4.9.09

Joy Division, "Atmosphere"

Repreensão dos instintos

Os passos, só o barulho dos passos no silêncio da madrugada. Nesse silêncio escutam-se apenas as dores interiores, as veias incendiadas pelo arrependimento das palavras ditas, de uma inteira maneira de ser. Caminham, os pés. Erram pelos caminhos que se tecem, aleatórios. É o profundo pensamento que os conduz, como se fossem os dedos meticulosos metidos num tear a dedilhar os fios que se tecem num caótico tapete. E vogam, os pensamentos. Desalinhados, sobrepondo-se numa desorganizada sucessão.


É tremenda a confusão que troveja no pensamento. Por vezes o corpo estremece, electrizado pelo relampejante acosso da consciência. A consciência; a dolorosa chamada à terra, ou uma culpa enfim domada. Pois há na consciência que aterra uma paradoxal sensação: ora a mordomia de uma aterragem suave que acalma o fervente turbilhão que inflamou os instintos; ora a negação dos instintos, que renega a espontânea forma de ser, um borrão sobre o que se possa pensar ser a essência do ser. Atado a esta encruzilhada, oxalá o pensamento não mergulhasse na sua profundidade. Lá, onde se torna insuportavelmente doloroso.


Ao falarem as águas lânguidas da consciência, soltam-se as amarras da lucidez. Ou do que se julga ser a lucidez. Impõe-se a repreensão dos instintos que foram caução de gestos improváveis, ou de palavras que deixaram em alguém um travo amargo, ou da estranha sensação de desprazimento com o ser que se é. Da repreensão dos instintos, mas não da repressão dos instintos. Mal das águas remansosas da consciência se fossem sempre a compressão dos instintos. É que os instintos desdobram-se na sua esquizofrenia. O mesmo instinto pode infligir dor e pode ser a inesperada porta que se entreabre, a súbita saída encontrada no nada para um labirinto demencial.


Tudo isto se faz em silêncio. O turbilhão do indomável pensamento exige o silêncio do mergulho nas águas profundas onde mora o patrono da lucidez. É ele que vai temperar a fervura das águas que se revolvem numa correnteza bravia. Do silêncio, dir-se-ia que é o medicamento que acalma as consumições fermentadas no leite coalhado que é o arrependimento.


Não custa destapar as algemas do arrependimento. O que custa é ver o que está a montante e a jusante do arrependimento. A montante, a ferocidade dos instintos que se soltam na sua selvática, porventura genuína cadência. Deixando um rasto de equívocos, palavras que não deviam ter sido ditas, uma inteira forma de ser que parece profundamente errada. Depois o tempo acerta contas com o arrependimento, quando a aflitiva consciência faz as vezes do paredão da barragem que retém as tempestuosas águas que ali se espraiam num vagaroso leito onde as águas enfim repousam. A jusante, para além do paredão da barragem, depois do abrupto lancil onde se despejam os excessos dos imoderados instintos, estremece uma culpa.


É neste fluxo de opostos que macera a existência. Retalhada entre o algo e o seu contrário. Num constante deambular entre o ser o seu inverso, quando no silêncio da lucidez que aterra grita a negação do que fora dito ou feito, às vezes a negação do ser que se é. Não sei o que mais custa: se admitir a negação de tudo isto, ou as dores que admiti-lo causa. O corpo entrega-se a esta mortificação. Nas palavras de Fernando Pessoa, "feliz do homem que pode pensar profundamente, mas sentir tão profundamente é uma maldição. Como descrevê-la? Horror sobre horror."


Das alturas onde nasce o rio despenham-se as águas na sua ferocidade. Tropeçam nos penedos que se atravancam no caminho. Essas águas fulminam-se no cimento dos instintos, a pureza do ser nem que dessa pureza sobrem todas as angústias mais tarde domadas no silêncio da madrugada. E também não sei o que sou: se as águas transparentes que tragam o caminho pedregoso, todos os turbilhões que se sucedem com alguma selvática intensidade, ou o lado a jusante da barragem quando a repreensão dos instintos desastrados destapou o alçapão do arrependimento.

3.9.09

A paternalista autoridade exibe-se e o cidadão aplaude


Na praia, corria a notícia: ia um pandemónio no cais onde se apanham as barcaças que sulcam a ria até ao areal. Fila de gente muito para além do habitual. A polícia marítima marcara para aquele dia uma "acção de fiscalização". Os agentes da autoridade estavam no cais a contar as pessoas que embarcavam. Impediam a sobrelotação das barcaças. Ao meu lado, um cidadão – o protótipo do "cidadão consciente" – aplaudia à distância a operação policial. Assertivo, atirou para o resto da família: "pois eu cá acho muito bem; é para o bem de todos nós".


Subiu-me pela pele a alergia do costume quando sinto exibições gratuitas de autoridade. Quando a autoridade passa das marcas e escorrega para o autoritarismo. Fico mais inquieto quando vejo ao meu lado "cidadãos exemplares" que ovacionam o paternalista braço das autoridades que se esmaga sobre todos nós, como se fosse um beijo de Cassandra. Há gente que não cresceu, mostrando os laços avivados de uma espécie de eterna adolescência: querem a carta de alforria, mas quando sentem que a maré vem contra convocam o auxílio paternalista de uma suprema autoridade. Neste caso, as autoridades existem – pensam os adoradores das autoridades de pulso firme – para prevenir grandes males. E para os reprimir, caso seja necessário.


Ao fim da manhã, quando o sol já ameaçava a saúde da epiderme, regressámos a terra. Do outro lado da ria, confirmei o bulício. A fila que se alongava pelo cais flutuante, subindo a escadaria até à rua, dobrando a esquina pela esquerda. As pessoas impacientes, sussurrando impropérios aos agentes pela demora a que não estavam acostumados. Entre o bordo do cais e as barcaças que nele atracavam, agentes da polícia marítima com cara de poucos amigos, ar tenso e, sem exagero, marcial. Faziam a contagem de quem saía das embarcações. E eram eles que substituíam os comandantes das embarcações na contagem dos passageiros que iam a bordo na curta viagem até à praia. Com gestos militares, voz de comando a que a turba tinha que obedecer sem esboçar a mínima objecção, tal era o ar ameaçador dos agentes em gratuita exibição de autoridade.


Se ali estivesse o "exemplar cidadão" que fora ocasional vizinho na praia, adivinho-o a destilar astutas lições de moral sobre a demora necessária suportada pelos veraneantes que se faziam à praia a horas impróprias (no entender de dermatologistas). Com aquele ar de nazi travestido de socialista, com o dedo erguido a defender as diligentes autoridades que só querem o nosso bem. E que, por tanto quererem o bem comum, ostentam autoridade para a prevenção de males maiores. Ensinaria aos relapsos, o "exemplar cidadão", que a imprevidência geral exige o punho de ferro das autoridades. Os veraneantes em demorada espera, no pino do sol que se fazia tórrido, aconselhados pelo "exemplar cidadão" a não serem comodistas. Um pouco de inteligência; como disse o "exemplar cidadão" na praia, de dedo erguido para sublinhar a assertividade das suas verdades, "é para depois as pessoas não se queixarem". Depois, supõe-se, é quando o mal tivesse acontecido.


Se ali estivesse o "exemplar cidadão" a dizer tudo isto, eu dir-lhe-ia que confio mais nos comandantes das pequenas embarcações do que nos zelosos agentes que passeavam a autoridade da farda (ou que passeavam, de farda, a autoridade – não cheguei a perceber qual das duas era). Os males acontecem, estejam as paternalistas autoridades de olhos bem abertos, ou estejam elas com a atenção desviada para os errados locais. Prefiro confiar na aleatoriedade das coisas do que na abusiva presença das autoridades convencidas que saldam as hipóteses de acidentes com uma fugaz, mas intrusiva, "acção de fiscalização".


