3.6.09

Temerários e desistentes



Não será melhor

Não fazer nada?

Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo

Para um naufrágio sem água

Álvaro de Campos, Poesia


Era um tremendo cansaço. As rotinas que retiravam sabor à existência. À boca só vinha um sabor amargo, as muitas decepções a esmagarem-se contra o peito. O dolorido peito. O regaço para os sobressaltos que se repetiam com sofreguidão. A certa altura começava a desconfiar que não havia palavras belas, ou que os dias podiam nascer soalheiros. A certa altura, habituara-se ao céu plúmbeo, que parecia ser o espelho da tonalidade que cobrira a existência.


Esforçara-se. Ao menos convencia-se que sim. Esforçara-se por dar luminescência. Dia atrás de dia fora o arquitecto que irrompia numa imaginária escadaria céu acima. Na mão levava uma vassoura para varrer as densas nuvens que teimavam em aspergir as gotas de melancolia. Quando descia, vinha tingido da fuligem das nuvens e o céu continuava encoberto. As forças, exangues de tanto tentar. Com o passar dos dias, os simples actos da vida amontoavam-se num santuário de torturas. Acordar era um suplício, vestir-se era um suplício, respirar era um suplício.


Sentia-se aprisionado numa coreografia de que não fazia parte. Um dançarino a esboçar os passos forçados numa dança equivocada. O tempo e o local pareciam a descompasso. Não eram seus. O próprio corpo era um corpo estranho. Era como se as pernas não pertencessem ao mesmo tronco que trazia uns braços também estranhos. Todos os dias, os habituais locais pareciam desconhecidos sítios que os pés pisavam pela primeira vez. De resto, já nem as memórias soavam a nada. Só não entendia se o esquecimento de tudo e de si era um brutal esforço para perceber que teria sido melhor ser outra pessoa. O esquecimento atilado num refúgio de si.


O corpo já disforme envergando os andrajos que o descuido de tudo cultivara. Era o ninho da loucura que tomara conta das veias, envenenando o sangue com uma seiva que o corroía pelas entranhas. E teimava na lucidez de quem se julga penhor dos sentidos; era lá fora, em todos os outros com quem se cruzava, que a demência amesendava. E mesmo assim procurava, com sofreguidão, o mundo lá fora como santuário onde embalsamava a insanidade dos outros. Ria-se. Sonoras gargalhadas que incomodavam os transeuntes. Ria-se na direcção das caras que vinham em sua direcção. Ora rostos imperturbáveis – a habitual indiferença da cidade que cultivava os gélidos sentimentos –, ora uma reprovação que se misturava com complacência. Era o estertor que o conduzia pela mão.


Nas águas perturbadas que eram seu ninho de demência, às vezes conseguia erguer a cabeça e espreitar o curso do mundo. Havia fendas que deixavam ver as cores claras que irrompiam conta a escuridão que tinha tomado conta de tudo. Instantes, breves instantes, em que a demência contracenava com uma teimosa, relapsa lucidez. Então as dores avivavam-se, insuportáveis. O maior dos males é quando diante da encruzilhada não há roteiro que forneça resposta para a saída. Sobra um turbilhão que empurra o corpo para um interminável precipício. A vida transforma-se: parece apenas a queda interminável ao longo do precipício. A vida errante transformara-se, tortuosa, num planalto onde soprava um vento agreste, um vento que anunciava a resignação de tudo. Tudo era apenas as ruínas do que fora outrora.

2.6.09

O voto obrigatório. Outra vez


Costuma acontecer em véspera de eleições. O odor a forte abstenção paira no ar. Saltam, ofendidas, as pitonisas da democracia. A abstenção, a abjecta abstenção, é um crime, a demissão da cidadania. Os que resvalam para a abstenção, envergonhando os pergaminhos da democracia, carregam as piores injúrias. Em vez de se perceber porque há tanta abstenção (talvez fossem desconfortáveis os resultados), olha-se para o lado e alguns ensaiam a duvidosa democrática ideia do voto obrigatório. Conceda-se: matava-se o problema pela raiz. Falta saber a que preço.


Há dias a ideia voltou para a arena pública pela voz do presidente do governo regional dos Açores. Ontem, um politólogo da nova vaga (Pedro Magalhães) escrevia sobre o assunto no Público. A certa altura sustenta que "(d)o ponto de vista normativo, sobre o que a democracia é ou deveria ser, o argumento de que existe um "direito a não votar", de que o voto não passa, na melhor das hipóteses, de um dever moral ou cívico e de que a imposição de penalizações a quem não vota é uma violação dos direitos e liberdades individuais é, claro, perfeitamente defensável. Tão defensável como a noção de que o voto seria apenas mais uma de muitas outras obrigações a que os cidadãos numa democracia podem ser vinculados – colocar os filhos na escola ou pagar impostos, por exemplo – e de que ninguém é obrigado a fazer uma escolha que não deseje num sistema de voto obrigatório (mas apenas a comparecer na assembleia de voto, podendo votar em branco ou nulo). Antidemocrático? Vinte e nove democracias no mundo prevêem hoje o voto obrigatório. Em países como a Bélgica, o Luxemburgo, a Austrália, o voto obrigatório é imposto com recurso sistemático a sanções monetárias consideráveis. É preciso algum contorcionismo argumentativo para conseguir estabelecer que estes três países, por exemplo, são menos "democráticos" ou menos "livres" que Portugal devido ao simples facto de punirem os eleitores que não votam."


Há que notar a cautela: "do ponto de vista normativo". Como quem diz, do ponto de vista das ideias, é tão defensável dizer que o voto é um direito acima de um dever como manter a ideia contrária. Tudo depende dos argumentos. E, sobretudo, dos pressupostos que precedem os argumentos. O politólogo foge como o diabo da cruz de uma posição inequívoca. Não nos diz ao que vem. É uma certa forma de fazer ciência, que tem horror a exibir posições que coloquem os cientistas sociais de um certo lado da barricada. Só que esta maneira de estar, tão ao jeito do "não f*** nem sai de cima", não chega para afirmar posições de autoridade intelectual. É nestas alturas que prefiro a ciência engajada, tão popularizada pelo guru Boaventura Sousa Santos e seus discípulos. Ao menos sabemos com o que contar à partida. Podemos não concordar, mas não há ali qualquer ambiguidade.


Magalhães tem uma posição que tanto dá para um lado (recusar o voto obrigatório) como para o outro (aceitá-lo como imperativo). Todavia, quando interroga se a obrigação de votar é uma violência à liberdade individual quando ela existe em vinte e nove países, percebe-se onde quer chegar. Pode afirmar que só por "contorcionismo argumentativo" é que Bélgica, Luxemburgo e Austrália são menos democráticos do que outros onde o voto não é um dever. O seu contrário também é legítimo: só por contorcionismo argumentativo é que alguém pode ditar as menores credenciais democráticas dos países onde o voto não é obrigatório.


No seu blogue, Magalhães escorrega para um argumento simplista: "(o) facto de se erigir a liberdade individual como único e exclusivo princípio em torno do qual se deve organizar a delegação de poder dos cidadãos em representantes numa democracia (ignorando os restantes princípios básicos, a saber, igualdade política e capacidade de controlo dos representantes) e querer sempre terminar por aí qualquer discussão é bastante revelador da cultura política de um certo tipo de liberalismo." Com posições monolíticas a discussão de ideias torna-se num diálogo de surdos. Ou, se calhar, às vezes a discussão enquista-se mesmo num diálogo de surdos. Outra vez: tudo depende dos pressupostos. Quando os pressupostos desafinam, é como resolver um problema matemático e se falha logo a primeira equação.


Para um libertário, a liberdade individual tem mais valor do que a igualdade política (uma miragem) e a capacidade de controlo dos representantes (um lirismo). O voto como direito vem antes, muito antes, do voto como dever. Aliás, para um libertário não faz qualquer sentido contemplar o voto como dever. É um direito com indeclinável faceta voluntarista: exerço-o se essa for a minha vontade, sem qualquer espartilho que venha do exterior. E comparar o voto com o dever de pagar impostos é comparar o que não é comparável. Ou forçar uma comparação só para forjar uma conveniente conclusão.


