5.10.09

República ou animais?



Não chegou a ser um dilema. Hoje a república faz noventa e nove anos – para o ano já está ajuramentada festa de arromba. Ontem foi o dia mundial do animal – e leio nas notícias que há cada vez mais animais domésticos abandonados.

Ora, ouvi dizer que o republicanismo tem, entre muitas putativas virtudes, a sensibilidade de olhar pelos desvalidos. Por isso hoje escrevo sobre a efeméride de ontem, decerto com a anuência da dona república. A minha excitação pelo republicanismo é parecida com o ponto de congelação, o que contribui para a exclusão de partes. Não se depreenda que seja monárquico. As coisas anacrónicas do mundo não me atraem nada: nem me babo pela república, nem teço loas à monarquia. E quando vejo os senhores que se exaltam com as qualidades da república, não consigo dissociar a coisa da gente que a endeusa.

Ao que interessa – os animais e os direitos que milímetro a milímetro lhes são reconhecidos. A notícia ecoa as estatísticas: tem aumentado o número de animais domésticos abandonados. Suspeita-se que é por causa da crise – e outra vez a crise, a crise das costas largas, a arcar com (outro) odioso. Os padecimentos da crise encurtam os dinheiros de toda a gente. Com as finanças à míngua, as pessoas descartam-se dos animais de estimação. Eles dão despesa: o veterinário onde apanham as vacinas e são desparasitados uma vez por ano; as doenças que aparecem, aleatórias como em nós, e que aumentam a rubrica das despesas no orçamento familiar; e a alimentação, que os animais não vivem do ar e do vento e, aconselham os veterinários, não devem comer da nossa comida que lhes faz mal.

A crise é pretexto em vez de explicação. A ideia do abandono dos animais acentuada pela profunda crise só é válida para os que estão no desemprego. Recordo-me de ter escutado palavras soporíferas do ministro das finanças e do governador do Banco de Portugal a convidarem a turba (só a que estivesse empregada) a aumentar o consumo, pois as taxas de juro estavam a descer vertiginosamente, os preços também e, portanto, as gentes teriam (jargão técnico agora) um "aumento do rendimento disponível". Com mais dinheiro nos bolsos e nas contas bancárias (quem somos nós para contrariar aquelas sumidades?), esfuma-se a ideia de que as pessoas abandonam os animais por causa da crise. Lá está: a crise tem as costas muito largas.

Onde tudo se entorna é na maneira de sermos. Humanos. Mas estupidamente animalescos, com uma insensibilidade tão brutal que supera, e de longe, os índices de irracionalidade que dizem fazer a distinção entre o homem-animal-racional e as demais espécies, todas irracionais (como ensinam os manuais de estilo). Há dias contaram-me como se abandona um animal: uma senhora bem-posta na vida pára o seu vistoso automóvel na rua, aproveita-se da alvorada pois anda pouca gente na rua, abre o porta-bagagens e dá ordem de soltura ao cão que a partir daquele momento deixou de ser seu. Com esta frieza, como se o animal fosse uma "coisa" descartável que se rejeita para o lixo, uma "coisa" indiferenciada. Já ouvi dizer que as famílias (sobretudo da burguesia supostamente esclarecida) gostam de fazer todas as vontades à prole que lá têm em casa. E se o petiz quer um cão ou um gato pelo natal ou pelo aniversário, seja feita a vontade do menino. Quando, uns tempos mais tarde, a criancinha já não está encantada com o "brinquedo", os progenitores interrogam-se sobre a sua serventia. Não faz mal: abre-se a porta da rua, a nova morada do cão ou do gato. Ou, muitas vezes, a certidão de óbito antecipada que lhe passam.

Na notícia, uma dirigente da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal sugere que este triste estado de coisas é o espelho da falta de educação. Assino por baixo. Se houvesse mais civismo, sobretudo dos que deviam dar o exemplo (os senhores deputados que fazem leis), os donos de animais domésticos deviam ser cadastrados. Os que tivessem o cadastro manchado por um vergonhoso abandono de animal de estimação, um único que fosse, seriam proibidos de voltar a ter animais em casa. Já que não se pode fazer a gratificante experiência desta gente passar pelo sofrimento sentido pelos animais que abandonam, ao menos que fossem cadastrados para nunca mais abandonarem um animal.

O mal maior é este: viver numa república com leis tão anacrónicas como a república. Por exemplo, o código civil ensinar que os animais são "coisas".

2.10.09

Pressa



As horas voam com uma lentidão exasperante? São os dias que nunca mais passam, os anos que se parecem arrastar como se tudo fosse um demorado sacrifício? Discute-se se a nossa dependência (correcção: dos que somos dependentes) em relação ao último grito tecnológico, em que a velocidade é impressão distintiva, não alimenta aquelas interrogações. Uma pandilha que destrói a qualidade de vida: acessibilidade, velocidade de acesso, comunicabilidade, informação.

Há o outro prisma por onde podemos espreitar: que mal há em sermos viciados no trote estonteante das tecnologias que aterram à nossa porta? Dizem alguns velhos do Restelo: eis a alienação a que somos convidados, e nós, tão ingénuos, alistamo-nos na alucinante farra. Depois, são os pontos cardeais que se voltam do avesso. Perde significado o que fazíamos outrora. Quem lê tantos livros como dantes, se agora as tecnologias e a sua velocidade que assoberba nos retiram do prazer da leitura? Como dependência que é, com o mal patológico que dizem ser inerente às dependências, cultivam-se rituais que se transformam em rotinas, doentiamente repetitivas. Os velhos do Restelo sentenciam: sobram apenas uns vestígios do que éramos outrora. Com o olhar baço que fita o distante passado de que se sentem nostálgicos, nota-se-lhes a desilusão pela humanidade em acelerado estado de auto-negação.

Regresso à casa da partida – o desprazer pela vida que se consome à velocidade supersónica. É paradoxal: voamos pelo tempo como se a existência merecesse uma brevidade assustadora. Por que temos pressa para tocar tudo, como se tudo apenas merecesse ser tocado ao de leve, com uma superficialidade que tresanda a ignorância? É quando os detractores asseguram que não merecemos a existência que temos. Sempre tão curta existência e nós – atarantados pelas fibras ópticas que semeiam a velocidade estonteante, absorvidos por "redes sociais" e quejandos, refugiados na alta torre de marfim em que a nossa casa dotada de computador e de uma ligação impetuosa ao mundo – nós, tão cegos pela inebriação das tecnologias que cavalgam no dorso do tempo, nem damos conta da vida que se esfuma entre os dedos.

É possível que o dantesco diagnóstico esteja correcto. Dou comigo viciado em tudo isto. Parece-me impossível regressar à idade das cavernas (entenda-se, à pré-história onde todas estas facilidades nem sonho eram). Serei menos pessoa e mais autómato? Ou será a espécie que se redesenha em função das circunstâncias? É um bom tema para antropólogos: eles sabem que a espécie humana foi mudando com o curso do tempo. Os que julgam que a humanidade se enquista no imobilismo tão do agrado de um conservadorismo indeclinável não aprenderam nada se leram livros de história.

Haja vontade para sermos o que nos apetece ser nos momentos jubilados para cada papel que a nós reservamos. Talvez a dependência o não seja, nem menos patologia. Se soubermos encontrar a vontade para arrumar o computador num canto, nem que depois sopre a estranha sensação do exílio forçado numa ilha isolada, como se estivéssemos longe de tudo e de todos, em nós estão as forças para recusar o vício. E mesmo que nem desta vontade consigamos encontrar por dentro de nós, que seja tolerada a liberdade de quem por aí for. Incomodam mais as pinceladas de catástrofe dos serventes do imobilismo do passado que os viciados na velocidade galopante da tecnologia, da informação, da voragem pela comunicabilidade.

A cada um, o seu ritmo. Aos adoradores da vida em câmara lenta, as suas razões, o seu direito à alentejana, pausada forma de ser. E aos frenéticos bon vivants da voragem desatada, que seja permitido sê-lo sem receberem a desagradável notícia de quem lhes aponte o dedo por serem cultores da existência à velocidade supersónica. Fica isto dito aos que se enamoram da existência como um vagaroso regato sem pressa de tragar o caudal por diante: há quem queira passar depressa pelo tempo, porventura por temer que o tempo se esgota sem aviso prévio.

Quando assim é, a vagarosa forma de ser é uma angustiante espada pendida sobre o pescoço.

1.10.09

Arrufos de namorados



(Qualquer semelhança com a pega entre o presidente da república e o primeiro-ministro que aquele vai indigitar é mera coincidência)

O estio que entrou no Outono que se faz notar mas apenas no calendário parece perturbar a serenidade e o raciocínio clarividente dos amantes que prometeram um idílio encantador. Porventura – interroga-se agora – o namoro era apenas um golpe de asa, todo cheio de oportunismo. Agora que o parzinho está metido até à goela em arrufos, e que os trazem para a praça pública para que todos os que querem perorar tenham direito ao seu quinhão opinativo, o enlevo romântico não passou de um acordo de conveniência. Como, lá atrás nas fraldas do tempo, havia os casamentos acertados pelas famílias reais.

