25.3.09

A escadaria da Praça de Espanha apoderada pela moda e as adolescentes imersas em sonhos de manequins


Todas as cidades têm os seus recantos emblemáticos. Todos esses lugares, que deles se diz serem "ex-líbris", resistem à cavalgada do tempo. Praças, monumentos, fontes. Em heróica resistência à erosão do tempo e dos elementos que o tempo passeia em alegre dança. Às vezes, os lugares emblemáticos são redesenhados no seu simbolismo. Há quem se consiga apropriar desses lugares, dando-lhes nova vida e novo significado. Reescrevem as tradições.


Chegou-me ao conhecimento que isso aconteceu com a romana Praça de Espanha e a sua escadaria tão carregada de um romantismo que certos recantos desta cidade carregam. Desde há alguns anos, o mundo da moda tomara conta da escadaria da Praça de Espanha. Com muitos e feéricos desfiles de moda, de preferência sob a batuta da noite, as escadas a servirem de pano de fundo para encantadoras velas repousando nos degraus enquanto as meninas e os meninos desciam, naquela pose escangalhada dos manequins de hoje, os degraus debruados com o muito néon da moda.


Na recente visita a Roma fui parar ao topo da escadaria e também fiz o percurso dos meninos e meninas consagrados no mundo da moda. Havia muita gente arrumada nos degraus a beber água, porventura num interstício das extenuantes caminhadas que dão a conhecer a cidade eterna. Ia descendo sem pressa quando conjuguei o que me contaram com o que começava a observar: algumas adolescentes embevecidas a olharem para as escadas, curiosamente todas de frente para a escadaria, fitando-a de baixo para cima. Boquiabertas. Esmagadas pelos sonhos de manequins que, nesses sonhos, eram elas mesmas. Se alguns peregrinam até ao Vaticano, do outro lado do rio Tevere, estas meninas mundanas pareciam desaguar na sua particular Meca com ponto cardeal na escadaria da Praça de Espanha.


Deixei-me ficar por ali a observar as muitas meninas, e já menos meninas, que ficavam inertes e esmagadas pelo peso simbólico da escadaria. Adivinho que se imaginavam manequins consagradas a desfilar escadaria abaixo sob o olhar de personagens que gravitam nesse particular universo, debaixo de uma torrente de flashes de numerosos fotógrafos ávidos de emoldurar as fatiotas supimpas de criativos estilistas e a pose asséptica e maldisposta das meninas e meninos contratados para vestir as fatiotas. Não condizia o ruborescer de êxtase das meninas ali empatadas nos seus sonhos de manequins com sonho passado para a tela: está na moda que os manequins enverguem inexpressivos rostos, os antípodas da felicidade que irradiava dos sonhos que fugiam dos olhos resplandecentes daquelas meninas.


Podia haver o impulso de censurar os costumes que tiveram força para se apropriar da escadaria da Praça de Espanha. Pelo contrário: a inércia dos conservadorismos é o diagnóstico das doenças terminais, a compulsiva letargia que toma conta da gente formatada para atribuir significados únicos aos lugares expressivos das cidades. Que interessa que a moda seja um desfile de futilidade se essa é apenas uma opinião, e irrelevante, a minha? Há sempre o aspecto cintilante a desempoeirar as nuvens negras que pousam quando a reescrita dos significados dos lugares traz algum desagrado. Alguém há-de encontrar matéria-prima para fugir ao estabelecido. Talvez que sociólogos, psicólogos e antropólogos tenham nos degraus da escadaria da Praça de Espanha abundante matéria-prima para desmultiplicar ciência. Só que então, em vez de se examinar o monumento observam-se comportamentos. Vem algum mal ao mundo se as pessoas tiverem mais importância do que as coisas?


Também desci a escadaria e nem por um momento me senti manequim – vade retro! Nisto, de repente, veio à lembrança uma namorada que dizia que eu podia ser manequim. A néscia! Ou estava cega, ou o tempo não chegou para me conhecer uns gramas que fossem. Poucas vezes me terei ofendido tanto como daquela vez.

24.3.09

Gurus


Sacerdotes. Guias espirituais. Conselheiros. Guardadores de rebanhos. Líderes de massas. Qualquer que seja o nome que se lhes dê, os gurus prendem os seguidores num acrítico culto. São seguidos, em transe, quase como se a turba que lhes devota admiração estivesse presa por um mágico hipnotismo que lhe retira o sentido das proporções.


É curioso como há pessoas que precisam de gurus. Trata-se de um sucedâneo de religiosidade. Enquanto nas religiões tudo conflui numa celebrada entidade divina, o zénite onde se busca inspiração para a bonomia do mundo, com os gurus dir-se-ia haver uma deificação em forma de homem, ou a terraplanagem das divindades que passam a viver entre nós, literalmente. São deuses de carne e osso, que falam e se fazem ouvir, com prédicas audíveis e não apenas imagináveis.


Os gurus são um refúgio onde aportam os carentes de explicações para mistérios ininteligíveis. Procuram nos gurus um mapa que decifre esses mistérios. Estas pobres almas bebem aconselhamento que as retire da desorientação doentia. É como se estivessem perdidas no meio de um imenso deserto, só areia a toda a volta, a morrerem de sede e de fome e, de repente, do nada surgisse um oásis em forma de guru com tudo aquilo de que precisavam – uma palavra de conforto e o caminho por onde seguir na encruzilhada por diante. Só não sei se as pobres almas em demanda de conselhos tornam verdadeira qualquer patranha que lhes impingem gurus que sabem da poda. Os gurus perspicazes que sabem ler as fraquezas do rebanho que apascentam e cativam a sua fidelidade. Sem a canina fidelidade, esfrangalhavam-se em vestígios de gurus. Desmistificados, enfim.


São traiçoeiras, as generalizações. Haverá gurus genuínos, descomprometidos na entrega aos que os seguem. Haverá gurus que se empenham em ajudar os outros e não tresandam a gabarolice de serem arquitectos a redesenhar almas. Mas o que vejo em redor é a antítese. Gurus que soam a trapaça. Gurus engalanados com a soberba do narcisismo, enfeitados com uma prosápia risível, arrivistas a quem calhou em sorte um séquito que os endeusou incompreensivelmente. Gente manipuladora que se aproveita de frágil gente manipulável.


Existirem gurus será diagnóstico da fragilidade da espécie (ia arriscar dizer pequenez da espécie, mas recuei). Os problemas de alguém são endossados a um guru com o encargo de trazer soluções. É quando entram em cena gurus com dotes especiais, investidos de uma presciência só ao alcance dos sobredotados. Eis toda a fragilidade da espécie: na incapacidade para se regerem por si mesmas, as pessoas partem em demanda de vendedores de sonhos feitos de ar e vento, da gente dotada de uma varinha mágica que, com um toque de Midas, transforma ruínas num arejado e límpido compartimento onde a vida passa a ter lugar. Depois sobra a gratidão. Que alimenta a dependência e espalha a rede que cultiva os pastores de espíritos.


Não sei se será fraqueza, ou apenas desespero, quando as lancinantes pedras da vida dilaceram ensanguentados pés de gente imersa em vida sofrida. Dizem que gente desapossada de bússola se entrega nas mãos de gurus nutridos com especial sentido de orientação. Na ausência de bússola, a gente sedenta de saber por onde ir empenha-se nas mãos de um sábio guru. Não lhe pede a bússola emprestada – e nem o guru, por mais altruísta que fosse (contradição de termos?), emprestaria a sua bússola. É mais cómodo destinar a alguém a interiorização das suas dores de parto, esperando que o guru lhe ofereça em bandeja cintilante a mágica solução para obliterar as coisas pungentes de outrora. De repente, é como se o plúmbeo céu se desvanecesse e desse lugar aos dias soalheiros que dão gosto viver.


Alguém estranha que gente empenhada em gurus os entronize num deificado altar? Se as soluções vêm de fora de si, quando dantes viviam espartilhados num labirinto indecifrável, sobra-lhes o humilde reconhecimento da sua fragilidade (ou diria pequenez?). E o culto que consagra gurus. Ao menos isso: a espécie humana não é apenas um infindável rosário de vícios e defeitos. A humildade é um dom só ao alcance de uns quantos. Pena é que lá se chegue com a transfiguração do ser que se entrega, mais alma do que corpo, nas mãos de curandeiros misteriosos.


(Em Roma)

23.3.09

Aos olhos, o festim da ilusão


Será que os olhos, extasiados pelo deslumbramento de um local, anestesiados por expectativas, por relatos de outras pessoas, até pelos demorados encómios que se generalizaram, traem as sensações no regresso a um lugar? É como se o regresso o seja a um lugar diferente, ou que esse lugar tenha perdido o sortilégio do desconhecido, ao voltar à cidade exaltada. É como se, de repente, entre as duas visitas, a cidade se tivesse transformado e todos os pequenos detalhes que desgostam pesassem mais do que os lugares que inebriam os sentidos.


Pode ser que os momentâneos estados de alma turvem a análise. Que os olhos tragam um filtro que os distrai. E, contudo, já não noto aquele encantamento da outra vez. Até a luz parece diferente – e de ambas as vezes era um luminoso sol que me acolhera. As pedras das calçadas, as paredes gastas que encerram séculos de história, tudo parece ter-se perdido no significado já gasto da visita inaugural, da visita que dera a conhecer a cidade tão celebrada. Ou pode ser que caia o manto da ilusão sobre os olhos que se extasiam quando por fim lhes é dado a conhecer a cidade que era esperada há tanto tempo.


Assim é Roma, agora que a ela regresso. Já nem o infindável cortejo de monumentos, ou a traça de uma civilização a pulsar diante dos olhos, a misturar-se com o pulsar das veias de quem anda pelas pedras seculares que selam o troar da civilização que somos, ou a majestosa, esmagadora pose dos monumentos imperiais; nada isso desperta o encantamento que se apoderara da visita anterior.