Enquanto o voto for uma decisão individual e não escrutinável pelos demais, quero fazer com o meu direito de voto o que me aprouver. Mal de nós se as decisões individuais fossem susceptíveis de esbulho. Um dia destes, as opções individuais de vida teriam que vir ao tribunal da praça pública para serem caucionadas ou sancionadas pela iluminada lupa de sacerdotes da moral alheia.

1.6.09

La Fura dels Baus, “Boris Godunov”


E se fôssemos convidados a perceber as motivações de terroristas? E se, por aí, fôssemos convidados à condescendência com o terror que espalha violência, cego? Dizem: tudo tem as suas causas e as suas circunstâncias. Nada surge do nada. Não há actos, e ainda por cima actos que gritam uma violência inaudita, enxertados de leviandade. Serão actos que exigem compreensão pelo cenário extremo em que acontecem?


A companhia catalã de teatro levou à cena uma peça inspirada na ocupação de um teatro em Moscovo por um grupo de terroristas da Chechénia. A plateia foi sequestrada e usada como trunfo contra as autoridades russas. Durante três dias, os terroristas chechenos tiveram os holofotes do mundo virados sobre si, sobre a sua causa. Os La Fura dels Baus encenaram os três dias de sequestro. Os actores faziam as vezes dos terroristas que tinham ocupado o teatro enquanto os espectadores assistiam à peça Boris Godunov. Era como se houvesse uma peça de teatro dentro de outra peça de teatro. Quem assistia a este palimpsesto teatral vinha à boca de cena como involuntário actor. Não é insólito nas peças dos La Fura dels Baus, que sempre se distinguiram pela interactividade, por vezes até desagradável e provocatória, com o público.


A intimidação e a violência latente troavam. Era como se tudo se estivesse a passar como naquele dia em que os terroristas chechenos ocuparam o teatro em Moscovo. Toda a tensão da ocupação. Os terroristas encapuzados a sitiarem os espectadores, enquanto armadilhavam o teatro. Tiros para o ar, assustando os espectadores. Um estrondo tremendo, simulando o corte de electricidade que pôs o teatro às escuras. E a pose intimidatória dos actores que rondavam os espectadores, andavam pelo meio dos espectadores, de arma em punho. Uma vez por outra, a intimidação crescia quando um dos terroristas trazia um refém ao palco – mas um actor infiltrado entre os espectadores. Não fosse algum do público estar estupidamente divertido com a encenação, rindo-se com desdém dos terroristas que faziam a ronda, e tudo se passava como se estivéssemos sitiados naquele teatro. Não éramos apenas figurantes. Éramos tão actores como os actores que seguiam o guião.


Havia câmaras espalhadas pelos corredores e pelos camarins do Coliseu. Víamos o que os terroristas faziam nos bastidores do teatro. Despíamos então a condição de sequestrados e passávamos a ser espectadores do que os reféns não viram. Assistimos às negociações entre os terroristas e a mediadora indicada pelo governo russo – uma chechena exilada. E conseguimos deitar um olho na célula de crise comandada pelo presidente russo. Espreitámos as conversas que equacionavam os vários cenários para a resolução da crise.


Uma peça de teatro dentro de outra peça de teatro. Uma das terroristas, uma jovem rapariga com vinte anos, fora actriz. Pergunta-lhe um dos comparsas pelas peças que representou. A rapariga rejeita responder, não estava ali para lembrar que fora actriz. Mais tarde, quando acompanha um dos actores à casa de banho, é interpelada pelo actor. O diálogo interceptado por um dos líderes dos terroristas, o mais violento e instável deles, faz com que o actor e a terrorista que foi actriz tenham que contracenar durante uns instantes. Contracenaram a peça que o actor estava a apresentar ao público sitiado. A peça em que a actriz agora terrorista tinha participado antes de se fazer activista da causa chechena.


Os enxertos da peça Boris Godunov têm um simbolismo. A peça é sobre um déspota que tomou conta do coração do povo, do povo incauto que se deixa enamorar por déspotas que só revelam essa condição quando tomam o poder. Ao serem déspotas, inicia-se uma espiral de terror e intimidação que parte das próprias autoridades. A esquizofrenia do déspota leva-o a considerar prioridade a perseguição aos conspiradores que sabe, ou apenas imagina, existirem para lhe tirarem o poder. Num diálogo entre dois conspiradores, um deles insiste em usar do terror para depor o déspota. Pois os fins – sublinha – justificam os meios, quaisquer que sejam. O déspota acaba por morrer envenenado pela sua própria cicuta.


A peça traz pinceladas de filosofia política. Quando o cansaço se apodera ao terceiro dia de sequestro, os terroristas mostram-se agitados pelo jogo de paciência das autoridades, que tardam em dar um sinal. Divisões entre os terroristas. Hesitações que levam os hesitantes a interrogarem se ainda faz sentido manter toda aquela gente sequestrada, gente inocente. O líder dos terroristas declina, ele também entoando a voz do déspota daquele teatro: os espectadores sequestrados não são inocentes, pertencem ao país ocupante. Escolheram os dirigentes do país ocupante. Merecem uma punição, caso as autoridades russas não ouçam as exigências dos separatistas chechenos.


Perguntei-me: não haverá uma cegueira entre os terroristas, ao não distinguirem entre coniventes e inocentes? E, por esta cegueira, e pela gratuita violência, faz sentido a condescendência com o terror?

29.5.09

A muito pouco edificante finança


Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades?


Hoje é quase como se fosse um daqueles arautos da desgraça do capitalismo, sempre a reclamar contra a globalização e o consumismo e a ganância de um punhado de gente que mete facas nas costas de todos que aparecerem pela frente só para amealharem uma fortuna obscena. Por um dia, um dia que seja, palavras que destoam. Pois há gente que se inebria com o poder do dinheiro. Gente que terá vindo do nada e trepou a escada do poder, granjeando muitos e importantes contactos que depois alimentaram negócios rendosos. Mas quanto mais se amealha, mais alto sobe a fasquia. Outros negócios, que multipliquem os proventos a uma escala exponencial. Com franqueza, entendo agora os que interrogam: para que quer esta gente embolsar tanta abastança?


O contexto é o das salgalhadas do BPN, o cemitério de personalidades que fizeram parte do imaginário cavaquista (antes da segunda vida política de Cavaco). Gente que nunca cirandou no mundo da alta finança e que, de repente, desatou a fundar bancos e a fazer desses bancos invejáveis (para quem anda no ramo) exemplos de entidades lucrativas, muito lucrativas, miraculosamente lucrativas. Não há como escapar à pergunta: terão essas figuras aproveitado o poder que tiveram na política para dar o salto para o mundo da banca? E outra interrogação que não me sai da cabeça: é legítima a passagem de um hemisfério ao outro?


Por genética, adverso a proibições. Só que às vezes, quando vejo estes nada edificantes episódios de gente transviada da política para a alta finança e que depois é apanhada num fogo que mistura ganância com ilegalidades, sobe em mim um impulso. Um impulso que permitisse legislação a impedir que gente que ocupou importantes cargos políticos pudesse transitar para a alta finança ou para grandes conglomerados de empresas, assim que deixasse o cadeirão do poder. Reprimo, contudo, o impulso. A rejeição das proibições fala mais alto.