Ou os que se prometem consortes sentem a alquimia dos sentidos, ou forjar o noivado condena-o à nascença. Não há como enganar: a oportunidade dos afectos, que traz os amantes de conveniência embeiçados, esboroa-se assim que saltam à superfície aqueles defeitos de comportamento que só na ausência de um sentimento genuíno é que motivam uma inadiável irritação. Os pombinhos passam do artificial enlevo para as tiradas assassinas que deixam feridas por cicatrizar. Mesmo que uma esteja quase a sarar, logo depois um deles bombardeia o outro, fazendo jorrar muito sangue de outra, nova ferida em carne viva.

Mas o par insiste. Ora num dia um espeta o punhal bem fundo, ferindo o outro com ofensas imperdoáveis. Ora no dia seguinte encarnam figuras angelicais, jurando a pés juntos e pela sua imensa dignidade que não disseram nada de ofensivo, que é a audiência que exagera no diagnóstico. Pois a audiência gosta é de ver o sangue a soltar-se das feridas que um deles carrega depois do lance covarde do outro. Renovam as juras de amor mesmo que já mal se possam ver, mesmo que as palavras semeiem um mal-entendido, ou sejam treslidas porque ao outro convém treslê-las. A certa altura, as promessas de afectos confundem-se com o cadafalso das ofensas. É quando cultivam um amor-ódio que só para os outros é incompreensível.

Os outros, que desperdiçam o seu tempo com a telenovela mexicana, saciam-se nesses arrufos. Os pombinhos sabem-no, pois não nasceram ontem. Ao menos não há notícia de violência conjugal; ao menos conseguem reservar um vestígio de dignidade, que a sobriedade há muito se ausentou. À medida que cresce o calvário dos enamorados que o teimam em ser apesar do pessoal calvário que atravessam, cavalgam na infantilidade. Servem-se dos aios que se entregam, carne para canhão, às tarefas sujas. As ideias absurdas, os ataques soezes, são sempre dos que compõem o séquito. Importa que não sejam desmentidas? Nada; o que interessa é que se diga que as aleivosias partiram da boca dos seguidores, como se elas não chamuscassem os mandantes.

Dizem, ambos, que têm destinos cruzados. Sintomática, a revelação. Nem precisamos de desatar o ferrolho das entrelinhas: como vão de mão dada, contristados, mandam dizer que fazem das tripas coração para aturar a outra metade do par. O enamoramento nasceu torto, não passa de uma avenida onde apenas se faz de conta. Os consortes nunca foram almas gémeas – arrisca-se o diagnóstico. É o amor que se confunde com o ódio, ou um ódio emparelhado num envenenado, suposto amor. A meio de outro arrufo, de mais um arrufo que gente ajuizada já não tem paciência para aturar, deixamos de perceber se o enlevo se emparedou na purulência destilada pelas feridas por cicatrizar.

Indo ao fundo das coisas, os dois talvez sejam mesmo almas gémeas. De tanto já não se poderem ver, habituaram-se à presença recíproca. Como se o ódio germinasse um paradoxal amor que os mantém amantes.

30.9.09

Acreditadores



Garantes: acreditamos sempre em algo. Mesmo quando queremos provocar os outros com uma tempestade agnóstica. Pois até o agnosticismo é crença. Em nada; mas crença em algo que é um nada qualquer. Disso não posso fugir – dizes, em pose desafiante. Logo eu – insistes – que arrebato todo o orgulho quando garanto nada acreditar.

A lição contínua que escuto: as pessoas são entidades que mergulham na imensidão da sua pequenez quando mostram uma crença. Ou num deus (o mais óbvio), ou fora da metafísica. Naquelas coisas que – prossegues – com desdém alimentam a minha sátira. Acusas: que o deserto em que habito é uma ofensa para os que querem acreditar num algo qualquer. Ofendo-os quando não me fico pela exibição de agnosticismo com que julgo maçar os acreditadores, ao embelezar a sátira com palavras corrosivas.

Confrontado com o libelo acusatório, vacilo. Uma hesitação que me consome, nas dúvidas que pesam como um jogo de sombras negras que insinuam aterradores fantasmas à espera de rasgar a coerência que de mim reclamo. Como se fossem carrascos só à espera de uma distracção, da cabeça a arquear-se no tronco derrotada por um sono fatal. Nunca julguei – contrapões – que do lado de fora me vissem diferente daquele que interiorizei ser; e como é de fora que as imagens se desnudam na sua nitidez, cultivo um eu desfocado – é a tua instigação, em jeito de provocação.

Não sei se me dás a provar do veneno que costumo cuspir quando dizes que sirvo as palavras corrosivas em bandeja enferrujada. Não me diminui se vacilar diante do que julgara serem certezas (quando há um vestígio de certeza a espreitar pela janela entreaberta). É a minha vez: serve-te à vontade do gourmet da retórica, desfaz-se em elaborados raciocínios que conduzem ao lugar onde queres que eu chegue, um lugar onde seria a negação do eu que em mim projectei. Insiste por aí, na irrelevância das ilações que julgas serem em mim um devastador abalo telúrico. As coisas que escolheram povoar o pensamento são como são. Concordo: as relativas, muito relativas verdades, são o sumo da negação do que nos aparece como evidência. Ou então uma dolorosa lição que se sobrepõe a todas as outras: as verdades não passam de um disfarce que nos entretém enquanto o mundo inteiro passa por baixo e por cima da nossa existência.

Se fosse pela heurística que escolheste, se alinhasse nessa urgência de derreter a espessura do eu que julguei ser, não custaria a admitir que em nada acreditar é uma crença. Não religiosa, por certo. Mas caoticamente metódica, a sistemática busca da rejeição de tudo o que fosse dado como certo. Podes dizê-lo: uma absurda negação de tudo o que ganha espessura; como se essa espessura fosse o esgoto por onde se esvai a simetria das coisas possuídas pela sua nitidez, já então apenas vestígios desprovidos de utilidade. Aceito o teu perplexo diagnóstico: um permanente estado de insatisfação, a angústia perene que, de tão poderosa, já nem em dor se consome.

Teimas. Não desistes de me convencer a entender as coisas do mundo por outro ângulo. Pois há-de haver uma crença, uma qualquer, metafísica ou não, uma que seja muito ou nada esotérica; mas há-de haver uma coisa em que acredite para além da acidez de um nada que me deixa exangue. Se quase todos somos acreditadores num algo que seja, já me foi dado a perceber o desengano em que macero na teimosia dos sentidos maltratados mercê da metódica anemia em que habito?

Sabes? Sossega-me o ensimesmar das mágoas que de mim sou feitor. Replico: eu tento, juro que tento. Não são poucas as vezes que em mim levita o cansaço da negação de tudo. E arremeto pelas veredas diferentes que podem alcançar outras respostas. Nelas só vejo um nevoeiro denso que me leva a tactear, às cegas, as pedras pontiagudas que já deixaram os pés sangrados. Da experiência não trago ânimo. Só um espasmo demorado, como se fosse um lancil dobrado e a seguir o corpo caísse no imenso vazio.

Lá ao fundo do precipício, achei-me no lugar de onde saíra. A contemplar, com uma inveja sadia mas perturbante, optimista procissão de acreditadores de variada espécie. Na senda da candeia, nem que seja uma imaginária candeia, que perseguem.

29.9.09

Escravatura no Douro?



Não há vez que vá ao Alto Douro sem que de lá saia encantado. Com uma paisagem que é uma lição para os sentidos, como se os sentidos reaprendessem diante da grandeza da paisagem moldada. Arrebatado com o que essa paisagem significa: os degraus esculpidos em terreno agreste, para que da transformação humana germinasse uma vinha abundante a enfeitar os montes domesticados. Os socalcos dispostos, com uma aritmética impressionante, são o testemunho da audácia da mão humana que dobrou a árdua resistência dos granitos encavalitados monte acima. Se há alturas em que sinto orgulho da espécie humana é quando aprecio, demoradamente, os montes que deixaram de ser bravios para acolheram a harmonia da vinha frondosa.

Pisar o terreno, caminhar nos socalcos, é a experiência viva do tanto suor vertido por gerações inteiras que foram arroteando as montanhas que escondem o Douro nos desfiladeiros em que terminam. O solo pedregoso, inclinado, rude; alindado nos degraus que se sobrepõem num presépio ordenado que alberga as uvas que se hão-de dar a um néctar que dizem divino. É preciso pisar os socalcos, uma arte humana que tornou a tarefa fácil. É preciso meter os pés na poeirenta terra onde se misturam calhaus graníticos, os vestígios do monte talhado pela mão do homem. E olhar em redor, escolher um monte contíguo despido de vinhedos. Ver no monte ainda virgem as suas formas arredondadas, ao longe discernir as asperezas do granito espalhado num caos natural. Depois, desviar os olhos para o monte que abraçou as vinhas. Para notar as talhadas de rocha levadas do monte até que ele aceitasse o seu novo rosto – os degraus com uma esquadria digna de um colossal arquitecto, como se ali tivesse chegado um Gulliver que, com a sua mão de gigante, ordenasse os socalcos durienses numa harmonia milimétrica. Assim dispostos para o plantio da vinha.

