16.6.26

A música já não é o que era, ou o mundo, de tão doente, contaminou a música? (Impressões sobre o Primavera Sound Porto 2026)

Massive Attack ft. Elizabeth Fraser, “Song to the Siren” (live at Primavera Sound Porto 2026), in https://www.youtube.com/watch?v=MrT-lydA1Wo

Depois de três dias de concertos no Primavera Sound Porto, a problemática da politização da música (ou da música politizada) veio à colação para quem, como o autor, estuda e investiga Ciência Política, é frequentador assíduo de concertos e nunca faltou a uma edição daquele festival. Ao longo dos anos, o inventário de concertos que se colam a mensagens políticas não obedece a um rigor estatístico, resultando de uma impressão que mergulha numa comparação intertemporal. A favor do rigor estatístico, recordo que dos doze concertos a que assisti do início ao fim nesta edição do festival, cinco tiveram essa carga política. Quase metade.

A problemática da permeabilidade das artes à política, ou da politização de manifestações artísticas, não é nova. Já escrevi sobre a simbiose entre teatro e política. Como sinto que, de ano para ano, mais músicos trazem a política para os discos e, sobretudo, para os concertos, a dialética entre as artes e a política aviva-se. Se defender que a música não deve ser contaminada pela política, estou a tomar partido e a cercear a liberdade de expressão dos músicos? Quem sou eu para julgar um músico pelo conteúdo político que ele(a) empresta à sua criação artística sem que o(a) artista reaja acusando-me de invadir a sua esfera pessoal e a sua liberdade de criação artística? 

Para este texto não ser treslido, apresento a meu favor a seguinte declaração de interesses: não me motivam preferências ou dissemelhanças ideológicas e políticas como critério de avaliação artística. Não são os pergaminhos políticos de um(a) artista que servem para me aproximar ou afastar dele(a). Guio-me pela estética para escolher o(a)s músico(a)s que estão na minha setlist. Não deixo que o preconceito político, tão exacerbado nestes tempos de polarização em que pessoas furiosas atiram-se umas contra as outras, influencie as minhas escolhas. Se tiver algum propósito, digo que músicos ou bandas como Robert Wyatt, Billy Bragg, Massive Attack, IDLES, Yard Act e Viagra Boys (as quatro últimas bandas com passagem pelo recente Primavera Sound Porto) integram as minhas preferências musicais.

A exposição de músicos e bandas à política tem aumentado. Como não há coincidências que se autojustifiquem, poder-se-ia ensaiar uma causalidade: se a música se abre à política, será porque a política nacional e internacional está ainda mais doente e os artistas não são insensíveis a essa patologia? Os artistas têm um dever de intervenção cívica e servem-se da música para despertar a sensibilidade cívica de quem os ouve? Mas, nesse caso, a música não está a ser adulterada pela política? Não perderá a genuinidade artística que os puristas reivindicam para a música (e para as demais artes)? Ou a música nunca deixou de ser de intervenção? 

Duas derradeiras (e provocatórias) interrogações: e se os músicos amplificassem a retórica que se alista do lado contrário da trincheira, teriam o acolhimento que têm? Essa audiência continuaria a frequentar concertos e a ouvir bandas que divulgassem mensagens políticas que são objeto da sua reprovação?

Uma dúvida desperta as minhas reservas sobre o ativismo político de um número crescente de músicos: quando sobem ao palco e entoam pregões com carga política, não se insinua uma invasão da esfera individual de quem está na plateia? Quando músico(a)s repetidamente proclamam “Free Palestine” (é só um exemplo) com um tom de imperativo categórico, essa manifestação política não é um “convite” à concordância obrigatória do público? O que dizer da liberdade do público perante as manifestações políticas dos músicos? – tendo em conta que o poder de persuasão de um(a) músico(a) ao pegar no microfone e debitar nos muito altos decibéis uma frase política não é o mesmo que o de alguém que, sozinho e no meio da turba, profira algo nesse ou em sentido contrário.

(Outro registo de interesses se impõe como medida cautelar, para não ser mal interpretado pelos prosélitos da causa palestina: o que Israel tem feito, sobretudo em Gaza, mas também (recentemente) no Líbano, é ilegal e ilegítimo e devia ser motivo de ampla condenação internacional se os contornos da ordem internacional não fossem, infelizmente, os que são. Também defendo que os jovens e menos jovens que se excitam com proclamações públicas a favor da libertação da Palestina se informem devidamente sobre as virtudes do Hamas – ou sobre a biografia de Che Guevara, a título de exemplo.)