Do que esta gente não se livra é da pinta de marmanjo. Dos marmanjos típicos, os Chico-espertos que navegam à superfície à custa de arranjinhos e manobras duvidosas, distingue-se pela pose aprumada, pela respeitabilidade que chama a si pelo lastro de governante. Tirando isso, exalam uma pestilência que faz deles personagens tão pouco recomendáveis como os marmanjos de má pinta. Quando o antigo presidente do BPN se libertou do silêncio e provocou um terramoto, pouco interessa saber quem conta a verdade e quem está embrenhado em mentiras sem fim. Suspeito que há por ali muitas mentiras, contadas por todos os envolvidos, e despeito, muito despeito. Ao menos o pouco edificante episódio de lavagem de roupa suja na lavandaria do parlamento serviu para que o senhor conselheiro de Estado escolhido pelo presidente da república percebesse o fim que o reservava. Demorou, mas chegou o dia em que abandonou o Conselho de Estado. Terminou a sua carreira política (se, por uma vez, esta terrinha for um lugar normal).


Dias Loureiro foi, em tempos, entronizado delfim de Cavaco por certa imprensa. Ainda me lembro, já há uns largos anos, de o Expresso ter dado à estampa uma reportagem que especulava o que seria esta terra vinte anos mais tarde; Dias Loureiro era o primeiro-ministro… O homem com cara de carneiro mal morto, o homem que ao falar me deixa a impressão que mente por todos os poros, acabou. Pode ser que comece uma limpeza maior na alta finança, onde permanecem figurões que foram da política e se passaram para a finança.


O nada edificante episódio deixou outro rastilho de pólvora. O vital candidato socialista, desastrado como o conhecemos, veio exigir que o PSD faça uma caça às bruxas. Pois o caso BPN é a vergonha actual de um certo PSD herdeiro do cavaquismo de primeira geração (se é que há duas gerações de cavaquismo). O vital candidato só atrapalha os camaradas socialistas e incomoda o grande líder da nação: então não se lembra que foi Dias Loureiro que apresentou a biografia (ou devemos chamar hagiografia) do querido menino do PS?

28.5.09

Insisto: as campanhas eleitorais fazem mal à saúde (a começar pela dos próprios candidatos)


Anunciei: estou em reclusão de noticiários televisivos para não apanhar com a violência intelectual da campanha eleitoral em imagens. Não quero que as imagens de comícios populistas, arruadas folclóricas e candidatos aberrantes me entrem pelos olhos. Mas continuo a ler notícias em jornais.


Cada vez mais me convenço que as campanhas eleitorais fazem mal à saúde pública. E à saúde dos próprios candidatos imersos na agenda apertada da campanha. Se me deixassem escorregar para o mau gosto, trazia à lembrança a anterior campanha eleitoral para as eleições europeias, que tirou a vida ao cabeça de lista do PS após uma conturbada visita a Matosinhos. Não é preciso tanto. É só olhar em redor e ver como os candidatos têm que visitar feiras e orfanatos e empresas públicas e aturar sindicalistas exaltados. E destruir o fígado e o estômago em jantares e mais jantares que reúnem o cortejo de apoiantes. Ou como resvalam para a indigência mental quando as palavras se entoam no seu ridículo: é quando, contagiados pela febre demagógica que tem o seu zénite na campanha, desfiam um rol de propostas e promessas espalhafatosas, ou quando são apanhados no contra-pé da gaffe.


Dois exemplos dos últimos dias. O impressionante e vital candidato socialista continua na senda da rebeldia partidária, soltando palavras que se combinam em propostas ou ideias que atrapalham a agenda do partido que o leva a concurso eleitoral. Os independentes, se lhes dão rédea solta, são um bico-de-obra para a disciplina que as seitas partidárias adoram impor. A derradeira novidade é a ideia de um imposto europeu. Para o vital candidato socialista, "mais Europa" exige um compromisso dos cidadãos. Se querem "mais Europa", com todas as garantias que a Europa lhes pode dar, devem pagar por isso. O resto – a explicação da proposta, que enigmaticamente ficou reservada para depois da eleição – fica por conta da inquestionável autoridade académica e intelectual do candidato.


Não quero exibir credenciais europeístas, mas duvido que as do vital candidato socialista sejam superiores às minhas. E não vejo que "mais Europa" exija outro imposto a sobrecarregar a carga fiscal que temos que suportar. O mal destes europeístas de pacotilha, que aprenderam à pressa umas coisas sobre a União Europeia, é acreditarem que "mais Europa" é sinónimo de centralização de poderes, de mais e mais matérias entregues nas mãos das instituições da União Europeia. Em vez de colocar a carroça à frente dos bois, a prudência exige que se perceba se as circunstâncias aconselham as soluções de quem se vê no papel de "vanguardista do europeísmo".


Não se sabem os detalhes da assombrosa ideia do vital candidato socialista. Talvez não seja tão vanguardista como o candidato a acha, pois o patriarca da seita já dela tinha falado há dez anos, quando foi cabeça de lista às eleições europeias. No desconhecimento dos detalhes – e como se pode confiar num candidato que apresenta uma ideia e promete que só a concretiza depois de ser eleito? Eleger um candidato é um cheque em branco? – duas perplexidades. Primeira, um imposto europeu vinha aliviar os impostos que pagamos ao nível nacional? Os ingénuos que ainda não saibam o que é socialismo em acção que acreditem na resposta afirmativa. Segunda: o imposto europeu, porventura uma caução forçada de solidariedade europeísta dos cidadãos, seria uma percentagem uniforme do rendimento das pessoas? Como justifica o vital candidato socialista, que tanto se diz preocupar com a "justiça social", a tremenda iniquidade deste imposto? É que tirar, digamos, 2% ao rendimento de um português não tem o mesmo peso relativo que retirar 2% ao rendimento de um holandês.


A outra fantástica lucubração eleitoral, li-a algures, reproduzindo a arrebatada oposição da extrema-direita contra o processo que trouxe a União Europeia até aos dias de hoje. Perguntava, indignado, o candidato: houve referendo à entrada de Portugal nas Comunidades Europeias? Houve referendo ao Tratado de Maastricht? E referendo à entrada no euro? E o que aconteceu ao prometido referendo ao Tratado de Lisboa? Não sabia que a extrema-direita gosta tanto de eleições para perguntar ao povo se concordava com tudo aquilo.


Se calhar, a reclusão de noticiários televisivos não é suficiente. Talvez deva haver também reclusão de jornais. E de todos os meios que tragam notícias.

27.5.09

Pedra no sapato


Os dias parecem noites, tingidos pela espessa incontinência das vidas alheias. Das vidas alheias que adejam sobre a própria. São os torniquetes que impedem a passagem livre. Os passos saem trôpegos. Não por serem tortuosas as calçadas onde os pés assentam. Porque assentam em sapatos embutidos de pedras ferindo as palmas dos pés.


As pedras, coleccionam-se vida fora. Desatinos momentâneos a pesar na espessura do tempo, e nem o arrependimento os varre da memória como as cicatrizes inamovíveis teimam em cristalizar. Ou pessoas atravessadas no trajecto da vida, e depois os choques frontais que deixaram amolgadelas sem retorno. As muitas pedras nos sapatos são como traiçoeiras curvas que aparecem de repente, inquietando a pacatez da existência. São teimosas reminiscências que renovam os sobressaltos que incomodam a existência sossegada. Incendeiam a existência. Alguns acham que sem pedras no sapato não faria sentido a existência. A tarefa é desenvencilharem-se das incómodas pedras. Apraz-lhes o travo adocicado dos triunfos que emolduram de cada vez que atiram fora as pedras que sangraram os pés.


E não haverá outra solução? E se os sapatos cravejados de dolorosas pedras fossem deitados ao lixo, substituídos por outros sapatos despojados de pedras e ansiosos por serem inaugurados? Talvez seja o indómito apetite pelo conflito que preenche a essência da espécie. Parece que somos como touros rivais que se engalfinham furiosamente na delimitação do terreno. A raiva que espuma pelos cantos da boca é o sinal da confrontação ideal, em que se acha o sublime momento da afirmação do eu. Os outros são as pedras no sapato. Perder-lhes o rasto exige esmagar as adversidades que estorvam o caminho. As adversidades também são os outros.