É por isso que interrogo: se afinal o legado, cujas raízes aqui se encontram, explica o desencanto. A culpa, se importa determiná-la, foi dos romanos de tempos idos quando espalharam uma civilização, esta civilização, pela geografia da Europa? Ou foram as sucessivas gerações, pelo tempo fora, que estragaram o legado que receberam dos romanos? Seja qual for a resposta – em havendo uma – os traços da civilização aqui fundada permanecem vivos. Eis um exemplo que atraiçoa o legado do império romano: todo o direito que temos inspira-se na obra jurídica dos romanos (aprende-se numa maçuda disciplina logo no primeiro ano do curso). Quando se aponta o dedo aos juristas, e aos advogados em particular, pelos maiores dos males que campeiam, não se está a acusar, com toda a distância dos séculos, os romanos que nos deixaram este direito?


E é por isso que interrogo: se os olhos são atraiçoados pelos deleites a que vêm preparados. Constroem um mundo fantasioso, predispostos para o encantamento por causa de narrativas fantásticas, de imagens que retratam maravilhas da natureza, obras de arte emblemáticas, monumentos que remetem o visitante à sua pequenez diante do monumento que os esmaga. Quando se renova a visita a todos esses locais, é como se um vento gélido percorresse as entranhas e semeasse apenas desconforto. Tudo o que outrora fora encantamento era agora uma atroz vulgaridade.


As coisas têm muitas tonalidades, mesmo quando a uns olhos, num certo tempo, parecem estar engalanadas com as deslumbrantes cores do encantamento. O que os olhos fitam nunca é a imagem nua. Vem filtrada por estados de espírito, por predisposições que atraiçoam o olhar, incapaz de olhar além do véu que julga ser a essência das coisas. Parece que todas as coisas em todos os lugares apenas merecem ser visitadas uma vez. Ao menos guardam-se, dos lugares com merecimento, as primeiras imagens só compostas pelo encanto da visita inaugural. Nem que seja para dar alento ao altar das supremas fantasias.


Assim como assim, o tempo de uma vida é tão escasso para conhecer a vastidão do mundo. Tão escasso que retomar lugares conhecidos é desaproveitar tempo, o sempre tão escasso tempo. Contudo, há nisto um paradoxo. Pois se em todos os lugares, sobretudo nas grandes cidades, fica sempre mais por ver do que os olhos conseguem alcançar no escasso tempo da visita, às vezes é a boca que fica a pedir o regresso a esses lugares. Nem que seja para que os olhos percam a sua néscia máscara, mergulhados no frémito de imagens preconcebidas que semeiam um hipnótico estado de espírito nas visitas inaugurais.


Ao menos, que fosse para destruir o altar das supremas fantasias.


(Em Roma)

20.3.09

Um contentor é um contentor é um contentor


Por estes dias, a directora da DREN é o meu cromo preferido. A senhora só consegue ser notícia por motivos risíveis ou pela ridicularia que sobre ela se abate. Ora são atropelos à gramática portuguesa, ora aparições televisivas com a escorrência da mais deplorável arrogância, ora confusões conceptuais que, por junto, expõem o calibre da jactante personagem.


Desta vez mudou o registo. Já não foram os atentados à língua nativa que fazem da senhora a mais improvável ocupante do cargo. Agora foi uma tremenda confusão mental, ou, do alto da sua esperteza saloia, a tentativa de espalhar a confusão – mas só entre os néscios. Descobriu-se, numa freguesia rural de Barcelos, que alunos de etnia cigana estavam a frequentar aulas num contentor, separados dos restantes colegas. Logo a seguir veio esclarecimento da DREN, com a pontuação no sítio, sem palavras descontextualizadas e com exemplar concordância verbal. Aquilo era uma manifestação de discriminação positiva. Os alunos ciganos estavam a ter aulas à parte porque um crânio da DREN (com a ajuda de um bando de intelectuais que vegetam na vanguarda da engenharia social) decidiu que essa era a solução perfeita para a integração dos ciganos e para a eficácia da sua aprendizagem. A isto chama-se, digo eu, uma exemplar política de integração através da indiferenciação étnica.


É o problema de se ser mais papista que o papa. Estes "cientistas sociais" tanto querem moldar a realidade segundo as suas teorias, tanto querem promover a igualdade à força da martelada, que acabam, porventura distraidamente, por caucionar deploráveis discriminações. A senhora directora da DREN foi convidada a comparecer numa estação de televisão para fornecer explicações. Na pose habitual, tão ao jeito do arrivismo da função pública com bênção do partido certo que enche estas personagens de prosápia e arrogância em doses cavalares, a senhora esboçou uma explicação para a medida de "discriminação positiva". Só conseguiu meter os pés pelas mãos. E ser desmentida, no dia seguinte, pelo presidente da junta de freguesia e pela matriarca no acampamento cigano. Já não chegava a aura de incompetência que a acompanha para todo o lado, agora carrega também o opróbrio da mentira. Já começo a sentir comiseração.


O naco delicioso estava reservado para a passagem da entrevista em que a todo-poderosa, naquela pose de quem tomou alarvemente um poder que nunca ousara sonhar ser seu, corrigiu o jornalista que a interpelou por ter acantonado os alunos ciganos em contentores. Foi como se uma professora primária desse uma reprimenda enfatuada no menino em idade escolar, corrigindo-lhe a impertinência: não são contentores, são "monoblocos".


Voltamos aos problemas de uso da língua. Dantes era só a expressão escrita a revelar alguma – como dizê-lo? – ineptidão da personagem. Confirma-se a extensão da patologia: é um problema total com a língua nativa, também na expressão oral. Alguém devia ensinar à senhora o significado de eufemismo. E, de seguida, enfatizar que "contentor" e "monobloco" são palavras diferentes para a mesma coisa (de resto, palavra ausente do dicionário). É como se alguém dissesse: "preto não, negro".


Já que há dias o bardo oficial da pátria, aquele que tanto incómoda o timoneiro da dita, enriqueceu as letras com um poema sobre contentores, sugiro que se deixe tomar por um novo momento de inspiração e ensaie uma sequela do poema. Para homenagear os "monoblocos", essas soberbas edificações para onde os alunos são atirados em invejáveis condições de aprendizagem. Ao bardo dava-se liberdade criativa. Só se exigia que prestasse homenagem à – como adjectivar? – directora da DREN, sua musa inspiradora.


A esta margarida personagem, um pedido encarecido: continue com a ostentação de poder e com a ânsia de protagonismo. Apareça mais nas televisões, nem que seja com aquele ar de bulldog enraivecido que se curva na direcção da câmara que a filma quando impertinentes jornalistas formulam perguntas incómodas, como se quisesse engolir a câmara e tudo o que está do lado de cá. Apareça muito, desempoeire a sua prosápia, delicie-nos com carradas da inexplicável altivez que, essa sim, é sua especialidade. É que esta terra tão cinzenta precisa de cinzentas personagens em bicos dos pés a fazer figuras circenses. Precisa, e muito, para se rir, parafraseando Mário de Cesariny, como "os lavados e muitos dentes brancos à mostra".

19.3.09

“A esquerda” em contramão


Se há coisa que adoro são estereótipos. Sobretudo quando os seus feitores proferem palavras tão solenes que encerram a negação dos estereótipos. Na paisagem política indígena – e não só – aprecio bastante a diligência de algumas esquerdas em gizarem, com traço fino e invejável esquadria, a espessura das verdades absolutas e dos imperativos categóricos. Ontem calhou a Rui Tavares, no Público, esta pérola:


"Não por acaso, a obsessão com a homogeneidade é de direita (se pensarmos bem, é herdeira da obsessão religiosa com a pureza) e a obsessão com a igualdade é de esquerda. A direita preocupa-se menos com a desigualdade desde que o país seja homogéneo. O conservadorismo nacional é anti-regionalização, anti-imigração e antidireitos dos gays (bom dia, dr.ª Manuela Ferreira Leite), mas não perde o sono com a desigualdade".


A começar, como se pode reduzir tudo a uma "direita" e a uma "esquerda"? Contrariamente ao enunciado do número dois da lista de deputados do Bloco de Esquerda às eleições para o Parlamento Europeu, esquerda e direita são conceitos plurais. Há direitas e há esquerdas, no plural. Sou capaz de não confundir Rui Tavares com a mesma esquerda dos que se passeiam pelo PS e dos devotos militantes comunistas. Em contraponto com Rui Tavares, nem sequer consigo colocar o PSD na direita – mas esse defeito é meu, um defeito de perspectiva. Assim como assim, do sítio onde me encontro vejo a esquerda com que Rui Tavares simpatiza como território da extrema-esquerda – mas não é essa a discussão que me traz aqui.


Coloco a citação de Rui Tavares no prato e preparo-me para a dissecar. Para o historiador, as categorias aparecem todas arrumadinhas da forma como ele as vê passar diante da tela que os seus olhos fitam: "a direita" é altar da homogeneidade; a heterogeneidade é açambarcada pela "esquerda". Eu, que sou de direita – uma direita que não se revê em nenhuma das direitas com lugar marcado na plateia da política caseira –, abomino a homogeneidade e os seus traços identificados por Rui Tavares. Repugna-me a direita presa ao estertor das bafientas sacristias. Devia existir regionalização ou qualquer solução que descentralizasse poder e recursos financeiros (com o senão dos autarcas serem filhos pródigos quando se banqueteiam à mesa do orçamento). Sou favorável à total abertura de portas aos imigrantes, e não é por oportunismo tacanho ao perceber que os imigrantes são necessários diante da crise demográfica que aí vem. E por aqui já deixei, mais do que uma vez, palavras a defender o casamento de homossexuais e o seu direito à adopção. Para terminar, é inaceitável acantonar a direita no "conservadorismo". Há direitas que rejeitam o conservadorismo.