Quando o concerto dos Massive Attack se transformou num enxurro de mensagens com forte carga política, sobrepondo-se umas às outras (com episódica falta de rigor histórico, a somar-se a algumas escolhas duvidosas que, todavia, podem ser justificadas pelo subjetivismo), assaltando o pensamento de quem assistia, senti que a música tinha sido desterrada para um plano secundário. A instalação (proponho o termo com um propósito intencional) tornara-se política, com a despromoção da vertente artística. Perguntei à minha parceira, tão experiente nestas lides quanto eu, se o concerto não tinha sido adulterado.

Como professor universitário há mais de trinta anos, coleciono uma amostra representativa de sucessivas gerações que foram passando pelos bancos da universidade. Geração após geração, noto um desinteresse pela política, nacional e internacional, uma apatia que não se justifica pela falta de fontes de informação (pelo contrário), mas sim por um desinteresse congénito. Não se interessam pelo que os rodeia. O que não quadra com os pulmões que se abrem em uníssono quando um artista intercala duas músicas com o pregão “Free Palestine”, denotativo de um conhecimento da causa, a crer na forma imediata com que jovens e menos jovens reagem, quase pavlovianamente, ao repto do(a) artista.

Talvez eu esteja ao defender a separação das águas entre cultura e política. A certa altura, cruzei-me no recinto do festival com um jovem que envergava uma t-shirt com a mensagem “everything is political” (desconheço se a t-shirt se inspirava em Aristóteles). Preparemo-nos para uma nova cumplicidade entre música (e as outras artes) e a política. Enquanto (ou se) a política não se curar.

15.6.26

Não é preciso esconder os defeitos

Boards of Canada, “Hydrogen Helium Lithium Leviathan”, in https://www.youtube.com/watch?v=hGMIycYqvc4

Processo de cosmetização em curso: a maquilhagem abundante disfarça as fragilidades que convém ocultar. Já não falta muito para sermos, enfim, perfeitos.

Nem sempre se assume a condição humana. Dela faz parte a imperfeição. Estamos fadados para o exercício da rasura. Quando é ensaiado, o propósito é conceber alguém despido das suas fragilidades, entretanto identificadas e corrigidas. Mas os defeitos não têm de ser ocultados. Muito menos se impõe que sejam corrigidos ou superados, para corresponder ao intento da perfectibilidade. 

O erro crasso não é disfarçar os defeitos; é presumir que, depois de inventariados, os defeitos têm de ser disfarçados. Se a empreitada estivesse ao alcance de todos, a humanidade teria assegurado a extinção das fragilidades que a denotam como humana. O erro de disfarçar defeitos, ou – o que agrava a condição – de tentar corrigi-los, leva à desumanização em curso. As atenções estão desviadas para o processo que nos convence de que podemos estar a caminho da perfeição. Não pode haver maior anátema a abater-se sobre as pessoas.

O processo tem de ser virado do avesso. Os defeitos fazem parte das pessoas. Aceita-se que alguns, os mais pungentes, aqueles que podem dilacerar as veias por dentro e atirar as pessoas contra as asperezas de um pesadelo, possam motivar uma correção. São os defeitos reversíveis que não esvaziam a condição humana, que sempre esteve à margem da perfeição. Outros há que dispensam tentativa de cura. Estão entranhados, participam da fragilidade intrínseca. Ao querer reverter esses defeitos, contraria-se o húmus da dimensão humana: esses defeitos fazem parte da identidade da pessoa. Desfazê-los é falsear essa identidade. 

A humildade recomenda que os defeitos sejam assumidos. Sem acolher a desafortunada saga dos defeitos que podem ser virados do avesso pela simples ativação da vontade. Esses defeitos pesam toneladas. Fingir que têm a leveza das coisas que pesam uns meros gramas é adulterar o eu que as assim pressente.

12.6.26

Siameses

Gorillaz ft. Black Thought, Ajay Prasanna & Anoushka Shankar, “The Sad God”, in https://www.youtube.com/watch?v=fQE0FnpfqQo

As cortinas descem sobre o entardecer. Como se fosse uma fronteira, entre a senescência de um dia tardio e as juras que despontam com a aurora da noite. Dizem que há sempre uma alma gémea. Mas é um logro descobrir um forasteiro a nós que seja a nossa imagem simétrica. O que faríamos com uma alma assim siamesa?

Os olhos viram-se do avesso e procuram as bainhas. Mergulham no avesso de si mesmos, decantam as fragilidades, os encantos, a pouca matéria invejável, um imenso rol por conta do que se convencionou chamar pecados. Fica a alma suja à mostra, sem esperar por redenção. Apenas os vestígios puídos que sobram da diligência do passado, as veias permeáveis a sindicâncias alheias. Se não for pela interior digressão da alma própria, será pela descoberta da alma siamesa.