Uma vez e outra mais: o erro está em ver a existência condicionada pela existência dos outros. Possivelmente por nos ensinarem, desde os bancos da escola, que a socialização é um imperativo da aprendizagem por que passamos através do envelhecimento. E, contudo, a socialização enxerta a doença que toma conta das entranhas e adultera a essência do ser. É a socialização necessária, indeclinável, que nos torna viciados na existência dos outros. Como se a vida própria só fizesse sentido na medida da vida dos outros. Pode conter um lado belo, quando as pontes com as vidas de outros se fixam pelo cimento dos sentimentos nobres. O mal é quando as pontes se desfazem em inúteis pendências que trazem ao de cima a má essência das gentes. Aí não há quem escape ao diagnóstico. Não há querubins e demónios, demarcados. Todos são apanhados na demoníaca feição das pedras nos sapatos espalhadas pelos pés de toda a gente.


Oxalá houvesse juízo para atirar fora os sapatos de cada vez que uma pedra, por pequena que fosse, incomodasse os pés. Mais parece que somos masoquistas. Parece que andamos à procura das nossas próprias pedras nos sapatos. É como se fôssemos viciados na dor que desejamos quando as pedras nos sapatos persistem e calcinam os pés com feridas abertas que sangram. Gostamos de ver os pés ensanguentados, a prova de um sofrimento que convoca a comiseração alheia. Eis a chancela maior para a derrota dos que semearam as pedras nos nossos sapatos: a censura de outros que os achem indignos do padecimento causado.


As pedras nos sapatos que se congeminam são, afinal, outra expressão da mediocridade impante. Quem, no seu juízo, inflige dor a si mesmo? As mais das vezes, as pedras nos sapatos eram evitáveis. As mais das vezes, as pedras nos sapatos parecem ser (des)propositadamente semeadas por quem vem depois chorar a sua dor e mendigar a complacência dos outros que, da plateia, se comiseram. Ou, quando o braço de ferro se inclina para o lado favorável, passeiam uma sobranceira vaidade que passa por cima do derrotado, humilhado por ter sido derrotado. Nesse caso, a pedra no sapato deixou de o ser, vertida para o sapato de outros. As pedras, essas, são etéreas.


De que serve esta imbecil competição de sofrimentos?

26.5.09

Nos comícios como as varinas

Para começar à bruta: a pior doença da democracia é haver eleições. Admito o paradoxo: sem eleições, como se corporiza a democracia? O problema não está no princípio, está no método. Dando de barato que o “povo” é o detentor do poder político, e que através das eleições mandata os eleitos para serem seus representantes, o problema reside no método da competição eleitoral. É quando volta à superfície, em todo o seu esplendor, a ideia de que vale deitar mão a tudo para chegar aos resultados.



O problema das eleições é haver campanha eleitoral. Pois é durante as campanhas eleitorais que se organizam comícios todos os dias, os candidatos aparecem na televisão a distribuir beijos e abraços a gente que nunca viram na vida. É quando na bebedeira das promessas eleitorais campeia a mais alta demagogia, como se todos os problemas fossem resolúveis com um simples estalar dos dedos – e como se a governação passada fosse um tremendo equívoco, um lamentável desperdício de tempo. É durante as campanhas eleitorais que se assalta a inteligência dos eleitores com discursos populistas dignos de vendedores de feiras, insidiosos ataques aos adversários, manobras rasteiras – tudo para atrair o voto da gente que se deixa inebriar com estas manobras reles.



É nas campanhas eleitorais que a indigência mental anda à solta. A indigência atinge o seu expoente nos comícios. Há ali uma liturgia que une políticos que saltam para o palco e a turba que acena as bandeiras do partido. Como se fosse uma celebração religiosa. Com a diferença da exaltação colectiva e do arrebatamento incendiado pelas palavras gritadas pelos candidatos. Que tomam conta do palco e são uma encenação completa. Os discursos não valem pelo conteúdo, valem pelo arrebatamento que provocam, pelo estilo incendiário que desata as emoções da turba, dir-se-ia, anestesiada.



Os oradores de discursos desfilam com pose orgástica, eles mesmos os detonadores da colectiva excitação da audiência. Como isto é curioso. Os partidos levam os militantes aos comícios em excursões que entram na contabilidade de custos da campanha eleitoral. E o que esperam os dedicados militantes? Ouvir o que acabam por ouvir. Contudo, aplaudem. Imersos num êxtase hipnótico. O que interessa é escutar os pregões ensaiados, desabar a sala num coro excitado quando o candidato culmina as palavras no zénite de decibéis que anuncia o momento do aplauso. Não vejo diferença entre isto e uma celebração religiosa daquelas seitas que espicaçam o êxtase colectivo dos crentes à medida que o sacerdote os convoca a uma levitação sensorial.



Nos comícios, desfila a mediocridade confrangedora. O tom de voz muito exaltado, numa enxurrada de decibéis e de pose alterada que é o lenitivo para a turba que assiste, embevecida, à performance. É como as varinas na lota. Com uma diferença que importa notar: as varinas não destoam numa falsa espontaneidade. De resto, tal como as varinas, os empertigados políticos que tomam o púlpito num comício desfiam o rol dos pregões que convêm. Estão lá para vender o seu peixe. Mas a audiência já comprou o peixe antes de entrar para o comício. Os destinatários a que querem chegar estão na vasta audiência que assiste a excertos do comício à distância, através das partes seleccionadas que aparecem na reportagem televisiva. E pergunto-me: é assim que os amadores políticos se convencem que convencem indecisos?



A democracia seria mais saudável se não houvesse campanha eleitoral, nem comícios, nem a orgia dos cartazes que infestam as cidades, nem noticiários televisivos que dedicam tempo a mais aos disparates proferidos em campanha eleitoral. Posso estar enganado no diagnóstico, mas a teimosia em organizar eleições à maneira antiga será uma das razões para que, de eleição para eleição, haja menos gente a votar.



Por ter começado ontem a campanha eleitoral, e para pessoal higiene mental, nas próximas duas semanas tenho voluntária clausura de noticiários televisivos. Já me chegou o risível episódio (agora espanhol técnico?), que desfila nas imagens lá em cima, da medíocre personagem que vai ser primeiro-ministro durante mais cinco anos.

25.5.09

Credenciais


Francamente, o incrível do episódio da perturbada professora de Espinho não é tanto vir para a sala de aula expor as experiências sexuais com o parceiro, ou saciar a curiosidade voyeurista ao inquirir os petizes se ainda são virgens. O incrível está na pesporrência com que a senhora esbofeteou o seu mestrado na aluna cuja mãe tinha denunciado uma informal aula de educação sexual.


(Também se discute muito a veia de espião que há em cada um, com criancinhas instruídas pelos progenitores para levarem gravadores para a sala de aula só para apanharem a professora em falso, trazendo depois a gravação para esses expoentes da coscuvilhice indígena, as televisões sensacionalistas. Dava pano para mangas. Mas não é hoje.)


Houve ali uma passagem, por entre a vozearia descontrolada da senhora professora, que me chamou atenção. A lente estava zangada porque a mãe de uma aluna se queixou ao conselho directivo das conversas despropositadas que a lente tinha na sala de aula. A sobremesa apimentada estava quase a chegar: a docente, muito abespinhada com a menina, pergunta-lhe pelas habilitações literárias da mãezinha. "Décimo segundo ano, 'stôra'", na voz assertiva da aluna.


Sopa no mel para a professora de história. A resposta mesmo a jeito para puxar dos pessoais galões académicos. Como podia uma reles senhora que não passou do décimo segundo ano pôr em causa uma professora que até tinha mestrado? A professora puxou lustro ao mestrado, uma e outra vez, como argumento definitivo de autoridade. E depois fez as contas: enquanto a progenitora da aluna só estudou doze anos, a iluminada professora contabilizou um ror de anos em cima desses doze. A diferença de números seria, naquela impressionante forma de raciocinar, o imbatível argumento da autoridade intelectual da professora. Como quem diz: devia ser proibido que gente com menos habilitações pusesse em causa o que fazem muito iluminados professores com superiores credenciais académicas. Os certificados de habilitações deviam ser mostrados quando se redige uma queixa destas. E as queixas proibidas quando as credenciais académicas do queixoso não chegassem aos calcanhares das da pessoa alvo da queixa.


