19.6.09

Obama Sheltox


Obama matou a mosca e o mundo parou para se embevecer. Obama é tão magnífico que até inoportunas moscas consegue varrer do caminho. E o mundo inteiro (ou a caminho de o ser) aplaude, extasiado, os dotes do homem que, arrisco daqui, devia ser elevado à condição de líder do mundo.


É impressionante como um fait divers ganha espessura de notícia. Obama a ser entrevistado para um canal de televisão. Uma mosca esvoaça à sua frente, causa comichão e perturba o clarividente raciocínio do líder simpático. Interrompe o raciocínio: a irrequieta mosca pousara na sua mão esquerda. Tensão nos segundos em que durou o silêncio. Levanta a mão direita, sorrateiramente. Com um golpe seco esmaga a mosca que repousara na presciente mão que conduz o mundo pelas ruas da esperança. O insecto jaz morto no tapete, junto aos pés do presidente dos Estados Unidos. Ao meu lado, no café, a mulher cinquentona, mulher do povo, exclama com sotaque portuense inflacionado: "este home é um espectáculo!"


E não é que Obama é um espectáculo? Tirando os malvados dos fundamentalistas islâmicos que nunca estão contentes com nenhuma liderança do "Satã americano" e alguns teimosos no mundo ocidental que resistem ao encantamento por Obama, quem, no seu juízo, pode contestar a impressão "espectacular" que exala da figura? Obama mata a mosca e a proeza aparece no tempo dos noticiários. Obama tem um cão de raça portuguesa e isso alimenta a nossa admiração e enfatua o ego pátrio. Obama, coitado, teve que abdicar do inseparável Blackberry porque os zelosos serviços secretos apontam razões de segurança, e o mundo (quase) inteiro condói-se com as dores interiores de Obama. Um dia destes, ficaremos a saber: a que horas se levantou Obama, o que tomou de pequeno-almoço, o livro que está na mesinha de cabeceira, uma dor de cabeça que o levou a tomar um analgésico, o poema que escreveu à primeira-dama (também uma "mulher espectacular", anote-se) num intervalo de arrebatamento amoroso entre duas importantíssimas reuniões com generais de Pentágono e com cinzenta gente dos serviços secretos, e o mais que se possa imaginar.


A destreza para matar insectos junta-se a todos os predicados que contribuem para o enfeitiçamento (quase) global por Obama. Hipnose (quase) global. Obama matou a mosca e nem um ai pesaroso, ou um protesto inflamado, dos militantes da causa ambientalista – ou a mosca será um animal que ocupa uma escala inferior na ordenação dos que protegem os direitos dos animais? Tudo isto entra para as estrofes que compõem a melodia do Obama "very cool", o Obama porreiro que aparenta ser um de nós. O poderoso presidente dos Estados Unidos na imagem do homem de rua, do homem comum. Há sintoma mais claro da democratização do poder?


Por quanto tempo mais há-de continuar o mundo (quase) todo enfeitiçado por esta cortina de espelhos, pela fantasia que se oferece no papel de celofane de uma imagem tão bem forjada? Se os governantes se interessassem mais pelo que fazem e não pelo que mostram ser, o episódio da mosca ficaria reservado aos arquivos de filmagem daquela estação de televisão, ou ia parar ao YouTube. Vimos como Obama fez o auto-panegírico, convidando o homem da câmara a filmar o insecto jazendo no seu leito de morte. Só para que o mundo (quase) inteiro testemunhasse e se inebriasse, pois aquilo não tinha sido uma encenação, que Obama tem um killer instinct para maçadores insectos – é, pois, como as osgas, que as osgas são conhecidas por essa habilidade. E, repito, nenhuma associação de defesa dos animais esboçou um protesto.


Habilidades, há-as no circo. Ao circo bate-se palmas. Uns segundos para pensar: se calhar, eu estou errado e as coisas como elas são é que estão certas. Não é que estamos cansados da política muito séria, sempre ocupada por muito cinzenta gente? Por uma vez que seja, a política circense, a política que nos entretém, para que a esperança e o optimismo resplandeçam. Que interessam as políticas, as decisões, os efeitos que elas vão ter daqui a uns anos, os efeitos que os outros países – os que não elegeram Obama – vão suportar por causa de um efeito de contágio que ninguém consegue evitar? De repente, esta impressão: que tudo isto é que é o verdadeiro circo.

18.6.09

Isto não é uma defesa de Berlusconi


Que não tem defesa possível tão patética personagem. Quando um coro de almas indignadas protesta contra a algazarra que ia na sua casa de férias na Sardenha, com fotografias de beldades femininas como vieram ao mundo em alegre convívio com homens de meia-idade, só faço esta pergunta: não percebem os cães de fila que quanto mais invadirem a intimidade de Berlusconi, mais o fortalecem?


Têm dúvidas? O escândalo eclodiu em vésperas das eleições europeias. O partido de Berlusconi ganhou as eleições. O que deixa supor que há uma maioria de italianos que não se importa que Berlusconi leve uma vida airada e tenha as hormonas aos saltos (porventura com a ajuda de alguns comprimidos de cor azul, que estas coisas nos septuagenários não condizem com milagres). Oportunidade para o julgamento que as esquerdas costumam fazer quando a vida lhes corre mal nas urnas de voto: perplexidade e incompreensão com as escolhas dos eleitores (ficando no ar a insinuação – torpe, muito torpe – de que os eleitores têm inteligência diminuída).


Para a maioria dos italianos, a vida privada não interessa quando estão a ajuizar os candidatos através do voto. Eu tenho a sensação que os eleitores, por mais que os "catedráticos" lhes pespeguem a inteligência desmaiada, têm mais sensatez do que os iluminados ainda boquiabertos com a escolha popular. Tanta algazarra, com fotografias que escandalizaram tanta gente – ele é lá possível que meninas com maminhas ao léu passeiem à beira da piscina da casa de férias de um primeiro-ministro? – mas a maioria dos italianos continuou a preferir os candidatos de Berlusconi. Diagnóstico, só para aborrecer as almas puritanas que ainda seguram o queixo com tanta indignação: é sinal de que a maioria dos italianos (homens, e mulheres também) aprova a vida doidivanas em que Berlusconi se meteu agora que está divorciado. Imagino o típico macho italiano, boçal como são todos os machistas, a invejar as façanhas do primeiro-ministro, dizendo para quem quiser ouvir: "faz ele muito bem; eu fazia ainda pior". (Neste caso o sentido da palavra "pior" tem que ser apurado: pois "pior" até pode ser entendido como "melhor"…)


Que gente de esquerdas diversas reprove os apetites carnais de Berlusconi e se ponha a perorar sobre o que pode ou não o primeiro-ministro fazer na sua vida privada, é todo um programa de comportamento. Não sei se esta polémica goza da condescendência dos que acham que na "luta política" vale quase tudo. Até a devassa da vida privada. É e curioso ver tanta gente que milita em esquerdas, sempre disposta a pactuar com a desconstrução de usos sociais, e depois ver esses subitamente puritanos sacerdotes horrorizados com tão pecaminosos actos do adversário político. De repente, passou-me uma miragem pela vista: essas esquerdas de braço dado com o Vaticano (o que, para os tempos que correm, já nem é tanta heresia recíproca como se julga). Só mais uma pergunta: a indignação não teria sentido contrário se o paparazzi de serviço tivesse tirado uns retratos a um político das esquerdas apanhado a meter a faca no matrimónio? Com o episódio Berlusconi, o paparazzi foi glorificado; na hipótese que coloquei, seria crucificado.