Pelo binóculo estreito de Rui Tavares, tudo isto faria de mim notável esquerdista. Desengane-se. A cada dia que passa, tudo o que ressoe a "esquerda" é destino evitável. E ser de esquerda é só isto? É só secularização, regionalização, hospitalidade com os imigrantes, paridade entre heterossexuais e homossexuais, arejamento intelectual deixando "à direita" só ideias tacanhas? Se me situar à direita, ser-me-á vedado aceitar os malefícios do enfeudamento religioso do Estado, pugnar por um modelo de regionalização, defender as virtudes de uma sociedade aberta aos outros, zelar pela concessão de direitos cívicos aos homossexuais tal como são garantidos aos heterossexuais, deplorar os atavismos? Porventura Rui Tavares teria a tentação de dizer que estou enganado; que me acho de "direita" quando as ideias são de "esquerda". O que vale é que o sítio onde nos colocamos não é definido pelo juízo que os outros fazem de nós. Para contrariedade destes iluminados que teimam em arrumar tudo em categorias tão estanques, não pertenço a qualquer das esquerdas.


As frases escritas pelo punho de Rui Tavares são a negação do seu postulado. Pois se o número dois da lista do Bloco de Esquerda às eleições para o Parlamento Europeu sentencia que a pluralidade é atributo da "esquerda" e da "direita" só podemos esperar homogeneização, como explicar que ele, na ânsia do estigmatizar através dos estereótipos, acabe por incorrer no pecado que atira para cima da "direita"? No fim de contas, é Rui Tavares que faz a homogeneização (da "direita" e da "esquerda"). Um frei Tomás que também pratica o contrário do que prega.


Se não estivesse encerrado em quadros mentais herméticos, talvez Rui Tavares entendesse que há "direitas" e "esquerdas", ambas plurais. Em ambos os lados da barricada há quem cultive a homogeneidade e quem se aliste na heterogeneidade. Ao contrário do que supõe, o mundo não é assim tão binário, tão a preto e branco.

18.3.09

Os problemas da igreja católica com o sexo


De visita a "África", o Papa sentenciou: não é com preservativos que se combate a praga da SIDA.


(De caminho, esta dúvida. Ao ler notícias sobre esta viagem papal só consegui saber, pelo título e pelo breve resumo que se segue, que "sua santidade" ia de viagem "a África". Mas onde em África, esse continente tão heterogéneo, tão gigantesco? Era preciso ter a mesma atenção que as companhias de seguro convidam a não ter quando se assina um contrato e, adivinho, por imperativos ambientais – poupança de papel, menos árvores abatidas – remetem as cláusulas do contrato para letras microscópicas. Ou seja, teríamos que ler a notícia para saber o rol de países agraciados com a visita de Bento XVI. O que roça a perplexidade? Duas coisas. Primeiro, não discriminar os países visitados e, indiscriminadamente, tratá-los por "África". Como se a África fosse uma só coisa. Segundo, não ter vindo nenhuma voz protestar contra esta infâmia da comunicação social. Aproveitando para as acusações costumeiras: etnocentrismo, o estigma mal resolvido da outrora potência colonial, o ultraje a África e aos africanos, tratados com esta indiferença genética.)


É o que se chama uma entrada de rompante. No continente mais martirizado pela SIDA, no continente onde é costume associar-se a libertinagem congénita à disseminação da doença, o chefe da igreja católica teve o mau gosto de alvitrar que a luta contra a SIDA não se faz com a educação das pessoas para a utilização de preservativos. Pois não; é com a abstinência tão assepticamente sugerida pelos teólogos católicos. Um tiro na mouche. Ou um tiro no pé, conforme a perspectiva.


A igreja tem problemas mal resolvidos com a sexualidade humana. Para começo de conversa, a biologia deve fermentar uma dolorosa sensação entre os sacerdotes que defendem o dogmatismo católico. Afinal de contas, a espécie depende do tão vituperado sexo. Do sexo que a doutrina não os deixa praticar, que eles não foram espalhados no mundo para a procriação da espécie mas apenas para conduzirem espiritualmente as ovelhas carentes de orientação. Se todos fôssemos obedientes seguidores da palavra divina, não questionaríamos a recomendação de quase abstinência. Só nos entregaríamos à devassidão dos corpos com o fito da reprodução da espécie. Fora disso, viveríamos em harmonia com a castração dos sentidos.


Esse é o grande problema: o que somos e a prole que deixamos dependem do sexo. Dessa coisa abjecta, com troca de fluidos e tudo, ó coisa asquerosa. Ora como a igreja tem problemas com o sexo, supõe-se que seja com qualquer tipo de prática sexual – desde as mais inocentes às mais patológicas, sem discriminação de grau. Como era mais confortável se a fábula das cegonhas que voam desde Paris com o nascituro embrulhado no bico fosse verdadeira. Era um mundo mais higiénico, um lugar sem as perversões do sexo, sem debates espúrios sobre monogamia versus poligamia, nem deploráveis negócios com "carne branca", ou a indústria da pornografia. Toda a gente muito obediente aos mandamentos da igreja, no papel de porta-voz das incontestáveis verdades divinas. Mas toda a gente castrada – porventura o degrau em falta para que todo o rebanho seja obediente.


Eu, que tenho o pecado do racionalismo, prefiro os mandamentos da biologia aos palpites sem cientificidade da igreja católica. É que sempre me fez espécie que Jesus tenha nascido de mãe virgem. À época ainda não havia inseminação artificial. É pena que deus ainda não tenha deitado a mão à biologia e aos biólogos (devem ser todos da maçonaria, por certo). Nas consumições particulares que a igreja católica passa com o sexo, apetece perguntar se em cada padre, em cada freira, não pulsa o desejo carnal debaixo da sotaina. A menos que, em segredo, se proceda à castração química quando entram em seminários e conventos, a biologia desmente a doutrina interiorizada. Duvido que sejam mentalmente fortes ao ponto de se auto-castrarem. E mesmo que o façam, deixem os outros em paz, entregues à interior lascívia. Não os apoquentem com a sua imposta abstinência.


Ver o Papa a pregar a moral anacrónica em África só faz rir: é como se lá chegasse e cobrisse os nativos com roupa apropriada para o círculo polar árctico.

17.3.09

Quando a segurança social não consegue garantir o seu fim, é o fim da segurança social


De acordo com um estudo da OCDE, daqui a vinte anos teremos direito a receber uma pensão de reforma igual a 54% do último salário. Quando chegar a altura da minha geração retirar os proveitos de uma vida de descontos, só nos há-de ser garantido pouco mais de metade do que foi prometido ao longo de uma vida de trabalho.


Uma segurança social incapaz de garantir o seu objecto é uma segurança social que ainda faz sentido? A pergunta tem outra formulação, mais ríspida: para que andamos a fazer descontos para a segurança social se nos avisam que na idade de reforma teremos direito a recolher pouco mais de metade se as obrigações da segurança social em relação às gerações actuais fossem cumpridas?


No turbilhão de reacções que o estudo da OCDE provocou, o improvável ministro da tutela asseverou, com a maior das tranquilidades, que o problema não é um problema. Apressou-se a tirar da cartola três possibilidades para diluir o problema: ou aceitamos descontar um pouco mais ao longo da vida activa, ou aceitamos prolongar a vida activa e adiar a reforma, ou contratamos o famoso PPR que o Estado comercializa.


Vamos por partes. Se a segurança social está à beira da falência e não vai ser capaz de cumprir o contrato que celebrou, à força de lei, com a minha geração, quem nos garante que o PPR público não está destinado ao mesmo insucesso? A última hipótese fica varrida do horizonte. As outras duas possibilidades seriam matéria-prima para um programa de humor, não tivessem as palavras apaziguadoras do futuro sombrio sido proferidas por um responsável que as tingiu com uma assombrosa irresponsabilidade. O homem disse-o, como quem aconselhava qualquer pessoa a não cumprir um contrato por si assinado: ou descontamos mais, ou trabalhamos mais.


Primeira razão para a água transbordar do copo: se descontarmos mais, quem garante que nos alvores da reforma teremos direito a receber a pensão de reforma como recebem os actuais reformados? O mal está feito: uma vez rompida a confiança, o que fica a pesar é a eterna desconfiança. Segunda razão para ficar boquiaberto diante das palavras pateticamente tranquilizadoras do ministro: o homem disse que não vem grande mal ao mundo se prolongarmos a vida profissional, pois assim descontamos mais anos e o problema fica resolvido. Até disse, imerso num desplante de que não terá dado conta, que assim como assim a esperança de vida vai aumentando (supõe-se, por arte e diligência da magnífica governação socialista, pois até já fabricaram uma lei que impõe o pão insosso e corta pela raiz os enfartes e AVC). Pergunto daqui: quando a minha geração começou a descontar, a idade de reforma não estava fixada, e por lei, nos sessenta e cinco anos? O que se chama a mudar as regras a meio do jogo? Frustração de expectativas ou, poderei arriscar, batota? À pergunta sacramental: quem pode confiar nesta segurança social e em quem dá a cara pelas garantias que esperamos da segurança social?