É com os pés pisando os socalcos que nos apercebemos da tarefa, dir-se-ia sobre-humana, que pela mão do homem se tornou possível. E humanizou uma paisagem severa, fazendo de um terreno montanhoso, e à partida hostil ao cultivo do que quer que fosse, um vinhedo formidável. Tecendo, através dos dedos dos muitos homens e mulheres que esculpiram com as suas mãos os degraus nas montanhas, uma paisagem arrebatadora.

Nisto, lembrei-me do que ouvira uns dias antes na TSF. No anúncio de uma reportagem sobre as vindimas no Douro, um catedrático de uma coisa qualquer a asseverar que o Douro, o Douro que hoje conhecemos como património mundial, foi erguido à custa de escravatura. E os conceitos valem a mesma coisa em tempos diferentes? Conheço alguns catedráticos da ciência vesga, cultores de uma ciência a que gostam de chamar "heterodoxa" ou "progressista", muitas vezes apenas o instrumento de uma agenda ideológica de que são adeptos. Curiosamente, propagam o relativismo como instrumento de análise (e no relativismo até estamos de acordo). Mas como podem apregoar o relativismo e depois fixar conceitos imóveis no tempo para tirar as conclusões que são simpáticas à militância com que confundem a sua ciência? Quem pode, no seu juízo, falar em escravatura quando se olha o Alto Douro em retrospectiva?

Dizem que a ciência avança quando os seus intérpretes descobrem novos métodos de análise ou chegam a conclusões que destapam novos horizontes. O que parece exagerado é torcer a análise e apreciar uma realidade por um conceito na sua aplicação contemporânea: se o que se fez no Douro quando ele começou a ser erguido a pulso foi escravatura? É escravatura tal como a definimos hoje, ou escravatura como era definida ao tempo em que tantos homens e mulheres foram esculpir os montes em alindados socalcos? Mas se é escravatura na sua roupagem actual, como se aplica aos tempos de antanho?

Talvez o catedrático de uma coisa qualquer (que dissertava com a certeza que os catedráticos emprestam ao que dizem) não tenha percebido a ofensa ao Alto Douro inteiro. Às sucessivas gerações que lá deixaram o seu suor, para hoje o catedrático se extasiar quando empreende viagem até aos vinhedos durienses. Ainda fico a pensar, meio perplexo: escravatura? E se não fosse essa "escravatura" a que se dispuseram homens e mulheres que romperam os montes para fazer o Alto Douro, quanta mais miséria não teriam famílias inteiras passado?

28.9.09

Um tosco analista de eleições



Desta vez armei-me em cidadão, daqueles muito responsáveis que se interessam pelo fenómeno eleitoral e tudo. O abstencionista militante até foi votar. Eram 8.20 – estreei a minha mesa de voto. Estive à "escuta" dos resultados eleitorais. E apeteceu-me fazer de conta que era "analista". Repito: fazer de conta. Ao acompanhar o rescaldo de eleições, reconfigura-se o adágio popular para se dizer que "de poeta, médico, louco e analista eleitoral, todos temos um pouco". Aqui virão palavras escritas por um analista tosco. Ou talvez por um "analista" que foge ao convencional, sem alinhar na postura respeitável dos analistas credenciados que aparecem só para dizerem o óbvio.

Ainda não havia projecções, ainda não eram oito da noite e os açorianos ainda votavam. O sorriso de orelha a orelha do comentador Vitorino, o embaixador do PS e do governo na RTP, falava mais alto que os números das projecções que só se conheceram às oito da noite. Foram divulgadas as primeiras projecções. Suspeito que as empresas de sondagens que trabalharam para as três grandes televisões prepararam um acordo secreto uns dias antes, pois as três projecções eram notavelmente coincidentes – coisa nunca dantes vista. Depois do banho que apanharam nas eleições europeias, não quiseram outro desaire. Ou falham todas, ou acertam todas. Enternecedora solidariedade corporativa.

Primeira impressão na ressaca imediata das projecções: só houve vencedores. A excepção moderada foi o PSD, apesar de ter ouvido uma deputada independente (aquela que era do CDS, concorreu a estas eleições pelo PSD e apoia, daqui a quinze dias, o candidato do PS à Câmara de Lisboa) assegurar que a perda da maioria absoluta se ficou a dever à líder do PSD. Ganhou o PS. Uma vitória amarga. O grande, querido líder terá que vestir a roupagem de cordeiro manso para seduzir a extrema-esquerda – e, olhando aos números, a tarefa exige um "ménage à trois". Perdeu a maioria absoluta? Foi uma penalização do eleitorado? Irrelevante, dizem os apaniguados. Vitória é vitória. E se perderam a maioria absoluta, ou a causa foi a crise – o desconfortável pano de fundo para a governação –, ou foi pela campanha de "bota-abaixismo" feita por todos os adversários (o "bota-abaixismo", esse formidável neologismo que entrou, com a chancela do primeiro-ministro, no dicionário da língua corrente). Até os comunistas, que lograram ficar em quinto lugar, entregando a palma aos arqui-inimigos da extrema-esquerda caviar, ganharam. Nada de novo: estes ganham sempre. Ao menos, disse um porta-voz, deram o seu contributo para que os socialistas perdessem a maioria absoluta. Ganharam porque os outros ganharam mas não ganharam tanto como há quatro anos.

As noites eleitorais são um expoente de desonestidade intelectual de políticos que abrem a boca para os microfones em directo. Ouvi a D. Ana Gomes, que por pouco não espumava raiva pelos cantos da boca, a caucionar a vitória incontestável do seu partido e a assegurar aquilo que ela adorava que acontecesse: isto vai virar à esquerda, para gáudio da senhora que, continuo a ter essa impressão, se deve ter enganado quando bateu à porta do PS para se filiar. Depois foi esse imenso senador da república, Jaime Gama, a triunfar no campeonato da análise vesga: convidou-nos a comparar o resultado alcançado pelo seu PS e o resultado obtido pelos democratas-cristãos na Alemanha. Só para percebermos que os socialistas tiveram uma vitória retumbante, pelo menos por comparação com a dos democratas-cristãos nas eleições alemãs. O que interessa que países diferentes sejam diferentes realidades eleitorais? Que interessa que em ambos os países haja diferentes sistemas eleitorais? Para D. Gama, o melhor é disfarçar uma vitória azeda com uns pós cosméticos que têm o perfume da desonestidade intelectual.

O que se esperava, até quando deitou os olhos às projecções? Uma parelha entre os socialistas e a extrema-esquerda caviar, sem que estes tivessem pouso no governo. A extrema-esquerda chique conseguiria conservar a sua natureza anti-sistema, passando a influenciar a governar de fora para dentro. Os números trocaram as voltas à ambição do Prof. Anacleto: o somatório dos deputados do PS e do BE não chega para a maioria absoluta. O Prof. Anacleto falou cedo de mais, quando na sua prédica já começou a impor exigências. Não está em condições de exigir nada. Nem vai ser o fiel da balança que ambicionava ser. Coitada da D. Ana Gomes, que disse, toda encrespada, "coligação com o CDS, nunca, jamais".

Agora entendo o acto desastrado do presidente da república quando se meteu na embrulhada das escutas, oferecendo de bandeja ao PS uma vitória mais expressiva do que se esperava. Esta incerteza governativa é o melhor cenário para o protagonismo que o actor político Cavaco sempre gostou de ter enquanto esteve na vida política. E que não se esqueça isto: as suas possibilidades de reeleição seriam menores se o PSD tivesse ganho as eleições. Bate certo o momento escolhido para demitir o seu conselheiro de imprensa.

Percebes agora, Rui Miguel, por que não quis ir comentar as eleições para aquela rádio?

25.9.09

A política é esquizofrénica (e outras considerações sobre o voto)



Os socialistas, com uma avantajada dose de oportunismo pelo meio, colam o PSD ao execrável "neo-liberalismo". O maior humorista nacional – o Prof. Dr. Anacleto Louçã, pelas razões que a seguir vou expor – afiança que o quase engenheiro primeiro-ministro é (e cito) um "radical do mercado". E um liberal, um daqueles liberais dos sete costados, como se sente ao ver-se de repente na companhia de gente que não considera liberal?

(Aqui vai a explicação prometida: o Prof. Dr. Anacleto Louçã deve ter ficado inebriado com o humor contagiante ao ser entrevistado na SIC por um dos ícones do humor nacional. Tão contagiado que, depois dessa entrevista, desatou a espalhar pilhéria pela sua campanha eleitoral. Entre duas arruadas – mas que raio de termo que entrou no património semântico da política em vésperas de eleições – o Prof. Anacleto admitiu que estava preparado para ser primeiro-ministro. E depois anunciou, com aquela pose grave de seminarista frustrado, que a competição eleitoral será entre o PS e a federação partidária que ele lidera. Não me arrependi de ter falhado a pessoal promessa dos últimos anos, quando fechava os olhos e os ouvidos à zoeira das campanhas eleitorais. Ao menos, desta vez, compensou pela boa disposição semeada pelo inexcedível sentido de humor do Prof. Anacleto. E lá me lembrei da infância, quando havia um palhaço chamado Anacleto.)

