desaguam na paisagem política. Por hoje, umas reflexões sobre um modismo caseiro no panorama da música moderna. Uma vaga de bandas e artistas que, dizem-nos os promotores em estações de rádio, são uma refrescante vaga no panorama musical. Saem do anonimato e emprenham os ouvidos com um insólito rock and roll, ou música de intervenção religiosa na modalidade "cantautor", trazendo a "palavra do senhor" com as vestes da música que nunca se pensaria estar a jeito da disseminação evangélica. Artistas e bandas que começaram a carreira a dar concertos em templos evangélicos, o acto que se segue ao culto. Um após o outro, desprendem-se do anonimato dos templos evangélicos e tomam conta de um quinhão da antena radiofónica e da divulgação na imprensa da especialidade.


Alguns exemplos para a apreciação dos desconhecedores que estejam curiosos. A coqueluche: os Pontos Negros. A gravitar no sucesso desta banda, João Coração, Tiago Guillul, Samuel Uria – correndo o risco de cometer uma injustiça ao ignorar outros nomes na calha para o futuro sucesso. Nos gostos musicais vinga a subjectividade. Como a liberdade de opinião. No que se segue, há o risco de pisar o calo aos admiradores do género bíblico-musical. A menos que resvalem para a cegueira dogmática, aprovem a liberdade de opinião e a diferença de padrões estéticos de quem não se revê no estilo.


Tenho que admitir, para começar, um preconceito. Por um imperativo de honestidade intelectual. O agnosticismo é o obstáculo maior à degustação do rock and roll bíblico. Uma música não é apenas a melodia; as palavras – poemas ou não – que lhe dão uma vestimenta contam, e muito. Naqueles artistas há, em doses variáveis, a disseminação da palavra divina, uma retórica tingida pela moralidade religiosa. Não quero que esta pessoal objecção seja entendida como um clamor para vedar os canais radiofónicos a artistas que trazem a mensagem evangélica através da música. Nem quero que estas palavras, este preconceito, sejam entendidos como uma pessoal obstinação dirigida contra a igreja evangélica. Apenas não me enamorei pelo género, ao contrário de muitos divulgadores que, usando a antena radiofónica e as páginas de jornais, dizem maravilhas daqueles artistas e passam-nos à exaustão, desfazem-se em textos pródigos em elogios.


Interrogo-me: a generosidade dos feitores da moda da moderna música é sintomática de conversão religiosa? Andarão eles pelos templos evangélicos, e decerto não apenas em demanda por novos génios que dedilham as guitarras enquanto entoam loas à metafísica aspergida pelos pastores? Outro tipo de interrogação: o que sinaliza a insólita ingerência da retórica evangélica num género musical que tem sido largamente insensível, até hostil, ao fenómeno religioso? Porventura os horizontes mais abertos da variante evangélica, pelo menos quando se comparam com a anquilosada e tacanha postura da dominante igreja católica, queiram significar algo. Na igreja católica, os ensaios de "modernização" musical resultam em lamentáveis exercícios. Tão anti-estéticos que nunca tiveram o privilégio de chegar à divulgação radiofónica. Na igreja evangélica, a abertura ao modernismo do rock and roll tingido pela retórica bíblica não será um oportuno acto de marketing? Só para atrair os mais jovens aos templos, pois no final vêm os concertos como rebuçado que adoça o culto.


Tenho bom remédio: não consumir o género. Posso retomar o pessoal acto de higiene intelectual. Cercear a entrada de tal música nos ouvidos – a auto-censura que obriga a mudar de canal quando os pessoais ódios de estimação (o primeiro-ministro, o líder do Bloco de Esquerda, o presidente de um clube a contas com a justiça) tomam conta da televisão.


1.12.08

Da ministra da educação, para a galeria dos “tesourinhos deprimentes”


Dizem que o Público é pouco simpático com o notável governo do momento. Dizem alguns que a linha editorial do jornal enveredou por uma tacanha cruzada contra o governo de tão elevadas qualidades e apetências. Estranho o diagnóstico. Na sexta-feira, o jornal serviu uma entrevista em jeito de panegírico à delapidada ministra da educação. Se não era para recuperar a imagem (e a auto-estima?) da senhora, não sei o que seria.