O processo pode ser heurístico. Aqueles que escolheram um espelho generoso, que de si devolve uma pródiga imagem, que são perseguidos por um estado de negação que os impede de assistir à auto-decadência. A descoberta de uma alma siamesa pode ser o gatilho para o desvio heurístico. A alma siamesa devolve o sentido puro da alma reproduzida. Como se o sujeito estivesse sentado na plateia de um grande cinema, habitado apenas por si mesmo, assistindo a um filme a preto e branco que reproduz o avesso das suas memórias.

Fora disso, tropeçar numa alma siamesa pode ser didático. Há fragilidades, pecadilhos, toda uma matéria que não é invejável e que volta a ser sopesada. Desta vez, com a vantagem de o ser de fora para dentro. A alma siamesa pode ensinar que as fragilidades, os pecadilhos e toda a matéria invejável (ou alguma dela) coabitam com o sujeito num estado de extravagância. O exagero no diagnóstico será uma defesa própria contra a imodéstia, um refúgio que justifica os fracassos que se inscrevem no livro de memórias. Passá-los em revista amortece o diagnóstico destemperado. E ajuda a recuperar um sentido de estima que tinha sido erradicado por excesso.

Depois disso, a alma siamesa dissolve-se como o nevoeiro que se eclipsa na manhã que amadurece. Cumprindo o seu propósito.

11.6.26

Uma ideia sobre a idade (short stories #512)

The Fall, “What About Us?” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=_godSE6RJy0&t=155s

           Os parênteses são muito úteis. Ativam as intermitências que interrompem o curso do tempo. Não fica mal para aqueles que precisam de ludibriar o tempo, travando a sua marcha que se traduz no avanço da idade. Às vezes, tudo depende de saber encontrar um parêntesis e ativá-lo devidamente. Suspende-se a contagem do tempo e a idade sofre um revés, mas um revés que entontece pela dilação do tempo à mercê. Fala-se em retardamento da idade, confirmando-se que a idade, à medida que avança, é um anátema, uma sublevação contra as capacidades de outrora. Nessa descontinuidade, é como se habitássemos no exílio do tempo, ou como se o tempo tivesse deixado de contar como conta fora destas simulações. Simula-se o tempo. O exercício pode ser válido sem que o tempo físico se detenha; é só inventariar empreitadas que recomendem uma idade diferente da averbada, num aproveitamento retroativo do tempo que apenas se faz sentir no presente. Cobra-se do tempo a usura pretérita de que foi procurador. O parêntesis aditivado é uma vingança deformada sobre o tempo. Todos sabem que o tempo não satisfaz os caprichos mundanos dos que gostavam que ele obedecesse a um ritmo vagaroso. Cabe-nos travar as causas que fingem um tempo diferente. Não passa de um fingimento. Mas há fingimentos que são toleráveis, quando estão ao serviço de uma causa que os legitime. O problema é que o tempo não se adia por todo o tempo. Nem no seu fingimento ardiloso, que não é eterno. Quando o parêntesis vertido ao pescoço do tempo prescreve, os esforços que o aldrabavam revelam-se venais. O tempo pode desabar com toda a sua contundência. Para participar do entendimento de que não devemos ser devedores de dívidas invencíveis. Os seus juros somam-se à usura que o tempo não perdoa. 

10.6.26

Tudo o que queria saber sobre caixas de Pandora (short stories #511)

Sigur Rós, “Viðrar Vel Til Loftárása” (live from Heima), in https://www.youtube.com/watch?v=_XKdJj2WmoA