De regresso à esquizofrénica política caseira. Sabemos que em campanha eleitoral os concorrentes usam todas as estratégias à mão de semear. Vale tudo: desde a indigência mental, aos atentados à inteligência do eleitorado (pode ser que grande parte esteja distraído e o atropelo acabe por pegar), à perfídia de atacar o adversário da forma mais indigna que se possa imaginar, às palavras excitadas e impensadas, imagem do desespero que toma conta dos candidatos. O que daqui sobra é uma tremenda falta de transparência, a confusão instalada na cabeça do eleitor médio.

O que se há-de pensar quando nos dizem, com tanta certeza, que o PSD se encostou ao liberalismo? O Avô Cantigas do PS destaca-se na diatribe. Quando se julgava que o exílio bruxelense trouxesse algum juízo ao lente coimbrão, parece que a mudança de ares não trouxe nada de novo. Do lado contrário, o Prof. Anacleto encomendou a alma do querido líder do PS aos sacerdotes do mercado. Quando o ouvi a asseverar que o quase engenheiro é um "radical do mercado", fiquei assustado: se isso fosse verdade, eu e o quase engenheiro seríamos "irmãos de armas", homessa!

O Avô Cantigas e o Prof. Anacleto não deviam antes perguntar aos genuínos liberais se aceitam as companhias que lhes colam? Pois o que tem sentido é que sejam os próprios a abrir ou a fechar a porta às companhias que os de fora lhes tentam impingir. O que diz o liberal perante este repto? Fecha a porta ao PSD e ao PS, excomunga-os na suposta filiação liberal. O liberal, com alguma condescendência, percebe o desvario dos socialistas que querem urgentemente empurrar o PSD para a odiosa direita liberal: Dupont e Dupont, de tão iguais que são, na recusa em o admitirem, refugiam-se em argumentações patéticas.

Para culminar a esquizofrenia da política caseira em véspera de eleições, podia-se pensar que a direita liberal estivesse abrigada no CDS-PP. Pelo menos é o que julgam os analistas viciados na arrumação de toda a gente em gavetas herméticas. Quantas vezes me disseram que eu era do CDS-PP, ou que pelo menos andava lá por perto. Ora um liberal, um liberal dos sete costados, não pode votar num partido que é, ao mesmo tempo, dependente das sacristias, cultor de uma política de segurança interna de pulso forte e que apregoa o retorno da economia à anacrónica agricultura. O liberal não pode votar num partido que tem tantas semelhanças com a intervencionista direita sarkozyana.

Para este liberal, a prioridade é impedir que o PS repita a maioria absoluta (que seria uma catástrofe). Como a sanidade mental o impede de votar no PSD e no CDS-PP (por definição, tudo o que esteja à esquerda está excluído), e como não vai na patranha do voto útil, sobra a possibilidade de votar num dos pequenos partidos. Daqueles partidos que existem só para chatear. Ao menos, ao engrossar o número de votos que contam, diminuem as probabilidades dos socialistas repetirem a trágica maioria absoluta. Podem-lhe chamar voto niilista que não me importo.

24.9.09

A igreja católica dos muitos paradoxos (ou de como a vida terrena é inútil)



Se morrer não custa – pois num funeral o sacerdote que preside às exéquias consola a família, assegurando que o falecido entrou "no reino de deus" e agora é que está feliz – para que andamos aqui a viver?

Nisto da fé, ou se acredita ou não. Não me parece que seja possível encontrar meio-termo. Os crentes do catecismo católico vivem na esperança de encontrarem o paraíso depois de se despedirem da vida terrena. Teoriza-se: a vida terrena, a única vida que os sentidos conhecem, aquela de que temos provas indubitáveis, é uma "passagem". Um tirocínio para a existência que contará. A vida noutra dimensão, já sem a prisão do corpo e dos sentidos que tanto nos conferem prazeres como tristezas desatadas. A existência extra-sensorial, toda embebida numa espiritualidade de que não há prova tangível. A morte não é amarga. É só escutar a oratória do pároco quando um féretro se entrega à despedida abençoada pelo "ministro de deus": que se enxuguem as lágrimas dos familiares e amigos, que aquele que ali se homenageia está melhor do que todos nós que ainda estamos presos à vida terrena.

Se assim é, porque somos teimosos ao ponto de verter lágrimas quando um ente querido nos deixa? Porque insistimos em tornar a despedida um momento carregado de tristeza? Há aqui uma contradição insanável: em vez de toda aquela gravidade e recolhimento dos funerais, devia ser como em certas religiões que reúnem os familiares e amigos do desaparecido e fazem uma festa, com direito a lauto banquete e tudo. À memória vêm certos filmes rodados nos Estados Unidos, retratando o costume dominante: ninguém derrama lágrimas, as pessoas riem-se com as boas recordações de quem homenageiam, o luto não é tingido de negro.

O catolicismo aprendeu muita psicologia e pretende contagiar as pessoas entristecidas pela morte de alguém que lhes é querido com essa psicologia anestesiante. Quando o sacerdote confirma que o óbito é um acto de bondade do infinitamente bondoso deus, pois a pessoa que morre entrega-se nos braços da prometida dimensão celestial onde terminam as amarguras da vida terrena, parece retórica de vendedor de apartamentos a tentar convencer o incauto a comprar uma casa que aparenta maravilhas mas depressa se descobre ser um logro. A mágoa dos familiares e amigos deve ser apaziguada pela consolação das palavras analgésicas do sacerdote. Daí a acreditar-se na ladainha que se escuta numa cerimónia fúnebre, é uma questão de fé: ou se tem e as palavras de consolação reconfortam, ou se não tem e aquelas palavras incomodam.

Se morrer é a festa maior da vida, então qual é a utilidade dos anos que a vida nos consome? Parece tempo perdido, viver a vida de que temos prova. Será isto a confissão da inutilidade da vida? Por que motivo a doutrina católica é tão ríspida com o suicídio, ao ponto de recusar campa benzida aos suicidas? Assim como assim, o suicídio podia ser encarado com a antecipação da existência gloriosa que nos é prometida quando o deus bondoso decide levar-nos para junto de si.

O ateu continua atormentado com o fenómeno da morte. É um ponto final, sem parágrafo que se siga ao termo da frase – e esse é um ponto final angustiante. Por isso é que, como ateu resoluto, tenho um pavor indescritível da morte. Ou talvez não, depende do estado de espírito. É que todos temos daqueles dias em que nos olhamos no espelho e temos orgulho do que vemos. Nesses dias, a morte amedronta. Pensamos: que desperdício para o mundo se alguém como eu disser adeus à existência. Mas há outros dias em que não gostamos de quem somos. Nesses dias, a morte deixa de ser uma consumição.

23.9.09

O horrível sotaque




Ouço lá dentro o ruído da televisão. Dão notícias de uma gala da agremiação desportiva mais representativa da cidade. Fala o eterno presidente da agremiação regional. Com aquele sotaque carregado e tão típico da cidade. Aquele horrível sotaque. Digo: um autêntico atentado à língua que se convencionou ser a língua da norma.

Não somos a Itália, com uma profusão de dialectos regionais – ouvi contar, uma vez em Itália, que quase existe um dialecto por cidade. Por cá temos pronúncias regionais, maneiras diferentes de acentuar certas palavras, regionalismos que só existem nas regiões que vulgarizaram esses termos; mas não temos dialectos (tirando o mirandês). Distingue-se um alentejano de um minhoto, ou um transmontano de um açoriano, pela forma como falam. (E, ao que sei, dentro da mesma região os locais conseguem identificar diferentes declinações do idioma: um habitante de Vila Real denuncia a sua pertença ao chegar a Chaves). Não sei se é por ter nascido no Porto e por sempre ter aqui vivido (descontados os dois anos e meio que estive emprestado ao Minho castiço), mas é o sotaque daqui que mais me agride os sentidos.

É isto que me causa confusão: falar à moda do Porto é uma deformação do idioma. É sintomático quando a turba se reúne no estádio onde aquela agremiação regional disputa jogos de futebol: quando a equipa marca um golo, ouve-se em uníssono um coro de bardos excitados celebrando o "guôlo", as goelas bem abertas para dar mais ênfase à sílaba onde o imaginado "u" se abre demoradamente. De resto, é enigmático como uma palavra com duas sílabas se transforma, mercê dos caprichos de uma pronúncia que corrompe a língua, numa palavra com três sílabas ("gu-ô-lo").