Talvez alguém devesse explicar ao irresponsável ministro que a segurança social tem alicerces. Se esses alicerces forem derrubados, é toda a segurança social que fica em causa. Um dos esteios é a natureza cumulativa dos descontos e do direito a receber pensões de reforma. Uma geração anda a descontar para ter a garantia que recebe a pensão de reforma quando estiver na altura de parar de trabalhar. Mas há uma parte das pensões de reforma suportada pelas gerações em idade activa. Ou seja, o contrato social entre o Estado e uma geração não vai ser respeitado. A minha geração, que andará uma vida inteira a descontar para a segurança social e a suportar em parte as pensões de reforma dos actuais reformados, ficará de mão estendida quando chegar a altura de receber a pensão de reforma. Lá se vai a solidariedade inter-geracional. Quando assim é, a segurança social deixa de ser capaz de assegurar a sua finalidade. E perde razão de ser.


Quem ficou a esfregar as mãos de contentamento foram os bancos e as companhias de seguros. Agora é que vai ser uma correria aos PPR – aos PPR genuínos, àqueles em que podemos mesmo confiar.

16.3.09

Será por falta de aranhas que a economia está em crise?


Está uma aranha parada à minha frente. Ocorre-me o adágio popular: aranha por perto é sinal de dinheiro, por certo. Por um momento, deixo em suspenso o cepticismo em relação à suposta sabedoria popular – como se "cultura" e "povo" fossem palavras em sintonia. Ponho a recusa da existência da cultura popular entre parêntesis para interrogar, caso a sabedoria popular fosse coisa consagrada, se esta tão grande crise não se fica a dever à escassez de aranhas, aranhiços e afins.


O povo destaca-se pelas explicações fantasiosas, que se enraízam no fantástico, na crendice pagã que se mistura com uma religiosidade que, nos cânones oficiais, recusa qualquer laivo de paganismo. É nas coisas misteriosas que a sabedoria popular ganha taninos catedráticos. Para fenómenos insólitos, ensaiam-se explicações sobrenaturais. Um imaginário repleto de cargas simbólicas, muitas metáforas impensadas, a demissão de toda a racionalidade.


Por que razão diz o povo que se há uma aranha a rondar é sinal de dinheiro a dar à costa? Por mais voltas que desse, as respostas escapavam-se-me entre os dedos. Incapaz de perceber o elo entre aranhas e abastança. Pelo contrário, a dominante aracnofobia é motivo para dissociar o bicho do bem-estar material. Faço parte do, creio, numeroso grupo que se arrepia com aranhas. No imaginário popular, os aracnídeos são remetidos para um nível inferior quando a simpatia das gentes pelas espécies animais estabelece uma hierarquia.


Foi então que ensaiei uma elucubração que ata as pontas entre aranhas e a crise a que estamos presos. Tive que presumir, a contragosto e só para tornar plausível a assombrosa teoria, que aranhas e dinheiro são palavras que dançam em compasso. Dessa coreografia resulta que a crise, a tão profunda crise que se ultrapassa mais depressa que o bater dos ponteiros do relógio, tem uma explicação linear. Dizem que há crise porque o dinheiro anda arredio. As aranhas ou estão em hibernação, ou foram dizimadas por uma praga qualquer.


A estagnação estende-se com tentaculares efeitos: estagnação de crédito que impede os investimentos, sorvendo a capacidade de produção das empresas; estagnação de crédito que aperta a jugular dos consumidores, treinados nos últimos tempos a viver acima das possibilidades com a chancela do crédito fácil dos bancos. Sem crédito fecha-se a torneira do consumo. Menos consumo semeia nuvens sombrias nas empresas, condenadas a produzir menos, algumas até condenadas à falência. Lá vai o desemprego a subir a ladeira, imparável, na exacta medida que o consumo (dos desempregados) desce o outro lado da montanha a uma velocidade imparável. Parece que as aranhas emigraram para outra galáxia.


Há quem sugira que as autoridades competentes, as que fazem a cirurgia da política económica, devem mandar imprimir dinheiro e depois espalhá-lo do céu através de balsâmicos helicópteros. Pois se é o dinheiro que falta – ou, tomando de empréstimo a língua de trapos dos economistas, é a "falta de liquidez" – ele que seja inventado. Faz parte das prerrogativas de ser Estado: fabricar dinheiro para ser injectado na economia. Fossem tão fáceis os milagres e não havia tempo para colocar a palavra "problema" no dicionário. Já que houve uma primeira utilização de um aforismo popular, continue-se na senda dos ditados consagrados pelo povo para interrogar: "quando a esmola é muita, não há-de o pobre desconfiar"?


Se fosse verdade que as aranhas têm um sobrenatural poder para atrair dinheiro, dir-se-ia que as autoridades encomendaram a cientistas com ar tresloucado uma qualquer manipulação genética com o condão de espalhar no mundo um exército numeroso de aranhas. E, neste texto carregado de adágios populares (contrariando a espessura do autor), não há duas sem três: "se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé" – para sintetizar a maravilha da manipulação genética das notas que, diz-se, escasseiam na economia.


Oxalá me engane, mas receio que os aranhiços de laboratório não sejam senão uma praga destinada a semear outra doença, uma doença bem pior do que a deflação que hoje ameaça: a inflação sem freio. Já que tantos economistas com saudades de Mr. Keynes usam exemplos da história para demonstrar a inevitabilidade do regresso a Mr. Keynes, alguém lhes lembre os devastadores efeitos da hiper-inflação que podem também encontrar ao folhear os anais da história económica. Nessa altura, de tantas aranhas povoarem o terreno, tudo ficou infértil.

13.3.09

Ofendidas, as pitonisas sentenciaram: um deputado não pode escorregar para a linguagem de caserna


É espantosa a capacidade para o entretenimento geral com o acessório, parecendo adormecido o que importa, convenientemente adormecido. Um dia destes deu brado o palavrão de um deputado proferido em pleno parlamento. De repente, o resto deixou de contar.


O homem não falava para o microfone, logo o sistema de captura de som não registou a palavra audível. As imagens das televisões passaram à exaustão a exaltação do deputado quando reagia à fina ironia de um colega de outra bancada. Parecia que estavam a dissecar um polémico penalty. Só faltavam as imagens em câmara lenta e a opinião de especialistas – neste caso, peritos de linguagem gestual, habituados a ler os lábios – para afiançar que o deputado tinha cometido suprema aleivosia. Éramos convidados a ler os lábios de sua excelência. Pudemos observar uma palavra obscena a sair da sua boca.


Se não foi notícia de abertura, se não foi parar à capa de periódicos penhores da seriedade, andou lá perto. As pessoas quase todas ofendidas com a má educação do senhor deputado. Entaramelando meia dose de boa moral acompanhada pela indignação geral, o estafado argumento: há lugares tão solenes que não se prestam à linguagem do povo rasteiro. É o argumento do numeroso coro de gente ofendida, a gente que no dia seguinte apanhou o deputado a jeito e o encostou às cordas. Exigia-se retractação pública, se possível com abundante dose de humilhação, o deputado de rastos a penitenciar-se pelo desbragamento verbal.


Ainda bem que este é o raciocínio oferecido pela gente tão ofendida com a audácia verbal do parlamentar. Se dizem que a linguagem é própria do povo que habita as caves esconsas onde a linguagem não obedece a tratos de polé, que se lhes relembre que os deputados são representantes desse povaréu. Vamos agora descer a inclinada ladeira da desigualdade e exigir aos deputados o que não se exige ao povaréu sem tento na língua? Assim como assim, os senhores e senhoras com lugar na Assembleia da República são a imagem do povo que os escolhe. E se o povo é pródigo em palavrão frequente, por que se não consente o registo aos que o representam?


Somos uma gente paradoxal. Gente latina, todavia escondida do informalismo que abunda nos demais latinos. Nestas coisas das instituições e das solenidades que lhes adjazem, impera uma seriedade, dir-se-ia, um apurado "sentido de Estado" (como adoro esta expressão!) que faz de nós gente sisuda. Insistir que as pessoas importantes têm responsabilidades acima da média, o que delas exige contenção verbal e forma de vida compatível, é uma entorse à igualdade por aí tão apregoada. Será a factura de serem famosos, ou de terem visibilidade pública, ou de terem o poder entre mãos? É-lhes permitido em privado o que não se lhes consente em institucional pose?


Eu propunha: que aos deputados fosse autorizada a arruaça. A elegante arruaça, sem insultuosa agressão física. Quem lhes pode cercear o direito ao turpilóquio, se quem os escolhe deita uma perninha amiúde na turpilóquia linguagem? Quem lhes pode travar a língua quando o achincalho os cobre, se para os seus botões espumam o catálogo de impropérios conhecidos? O parlamento parece uma casa assombrada, muita gente acabrunhada, como se estivessem metidos dentro de um espartilho, obrigados a mostrar boa educação que porventura não lhes é inata. Não está certo meter os deputados nesta vara de sete paus. O que o povaréu gosta é de diversão. Talvez se cultivasse a proximidade entre eleitos e eleitores se aos primeiros fosse dado o direito, uma vez por outra, quando lhes doesse o calo, de escorregarem para a linguagem de chinelo.


Como é insuportável a hipocrisia dominante, o faz de conta interminável só porque a solenidade das instituições exige decoro. Obriga-se as pessoas a rebaixarem-se às instituições, tão sérias e sacralizadas as instituições que o uso de linguagem torpe pode agredir a sua sensibilidade. Houvesse quem me garantisse que "as instituições" têm vida própria e ainda dava de barato que a compostura imperasse. Mas o que são as instituições senão a imagem de uma população que se enquista na abstracção das instituições? Quem entroniza uma pudica condição nas instituições abraça-se a um equívoco: se não são gente, como podem ter ouvidos e olhos e sentidos e ficarem ofendidas quando a linguagem desce ao nível da caserna?


O deputado, José Eduardo Martins de seu nome, devia receber o prémio do deputado da legislatura. Por uma vez, enfim, um deputado à imagem de gente, de carne e osso e não feito de gelatinosa compostura. Uma compostura que é uma impostura.