          Disseram que uma caixa de Pandora é um palimpsesto, mas só se dentro dela estiverem outras caixas de Pandora dentro de outras caixas de Pandora (e assim sucessivamente, citando o famoso cineasta). Mas uma caixa de Pandora pode não conter outras caixas, sejam elas de Pandora ou de qualquer outra marca. Pode nem sequer albergar caixas, mas um labirinto de coisas diversas que ampliam a complexidade quando alguém adverte que outrem se prepara para abrir uma caixa de Pandora. A culpa não pode ser de Pandora, que foi atirada para o meio de uma força de expressão (ou de uma figura de estilo) sem ter feito nada para ser responsável pelo anátema e sem ter sido consultada. Se conhecerem uma Pandora, não carreguem as suas costas com uma culpa que não é dela. A culpa é de quem se refugia numa metáfora e se serve, indevidamente, do nome de Pandora para representar um casuísmo problemático. Um cabo de trabalhos – esta podia ser a expressão sucedânea de “caixa de Pandora”. O problema é das pessoas que se abeiram da vertigem de um abismo sabendo que o abismo tem essa propriedade. Mesmo assim, não travam a marcha. Constroem as suas próprias caixas de Pandora. Como se pode acusar Pandora por um ato que é da responsabilidade de quem se atravessa no limiar de um precipício? São as pessoas que complicam as suas empreitadas. Ato contínuo, endossam a culpa para uma caixa de Pandora que sirva de pretexto para se isentarem de culpas que são apenas suas. Não digam a Pandora, para ela não ficar refém de um mar com sabor a perene injustiça. Os fazedores da semântica deviam voltar atrás e banir a caixa de Pandora das metáforas admitidas a concurso (a menos que Pandora se tenha servido de uma caixa para semear o caos entre os circunstantes). Até porque ninguém sabe o que está dentro da caixa antes que ela seja aberta sem o consentimento de Pandora.

9.6.26

Sobre a decisão de não decidir

Ólafur Arnalds, “New Grass”, in https://www.youtube.com/watch?v=Aoh2hFXU8VM

Os profetas que encenam o futuro, para além do logro de reivindicarem a seu favor um oráculo qualquer (o que funciona como agravo), vaticinam decisões imperativas. Protestam contra os timoratos que ficam presos às teias da indecisão. Os que não conseguem tomar decisões, por medo ou hesitação, são atacados como se deles emanassem os grandes males do mundo. 

Podiam ser condenados, estes profetas malignos, pelo simples delito de invasão da vontade do outro. As decisões são um reduto de quem as tutela. Poder-se-á argumentar, em socorro dos que ajuízam a capacidade decisória alheia, que somos gregários e que há decisões (muitas, porventura) que não pertencem apenas à vontade de quem as toma. Como dependemos uns dos outros, os juízos sobre as decisões ficam abertos à intervenção (benévola, assume-se) de quem possa bulir com essa decisão. 

Os benévolos julgadores das decisões dos outros podem reclamar contra a inércia de quem devia ter tomado uma decisão, pelos danos causados pela inatividade. O adiamento da minha decisão, ou a decisão de não tomar nenhuma decisão, pode ser daninho para outros que possam ser atingidos pelos efeitos da minha não-decisão. Assim se justifica a sindicância contínua que devemos exercer sobre as decisões dos outros.

O protesto de quem se amotina porque alguém não tomou uma decisão é ilegítimo. Sobretudo se for invocada a covardia ligada à incapacidade ou à falta de vontade de tomar uma decisão. Preferem que uma decisão tenha a sua madrugada, mesmo que os efeitos sejam catastróficos. Para eles, uma não-decisão é sempre pior do que uma decisão que terraplana o bem-estar do próprio e de outras pessoas apanhadas pelo caminho. 

Estes profetas têm de ser denunciados. Primeiro, um mal maior é sempre maior do que mal algum. Por maior que seja o mal imputado a uma não-decisão, até prova em contrário esse é um dano menor do que o mal documentado por uma decisão. 

Segundo, uma não-decisão acaba por se tornar numa decisão, o que anula a legitimidade de quem se mobiliza para atacar os indecisos (se outros argumentos não fossem suficientes). Se eu decidir nada fazer nada, essa não-decisão é uma decisão. Anulando, à partida, o palco a que sobem as sumidades carregadas de moralismo com a onerosa missão de escrutinarem as decisões dos outros e que se abespinham quando esbarram numa não-decisão.

8.6.26

E se o turismo acabasse?

Nine Inch Nails, “Just Like You Imagined” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=kTqWeZZqrcI

Dizem que é a maior indústria da economia nacional. Que dependemos cada vez mais da bondade dos estrangeiros que escolhem este país como destino e deixam aqui rios de dinheiro, alimentando a multiplicação da riqueza e a criação de empregos (mesmo que sejam sazonais). O turismo alimenta hotéis, estabelecimentos de turismo de habitação, alojamentos locais, a indústria da construção civil que constrói os locais onde os turistas pernoitam, restaurantes e toda uma gama satélite de pequenas indústrias que dependem da procura dos turistas (alugueres de automóveis, guias turísticos, visitas a museus e a outros locais de interesse, lojas de recordações, e por aí fora).