Eu gosto de ver as esquerdas a serem tão moralistas. E gosto de as ver a espezinhar o valor da igualdade que, pelo menos na retórica, é por elas tão sacralizado. Percebo que elas fiquem exasperadas com as diatribes, a verborreia ridícula, a tendência para o lapsus linguae, os actos desastrados que, por junto, são o património genético de Berlusconi. Sobretudo quando, apesar de Berlusconi, ele continua a ganhar eleições. A devassa da vida privada como instrumento de luta política dá uma ideia da "política suja" e do catecismo estalinista que permanece vivo, nem que seja no plano das reminiscências.


Berlusconi é uma aberração? É. Vai ser derrotado com estes ataques soezes? Duvido. Há outra culpa que atiro para cima das esquerdas desesperadas: à conta destes imbecis pés-de-vento, vejo-me a defender tão aberrante personagem.

17.6.09

Devo andar distraído, ou o presidente da república tem pouco jeito para a função?


Há gente que não nasceu para desempenhar certos papéis. Cavaco, por mais grave que seja a pose, para assim se cobrir de respeitabilidade institucional, não é um corpo talhado para aquela solene fatiota. Aqui vai um deslize que me põe a jeito da crítica (até arrostar com o rótulo de "fascismo social"): a falta de berço não tem emenda.


A alternativa também não é simpática para sua excelência: trata-se de incontinência verbal. Falta saber se o é espontânea, ou se corresponde a uma estratégia dos seus conselheiros. Neste caso, maus conselheiros o rodeiam. E fraco é o discernimento de sua excelência, que podia colocar os conselheiros em sentido se fizesse ver que os deslizes opinativos o prejudicam na função em que está. Se a incontinência verbal ganhou carta de alforria em relação aos mestres da comunicação com o exterior, fica provado como é actor errado para o papel.


Nos últimos tempos o senhor presidente tem escorregado para o chinelo. Foi na Turquia, com graçolas que revelaram a falta de jeito para ser humorista. Cavaco é daquelas pessoas que, por mais que se esforce, não sabe contar anedotas (é como aqueles engraçados que se ficam a rir das anedotas que contam, perante o ar perplexo dos ouvintes). Uns dias mais tarde chamou a imprensa para revelar detalhes da sua vida financeira, só para se ter a noção que sua excelência não abocanhou lucros duvidosos com as poupanças canalizadas para o banco abcesso, o BPN. Agora perorou sobre a transferência exorbitante de um futebolista seu patrício para o Real Madrid. Sua excelência anda tão desocupado, ou despreocupado com as más andanças do mundo, que até lhe sobra tempo para comentar o fait divers. Um presidente eclético.


Interessava saber dos descaminhos das poupanças do senhor presidente e da "sua Maria"? Por este andar, só faltava vir mostrar extractos bancários para se saber onde o casal presidencial colocou as suas poupanças e, já agora, quanto conseguiram amealhar durante uma vida de trabalho. Cavaco põe-se a jeito dos bisbilhoteiros profissionais que adoram vasculhar na vida alheia. Começou pelas finanças do casal presidencial; onde irá isto parar? Por imperativos de sanidade mental, da minha parte peço, encarecidamente, que nos poupem outros detalhes de vida em família (o que lêem, a música que ouvem, as telenovelas a que assistem à refeição, os hábitos de alimentação, e por aí fora). Um dia destes o "índice Cavaco" seria mais um índice a juntar-se aos que medem a temperatura da bolsa de valores: as suas poupanças teriam um valor ajustado dia atrás de dia. Não havia transparência maior: os súbditos saberiam todos os dias o montante do aforro amealhado pelo casal presidencial.


De deslize em deslize, o senhor presidente da república também tem ideias próprias sobre a muito cara transferência de um futebolista lusitano. O pior é que, misturando papéis, Cavaco até confessou não ser "especialista em futebol". Então fala com que conhecimento de causa? Outra interrogação que ficou sobre a minha cabeça: e por acaso as milionárias (ou não) transferências de futebol são competência presidencial? Quem ali falava era Cavaco o economista – apesar da comunicação social que o desafiou, a maldita, a comentar o assunto estar convencida que era sua excelência o presidente da república. Cavaco, o economista keynesiano, desconfia do mercado. Pois o que se passou naquela transferência foi uma transacção que resultou da vontade de quem vendeu e de quem comprou o jogador como mercadoria. Ora se o comprador quis pagar o preço e ele foi aceite pelo vendedor, que raio de moralidade têm políticos pelo mundo fora para aparecerem, no papel de virgens pudicas, a censurar o negócio?


Até me podem dizer que a comparação que vou usar a seguir é despojada de sentido, mas lá vai ela: inquietam-me mais os muitos milhões que vão ser enterrados em mega obras públicas do que com a, no entender de um numeroso coro, obscena transferência de um jogador de futebol. O dinheiro pago pelo clube comprador não vem dos meus impostos. Se não concordar com obras públicas faraónicas e, mesmo assim, dinheiro dos meus impostos seja a elas destinado, que posso eu fazer para além da resignação que nos educam?


Fico à espera que sua excelência comente, com a mesma indignação, o despautério dos megalómanos projectos de investimento que estão a sair do forno. Keynesiano como é, devo esperar sentado.

16.6.09

A maldição da cunha


Duas pancadinhas nas costas, "até és um gajo porreiro, dá lá uma ajudinha". Se por acaso se resiste ao pedido lacrado com o "C" maldito da cunha que pretende facilidades especiais onde elas não existem, o argumento de força: "vá lá, toda a gente faz isto". Subliminar mensagem: os refractários da cunha são as aves raras da fauna em redor.


Às vezes é um pedido ostensivo. Outras vezes chega através de meias palavras – "longe de mim querer um tratamento especial", apresentando o favor através da declaração de que se recusa fazer tal coisa. A quem se negue a entrar no jogo, a proliferação de cunhas importuna. Porque se atravessa pela frente o retrato de uma terra medíocre, habituada a singrar com a ajuda de estratagemas, desvalorizando o mérito de quem não tem o despudor de fazer falar uma cunha e acaba prejudicado na comparação com outro que tenha soerguido a cabeça por ter falado um "favor especial". O "não" como resposta é uma faca que se espeta, funda, nas expectativas de quem está à espera das facilidades especiais. Quem recusar ceder a cunhas é que fica mal no retrato. Por estar desambientado, como se fosse peixe a quem falta um leito de água. É aí que se renova o argumento piedoso: "mas se todos fazem isto…" É a derradeira oportunidade de não ser ave rara – daí a piedade do argumento.


Embirro com as cunhas. Nem sou sensível à retórica da igualdade que, para outros efeitos, pertence ao código genético do discurso politicamente correcto; mas é quando me aparecem cunhas pela frente que sofro um súbito enamoramento pela igualdade. Não da igualdade formatada com o lastro da filosofia política, das ideologias. Uma cunha pede especiais favores que se traduzem num favorecimento pessoal. Desagua numa desigualdade: quem pede o favor quer um tratamento especial aos olhos das regras. Que assim deixam de se aplicar a quem pede a cunha. Isto prejudica os restantes, os que não tiveram a desfaçatez de solicitar o favor especial. A esses, as regras aplicam-se.


Porventura isto soa a moralismo demodé, a uma ingenuidade que não parece condizente com os tempos que vivemos e com a necessidade de os vivermos na pacatez do realismo (que é como quem diz "as coisas são como são, por mais que elas façam doer os olhos; viver em contramão é mais doloroso do que engrossar o caudaloso leito"). Seja. O que inquieta não é saber que gritam mais alto as dores quando arremeto contra a maré. Não tenho a ambição de mudar o que quer que seja. Sigo os instintos. Eles mandam que vire a cara aos favorecimentos pessoais, sobretudo quando obrigam a fechar os olhos a regras de conduta. É por isso que sou anarquista.