12.3.09

Sai um quilo de sal para a malta que se preocupa tanto com a nossa saúde


A última saga, a última de muitas dos proponentes do higienismo à força, é o sal no pão. O pão que tem sal a mais, bem entendido. Um excesso alimenta o outro: do sal à hipertensão, um salto apenas. Depois há gente a morrer de ataque cardíaco. Mudem-se os hábitos alimentares: os padeiros convencidos, à força da lei e sob o jugo de pesadas coimas, a adicionar uns escassos gramas de sal na massa do pão. Para não entornar o sal e não incomodar os arautos da irrepreensível saúde pública.


Somos ingratos, os que desafinam do coro que aceita as prescrições obrigatórias do bando de engenheiros sociais de braço dado com cuidadosos médicos. Preocupam-se tanto com a saúde pública e nós desatamos a criticá-los "só porque" gostamos de pão com sabor a pão. O nosso problema, além da desagradável ingratidão, é não sabermos que os hábitos se reinventam. Como podemos demolir todos os conservadorismos quando somos, lá no fundo, conservadores de sabores e hábitos alimentares que provocam dano na saúde?


Da tremenda contradição devia resultar um cautelar silenciamento. Os que desalinham dos códigos entronizados e desaprovam as causas alinhadas na pauta oficial deviam ser condenados ao degredo de opinião. Por imperativo da saúde pública, que é assunto indiscutível. O problema maior é a campanha dos engenheiros sociais e diligentes médicos ser incompreendida. Pertence ao domínio das injustiças que muito magoam quem tanto oferece à causa pública. Não devia ser suficiente para deixar proscritos os adversários desta causa pública?


Debato-me com a consciência. É como se tivesse dois hemisférios em perene combate. Um dos lados agradece, mas declina, a presciência da causa pública. O outro lado aponta os cânones da moral do momento, a ingratidão a dourar a injustiça dos cultores do higienismo não serem reconhecidos pelo inestimável serviço público. É o primeiro hemisfério que vinga, todavia. Deplora as constantes intervenções de figuras tutelares que ostentam autoridade e redesenham hábitos pela batuta da lei e com o lastro da autoridade médica. Quem somos nós, comuns mortais e néscios de medicina, para questionar a autoridade médica?


O zelo dos médicos ultrapassa a minha compreensão. Se formos todos bem comportados, se ninguém pisar o risco da alimentação indevida, quem vão os médicos tratar? Estarei errado se adivinhar dias sombrios à classe médica se algum dia fosse possível cumprir o sonho de uma saúde pública exemplar? Enquanto não chega o mirífico cenário, agigantam-se nos tamancos da autoridade científica e assustam-nos com fantasmas hediondos. Quem quer morrer de enfarte de miocárdio? É só continuar a embuchar pão carregado de sal.


A militância dos médicos serve de alavanca para o activismo de engenheiros sociais, sempre carentes da reengenharia social de onde sai o esboço do novo e perfeito homem novo. É gente insossa. A continuar a este ritmo, um dia destes não há leis que cheguem para proibir o que quer que seja, nem polícia e tribunais que sobrem para passar as coimas aos teimosos da infracção. Só ainda faltou convencerem os grandes chefes de cozinha a reinventarem a gastronomia. As feijoadas e os sarrabulhos e outras iguarias que tais, então todas assépticas. E depois convencer uma turba de fiéis militantes socialistas a rumar aos restaurantes assépticos. Para não se esgotar a fonte inventiva e a longa mão sapiente que acautela a nossa saúde, quem sabe se as intrusões se estenderiam à cama onde dormimos e onde nos emprestamos à devassidão. Ainda haveremos de ver um Kamasutra reinventado pelos cânones da gente insossa, um manual detalhado da arte – que seja, uma resma de páginas carregadas de proibições. Pois alguma alma caridosa descobrirá que a luxúria faz mal ao coração.


O tal hemisfério rebelde insinua todas as infracções ao observar o enlevo, o generoso empenho, a assertividade das certezas, a ostentação de autoridade dos videirinhos da imaculada saúde pública. É quando apetece ser fumador, não o sendo. Alcoólatra, apesar de abstémio. Ter vida sedentária, apesar do exercício físico de agora. E uma alimentação desregrada, com muitos fritos e comida ensopada em sal. Podia ser que do sal em excesso respingassem uns vestígios para estes insossos actores do higienismo, que por dele andarem arredios abusam das intrusões em vida alheia. Talvez então percebessem que não lhes deram mandato para serem zeladores da saúde dos outros. E não venham com a diatribe do muito dinheiro consumido ao serviço nacional de saúde por causa da negligência de gente descuidada com a sua saúde: é gente pagadora de impostos. Que tenham utilidade esses impostos. Para curar doentes em vez de manter um bando de higienistas.

11.3.09

Facínoras bons são os que têm pedigree de esquerda


A visita do presidente angolano. Primeiro, definitivamente, ética e negócios não dançam a mesma música. Segundo, da habitual superioridade moral que as esquerdas reivindicam para si, uma ideia: há facínoras com os quais acabamos por condescender. Como se fossem facínoras bons – ou bons facínoras, que a ordem dos factores é arbitrária.


Ontem, todos os partidos com lugar no parlamento, com a excepção do Bloco de Esquerda (BE), ou teceram loas ao ditador angolano (PS, PSD e PCP) ou ficaram por um silêncio ensurdecedor (CDS-PP). Até nisto o bloco central é um mau exemplo. Os imperativos do pragmatismo sobrepõem-se a outros valores.


O relacionamento com Angola está viciado. Estamos de cócoras, numa posição que imagino ser confortável para a ganga angolana, lambuzando-se com um cenário que inverte estatutos sedimentados em séculos de história. O outrora colonizado manda no que foi seu colonizador. Os negócios assim determinam. Ou estendemos a passadeira para os angolanos passearem a sua pesporrência, ou os negócios caberão a outros. Pelo caminho, fechamos os olhos a um rosário de violações de direitos humanos, a uma democracia que não passa do nome, à fortuna colossal de José Eduardo dos Santos e de um séquito muito restrito em contraste com a pobreza obscena de quase todos os demais. Assobiamos para o alto. Fazemos de conta que Angola rima com normalidade. Só para termos lugar no lauto manjar dos negócios numa, diz-se, "terra promissora".


O respeitinho na ordem internacional fala mais alto. Sinal dos tempos, as terras onde existem mercados cheios de potencial encaminham terras outrora poderosas à sua pequenez. Estou à vontade para o que vem a seguir, pois já aqui deixei, por várias ocasiões, credenciais de ausente nacionalismo. Neste relacionamento enviesado com Angola, curvamo-nos em respeitosas vénias para deleite sumptuoso de quem é pajeado. A força dos cifrões suplanta a humilhação a que somos remetidos pelos tratantes angolanos. O que sobra é um silêncio cheio de cumplicidades.


A irmandade de políticos e empresários sequiosa das boas graças das autoridades angolanas não percebe (ou finge não perceber) que esses são lucros manchados pela ignomínia, quantas vezes pelo sangue derramado pelas purgas que continuam, quantas vezes dinheiro fétido com o odor dos cadáveres de angolanos que morrem enquanto um punhado de privilegiados nidifica na abundância. A ingenuidade que me persegue manda ponderar que nem todos os meios justificam os fins. Os negócios em Angola – e a forma como são autorizados, com relatos de corrupção e nepotismo em estado puro – são isto: fechar os olhos aos meios pois o que interessa é chegar aos fins. O silêncio do CDS-PP e o apoio entusiasmado do PS, PSD e PCP, mais a água na boca de empresários para quem a palavra "escrúpulo" não faz parte do dicionário, mostra a conivência com uma ditadura que se travestiu de democracia. São todos cúmplices. Os de cá, covardes também.


Por uma vez que fosse teria que aplaudir a esquerda caviar. O gesto de reprovação da cleptocracia angolana foi uma boa surpresa. Ainda estou para perceber que táctica congeminou para se demarcar da genuflexão uníssona dos outros partidos. Passo à frente dos cálculos da pequena política partidária. Até porque não seria a primeira vez que as várias esquerdas condescendiam em relação a ditadores que habitam a casa da esquerda. A ideia dominante é esta: os ditadores que vieram da extrema-direita não têm remissão. São casos perdidos. Os ditadores que navegaram pela esquerda e entretanto fingem converter-se às maravilhas da democracia merecem tratamento generoso. Num facínora de esquerda que finge enamorar-se pela democracia depressa se dissolve a facínora condição. Os facínoras de esquerda depressa passam a bons facínoras – por habitarem na esquerda. É a espessura necessária para o perdão dos sacerdotes da nova moralidade.


Ia a concluir que me custa ver políticos nativos a dobrarem a espinha perante o cleptocrata angolano. O bloco central aparece todo (excepto umas ilhas que tinham interesses económicos semeados no lado contrário da barricada) irmanado em lambe botas prescrição, para gáudio da irritante arrogância do tiranete e de seu séquito. Afinal a conclusão tem outro matiz: diz-me com que andas, dir-te-ei quem és.

10.3.09

Espúria nostalgia


Ah, as recordações, como trazem de regresso o outrora que nunca mais se repete. É como se o exercício da memória fingisse que as coisas se reinventam na exacta dimensão de como elas o foram. Pela revisitação do tempo, dos lugares, dos acontecimentos, das pessoas que ficam a emoldurar a memória arquivada. Ah, o inebriamento constante do mergulho nas águas perfumadas com a bonomia de outrora. Como se as águas de agora fossem águas pantanosas, águas viscosas onde todo o lodo vem à superfície e aprisiona os movimentos. Dir-se-ia: é como se o tempo de outrora tivesse outra espessura, o de hoje gasto antes do tempo.