Os ganhos estão quantificados: o turismo vale à volta de 20% da riqueza do país. Se o turismo desaparecesse, a economia seria amputada nessa ordem de grandeza. Com as perdas associadas: falências de alojamentos locais, turismos de habitação, hotéis (com a probabilidade a aumentar dos estabelecimentos financeiramente mais frágeis para os mais sólidos); o encerramento de restaurantes, sobretudo aqueles que reproduzem tiques da cozinha internacional, ou de gastronomias que têm sucesso internacional; a indústria da construção civil, que teria de parar a construção de hotéis e a renovação de apartamentos destinados ao alojamento de turistas; o nicho dos sectores alimentados pelo turismo: lojas de recordações, guias turísticos, alugueres de automóveis, os museus com receitas comprometidas; e todo o emprego suprimido, com o crescimento expressivo do desemprego e os inerentes custos sociais (e psicológicos) e as suas ramificações económicas: menos gente a trabalhar no turismo implica menos rendimento distribuído e menos consumo, o que afetaria, em momento posterior, outros sectores de atividade. 

Se o turismo acabasse (temporária ou definitivamente), o marasmo económico instalar-se-ia, com a desertificação das cidades e dos locais turisticamente atrativos. Mais importante do que os custos económicos, a ausência de turismo representaria uma mudança na geografia social. Seríamos um país menos cosmopolita. Nas ruas das cidades que mais atraem turistas, deixar-se-ia de ouvir uma constelação de idiomas que se sobrepõem ao idioma local. Os nativos deixariam de aprender a língua franca do turismo como obrigação mínima de adesão profissional. Os nativos deixariam de se cruzar com uma pluralidade cultural de pessoas. A morte do turismo tornaria o país homogéneo, com o consequente enfraquecimento social. 

Os prosélitos da portugalidade gloriosa, os que olham sempre desconfiados para o outro (mesmo para o turista que lhes traz, direta ou indiretamente, o sustento) ficariam regalados com tanta mesmice étnico-cultural, com o português como único idioma escutado nas ruas, podendo então exultar que esta é a terra genuína dos patrícios. Estas serôdias personagens deixariam de se incomodar com estrangeiros, com ementas de restaurantes na língua franca (com precedência sobre o português), com o tratamento preferencial reservado aos turistas que é uma humilhação para os patrícios. Deixariam de se incomodar ao encomendarem os turistas à sua terra.

Quem levanta a possibilidade da extinção do turismo é uma conferência internacional (Tourism Con). Pode não ser uma simples conspiração apocalíptica ou um instinto especulativo: segundo a mais fina análise dos peritos, se a guerra no Golfo Pérsico demorar e o combustível dos aviões tiver de ser racionado, ou se o seu abastecimento vier a ser interrompido, os aviões vão deixar de despejar multidões de turistas, interrompendo o turismo. 

5.6.26

Quando um ex-primeiro-ministro perora sobre putas

New Order, “Your Silent Face” (live at Hacienda), in https://www.youtube.com/watch?v=0tly9uwbb8Y

Passos Coelho deve dormir mal todas as noites. 

Todos temos direito às nossas preferências, e as preferências políticas não escapam a esse princípio. E todos temos o direito de expressar a divergência quando for o caso. Deve haver modos, um código de conduta que não abandone a cortesia, ou, de outro modo, o debate político torna-se insuportável e corre-se o risco de causar uma fratura exposta entre a política e os cidadãos, com custos para a qualidade da democracia. Há pessoas que têm responsabilidades especiais. Antigos primeiros-ministros situam-se entre elas. Não é a mesma coisa eu chamar prostituto(a) a um(a) político(a) – sendo certo que não me livro do merecido enxovalho – e um ex-primeiro-ministro vir a público fazê-lo

Passos Coelho é um exemplo de esquizofrenia política. Um séquito numeroso espera por ele, dando corpo ao sebastianismo inacabado que atrasa o nosso devir. Mas Passos não admite que as suas repetidas aparições públicas façam parte de uma estratégia que o coloca no centro do palco político. Ao mesmo tempo, Passos valida anticorpos cada vez mais acirrados, mobilizando os seus opositores num nostálgico consenso que os une acima das divergências. Os anticorpos também crescem à direita, as pessoas começam a não ter paciência para aturar o rancor e o ressentimento que transbordam por todos os poros de Passos.