Apoquentam as cunhas e não é só pela desigualdade que alimentam. O lado mais sombrio das cunhas é que elas são o pretexto para os incapazes singrarem na vida. Só assim conseguem o que seria impossível de obter através das capacidades ou do esforço. Haver alguém favorecido implica anotar a existência de lesados. Frequentemente, são os que têm mais capacidades, mais mérito, mas ficam para segundo plano por serem ultrapassados pela praga das cunhas. É o retrato desta terra: a negação do mérito. De um passo só se chega a outro traço da idiossincrasia pátria: a mediocridade estabelecida como explicação para o atraso congénito.


Esta é uma doença que se espalha, sem remissão. De tão vulgarizada, contagia-se de pessoa a pessoa. A certa altura, quando os mais capazes percebem que só o exercício da cunha os salva do nada, até eles embarcam no exército de aduladores da cunha que cresce a cada dia que passa. Com um terrível preço a pagar: se o que vale são os favores que se pedem à pessoa certa, se os favorecimentos pessoais e o olvido das regras são a nota dominante, deixam de contar as qualidades individuais. A fasquia desce de nível. Já poucos se esmeram no que fazem. A mediocridade abraça-nos, num abraço apertado e prolongado.

15.6.09

Preto e branco


Ao contrário das convenções. As ruínas perecem, imersas na sua enfermidade. Mesmo quando se demoram e a poeira se acumula, inerte, são efémeras. As tonalidades que dominam: preto e branco, nos seus imensos matizes. O restolho espalha-se por todos os lados. A sujidade tomou conta das ruas. E, contudo, há uma estranha beleza no cenário. Vem dos espelhos que irradiam as coisas no seu contrário.


A lente ofuscada. Cadeiras desmembradas que se arqueiam, desorganizadas. Preenchem a sala onde as paredes perderam a claridade da tinta luminosa. Há um quadro inclinado. Desprendera-se de um dos lados. No outro, um prego já enferrujado mantinha-o num frágil equilíbrio. Os móveis guardam dentro de si a solidão das gavetas despidas. Tudo soa a decadência. A decadência que vem pintada a preto e branco. É a regra dos usos: a angústia desapossa-se das cores garridas. Elas reservadas para a antítese da angústia, para os sentimentos que alentam o sorriso no rosto.


É como se fosse um quadro a retratar a vetusta era pós-industrial. Sinais de uma grandeza que fora conhecida noutro tempo. A nostalgia empalidecia as cores, por mais que a memória se esforçasse por animar as tonalidades do fausto perdido. Sobrava apenas o preto e branco, sinal da melancolia que emoldurava a dissidência do tempo corrente. Era um espartilho doloroso. No torso, as cicatrizes que avivam a decadência de agora. Em contramão com o obstinado resgate da nostálgica elevação de antigamente.


A decadência não é decadente. Nem o preto e branco a ausência de cor. A amargura pelas coisas diferentes, com o sombrio diagnóstico que as encarvoa com a pior das tezes, apenas o cansaço de ter sido recompensado pela glória que o foi no seu tempo. Agora as coisas eram diferentes. As cores foram desmaiando até se cristalizarem no entediante preto e branco. Mas nem entediante seria. Haveria ali, quando muito, a desabituação do presente. Uma insensata impossibilidade de remir o tempo já gasto. E se os olhos em redor distinguiam o que pareciam ruínas, essas eram as ruínas que mereciam sublime sagração. Ao menos havia ruínas. Ao menos, uma decadência a celebrar. E ao menos: a nostalgia, prova de vida dos feitos de antigamente.


O silêncio das ruas desertas rimava com o cenário decadente. Os pássaros não chilreavam. Não se escutava o rumorejo da grande cidade, que parecia em hibernação. Só o vento cortante sussurrava um silvo lancinante, um choro contínuo a debruar a nostalgia que se tornava doentia. Essas lágrimas pintavam a nostalgia com a paleta completa da melancolia. Os olhos só viam a preto e branco, sintoma da maleita que se insinuava há muito tempo.


Era quando o corpo se revoltava contra o torpor que tomava conta. Era quando só faziam sentido as coisas na sua contradição. Era como se tudo se virasse do avesso, sem saber se era pretexto, ou apenas sentido figurado, ou um espontâneo fenómeno. A cabeça repousada na almofada, na letargia que aprisionava o pensamento, erguia-se e arrastava atrás de si o corpo restante. Os olhos deixavam de estar marejados pela tristeza que vinha atrelada à consumição interior fermentada pela decadência. Uma longa golfada de ar inspirada, como se fosse o refrigério que faltava para dobrar o cabo. Já não decadente, a decadência. E uma profusão de cores, a paisagem coberta pelo preto e branco que cessara de ser monótono.


Engrandecia-se a decadência de tudo. Mas nada decaíra. Apenas se consumira pelas paredes gastas que o tempo, voraz, incinera. O erro de sempre é arrastar as memórias na sua intemporalidade. Quando os olhos se soltam do cárcere da nostalgia e apreciam a paisagem em redor, o travo amargo da decadência em preto e branco talvez fosse apenas um delírio. Um contumaz pesadelo, que de pesadelo tinha nada. É que os olhos ficaram presos às teias do encantamento com os prazeres de outrora. Que a esse tempo pertencem, não ao de hoje. Onde há impressão da decadência, afinal apenas um devaneio que corrói as veias por dentro.

12.6.09

Quantas cores vêem uns olhos?


Chegam as cores de um arco-íris? Não. Os olhos deitam-se numa paleta de cores muito mais rica. Reinventam o arco-íris, se necessário for. Até recriam as cores, se formos mais ambiciosos. A certa altura, as cores já não são adquiridas. E já nada é certo. Nem o verde é verde, ou o violeta que se confunde com o azul. As cores que uns olhos vêem são diferentes das cores que outros olhos decantam.


Não interessa se o dia nasceu luminescente. Ou se traz consigo um cobertor de densas nuvens que esconde o dia que podia ser soalheiro. As cores que uns olhos percebem são cores, seja na alvorada que irrompe com os primeiros raios de sol, ou na taciturna escuridão de dias de invernia sem fim. Os olhos sagram as cores que por si se filtram na sua pureza. Nos contrafortes da luz que se insinua entre espelhos vários, são os olhos seus intérpretes. Alimentam-se da luz que os invade, como se as cores fossem seu oxigénio vivificante. Dir-se-ia: os olhos foram criados para serem intrépidos intermediários das cores que nos chegam.


Pois o que seria das cores sem os olhos? Dirão, a cegueira. O mergulho numa escuridão assombrosa, onde nem sequer vultos têm forma. Ou talvez não: as trevas, na sua cor negra, revelam ao menos a negra cor, uma cor. Todavia, não conseguem uns olhos vidrados pela cegueira ungir-se com a policromia que enriquece o mundo. As desgraças, todas as desgraças, alimentam um coro de lamentações. Trazemos a misericórdia pela mão quando pela frente surge uma desgraça pessoal. Não sei se a maior das desgraças é ter uns olhos incapazes de agraciar a textura das cores.


Mas as cores não são um retrato inerte, uma coisa só a todos os olhos que as depuram. Onde uns olhos vêem verde outros sentem azul. Ou a claridade das cores, e a sua espessura, que se alteram quando são exaltadas por olhos diferentes. É quando chegam os tiranetes das convenções. Ensaiam fixar as cores na sua imperturbável rigidez. Nem que por aí espezinhem a liberdade de uns olhos lerem uma tonalidade diferente, ainda que só esses olhos arremetam contra a maré. A minha liberdade sublima-se quando me é dado a saber que há outros olhos que vêem cores diferentes dos meus olhos. Esse é o maior dom: aprender, com os olhos de outros, que as cores que víamos eram apenas uma ofuscada cortina que toldava tonalidades por descobrir.