Tenho para mim que a gente daqui que carrega forte no sotaque regional é a que possui mais apetência para aprender francês escorreito. As sílabas que terminam em "ã" ("mamã") depressa ganham outra acentuação, tão tangente ao "ãn" que os franceses usam com abundância. Não é por acaso que "mamã" dito à maneira do Porto é tão parecido como o francês "maman". A terrível confusão em que labora o sotaque portuense tem outras manifestações: quando as palavras terminam em "ão" dizem-se "om" ("côm" em vez de cão), mas quando a sílaba terminal soa a "om" no idioma original, o sotaque da cidade encarrega-se de a transformar em "ão" ("são" em vez de som). Esta gente que ostenta, orgulhosa, o sotaque portuense entrega-se ao swinging das palavras.

A minha palavra preferida é "vedante". Se for pronunciado com o forte acento nortenho, transfigura-se em "bedaunte". Outra vez com forte declinação na sílaba onde se aloja o "u", para que o som "aun" apareça com toda a vivacidade: "bedaúnte", assim mesmo com acento no "u" para se saber que é aí que a palavra mais se inclina. Há outro regionalismo que me enche as medidas – e digo regionalismo porque não me é dado a conhecer que o termo seja empregue noutras regiões: "morcão" (do dicionário: "indivíduo indolente, bisonho ou aparvalhado; lorpa; mandrião"). Aqui diz-se "morcom".

E ai de quem caçoe do sotaque daqui, que leva logo com o opróbrio sulista, como se ser sulista fosse a maior das aleivosias. E há mal em ser um portuense de gema a atirar-se ao sotaque dos seus conterrâneos? Ou a perfídia é ainda maior, tal como se fosse uma heresia, pois a um dos seus jamais seria permitido desdenhar dos patrícios que comungam a mesma pertença? Deve ser das tais coisas muito sérias e respeitáveis. Daquelas que nos ensinam a manter um hirto respeito, com proibição total de sátira para se não apanhar com os maus fígados dos ciosos guardiães da genuína pronúncia que assassina o idioma.

Que me seja autorizada a dissidência. Venham lá esses nomes feios que me apoucam. Nem assim hei-de silenciar as palavras a contragosto pela estética duvidosa do sotaque que tenho como coisa horrível desta terra maravilhosa onde nasci e    que habito.

22.9.09

A grotesca desgraça e nós: espectadores como se fôssemos abutres



Metem-me espécie. Os programas de televisão que oferecem, tão generosos, pungentes episódios da vida dos outros. Convidam-nos à comiseração – ou são como uma janela aberta por onde entra algum ar fresco, pois afinal a televisão ensina que há vidas mais desgraçadas (das vidas dos que se entregam ao fatalismo, consequente ou não). Será forte dizer que me enojam esses programas; mas é nojo, e uso a palavra no seu sentido literal, o que sinto. Nojo: por quem se entrega à exploração destes casos, por haver quem se delicie no compungimento que parece lacerar mais quem exibe a pena do quem passou pelas dores da desgraça, nojo até dos infaustos que abrem as suas misérias ao espiolhar dos outros.

Tudo isto me leva a perguntar por que somos especialistas na arte de esquadrinhar a miséria dos outros. Alguém percebe que estamos despudoradamente a desnudar essas pessoas, a liquidar a sua intimidade, a ofender a sua dor? Alguém percebe que lhes agravamos o sofrimento, como se a partilha da dor por uma multidão de telespectadores amplificasse o seu próprio sofrimento?

O aproveitamento das adversidades espalhadas pela vida das pessoas faz dos adoradores do género lamentáveis voyeurs. Onde tudo começa, quem alimenta o género – se o feitio da populaça que sempre gostou de ver sangue a jorrar, se as televisões que fidelizam audiências com estes episódios que dilaceram a alma de gente sensível e cativam a atenção de quem sente um indizível prazer interior ao testemunhar a desgraça que bate à porta dos outros –, isso acaba por não interessar. Só que toda a gente, desde quem aceita expor as pessoais desgraças, passando por quem lhes confere o palco e terminando no público ávido da grotesca delícia com os males alheios, toda a gente se merece na perfeita indignidade de si mesma.

E se não são as televisões que trepam umas às outras para terem mais um ponto percentual de audiência, são os jornais – até os que recusam, com sentido, o rótulo de sensacionalistas – a escorregar para a atroz partilha das misérias dos outros. Há dias, quando morreram sete raparigas num pavoroso acidente rodoviário, o Jornal de Notícias tinha na capa uma fotografia tirada pouco depois do acidente. Ainda com os corpos trucidados à mostra. Não percebi – nem quis indagar – se a fotografia foi tirada por um repórter do jornal ou por um "popular" que a vendeu ao jornal. Num caso como noutro, o atentado à ética jornalística já tinha sido perpetrado. Porventura nem é isso que interessa. Às malvas a ética, mais ainda se for a sectorial e muito escorregadia ética dos jornalistas. Por cima de tudo isso, a dignidade que mereciam as pessoas acabadas de perecer e os seus familiares. Terá alguma criatura com responsabilidades editoriais no jornal pensado no que teria sentido se naquela fotografia estivesse um corpo despedaçado de um seu familiar?

Não sei se é falta de critério. Rejeito a ladainha dos valores que se ausentaram – e o que é isso dos "valores"? Só consigo explicar a náusea que me invade quando este bastardo voyeurismo esvoaça com as suas enormes asas espalhafatosas, dando uns beliscões em quem passa para que não se esqueça de mergulhar no vórtice da desgraça que consome os outros. E não me venham dizer que tudo isto é um singelo convite à solidariedade, como quem sugere que a exposição dos tremendos males que destroçam as suas vítimas é um convite ao lado generoso de quem os testemunha. O que ali há é uma mórbida curiosidade, uma sede insaciável de se enodoar no lodaçal para onde os miseráveis foram empurrados.

Dizem-me que a imprensa, na sua "ânsia democrática", se limita a satisfazer os gostos das maiorias. Eis o que está mal: a duvidosa estética das maiorias e a covardia da imprensa que se esconde em pretextos mal amanhados. Desta náusea sobra o travo amargo da urgência do exílio; exige-o a sanidade mental.

21.9.09

Lembras-te do futuro?



Que nos precatemos de não usar a palavra "tempo". Pois todas as coisas se desfazem nas abóbadas onde o passado se deita. Olhamos em frente e apetece-nos dar a provar o futuro num cálice dourado, sumptuoso. É quando, a destempo, temos saudades do futuro.

Uma sondagem dos dias vindouros, dos que estão à dobra da esquina e daqueles cuja espessura está aprazada para mais tarde – é o que nos honra. Depressa nos cansamos dos dias correntes. Não faz sentido vaguear pelas margens das memórias, como se nessa deambulação algo de exterior a nós se impusesse sobre o que somos quando o somos – que é o agora à espera de todos os amanhãs que queremos ansiosamente degustar.

Apetecível é o futuro. Esse mar imenso onde navegam as esperanças que fermentam o adocicado da existência. Ou apenas uma doce ilusão de um amanhã que jamais terá as tonalidades espelhadas em todos os sonhos. Mas seja: é de hoje em diante que se joga a sobriedade, alguma finitude. De hoje em diante que se acolhem os segredos que um dia qualquer tratará de revelar. É o que sabemos. Que haverá alguns porvires reconfortantes, outros embebidos no anonimato dos dias todos iguais, uns ainda excruciantes. É desses porvires que nos queremos lembrar.

Não me julgues equivocado. Sei da impossibilidade física que é desvendar amanhãs. Quando interrogo se nos lembramos do futuro, quero recordar que as recordações nos conduzem por um, porventura, auspicioso trilho que termina num precipício invisível até a lá se chegar. Esse precipício tem nome: chama-se "hoje" e é doloroso quando insistimos em andar de mão dada com as memórias que são uma imagem esgotada de um passado irrepetível. É por isso que faz sentido perguntar se te lembras do amanhã? Para que te não esqueças que temos uma dívida com os dias que hão-de vir. Seremos caricaturas de nós mesmos se teimarmos na nostalgia. Desse modo, desperdiçamos o hoje que é a parte tangível da existência. Ao derrotar os dias presentes, na indigência do futuro, somos a ausência de nós mesmos. A anulação da nossa existência. Indignos dos porvires que esperam por nós.

Por isso te explico esta obstinação com o passado, uma matéria inerte que extirpa o oxigénio da existência. Não digo que reneguemos o percurso pelos dias que pertencem à história. Só não quero ficar algemado aos outroras que já foram meu império – por mais perfumados que sejam, por mais vivificantes as memórias que se trazem de lá. Prefiro ter saudades do amanhã, esse majestoso gigante desconhecido, a reserva natural de todas as incógnitas. É pela mão das incógnitas que me quero deixar guiar nos amanhãs que espero sorver, com sofreguidão ou apenas com a quietude de quem já não se exaspera por viver mais depressa que o timbre do grande relógio universal.