A mais recente diatribe foi acusar políticos que fazem concessões ao populismo de serem “prostitutos sem carácter”. Na altura em que estas palavras foram ditas, Passos estava sentado ao lado de Ventura, o campeão nacional do populismo. Contudo, a imprensa exercitou os dotes hermenêuticos para ler as palavras de Passos nas entrelinhas: o remoque era para o primeiro-ministro que, em tempos, foi seu fiel escudeiro no parlamento. As pessoas zangam-se no seu percurso de vida e sabemos de amizades fortes que foram destroçadas por mal-entendidos ou por caminhos que se separaram por mil e uma razões. Não vem mal ao mundo que Passos se dedique a dar assíduas alfinetadas em Montenegro. Se são apenas ajustes de contas ou uma indisfarçável sede de protagonismo para colocar Passos na rampa de lançamento para suceder ao atual primeiro-ministro, o futuro o dirá.

O exposto acima é um (longo) exórdio sobre o que me chamou a atenção. Passos acusou alguém de ser um “prostituto sem carácter”. Não vale a pena perder latim com a elegância de quem assim se refere a um par seu – não, Passos não está politicamente inativo, como provam as suas constantes aparições e a atenção sanguínea que a comunicação social dedica às suas palavras. O que me importa é a confissão de Passos: ele perceberá de putas, ao ponto de revelar que as há “sem carácter”, pelo que se pode inferir que também as há “com carácter”. 

Os plumitivos, como é habitual, passaram ao lado do mais significativo e ninguém perguntou a Passos pelos critérios que permitem distinguir uma puta com carácter de uma puta sem carácter. Sem esses termos claramente delimitados, torna-se mais difícil para o destinatário das palavras bombásticas (nós, não o visado por elas) perceber a gravidade da acusação. Quais são os traços típicos de uma puta sem carácter? O que precisa de alcançar para transitar para o estatuto de puta com carácter? 

Tem a palavra Passos Coelho, agora também catedrático em putaria.

4.6.26

No futuro é que era tudo bom (Nietzsche entra num programa de culinária)

Cold War Kids, “Hang Me Up to Dry”, in https://www.youtube.com/watch?v=LrrGKR8Xii4

O reboliço por causa da inteligência artificial (IA) continua a aumentar. As posições estão extremadas: os defensores advertem que ninguém conseguirá viver sem ela e os detratores pintam cenários catastróficos que, no pior dos casos, passam pela anorexia humana. Pelo caminho, todos os dias a IA envia notícias que vão deixando muitas pessoas boquiabertas. Parece que a IA apressa o futuro – ou que, através dela, sentimos que ele chega mais depressa do que contávamos (o que não é necessariamente uma boa nova).

Os conservadores de vetusta linhagem, aqueles que se ajuramentaram conservadores porque o seu otimismo antropológico os leva a defender as virtudes do que é virtuoso (e se é virtuoso não deve ser permeável à mudança), desconfiam da IA. Não se convencem com a ajuda da IA em tarefas que, de outro modo, consomem muito tempo e são fastidiosas. Desconfiam do mau uso que pode ser dado à IA. São eles que ostentam na lapela a divisa “dantes é que era bom”, enquanto sacodem a poeira do fato de três peças ou do vestidinho que, desmaiado, cai sobre os seus corpos largos.

Os vanguardistas excitam-se com as possibilidades da IA. Olham em retrospetiva e anotam a velocidade estonteante do desenvolvimento da IA. E observam que cada vez mais gente recorre à IA. Não se preocupam com o uso indevido, à sua maneira também são otimistas antropológicos. Subtraídos os que ajuízam em causa própria (porque alimentam o desenvolvimento da IA), os demais estão em condições de anunciar que no futuro é que era tudo bom. 

Há dias, descobri uma música dos Gorillaz que usa a voz de Mark E. Smith, que foi vocalista dos Fall e faleceu em 2018. A voz de Smith é manipulada pela IA, porque a tecnologia ainda não permite resgatar a voz de um defunto. Não sei como terão reagido os familiares de Mark E. Smith (ou se terão sido consultados para autorizar a utilização da voz do cantor), mas deve ser estranho ouvir uma voz que vem do além. Com a IA, tornou-se possível ir buscar vozes ao além – e agora já existe uma geolocalização precisa do além, é só perguntar à IA que ela trata de descobrir. 

Um dia destes, vamos ter o prazer de assistir ao programa de televisão de Nigella Lawson em que o convidado é Nietzsche. É só mais um passo à frente: com Mark E. Smith, a voz veio do além para cantar o refrão de uma música dos Gorillaz; no caso do programa de televisão de Nigella Lawson, serão todo o corpo e voz de Nietzsche somados, com a cortesia de uma IA ainda mais avançada. Para mais tarde, será decidido que palavras serão ditas pelo filósofo (ou se fica ao critério volitivo da IA), antes que ele termine a sua participação no programa abrindo a boca para degustar os pratos preparados em conjunto com a anfitriã. 