À ambição soberana de com uns olhos acordados partir em demanda das cores inteiras do mundo: deixemos que a voz dessa ambição se faça ouvir. Há cores nunca depuradas. E o pior é que as cores que chegam através de imagens filtradas por filmes ou fotografias não conseguem captar as cores na dimensão que têm. É preciso que os olhos visitem esses lugares para verem as cores como elas são. Em cada dia que se deita atrás do sol-posto há mais cores que ficaram reservadas ao trono do saber. Cores que se revelaram, mas apenas um aperitivo para as infinitas cores que os olhos têm ainda para travar conhecimento.


Quantas cores vêem uns olhos, pois? O melhor é tirar daí a ideia. Quem consegue contar os números até ao infinito? Não é dever dos olhos catalogarem as cores, como se fossem arquivistas de memórias visuais enquistadas na poeira do tempo. Uns olhos encantam-se com as cores que posam diante de si. Se preciso for, regressam às cores de outrora como se fossem cores ainda virgens. Nem que seja para saberem que as cores se desmultiplicam em números ilusórios.


Mas o que interessa essa contabilidade, se toda a contabilidade é mesquinha? Não há mesquinhez que pertença ao domínio dos sentidos. Nem as cores são contáveis.

11.6.09

A fealdade não incapacita (duas respostas)


A fealdade importuna. Mas o sobressalto – diria, visual – que provoca não é o escantilhão para ajuizar a competência de alguém. Ao assinalar a feiura da D. Gomes só quis fazer isso mesmo: tomar partido, um muito subjectivo partido, pela fealdade da senhora. Não quis prolongar o raciocínio e tirar outras conclusões. É usual a discordância quando a senhora abre a boca, mas ao menos reconheço-lhe um atributo pouco usual na classe política: pensa com a sua cabeça. Talvez a D. Gomes se ponha a jeito. Com ela, nem os líricos que acreditam que a beleza que conta é a reservada no interior de cada um podem ser seus advogados de defesa. Deve ser por causa da proverbial incontinência verbal.


Também quero que fique claro: a fealdade não entra para as contas da interminável, e obtusa, discussão de géneros. Se é permitida a contradição de raciocínio, pois (e agora resvalo para a máscula condição de que venho acusado) como não aprecio a beleza masculina, tenho a proclamar o seguinte: os homens são de uma fealdade atroz. A beleza é monopólio das mulheres. Mas não de todas as mulheres. Seja em pessoas ou em coisas, a feiura é. Limito-me a usar a liberdade opinativa. Correndo o risco de denunciarem a feiura que percorre as minhas entranhas.


O que me causou surpresa foi apenas um excerto daquele texto ter motivado reacções, passando ao lado da sua parte mais sumarenta. É como confundir a árvore com a floresta. Quando assinalei a dívida que a D. Gomes tem com a beleza, quis fazê-lo porque ainda não há muito tempo a senhora escreveu um texto, no blogue que partilha com o cabeça de lista do mesmo partido, zurzindo da líder da oposição por causa da sua fealdade latente nuns cartazes de propaganda política. E não é que a D. Gomes até tinha razão? A líder da oposição também deve muito à beleza. A D. Gomes estava coberta de razão quando argumentava que o cartaz era infeliz por ter escolhido cores que ainda salientavam mais a fealdade da líder da oposição. Mas falava o roto do nu. Não há espelhos em casa da D. Gomes?


Venho ainda acusado de ser um "machista anarca zangado com o mundo". Vamos por partes. Machista não sou. Ou, pelo menos, não me considero tal coisa. A confusão está instalada pois, por vezes, atiro-me às feministas (sobretudo às feministas exacerbadas). Acho que uma coisa não corrobora a outra. Aliás, já por aqui deixei textos que satirizam uma das patéticas idiossincrasias másculas lusitanas: o marialva. Anarca, serei (em rigor: anarquista). Zangado com o mundo? Um bocadinho, e às vezes.


Sugere-se ainda que aquele texto insinuava uma alegria interior com os resultados das eleições para o Parlamento Europeu. Corrijo os termos: primeiro, a alegria interior vinha lá declarada, não se adivinhava do texto. Segundo, acho que não é uma alegria interior, daquelas que são balsâmicas. É mesmo um gosto perverso pelos maus humores de quem foi derrotado. É nestas alturas que dá à costa o pouco aconselhável mau feitio que tem dias.


(Se bem que seja enternecedor, pelo contentamento em que marinavam os vencedores, vê-los na algazarra. Uns, porque nem em sonhos acreditavam na vitória; era vê-los, sobretudo os jotas na retaguarda do cabeça de lista vitorioso, a darem vivas e a soltarem alarves pregões dirigidos ao adversário. A propósito, estava lá um jovem com ar de "nerd" que rivalizava, na fealdade, com a D. Gomes. Outros fizeram uma festa que estava linda, pá, uma fantástica mistura de jovens burgueses bem instalados e gente que parecia saída de um acampamento alter-globalização. E ainda o contentamento reprimido dos que ganham sempre, mas mostravam cara de enterro porque foram ultrapassados pelos inimigos de estimação. Diz-me nada a felicidade dos que ganharam. O que me encheu as medidas foi a tristeza que consumia os derrotados. Porventura esta franqueza cai mal, mas é a franqueza que me vai na alma.)


Para terminar, queria lavrar a discordância total de outro pronunciamento sobre o tal texto: longe, nos antípodas mesmo, de ter algo que se assemelhe a um "perfil impecável". Aliás, no dia em que o tiver, quero me encerrem num manicómio.

10.6.09

Às modas de antanho: a imaginação que se consome na sua finitude


É recorrente: os "designers" de moda recuam no tempo e retomam os modismos que o foram lá atrás. Regressam, cheios de vigor, aos dias correntes. Redescobrem essas modas, actualizam-nas ao sabor do tempo presente. As roupas e cores e cortes de tecidos e calçado que caíram em desuso são resgatados ao armário – dir-se-ia: ao empoeirado armazém – e voltam a cavalgar na crista da onda.


Não sei se não é apenas a criatividade que se esgota. Ou algum revivalismo, recuperando as memórias enquistadas através de uma determinada maneira de vestir. Quando são "criadores" de tenra idade a fazê-lo, não é o revivalismo que explica o mergulho em modismos de antanho. Esses jovens "criadores" de trapos não viveram o tempo que a moda recriada ambiciona reviver. Ou, em tratando-se de "criadores" de meia-idade, o revivalismo é genuíno. Um saudosismo que não homenageia a originalidade que a moda, a moda genuína, exige. O que leva a perguntar se o regresso a modas passadas não é sinal da exaustão da criatividade dos "designers".


Acontece com todos. Pois há escritores, pintores, músicos, realizadores de cinema, encenadores de teatro que atravessam um deserto de ideias e hibernam na produção artística. O que se não vê é retomarem obras já publicadas, dando-lhe nova roupagem só para dizerem que mantêm uma actividade artística. Descontam-se as recriações de obras passadas – música e filme, sobretudo -, pois a transformação dessas obras pode conter um estimável elemento criativo. Não é o que se passa com o autêntico deserto de ideias que percorre a moda que mergulha nos modismos de outrora. Quando regressam às calças à boca-de-sino, ou às camisas garridas (só faltam as golas protuberantes), ou às gravatas que parecem um fino filete a tombar sobre as camisas, e explicam que recriam um moda que já conhecemos lá atrás, trata-se de uma patranha. Não há reinvenção alguma. O que há é uma intelectualmente desonesta pesquisa nos arquivos, só para copiar o que foi moda outrora e extinguir o incêndio que os consome – o fogo que incinerou a criatividade.