Esta patética maneira de pensar é todo um programa comportamental. Diz tudo, e em meia dúzia de palavras, sobre a arrogância com que certa gente se vê ao espelho quando ostenta os canudos conquistados ao longo da vida. Há-os por todo o lado, com os mais variados graus. Há os que se ufanam quando chegam à licenciatura e exigem o tratamento de doutores e engenheiros. A professora de Espinho, que se julgava acima dos julgamentos alheios por ter queimado as pestanas anos a fio até ter obtido o mestrado. E os "professores doutores" que fazem gala de assim serem tratados, e assinam "PhD em qualquer coisa" a culminar a correspondência, tão em bicos dos pés a exibir a suposta estaleca intelectual de quem tanto penou para abocanhar o almejado doutoramento. Era o que mais faltava, após tanto amargurarem na pedregosa estrada que os levou ao Olimpo do "PhD" e depois o nome dos cartões bancários não vir precedido de "Prof. Dr.". Desconfio se esta gente que puxa os galões o faz por nem saber bem como conseguiu obter o grau de que se ufana.


Só me ocorre um lugar-comum para descrever isto: fogueira de vaidades. Esta gente anda para aqui a esbofetear na cara dos outros as credenciais académicas como argumento de autoridade. Como se fosse o galo que domina a capoeira, ou o militar de elevada patente que exige respeito por ser o que ostenta a patente mais elevada. Os argumentos deixam de contar, apenas as petulâncias que desfilam através das patentes que se esfregam nas caras uns dos outros. Enquanto andamos entretidos a massajar os egos, enquanto teimarmos em dar muita importância ao que somos e ao que conquistámos na vida, só damos atenção ao acessório: os graus ofuscam os argumentos, como se a autoridade dos argumentos viesse com o lastro dos graus.


Há muitas formas de ser mesquinho. Uma das mais refinadas é a entronização de argumentos pela suposta autoridade das patentes académicas. De gente que se refugia na opacidade do grau só para esconder a vacuidade dos argumentos. Gente muito pequenina.

22.5.09

Consumimos, ou deixamos de ser consumistas?


Os gurus da economia deviam atinar das ideias. Já não digo que não teimem na sua particular língua de trapos para explicar aos néscios o que os néscios, por causa da língua de trapos, jamais perceberão. Proponho que se orientem de vez. Por sentir que andam desorientados.


O fantasma da crise cresce de dimensões a cada semana que passa. É por causa disso que o cidadão anda interessado na economia como nunca dantes andou. Pois a crise ameaça ir ao seu bolso de forma catastrófica. Não admira que as gentes afinem a audição quando aparecem economistas, sempre em pose grave, a perorar sobre a crise. Porventura ficarão mais deprimidos: continuam a sentir a crise a cercá-los, ameaçadora; e ficam a saber menos de economia, comparando com o véu de ignorância que os cobria antes de ouvirem as ininteligíveis explicações de doutos economistas.


Como se fosse um inculto de economia: há uns meses, antes da crise saltar as paredes da barragem que continha os sedimentos da bonança, profetas da desgraça avisaram para o que haveria de acontecer. Andávamos inebriados por consumo excessivo, financiado pela pretensa generosidade dos bancos que emprestavam dinheiro que não existia. A bolha rebentou, os bancos começaram a falir, a confiança na economia despenhou-se. O dinheiro escasseou. E sem dinheiro não há vícios. A produção das empresas sofreu quebras dramáticas, inundando os centros de emprego com desempregados. Outro golpe na economia: ainda menos confiança, menos consumo, e menos produção e mais desemprego – tudo em espiral.


Os economistas proclamaram: "recessão". E mais outra boutade para o cidadão comum: "crescimento económico negativo". Como se fosse possível subir para baixo – se diminui, como há quem chame a esse fenómeno "crescimento"? O fantasma que se perfilava a seguir era o da deflação (ou, pela mesma senda dos eufemismos virados do avesso, inflação negativa). A economia está profundamente doente. E agrava os sintomas a cada semana que passa, com sucessivas revisões das previsões, que depressa ficam desactualizadas. Os analistas andam pelos cabelos, pois a incerteza esfrangalha os seus muito científicos modelos econométricos cheios de presciência que se esvazia em nada.


Os salvadores que julgam poder tirar a economia do estado comatoso congeminaram uma sequência de medidas que, a julgar pelas receitas tradicionais, serão a cura para a demorada doença. A julgar pela experiência do passado (e a história é repetível?), a economia precisa de receber injecções de confiança. As pessoas e as empresas têm que voltar a consumir. Só assim se inverte o ciclo vicioso em que a economia mergulhou, o ciclo vicioso que afunda ainda mais a economia numa crise medonha. Os comparsas mobilizam-se: os bancos centrais puxam as taxas de juro para próximo do zero, tornando o dinheiro muito barato; os governos usam da folga nos orçamentos para lançar dinheiro de cima de um helicóptero, como se esse dinheiro não tivesse que ser pago algures no futuro. Esperam que as empresas façam mais investimentos e criem empregos que absorvam o exército de desempregados. E que, de seguida, os que estavam desempregados e deixaram de o estar comecem a comprar coisas, e muitas, juntando-se aos que nunca perderam os empregos mas que tinham receio de continuar a consumir.


É o verbo da ordem – consumir. Ora, o ignorante destas coisas da economia coça a cabeça, interrogando-se: em que ficamos, vou consumir mais ou devo lembrar o puxão de orelhas dos sacerdotes da nova moralidade que, não há muito tempo, condenavam o consumismo? Convinha que os economistas, e os políticos por eles convencidos, se decidissem. Para sabermos se é pecaminoso ser-se consumista, ou se agora que a crise grita tão alto devemos esquecer a moral anti-consumista para desatar a comprar tudo e mais alguma coisa com o dinheiro barato que os bancos têm para emprestar. Parece que a bússola está avariada, a crer pela desorientação dos gurus da economia.


Era bom que os olhos alcançassem para além do amanhã imediato. Eis o meu temor: com a fobia do dinheiro barato e o convite ao consumismo, que um dia destes a maldita inflação gigantesca venha bater à nossa porta. Os economistas podiam ser sensatos e explicar que podemos não morrer desta doença; mas que a cura para ela pode inocular a próxima doença. Talvez uma doença mais catastrófica.

21.5.09

O presidente piadético (acto falhado)


Diz-se: que de poeta, médico e louco todos temos um pouco. Apesar de ser alérgico a adágios populares (e como me incomoda a incongruência de cada vez que deito mão a um adágio popular), proponho que este seja reinventado para acrescentar um quarto predicado: humorista. Ficaria "de poeta, médico, humorista e louco, todos temos um pouco". A crer pela inesperada veia humorística da pessoa mais circunspecta que esta terra conhece (depois de Eanes e do treinador da agremiação que acabou de ganhar o campeonato de futebol), faz todo o sentido a revisão do aforismo.


Sim, o presidente da república é a tal sisuda personagem que brindou os jornalistas que o acompanhavam à Turquia com insólitas tiradas humoristas. Desastrado humor, todavia; ou a confirmação de que há pessoas que não nascem fadadas para terem em si determinados atributos. Cavaco ri com dificuldade; como pode ter a pretensão de irradiar humor, ainda por cima daquele género de humor que convoca a superior inteligência do destinatário (assim o julgou o remetente)? Não pude resistir a outro embevecimento: ver sua excelência a jorrar piadas pela metade, deixando nas entrelinhas a conclusão da graçola. Ao mesmo tempo, largava o foguetório e fazia a festa, esgadanhando um largo sorriso de auto-satisfação (eu diria: auto-complacência). Sempre me meteram dó os que não tinham jeito para contar anedotas e que, diante da pungente inépcia, se riam da piada que contavam, perante a impassibilidade dos demais. Foi disto que me lembrei quando vi sua excelência a passear a veia humorista na Turquia.