Dispenso estas autoridades que se querem insinuar no seu paternalismo inevitável. Um paternalismo sufocante, como se fosse uma jaula que nos limita os passos. Mas o mal é meu, que confio demais no valor da liberdade. E não sei o que é pior: se ver os untuosos agentes da autoridade a cavalgarem num autoritarismo ainda mais perigoso por ter a caução da democracia; se "exemplares cidadãos" que esbracejam ensurdecedoras palmas quando são testemunhas destas "acções de fiscalização". Estes "exemplares cidadãos" são tiranetes em potência. Dêem-lhes uma farda e temos pela frente pequenos Estalines.

2.9.09

O hoje é um oráculo


As dimensões do tempo, um obscuro misticismo. Contêm um mistério, que por o ser se encerra numa perene coisa por revelar. E, todavia, as dimensões do tempo não têm todas a mesma espessura. As memórias com que fomos dotados, a mão estendida ao tempo passado, não trazem consigo os segredos que os mistérios escondem. O outrora é sempre uma imagem que emerge das águas profundas, um espelho nítido do que já passou na estrada que se faz longa. Às vezes, uma imagem desfocada. Por defesa do espírito, ou por reserva mental que refugia o espírito da aceitação de algum passado.


Onde não há nenhum espelho aberto é nas outras dimensões do tempo que tributam o desconhecimento: hoje e todos os amanhãs que se seguirão. Diria, uma escuridão absoluta. É o tempo que se faz na dobra dos ponteiros do relógio. E nós, passivos, como se fôssemos meros espectadores dos caprichos que o tempo reserva. Na sua complexidade, o tempo esmaga-se contra nós. Na efemeridade do presente, que se consome à imagem de um fósforo extinto na ausência do oxigénio seu nutriente. As dimensões confundem-se todas, pudessem elas manifestar-se em patamares que se fundem. O hoje espera pelo amanhã, mas depressa se transforma num ontem que se enquista nas memórias que vão ganhando a sua inutilidade.


Tudo o que interessa é ver o hoje como a porta que se entreabre para o amanhã. Devagar, ou sem notar a alucinante velocidade a que o presente se transforma no ontem, por consumição do amanhã que se revolve no seu contrário ontem. É o tempo que se vive, ou o tempo que consome as vidas que somos. A medo, às vezes, quando o que temos pela frente é uma enorme incógnita, um tremendo quarto escuro onde entramos sem candeia. Outras vezes com sofreguidão, como se a existência fosse uma constante embriaguez de viver que não dá conta da efemeridade do tempo.


Eu digo que devíamos sorver todas as gotículas do hoje. Devíamos ao menos aprender. Que todos os minutos que se gastam devolvem o tempo passado ao desmerecimento do provir que, esse sim, é o novelo tangível por onde nos havemos de debater. Devíamos sentir que o tempo que tocamos com os dedos é o oráculo do tempo vindouro. Olhamos em volta para aprendermos. Com o que somos, no percurso que fomos sendo. E com os que nos são um pouco de nós mesmos. Se houver lucidez para retirar do tempo presente as suas cores escondidas, conseguiremos espreitar por cima do ombro do porvir.


E diz-se: que o tempo presente é uma pedagogia dos amanhãs que um dia chegarão. Os amanhãs com alguma previsibilidade, como alguma probabilidade estatística pelo pulso mensurável dos dias correntes, os amanhãs que amanhecem com o nexo do presente. Decerto teremos que recolher os inesperados amanhãs, aqueles que rompem a aurora esbarrando-se contra a parede das coisas imprevisíveis. Quando se diz que o hoje é um oráculo do amanhã, um aluvião de interrogações espreita na dobra dos minutos: e interessa capturar a previsibilidade dos dias vindouros? Não estamos a forjar os amanhãs que ainda estão por amanhecer? Não estamos a condenar o amanhã a ser um ontem por antecipação?


É como se a noite e o dia se fundissem num todo indistinto. Sim, o hoje tem o condão de ser um oráculo, um fragmentado oráculo. O que torna o provir uma maçada. Quando tomamos o pulso ao oráculo do presente e as imagens que desfilam na tela vêm tingidas pela maceração plúmbea. Destapar o oráculo é tornar o futuro no passado ainda antes do tempo. Ou o passado que se prolonga até chegar a ser um amanhã que ainda está por vir.


O melhor é desviar o olhar desse oráculo, torná-lo numa inexistência. O tempo, em todas as suas dimensões, não pode semear tanta angústia. Não pode ser o ditador que nos asfixia a vontade.

1.9.09

Preconceitos benévolos


O preconceito é das coisas mais detestadas na modernidade em que estamos. Existe um preconceito instalado contra tudo o que ressoe a preconceito. E, contudo, não é preciso ser conservador para mostrar simpatia por alguns, particulares preconceitos (como nem é preciso ser a antítese de um conservador para exibir preconceitos, só que nunca admitidos preconceitos). Mas é desconfortável confessar um preconceito – ou, o que é pior, ser-se apanhado no alçapão do preconceito, com as voltas trocadas numa qualquer incongruência pessoal. Pomo-nos a jeito do dedo inquisitório de quem atira esse preconceito para o quarto escuro das coisas odiosas, como se fosse infundado, na modernidade em que vivemos, ser penhor desse preconceito.


Eu tenho alguns, na maior parte dos casos relacionados com palavras. Algumas são palavras proscritas. Impronunciáveis. Como se azedassem a boca de cada vez que a língua se desenrola para as proferir – ou como se o pensamento se irritasse de cada vez que passassem dos dedos para a escrita, com a mediação das teclas do computador. Há ali uma reserva mental que trava – a língua e o pensamento. De repente, ocorrem-me três palavras que por interior pudor não aparecem transcritas nestes textos: "Portugal", "país", e "Sócrates" (o nome do senhor que é primeiro-ministro).


Porventura isto dá pano para mangas a psiquiatras ou psicólogos (depende do ângulo de análise). Dirão que tenho problemas mal resolvidos com as palavras que instalei como preconceitos. Aos amantes da pátria, uma heresia a recusa em proclamar a ditosa palavra que é o nome da pátria. Será vergonha da pátria, ou apenas um voluntário pária imerso numa profunda crise de identidade? Naquela relação, há causa e consequência? Não me comovem os depoimentos de amor e entrega à pátria. E mesmo os poetas que consagraram as virtudes da portugalidade não me tocam com o ânimo que transpira das inspiradas estrofes que compuseram ao Portugal, ora musa, ora divindade. Há quem diga que o juramento à pátria se faz quando o tempo e a distância destilam nas saudades em que o corpo se arrasta. É no regresso, quando a fronteira anuncia os símbolos da nacionalidade, que os olhos marejam e as emoções soam, audíveis, na pele eriçada. Devo mesmo ser pária: nenhum sintoma destes me percorre quando termino uma viagem, curta ou mais demorada, pelo estrangeiro. Antes pelo contrário: uma irreprimível pulsão de recuar.