Também se pode olhar para o resgate de modas passadas como a implacável tendência para o conservadorismo. Os "designers" gostam de se colocar entre as vanguardas. Julgam-se três passos à frente da maralha. De cada vez que afocinham em modas supostamente recriadas, são reféns do conservadorismo. Afinal a moda não muda tanto como os aduladores do género apregoam. A moda anda em círculos. Quando liberta âncora de um porto para anos mais tarde aportar no local de partida, é a moda anestesiada pelo conservadorismo. E as pessoas parecem gostar. Das modas que regressam à casa da partida. Porque, lá no fundo, são conservadoras. De cada vez que são convidadas a aceitar uma falaciosa recriação de uma moda de antanho que não deixa de ser uma repetição fidedigna, mostram repugnância pela mudança, o que as coloca na senda do conservadorismo.


Não sei se somos viciados no tempo passado. Senão, de vez em quando, não nos enclausuramos no tempo que experimentámos e que sabemos só poder ser revivido na artificialidade de quem julga poder fazer recuar todas as páginas do calendário. Porventura os "criadores" de moda têm a mesma têmpera. O que afinal desmente o tão elevado lugar em que se colocam. Pois se pertencem a uma vanguarda qualquer, essa vanguarda é o lugar a que todos pertencemos.


Talvez fosse mais honesto se os "criadores" de moda admitissem, quando resvalam para as modas passadas, que foram atacados por uma crise de criatividade. Um banho de humildade é mais prestigiante do que ocultar fraquezas através de pretextos que apenas expõem a desonestidade intelectual. Mas o melhor seria que se pautassem por um código de conduta que os impedisse de apresentar modas que revisitam, sem tirar nem pôr, modas de antanho. Ao menos poupavam-nos certas agressões visuais.

9.6.09

O povo é burro (imagens dos derrotados nas eleições)



Há um gosto perverso quando o contentamento se destila ao ver os rostos tristes de quem perdeu eleições. Que me interessam os ganhadores? Pouco. A não ser sabê-los esfuziantes com a vitória. Bom proveito.

Entre a gente nitidamente mal disposta houve alguém que captou a minha atenção: Ana Gomes, que apareceu duas vezes com cara de pouco amigos. E como ela estava com maus fígados! Já não me metia com a ponta de lança do MRPP dentro do PS há muito tempo. À entrada do hotel onde a seita se reuniu, foi logo debitando moralismos sobre a abstenção muito elevada. Ainda não havia resultados, nem sequer projecções anunciadas pelos canais de televisão. Porventura alguém do aparelho já tinha segredado à D. Gomes que a coisa ia correr mal para a seita. Era bom que se começassem a preparar para uma derrota retumbante. Duplamente retumbante, pois os astrólogos das sondagens jamais a tinham previsto nas sucessivas sondagens que iam vomitando. As derrotas, quando são inesperadas, custam mais a digerir.


Comecei a suspeitar de um resultado surpreendente quando olhei para o rosto carregado da D. Gomes e para a maneira como se atirou aos abstencionistas – esses malvados, indignos dos sacrifícios por que passaram os paladinos da liberdade que, em alguns casos, pagaram com a vida a luta pela liberdade. Sabemos que a D. Gomes sofre de incontinência verbal. E sabemos que deve andar a contas com uma tremenda azia, porque há poucos dias o ministério público arquivou o caso dos voos clandestinos dos serviços secretos dos Estados Unidos que fizeram escala técnica em aeroportos domésticos a caminho da tortura de Guantánamo. Temos que compreender a decepção de alguém quando uma cruzada pessoal se salda pelo insucesso. Descontando isso, havia ali naquelas palavras dirigidas aos abstencionistas um ódio mal disfarçado, o sinal de que eles seriam os culpados por algo de mal que estava para acontecer ao PS. A noite eleitoral prometia-se entusiasmante.


Segundo episódio: a D. Gomes estava com umas trombas que metiam medo quando o desastrado cabeça de lista, na companhia do "grande líder", fez o discurso que selava a derrota. Foram uns segundos, uns segundos só, mas tão deliciosos, quando uma câmara fez um grande plano da D. Gomes. É do conhecimento geral, a senhora não deve nada à beleza. Menos agora que, como ela confessou num inquérito que o Público passou entre eurodeputados, engordou dez quilos na vida airada entre Bruxelas, Estrasburgo e muitas viagens mundo fora em representação do Parlamento Europeu. Toda aquela feiura se adensa quando o rosto se encerra numa carrancuda forma.


Pus-me a adivinhar os pensamentos que percorriam o íntimo da D. Gomes. Como ela diria, para os seus botões: que ignaro é este povo! Ó gente desprovida de inteligência, que não soubeste premiar uma lista de excepcional calibre e a puniste por andares cansada do governo do "grande líder". Se calhar – avançou a hipótese, numa humilde auto-culpa – os candidatos da lista falharam durante a campanha eleitoral. Em vez de andarem entretidos na lavagem de roupa suja da política caseira, deviam ter falado da Europa. E explicado aos eleitores, em tom pedagógico (até tinham matéria-prima de primeira água: pois o cabeça de lista não é um eminente professor universitário, e logo da digníssima escola coimbrã?), que estas eleições não eram um plebiscito ao governo nem ao "grande líder". Arrisco a adivinhar outro pensamento que terá vogado no espírito da D. Gomes: ela a olhar para o "grande líder" no púlpito, a partilhar a sua também tromba de mal disposto, e a acusá-lo de ser o culpado pelo descalabro nestas eleições. Nem sei se a D. Gomes, que reúne os predicados de uma vingativa alma, não terá ali mesmo prometido um vudu ao "grande líder". Que as eleições legislativas demoram só três meses.


A D. Gomes estava com cara de poucos amigos. Se pudesse, dava uma lição ao povo. Mas só ao que não quis ir votar e ao que escolheu os adversários que, como ela tem a certeza e todos devíamos saber, não chegam aos calcanhares da seita socialista. Isto das eleições é um aborrecimento. Só devia haver eleições se o PS ganhasse. Aí sim, festarola noite dentro e um sorriso de orelha a orelha em vez do carrancudo rosto a que tivemos direito por uns breves, mas tão deliciosos, segundos.


(Em Coimbra)

8.6.09

E se depois… (um segredo à consciência do abstencionista – momentaneamente – arrependido)


(Escrito de véspera, à frente da televisão, a ver as tristes figuras no "rescaldo" das eleições)


Um segredo te conto, ó consciência envergonhada: tens menos razão para o enxovalho quando te apontam o dedo por o teu amo teimar em ser abstencionista. Ele foi votar. E logo nas eleições em que menos gente vota. Está feito. Um feito.


Confesso, ó consciência, tu conseguiste saltar as barreiras que o teu amo erguia e que o impediam de entrar numa mesa de voto. O obstáculo final só foi removido no dia das eleições. Conseguiste despertar no teu amo uma interrogação: e se fosses votar? Não por imperativo de participação, ou por dever cívico, ou por qualquer outro motivo que vem de fora e se impõe sobre ti, ó consciência. Perguntaste ao lado racional, que raras vezes consegues domar: se o teu amo ensina na universidade o que é a União Europeia, se insiste, vezes sem conta, que as decisões da União Europeia contam mais do que as decisões tomadas nos ministérios em Lisboa, e se explica que o Parlamento Europeu tem vindo a ganhar poder ao longo do tempo, como se podia demitir de participar logo nas eleições para o Parlamento Europeu?


Soubeste, consciência, fermentar o predicado de que o teu amo se orgulha (há quem o considere um desagradável defeito): a vocação provocatória, o gosto perverso de deixar vir à tona o espírito de contradição. Puxaste lustro à memória a seguir a outra interrogação: quando foi a última vez que o teu amo pegou num boletim de voto? Faz dez anos, nos referendos sobre o aborto (primeira edição) e a regionalização. Conseguiste, ó consciência, incensar a luz no teu amo: ele gosta de ir depositar o voto em eleições desvalorizadas pela multidão. Cá está: ao contrário da maré dominante.