Só que as bonançosas águas de antanho são uma miragem. Que se reproduz na memória treinada para atraiçoar o tempo presente. Pior: o tempo actual desgasta-se nas divagações habituais que revisitam os lugares, as pessoas, os acontecimentos vindos de trás. A um passo só da tremenda ofensa do tempo que sobra pela frente, que em muitos fragmentos é consumido com a dobra do passado.


Dizem que não honramos o que somos hoje se nos desligarmos do património genético, de todo o pulsar sedimentado nos anos já vividos. Dizem, até, que essa recusa sinaliza um passado mal resolvido, a vergonha de actos cometidos, o arrependimento por opções, o incómodo em resgatar da memória os traços dolorosos. Haverá alguém com passado imaculado ao ponto de apenas reviver os anos gentis? E haverá alguém que da arrecadação das memórias apenas resgate instantes que não merecem recordação?


Não interessa a espessura da vida emoldurada no tempo que já se ausentou. Não interessa compulsar o catálogo dos anos dobrados, como se fosse uma insólita contabilidade a pesar nos pratos da balança o bom e mau vindos das catacumbas do tempo. O revivalismo, quando teima em bater à porta amiúde, é um íntimo sobressalto com o tempo presente. Dir-se-ia, um refúgio para ausentar o tempo presente nas gratificantes recordações que acodem do tempo já ausente ressuscitado no tempo actual. Apetece reverter a interrogação dos aduladores da nostalgia: quem se agarra com toda a força à nostalgia não recusa o tempo presente?


Não há como desligar a tristeza da nostalgia. Nem quando o mergulho nas recordações gratificantes traz a excitação dos momentos inolvidáveis, nem então o exercício se desprende da condenação da assumida tristeza por um passado que não se reproduz. É esse o tormento da nostalgia. Ela sela, impiedosa, o sepulcro das recordações irrepetíveis. Quando por fim o corpo se desliga do torpor do revivalismo e retoma o contacto com o tempo que existe, as dores da existência gritam em toda a sua intensidade. Só há um esconderijo onde essas dores podem ser anestesiadas: novo devaneio nostálgico, como se a nostalgia fosse uma droga dura, a única terapia para esconder o doloroso tempo presente.


A nostalgia é como arremeter contra o caudal do rio. Como os salmões que sobem o rio para a desova. Morrem depois. Reviver o que apenas pertence à memória é fluir contra a maré, uma demissão do porvir. Não há desonra alguma em remeter o passado ao cadinho a que ele pertence – ao armário onde a poeira sedimenta as memórias às intraduzíveis sensações, os episódios de outrora já impossíveis de serem retratados em imagens a passar na tela mental. O que honra é agarrar a vida de frente, prendê-la com as duas mãos, com toda a força que os braços consigam ter. A nostalgia é baixar os braços.


Que interessa recuperar as memórias se elas servem só para pôr um parêntesis na vida que consegue ser degustada? Sem se dar conta, o recuo até às memórias fica a um passo do precipício.

9.3.09

A vida, um festim


De que serve a tristeza? De que serve definhar nas sombrias vielas onde o chão, escorregadio, atraiçoa os passos? De que serve teimar na penumbra que toma conta do horizonte? De que serve a ladainha da alma, os incontáveis lamentos com serventia para mergulhar o rosto numa fachada sorumbática?


Diante das dores da alma, impõe-se a negação das trivialidades que soam, estridentes, ao compasso do relógio que tinge o fétido dos dias actuais. Oxalá as dores se ausentassem nos sentidos que zelam, vigilantes, pelo teatro do mundo. Tomara que as coisas deixassem de ter os predicados enevoados que escondem o seu leito lamacento. Aqueles escombros onde tudo perece nas ruínas por onde silva o vento fugidio, o vento que soa à morte espalhada. De que serve pernoitar, noites a fio, nestas ruínas onde tudo repousa na suicida acalmia que arremete contra os sentidos decantados?


Talvez o segredo seja fazer de conta. Talvez a alienação, o bálsamo maior para subtrair aos escombros que aprisionam a um devir onde as bússolas se ausentaram. Deixariam de contar as asperezas do tempo, a mesquinhez das gentes, os actos que parecem tresloucados ao serem vistos no esconderijo da ingenuidade que se condói com o diário parto do mundo. De que serve arrastar o corpo entre corredores apertados, em lugares onde parece o ar faltar, lugares tão asfixiantes – de que serve tudo isto senão para aprisionar a existência à penumbra que sussurra, a penumbra que anestesia?


O mal é que a anestesia só finge tirar as dores. Mal por mal, porventura a alienação do que há. Em vez de embarcar na nau volumosa que traga as caudalosas águas, partir noutras demandas como se fosse desvairado astronauta à descoberta de galáxias por revelar. A arte está em saber procurar as galáxias desconhecidas. Depois, esquadrinhar o mapa que desembacia o caminho até às novas galáxias. Em lugar de teimar sempre pelos sítios esgotados no seu conhecimento, os sítios que apenas cavalgam na monotonia da rotina, arremeter pelas estradas jamais visitadas, por onde o imperativo de cada momento insinuasse.


De que servem todas as lágrimas, até as invisíveis, senão para a tremenda consumição da existência? De que serve chorar as dores de um vasto lugar que se compunge com a sua própria existência? O maior devaneio libertário, o maior devaneio do sancionado individualismo, é fugir das dores dos outros que são a sua própria consumição. Para descobrir as janelas por ora encerradas por onde destilam as cores garridas, onde os sorrisos perenes embelezam os lugares. As janelas de onde exalam os perfumes que dariam existência às divindades supostas. Aqueles lugares onde seria proibida a presença dos meirinhos das odiadas coisas deste lugar doentio.


Seria como se a vida estivesse em constante ebulição. Uma embriaguez de sempre, num festim de onde dizer adeus seria ultrajante. As palavras teriam, todas, o eco das melodias com a têmpera dos majestosos compositores. E a música, a temperar as palavras, a música seria a reinvenção da poesia. Todas as cores numa paleta generosa, as pinceladas desordenadas a erigir monumentos à arte. Tudo num delongado amplexo para recusar a mesquinhez, a mediocridade, a ignorância cultivada, as lágrimas a que somos empurrados como se escorregar para o limiar do precipício fosse a terapia para as consumições interiores. Já não haveria vielas esconsas, nem casas gastas tingidas pela humidade fétida, com velhas rezingonas à janela a espiar a vizinhança e a julgar os passeantes.


As cores e as palavras e as melodias em constante exaltação. Sem jornais ou televisões ou estações de rádio, o estertor da prisão onde vegetamos. Em seu lugar, um festim inadiável. Um festim perene, com as portas encerradas aos feitores das maldades que eram o pasto para a sombria existência. Sem fretes ao que remete para evitáveis dores. Sem concessões aos espartilhos dos medíocres que adoçam a existência com pílulas de ignorância e laivos de mesquinhez. Esses, que esboçam a espécie no que ela contém de pior, seriam banidos do perene festim da vida.

6.3.09

A gastronomia tem limites?


Reportagem sobre os mais famosos chefes de cozinha. Um imenso reportório de excentricidades. Uma em destaque: um chefe foi de propósito a Espanha para degustar ostras cobertas por um, diz dele, majestosamente delicioso molho feito à base de terra. Não de uma terra qualquer. Para ter os predicados exigidos, só pode ser colhida num sítio em segredo na Catalunha. Um molho à base de terra!


Como os segredos gastronómicos me encantam, sou sensível às reinvenções culinárias, à mistura de ingredientes que, para os parâmetros tradicionais, nunca se julgariam casáveis. Gosto de ler sobre a "cozinha de autor" – sem exagerar nos panegíricos, como alguns gourmets o fazem, ao considerar que alguma "cozinha de autor" é arte. Não sei se na "cozinha de autor" há apenas experimentalismo acaso que umas vezes dá resultados consagrados, outras vezes serve para ir para o lixo depois das primeiras garfadas. Uma gastronomia de laboratório (como é o caso da gastronomia molecular) tresanda, por outro lado, a artificialismo. Mas cozinhar é lidar com elementos, é entrar nos terrenos da química. Quantas iguarias hoje celebradas são fruto do acaso? E quantas foram conquistadas pela destreza química dos gastrónomos?


Ostras com molho de terra. A primeira reacção: repugnância. Afinal, quem come terra? É óbvio, depois era explicado, a terra passa por uma demorada depuração que a torna comestível. Não deixa de ser terra. Só que depois da reacção espontânea, outras interrogações amaciam o desprazer da ideia. Quantas invenções gastronómicas não derrubaram barreiras do tradicionalismo culinário? Se formos por aí fora vasculhar a origem do que comemos, quantos não mergulham num leito de perene indigestão, a quantos não apetecerá apenas uma dieta à base de pílulas com todos os ingredientes de que precisamos?


Alguns exemplos: os vegetais biológicos que estão na moda não são adubados com estrume? O solo onde acamam esses legumes é fertilizado pelos dejectos do gado – o esterco nauseabundo de que todos fogem. Sabemos que há processos químicos que adulteram os elementos e que, nos segredos da fertilização, organismos microscópicos transformam a matéria repulsiva num segredo de vida que desabrocha nos viçosos vegetais. Todavia, onde está a origem desse segredo? No estrume de bovinos. Estrume não deixa de ser estrume. Pela óptica da abjecção das ostras com molho de terra, quem se presta a comer vegetais biológicos? Ou, para rematar com outro exemplo, que dizer das dispendiosas turfas descobertas debaixo da terra pelo focinho imundo de porcos?