A maneira de pensar conduz o comportamento. A ideologia, mesmo que não seja um catecismo seguido acriticamente, fornece as balizas mentais que forjam a maneira de ser. O poético, lírico, utópico anarquismo é o pano de fundo. Para o anarquista, os países não fazem sentido. São uma camisa-de-forças que reduz a individualidade do ser a pouco mais que nada, dilui a sua essência. Se os países são uma abstracção tão aziaga para a espécie, eis o aluvião onde repousam os nutrientes do preconceito semiótico com "Portugal" e com "país" – pois que "país" (assim mesmo, com letra minúscula) é o conceito abstracto em que se encaixa "Portugal". (E, por maioria de razão, não devia "Portugal" perder o P maiúsculo?)


Agora um preconceito ao quadrado: escuso-me a revelar os motivos da recusa em compor as letras ordenadas do nome do primeiro-ministro do momento. Por higiene mental. Para não enxovalhar o filósofo grego que tem o mesmo nome. E por causa de um enorme cansaço de uma personagem que tenho como um embuste em avançado estado de aperfeiçoamento. Se há algo que me deixa inquieto, é a frequência com que a personagem me motiva a escrita. Invariavelmente, pelos piores motivos. De alguém de tão fraca jaez obriga a decência mental a recusar a pronúncia, escrita ou falada, do respectivo nome. Por temor que tanta indigência se contagie com a simples invocação do nome.


Para demonstrar preconceitos com palavras, acabei por as escrever. Derrubei as ameias, as altas ameias, que um pensamento teimoso tinha erguido. Ao escrever "Portugal", "país" e "Sócrates" contrariei um preconceito que, poderiam alguns ajuizar, me consumia no mais profundo do ser. Talvez a revelação do preconceito o tenha liquidado de vez. Ou, pelo contrário, agora que o desnudei faça sentido continuar a recusa em pronunciar ou escrever aquelas palavras. Sem que agora seja um preconceito.

31.8.09

Para que serve uma mandatária?


Era uma vez uma menina que, quando ainda era mais menina, apresentava programas infantis na estação dos betos da linha de Cascais e da Quinta da Marinha. A rapariguinha cresceu um bocado, mas a idade mental terá parado algures no tempo. Agora aparece em profusos outdoors de uma loja de informática e material de escritório, patrocinando as mercadorias com aquele sorriso de plástico das proto-beldades do momento, exibindo o irritantemente eterno bronzeado de solário.


Aposto que a rapariguinha deve seduzir numerosa clientela, pois que até o partido do governo a desencaminhou para ser mandatária para a juventude. Eu diria que a política se tornou cor-de-rosa. Vendo bem, a surpresa não está em lugar algum: o partido em causa é o da rosa, o que combina com a escolha de uma rapariguinha que anda pelos topes da popularidade nas revistas cor-de-rosa. Se dúvidas houvesse acerca da fatuidade da política e dos socialistas que nos governam, a menina Patrocínio como mandatária para a juventude esclarecia-o de vez.


Que pensamento é conhecido à rapariguinha? Nenhum. Corrija-se: até há dias, nenhum. Depois, alguns arautos desse admirável conceito inventado pelo timoneiro da nação – o "bota-abaixismo" – fizeram o trabalho de casa nos arquivos de imagens das estações de televisão. E encontraram uma entrevista pueril na qual a menina afirmava, com enternecedora assertividade, que detesta fruta trabalhosa. A menos que a empregada doméstica lá de casa se desse ao trabalho de retirar os caroços das cerejas e as grainhas das uvas, era fruta que não entrava naquela santa boquinha.


Houve quem muito se ofendesse pela futilidade da menina Patrocínio. Mais para as bandas da extrema-esquerda, logo vieram os preconceitos de classe – a empregada doméstica que não devia ter sido assim chamada, a patetice pegada da menina mimada que foi tão bem educada pelos progenitores que nem se dá ao trabalho de tirar caroços de cerejas e grainhas de uvas (e não se terá lembrado das espinhas dos peixes – ou apenas come douradinhos…). O pior estava reservado para outro momento sublime da entrevista onde a rapariguinha se mostrou desbocada – ou sintomaticamente sincera: preferia fazer batota a perder.


Recuo aos nada bons velhos tempos do estágio de advocacia. Na linguagem técnica do meio, os advogados eram chamados "mandatários judiciais". A etimologia ajuda: mandatários, por estarem mandatados pelos clientes para actuarem em seu nome. Um mandatário é isto. Pela sua boca, as palavras de quem representa. A rapariguinha de quem se fala patrocina a causa do partido do governo. Do mal o menos, a infantilidade de confessar os gostos pessoais com a fruta. A outra confissão – antes fazer batota do que perder – é todo um programa de comportamento. Não estranha que no passado fim-de-semana, num acampamento dos jovenzinhos socialistas numa praia do Oeste, a juvenil turba se tenha excitado imenso quando a menina Patrocínio discursou. Se dúvidas houvesse que as juventudes partidárias são um ninho de cobras, um lugar muito pouco recomendável para qualquer jovem crescer como deve ser, o coro de entusiasmo com a presença da menina que prefere fazer batota e perder disse tudo.


Por sinal, ainda nenhum amestrado jornalista perguntou ao "quase engenheiro" se concorda ou se demarca da boutade da mandatária para a juventude. Como mandatária, é a "voz do dono". E como o dono tem prolongado o silêncio sobre as comprometedoras declarações da rapariguinha (ou, dir-se-ia, reveladoras declarações), que se abram as janelas para o adágio que diz "quem cala consente". E se aquela confissão é reveladora, no contexto da simbólica sinecura desempenhada pela estrela de televisão: como mandatária para a juventude, é um ícone. O que os ícones dizem é imitado por quem os adula. Os jovenzinhos socialistas, mais uma imensa turba de admiradores da mandatária, sossegados se ninguém os reprovar por fazerem batota para evitarem perder no que quer que seja. Vão longe. Só de os imaginar futuros dirigentes até engulo em seco. Vamos longe.


No comício montado na festarola dos jovenzinhos socialistas, a mandatária para a juventude botou faladura. Leu um discurso muito técnico, com palavras caras como "recessão", "crise económica" e "retoma". Leu o discurso que alguém escreveu. Quando o comício acabou, a menina tinha instruções para não responder às perguntas dos jornalistas. Sintomático. Lá na seita, já devem ter percebido que se trata de outro erro de casting (ainda se devem lembrar do fantástico cabeça de lista que arranjaram para as eleições europeias e o mau resultado que isso deu). É o que acontece a quem abre a boca e ou entra mosca ou sai asneira. A censura começa lá em casa. E, quando começa em casa, quem os impede de a estender ao exterior?

28.8.09

Johnny Cash, "Hurt"

Da maior indignidade de todas

Falem-me de declarações que selam os direitos do homem – e repitam, em coro angelical, o intangível direito à dignidade da vida. Falem-me de deuses justos e bondosos, como é harmoniosa a sua mão que se pousa em nós. E falem-me de um sentido, um sentido que seja, para uma vida que definha, gritando bem alto toda uma indignidade que se fez reino apodrecido. Sei que são as coisas boas, as memórias consoladoras, as que animam um quadro onde as reminiscências se tecem na sua faceta bela. Sei que é isto que se deve sobrepor ao demais – a um corpo que carrega consigo a doença, desesperançado, amordaçado num sofrimento silencioso. Mas não ficam também arquivadas as imagens pungentes da dor letal que consome um corpo, deixando-o reduzido a uma massa inerte, sem vontade?


Não sei se importa saber se tudo isto faz sentido. Porventura é quando todo o impensável lirismo transpira pelos poros, encharcando a existência presente com uma humidade pegajosa. É quando leveda uma improvável ingenuidade que toma conta do horizonte. Fervilhando uma lancinante interrogação que se mistura com um desejo inverosímil: pudesse um homem escolher a sua morte. Pudesse ele lavrar um outro testamento que fixasse o como da sua morte. Para terminar de vez com a tremenda indignidade de ver pessoas a definharem no tempo, a terminarem apenas como distante imagem da intensidade que foram outrora.


