
Ainda a insistente publicidade ao tratamento da "disfunção eréctil". É intrigante o silêncio das feministas sobre esta campanha que pretende reviver a tonicidade muscular dos membros masculinos entretanto desmaiados. Poder-me-ão dizer: mas as feministas não se interessam por futebol, por que motivo haveriam de ser espectadoras dos intervalos dos jogos que passam na televisão? Eu contraponho: e não se interessam pelo resultado final proporcionado pelo fármaco publicitado nos intervalos dos jogos de futebol?
É sempre arriscado quando nos deitamos em adivinhações, mas arrisco o exercício: as diligentes feministas não gostam de futebol, ou já teriam inflamado as vozes de protesto contra a execrável desigualdade presente nesta campanha. É que a publicidade é orientada para os machos que deixaram de ser alfa, amolecido que está o órgão reprodutor. Uma vez mais, diriam, o insultuoso viés do género. Continuo a adivinhar (pois não vejo telenovelas – e, outra vez, descaio para o estereótipo de género): nos intervalos das telenovelas passa publicidade a medicamentos que combatem a osteoporose?
Persisto na melindrosa adivinhação: se as feministas perdessem o seu valioso tempo a ver jogos de futebol (ó heresia…), deitavam-se que nem leões esfaimados (correcção: leoas) a quem cauciona esta campanha publicitária por se ter o sexo masculino como alvo. Com fúria, passavam por cima de tudo: publicitários, empresas farmacêuticas, canais televisivos, os detentores dos direitos publicitários nos jogos de futebol. Algumas, tão conhecidas pelo fundamentalismo da causa que defendem a peito, iriam erguer o dedo acusador aos meninos mimados que andam aos pontapés na bola enquanto não passa a publicidade que convence os homens diminuídos na sua capacidade sexual a tratarem a disfunção. Se não houvesse futebol, não havia tanto macho viciado no desporto. E talvez pudessem tratar as consortes com a dignidade que não lhes sabem dar.
Tão zelosas com a sua causa, nem perceberiam – caso se atirassem contra esta publicidade – que estavam a disparar um tiro no pé, atropelando os interesses de quem dizem ser representantes: as mulheres. Ontem quis provar que, no fim de contas, a publicidade à cura para a impotência masculina é democrática, pois as mulheres também são destinatárias – arrisco dizer, destinatárias directas – do efeito provocado pelo medicamento.
Cegas pelo fundamentalismo da causa, atormentadas por todos os fenómenos que perturbem a mirífica igualdade de género à força que ambicionam, nem teriam tempo para apreciar os méritos da publicidade (e do produto em si). Por isso me interrogo, no acto derradeiro do exercício de adivinhação, se as feministas militantes não são frígidas? Que não seja mal interpretado, pois já por aqui apresentei abundantes credenciais anti-marialvas. E como deploro aquela mania ainda muito máscula, mesmo entre gerações mais novas (que parece que só aprenderam as belezas de anacronismos bafientos), que faz da mulher um objecto de comprazimento pessoal. Nisto, defendo que é como na dança: são precisos dois para a função. E os dois devem tirar prazer da função. Com esta "declaração de interesses", suponho que estarei perdoado pelas feministas por algum exagero de linguagem. A menos que as feministas sejam mesmo frígidas e lhes não interessem homens de espécie alguma, marialvas ou a sua antítese, pois as hormonas masculinas têm sempre a palavra final. O maldito sexo, que é sempre bom para os machos e raramente para as fêmeas (na adivinhada abstracção da malta feminista).
Como as hormonas delas parecem ter entrado em hibernação, incomodar-se-iam com a publicidade ao medicamento que anuncia o milagroso tratamento da "disfunção eréctil". A ser verdade que cura o mal, o bem que traz faz-se mal aos olhos das frígidas feministas. Andam a ser negligentes com a sua causa. Têm, naquela publicidade, uma rica matéria-prima para trazerem a causa feminista para a agenda mediática. Quem não protesta cai no esquecimento.
Ou, então, as minhas suposições estão todas erradas. E as feministas estão caladas porque andam contentes da vida. Por também terem sido destinatárias (directas) do fármaco que arrebitou os parceiros.