Dizes-me que os porvires que nos esperam são terrivelmente ameaçadores, debruados com uma escuridão que corta a respiração, que sentes corvos azoando os amanhãs. Dizes-me que passo por cima dos dias presentes com a urgência de quem quer pisar os campos que desvelam os amanhãs. Em o fazendo, que também me demito do eu que sou hoje. Pode ser que sim. Pode ser que atropele a cadência do grande relógio universal pelo febril sintoma dos amanhãs prometidos. Antes virar a cara aos dias emoldurados na rigidez do passado que não volta a acontecer, do que passar ao de leve pelos dias correntes com uma consistência que os sentidos conseguem apurar. Ao menos tenho prometido um futuro radioso, sem estar acorrentado ao peso das memórias irrepetíveis, um peso que arqueia a existência a ponto de a deixar inerme.

Os muitos hoje que vivemos têm um traço comum com os ainda mais ontem que já experimentámos: a sua grande espessura é a da irrelevância dos dias anónimos, dos dias que não deixam vestígios no grande livro da vida. Se o que se conhece deixa este travo de inutilidade, sobram então as saudades do futuro. Só as teremos se nos lembrarmos que é o futuro que nos tem nas mãos.

18.9.09

ABC do libertário



Vamos falar de utopias. E da mania de nos metermos na vida dos outros. Tanto acontece com as alcoviteiras (as reformadas que se entretêm a vasculhar na vida dos vizinhos; ou os colegas de trabalho que metem o nariz onde não são chamados) como ao mais alto nível, no dia-a-dia da governação. Tanto nos metemos na vida dos outros através dos palpites sobre aspectos da vida alheia que não nos dizem respeito, como aceitamos que se metam na nossa vida através da diarreia legislativa que toca tudo e mais alguma coisa na vida que apenas a nós devia dizer respeito.


Ser libertário é um compromisso apaixonado com a liberdade pessoal. E se tanto amamos a liberdade individual só a honramos se respeitarmos a liberdade individual de todos. Só que somos indulgentes com a suposta bondade das políticas públicas, quando as decisões encerram supostas vantagens que, argumenta-se, facilitam a nossa vida. E, quantas vezes, uma medida vantajosa não é a contrapartida de dezenas e dezenas de decisões que apertam o cerco ao livre arbítrio e nos tutelam como se estivéssemos carenciados de uma paternal bússola? Aceitamos. Julgamos que deve existir uma mão visível, e de preferência firme, que nos ponha no "bom caminho". Quando o aceitamos, demitimo-nos da individualidade que somos.


O libertário não acredita na ficção da sociedade. É uma ficção porque se trata de uma abstracção. E o que é a sociedade? Somos todos nós, o cimento da comunidade – dirá o coro dos bem pensantes. Ao vingar o imperativo das necessidades da sociedade, sobretudo quando os interesses individuais cedem perante o "bem comum", não acabam por vingar certos interesses individuais? Que assim se escondem detrás da máscara dos interesses colectivos – e daí a sociedade não passar de uma ficção, uma patranha bem encenada para levar os incautos no engodo. 


O maior bem que podiam oferecer ao libertário era derrubar todas as algemas mentais que comprometem cada indivíduo no proclamado interesse da sociedade, obrigando-o a sacrificar legítimos interesses pessoais. Depois, os meirinhos desta ladainha (a da superioridade do social sobre o indivíduo) treslêem parte do catecismo liberal para ensinarem que a liberdade de cada um termina quando ela invade a liberdade dos outros. Este é o prontuário oportunista dos muitos engenheiros sociais que oferecem as suas abundantes qualidades intelectuais para tornar este mundo um sítio melhor para se viver. O que nunca revelam é a volátil fronteira entre a minha liberdade e a liberdade do outro. Em vez de deixar aos envolvidos a disputa da fronteira, confiando na capacidade de ambos para delimitar os terrenos das respectivas liberdades, são os engenheiros sociais que as fixam. Fazem-no de maneira unilateral e arbitrária. Atropelando a liberdade dos outros.


É por isso que o libertário desconfia da autoridade de todos os dias e dos grandes planos que nos orientam a prazo. O libertário não consegue agradecer, muito menos compreender, a generosidade e a presciência dos que dizem ter contraído matrimónio com a causa do serviço público. Pois essa é uma utopia – uma utopia de sentido contrário à utopia libertária. Por mais que os servidores da causa pública apareçam comprometidos com o serviço público, como nos convencem que esse interesse não seja individual? E, portanto, não é possível que não contagiem o exortado "interesse público" com o seu interesse individual.


Podem-me aconselhar a pôr os pés no chão, ou a abrir os olhos, dizendo-me: mas isto sempre foi assim, com diferentes actores e na alternância de interesses. Seja. Alguém me censura se aqui vier confessar o cansaço pelo estado de coisas que é a normalidade vigente? Dando de barato que as coisas são como são, é crime confessar o desejo que uma utopia se convertesse em realidade? A natureza humana é o imponderável que impede que a utopia o deixe de ser. Tornámo-nos viciados na dependência recíproca. Achamos que podemos opinar sobre muita coisa que apenas diz respeito aos outros. Enquanto formos seres tutelares da vida alheia, não há utopia libertária que tenha valimento. Pois não somos merecedores da nossa liberdade individual.


Há um sentido no devir libertário: uma rejeição total ao conservadorismo maior que é aceitar a autoridade a que devemos respeito. Os engenheiros sociais, os feitores da diarreia legislativa que pretende resolver todos os problemas que nos aparecem pela frente, são os maiores conservadores que temos.

17.9.09

As irritantes virtudes

Às vezes damos de caras com outros que são o espelho de nós por neles as nossas virtudes se retratarem. Vê-se, então, como essas virtudes, que em nós julgamos serem virtudes, são tão irritantes. Serve, ao menos, para que se perceba que os juízos que fazemos são de uma relatividade brutal: o que hoje enche de orgulho pode amanhã ser a fonte de desprazer.

Há nisto algo de esquizofrénico. Ou uma inexplicável inveja, pois quando são os outros que levam ao extremo determinados traços de personalidade que temos como certos na nossa forma de ser, deixamos de os ter entre o património do elogiável. É, ao mesmo tempo, expressão de um saudável descontentamento com o que somos. Quem gosta de se enquistar numa imóvel forma de ser? Pode acontecer que nos cansemos de ser o que somos com uma certa periodicidade – ou que, ao menos, nos cansemos de certos atributos que são atirados para o quarto escuro dos predicados que o deixaram de ser. Em tudo isto, a sensação de que perseguimos a transiente espessura que nos usurpa. 

Dois exemplos pessoais: pontualidade e organização. Digo que um dos males indígenas – há quem assegure tratar-se de idiossincrasia – é o sistemático atraso. Marca-se uma hora para um encontro, para uma reunião, o que quer que seja. Nunca começa à hora. Contagiamo-nos uns aos outros porque sabemos que um de nós chegará atrasado. Por isso relaxamos enquanto vemos com despreocupação os ponteiros do relógio avançar para além da hora marcada. Como alguém vai chegar atrasado, não vem mal ao mundo se lá chegarmos atrasados também. Como não seremos os últimos, não se considera a falta de pontualidade um atraso. O odioso – e mesmo assim sempre perdoável, com a generosa indulgência que temos – sobra para aquele que chegar mais atrasado.

Exijo de mim pontualidade. Britânica. Se o relógio que trago se atrasa um minuto entro em sobressalto se não o acerto à primeira oportunidade. Mas, por estranho que pareça, aborrecem-me mais aqueles que são ainda mais pontuais que eu. Mais do que aqueles que mandam a pontualidade às malvas. Isto é um paradoxo. Chegar antes do tempo não é como chegar atrasado: só um atraso é irremediável, porque o tempo combinado passou a fasquia do tempo já inamovível. A pontualidade extemporânea – se assim posso chamar à mania de chegar antes da hora – é uma vaidade inconsequente. É de gente que gosta de ostentar o zelo com o relógio, gente que adora esmagar nos demais que levam tão a sério a pontualidade que foram os primeiros a chegar ao compromisso agendado. 

Segundo exemplo: ser metódico. A interior organização de cada um compete a cada um. Não tenho nada contra a falta de método em que os outros vivem mergulhados. Há quem só consiga viver no meio de uma total desarrumação mental. Às vezes gostava de ser assim. Nem sempre é fácil conviver com o espartilho de se ser metódico, pois sobram algumas algemas que limitam a pessoal liberdade. É como se a organização mental que nos impomos actuasse como uma tirania interior que condiciona a liberdade que a nós mesmos vedamos. Todavia, ser metódico é imprescindível para ter um prumo que dê equilíbrio à existência. O mais difícil é atingir o equilíbrio entre o método e não ficar aprisionado nas entranhas do método a tal ponto que já só somos seres metódicos e nada mais. É quando a muita organização interior desagua em nada de palpável. Nessa altura, já só somos forma sem sermos substância.

Também me irritam aquelas pessoas muito organizadinhas, que não dão um passo sem o estudarem meticulosamente. Às vezes, isso confunde-se com um calculismo que semeia desconfiança entre quem rodeia os calculistas. Essa metódica forma de ser levanta a suspeita de que actos e palavras trazem água no bico. Quando deparo com metódicos fundamentalistas, tenho uma súbita vontade de renegar a pessoal organização que julgava ser um distinto atributo. É quando me apetece entrar no aviltante lugar onde nada é pensado e tudo acontece ao acaso, pela mão dos espontâneos actos e palavras. 