Um testamento imaterial que um qualquer deus, se afinal existisse, teria que atender. Por uma vez que fosse, esse agora arquitectado deus obedeceria à vontade humana. Para asfixiar o sofrimento nutrido por uma dor surda – o sofrimento, a grotesca aleivosia dos putativos deuses que ecoam as tenazes de uma doença insidiosa. Oxalá voltasse a jurar solenemente a declaração dos direitos do homem, suprema impotência ou acidulada utopia quando ajuramenta a dignidade da vida. Mas de que serve a dignidade da vida se não há dignidade na morte?


A violência de ver alguém perder a vontade e a lucidez. De ver o corpo transformar-se numa massa inerte. O presságio da fatalidade que apenas está à espera do dia aprazado em que o corpo deixa de lutar e os olhos se encerram na justiça poética de quem renuncia como acto derradeiro, corajoso e sublime. Um acto de liberdade. Há os crentes de crenças várias que se entregam aos braços de uma qualquer entidade divina, ou de outra coisa qualquer, fiéis depositários de uma existência que se prolonga na sua imaterialidade. O sacrário do sofrimento que se alonga numa interminável morbidez é a caução para a apalavrada dimensão que se desprende da terrena existência? Mas, então, é necessário infligir tanto sofrimento a um corpo já mirrado?


As palavras que se balbuciam num sussurro imperceptível. A energia consumida pela dor, tanta que nem sequer forças se reúnem para verter as lágrimas que se debatem nas secas pálpebras. Os músculos tisnados pela letargia, mostruário da ausente vontade pela cedência às tenazes da doença que irrompeu, triunfante e traiçoeira. O olhar perdido no firmamento que já nem ele se discerne no que quer que seja. As mãos frias, tão paradoxalmente frias quando a canícula estival se abate sobre o dia e a noite. As mãos, a terminação dos braços que se resignaram à derrota no braço-de-ferro fatal. É já um corpo, só. Um, muito distante da frondosa existência que o foi outrora. A convocar, como nunca, as memórias que refulgem essa existência inteira. Como nunca se fizera notar essa sede retrospectiva; só então as pinceladas da sibilina existência se sobrepõem à indigna degradação do ocaso.


Que dignidade está espalhada neste mundo, na espécie que em sorte calhámos ser, quando se nos reserva o definhamento de nós mesmos a tal ponto que já o deixámos de ser – o eu voluntarista, ou eu pensante, o eu todo, inteiro? Não há desmerecimento maior que um ocaso de pungência demorada. Um ultrajante punhal que mata devagarinho e adia o fim assim incerto.

27.8.09

As feministas são frígidas?


Ainda a insistente publicidade ao tratamento da "disfunção eréctil". É intrigante o silêncio das feministas sobre esta campanha que pretende reviver a tonicidade muscular dos membros masculinos entretanto desmaiados. Poder-me-ão dizer: mas as feministas não se interessam por futebol, por que motivo haveriam de ser espectadoras dos intervalos dos jogos que passam na televisão? Eu contraponho: e não se interessam pelo resultado final proporcionado pelo fármaco publicitado nos intervalos dos jogos de futebol?


É sempre arriscado quando nos deitamos em adivinhações, mas arrisco o exercício: as diligentes feministas não gostam de futebol, ou já teriam inflamado as vozes de protesto contra a execrável desigualdade presente nesta campanha. É que a publicidade é orientada para os machos que deixaram de ser alfa, amolecido que está o órgão reprodutor. Uma vez mais, diriam, o insultuoso viés do género. Continuo a adivinhar (pois não vejo telenovelas – e, outra vez, descaio para o estereótipo de género): nos intervalos das telenovelas passa publicidade a medicamentos que combatem a osteoporose?


Persisto na melindrosa adivinhação: se as feministas perdessem o seu valioso tempo a ver jogos de futebol (ó heresia…), deitavam-se que nem leões esfaimados (correcção: leoas) a quem cauciona esta campanha publicitária por se ter o sexo masculino como alvo. Com fúria, passavam por cima de tudo: publicitários, empresas farmacêuticas, canais televisivos, os detentores dos direitos publicitários nos jogos de futebol. Algumas, tão conhecidas pelo fundamentalismo da causa que defendem a peito, iriam erguer o dedo acusador aos meninos mimados que andam aos pontapés na bola enquanto não passa a publicidade que convence os homens diminuídos na sua capacidade sexual a tratarem a disfunção. Se não houvesse futebol, não havia tanto macho viciado no desporto. E talvez pudessem tratar as consortes com a dignidade que não lhes sabem dar.


Tão zelosas com a sua causa, nem perceberiam – caso se atirassem contra esta publicidade – que estavam a disparar um tiro no pé, atropelando os interesses de quem dizem ser representantes: as mulheres. Ontem quis provar que, no fim de contas, a publicidade à cura para a impotência masculina é democrática, pois as mulheres também são destinatárias – arrisco dizer, destinatárias directas – do efeito provocado pelo medicamento.


Cegas pelo fundamentalismo da causa, atormentadas por todos os fenómenos que perturbem a mirífica igualdade de género à força que ambicionam, nem teriam tempo para apreciar os méritos da publicidade (e do produto em si). Por isso me interrogo, no acto derradeiro do exercício de adivinhação, se as feministas militantes não são frígidas? Que não seja mal interpretado, pois já por aqui apresentei abundantes credenciais anti-marialvas. E como deploro aquela mania ainda muito máscula, mesmo entre gerações mais novas (que parece que só aprenderam as belezas de anacronismos bafientos), que faz da mulher um objecto de comprazimento pessoal. Nisto, defendo que é como na dança: são precisos dois para a função. E os dois devem tirar prazer da função. Com esta "declaração de interesses", suponho que estarei perdoado pelas feministas por algum exagero de linguagem. A menos que as feministas sejam mesmo frígidas e lhes não interessem homens de espécie alguma, marialvas ou a sua antítese, pois as hormonas masculinas têm sempre a palavra final. O maldito sexo, que é sempre bom para os machos e raramente para as fêmeas (na adivinhada abstracção da malta feminista).


Como as hormonas delas parecem ter entrado em hibernação, incomodar-se-iam com a publicidade ao medicamento que anuncia o milagroso tratamento da "disfunção eréctil". A ser verdade que cura o mal, o bem que traz faz-se mal aos olhos das frígidas feministas. Andam a ser negligentes com a sua causa. Têm, naquela publicidade, uma rica matéria-prima para trazerem a causa feminista para a agenda mediática. Quem não protesta cai no esquecimento.


Ou, então, as minhas suposições estão todas erradas. E as feministas estão caladas porque andam contentes da vida. Por também terem sido destinatárias (directas) do fármaco que arrebitou os parceiros.

26.8.09

Por que se insiste em publicitar medicamentos para a “disfunção eréctil” nos intervalos de jogos de futebol?


Como podemos escapar à vigorosa maré dos estereótipos? Eles doem, sobretudo quando esbarram nos modismos escolhidos pelas elites bem pensantes. Por exemplo, fica mal arrumar as pessoas consoante o sexo. Hoje fica mal a um varão encher o peito de ar e pavonear tiques marialvas; fica-lhe mal gabar-se de não pôr as mãos nos utensílios da cozinha, ou que a lida da casa é para as mulheres, ou que não muda a fralda ao infante que berra no berço. Um daqueles modismos, tão proclamado aos quatro ventos, é o da igualdade dos sexos.