Continuas, consciência, sem conseguir que o teu amo se despoje de um terrível individualismo metódico, contudo. Fizeste bem o teu trabalho, ainda assim. Já foi um passo de gigante teres levado aquele corpo teimoso até à mesa de voto. Os progressos são dignos de registo, não se fosse dar o caso dele ter pegado no boletim de voto e, só para te apaziguar, o entregasse dobrado em quatro sem gastar a tinta da caneta a colocar uma cruz num dos concorrentes. Não foi esse o caso. O boletim foi devolvido com uma cruzinha.


Mantém-se a acusação: o individualismo que às vezes outros confundem com egoísmo. Pois deu-se o caso de guiares o teu amo até àquela escola onde toda a freguesia votava, mas o teu amo ficou convencido que a mudança de comportamento – o intervalo no militante abstencionismo – só obedeceu a razões do foro íntimo. Continua surdo aos apelos que chegam de fora. Da sociedade que grita, em coro, o dever de voto e ensaia sobre a fantasiosa falta de legitimidade dos que se abstêm (quem não vota, faz-se constar, não pode criticar). Alguns diriam, em tom de lamentação: só foi votar por capricho. E se assim foi, ó consciência, não conseguiste derrotar o egoísmo, ou – se fores condescendente – a insensibilidade de tamanho paquidérmico.


Já lhe perguntaste, ó consciência, se foi um acto custoso? Assim como assim, nem havia filas de espera, nem sequer o teu amo foi incomodado pelos escrutinadores à boca da urna ao serviço de uma estação de televisão. E mais lhe perguntaste se este foi um acto isolado, se vai perder a teimosia do orgulhoso abstencionista?

5.6.09

Às vezes, um sequestro não é um crime


Depende. Se forem trabalhadores de uma empresa que está à beira da falência, ou de uma empresa que por causa da crise teve que despedir muitos trabalhadores, está-se a convencionar que os trabalhadores podem sitiar os patrões dentro das instalações da empresa. Sem que este sequestro possa ser considerado crime.


Por cá, algumas esquerdas mais radicais andam entusiasmadas com a ideia. Pelos jornais transpiram peças, de jornalistas empenhados numa militância política activa que lhes retira objectividade jornalística, que descrevem com embevecimento o que se passa em França. Eu fico um pouco confuso com esta subjectividade na aplicação das leis. Não sei se das esquerdas radicais me é permitido o seguinte diagnóstico sem apanhar com os habituais rótulos de "fascista" ou, o que por estes dias é ainda pior, "neo-liberal": isto cheira-me a arbitrariedade.


É verdade que as leis laborais consagram um tratamento de favor para o trabalhador, pois o trabalhador é a "parte mais fraca" e as leis devem estar ao lado dos desvalidos. Todavia, admitir que os trabalhadores podem aprisionar os patrões dentro da empresa sem que os tribunais julguem o acto como crime, abre um precedente muito perigoso. Qualquer dia, o homicídio de patrões será justificável. Haverá assassinos a passear no meio de nós, todos ufanos porque fizeram justiça revolucionária. Por este andar, haveremos de ver as leis mudadas só para contemplar a impunidade dos trabalhadores.


A extrema-esquerda chique ensina a nova moralidade. Vai a reboque da crise, atirando-se ao nefando capitalismo, à globalização sem rosto humano e, como não podia deixar de ser, ao "neo-liberalismo" (que ainda não vi satisfatoriamente definido) para açambarcar a nova moralidade reinante. E ai de quem conteste os pregões carregados da moral acertada, que logo leva com o rótulo de "imoral". O mundo dá muitas, e curiosas, cambalhotas. Quem diria? Os que sempre defenderam o relativismo moral, hoje tão senhores das suas certezas (as certezas muito convenientes para o catecismo ideológico que apregoam), ungindo o mundo com uma moralidade. Uma moralidade que, para todos os efeitos, é a negação do relativismo moral por onde sempre andaram. Quem disse que nunca estamos a tempo de mudar de ideias?


Lamento que eu a extrema-esquerda caviar já não tenhamos a única coisa que tínhamos em comum. Dantes, ao menos coincidíamos na defesa do relativismo. Agora já não estou acompanhado por eles. Sobra-me uma reconfortante sensação. É que sempre me afastei de moralistas e dos moralismos por eles professados. Quando vejo o fradesco líder da facção perorar, com aquele ar beato, vomitando as verdades absolutas que ninguém devia ter a ousadia de contestar, tenho um prazer indescritível para me situar nos antípodas daquela moral que é tão indeclinável como enjoativa. O prazer irrenunciável de palmilhar os caminhos, pecaminosos caminhos, da imoralidade.


Talvez sejam as reminiscências da formação jurídica (que renego, mas que está enraizada). As reminiscências que afloram à superfície e relembram que as leis são "gerais e abstractas". Decifrando: que são aplicadas da mesma maneira a toda a gente, sem fazer distinções entre a gente a que se aplicam. Era o que mais faltava que aos trabalhadores fossem admitidos crimes que não lhes são tolerados se forem praticados pelas mesmas pessoas que, num certo momento, não actuam como trabalhadores. Não sei se à extrema-esquerda caviar passa pela cabeça criminalizar a existência de empresas e de empresários. Tudo se resolvia. Não havia gananciosos empresários sem sensibilidade pelos trabalhadores ao seu serviço. Só não explicam como, na ausência dos abastados empresários, se conseguia cobrar os impostos necessários para manter as regalias de toda a populaça.


Lamento, ó gente da extrema-esquerda, mas o mundo não é uma peça de teatro de Bertolt Brecht.

4.6.09

Punhos de renda


Há ali uma espessura aristocrática que não engana. Parecem levitar. Os demais, os que pedem meças aos pergaminhos, arrastam as enormes patorras pelo chão. Como arrastam os maus modos. Arrotam alarvidades. Às refeições, inclinam os cotovelos sobre a mesa. Cultivam as formas populares de cultura, um pavoroso hino à anti-estética. Não conhecem a sublime beleza da música clássica, nunca quiseram assistir a uma ópera, não frequentam as galerias de arte. A aristocrática nata coincide, nos salões de arte, com uma elite radical que vive nos seus antípodas. Toleram-se pelo amor à arte.


As senhoras e senhores de punhos de renda acham tudo aquilo abjecto. (E aí também sou convergente com eles.) A sua muito delicada educação é um rosário de bons modos. São os penhores da "etiqueta". Trazem consigo um manual de "savoir être" – assim, em francês, que nobilita. Dir-se-ia tratar-se de uma gente imaculadamente perfeita. Todos os gestos muito bem pensados, abrindo mentalmente o manual de boas maneiras na página correspondente para não trair os pergaminhos e não ofender os membros da confraria.


Camisas milimetricamente engomadas; nem quando se fazem transportar de automóvel as roupas mostram uma ruga que seja, como se tivessem milagres ao alcance dos seus dedos ungidos por um perfume divino. Nem um cabelo fora do sítio em penteados que parecem esculturas moldadas por artistas plásticos, não por cabeleireiros. E a etiqueta, ah, a etiqueta! Lídimos exemplares dos holofotes que se deitam sobre a aparência, sem cuidarem de olhar além da fina camada exterior que oculta a verdadeira espessura. A espessura que se esconde detrás do verniz pacientemente encenado ao som do manual da etiqueta. É uma existência asséptica.