Já não acompanho a corte de críticos, opinadores muito respeitáveis, senadores da opinião pública, que lamentaram o mau gosto de gracejar com coisas tão sérias (a pouca vergonha do chefe do Eurojust e os arrepiantes números do desemprego). Continuo a achar que tudo, e sobretudo as coisas mais sérias, se põem a jeito do humor. De preferência do sarcástico humor. Ao menos com o humor anestesiamos as desgraças parodiadas. Que deixam de ser desgraças pelos dedos do suavizante humor.


Notei uma leveza surpreendente no "mais alto magistrado da nação". Não foi apenas a tendência para o, nele, desconhecido humor. Andava mais sorridente. Num dia até exibiu um penteado a descair para o modernaço, aquelas melenas já muito grisalhas ajeitadas para trás e não para os lados, os cabelos um pouco desgrenhados em vez do habitual penteado em que nenhum cabelo cai nem um milímetro fora do sítio. Um rebelde de fato de gravata. O que teria acontecido à figura presidencial para nos aparecer possuído de tão surpreendente leveza?


A meio das reportagens, a primeira-dama também desfilou à frente do microfone. Perorou muito, sobretudo sobre as compras que não conseguiu fazer no bazar de Istambul – e, ai Jesus, que não ia levar prendinhas para as netinhas. Esta moda de entronizar primeiras-damas ultrapassa a minha compreensão (escorregadela de politólogo). A figura não está institucionalizada, pelo menos não o está pelas regras. É-o pelas convenções que atribuem papéis às primeiras-damas. É o lado mundano a invadir a suposta respeitabilidade da política, as revistas cor-de-rosa a entrarem no biombo das plúmbeas instituições. Um porém, aqui: como em tudo na vida, há quem desempenhe bem o papel e quem o faça em medíocre craveira.


Ao menos é reconfortante sentir que havia ali naquela "visita de Estado" uma adorável harmonia conjugal que, adivinho, era a razão da exuberância do senhor presidente. De repente, sua excelência começou a mostrar o que sempre escondera: que é feito de carne e osso como todos nós e que estava ali na Turquia profundamente in love. Retenho uma enternecedora imagem, ainda no avião a caminho da Turquia: o microfone à frente da presidenta e o consorte a olhar para ela com um encantamento facial digno de um romance que arrebata quem seja pinga-amor. Os êxtases da alma, sabemo-lo, oleiam o sentido de humor, subtraem os fardos que pesam nos ombros e mostram gente em pura levitação.


Foi a desempoeirada feição mundana de tudo isto que deixou vir à tona uma espécie de segunda lua-de-mel do casal presidente. Eu dispensava ser testemunha desse cenário dantesco.

20.5.09

Queria

Queria de ti um país
de bondade e de bruma
Queria de ti o mar
de uma rosa de espuma
Mário de Cesariny

E queria: um império a gotejar todas as palavras mágicas, as palavras enternecedoras, as palavras que rejeitam os vãos sentidos. Queria olhar os teus olhos e colher todas as lágrimas, sorver o amplexo da tristeza. Ter fantásticos poderes para os tornar, olhos e lágrimas, num infinito campo de flores deslumbrantes. Queria saber que não importa a distância se te alcanço à diferença de um braço. Passear pela alva pele e fazer ricochete nos contrafortes da fortaleza que habita em ti.


Queria que os passos fossem de um compasso só. As memórias, um património em partilha. À luz da lua, ou pelos soalheiros dias estivais, abraçar o mundo que se reduz na sua pequenez diante da grandeza que somos. Não importam os passos em falso, nem as vãs expectativas, ou as ilusões que prestam tributo ao sentido literal da palavra. Só um lampejo, no teu sorriso, e é como se uma embriaguez viesse tomar conta de mim, conduzir-me pela mão, eu às cegas, na plena confiança de seres tu guia.


Eu queria que as coisas fossem diferentes. Tomá-las de um trago só quando adversas. Não como se houvesse a quimera de as varrer para debaixo do tapete, que perenes ali ficariam, toda aquela poeira a adensar-se, assombrando a existência. Não era isso; era a capacidade para esconder os maus estados de espírito, deixar levitar até ao altar mais alto de todos a unção do que é nosso. As coisas seriam todas belas, nenhuma palavra se esgotaria na sua inutilidade. Às vezes temos pressa de viver, parece que os fantasmas todos nos perseguem à espera de decepar as cores iluminadas da tela que temos nas mãos. E o que interessa se vivemos depressa ou devagar? O juízo será num momento em que já não há regresso para corrigir o que houver de ficar sentenciado.


Só queria que tudo ficasse despojado da sua complexidade. Queria que a simplicidade tomasse as rédeas e encomendasse o funeral das complicadas coisas entre mãos. A complexidade é a sentença letal que absorve todas as gotas da sumarenta existência. O que eu queria? Que a existência não teimasse nas coisas complexas, exangue de forças, mirrada pelas folhas do calendário que esvoaçam a lembrar que diante há o precipício de onde o regresso se anuncia impossível.


Às vezes o tempo é gasto em desperdícios. Desperdiçamo-nos, vidas estilhaçadas pela inutilidade das coisas insignificantes. É quando repousamos lado a lado e parece que um imenso oceano se interpôs. Não curo de saber se há cura para estes males. Não curo de tratar do diagnóstico. As paredes deslavadas retêm os silêncios que consomem a poderosa alvura das palavras que não chegam a ser ditas. Eu queria: que as palavras fossem gritadas até à exaustão. Queria que irrompessem, vazassem os silêncios mortais.


Pela aurora, quando o dia se renovasse, tudo seria diferente mercê da vontade de mudar. Acompanharíamos os primeiros raios do sol nascente com a mesma sede de reinvenção de nós. Faríamos do sol testemunha do pesar pelos pesares de outrora. Mas o que contam os pesares, senão o ensurdecedor ruído das palavras com dor, ou os ensurdecedores silêncios quando a boca pedia uma palavra, por vã que fosse?


Pelo silêncio da alvorada, só rompido pelo chilrear dos madrugadores pássaros, a terra toda seria nossa, a consagração da nossa imensidão. Até que não houvesse lugar aos lamentos, nem à urgência de desculpas – que as desculpas se consomem pela intemporalidade dos passos errantes. Tudo seria selado com um silêncio que substituísse todas as palavras que conseguíssemos roubar ao dicionário. Um silêncio pousado nos lábios sedentos. E quero.

19.5.09

Era a cultura popular, era


À maneira elitista: eu não acredito em cultura popular. Juntar numa expressão "cultura" e "popular" é uma contradição de termos, a negação do seu próprio enunciado. Também sei que fica mal, muito mal nestes tempos de rejeição dos elitismos, semelhante pronunciamento. Seja-me permitida a franqueza, ao menos, que abomino frustes expressões de diplomacia retórica só para não ofender os padrões estabelecidos. Que caiam todos os opróbrios sobre o que profere tamanha aleivosia.


Saiam os antropólogos em defesa da consagração popular, dos usos e costumes, das tradições com um lastro ancestral, o que se sedimenta até ganhar a espessura das convenções e entrar no panteão da "cultura popular". Sagrem-se as romarias, o paganismo que mistura crenças com irracionais misticismos, de braço dado com superstições que denegam a espiritualidade que os curas cultivam junto de tementes massas. Há artistas ditos populares: tornam-se populares com melodias fáceis de entrar no ouvido; ou pregões baratos que, por terminarem em rimas primárias, se acham dignos de pertencer aos cânones da poesia.


Perplexo fico quando vejo alguns meirinhos a reivindicarem um altar para a cultura que pertence ao povo quando o povo é tão insensível à cultura. A sagração da forma popular de cultura tem diferentes origens, numa insólita parelha: os adoradores da igualdade que entronizam o povo no lugar cimeiro da soberania, como se ainda sonhassem com utópicas ditaduras proletárias onde seriam inspiradores e ditadores-mor; e os cultores da raiz pátria, com muito nacionalismo a rodos, vasculhando nos baús da memória os sedimentos que expõem a pertença comum.