De modo que hoje já não é de bom-tom dizer-se que "isto é para os homens e aquilo deve ser feito pelas mulheres". Não vão as militantes feministas protestar de forma inflamada. Ainda não se chegou ao ponto de os homens começarem a envergar saias, ou a pintar unhas e olhos. Apesar de artistas da música pop não terem vergonha da andrógina aparência que cultivam e que, consta, faz um tremendo sucesso junto do sexo feminino (o que levaria a especular se as fãs não são lésbicas recalcadas).


Palavra de honra, concordo que os maus hábitos legados por gerações anteriores são anacronismos que merecem ser varridos do mapa. O macho alfa, esteio da família, que chegava a casa cansado da caçada e, depois de enlamear os tapetes com as suas botifarras, esticava os pés no sofá e ordenava à consorte que lhe tratasse do opíparo manjar; o "cabeça de casal" que só tinha orgulho másculo se coleccionasse um punhado de amantes pela geografia limítrofe. Mas, por mais que nos custe, há estereótipos de que não conseguimos fugir. Para mal dos pecados das feministas que querem impor a igualdade à força, nem que preciso seja atropelar cânones da natureza, ainda é o homem que tem o fálico órgão reprodutor que só funciona quando é bombeado de sangue. E como isto é dramático, a avaliar pela campanha publicitária que, nos intervalos dos jogos de futebol, sensibiliza a homenzarrada com dificuldades na função que pode deixar de as ter se tomar aquele medicamento.


(Há uma campanha de sinal contrário, mais discreta, meio escondida nas páginas de jornais: medicamentos contra a extemporaneidade da função – ou, na terminologia técnica que parece ser o véu que esconde um certo pudor vitoriano que nos consome nestas coisas, "ejaculação precoce". Curiosamente, essa publicidade não passa nos intervalos dos jogos de futebol, o que pode ser uma indicação do escalão etário da clientela viciada no futebol que encharca as televisões.)


Eis o duplo estereótipo. Primeiro, a "disfunção eréctil" (outro eufemismo que mascara a vergonha – como se disso houvesse necessidade –, com a palavrosa tecnicidade a trabalhar para arranjar uma expressão que suavize o problema, o da impotência) não atinge as mulheres, por melhores que sejam os esforços igualitários das feministas. Segundo, os homens são o público-alvo da publicidade que entremeia as duas partes de um jogo de futebol na televisão. Os sacerdotes do politicamente correcto andam desatentos. Já deviam ter reclamado contra aquela publicidade. Ela exclui uma minoria – se as mulheres, por frequentarem em menor número os campos de futebol, para o efeito puderem ser consideradas minoria.


Forçando o prisma, até se entende o silêncio dos penhores da sagrada igualdade: assim como assim, os jogos de futebol que cativam aos homens (acredita-se, sobretudo aos afectados pela "disfunção eréctil") mais atenção do que as consortes, enfim com alguma utilidade. Os varões podem tirar partido dos intervalos dos jogos e obter receituário que lhes consinta a satisfação de um dos deveres conjugais. O futebol passa a ter serventia para as mulheres, mesmo para as que tantos ciúmes dele têm, pois os consortes tratam melhor o futebol do que as senhoras que esposaram nos bons velhos tempos. E assim teríamos o futebol, em comandita com a prestimosa indústria farmacêutica (a ordem dos factores é arbitrária), a contribuir para a harmonia familiar. Uma segunda lua-de-mel para gente de meia-idade, outra vez intumescido o membro condenado à flacidez não fosse o milagroso tratamento da "disfunção eréctil".

25.8.09

Vox populi – não há quem a abafe?


Dizem que a democracia é o povo que ordena e os eleitos (por ele, povo) que governam. A teoria ensina-se desta maneira: a soberania é popular, o poder reside no povo, na convicção de uma mirífica igualdade. Mas é incongruente pensar que o povo – todo o povo – possa exercer o poder. Estaríamos mergulhados na anarquia, com o sentido negativo que as convenções pespegaram no termo – continua a teoria estabelecida. Por isso existe delegação de poder. Do povo nos governantes, eleitos para nos representarem. A democracia deve-se aproximar o mais possível do seu natural detentor. Daí que se discuta se a democracia deve ser representativa ou directa (ou, para alguns saudosistas de um império que ruiu vai para vinte anos, "popular").


Ainda com o estigma do salazarismo à perna, a sagração da democracia é feita todos os dias e as assombrações totalitárias dominam o quotidiano. Tal como se ainda houvesse o risco de resvalar para uma ditadura como a que nos oprimiu durante quarenta e oito anos. Todas as manifestações de "democratização" merecem aplauso obrigatório – ao menos por aqueles que habitam no lugar-comum do "politicamente correcto", os pastores do sistema central (referência a "bloco central") e os que reivindicam o exclusivo da democracia sem a saberem praticar por antinomia ideológica (as extremas-esquerdas).


Por estes dias de selvática concorrência entre os canais televisivos, a voz do povo destilada através de microfones é um dos esteios da qualidade e da intensidade da democracia. Por tudo e mais alguma coisa as televisões saem à rua e perguntam pela opinião do povo. Na sua variante mais recente, proliferam "tribunas abertas" em rádios, televisões e jornais onde o cidadão anónimo opina. É quando o disparate exala por todos os poros. Sempre ouvi dizer que o maior ignorante de todos não é aquele que é apontado por todos como tal; é o que se julga imensamente inteligente, sem dar conta da profunda ignorância em que vegeta.


Multiplicam-se os exemplos da voz popular que agride os sentidos. Andássemos atentos, a anotar todos os dias o relambório de falta de instrução de gente que tem os seus "cinco minutos de fama" na comunicação social, e tropeçávamos em matéria farta. Por ser fresco – e por ter sido o mote para este texto –, um exemplo recolhido ontem. Depois da catástrofe numa praia algarvia, com o desabamento de um leixão que matou quatro pessoas da mesma família, as televisões andaram em areais debaixo de frágeis falésias. A perguntar aos temerários banhistas (ou, dir-se-ia, irresponsáveis banhistas?) se não tinham receio que o mesmo lhes acontecesse.


Da amostra de gente que abriu a boca para o microfone, as respostas variavam: i) um estava consciente do risco, mas isso só acontece aos outros (versão "irresponsável em acção"); ii) outro nem sequer sabia que aquela arriba era perigosa, e outro nem sequer sabia da tragédia (versão "estou a leste do paraíso"); iii) havia uma senhora, muito senhora do seu nariz e das certezas que cuspia para o microfone, a debitar o seu laudo: como só estava uma placa que avisava para o perigo do local, não era proibido ali estar. E rematou: se fosse tão perigoso estar naquele sítio, o Estado devia proibir o acesso à praia (versão "imbecil de serviço"). Esta anónima levou a palma na exibição de supina ignorância. A pesporrência da senhora pôs-me a adivinhar se ela não seria daquelas vozes de protesto caso, um dia destes, o sempre interventor Estado decidisse vedar o acesso à praia. Daquela gente que vitupera a interferência do Estado e depois, quando se dá uma tragédia, se atira ao Estado porque se fosse mais pródigo em proibições a tragédia não tinha acontecido.


A fecunda voz popular é o termómetro da abundante agnosia dos detentores do poder. Correndo o risco de arrostar o rótulo de anti-democrático, eis uma profecia que corresponde a um pessoal desejo: que as televisões tenham pudor. E calem esta absurda e tão burra voz popular. Tenho a impressão que a democracia não se ressentia. E tinha um bónus adjacente: varrer a indigência faz bem à sanidade mental.