Será a negação de pessoais atributos quando os vemos reflectidos nos outros uma crise de identidade, uma negação do que somos quando vemos esses atributos espelhados nos outros?

16.9.09

Estaline?

Não. Está morto. E não consta que aceitasse eleições. Mas ao ler a seguinte frase da Dona Ana Benavente (artigo de opinião no Público de hoje, na condição de "militante do PS"), podíamos dizer: por que não proibir a "direita" de uma vez por todas? Ah, como é adorável o totalitarismo de pensamento em que certas esquerdas escorregam. Eis a boutade:

O elogio dos candidatos

Ando pelas ruas da cidade e vejo como a campanha eleitoral emprestou muita poluição visual à paisagem urbana. Nada que seja desconhecido em vésperas de eleições. Os tempos que são sempre mais modernos é que trazem algum requinte à exposição dos cartazes. Já não são feitos em papel e colados nas paredes – que essa modalidade é deixada para a divulgação de concertos, peças de teatro, bailados e exposições de arte. Agora os candidatos mostram as suas caras e os slogans bombásticos em cartazes amovíveis que se prendem a postes ou estão afixados em painéis criados para o efeito. 

Ando pelas ruas da cidade e noto a profusão de rostos de candidatos. Ainda por cima, em ano de bebedeira eleitoral (três eleições no espaço de quatro meses, o que não tem precedentes na história eleitoral), multiplicam-se os outdoors à razão das eleições. São as caras dos líderes partidários que se propõem para chefiar o governo (assim se enganando a populaça, que vai no conto do vigário do timoneiro actual, convencido que está, na sua douta ignorância, que estas eleições servem para escolher o primeiro-ministro). E são os rostos dos candidatos às autarquias. Por cá, é uma enxurrada de caras porque os candidatos a presidentes de junta de freguesia conquistaram direito a uma exuberância de cartazes como nunca se viu.

Ao andar pelas ruas da cidade, quem pode ignorar a poluição visual com as muitas caras dos candidatos que estão por todo o lado? É para que não nos esqueçamos que um dia destes há eleições e que os candidatos existem – sobretudo daqueles partidos mais endinheirados e que podem enxamear as ruas com cartazes dos seus candidatos. E tanto vemos cartazes intactos, com os rostos de certos candidatos de idade avançada que aparecem milagrosamente rejuvenescidos (milagres do Photoshop), como se nota a vandalização de alguns cartazes.

É aqui que quero chegar. Devo elogiar a coragem dos candidatos que dão a cara pelo partido que os leva a eleições. Literalmente, dão a cara. Não deve ser confortável ser candidato e, ao andar pelas ruas da cidade, dar de caras com a sua cara vandalizada. Tenho reparado que não há candidato que escape à felonia da vandalização de cartazes. Às vezes perfuram os olhos; não sei se quem o fez quis mostrar que o candidato tem dificuldades de visão e que, portanto, não é credor do voto –  não vá o eleitorado entregar-se nas mãos de um condutor cego. Outras vezes é a boca que aparece rota; terrível acto de censura dos vândalos de serviço, que assim manifestam a intenção de calar o candidato cujo retrato foi danificado, ou apenas o cansaço auditivo de quem é vítima da poluição sonora expelida pelo candidato que é uma picareta falante. O cúmulo da vandalização de cartazes é quando o rosto, na sua totalidade, foi extirpado ao cartaz; tal como se o candidato não tivesse cara – ou a metáfora perfeita para um homem ou mulher que não é digno(a) da cara que mostra todos os dias, pela manhã, ao espelho. E se assim é, indigno será de se apresentar como candidato ao que quer que seja.

A sério: há um notável acto de coragem dos políticos (profissionais ou que ali estão de empréstimo) que se oferecem como candidatos a eleições. Os seus rostos ganham uma notoriedade trazida pela abundância de outdoors. Não me imagino nessa qualidade. Detestaria saber que um qualquer vândalo tivesse profanado o meu rosto (que até poderia ser um adversário covarde, ou alguém a soldo dele). O pior seria o desconforto da privacidade perdida. Só de imaginar que ao andar pelas ruas da cidade teria cada pessoa com quem me cruzasse a olhar na minha direcção com aquela expressão facial de quem diz "estou-te a conhecer daquele cartaz", é o ânimo para jamais ter pretensões a ser candidato ao que quer que seja. Pois um dos bens maiores é o anonimato.

Outra vez a sério: é preciso ter coragem para se ser candidato a eleições. E desprendimento para não recear a exposição do rosto à curiosidade de todos os olhos que a cada instante se cruzam pelos muitos cartazes que semeiam a poluição visual na paisagem urbana. O maior elogio que se pode fazer aos candidatos é a generosidade de quem abdica da sua privacidade.

15.9.09

Por diante, os dias despejados de nuvens


É a centelha que se desprende do horizonte que parece tingido pela escuridão impermeável. As rememorações vagueiam no torpor contíguo à nostalgia, num esforço para trazer dos tempos idos as imagens gratificantes de quem já só pertence à saudade. Uma estranha sensação, a da ausência. Sobrepõe-se a desabituação, como se ao acordar tudo ainda não passasse de um pesadelo. Como se fosse um terrível pesadelo que é desmentido pelo adocicado sabor do acordar. 

De que vale prolongar o torpor da nostalgia? A anestesia que tomou conta de tudo adia-se na demissão do eu. Pode parecer que o corpo se divide entre dois hemisférios: entre persistir no tributo à pessoa ausente que cultiva as muitas saudades e olhar de frente para a existência, aprendendo as lições avivadas por essa ausência. Diante da encruzilhada, quero arremeter pelo caminho que não me aprisione no entorpecimento da melancolia. Conseguindo, mesmo assim, o difícil equilíbrio de prestar tributo a quem partiu.

Lá ao longe, onde a linha do horizonte se confunde com o céu, começa-se a distinguir uma ténue fronteira onde se aclaram as nuvens que teimavam em prolongar o torpor. Aos poucos, as nuvens dissolvem-se à medida que se apaga a anestesia do corpo perante as consumições da ausência. Os dias sombrios são isso mesmo – uma enegrecida existência perfumada pela mágoa. A mágoa que não é nutriente de coisa alguma. A melhor homenagem a quem se ausentou é consagrar a existência dos que dele se despediram. A sagração da vida é essa homenagem.

E os dias hão-de ficar mais claros. A inevitabilidade das coisas que o são acabará por instalar o convencimento de que o torpor da nostalgia desmerece a vida dos que a têm para viver. A candeia alumia-se entre o denso nevoeiro onde o corpo se desorienta. Nem que por momentos pareça perdido no meio do nevoeiro que se entranha nos ossos, consumindo o corpo na dor que se instala. A mão que pega na candeia e a alça pertence à indómita vontade de perseguir a exuberância da vida. A chama, a persistente chama que se solta da candeia, perfura a densa cortina de névoa. A teimosia da candeia empunhada acabará por derrotar o nevoeiro que parecia invencível. Então tudo se aclara.

Os dias despejados que se prometem são a lição aprendida através do crepúsculo que desaguou, por fim, no ocaso. É a força com que as duas mãos se agarraram à existência, superando as contrariedades, sem se amedrontar com os sucessivos sobressaltos que apareceram pela frente. Não serão as forças exangues de quem partiu que semeiam o mesmo comportamento entre quem ficou. Ao contrário: se há alguma virtude na letargia da saudade é o fio condutor com os dias despejados que se anunciam por diante. A tal lição de vida, uma esplendorosa lição de vida.

Eis o convencimento que se enraíza: depois do ocaso não sobra o que ser. Nessa altura, já não há candeias luminosas, nem sequer fugazes centelhas a iluminar  por breves segundos a escuridão dominante. É quando me lembro do lema aprendido com o filme "O Clube dos Poetas Mortos": carpe diem – ou do tutano da vida que tem que ser sugado todos os dias. Enquanto há tutano para sorver. E força e meios para o sorver. Depois disso, quando for tempo do sono final, nem sequer há lugar a arrependimentos.

14.9.09

Esta raiva inútil

O que interessam as interrogações sem resposta? O que interessa saber se há nos interstícios do universo palavras que se compõem em frases inteligíveis, como se fossem as soluções para as equações que se encavalitam? A metafísica – uma espinha encravada na garganta – revela-se, nestas alturas em que a raiva assoma à superfície, uma terrível armadilha. Consomes-te nas interrogações que envias à metafísica. Logo tu, tão negador das coisas metafísicas.

Pelo meio, a espuma da raiva é um veneno que arremete contra a lucidez. Torna-se uma raiva inútil – como serão todas as expressões de raiva. Pode-te invadir uma sensação de injustiça; dirias, com uma doce ironia que é o leito da tua incongruência, uma divina injustiça. Só para sublinhares a prova da inexistência de bondosas entidades divinas. Só para encontrares em ti mesmo a afirmação do que nunca te cansaras de negar. E qual é a urgência em repisar as negações da metafísica? A certa altura desponta a portentosa angústia: de tanto negares deus, de tanto te consumires com a proclamada bondade de deus que nunca é culpado das más coisas que afligem os mortais, entregas-te no minado terreno da metafísica.