Só que há presentes envenenados. Porventura vão acusar outra vez o jornal de impiedoso ataque a membros do governo. Algures a meio da caritativa entrevista, a senhora confidenciou: "Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, não sei já em que circunstância, e escreveu-me a dizer: 'Quando for grande, vou inscrever-me no PS.' É tocante." Não devia o servil jornalista apagar, com o seu pessoal lápis azul, este sublime e insano momento kitsch da entrevista – será a interrogação retórica dos apaniguados do governo do momento, acusando o Público da enésima orquestração contra o dito governo.


A carta existe? Podia a senhora ministra mostrá-la ao jornalista que, conivente decerto, não terá pedido a sua certificação. Se a carta existe, seria a coroa de glória da senhora – ela que, para infelicidade pessoal, se debate com tantas resistências às reformas que pôs em marcha. Bárbaro povo o que é incauto ao ponto de não se rever na bondade e na excelência da ministra. Ela confessava, ainda: estar cansada. Deve ser a agnosia dos que não prestam a homenagem que ela, no seu íntimo, considerará merecida. Só os predestinados para ecoarem, com insolência, o cansaço do povo ignaro. Talvez seja sinal da duvidosa cultura democrática, dos reduzidos padrões de tolerância, de quem ainda sente saudades da juventude passada nas franjas de semi-clandestinos movimentos anárquicos.


(E aqui o anarquista tem de meter a colherada – o anarquista de outros quadrantes, todavia, que Bakunine e afins não pertencem à minha cartilha. Fico perplexo com a rotação de cento e oitenta graus: de quem navegou nas águas da anarquia e agora se delicia com o sedutor poder outrora vilipendiado. Personagens conhecidas que deram cambalhotas parecidas é o que abunda. Defendem-se: devaneios da juventude, da irascível juventude vivida muito depressa, arrebatada com ideias e causas de apaixonantes radicalismos. Como pode um anarquista de ontem tornar-se detentor do poder anos mais tarde é algo que ultrapassa a minha capacidade de compreensão. E como pode alguém que traz à entrevista nostalgia pela juventude enamorada pelo anarquismo exercer o poder de maneira tão arrogante, tão despótica, causa-me ainda mais espécie.)


Regresso à frase que há-de ficar emblemática quando a senhora for varrida para um canto da história. E à interrogação: a carta do menino existe? Vou supor – mas só supor, que a crença é ténue – que a ministra da educação não estava a mentir quando trouxe a carta do menino para a entrevista. Onde queria ela chegar? Que aquela fatia do povo néscio que ainda não se convenceu que devia votar PS não é merecedora de crédito algum? Que o PS devia ser a nova união nacional? Como é adorável esta insidiosa forma de fazer passar mensagens. Sim, insidiosa: sem revelar a idade do petiz enfeitiçado com a grandeza do PS, em todo o caso, um sobredotado petiz que, ainda na tenra idade, se ocupa já da paisagem política e partidária. Ai de quem ouse desconfiar que a carta não foi lavrada pelo punho da criança embeiçada pelo PS. E ai de quem suspeitar que a carta é um moinho de vento na cabeça da senhora ministra.


Esta frase, uma "frase Santana Lopes", é epitáfio antes de tempo. A ministra deve andar extenuada, as forças exangues nesta tenebrosa guerrilha com professores e sindicatos. Perdeu o norte e embrulhou-se no diáfano manto da ridicularia. A frase, digna de um programa de humor. Ou de um filme com traços de surrealismo. Ela sentenciou: "é tocante", que o menino (ou alguém por ele; ou apenas a febril imaginação de sua excelência) tenha prometido casamento com o PS ainda em idade tão precoce. Há quem goste de dar coices em si mesmo, não é senhora ministra?


É nestas alturas que vem ao de cima uma pessoal, mas indomável, frustração: não consigo gostar do PS, nem um grama que seja. Por que será?