24.8.09

Infinita tristeza


O olhar, perdido no firmamento, como caução de um mundo já ausente. Nesses olhos marejados embebe-se a profunda, infinita tristeza. Já só desesperança. E, contudo, nos olhos que retêm as lágrimas empareda-se toda uma existência, como se neles estivesse às avessas uma tela onde passasse a sagração de uma vida inteira.


Como é penoso ser testemunha da tristeza que mareja naqueles olhos. Reféns de uma melancolia pungente, selam a cedência perante a arrebatadora força que fora incapaz de vencer. O cansaço tomara o seu altar, vergando as forças agora exangues. Há naquele olhar petrificado um imenso livro aberto onde acampam as dores que não são gritadas. É como se um sofrimento inteiro se enquistasse naquele olhar perdido no distante horizonte, algures onde porventura já nem sequer um horizonte qualquer é discernido pelo olhar.


Diria que os olhos que se encharcam de lágrimas contidas já só se perdem na ausência de tudo. Opacos pelas lágrimas que lhes retiram expressão; mas, ao mesmo tempo, translúcidos pela tristeza que transportam. Translúcidos, como se por eles todos os gritos aflitivos de sofrimento – todos os gritos que soubera reprimir – soassem no olhar marejado. Naquele olhar que transpira lágrimas da tristeza.


Que pensamentos vagueiam detrás daquele olhar petrificado, que só não é inexpressivo porque dele escorre a infinita tristeza? Uma lamentação, ou o perjúrio de jamais ser o que fora outrora. Matéria inerte a que apenas os olhos que são sacrário da melancolia consentem alguma expressividade. É naqueles olhos perdidos no firmamento que se parece resguardar ainda alguma lucidez, ainda alguma altivez disfarçada na tela para lá da tristeza. Neles, a na tristeza que albergam, toda a impotência de reverter o tempo, um braço-de-ferro derrotado. O impassível declínio, contra o qual as esvaídas forças já nada podem, arremete com a ultrajante violência que se abate num corpo domado. O que ainda sobra de dignidade fervilha no ensurdecedor silêncio dos olhos que ecoam uma tristeza ímpar.


Não houvera lamentações escutadas quando podiam ser gritadas com a mesma força do sofrimento que o consumia pelas entranhas. E agora, mercê dos olhos imóveis no longínquo e indiferenciado horizonte, parecia que as lamentações soavam, tão audíveis, no silencioso olhar testemunha de tanta tristeza. Todas as lágrimas que os marejavam valiam pelas palavras outrora reprimidas, as palavras que haveriam de ser ditas em rima com a tanta dor suportada. E mesmo as lágrimas que enchiam os olhos não se vertiam, como se fosse o derradeiro fulgor de toda a coragem amealhada. Nem as lágrimas contidas dentro do olhar aspergiam um sentimento que fosse, todos eles abrigados na continência do olhar remetido à infinita tristeza.


Uma vez mais, pela última vez, queria poupar os demais do sofrimento dilacerante. Só não conseguia reprimir o olhar onde se acantonava a tristeza que as forças já desfalecidas não deixavam esconder. Aos outros, à volta, sobrava a tremenda impotência de nada poderem fazer. Na impossibilidade de revertem os tentáculos que adornavam aquela tristeza, no gélido silêncio que se apoderava do demorado olhar que se perdia no firmamento, algures onde nidificava toda aquela tristeza em que os olhos repousavam. Restava-lhes serem testemunhas da infinita tristeza que o consumia. Coabitarem nessa melancolia, para que ao menos não a sentisse no ainda mais doloroso isolamento.

21.8.09

Contra narcisista, ou narcisismo ao contrário?


Há por aí uns personagens que transpiram carradas de narcisismo e que treparam ao estatuto de pessoais embirrações. Só encontro uma explicação: por trazerem atrás de si todo aquele narcisismo, um convencimento agreste que se esbofeteia em todos os demais, os coitados que não chegam para sequer morder nos calcanhares de quem exibe tamanha bazófia. Este é dos defeitos da espécie que mais me incomodam. Se não se lhes pode recomendar que desapareçam do mapa, ao menos que tomem um banho de humildade para refrear tanto narcisismo.


(Algumas narcísicos que me ocorrem, com o encantador Mourinho a liderar este particular campeonato: o grande líder da pátria, o rapaz a quem o galardão de melhor futebolista do mundo parece ter produzido efeitos adversos, o patético primeiro-ministro italiano, alguns operários de artes diversas que arrogantemente desfilam a fama, gente que anda pela ribalta efémera e que se passeia na rua com o nariz espetado ao alto, com aquele olhar de desdém que parece selar uma fátua superioridade.)


O contraponto: dirão que a implicância com os narcisistas se deve a inveja. Ou à má convivência com a fama que os arrogantes adquirem, por me ser doloroso sabê-los imersos em tanto sucesso. Seja o que for, esta gente vaidosa que alardeia em público os seus elevados dons revolve-me as entranhas. Sabemos que Mourinho se acha o melhor treinador do mundo, e que ninguém cala a prosápia de Cristiano Ronaldo. Já não é tão certo o estatuto que este primeiro-ministro a si chama quando assegura que os ventos da democracia nunca sopraram um timoneiro tão venturoso quanto ele. Ou que Lobo Antunes sobe aos tamancos da reputação de escritor para destilar o seu auto-convencimento. Sabemos tudo isto. A tal ponto que é dispensável, por serem cansativas, tantas exibições de narcisismo com que andam pela praça pública.


Desconfio que os narcísicos tiveram infâncias ou adolescências atormentadas. Se calhar eram alvo da zombaria dos outros. O estrelato é um acerto de contas com os recalcamentos de antanho. Só que os demais, que não os conhecem desses tempos, não têm culpa dos recalcamentos. Escusávamos tanta grandiosidade pessoal esbofeteada à exaustão, sempre lembrando do luminescente estatuto de que gozam em contraste com a mediocridade onde os anónimos vegetam. Não sei o que me azoa mais: ver os Mourinhos darem à costa e, com jactância, bolçarem "eu sou o maior", ou ver o respectivo séquito confirmar o estatuto, aplaudindo com notória acefalia.


De tudo isto, uma introversão: noutro registo, divirto-me com a altivez de alguns colegas que puxam lustro às credenciais académicas. Fazem gala do "professor doutor", complemento obrigatório da assinatura que sai do punho e, julga-se, argumento definitivo de autoridade. É uma derivação de narcisismo. Também aqui se pode contrapor: mas esses "professores doutores" afinal não são professores doutores? Não terão direito a engalanar o nome com o título na correspondência que assinam, nos cartões de crédito e de débito que os bancos distribuem, no tratamento pessoal que exige a apensação da credencial académica?


Inclino-me a responder que se trata da mesma jactância dos narcísicos. Só mesmo por cá (ou em terras onde o formalismo se sobrepõe à substância) para exigirmos que nos levem tão a sério quanto as credenciais deste género fazem supor. Só que então noto o seguinte: se disser que não assino com o título académico, que não exijo esse tratamento nem nas relações profissionais, ou que os cartões bancários só têm o nome do registo civil, não estarei a ser narcisista ao contrário?


Isto faz-me lembrar a dança descompassada entre a vaidade e a modéstia. Só que a falsa modéstia é, lá no fundo, uma exibição (disfarçada) de vaidade.