 E quem imagina a clonagem da voz de Mark E. Smith ou, num nível mais avançado, os dotes gastronómicos de Nietzsche, é só o início de um mundo de possibilidades. Fica ao critério da imaginação humana, com a prestimosa colaboração dos sistemas de IA, até estes esgotarem a necessidade da imaginação humana.

3.6.26

Truz, truz, vem aí o demónio

Gorillaz ft. Mark E. Smith, “Delirium”, in https://www.youtube.com/watch?v=yw8ftPahxAg  

Na linha do sobrolho, voluteiam sombras sem nome. As pessoas tremem de medo. As sombras sem nome nunca foram boas conselheiras. Algumas pessoas aproveitam para regressar à História e aconselhar os outros, aqueles que de História dispensaram o conhecimento, a com ela se travarem de razões.

O medo é um acinte que leva a franzir o sobrolho. A gravidade da ameaça intuída não contempla a possibilidade do sorriso. Só os frívolos, ou os lunáticos, é que teriam o desligamento que os pusesse de acordo com sonoras gargalhadas. Os que não põem de parte a hipótese de dias prostrados pela vontade dos vultos que se emancipam das sombras, censuram os frívolos (ou os lunáticos) que desvalorizam a ameaça que pende. 

À ameaça que pende, respondem com o medo também pendente. É da massa humana: os contratempos que adulteram o sangue, levando-o à ebulição própria de quem sente a sobrevivência em causa, desatam um medo racional. Mesmo que as sombras que esvoaçam e anunciam foices mortíferas estejam cativas de conspirações, o medo sobrepõe-se. É como se quisessem prevenir os apocalipses que podem rimar com o porvir e aforrassem o medo como se fossem espadas prontas a esgrimir se os vultos vierem bater à sua porta.

– Truz, truz, aqui estamos nós, os vultos que aferroam os vossos sobressaltos, como se fôssemos vampiros prontos para beber o vosso sangue em ebulição

Os vultos que adejam são versáteis. Variam de acordo com as diferenças das pessoas que sofrem sonos sobressaltados com o estigma de um vulto que está preparado para locupletar o seu sossego. O que são fantasmas terríficos para uns, motiva a indiferença a outros. O que para estes constitui um medo capaz de povoar pesadelos medonhos, não cativa a atenção dos outros. Para todos, há sempre um som que ecoa em surdina, como mnemónica do medo de que não se podem desligar: “truz, truz”, como onomatopeia dos vultos que os escolheram como presas. 

É um medo racional: as pessoas aprenderam, na sua própria história e com a História de todos nós, que não podem baixar a guarda. A propensão para a ingenuidade não pode fazer concessões aos sobressaltos que desarrumam uma vida. O medo é o mediador entre elas e as ameaças que sobre elas pairam. Para não ficarem desprotegidas quando ouvirem o “truz, truz” medonho a ressoar às suas portas.

2.6.26

Os jovens universitários embebedam-se, fazem figuras tristes e ajudam a desmascarar outras, ainda mais tristes, figuras de distintos zeladores da moral (desses que nunca terão dado o seu contributo para o capital universal de tristes figuras)

Mayura, “Summer of Hate”, in https://www.youtube.com/watch?v=KLjTa1epTck

O cenário do costume: estudantes universitários fazem o que se convencionou chamar “tristes figuras”, agora que abriu a época das festividades estudantis. Há sempre um repertório de novidades quanto às bizarrias e aberrações às quais os estudantes, sob o efeito abundante de álcool, se entregam com galhardia e inventividade. De ano para ano, surgem imagens públicas de estudantes que inventam algo que os diferencia dos seus antecessores.

Este rosário de bizarrias e aberrações motiva a intervenção diligente dos habituais procuradores dos bons costumes. Aproveitam para tecer juízos contundentes sobre a frivolidade dos estudantes que, perdidos de bêbados, se entregam a estes rituais (se é que se lhes pode chamar assim). Os procuradores dos bons costumes, alguns habituais residentes nas esquerdas, exibem um conservadorismo que só é inesperado para os distraídos ou os preconceituosos. Atiram-se furiosamente aos jovens que, desgraçados com tanto álcool ingerido, são o alvo preferencial de filmagens anónimas que nem sequer se lembram de violar leis que defendem escrupulosamente os dados pessoais – ou será que a filmagem das estudantes bêbadas a tomarem banho numa fonte coimbrã, sem terem despido os trajes académicos, foi obtida com o seu consentimento? Eis como estes conservadores disfarçados dão o pior exemplo do que é, afinal, esvaziar leis que procuram enraizar novos costumes fundados na dignidade das pessoas. 