Não estou a insinuar que fosse capaz de me fazer à estrada, direcção algures na Catalunha, e amesendar à espera de ostras com molho de terra. A cada um os seus particulares gostos. Nunca consegui entender as delícias de um sarrabulho, de qualquer iguaria composta por sangue dos animais que são sua matéria-prima. Nisto da gastronomia, que haja flexibilidade mental. Para uns, a ginástica da mente é o nutriente do desassombro que é experimentar combinações gastronómicas extravagantes. Eles serão sempre extravagantes – ou porque ficaram a gostar da bizarra iguaria, ou porque tiveram a coragem de a provar. Para outros, para não ajuizarem os adoradores dessa gastronomia como bizarra gente a precisar de internamento psiquiátrico.


A gastronomia tem limites? Não, rotundo. Quem se pode arrogar ao direito de matar a criatividade? As invenções da gastronomia são um produto da criatividade – quando não emergem como produto do acaso, que às vezes também sucede. Há combinações de ingredientes que nos soam improváveis quando, pela primeira vez, os vemos em matrimónio gastronómico? Avança a humanidade quando isso acontece. Podemos torcer o nariz, jurar a pés juntos que jamais daquilo comeríamos. Podemos, até, excomungar os insólitos gastrónomos extasiados com iguarias que nos parecem ridículas. Mas deixe-se espaço à "cozinha de autor", à gastronomia extravagante.


Há quem coma túbaros, que é o "nome técnico" para testículos de porco, e ache delicioso. Quem lamba os beiços com gelado com sabor a sardinha. Quem aromatize o leite-creme com uma folha de louro e cravinho. Quem, à frente de todas as vanguardas, possivelmente servindo-se de avançadas técnicas e socorrendo-se de exímio saber químico, faça acompanhar uma sobremesa com um molho que é reprodução fiel de um famoso perfume.


Não pode a gastronomia ter um céu. No dia em que isso acontecesse, a humanidade esgotava a razão de comer – entenda-se, de ter prazer ao comer. É esse o maior legado da "cozinha de autor", da reinvenção da gastronomia: corroer a monotonia alimentar.

5.3.09

À catanada


A espécie que somos não se cansa de ser exemplar em atrocidades que levam a perguntar se há gente possuída por uma ferocidade animalesca, gente a quem se podia interrogar se é humana? Ou, então, os azimutes estão todos errados. E a bestialidade é-nos congénita. O que estará errado é pregar os antípodas da violência. Pois há sempre alguém a mostrar que os limites da loucura ainda tinham mais um lado escondido. Alguém que, num acesso de insanidade, desliza para a barbárie que deixa os outros, porventura os ingénuos apenas, boquiabertos.


Primeiro tinha lido um relato detalhado do cerco a Nino Vieira e do que foi feito até o assassinarem. Já aí se leram as incríveis parangonas: o presidente da Guiné Bissau tinha sido morto à catanada. À noite, a jovem correspondente da RTP fez um roteiro circunstanciado do suplício de Nino Vieira. (Razão de ordem: não nutria simpatiza alguma pelo presidente guineense.) O primeiro impulso foi virar a cara àquela abjecção. Mas deixei-me continuar. A certa altura, fiquei na dúvida sobre o que seria mais macabro: se a forma selvática como o Nino Vieira foi tirado à vida, se a revisitação encenada pela jornalista, ao milímetro, para aparente gáudio de uma audiência sempre sequiosa de sangue.


Admito que há actos repugnantes aos quais não se deve virar a cara. A omissão branqueia a barbárie que envergonha a espécie humana (se a espécie humana não for, como parece confirmar-se, um ninho de víboras que não respeita o semelhante, mesmo quando o semelhante milita do outro lado da barricada). Calar a torpeza dos atropelos à dignidade das pessoas é ser-se cúmplice, por omissão, da vilania criminosa. Por admitir tudo isto, passar imagens que retratam a violência insuportável, quantas vezes a violência gratuita, de um homem a tirar a vida a outro homem, encerra a sua pedagogia. Só alimenta o voyeurismo dos que forem potenciais verdugos. Aos outros, terá o condão de exaltar metódica repugnância por estes actos que seriam a vergonha da espécie. Senti isto ao ver-me espectador enojado da mórbida descrição cheia de detalhes da autoria da correspondente na Guiné Bissau. Às vezes, é preciso ir ao fundo do baú e deixar vir ao de cima todas as excrescências.


Não quero saber se por aí andarem os pastores de um certo pensamento que a si reivindica o estatuto do politicamente correcto a protestar contra análises acusadas de etnocentrismo. Simpatizo com a abertura de espírito que condena as expressões gratuitas de etnocentrismo. Todavia, não consigo reprimir o sobressalto com o extremo barbarismo. É fácil aos cultores da suposta superioridade civilizacional do "ocidente" proclamarem, com uma pérfida superioridade moral, que isto não acontece nos países onde vivem. Esquecem-se do longo cortejo de crimes hediondos que todos os dias vem na espuma das notícias. Os crimes que acontecem debaixo do nariz destes encantados com a dita superioridade da civilização que são.


Mas também não compreendo o desprendimento com que lídimos pastores do etnocentrismo encaram estas abjectas mortes. Tribalismos, sublinham, para acentuar um contexto diferente que atenua a factura sórdida da sucessão de actos que culminou com decapitação à catanada. Que haja condescendência com a brutalidade gratuita por causa de diferentes costumes dos algozes, é algo que é superior a meu entendimento. Curiosamente, são estes pescadores das vanguardas que chamam a si a causa da igualdade. Em que ficamos? A benta igualdade é derrogada por imperativos da teoria etnocêntrica?


Pode um pessimista antropológico deixar de o ser ao ver o incessante cortejo de violência animalesca? Não me convencem os mais optimistas se disserem que estes são actos isolados, actos cometidos por gente doente, ou temporariamente endemoninhada, actos que não reproduzem a bondade da fatia mais numerosa da espécie que somos. Não vou ao fundo da quantificação, nem sei – e, para o efeito, nem conta para o que quer que seja – se somos mais os bondosos e adoradores da paz ou os maléficos personagens que envergonham a humanidade olhada pelo prisma lírico.


Enquanto houver um espécime, um espécime que seja, nem que seja uma minúscula gota num imenso oceano, a profanar a bondade da espécie, é porque a espécie está doente. Ou, porventura, a bondade inata não passa de um lirismo inconsequente.

4.3.09

A multidão esfaimada


As ruas que percorria eram as ruas desertas. Onde só as pedras da calçada se faziam escutar à medida que os passos atropelavam as pedras desarranjadas. Sempre pela noite fora, já densa. Errante, pelas vielas apertadas ao sabor de pensamentos desalinhados. O sossego, encontrava-o na grande cidade onde os dias espalmam um ruído insuportável, um corrupio de gente que se cruza na indiferença recíproca, a gente de onde irradiavam os seus fantasmas.


Era do dia que tinha medo, era da gente em magotes que se refugiava. Tinha um pesadelo recorrente. Com a gente que andava pelas ruas. Era perseguido por uma turba furiosa. Alguém o reconhecera, sinaleiro das marés erradas, onde o turbilhão das águas dá voltas ao contrário da maré dominante. Por mais que andasse nos passos transversais, por mais que se refugiasse dentro de agasalhos que deixavam pouco de si à mostra, sempre o imponderável de ser conhecido por alguém.


Quem lhe mandara ser rebelde contra as causas trazidas pela maré plácida? As palavras proferidas eram agora a sua consumição. Mas teimava em não ser exilado das suas convicções. Não seria por coragem física, que a não tinha. A coragem, se é que nele habitava, era a coragem das ideias que perfuravam tudo o que tinha sido entronizado pela silenciosa maioria. Pagava o preço de ser temerário. Duplamente temerário. Não eram só as ideias inconvenientes aos padrões estabelecidos. Ideias que punham alguns que patrulhavam ordem e costumes a indagar, distraidamente, se os dogmas de que eram zeladores tinham razão de ser, dogmas. Também temerário por recusar o pacato exílio que lhe acenavam, ora como ameaça, ora como desafio, ora como envenenado presente. Diante das patrulhas que não queriam o ruído dos inconvenientes, podia tropeçar numa armadilha fatal.


Mas teimava em ficar no lugar onde uma multidão, se pudesse, lhe devorava os ossos até. Já pouco mais contava do que a decência das ideias que acolhia em seu regaço. A certa altura, até ele desconfiava das suas ideias. Contudo, seguia-as com uma religiosidade que censurava nos outros. A teimosia tinha uma razão: incomodava-o ver a multidão conduzida à acefalia. Ficava perplexo com a pacatez da muita gente que consumia um feixe de ideias e apascentava usos. Da multidão que, nem por um minuto que fosse, se recusava a interrogar ideias e usos sacralizados. Parecia que os pontos de interrogação tinham sido banidos do pensamento. A certa altura, a teimosia só tinha esta razão: a rebeldia contra a legitimidade estabelecida, por se impor à multidão despojada de espírito crítico.


Mas a teimosia tinha uma consequência: a insidiosa perseguição, em pezinhos de lã, sem ameaças físicas, só conselhos de mudança, ou ao menos de silêncio, para evitar percalços no que sobrava ainda do tempo. Depois, pairavam os pesadelos de que acordava sobressaltado, como se os pesadelos tivessem a marca de água da realidade. Nem os pesadelos reiterados convidavam ao exílio para lugar distante. Se fugisse para onde não o perseguissem traía-se a si mesmo. Mal por mal, que algum acontecesse como se fosse soldado caído em combate. Apesar da física covardia.