20.8.09

Um bocado de corpo no meio de tatuagens (outro fresco estival)


As tatuagens que de ano para ano enxameiam cada vez mais corpos e corpo distraem uma distracção. Passo a explicar. A vista arregala-se com corpos – e, se me é permitida a confissão heterossexual e, juro, nada marialva, a observação restringe-se aos corpos femininos. É na praia que os corpos estão mais próximos da sua natural nudez. Não é por pudor que desvio o olhar de esbeltos corpos femininos. Não vou ao ponto de fazer disto um passatempo que muito me aproximaria de um voyeur a carecer de tratamento psiquiátrico. Aliás, o mal de ir à praia e estar cercado de corpos com muita nudez à mostra é que de tudo se vê. Tanto os olhos se deleitam com corpos esbeltos como notam a agressão visual do seu contrário.


Continuo a explicar por que razão as muitas tatuagens distraem a distracção obsequiada pela temporada estival. A tinta das tatuagens e os múltiplos desenhos que ornamentam os corpos distraem a atenção dos olhos para os enfeites que os artistas do género espalham pelos corpos. Ou seja, os olhos fitam a profusão de tatuagens em vez dos corpos. Volto ao de há pouco: nem sempre a distracção das tatuagens é coisa má. Naqueles corpos de adiposidades abundantes, as tatuagens são um bálsamo. Os olhos focam a tatuagem e distraem-se do corpo disforme – é o que dá quando um detalhe desvia a atenção do conjunto.


Todavia, as tatuagens têm desvantagens. Primeiro, as tatuagens que ornamentam graciosos corpos femininos retiram a atenção aos corpos em si. Já não há mister de apreciar o dom da natureza com que certas mulheres foram agraciadas (um crente corrigir-me-ia: o atributo divino, não o dom da natureza). Um corpo aprumado fica escondido pelo detalhe de uma tatuagem. Outra vez: os olhos focam-se no pormenor do desenho que evaporou a naturalidade da tez e perdem a harmonia das formas do todo. Segundo, as tatuagens desviam o olhar para corpos masculinos. Não é o corpo masculino que cativa a atenção; é a tatuagem que aparece num corpo de um homem e que actua como íman para a vista, forçando-a a um desvio de trajectória que outrora não estava programado na mente. O heterossexual orgulhoso (não confundir com um qualquer marialva apatetado) sente-se contrariado.


Longe de mim censurar as tatuagens e assinar por baixo o desvario (outro) da ASAE, que há tempos quis meter a pata proibicionista na feitura de tatuagens. Isto como mote para a terceira contrariedade das tatuagens: a questão estética. O que vem a seguir é uma verdade muito pessoal, tão relativa como todas as verdades – e tão relativa como os padrões estéticos que povoam os gostos individuais. As tatuagens desfeiam os corpos. Há-as muito pequenas, não sei se sinal da timidez de quem as quis colocar numa parte quase escondida do corpo. Há-as em partes – como direi? – sugestivas do corpo: junto ao umbigo ou, a que tem a minha preferência, nos fundilhos das costas. Como há quem cometa a ousadia de ordenar aos artesãos a injecção de fartas doses de tinta que resultam em avantajadas tatuagens. O produto final é algo que em mim causa confusão: a perenidade do desenho que toma conta do lugar onde antes estava a naturalidade da epiderme.


Por fim, outra consideração estética que não abona em favor das tatuagens. É um estereótipo de futebolistas e de artistas de duvidosa estética. Outra verdade com o peso da sua relatividade: uns e outros, gente pouco recomendável como ponto de mira estético. Mas, lá está, nisto dos gostos o que embeleza a riqueza do mundo é a relatividade das preferências.


Daqui apenas protesto um egoísmo: as tatuagens desviam o olhar das maravilhas da natureza que resultaram em certos corpos femininos. O resto – a duvidosa estética, a perenidade das tatuagens, o embuste dos hieróglifos chineses e árabes que escondem mensagens que apenas interessam a quem ostenta a tatuagem (o que me divirto a pensar como esta gente pode ser enganada ao acreditar que os hieróglifos significam uma coisa quando afinal significam outra muita diferente) – fica com que tem a coragem de as fazer, as muitas e fartas tatuagens.

19.8.09

A tecnologia desumaniza?


Aos cientistas e visionários, um grande bem-haja. Fazem o mundo avançar. Das invenções que dão a conhecer, a regra de serem virtuosas para a humanidade. Por estes dias, os avanços tecnológicos cavalgam, imparáveis e a uma velocidade vertiginosa. Nas tecnologias de ponta, uma inovação está destinada à efémera condição. A obsolescência espreita ao dobrar de cada esquina. O que ontem nos deixou boquiabertos depressa se transforma em sucata.


Eu adoro as conquistas da tecnologia. Dependo delas. Empenho-me em saber o que está aí a rebentar, a próxima conquista saída de cérebros inventivos que manobram nos interstícios da, para mim, insondável tecnologia. Por exemplo, quem desdenha das vantagens da Internet? Dizem os seus defensores: agora fazemos a partir de casa numerosas coisas que dantes obrigavam ao incómodo de uma deslocação até ao sítio onde esse serviço era prestado, com o desconforto das filas de espera e da antipatia dos funcionários que nos atendessem.


Há quanto tempo não vamos a um balcão de um banco? É tanto que nem posso assegurar se a Caixa Geral de Depósitos continua presa ao estigma da função pública (tão semelhante era o tratamento que o utente recebia num serviço público ou naquele banco). Podemos comprar férias sem ter que aturar a prosápia do comercial da agência de viagens. Podemos comprar bilhetes de avião, que até ficam mais baratos se forem adquiridos online. Já não são precisos mapas de papel: há vários sítios na Internet que oferecem mapas cheios de potencialidades que os tradicionais mapas desdobráveis não conhecem, traçando rotas que nem ao distraído deixam lugar à desorientação. Hoje soube: há um mapa que nos mostra, com fotografias, como são as ruas que esquadrinharmos. Até a comunicação entre pessoas se transformou. As "redes sociais" põem-nos a comunicar através da escrita, não através da fala. Parece que já não queremos escutar vozes, melodiosas ou medonhas, mas vozes, um timbre de humanismo. E parece que nos refugiamos no conforto da Internet, dentro de casa, um esboço de sedentarismo e de ensimesmamento.


Não sei se este é o preço a pagar pela galopante tecnologia. Têm uma capa de virtude, as muitas facilidades legadas ao utente da tecnologia. O reverso da medalha é, dizem uns quantos, a desumanização das pessoas. Quem faz coisas em casa quando outrora estava habituado a fazê-las na rua contacta com menos gente. Logo, essa pessoa fica menos gente. Para os críticos da voracidade da tecnologia, as vantagens dissipam-se na sua opacidade. Confinados ao comodismo da residência, é como se a transformássemos na caverna de onde pouco saímos. Pegando na retórica dos que protestam contra o embrutecimento da tecnologia, somos os novos homens das cavernas, tão bichos mergulhados no umbigo do nosso isolamento.


Haverá sociólogos, até psicólogos, entretidos com a análise do cenário? Se os críticos forem levados a sério, a mesma tecnologia que nos facilita a vida é a que nos dilui a humanidade. Ou, se não houvesse apenas comicidade nos profetas da desgraça agarrados a mirabolantes teorias, dir-se-ia que se trata de uma conspiração de robots. São as máquinas que nos oferecem, numa bandeja cheia de invisível cicuta, proveitos que maceram a humanidade e nos transformam em robots.