Mas o que interessa – de permeio com umas alfinetadas à academia coimbrã, tão vetusta e, consta, nos antípodas do que deve ser uma universidade – é cobrar as tristes figuras que os estudantes andam a fazer em plena luz do dia. Há pior coisa do que estar com uma bebedeira descomunal ainda antes do anoitecer? Os juízos morais são implacáveis e desaguam num lamento que se mistura com perplexidade: estes estroinas, que não se sabem comportar em público e se voluntariam para um exercício circense de si mesmos, são as gerações que amanhã vou ter o poder na mão. Triste fado o que nos está destinado, lamentam estes velhos do Restelo.

 O que estes procuradores da moralidade vigente (ou de uma moralidade inventada por eles) não percebem é que sucessivas gerações passaram por figuras semelhantes quando tinham a idade dos estudantes que agora são alvo do apedrejamento público. O que querem? Prendê-los em casa, numa espécie de castração que será do agrado desses sectores que não escondem a sua propensão autoritária? Ou, numa versão menos radical, deixá-los sair à rua, mas obrigá-los a respeitar um código de conduta enquanto se divertem (que é outra forma de castrar a liberdade de quem se quer divertir)?

O que é mais injusto é que (pode-se adivinhar) estes moralistas cobertos de naftalina também terão tido a idade dos jovens que agora são duramente criticados, também passaram pelos seus momentos de insanidade boémia e à sua conta foram autores de figuras que também se têm por tristes. Quando os vejo, cheios de soberba, a sentenciarem fulgurantemente estes estudantes a um futuro desprezível, imagino-os a desfilarem como autênticos bobos da corte porque no seu tempo, dentro ou fora de celebrações académicas admitidas ou não pelos costumes, se prestaram a esse papel. 

Quando os vejo neste papel, sinto pena deles. A sua acerba é a confissão, por palavras intermediárias, da nostalgia que os consome. Envelheceram mal. Tão mal que disfarçam, na dura censura a que encomendam os jovens no exercício do legítimo direito à boémia, a nostalgia do que já não conseguem ser. Estes procuradores rezingões estão a morrer e ainda não deram conta.

1.6.26

Chega ter vergonha na cara?

Bauhaus, “Passion of Lovers” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=0YPahEmS-74

A vergonha é uma conversa fiada. Porque, quase sempre, quem mais suporta o ónus da vergonha são os que acusam os outros de serem trespassados pela vergonha. 

Uma das expressões idiomáticas que corporiza a vergonha ajuda a sistematizar o fenómeno: fala-se de “ter vergonha na cara”, uma medida minimalista de vergonha, pois de fora dela fica o resto do corpo. Os juízes do comportamento irrepreensível dos outros (apenas dos outros) disparam a interrogação “não tens vergonha na cara?” com a veemência própria de um inquisidor que zela pelos bons costumes e pelo cimento da moralidade do grupo a que pertence. Não obtêm resposta. Os delituosos não reconhecem o estatuto do inquisidor e recusam-se a dialogar com ele, ou estão tão embaraçados com o tamanho da vergonha em que foram arrolados que a vergonha dessa vergonha emudece-os. 

Ao formularem a questão naqueles termos, os modernos inquisidores correm o risco de um despudorado subir tão alto na escala da vergonha que soma mais uns metros na vergonha que o cobre ao responder “só tenho vergonha na cara, no resto do corpo, não.” Estão cobertos de razão (outros diriam: estão cobertos de vergonha – mas não se nota). Para que hão de os inquisidores ter o trabalho de endossar a nota de culpa por uma vergonha que cobre apenas o rosto, se cerca de oitenta por cento do corpo fica protegido da vergonha? Uma vergonha a vinte por cento será uma vergonha que chega para acender os holofotes da censura social?

Dirão: o problema está a ser treslido, a vergonha, quando existe, percorre o corpo de cima a baixo. O problema é a literalidade da expressão idiomática que consagrou apenas o rosto como selo da vergonha que cobre a pessoa. A expressão idiomática deixou de fora a parte mais importante da vergonha. Quem for acusado de não ter vergonha na cara tem matéria-prima qualificada para se defender: dirá que pior seria se lhe perguntassem se não tem vergonha da cabeça aos pés.

Sobra ainda a hipótese de os inquisidores não serem tão implacáveis como se julga, medindo a vergonha dos outros apenas pela área correspondente ao rosto. Será uma forma generosa de tratar a vergonha alheia. A vergonha já magoa os próprios; não é preciso que juízes de fora a agravem com o seu juízo.