10.6.26

Tudo o que queria saber sobre caixas de Pandora (short stories #511)

Sigur Rós, “Viðrar Vel Til Loftárása” (live from Heima), in https://www.youtube.com/watch?v=_XKdJj2WmoA

          Disseram que uma caixa de Pandora é um palimpsesto, mas só se dentro dela estiverem outras caixas de Pandora dentro de outras caixas de Pandora (e assim sucessivamente, citando o famoso cineasta). Mas uma caixa de Pandora pode não conter outras caixas, sejam elas de Pandora ou de qualquer outra marca. Pode nem sequer albergar caixas, mas um labirinto de coisas diversas que ampliam a complexidade quando alguém adverte que outrem se prepara para abrir uma caixa de Pandora. A culpa não pode ser de Pandora, que foi atirada para o meio de uma força de expressão (ou de uma figura de estilo) sem ter feito nada para ser responsável pelo anátema e sem ter sido consultada. Se conhecerem uma Pandora, não carreguem as suas costas com uma culpa que não é dela. A culpa é de quem se refugia numa metáfora e se serve, indevidamente, do nome de Pandora para representar um casuísmo problemático. Um cabo de trabalhos – esta podia ser a expressão sucedânea de “caixa de Pandora”. O problema é das pessoas que se abeiram da vertigem de um abismo sabendo que o abismo tem essa propriedade. Mesmo assim, não travam a marcha. Constroem as suas próprias caixas de Pandora. Como se pode acusar Pandora por um ato que é da responsabilidade de quem se atravessa no limiar de um precipício? São as pessoas que complicam as suas empreitadas. Ato contínuo, endossam a culpa para uma caixa de Pandora que sirva de pretexto para se isentarem de culpas que são apenas suas. Não digam a Pandora, para ela não ficar refém de um mar com sabor a perene injustiça. Os fazedores da semântica deviam voltar atrás e banir a caixa de Pandora das metáforas admitidas a concurso (a menos que Pandora se tenha servido de uma caixa para semear o caos entre os circunstantes). Até porque ninguém sabe o que está dentro da caixa antes que ela seja aberta sem o consentimento de Pandora.

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