Eu não acredito em teorias da conspiração. Encaro as efabulações espalhafatosas como diversão – exercitam os músculos faciais que soltam o riso. Entre as profecias da desgraça e o comodismo da tecnologia que avança, supersónica, prefiro a segunda. Nem que digam que nos estamos a desumanizar.

18.8.09

Colourbox, "The Moon Is Blue"

Lua misteriosa?


Musa de poetas e músicos. Inspiraste fantasias ímpares. Houve quem te sagrasse como mistério, a mítica atracção terrestre – como se os termos da equação se invertessem e fosse a lua a centrípeta força e a Terra abandonada à condição de satélite. Houve quem, cultor de teorias da conspiração, desconfiasse da ciência e jurasse a pés juntos que jamais o homem havia pisado o solo lunar. Afinal, ó lua, onde guardas o teu mistério?


Dirão uns: é das suas múltiplas personalidades. Lua cheia, quarto minguante, lua nova, quarto crescente, mais as mutações intermédias. As diversas caras que a lua mostra ao paternalista planeta de que depende. E nós, daqui em baixo, contemplamos a esquizofrénica lua, extasiados. Invejamos as múltiplas personalidades lunares, cansados por certo da personalidade que calçamos.


Talvez o mistério da lua esteja no hipnotismo que em nós semeia. O ar contemplativo que pomos quando nos deixamos enfeitiçar por uma das caras da lua. Dizem que o mistério – e o encanto – maior acontecem quando a luz mostra toda a sua grandiosidade espelhada na lua cheia. Dir-se-ia que o tempo se paralisa enquanto admiramos o feixe de luz incandescente que brota da lua tão grande que se esbarra na pequenez da Terra. Outra vez as coisas imersas nos seus paradoxos: seria a Terra atraída pela gravitação lunar, desmentindo as lições dos astrónomos.


Talvez seja isso: o encantamento enquanto fitamos a lua cheia que invade a escuridão da noite. Alguns já lhe chamaram o sol nocturno. Há quem teça loas à resplandecente luz alva que dela emana. E quem veja azul no feixe de luz que a lua irradia. As fantasias emparelham-se com a infinita imaginação humana. Lobisomens, ou coisas que só acontecem quando a luz se põe cheia, ou catástrofes que vão acontecer no eclipse lunar – mesmo que depois a realidade venha desmentir a verificação dos cataclismos teorizados por um saber fantasioso. Daqui a uma interrogação que não pode esperar: dedicamos tempo excessivo à lua, na sobrevalorização do seu papel que não deixa de ser o de um satélite que gravita em torno de nós?


Ocorre-me uma explicação: o eterno cansaço do que somos, ou donde estamos. Aprisionados pelo que somos. O local onde estamos acantonados, o cárcere que impõe os nossos limites a uma certa pequenez. A lua, a inacessível lua, um prometido, sonhado destino de libertação dos espartilhos da rotina que asfixia. O olhar projecta-se para o alto céu onde nidifica a lua. É a lua que deposita os sonhos, as fantasias da gente fatigada daquilo em que se tornou, ou fatigada do sítio que se transformou em sua prisão. E os pensamentos descolam do ser e voam na direcção da lua, da desconhecida e talvez por isso tão atraente lua. Só o corpo fica preso ao chão. O pensamento escapa-se, atraído pelo magnetismo da lua que, lá do alto, exerce uma misteriosa força centrípeta. Eis o sentido de uma expressão idiomática que tão bem conhecemos: "andar com a cabeça na lua".


As metáforas tecem-se nos seus múltiplos significados construídos. Por quem as edifica e por quem nelas mergulha como seu hermeneuta. A lua é de um terreno fértil para as metáforas. Seja esse o seu equinócio com o consagrado mistério que a envolve. Mas a lua é apenas o satélite que gravita em torno do planeta de onde tanta fantasia se elabora. Tenho a impressão que também aqui a ciência desmonta todas as singulares efabulações que terminam em metáforas mil.

17.8.09

Enviesamentos


Há gente muito vesga. Como, pelos dias correntes, é abundante a indigência mental e a distracção das audiências, os enviesamentos aparecem com desfaçatez. Dizem-se as maiores barbaridades e a caravana continua a passar, impávida. Somos mesmo convencidos que uma mentira contada à exaustão se converte em verdade. Se, pelo caminho, fica um rasto colorido de desonestidade intelectual, há uns bombeiros de serviço que varrem os prejuízos. Atirando mais combustível para a fogueira dos enviesamentos.


Um dia destes, resplandeceram de esperança os olhos do grande líder (e, por arrastamento, do séquito): as últimas estatísticas anunciaram uma envergonhada recuperação da economia – uns míseros 0,3%, terá sido o aumento do PIB. Como estamos em vésperas de eleições, normal seria que quem se propõe a pedir a renovação do mandato quisesse demonstrar a bondade de quatro anos de governação. Com os amadores instalados no governo, o que conta é prometer um ror de coisas improváveis que adoçam a boca do eleitorado. Como se os últimos quatro anos não tivessem contado para nada. O que a trupe socialista pede é que se ponha a zero o conta-quilómetros parcial. A seita do PS dá o embalo necessário, a crer pelo que julgam ser o direito divino de se perpetuarem no governo.


O grande líder era contentamento pelos poros. Lavrou sua sentença: a crise está a terminar. Quis que lêssemos os dados estatísticos desta maneira: não fosse a magnífica política económica do governo e não seríamos dos poucos países europeus a registar um franzino crescimento económico. Errado estava o seu ministro das finanças. Ele dissera, há uns meses, quando a crise cavalgava todos os dias, que a política económica já se fazia pelas estrelas.


Só que não há coisas boas que sejam eternas. No dia seguinte o grande timoneiro acordou, todo contente, tão excelente primeiro-ministro se confirmava. Umas horas depois, outro dado estatístico, desta vez com um terrível sabor amargo: o desemprego continua a aumentar e trepou para lá da (na expressão de um sindicalista) "barreira mítica" dos quinhentos mil desempregados. Não há direito – terão exclamado o grande líder e demais corte. Nem vinte e quatro horas para se vangloriarem com o raquítico aumento do PIB e aterra uma péssima notícia. Tinham que preparar a retórica de expiação de culpa. Amadores como são, nem sequer foram ao baú da imaginação retorcida para iludir as gentes. Foi o primeiro argumento à mão de semear: o desemprego aumentou, mas aumentou menos do que nos outros países (acto número um); e aumentou por causa da tremenda crise internacional (acto número dois).


O amadorismo distorce o julgamento – ou o enviesamento é mostruário da indigência mental de quem o pratica. O número de desempregados já superou quinhentos mil? Pois, mas nos outros países europeus é ainda pior. O nosso mal é superado pelo mal ainda maior dos outros. Devíamos perguntar ao primeiro-ministro se também devemos festejar os números do desemprego. Depois, o grande líder sacudiu a água do capote: lamenta informar que o desemprego aumentou por motivos alheios à sua vontade. Foi a abominável crise que empurrou os números para além da tal "barreira mítica". A crise, a crise das costas largas.


Eis o enviesamento. Uma notícia boa é prova da excelente governação. Uma má notícia que se lhe segue é prova dos efeitos contagiosos da crise internacional, contra a qual nem um governo habilitado (o que não é caso) consegue remar. Tirando alguns que não comem tudo o que lhes tentam meter goela abaixo, a maralha ouve, come e cala, convencida. Que não me atraiçoe a memória: não foi bandeira eleitoral, há quatro anos, a promessa de "inventar" cento e cinquenta mil empregos? Então em que ficamos: a criação de emprego deve-se à política económica (assim virtuosa) e o desemprego deve-se à crise?