Nos pesadelos, as horas nunca mais terminavam. Nessas horas, corria desenfreadamente pelas ruas e avenidas e vielas da grande cidade. Sempre a fugir de um exército de enfurecidos meirinhos da ordem que desafiara. Às vezes, espreitava para os becos onde outras patrulhas se amontoavam sobre uma vítima que sucumbira. No instante fugaz era-lhe dado a ver apenas o amontoado da patrulha a partilhar os despojos da vítima. Como se fosse uma caçada na selva, o caçador esfomeado a grunhir em jeito animalesco, saciando-se alarvemente na carcaça da vítima que jazeu sob a força das suas garras.


Aqueles instantes em que conseguia olhar de soslaio para o macabro quadro pareciam uma eternidade – ou era como se um fragmento do tempo, o fragmento mais doloroso, se enquistasse na memória. Sentia o cheiro intenso do sangue quente que golfava do corpo inerte e quase cadáver a ser devorado pela patrulha. E corria, corria sem parar. Até os perseguidores ficarem extenuados e se refugiar num esconderijo soturno onde a imundície era salvífica.

3.3.09

O bloco central miasmático


Fala-se por aí e não é à boca pequena. Tudo indica que os actuais senhores do poder não vão repetir a maioria absoluta que lhes caiu no colo há quatro anos. Para bem da saúde da democracia que ainda é a matriz do regime. Com a crise persistente e tão profunda, alguns analistas já anteciparam a possibilidade, dizem até, a necessidade, de uma grande coligação entre os dois maiores partidos. O bloco central em esplendorosa e governativa expressão.


Quem faz a proposta dá o exemplo da Alemanha governada por uma grande coligação entre os democratas-cristãos e os sociais-democratas (o equivalente aos socialistas de cá). É frequente: as comparações com outros locais pecam por defeituosa contextualização. Primeiro, comparar a maturidade democrática da Alemanha com a de cá só se for ser anedota. Segundo, seria preciso olhar de perto para a textura dos partidos alemães e compará-la com o PSD e o PS para perceber se a comparação faz sentido. Quando a proposta salta as ameias da simplista comparação geográfica e atende à idiossincrasia pátria é que ela tem algum significado.


Até percebo a sugestão. Tudo se resume ao pragmatismo. O que distingue o PSD do PS? Além das rivalidades intestinas, pois são os partidos que têm alternado no governo, pouco os distingue nos vestígios de ideologia e na escassa doutrinação que ressoa da retórica que envergam. Partidos irmãos, muitas vezes desavindos como acontece aos irmãos que levam divergências às últimas consequências. Pragmatismo, pois. Se são tão idênticos, por que não se aliam para levar a nau pelos bons caminhos, logo agora que nau atravessa uma tormenta tão assustadora?


Os ideólogos da grande coligação agarram-se a outro, no seu entender decisivo, argumento: perante a paisagem desoladora semeada pela crise sem precedentes, impõem-se consensos. Essa palavra tão adorada pelos que se situam ao centro do panorama político – os que ora se inclinam para o PSD, ora votam no PS para mais tarde prometerem o voto ao PSD e assim sucessivamente. Os politólogos dizem que é este eleitorado que decide a alternância de poder. São os adoradores da normalidade, os que cultivam a estabilidade política como bem maior, perfilhando a tese cavaquista. Assustados com a dimensão e a persistência da crise, querem um consenso entre os grandes partidos para, em uníssono, darem resposta cabal à crise. Como se a grande coligação fosse a milagrosa solução para afugentar a crise para as catacumbas de onde não devia ter saído. É uma fé, como outra qualquer.


Discordo, agnóstico como sempre. Se há palavra que envenena esta terra é "consenso". É a metódica via para diluir a discussão de ideias. A forma ideal de conduzir a turba à imbecilidade. Uma armadilha à cívica condição das pessoas. O que se lhes diz é isto: parem de pensar, parem de vasculhar soluções fora da prostração do "centrão", que as únicas plausíveis são as esboçadas pelo "centrão". Não há alternativa às prescrições do bloco central.


O problema é que as comparações internacionais – as que contam mesmo, as que ordenam os países em campeonatos dolorosos porque nos colocam no fim da tabela – não são simpáticas para os ideólogos do bloco central. Não são estes partidos que alternam no poder desde que a democracia foi instaurada há quase trinta e cinco anos? Onde nos levaram os governos desses partidos? Ao vergonhoso estatuto de quem só é campeão dos rankings internacionais se a tabela for invertida.


O bloco central é toda uma turba que se move de um lado para o outro, ora amesendando com gente do PSD quando está na mó de cima, ora de braço dado com gente do PS quando abocanhou o poder. É o pêndulo miasmático do regime. Que tem nomes. Na comunicação social, nas empresas públicas onde se banqueteiam figurões dos dois partidos numa cumplicidade reveladora, entre reputados empresários e intelectuais que se põem ao serviço dos imperativos categóricos que alindam a normalidade do bloco central.


Hoje, nem PS nem PSD aceitam o cenário proposto pelos Bettencourt Resendes que por aí andam. Ninguém quer partilhar o poder antes do tempo. Por mais que ilustres porta-vozes de ambos os partidos façam juras solenes que são tão diferentes como a carne se distingue do peixe, quando chegar o momento de distribuir as comendas, como o estão habituados a fazer quando locupletam o poder e as benesses inerentes, mandarão as juras às malvas. Hoje não convém admitir que são partidos irmãos. Antes do sufrágio, convém mostrar que são desavindos. Mas, ainda, irmãos.


E nós, com uma paciência infinita, sem querermos aprender com as lições de outrora, nas mãos destes irmãos desavindos que fazem o locupletamento do regime, definhando-o.

2.3.09

Ao nível de seita


Este fim-de-semana não vi noticiários. Havia o congresso do PS. O vício de ler jornais trouxe, contudo, umas pinceladas do congresso que mais parece ter sido um colectivo exercício de onanismo. Lá se foi o efeito terapêutico dos olhos fechados aos noticiários das televisões.


O mal será meu, decerto, habituado a desconfiar até ao tutano da seita socialista. Então agora que passam pela inebriante sensação do poder absoluto, coisa tão ansiada desde que se acham depositários maiores do pulsar democrático, é quando o verniz estala e ficam à mostra os tiques salazarentos de quem geneticamente confunde poder com autoridade – como se o poder só pudesse ser exercido de maneira autoritária.


O guru, com aquela pose e oratória condizente com um delegado de propaganda médica (sem ofensa aos ditos), personifica este estado de alma. Eu que sempre o tive em péssima consideração, sentimento esmerado quando foi entronizado timoneiro da pátria e abocanhou o poder de maneira autoritária, cultivei um hábito imprescindível para a pessoal higiene mental: mudar de canal sempre que ele aparece, na tal pose de delegado de propaganda médica, com o discurso sempre exaltado, no papel de vítima que se calha tão bem, pois sabe que o povaréu gosta de Calimeros.


Os que têm cartão de sócio do PS, desde o militante anónimo da província ao militante anónimo da grande cidade até aos senadores que gravitam na órbita do poder, vejo-os abutres das sinecuras de um Estado clientelar. Ao cabo da legislatura, sinto um cansaço tremendo desta gente. É a sensação de um polvo com imensos tentáculos que sufocam tudo o que se mexa e que não cultive a adoração da seita e do seu querido líder. Ao cabo da legislatura, apetece ainda mais remeter esta gente para fora do púlpito onde passeia ostensivamente o poder. É quando a faceta de seita se faz notar em todo o seu esplendor. Dizem os analistas que a encenação feérica montada no congresso faz parte de uma estratégia em ano de eleições – de três eleições diferentes, por sinal. A vitimização do querido líder, os ataques à imprensa que não anda com o PS ao colo (uma minoria dela), a teoria da cabala, os discursos inflamados que arregimentam apoios dentro e fora das hostes – os ingredientes necessários, argumentam os analistas, para o objectivo supremo. A manutenção do poder.


Entendo que assim se comportem. Imagino, que nunca o tive entre as mãos (o poder): quem gosta de ser arredado do poder que tem entre mãos? Faz parte do jogo democrático. Tanto a regra da alternância como a possibilidade do partido do governo lutar pela continuação no poder. Deve ser isto que os estrategas socialistas prepararam. Um pouco para consumo interno, que as hostes não precisam de incentivos para darem à perna, senão as sinecuras dissipam-se na regra da alternância. Mais para consumo externo, que a maioria absoluta está em risco (dizem-no as falíveis sondagens) e quem se habituou a abocanhar sozinho o poder prefere não ter que o partilhar com ninguém.


Entendo tudo isto. Como até entendo que a seita socialista ostente pesporrência por estar convencionado, e com acerto, que as alternativas são uma desgraça. (De resto, esta ideia dava pano para mangas: ainda que corresponda a um sentimento enraizado, martelar a tecla da pobreza dos rivais não é uma insidiosa maneira de empurrar o povaréu para a inevitabilidade de votar PS? Cá está a irrecusável vocação de partido clientelar do poder, como se os socialistas, e apenas eles, pudessem estar no poder. Isto é uma forma de União Nacional com a legitimidade caucionada pelo voto.) Todavia, quanto mais mostram apego ao poder, quanto mais se vangloriam que a esta terra só resta ser governada por eles ou por eles, mais sinto que deviam ser desapossados do poder. Já nem me interessa saber por quem. Pior que esta gente, esta gente tomada pela mediocridade e pelo oportunismo dos que se agarram ao poder que nem lapas, não pode haver.


A encerrar, alguma perplexidade a propósito de um apagão que interrompeu o congresso numa das noites. Agora que tanto enfatizam a "campanha negra" contra o timoneiro, será que o apagão não fez parte dessa campanha? Assim como assim, se a campanha é "negra", o apagão semeou o breu na sala onde estava a acontecer o congresso. Caça às bruxas na EDP, é o capítulo que se segue, da autoria do grande Torquemada, o Santos Silva que adora malhar em quem não teve a sensatez de ser do PS.