Sei que me desengano ao adornar um pensamento que renega a existência da cultura popular. Ela, ou o que se julgam as suas manifestações, passeia-se diante dos olhos, insinua-se no estio quando o povaréu se liberta da longa e penosa invernia e vem celebrar os deuses e santos em festanças regadas a tinto de jarrete e com os ouvidos emprenhados por xaroposas melodias entoadas por primários cançonetistas. As procissões, lugares muita devoção, lugares de peregrinação obrigatória no dealbar da festa da aldeia, onde fala tão alto a voz democrática do povo na sua expressão conventual.


Não sei se será mais um sinal de desidentificação com tudo isto que me envolve. Se isto é cultura popular, e se isto traz consigo o lastro das raízes do que somos, lavro daqui um diagnóstico repulsivo. Não logro alcançar o espírito de comunhão de cantares populares. Execro o folclore, os poetas populares que assassinam a poesia e todo um povo que se alinhava pela pungente mediocridade. É-me superior o entendimento de que a cultura avança com o estudo das tradições populares, seja a azáfama dos pescadores a desembarcarem o peixe capturado com a ajuda de uma junta de bois, ou os mesmos bois, em selvagem estado, selvaticamente toureados numa arena diante do alarve aplauso dos aficionados. Sei-o bem: o lugar errado pertence-me. Nesta sanha herética de negar valimento à expressão mais pura do sentir popular.


E os sublimes momentos de genuína cultura, os poetas maiores e os pintores desconhecidos do vasto público adulador da "cultura popular", os músicos que fazem avançar a música, os que trazem o pulsar das veias de gente comum e incomum para o teatro onde valsam as emoções – toda esta gente pertence à mesma cultura de onde vem a dita "cultura popular"? Dirão: de uma forma diferente de cultura, a erudita cultura que escapa à compreensão das massas, a cultura que se emancipa do "popular" porque não é feita para o entendimento popular. Impõe-se uma diferença de grau, diria, uma diferença de conceitos: pois considerar a "cultura popular" uma forma de cultura é banalizar a cultura que não entra naquele rótulo.


Cultura e popular andam em descompasso. A perfeita antítese da cultura. Como é possível chamar-se-lhe cultura? Só porque o povo é a expressão mais nobre – assim o asseguram os padrões estabelecidos – da democracia? Se assim for, proponho: que se rejeite a palavra "cultura" nas populares expressões que a querem açambarcar; e que se decrete, de vez, a elíptica anti-democrática da cultura genuína. Os desiguais não se compadecem com gratuitas comparações que enaltecem a arraia-miúda e desprestigiam o que merece ser vangloriado.


Não há cultura popular. Há qualquer outra coisa, chame-se-lhe o que se quiser, popular.

18.5.09

O esconderijo


As insónias guiavam as dores da tristeza que o consumiam por dentro. A tristeza que se insinuava na incapacidade de ler na existência as coisas belas que dela irradiavam. Era uma estranha melancolia, silenciosa e traiçoeira. Dor que sentia sem que paradoxalmente sentisse dor. Até os dias soalheiros vinham coalhados com a cor enlutada.


O que apetecia era fugir. Às vezes, empreender uma caminhada sem destino, apenas guiada por uma bússola sem norte – ou o destino tracejado pelos ventos do momento, um errante destino que não curava de albergar inquietações. Outras vezes, apetecia encontrar um esconderijo para se refugiar do mundo. Uma penitente solidão que tragasse de vez as dores da existência, as dores do mundo que o consumiam. O esconderijo seria o mundo de uma pessoa só.


Do esconderijo haveria de redescobrir alguma essência de si. Haveria, por fim, de encontrar um lugar para a sua existência, regressar àquela pessoa que conseguia encontrar os passos por onde alguma felicidade o ungia com seus dedos. De onde conseguia, com a generosidade de se sentir feliz, aspergir alegria nos outros, chegados a si. Os males redobravam-se pela incerteza dos balsâmicos efeitos do refúgio que buscava. Não garantia que o esconderijo pudesse ser o mágico lugar de onde sairia com as pazes em si. Só que não conseguia acertar os passos pela funesta impressão de que o esconderijo até podia ser o fatal lugar de onde nem sequer regressaria à vida.


E se o esconderijo anunciasse apenas um simulacro de vida, uma mirífica encenação onde apenas a imaginação sussurrasse nas esquinas do pensamento um lugar idealizado para ser? Só que de idealizado, um impossível lugar. Até podia encontrar o esconderijo sem mudar de lugar; no mesmo lugar haveria de construir uma carapaça, lá dentro o seu particular refúgio de onde se esconderia das dores do mundo em redor. Um biombo alto e opaco a impedir que as voltas fétidas do mundo continuassem a encerrar uma sombria peregrinação a caminho da desfortuna.


Desconfiava que o esconderijo era uma ilusão. Uma fuga para diante, a confissão de uma derrota pessoal perante o mundo transformado em lugar insuportável. Às vezes interrogava se ele é que não se tinha transformado num insuportável ser. Esse podia ser o mal maior. A visão desfocada a toldar o discernimento, a deixar um rasto plúmbeo, desagradável. A certa altura, a convicção que os seus dedos deixavam cicuta nos lugares por onde passava. Em redor, semeava desventura.


Neste convencimento, soava ainda mais alto o apelo ao refúgio. Em todos os dias em que as dores mais surdas envenenavam a existência, crescia a ilusão de um esconderijo. Não sabia ao certo a finalidade do esconderijo. Não sabia se traria uma cura para os fatais males que o atormentavam. Ou se no esconderijo haveria de encontrar o segredo para contemporizar os males do mundo que semeavam todo o sofrimento interior, deixando então de o fazer. Queria que o esconderijo ensinasse a ser generoso. Queria que o esconderijo fizesse desaparecer alguma da prosápia que o consome como fogo intenso misturado com o sangue a espalhar todas as dores que incendeiam as veias. Para dúvida nenhuma encontrava resposta. E nem para se refugiar no esconderijo que julgava balsâmico se conseguia desprender da inércia que dele tomava conta – ou da ausente coragem para o fazer.


Entretanto, consumia-se numa peregrinação pungente. Soçobrava diante das repetidas encruzilhadas. Uma vida metida nos contrafortes de numerosos labirintos. De labirintos com corredores sobrepostos, num desorganizado, caótico quarto sem tecto, nem chão, nem paredes. E, todavia, um esquizofrénico lugar onde a existência se espartilhava nas suas dores interiores. O dilema onde desaguavam todos os dilemas: talvez o esconderijo não fosse cura para os males que o atormentavam. Talvez fosse, até, o destino final. O destino fatal.

15.5.09

Para contrabalançar o iberismo: a Espanha não tem sentido


Já aqui lancei provocações iberistas, revolvendo os fígados das almas genuinamente lusitanas, aquelas que reclamam o puro-sangue que as distingue do perene inimigo espanhol. Não venho agora confessar remorsos nacionalistas que me movem a flagelar a prosápia hispânica. Os motivos são outros: o libertário compraz-se quando nota o perfume da desagregação das nações que se ufanam como se majestosos impérios fossem. Acaso se note alguma contradição de termos (como pode alguém assinar um texto iberista e mais tarde reclamar a artificialidade da Espanha?), antecipo explicações: oportunismo (do salutar).


Leio que o director de desporto da TVE quis poupar o vaidoso nacionalismo espanhol ao vexame de uma vaia colectiva durante o hino antes da final da taça de Espanha. O soberano marcava presença, para dignificar o evento com a sua exímia figura que, é predicado das monarquias, exige indisputável respeito dos suseranos; aliás a taça tem o seu nome ("taça do rei": mas a taça é do rei, é dele?). O problema é que as equipas na final da competição eram as equipas erradas: uma basca e outra catalã, ambas mostruários de nacionalismos arreigados. Como não se brinca com coisas sérias, e a monarquia tem uma certa aura divina, o burocrata de serviço cortou o sinal da transmissão assim que deu conta dos primeiros assobios em dueto com os acordes iniciais do hino.