Ocasionalmente, os aduladores do género sofrem desilusões. Não lhes interessa escutar os que avisaram que além da fina camada de verniz é a frivolidade que povoa a aristocracia de punhos de renda. O pior é quando se descobrem privados vícios que desmentem o verniz para inglês ver. A existência só era asséptica, e cheia de virtudes, para os holofotes. Descem então do altar inacessível onde se fizeram erguer. Ao nível da ralé que os horroriza. Mas nem então são da ralé.


O mundo dos punhos de renda é um mundo faz-de-conta. A perpetuação de um conto de fadas que enfeitiça seguidores e aspirantes, um numeroso exército de arrivistas sociais que inveja o estatuto. Uma assombração para os líricos da igualdade, desmentindo os modelos que ambicionam. Pois a nobreza (como estalão social) tem o seu prolongamento na vestimenta reinventada à maneira dos tempos modernos. Um anacronismo, no fim de contas. Fazem gala dos pergaminhos, como se houvesse ali o divino reconhecimento de um estatuto invejável. Pelos punhos de renda sai a assinatura que os cauciona como bússolas que norteiam as massas. Podem as massas insistir, na sua tremenda ignorância, ou apenas numa inocente teimosia, em renegar os ensinamentos gratuitos da nata aristocrática. Um mal que chega por bem: mantém os privilégios numa casta restrita.


Adoro vê-los repugnados com comportamentos detestáveis, os comportamentos que são a antítese do manual de boas maneiras que os aristocratas trazem sempre consigo. Acenam a cabeça em tom reprovador. Não conseguem esconder um esgar de náusea. Alguns simplesmente olham para o lado, horrorizados com o ultraje. Os mais espontâneos proferem comentário censurador. Como se fossem educadores – e, afinal, fazem-no numa pedagógica veia, gratuita.


É quando os vejo, repugnados pela ralé que resvala para os antípodas do "saber estar", que apetece engrossar a maré onde campeia a ralé contumaz. Só para ver crescer a onda da "reprovação social", essa coisa tão importante e que move todas as montanhas (acreditam os aristocratas, empenhados na sua imensa vacuidade).


Às vezes apetece pegar nos punhos de renda e massajá-los na lama. Para os incensar.

3.6.09

Temerários e desistentes



Não será melhor

Não fazer nada?

Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo

Para um naufrágio sem água

Álvaro de Campos, Poesia


Era um tremendo cansaço. As rotinas que retiravam sabor à existência. À boca só vinha um sabor amargo, as muitas decepções a esmagarem-se contra o peito. O dolorido peito. O regaço para os sobressaltos que se repetiam com sofreguidão. A certa altura começava a desconfiar que não havia palavras belas, ou que os dias podiam nascer soalheiros. A certa altura, habituara-se ao céu plúmbeo, que parecia ser o espelho da tonalidade que cobrira a existência.


Esforçara-se. Ao menos convencia-se que sim. Esforçara-se por dar luminescência. Dia atrás de dia fora o arquitecto que irrompia numa imaginária escadaria céu acima. Na mão levava uma vassoura para varrer as densas nuvens que teimavam em aspergir as gotas de melancolia. Quando descia, vinha tingido da fuligem das nuvens e o céu continuava encoberto. As forças, exangues de tanto tentar. Com o passar dos dias, os simples actos da vida amontoavam-se num santuário de torturas. Acordar era um suplício, vestir-se era um suplício, respirar era um suplício.


Sentia-se aprisionado numa coreografia de que não fazia parte. Um dançarino a esboçar os passos forçados numa dança equivocada. O tempo e o local pareciam a descompasso. Não eram seus. O próprio corpo era um corpo estranho. Era como se as pernas não pertencessem ao mesmo tronco que trazia uns braços também estranhos. Todos os dias, os habituais locais pareciam desconhecidos sítios que os pés pisavam pela primeira vez. De resto, já nem as memórias soavam a nada. Só não entendia se o esquecimento de tudo e de si era um brutal esforço para perceber que teria sido melhor ser outra pessoa. O esquecimento atilado num refúgio de si.


O corpo já disforme envergando os andrajos que o descuido de tudo cultivara. Era o ninho da loucura que tomara conta das veias, envenenando o sangue com uma seiva que o corroía pelas entranhas. E teimava na lucidez de quem se julga penhor dos sentidos; era lá fora, em todos os outros com quem se cruzava, que a demência amesendava. E mesmo assim procurava, com sofreguidão, o mundo lá fora como santuário onde embalsamava a insanidade dos outros. Ria-se. Sonoras gargalhadas que incomodavam os transeuntes. Ria-se na direcção das caras que vinham em sua direcção. Ora rostos imperturbáveis – a habitual indiferença da cidade que cultivava os gélidos sentimentos –, ora uma reprovação que se misturava com complacência. Era o estertor que o conduzia pela mão.


Nas águas perturbadas que eram seu ninho de demência, às vezes conseguia erguer a cabeça e espreitar o curso do mundo. Havia fendas que deixavam ver as cores claras que irrompiam conta a escuridão que tinha tomado conta de tudo. Instantes, breves instantes, em que a demência contracenava com uma teimosa, relapsa lucidez. Então as dores avivavam-se, insuportáveis. O maior dos males é quando diante da encruzilhada não há roteiro que forneça resposta para a saída. Sobra um turbilhão que empurra o corpo para um interminável precipício. A vida transforma-se: parece apenas a queda interminável ao longo do precipício. A vida errante transformara-se, tortuosa, num planalto onde soprava um vento agreste, um vento que anunciava a resignação de tudo. Tudo era apenas as ruínas do que fora outrora.

2.6.09

O voto obrigatório. Outra vez


Costuma acontecer em véspera de eleições. O odor a forte abstenção paira no ar. Saltam, ofendidas, as pitonisas da democracia. A abstenção, a abjecta abstenção, é um crime, a demissão da cidadania. Os que resvalam para a abstenção, envergonhando os pergaminhos da democracia, carregam as piores injúrias. Em vez de se perceber porque há tanta abstenção (talvez fossem desconfortáveis os resultados), olha-se para o lado e alguns ensaiam a duvidosa democrática ideia do voto obrigatório. Conceda-se: matava-se o problema pela raiz. Falta saber a que preço.


Há dias a ideia voltou para a arena pública pela voz do presidente do governo regional dos Açores. Ontem, um politólogo da nova vaga (Pedro Magalhães) escrevia sobre o assunto no Público. A certa altura sustenta que "(d)o ponto de vista normativo, sobre o que a democracia é ou deveria ser, o argumento de que existe um "direito a não votar", de que o voto não passa, na melhor das hipóteses, de um dever moral ou cívico e de que a imposição de penalizações a quem não vota é uma violação dos direitos e liberdades individuais é, claro, perfeitamente defensável. Tão defensável como a noção de que o voto seria apenas mais uma de muitas outras obrigações a que os cidadãos numa democracia podem ser vinculados – colocar os filhos na escola ou pagar impostos, por exemplo – e de que ninguém é obrigado a fazer uma escolha que não deseje num sistema de voto obrigatório (mas apenas a comparecer na assembleia de voto, podendo votar em branco ou nulo). Antidemocrático? Vinte e nove democracias no mundo prevêem hoje o voto obrigatório. Em países como a Bélgica, o Luxemburgo, a Austrália, o voto obrigatório é imposto com recurso sistemático a sanções monetárias consideráveis. É preciso algum contorcionismo argumentativo para conseguir estabelecer que estes três países, por exemplo, são menos "democráticos" ou menos "livres" que Portugal devido ao simples facto de punirem os eleitores que não votam."