Esta é a mortificação maior: a precisão de negar aquilo que não existe. Quando as circunstâncias mais alimentam este estado de negação, o niilismo metafísico é a granada que estoira nas tuas mãos. Quando acordas do êxtase da negação, dás conta do tanto tempo que gastas nas sinuosas estradas da refutação dos deuses. É quando sobra a implacável interrogação: na azáfama de tanto negares o que julgas inexistir, não estás atilado na negação de ti mesmo? Eis a suprema mortificação, a raiva incandescente que irrompe como lava brutal de um vulcão que teima em manter-se acordado.

Regressam, então, mais interrogações. Os espelhos que te emparedam num labirinto asfixiante tornam tudo mais obscuro. O mal é que consegues ver, quando por momentos o discernimento retoma o fio à meada, que nem há espelhos nem as interrogações que povoam os dias de angústia fazem sentido. Talvez seja um refúgio onde fazes de conta que o que os teus olhos vêm não tem sentido, porque o sentido que as coisas têm é dilacerante. E como recusas a resignação da dor como bem da natureza (outro dogma da metafísica reinante), toda a confusão que se espalha é o santuário das coisas ininteligíveis.

Perde-se tempo. Com as culpas que se endossam pelos males que acabamos por suportar. Com as explicações que albergam o esconderijo das coisas como elas são, por mais que seja custoso entendê-las como são. O pior é que neste estado de negação em que soergue uma inútil raiva, quando chega a vez da sensatez e os olhos espreitam por trás dos ombros, tudo o que vêm são os despojos da existência. Os pedaços desconjuntados sangrados pela ebulição dos sentidos. A confirmação da inutilidade da raiva que toma conta dos dias. E das interrogações, das inúteis interrogações que destroçam a unidade do ser e lançam os despojos que crescem, exponenciais, à medida que tudo se consome num turbilhão onde mergulham as contradições em que a existência se debate. 

Quando somos incapazes de aprender as lições legadas por quem queremos homenagear, vemo-nos aprisionados numa vã injustiça de que somos culpados. Não interessam as raivas que incendeiam as veias, as interrogações constantes que se esmagam contra o peito. Não interessa semear os despojos como se fosse uma aliteração da inutilidade da existência. O ocaso desmente-o em toda a sua flagrância. Ao menos, que sobre alguma lucidez para entender a inutilidade da raiva trivial.

Pelo amanhecer, depois de todos os pesadelos que ensombraram o sono, há-de vir a alvorada com a claridade do sol nascente, vista através dos céus despejados de nuvens. É o bálsamo que limpa os vestígios da raiva inútil.

12.9.09

Epitáfio

Os olhos cerrados
segredam o silêncio do teu sossego.
Por fim.
Nesses olhos cerrados
já não há vestígios dos padecimentos inglórios
nem os sobressaltos de um ocaso indigno.
Agora restas tu
e as memórias resguardadas bem no fundo,
de onde ninguém as pode embargar.
E nem que sopre um vento frio,
um vento que enregela até o sangue fervente,
nem que se escutem preces que desaguam num lamento,
nem que digam que a majestosa árvore que eras
foi arrancada pela raiz;
Nada,
nada disso
pode contra toda a ternura que irradiavas;
nada disso
há-de convencer que deixaste de ser a majestosa árvore.

Nos olhos cerrados
resguardas a tua placidez.
Por fim,
a merecida serenidade.
Foi nos olhos cerrados que te escondeste,
enfim,
das traições em que a existência te fez tropeçar.
Vezes de mais.
Há nos teus olhos cerrados uma lição inteira:
como se fosse um renascimento
ainda que sinta que arrancaram um pedaço de mim.
A árvore majestosa,
centrípeta e matricial,
que continuarás a ser
- pois as memórias são intemporais –
fermentou as raízes lá no fundo,
de onde força alguma as consegue remover.
Legando um manto tão fértil
de onde recolho o manancial da vida.

Não:
os teus olhos cerrados
não são um adeus.
São um livro aberto,
o oráculo tão nítido
do porvir que deixaste a sussurrar na serenidade
dos teus olhos cerrados.

11.9.09

A pandemia da gripe é amiga da igreja?


Andam por aí umas teorias da conspiração. Avisam os incautos (todos nós, à excepção dos visionários que destaparam o cobertor da teoria conspirativa) que esta gripe é uma maquinação dos interesses da indústria farmacêutica que tem medicamentos para a curar. E nós, que vamos sendo instruídos no maléfico poder que os capitalistas têm (ainda hoje aprendi com uma aluna, que escreveu numa tese de licenciatura que o grande capital se alimenta da pobreza), devemos desconfiar dos rebuçados que as empresas farmacêuticas apresentam como cura. Para uma doença que, garantem-nos, terá sido inventada só para que os medicamentos tivessem serventia.


(Isto faz-me lembrar outra deliciosa teoria conspirativa. Há quem assegure a pés juntos que os anti-vírus que instalamos nos computadores são da autoria de génios da informática que, por sua vez, são os inventores dos monstruosos vírus que se espalham pela rede, contaminando os computadores que estejam desprotegidos. A isto chamo o síndrome da pescadinha de rabo na boca: o inventor da cura é o mesmo que espalhou o mal. Só para a cura ser vendida a peso de ouro. Talvez seja ingénuo, mas não me convenço que a estupidez humana atinja tamanhas proporções. Nem no pior capitalismo suicidário.)


A gripe que anda por aí ameaça, agora que o Outono está para chegar. Um responsável do governo previu que mais de dez por cento da população vai ser infectada. A massa cinzenta arregimenta-se à volta de planos de contingência. A prevenção é, mais do que nunca, a prioridade. As pessoas devem ser informadas, alarmadas se preciso for, para comportamentos que reduzam as possibilidades de contágio. Mil e uma ideias têm proliferado. Por exemplo, a hierarquia eclesiástica aconselhou os frequentadores de missas a evitarem a saudação eucarística que envolvia contacto físico, torcendo um hábito sedimentado. Há reportagens nas televisões sobre hábitos de higiene que evitam o contágio da doença. Lá para os países nórdicos, desaconselha-se o cumprimento entre as pessoas sempre que trocarem um aperto de mão ou se oscularem no rosto.


A gripe, que já era má por ter conquistado o lugar de pandemia, ainda por cima exige a alteração dos hábitos sociais. Não que isso seja mau – estar parado no tempo é que é mau (menos para os conservadores). Se já muitos denunciam a frieza nas relações humanas com o distanciamento que se cultiva entre as pessoas, agora o fenómeno vai crescer de intensidade. É que se estamos habituados a saudar as pessoas com um aperto de mão ou com dois beijos (ou apenas um, na versão chique e social-democrata), a troca de afectos vai ser desaconselhada mercê da hedionda gripe. Quando a pandemia já só for uma nota de rodapé, se calhar não vamos readquirir os velhos hábitos. Já só cumprimentaremos os outros com um aceno de mão, ou com o vago uso de fórmulas verbais – o que hoje reservamos a quem não conhecemos de lado nenhum. No rescaldo da gripe, estaremos todos mais frios uns com os outros, menos humanos.


Desconfio que a igreja tem esfregado as mãos de contentamento. Se as pessoas ficarem assustadas com este alarmismo, vão rever outros hábitos tão censurados pela igreja católica. Por exemplo, o sexo com estranhos (as deploráveis – pela igreja – "relações esporádicas ou fortuitas"). Quem se arrisca à troca de fluidos com um desconhecido? Já havia a SIDA a pairar como cutelo na (regresso ao jargão católico) "promiscuidade". Os preservativos (por acaso freneticamente combatidos pela mesma entidade) resolviam os riscos de contágio dessa terrível doença. Com a gripe pandémica, o potencial de contágio por causa da dita "promiscuidade" intensifica-se. Sobretudo se os mortais entregues ao prazer carnal forem adeptos de certas "depravações" (e retomo a linguagem católica).


Se eu fosse um cultor de teorias da conspiração, diria que foram agentes infiltrados da igreja que desenvolveram em laboratório o vírus da gripe A e depois o espalharam metodicamente pelo mundo fora. Se os padres já se dispõem a alterar um hábito consagrado nas missas (o abraço, o cumprimento, ou o beijinho "na paz de Cristo"), dir-se-ia tratar-se de uma táctica só para amedrontar crentes e não crentes (sobretudo aqueles). E assegurar que a libertinagem sexual nunca foi tão desaconselhada. Saibam as hormonas responder ao repto da "razão", pois.


E assim a igreja esposou a gripe A, sua aliada da retrógrada moral sexual que insiste em difundir. Haja uma fervilhante criatividade a fermentar as teorias da conspiração, e tudo se torna possível e provável.