A censura é censura. Sempre. Mesmo quando a cabeça dos diligentes censores da democracia é povoada por instintos que apreciam da maior nobreza. Este episódio é a grotesca manifestação de uma certa deificação da hispanidade, de que a realeza do sítio se considera cimento supremo. Se ambos os esteios são ofendidos numa cerimónia pública, actue a censura. Ponha-se a democracia e a tolerância dos dissidentes em banho-maria. Ao menos, toda aquela gente freneticamente espanhola foi poupada ao pesar da infâmia dos hereges que se querem emancipar da Espanha imperial: era o que mais faltava serem testemunhas da injuriosa vaia ao sagrado hino.


Os nacionalismos são uma alcateia que devora a racionalidade humana. Não só os nacionalismos dominantes, aqueles que convocam a si a aura imperial e asfixiam os nacionalismos emergentes. Estes também têm o seu quê de demoníaco. Frequentemente, radicalizam-se e confundem meios com fins, incapazes de apurar a legitimidade dos meios, sobretudo dos que espalham hipócrita terror. Uns e outros, os nacionalismos empenham o livre arbítrio. Os fautores dos nacionalismos servem-se de imperativos categóricos: pertencemos a uma nação, emancipada ou apenas oprimida pelo invasor que tomou conta dessa terra. Pertencemos. Deixamos de ser individualidades.


O equívoco é pertencermos a uma nação qualquer. Identidade não é pertença. Impor a pertença hipoteca a individualidade dos seres, reduzidos a uma massa anónima que representa o "povo" que se irmana na mesma nacionalidade e está (ou, convencem-nos, deve estar) disposto a dar o corpo às balas em nome da amada nação. O erro está aí: nos muitos iludidos que não distinguem identidade de pertença e que se entregam acriticamente à causa do nacionalismo em que militam. Quando dão conta, perderam o rasto à racionalidade. Nisto não há diferenças entre nacionalismos exacerbados e religiosidades intensas.


São repugnantes os métodos dos terroristas da ETA. Não se deve confundir a árvore com a floresta, nem aceitar que um punhado de violentos mantenha sitiada a sociedade basca no estertor da violência covarde. A sede de independência não se restringe aos violentos da ETA. Como há quem peça dessa água na Catalunha, na Galiza, até na Andaluzia. Os lamentáveis nacionalistas espanhóis refugiam-se numa certeza cega: os espanhóis querem preservar a unidade da Espanha. E como se asseguram da validade dessa conclusão? Por acaso não são tementes de um referendo que pergunte a quem tem aspirações independentistas se aceita a independência?


A censura da vaia ao hino é do mais abjecto que a democrática censura tem para mostrar. Mas como é democrática, é como se não fosse censura – acreditam os querubins do costume, democratas de meia-tijela. Erro crasso: a censura é sempre censura, venha ou não com o lastro da democracia. É mais perigosa a censura exercida sob a protecção solar da democracia, pois é contrária ao seu código genético. Perante isto, o que apetece é fazer figas para que a imperial Espanha se esboroe e deixe no ar apenas a poeira da sua vetusta e fátua grandeza. Seria o ocaso da imperial Espanha e a emergência de nacionalidades por ora oprimidas. Duvido, contudo, que os novos nacionalismos tivessem uma espessura diferente do nacionalismo espanhol. Não deixavam de ser nacionalismos. O mal está lá todo. Porém, para o libertário, a desagregação de um país com vaidade imperial é sempre uma boa nova.

14.5.09

Paredes de vidro


As vergonhas dos outros são as agradáveis vergonhas. Matéria-prima ideal para o esquecimento do eu que se deseja olvidar. Como os fantasmas nos armários continuam a sussurrar ao ouvido, as vergonhas distantes fermentam refrescantes memórias das impudicícias onde a intimidade se consome.


É o fatal voyeurismo. As andanças de cada um, tolhidas pela expiação dos males através dos piores males de visita a outros. Como se as doenças de alguém fossem doídas pelos demais – ou, diria melhor, os outros mirones das doenças alheias. O mal de tudo isto é o contágio irreprimível: se há tantos a vasculhar todos os outros, a indeclinável reprodução do comportamento. O perfume da moral a que nos arrogamos pelo direito a sermos diferentes troa as suas tremendas consequências: o recuo à casa da partida, de onde nem se chega a sair caso a teimosia na postura moral persista.


Ao deitarmos o olho na vida do lado levitamos o esquecimento da nossa. Dizem os puristas da moralidade que ninguém se pode esquecer dos seus pessoais telhados de vidro. Eu diria mais longe: ao espiolhar os telhados alheios a nossa casa perde as telhas que a protegiam, e até as paredes se tornam translúcidas. A maior consumição é chegar a esta conclusão: exibe uma putrefacta lição de moral, quando todas as lições de moral deviam ser remetidas ao sarcófago das coisas evitáveis. Porventura, a única lição de moral aceitável é a de que não há quaisquer lições de moral aceitáveis, nem pregadores de moral cheios de sumptuosidade a ponto de serem gurus das mortais almas sedentas de orientações.


Os telhados, inclinadas ladeiras onde uns tufos de musgo se escondem em dobras de telhas carcomidas pela humidade, são o túmulo dos segredos que o nunca chegam a ser. Mesmo quando se julga que o telhado é uma opaca cortina que tudo oculta, abrem-se umas brechas por onde a turba esfaimada de curiosidade vem espreitar. Por mais opacas que sejam as telhas, tornam-se translúcidas por um passe de magia. De um passo só, a transparência contagia-se e desce pelas paredes abaixo, até tudo se tornar um antro onde os intrusos se demoram. É daquelas coisas que mostram a espessura do mundo: o que muito demora a construir esboroa-se num fugaz instante.


Há vidas pessoais que parecem ter uma pequenez detestável para quem nelas habita. Talvez a explicação para a tanta atenção ao que se passa noutros telhados. Ou isso, ou o muito cansaço da vida destinada a cada um dos juízes das vidas alheias. Seja ungido pela esconsa vida pessoal, tão desinteressante que as vidas dos outros é que cativam a atenção; seja pela vida insuportável que se enreda no corpo que é a prisão da vida que o aloja: a coscuvilhice é o veneno das poses superiores que desfilam a toda a hora, dos palpites sobre a vida dos outros quando delas sabem pouco mais do que o desconhecimento. O altar supremo da pior das ignorâncias.


O anonimato não torna implausível ser-se vítima da curiosidade dos outros. Rumores adulteram o sentido da vida que se vive? Só pelo desconforto de estar no alguidar dos rumores, onde as facas atraiçoam o sentido da vida e a transformam num simulacro do que é – ou apenas na fantasiosa conveniência dos fautores do rumor. As insidiosas maquinações podem ser assassinatos de carácter; nem assim merecem a indignidade de uma reacção que não deve sequer ser esboçada. Os rumores ficam com quem os alimenta, mais os seus particulares telhados transparentes e muito, muito escorregadios.


Se nem o anonimato protege a existência das facadas que vêm com os rumores, o que diremos das públicas figuras que se passeiam, ufanas, em jornais e revistas que dissecam a gente famosa? Nunca consegui perceber como os arrivistas têm urgência em entrar para as páginas das revistas e dos jornais. Quão desconfortável será a sensação de andar rua fora e ser constantemente escrutinado pelos olhares dos transeuntes que reconhecem a pública figura, com aquele ar de quem diz "eu conheço-te das páginas das revistas/das televisões" e logo depois se agarra ao telemóvel para contar aos mais íntimos a sorte que teve, esse dia ungido pelo cruzamento com tão ilustre personagem.


O que distingue essas públicas personagens dos animais do zoológico que se prestam à curiosidade alheia?