Há que notar a cautela: "do ponto de vista normativo". Como quem diz, do ponto de vista das ideias, é tão defensável dizer que o voto é um direito acima de um dever como manter a ideia contrária. Tudo depende dos argumentos. E, sobretudo, dos pressupostos que precedem os argumentos. O politólogo foge como o diabo da cruz de uma posição inequívoca. Não nos diz ao que vem. É uma certa forma de fazer ciência, que tem horror a exibir posições que coloquem os cientistas sociais de um certo lado da barricada. Só que esta maneira de estar, tão ao jeito do "não f*** nem sai de cima", não chega para afirmar posições de autoridade intelectual. É nestas alturas que prefiro a ciência engajada, tão popularizada pelo guru Boaventura Sousa Santos e seus discípulos. Ao menos sabemos com o que contar à partida. Podemos não concordar, mas não há ali qualquer ambiguidade.


Magalhães tem uma posição que tanto dá para um lado (recusar o voto obrigatório) como para o outro (aceitá-lo como imperativo). Todavia, quando interroga se a obrigação de votar é uma violência à liberdade individual quando ela existe em vinte e nove países, percebe-se onde quer chegar. Pode afirmar que só por "contorcionismo argumentativo" é que Bélgica, Luxemburgo e Austrália são menos democráticos do que outros onde o voto não é um dever. O seu contrário também é legítimo: só por contorcionismo argumentativo é que alguém pode ditar as menores credenciais democráticas dos países onde o voto não é obrigatório.


No seu blogue, Magalhães escorrega para um argumento simplista: "(o) facto de se erigir a liberdade individual como único e exclusivo princípio em torno do qual se deve organizar a delegação de poder dos cidadãos em representantes numa democracia (ignorando os restantes princípios básicos, a saber, igualdade política e capacidade de controlo dos representantes) e querer sempre terminar por aí qualquer discussão é bastante revelador da cultura política de um certo tipo de liberalismo." Com posições monolíticas a discussão de ideias torna-se num diálogo de surdos. Ou, se calhar, às vezes a discussão enquista-se mesmo num diálogo de surdos. Outra vez: tudo depende dos pressupostos. Quando os pressupostos desafinam, é como resolver um problema matemático e se falha logo a primeira equação.


Para um libertário, a liberdade individual tem mais valor do que a igualdade política (uma miragem) e a capacidade de controlo dos representantes (um lirismo). O voto como direito vem antes, muito antes, do voto como dever. Aliás, para um libertário não faz qualquer sentido contemplar o voto como dever. É um direito com indeclinável faceta voluntarista: exerço-o se essa for a minha vontade, sem qualquer espartilho que venha do exterior. E comparar o voto com o dever de pagar impostos é comparar o que não é comparável. Ou forçar uma comparação só para forjar uma conveniente conclusão.


Enquanto o voto for uma decisão individual e não escrutinável pelos demais, quero fazer com o meu direito de voto o que me aprouver. Mal de nós se as decisões individuais fossem susceptíveis de esbulho. Um dia destes, as opções individuais de vida teriam que vir ao tribunal da praça pública para serem caucionadas ou sancionadas pela iluminada lupa de sacerdotes da moral alheia.

1.6.09

La Fura dels Baus, “Boris Godunov”


E se fôssemos convidados a perceber as motivações de terroristas? E se, por aí, fôssemos convidados à condescendência com o terror que espalha violência, cego? Dizem: tudo tem as suas causas e as suas circunstâncias. Nada surge do nada. Não há actos, e ainda por cima actos que gritam uma violência inaudita, enxertados de leviandade. Serão actos que exigem compreensão pelo cenário extremo em que acontecem?


A companhia catalã de teatro levou à cena uma peça inspirada na ocupação de um teatro em Moscovo por um grupo de terroristas da Chechénia. A plateia foi sequestrada e usada como trunfo contra as autoridades russas. Durante três dias, os terroristas chechenos tiveram os holofotes do mundo virados sobre si, sobre a sua causa. Os La Fura dels Baus encenaram os três dias de sequestro. Os actores faziam as vezes dos terroristas que tinham ocupado o teatro enquanto os espectadores assistiam à peça Boris Godunov. Era como se houvesse uma peça de teatro dentro de outra peça de teatro. Quem assistia a este palimpsesto teatral vinha à boca de cena como involuntário actor. Não é insólito nas peças dos La Fura dels Baus, que sempre se distinguiram pela interactividade, por vezes até desagradável e provocatória, com o público.


A intimidação e a violência latente troavam. Era como se tudo se estivesse a passar como naquele dia em que os terroristas chechenos ocuparam o teatro em Moscovo. Toda a tensão da ocupação. Os terroristas encapuzados a sitiarem os espectadores, enquanto armadilhavam o teatro. Tiros para o ar, assustando os espectadores. Um estrondo tremendo, simulando o corte de electricidade que pôs o teatro às escuras. E a pose intimidatória dos actores que rondavam os espectadores, andavam pelo meio dos espectadores, de arma em punho. Uma vez por outra, a intimidação crescia quando um dos terroristas trazia um refém ao palco – mas um actor infiltrado entre os espectadores. Não fosse algum do público estar estupidamente divertido com a encenação, rindo-se com desdém dos terroristas que faziam a ronda, e tudo se passava como se estivéssemos sitiados naquele teatro. Não éramos apenas figurantes. Éramos tão actores como os actores que seguiam o guião.


Havia câmaras espalhadas pelos corredores e pelos camarins do Coliseu. Víamos o que os terroristas faziam nos bastidores do teatro. Despíamos então a condição de sequestrados e passávamos a ser espectadores do que os reféns não viram. Assistimos às negociações entre os terroristas e a mediadora indicada pelo governo russo – uma chechena exilada. E conseguimos deitar um olho na célula de crise comandada pelo presidente russo. Espreitámos as conversas que equacionavam os vários cenários para a resolução da crise.


Uma peça de teatro dentro de outra peça de teatro. Uma das terroristas, uma jovem rapariga com vinte anos, fora actriz. Pergunta-lhe um dos comparsas pelas peças que representou. A rapariga rejeita responder, não estava ali para lembrar que fora actriz. Mais tarde, quando acompanha um dos actores à casa de banho, é interpelada pelo actor. O diálogo interceptado por um dos líderes dos terroristas, o mais violento e instável deles, faz com que o actor e a terrorista que foi actriz tenham que contracenar durante uns instantes. Contracenaram a peça que o actor estava a apresentar ao público sitiado. A peça em que a actriz agora terrorista tinha participado antes de se fazer activista da causa chechena.


Os enxertos da peça Boris Godunov têm um simbolismo. A peça é sobre um déspota que tomou conta do coração do povo, do povo incauto que se deixa enamorar por déspotas que só revelam essa condição quando tomam o poder. Ao serem déspotas, inicia-se uma espiral de terror e intimidação que parte das próprias autoridades. A esquizofrenia do déspota leva-o a considerar prioridade a perseguição aos conspiradores que sabe, ou apenas imagina, existirem para lhe tirarem o poder. Num diálogo entre dois conspiradores, um deles insiste em usar do terror para depor o déspota. Pois os fins – sublinha – justificam os meios, quaisquer que sejam. O déspota acaba por morrer envenenado pela sua própria cicuta.


A peça traz pinceladas de filosofia política. Quando o cansaço se apodera ao terceiro dia de sequestro, os terroristas mostram-se agitados pelo jogo de paciência das autoridades, que tardam em dar um sinal. Divisões entre os terroristas. Hesitações que levam os hesitantes a interrogarem se ainda faz sentido manter toda aquela gente sequestrada, gente inocente. O líder dos terroristas declina, ele também entoando a voz do déspota daquele teatro: os espectadores sequestrados não são inocentes, pertencem ao país ocupante. Escolheram os dirigentes do país ocupante. Merecem uma punição, caso as autoridades russas não ouçam as exigências dos separatistas chechenos.


Perguntei-me: não haverá uma cegueira entre os terroristas, ao não distinguirem entre coniventes e inocentes? E, por esta cegueira, e pela gratuita violência, faz sentido a condescendência com o terror?